Um blogue de quem gosta de ler, para quem gosta de ler.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Resenha nº 29 - Trapo, de Cristovão Tezza

Este Trapo é o quinto romance escrito por Cristovão Tezza e o primeiro que lhe rendeu aplausos incondicionais da crítica nacional. O autor vem construindo uma sólida carreira literária e hoje é considerado um autor digno de figurar na galeria dos escritores mais importantes deste país. Merecidamente, aliás. É o terceiro livro dele que leio, o segundo que resenho aqui neste blog. O primeiro foi O Fotógrafo; já havia lido, há um tempo, O Filho Eterno com que Tezza ganhou o prêmio Jabuti.

Trapo é um romance em terceira pessoa. O professor universitário Manuel, numa noite qualquer, recebe a visita de certa Izolda, dona de uma pensão. Ela tem aparência vulgar – a palavra prostituta aparece na cabeça do mestre – e lhe entrega dois pacotes mal-amarrados, contendo os manuscritos de Trapo. Esse estranho apelido nomeia um morador de sua pensão barata, supostamente um poeta, a quem muito se afeiçoara Izolda:

“- Isso é para o senhor!

Dois pacotes amarrados de qualquer jeito aparecem da calçada para os meus pés, como quem se livra de um lixo.

- Para mim?!

Ela passa um lenço perfumadíssimo no rosto suado:

- Ai, como pesam!

- A senhora…

- Senhorita!

- Perdão. Os pacotes… ahn… a senhorita não quer entrar um momentinho…” (página 9)

Foi a perdição do professor. Izolda entra, toma conta da casa, pede um cafezinho; percebendo que o professor só tem café velho, dirige-se à cozinha e faz um café novinho. Critica a bagunça da casa de homem viúvo e desiludido (o professor perdera a esposa cinco anos antes e não se casara novamente), lava-lhe a louça. Posteriormente, despede a empregada que, uma vez por semana, “arruma” a residência de Manuel.

Ao ler o espólio de Trapo, o professor dá com poemas amalucados, cartas tresloucadas a uma tal Rosana, namorada do poeta. Mesmo não dando o braço a torcer, Manuel se interessa pelo material e pela vida do protegido de Izolda. O que  teria levado ao suicídio um jovem de 21 anos? Então, o mestre começa a investigar a vida de Trapo: tentar contactar pessoas do círculo de amizade do morto, vai ao bar que frequentava, ouve conversas sobre ele.

As relações do escritor morto e sua família não eram boas, como fica claro na página 44:

“- Trapo só falava mal. “Meu irmão é um babaca, só pensa em se encher de dinheiro. Meu pai é um sem-vergonha.” – Escândalo de Izolda: – Bem assim que ele falava, professor, “sem-vergonha”! “E minha mãe é uma idiota, mas uma idiota que está do lado deles. Que pena que a senhora não é minha mãe.” Nunca me esqueci, professor. Era de cortar o coração. Eu dava conselho: que é isso, Trapo, família é família, não presta falar essas coisas. E ele ouvia?” (página 44)

Manuel prossegue em sua pesquisa, conhece o pai de Trapo, as amigas dele, tenta contato com Rosana, enfim, aumenta seu conhecimento sobre aquela figura estranha. Mas, o mais importante, enquanto Manuel mergulha na vida de Trapo, buscando significar todo aquele acervo literário que lhe fora entregue, o próprio Manuel vai, pouco a pouco, também mudando sua vida. Os dois processos – de um lado, a aquisição de mais dados sobre o investigado, de outro, a modificação de sua vida – são entrelaçados e progressivos.

