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quinta-feira, 21 de março de 2013

Divã

Martha Medeiros nos dá esse ótimo Divã, que, aliás, tornou-se filme e peça teatral de grande sucesso. A personagem principal, Mercedes, é protagonizada por Lilia Cabral, em ambos os cenários – teatral e cinematográfico. Um texto leve, “escrito ao sabor da pena”. É claro, essa ideia de um texto leve pressupõe, na verdade, muito trabalho. Já se disse que é uma tarefa estafante conseguir-se este efeito de simplicidade.

Mercedes é uma professora; dar aulas particulares lhe rende bem mais do que o exercício pleno de sua profissão. Nas horas vagas, gosta de pintar. Aos quarenta anos, resolve fazer análise e é exatamente sua exposição à análise de Lopes o que lemos.

Mercedes é uma mulher entre irônica e brincalhona.:

“De repente, eu virei a única mulher da família, com oito anos. Meu mundo passou a ser totalmente masculino, éramos eu, meu pai e meus dois irmãos, e mais tarde namorados, marido e três filhos homens. Eu praticamente não tive referências femininas, eu sempre fui minha própria referência. E, como já lhe disse, sou mezzo mulherzinha, mezzo cabra da peste, o que nunca me fez sentir entre iguais no salão de beleza.” (página 22)

Mercedes leva a vida de maneira divertida, mesmo quando a situação não é nem um pouco divertida:

“Lembro de ter sentido um misto de prazer e insegurança quando cruzei as portas da maturidade. Até hoje, quando meus filhos perguntam alguma coisa pra mim, vejo nas suas expressões que minha resposta será levada demasiadamente a sério, passará a ser adotada como verdade indiscutível, e isso me apavora, me faz sentir meio charlatona, minhas certezas não são assim tão sólidas.” (página 23)

É esse despojamento das declarações da protagonista que torna o texto muito gostoso de ler. Vale a pena transcrever um depoimento de Millôr Fernandes, até por ser de Millôr:

“Brincando, brincando, o que Martha mais faz é poesia de amor. Tem mais ainda – é absolutamente compreensível, sobretudo pra quem compreende.”

A personagem principal é um pouco daquilo que cada mulher traz dentro de si. Preparadas para viver o papel de mãe, esposa, companheira, moça de boa família, católica (praticante ou só de fachada), não viveu o incerto, a insegurança. Na verdade, ela se identifica não apenas com as mulheres, embora seu discurso seja de muita sensibilidade feminina; ela é cada um de nós, seres humanos, criados para assumir certezas e seguranças neste mundo tão caótico, nessa era de incertezas tantas.

O livro vale a pena. Algumas boas horas de um texto oscilante entre o irônico e o poético, vai descarnando as situações controladas e propondo não ver a vida como essa coisa pesada, feita só de responsabilidades, de caminhos e andamentos planejados.

Mercedes, no exercício de se encontrar pela análise, descobre-se um tanto distante de si, mas até esta situação ela encara com bom humor:

“Se ser feliz para sempre é aceitar com resignação católica o pão nosso de cada dia e sentir-se imune a todas as tentações, então é deste paraíso que quero fugir. Não estou disposta a inventar dilemas que não existem, mas quero reencontrar aqueles que existem e que foram abafados por esta minha vida correta.”

Martha Medeiros. Divã. Editora Objetiva, São Paulo, SP.2002. 154 páginas.

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