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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Resenha: A Personagem, de Beth Brait

Resultado de imagem para livro a personagem beth braitTítulo: A Personagem
Autora: Beth Brait
Editora: Contexto
Edição: 9ª
Copyright: 2017
ISBN: 978-85-520-000-6
Gênero literário: Ensaios
Bibliografia: Bakhtin – Dialogismo e Polifonia, 1997; Bakhtin e O Círculo; Literatura e Outras Linguagens; Bakhtin – conceitos-chave, 2005; Bakhtin – Outros Conceitos-chave; Ironia em Perspectiva Polifônica; Bakhtin – Dialogismo e Construção de Sentido; Língua e Linguagem; Texto ou Discurso? (em parceria com Maria Cecília Souza-e-Silva; Dialogismo – Teoria e(m) Prática.

“Beth Brait é crítica, ensaísta, professora-associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e da Universidade de São Paulo. Fez doutorado e livre-docência em Linguística na USP. É pesquisadora nível 1 do CNPq, assessora da Capes, CNPq, Fapesp e foi membro do Comitê Assessor da Área de Letras e Linguística do CNPq. É coautora, autora e organizadora de várias obras, dentre elas Língua e literatura, Bakhtin: conceitos-chave; Bakhtin: outros conceitos-chave; Bakhtin e o Círculo; Bakhtin: dialogismo e polifonia; Literatura e outras linguagens, Comunicação e análise do discurso, Dicionário de Comunicação e A Personagem todas publicadas pela Editora Contexto.” (orelha do livro A Personagem)
Este volume A Personagem é interessantíssimo estudo sobre nossos queridos seres de papel. Escrito com a clara intenção de não ser hermético, ele pode estar tanto na mão de quem gosta de escrever quanto na de quem gosta de ler, sendo este um leitor mais sofisticado.
Sem deixar de lado o background teórico necessário – Beth Brait é especialista em Bakhtin, entre nós –, a autora assume explicitamente os riscos de produzir texto acadêmico para o público leigo. Riscos bastante sérios, quais sejam: imprecisão de uma linguagem destituída de termos técnicos mais precisos, abordagem expressa em termos menos “duros” e simplificação conceitual, para se fazer entendido por um público não acostumado a este tipo de saber.
A Personagem já havia saído pela Editora Ática, em formato pequeno, sob a coleção Fundamentos. Esta edição que tenho (aliás, tenho as duas), foi ampliada, completada e mantém a mesma importância pedagógica. Bakhtin não é um teórico fácil, como aliás, não é fácil falar-se de Teoria da Literatura para um público não acadêmico. Enfim, é sempre a dificuldade que enfrenta qualquer obra de divulgação científica, filosófica, intelectual.
Um pequeno capítulo, “As personagens” serve como introdução à obra; em “O faz de conta das personagens”, Beth apresenta algumas características destes seres; procura situá-los entre outras representações humanas; em “A personagem e a tradição crítica” Beth traça um histórico de Aristóteles aos modernos teóricos sobre as personagens de ficção. “A construção da personagem” busca esmiuçar a gênese destes seres: construção, tipos diferentes, como podem atuar sobre a história que ajudam a contar e de que fazem parte intrínseca.
Um longo e delicioso capítulo, “De onde vêm esses seres?” tem a pergunta-título respondida por nada menos que 26 escritores que atenderam simpaticamente ao convite de falarem de como criam suas personagens. Desfilam: Antônio Torres, Autran Dourado, Beatriz Bracher, Cristovão Tezza, Doc Comparato, Domingos Pellegrini, Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio, José J. Veiga, Julían Fucks, Luiz Ruffato, Lya Luft, Marcelo Maluf, Marcos Rey, Maria Valéria Rezende, Marilene Felinto, Milton Hatoum, Moacyr J. Scliar, Oswaldo de Camargo, Paloma Vidal, Patrícia Melo, Rafael Gallo, Renato Pompeu, Rogério Pereira e Silvana Tavano.
Cada um deles vai falar sobre seu processo de criação dos seres que povoam suas mentes e suas narrativas; o que se pode depreender do que dizem, entretanto, é que em todos os depoimentos há forte carga subjetiva. Cada escritor tem o seu jeito, ou melhor, a sua concepção sobre o assunto, como não poderia deixar de ser.