Vamos a um outro trecho, na página 157, um diálogo entre o professor Manuel e o principal amigo do Trapo, Hélio:

“- Isso é verdade, professor. Um porra-louca. – Tentou consertar a inconveniência: – Quer dizer, um esculhambado na vida… o senhor entende…

- O aspecto pessoal é irrelevante neste caso. É obrigação do crítico analisar estritamente a obra, não a biografia – acrescentei, didático, disposto a manter o comando da conversa e reduzi-lo ao silêncio. Prossegui: – Quando o Trapo projetou seus modos de assassinar a poesia…

- Ah, ele me falou disso! num fogo que nós tomamos na…

- Pois é – cortei. – Parece-me que nestes “assassinatos” ele estava respondendo mais a um sentimento de frustação do que de poesia propriamente dita.

Hélio devolveu-me a farpa, numa ironia cautelosa:

- É… se bem que a gente não deve levar muito em conta essa opinião pessoal, não é, professor? Como o senhor mesmo disse…

Engoli em seco, vermelho.

- Exatamente.”

O livro é excelente.  São 254 páginas de um texto que pega a gente pela gola, volta nossa cabeça para ele e não nos larga – até o finale. Se, ao ler minha resenha de O Fotógrafo, você gostou, não perca igualmente este Trapo. Vale a pena.

Cristovão Tezza. Trapo.Editora Record, Rio de Janeiro, RJ: 2007, 254 páginas.

sábado, 18 de maio de 2013

Resenha nº 28 - Batman: O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

Há muito tempo as Graphic Novels atingiram o status de Arte. Elas são histórias em quadrinhos, caracterizadas por um tratamento gráfico sofisticado e criativo, com roteiros bem elaborados.

Descobri, quase por acaso, numa agência de revistas, a edição de luxo de Batman – O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?, da Panini Books. A história é de ninguém menos que Neil Gaiman, o fantástico autor de Sandman; os desenhos são de Andy Kubert, a superestrela dos quadrinhos dos superpersonagens.

De todos os super-heróis da minha adolescência somente o Batman ficou. Personagem atormentado, muitas vezes passando dos próprios limites impostos pela ética, no sentido exato da expressão ele não é um super-herói. Estes têm, via de regra, superpoderes, são sobre-humanos. O Batman, não. Ele tem força física, construída por ginásticas constantes; apoia-se em uma parafernália técnica desenhada especialmente para ele.

Como pode, entretanto, alguém gostar de um herói assim, atomentado, que não consegue se livrar da síndrome da perda dos pais, que se põe ao lado da Justiça na sombria e gótica cidade de Gotham City, mas que, muitas outras vezes, tende a fazer justiça pelas próprias mãos? Na verdade, o Encapuzado representa a nossa parte mais escura, aquele que todos nós gostaríamos não existisse. Em episódios sem conta, Batman esmurra criminosos, nos dando a impressão de só a custo se conter nos limites da lei.

Sua figura é imponente e amedrontadora; silencioso e imprevisível em sua indumentária de morcego, nosso personagem vive na noite, galgando edifícios ou “voando” pelos telhados da cidade. Tem gosto de brincar com a presa; atua poderosamente nos arquétipos localizados em algum desvão escuro das mentes para despertar o medo, desestabilizar o criminoso e então, atacar. Na realidade, Batman é um psicopata que descobriu como lidar com sua doença mental, mantendo-a sob as fronteiras do socialmente aceitável. Gothan City é obrigada a conviver com essa dualidade, pois, apesar de condenar o Cavaleiro das Trevas, depende muito dele na sua luta contra o crime. E a sociedade de Gothan é igualmente uma sociedade doente.

O enredo de Batman – O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas? é empolgante e, ao mesmo tempo, o atestado de humanidade do nosso herói: super-heróis não morrem. A história começa com a morte de Batman; sua figura encapuzada, dentro de um caixão, no escuro Beco do Crime, local onde o Homem-Morcego teve sua gênese, em Gothan City. Seus principais inimigos ou adversários comparecem fielmente ao velório: lá estão o Charada, a Hera Venenosa, o Coringa, o Pinguim, o Duas Caras, a Mulher-gato… A recepção dos personagens é feita por Alfred, o fiel mordomo.

Não há a “encomenda da alma” do Batman, isto é, não há aquele ritual de todo velório, em que se pede a Deus (com qualquer concepção que se tenha Dele) pela alma do morto, recomendando-a à misericórdia divina. A alma do Batman, caso ele realmente a tenha, está no inferno.

Cada um dos oponentes fornece sua versão para a morte do herói, atribuindo a si mesmo a consecução de tal ato. É um festival de egolatria e de invencionices. Batman, Charada, Hera Venenosa, Mulher-gato, Pinguim, Duas Caras, Coringa – todos têm o ego inflado, revoltados contra uma sociedade que os criou e os mantém e da qual todos se julgam vítimas. Desta forma, esses verdadeiros espectros jusfiticam sua revolta constante.

No final da história, ficamos com uma desagradável percepção de que, se todos mentem, não há como saber a verdade: quem matou o Batman, e de que ele teria morrido. E – coisa curiosa – todos os adversários demonstram algum tipo de afeição ao Cavaleiro das Trevas. Afinal, grande parte dos que eles são devem ao herói; morto o que os sustenta, só lhes resta lamentar profundamente, nunca mais serão os mesmos.

A voz narradora da história é a do Batman, numa espécie de manifestação extracorpórea, muito embora ele diga, em certa altura, no diálogo com a aparição identificada como sua mãe:

“Eu… na verdade não acredito em vida após a morte, sabia? Não acredito que haja um lugar para onde você finalmente parta se foi alguém bom. Tentei acreditar, mas não consigo. O que temos sou só EU, sozinho na minha mente. Certo, mamãe? Ou seja, você não está realmente aqui.”

Ao que ela lhe responde, tomando as mãos dele entre as suas:

“Estou aqui, Bruce. Sempre estou.”       (página 62)

Numa leitura atenta, num quadrinho antes, Batman se refere ao seu estado como uma “experiência de quase morte”. Gancho para, numa outra história, em sequência, reviver o Cavaleiro?

O arquétipo da MÃE como redentora dos pecadores (e Batman é um pecador, ou, pelo menos, sua autoassumida culpa nos faz pensar assim) é nitidamente cristão. A mãe de Jesus, Nossa Senhora, é uma espécie de modelo de pureza feminina e por sua alta condição espiritual e posição privilegiada nas relações com a divindade, constitui-se numa interventora.

Recomendo entusiasticamente a leitura desta Graphic Novel. Há outras histórias a comporem o volume encadernado, mas a cereja do bolo é realmente este O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

Neil Gaiman e Andy Kubert. Batman – O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?. Editora Panini Books. São Paulo, SP, 2013

terça-feira, 23 de abril de 2013

Resenha nº 27 - Operação Cavalo de Troia–Vol. 1: Jerusalém, de J. J. Benítez

São seiscentas e dezenove páginas de eletrizante narrativa. J. J. Benítez, nascido em Pamplona, norte da Espanha, é famoso pelas suas obras vinculadas ao que se convencionou chamar de Realismo Fantástico. Por este rótulo entende-se a tendência literária que mistura coisas fantásticas ao mundo do real.

É difícil fazer a resenha desse livro; afinal, são dezenas de notas de pé de página, uma enorme massa de informação, muitas fontes de pesquisa listadas.

Um major aposentado da Força Aérea Americana participa de um projeto secreto da Nasa. Entra em contato com o autor e, após algumas provas de que poderá confiar no escritor, lhe entrega suas anotações, O Diário do Major. Ele – codinome Jasão – e seu companheiro – Eliseu – participam de uma viagem pelo tempo, por meio de uma máquina conhecida como berço. Retrocedem ao tempo de Jesus Cristo, mais precisamente ao tempo em que acontece a ressurreição de Lázaro.

Jasão é testemunha ocular de uma parte importante da vida do Cristo, abrangendo os episódios dos Vendilhões do Templo, da Oração no Monte das Oliveiras, da traição de Judas Iscariotes e, finalmente, do processo de condenação de Jesus e seu martírio na cruz.