Enquanto para uns, é necessária uma pormenorização rigorosa, em que suas criaturas vão sendo lapidadas, compostas como em camadas, para outros elas vêm com facilidade, chegam sem aviso prévio; surgem pela necessidade da própria narrativa mesmo. De modo geral, permanece o mistério, sem que os próprios criadores consigam uma explicação objetiva: de onde vêm esses seres?
Tenho minhas preferências, evidentemente:
“O personagem não existe anteriormente a si mesmo, ele só existe depois de criado, vale dizer – de narrado em palavras. O personagem nasce com a escrita, vive depois de escrito. Quando o autor consegue precisar e estabelecer a sua imagem em palavras e apresentá-la objetivamente (quanto mais preciso, mais verdadeiro); quando, se me permitem a comparação, o que se quer significar se transforma em significante através da ação ( o Verbo se fez carne e a carne em ação – verbo – se faz persona, a tal ponto que criador e leitor a tem por gente); só então se pode dizer que há um personagem.” (Autran Dourado, página 97)
Ou:
“Personagens literárias, feitas de palavras emendadas, são seres naturalmente incompletos: ou são bem visíveis, descritos no capricho, do chapéu ao sapato, passando pela voz, e faltam-lhe as almas; ou são pura alma, ideias, sentimentos, mas sem ocupar imagem no espaço – nada concreto se descreve deles. Quase sempre estão no meio, um pouco alma, um pouco físico. Em qualquer caso, o leitor irá completar as lacunas, pondo-lhes gordura ou magreza, imaginando a testa larga, o tom ríspido, a graça ou a desgraça do gesto, que vamos tomando emprestado de quem realmente conhecemos, até sentir alguém novo criado pelo autor.” (Cristovão Tezza, página 104)
Ainda:
“Acredito no que se chama “inconsciente coletivo”, e dele vem boa parte da matéria de minhas personagens. Muito delas me foi dado por vivência pessoal: coisas que vi, ouvi, li, sonhei, percebi de passagem na rua, no supermercado. Coisas que imaginei vagamente.
Tudo isso se deposita no fundo de nossa mente como uma espécie de sedimento de fundo de rio. No tempo em que nos dispomos a escrever, na asa do que se chama “inspiração”, e que nunca brota por acaso, do nada, presente do céu, acontece que por alguma razão remexe-se nessa lama, nessa areia de fundo. Emergem, então, inteiras ou fragmentadas, em geral bem fragmentadas, essas lembranças de experiências, minhas ou alheias: nariz de um, orelha de outro, sofrimento de um terceiro, alegria de um quarto. Tudo em caquinhos, pedacinhos. O ficcionista vai então formando um painel de mosaico, com sesse pedacinhos de gente, de humanidade.” (Lya Luft, página 124)
Escrevinho sempre. E, em minhas escrevinhações, também elaboro estes personagens e tenho minha percepção sobre como os crio; é uma mistura do que dizem estes três escritores.
Concordo com Autran Dourado, principalmente com sua ideia de que seres de palavras só existem depois de escritos e são construtos mantidos vivos na interação entre escritor e leitor; de Tezza, aproprio-me da ideia de que a maioria dos personagens são criados no meio, um pouco alma, um pouco físico. Mas, indiscutivelmente, é de Lya Luft que me vem a concepção mais aguda: criamos seres ficcionais do inconsciente coletivo (obrigado, Jung); criamo-los da areia de fundo de rio.
Ademais, que bela imagem esta, criamos nossos personagens com a areia de fundo de rio. Poético, sem deixar de ser verdadeiro. Emulamos Deus, que segundo a narrativa simbólica da Bíblia, nos criou do barro.

Se você é daqueles que desejam muito se apropriarem de ferramentas teóricas para entender melhor a literatura e seus processos criativos, ou se você tem a vontade incontrolável de se tornar um escritor, recomendo o livro. A Personagem é uma deliciosa introdução a este mundo obscuro da criação.
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