Impressiona-nos a quantidade de detalhes históricos, geográficos, sociais de uma época quase perdida no tempo. Há também muitos detalhes técnicos sobre os aparelhos levados pelo astronauta do tempo. Por exemplo, uma revolucionária câmara fotográfica escondida no seu cajado. O Jesus que resulta desta história é extremamente coerente e humano.

Não é um livro para ser lido por quem tenha dificuldade com versões alternativas sobre Cristo, verdades não bíblicas. Portanto, se você é o tipo que vê a Bíblia como um texto divino, irretocável por conter a Verdade, sagrado por ter sido escrito sob inspiração divina, fique sabendo haver discordâncias entre o testemunho de Jasão e as versões dos evangelistas.

Uma possbilidade é ler o livro como ficção. Mas, a toda hora nos pica a pulga atrás da orelha, pois são muitos e precisos os detalhes exibidos por Benítez. Uma narrativa caudalosa e candente, mostrando Jesus como um homem bondoso e enérgico, com perfeito controle de sua vida e conhecimento integral de sua missão na Terra.

A sua submissão ao julgamento conduzido por Pôncio Pilatos revela a disciplina de alguém que sabia de antemão que os fatos teriam de se dar daquele exato modo. Sabedor de cada item de sua dura missão, Ele simplesmente a cumpriu até o fim.

Cavalo de Troia – Jerusalém faz parte de um projeto de leitura: ler todas as nove obras da série até o fim de 2013. Há muito tempo venho desejando executá-lo; entretanto, um projeto assim, de longo fôlego, precisa ser bem planejado. São todos livros grossos e como quero tirar de cada volume o máximo possível de informações, tanto do texto principal como das muitas notas de pé de página, a leitura se torna mais lenta. E, é claro, também mais reflexiva, pois a cada evento bíblico abordado, impossível não compará-los aos cânones dos quatro evangelhos.

Além disso, a leitura da série de Benítez terá de concorrer com a de outras obras. A primeira etapa foi altamente compensadora. Benítez escreve muito bem e recomendo a obra, apesar de ser polêmica ou, quem sabe, por isso mesmo.

J.J. Benítez.Operação Cavalo de Troia.Editora Planeta, São Paulo, SP.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Amar, envelhecer e suas reflexões

imageDe um tempo para cá, filmes sobre a temática da velhice e do processo de envelhecer tornaram-se mais comuns de se ver em telas brasileiras. Em sequência, aparecerem Minhas Tardes com Margueritte, E se vivêssemos todos juntos e, recentemente, Amor. Os dois primeiros são bons filmes, conquanto mais leves; já Amor nos impressiona pela objetividade sem concessões do diretor austríaco Michael Haneke.

Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva sãos os atores principais desse drama do envelhecer com dignidade. São um casal já octogenário, com sérios problemas de saúde, tendo que lidar com o pessimismo de cada dia, de quem a cada dia se reconhece mais limitado e mais perto da morte, a única situação definitiva diante dos olhos. E diante do corpo, pois ele também dialoga com a morte.

Uma amiga, em uma conversa informal ao redor de uma mesa de cerveja e pizza, me disse ter ido ver o filme e me dizia ter gostado dele. Mas, ao mesmo tempo, me indagava:

- Por que a gente faz um programa desse, no dia em que fui assistir o filme havia lá fora um sol bonito, o dia estava agradável, por que entrei no cinema pra assistir um filme cujo drama me incomodou, me deixou reflexiva?

- Simplesmente, respondi eu, por ser um tema universal, por estarmos numa fase da vida mais reflexivos, mais maduros e dispostos a fazer escolhas que nem sempre nos serão confortáveis, mas necessárias, absolutamente necessárias. Nem só de sóis e belos dias vivem nossas reflexões, escolhas e senso estético.

Amor é um ótimo filme. Emmanuelle Riva, então, está soberba no papel principal. Há vária cenas em câmara fechada, para aproveitar toda a expressão facial e olhares que ela consegue expressar.

Entretanto, não é um filme bonito, na acepção da palavra. É muito cru, funciona como um jab, um soco no fígado, mostrando toda a realidade cruel do envelhecer. Isso é mais acentuado quando, em ritmo de memória, algumas cenas de tempos mais amenos são interpostas, como a visão da personagem de Emmanuelle mais jovem, tocando piano.

A filha do casal ( interpretada por Isabelle Rupert) não mora com eles , tem sua própria vida e seus próprios fantasmas, mas os visita de vez em quando. Farrapos da história do casal central são lembrados por ela, quando, por exemplo, ela diz ao pai que sua lembrança pode lhe ser constrangendora,  mais quando ela era jovem, os ruídos dos pais fazendo amor lhe davam segurança da existência do mesmo amor e, por conseguinte, segurança para si própria.

A plateia, de uma forma geral, sai ao fim da sessão sem muitos comentários sobre o visto em cena. Seus semblantes estão carregados pela reflexão sobre a vida, sobre as dores do amor, sobre o envelhecer. Reflexões que devem mesmo mexer com nossas olhares e avaliações, muito além da catarse originada pela tragédia.

É um filme para se ter em DVD ou Blu-Ray.

Resenha nº 26 - O Animal Agonizante, de Philip Roth

Tomei contato com a história do personagem David Kepesh por meio do filme de Isabel Coixet, Fatal (em inglês, Elegy). Fiquei com uma boa impressão do filme, embora tenha lido algumas coisas que o depreciavam. Resguardei-me, entretanto; não queria “embarcar” em opiniões diversas, sem ter formado a minha. Aguardei a compra e leitura do livro O Animal Agonizante, de Philip Roth, que deu origem ao filme. Gostei do livro, mantive minha boa impressão do filme. A crítica, mesmo a mais especializada e competente, é sempre uma opinião com a qual podemos ou não concordar. E tenho muito cuidado ao comparar literatura a cinema. Bons livros nem sempre dão bons filmes, ou vice-versa. As linguagens, sendo muito diferentes, têm de ser adaptadas.

Assim, as longas digressões de David Kepesh sobre o sexo não caberiam em um filme. Não por serem sobre sexo, mas por serem digressões longas. No livro, funcionam muito bem, ainda mais temperadas com a ironia philipiana. Podemos recortar da obra literária dois temas, que correm pela história, entrelaçados: a sexualidade como realização plena do homem e a inexorável caminhada para a velhice (leia-se morte). As pulsões freudianas de Eros (criação) e Tanatos (destruição).

O protagonista David Kepesh é um professor universitário, já sessentão e meio aposentado; apresenta um programa cultural na televisão e leciona um curso de literatura por ano. Anteriormente criado por Roth, surgiu em O Seio, 1973, de uma maneira um tanto kafkiana, pois, apareceu como um professor jovem de literatura, transformado num imenso seio feminino; reapareceu quatro anos depois, em O professor de desejo, dentro de um contexto realístico, mais característico de Philip.

O curso dado pelo protagonista sempre termina com uma festa em seu apartamento, invariavelmente com uma aluna bonita em sua cama:

“Eu a conheci há oito anos. Era minha aluna. Não sou mais professor em horário integral, não sou mais professor de literatura no sentido estrito – há anos que só dou o mesmo curso para uma turma grande de alunos do último período, sobre crítica, chamado Crítica Prática. Muitos dos alunos são do sexo feminino. Por dois motivos: porque é um tema com uma combinação atraente de glamour intelectual e glamour jornalístico, e porque elas me conhecem de me ouvirem fazendo resenhas de livros na rádio educativa, ou então de me verem no canal 13 falando sobre cultura. Nos últimos quinze anos, minha atuação como crítico de cultura televisivo fez com que eu me tornasse uma figura razoavelmente conhecida na cidade, e é isso que atrai garotas para o meu curso.” (página 9)

Para ele, elas são mais um objeto de contemplação estética a ser desfrutado, assim como as sonatas de Beethoven. Entretanto, conhece a linda aluna cubana Consuela Castillo e é inexoravelmente arrastado para um tipo de relacionamento que ele julgava eliminado de sua vida.

A cubana Castillo lhe parece irresistível:

“Já se vão oito anos – eu já estava com sessenta  e dois anos, e a garota, que se chama Consuela Castillo, tinha vinte e quatro. Ela não é como as outras da turma. Não é uma pós-adolescente, não é uma dessas garotas desmazeladas, tronchas, que dizem “tipo assim” cada vez que abrem a boca. Ela fala bem, é equilibrada, tem uma postura perfeita – parece saber alguma coisa a respeito da vida adulta, além de saber se sentar, ficar em pé e andar. Assim que você entra na sala, percebe que essa garota sabe mais, ou então quer saber mais. A maneira como ela se veste. Não é exatamente o que se chama de chique, ela com certeza não se veste de modo exagerado, mas, para começar, nunca usa jeans, nem passado nem amassado […] O cabelo é negro, bem negro, lustroso, um pouco grosso. E ela é grande. Um mulherão grande. A blusa de seda está desabotoada até o terceiro botão, de modo que dá para ver que ela tem seios poderosos, lindos, imediatamente você afunda neles.” (páginas 10/11)

Pouco a pouco, como se disse, o relacionamento com Consuela torna-se algo muito profundo, trazendo, inevitavelmente, uma crise para o velho professor.

Roth tem um estilo objetivo, sem rodeios ou floreios e são muito questionadores os trechos nos quais sua criatura, David Kepesh, filosofa sobre a vida, com sua experiência de crítico literário:

“O mais belo dos contos de fada da infância é que tudo acontece na ordem certa. Nossos avós morrem muito antes de nossos pais, e nossos pais morrem muito antes de nós. Os que têm sorte acabam tendo mesmo essa experiência, as pessoas vão envelhecendo e morrendo na ordem certa, de modo que, no enterro, você aplaca sua dor pensando que aquela pessoa teve uma longa vida. Nem por isso a morte se torna uma coisa menos monstruosa, mas é esse o truque que utlizamos para manter intacta a ilusão metronômica, e para afastar de nós a tortura do tempo: “Fulano teve uma vida longa”. (página 122)

No filme, a diretora espanhola Isabel Coixet centra suas lentes no segundo tema, o da caminhada inexorável para a velhice. Talvez essa escolha tenha sido feita por uma questão de repúdio feminino na abordagem de cenas meramente sexuais, pura suposição minha. O filme se realiza menos agônico, mas ainda assim, tristíssimo. Toca-nos a história contada por Ben Kingsley, no papel de David Kepesh e Penelope Cruz, no de Consuela Castillo.

O Animal Agonizante é um texto que revela a mão segura de um grande escritor. Novela em monólogo quase o tempo todo, em mãos menos talentosas poderia resultar em algo chato, monótono. Muito recomendo a leitura dessa obra.

Philip Roth. O Animal Agonizante. Companhia Das Letras. São Paulo, SP: 2201, 5ª reimpressão, tradução de Paulo Henriques Britto. 127 páginas.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Resenha nº 25 - Divã, de Martha Medeiros

Martha Medeiros nos dá esse ótimo Divã, que, aliás, tornou-se filme e peça teatral de grande sucesso. A personagem principal, Mercedes, é protagonizada por Lilia Cabral, em ambos os cenários – teatral e cinematográfico. Um texto leve, “escrito ao sabor da pena”. É claro, essa ideia de um texto leve pressupõe, na verdade, muito trabalho. Já se disse que é uma tarefa estafante conseguir-se este efeito de simplicidade.

Mercedes é uma professora; dar aulas particulares lhe rende bem mais do que o exercício pleno de sua profissão. Nas horas vagas, gosta de pintar. Aos quarenta anos, resolve fazer análise e é exatamente sua exposição à análise de Lopes o que lemos.

Mercedes é uma mulher entre irônica e brincalhona.:

“De repente, eu virei a única mulher da família, com oito anos. Meu mundo passou a ser totalmente masculino, éramos eu, meu pai e meus dois irmãos, e mais tarde namorados, marido e três filhos homens. Eu praticamente não tive referências femininas, eu sempre fui minha própria referência. E, como já lhe disse, sou mezzo mulherzinha, mezzo cabra da peste, o que nunca me fez sentir entre iguais no salão de beleza.” (página 22)

Mercedes leva a vida de maneira divertida, mesmo quando a situação não é nem um pouco divertida:

“Lembro de ter sentido um misto de prazer e insegurança quando cruzei as portas da maturidade. Até hoje, quando meus filhos perguntam alguma coisa pra mim, vejo nas suas expressões que minha resposta será levada demasiadamente a sério, passará a ser adotada como verdade indiscutível, e isso me apavora, me faz sentir meio charlatona, minhas certezas não são assim tão sólidas.” (página 23)

É esse despojamento das declarações da protagonista que torna o texto muito gostoso de ler. Vale a pena transcrever um depoimento de Millôr Fernandes, até por ser de Millôr:

“Brincando, brincando, o que Martha mais faz é poesia de amor. Tem mais ainda – é absolutamente compreensível, sobretudo pra quem compreende.”

A personagem principal é um pouco daquilo que cada mulher traz dentro de si. Preparadas para viver o papel de mãe, esposa, companheira, moça de boa família, católica (praticante ou só de fachada), não viveu o incerto, a insegurança. Na verdade, ela se identifica não apenas com as mulheres, embora seu discurso seja de muita sensibilidade feminina; ela é cada um de nós, seres humanos, criados para assumir certezas e seguranças neste mundo tão caótico, nessa era de incertezas tantas.

O livro vale a pena. Algumas boas horas de um texto oscilante entre o irônico e o poético, vai descarnando as situações controladas e propondo não ver a vida como essa coisa pesada, feita só de responsabilidades, de caminhos e andamentos planejados.

Mercedes, no exercício de se encontrar pela análise, descobre-se um tanto distante de si, mas até esta situação ela encara com bom humor:

“Se ser feliz para sempre é aceitar com resignação católica o pão nosso de cada dia e sentir-se imune a todas as tentações, então é deste paraíso que quero fugir. Não estou disposta a inventar dilemas que não existem, mas quero reencontrar aqueles que existem e que foram abafados por esta minha vida correta.”

Martha Medeiros. Divã. Editora Objetiva, São Paulo, SP.2002. 154 páginas.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Resenha nº 24 - O Arroz de Palma, de Francisco Azevedo

Título: O Arroz de Palma

Autor: Francisco Azevedo

Editora: Record

Gênero: Romance

País de Origem: Brasil

A leitura do livro O Arroz de Palma é extremamente prazerosa. O texto é fluente, leve e poético. Aos 88 anos, o protagonista Antonio está preparando o almoço a ser servido à família.  E, enquanto ele o faz, vai relembrando as histórias que lhe contara a Tia Palma, irmã de seu pai. Tudo começara exatamente em 1908, no casamento de seus pais, em Viana do Castelo, Portugal. Sob uma chuva de arroz abundante, uniram-se José Custódio e Maria Romana. A tia Palma teve a brilhante ideia de recolher todo o arroz, grão por grão, e dá-lo de presente aos dois. Maria Romana sensibilizou-se com o gesto, mas não José Custódio; aliás, o relacionamento entre a tia Palma e ele nunca houvera sido bom. O ato originou, então, a primeira briga do casal recém-formado: Maria defendia tia Palma, José irritava-se contra o estranho presente, arroz sujo, colhido do chão.

Esse cereal, entretanto, vai permear a história toda, tornando-se algo mítico, passando de geração em geração, com uma característica: não estraga, não caruncha. E como que vai cimentando as relações entre casais, símbolo da agregação pelo amor. Tia palma escrevera no cartão, quando entregara seu presente:

“Este arroz – plantado na terra, caído do céu como o maná do deserto e colhido da pedra – é símbolo de fertilidade e eterno amor. Esta é a minha bênção.”

O diálogo que se segue é hilariante, bem característico da relação entre José, sua Tia, e sua esposa.

“Os dois se arrumam como podem. Papai vai abrir a porta.

- Palma?!

Tia Palma entra com o pesado saco de estopa. Pousa-o alividada, sobre a mesa.

- Mas o que é isto?!

Tia Palma não lhe dá resposta, vai direto até mamãe.

As duas se abraçam e se beijam com afeto.

- Maria Romana, estavas lindíssima! Ajudou-me a suportar a falação agoureira daquele corvo de batina!

Papai se irrita com o comentário irreverente.

- Dom Plácido é nosso tio, merece mais respeito!

- Na tristeza e na doença, na pobreza e na velhice, até que a morte os separe! Santo Deus, isto não é uma bênção, é uma praga!” (Página 19)

Tia Palma é uma personagem fascinante:

“Tia Palma era o meu teatro – que repertório, que desempenho! Mas o espetáculo era interrompido no melhor de cada história. Eu cruzava os braços, emburrava. Era hora de ir para cama. Justo agora!

- Antonio, não faz gênio! Olha que amanhã não te conto histórias! Vamos dormir, já é tarde. Eu te dou colo, anda, vem.” (páginas 16/17)

E mais abaixo:

“O colo de Tia palma era uma espécie de útero sem capota, que me levava assim, conversível, por um mundo fantástico, mundo que me fascinava ainda mais porque eu conhecia os protagonistas. Morava com eles.”

Parece que o arroz de Palma funciona. Depois de um tempo sem gerar filhos, a família começa a crescer.

“O arroz de Tia Palma fez efeito, Depois daquela bendita canja papai não parou mais de fazer filhos. Primeiro fui eu, Antonio. E, logo depois, a Leonor. Eram dias e noites literalmente em branco – quilômetros de fraldas tremulando nos varais. Pareciam bandeiras pedindo paz. Mas papai e mamãe não se davam trégua e, assim, chegaram o Nicolau e o Joaquim. Choros diversificados, de fome, de sede, de cólicas ou de pura manha – estes já facilmente reconhecidos e ignorados.”

As metáforas e comparações, relacionando a família à arte culinária se fazem presentes, desde o começo da narrativa, como por exemplo, nas páginas 11/12:

“Preciso me concentrar. É essencial. Por quê? Ora, que pergunta! Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema – principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida – azeitona verde no palito – sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida.”

As mudanças sociais, econômicas e tecnológicas formam o pano de fundo dessa narrativa. No início, os personagens se utilizam de cavalos e de carroças como meio de transporte; mais além, já aparecem os automóveis. O Brasil vai deixando de ser um país eminentemente rural e entra na era tecnológica. O apelo da vida nas grandes cidades começa a tirar, cada vez mais, o homem do campo: José Custódio e Maria Romana veem seus filhos irem para a cidade grande, fazendo suas escolhas, mudando a tradição e os rituais.

Pode-se dizer, bem apropriadamente, que esse é um livro gostoso de se ler. A família do protagonista Antonio, cozinheiro de mão cheia, é como a família de todo mundo. Tem seus problemas, suas desavenças, suas diferenças, mas, ao final, tudo se ajeita e aprendemos a amar-nos apesar de todas as características disjuntivas apontadas acima.

Excelente para se ler uma, duas, três, muitas vezes; deixar fluir a leitura e fruir a lírica do autor.