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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Resenha: A Camisa do Marido, de Nélida Piñon

Resultado de imagem para livro a camisa do maridoTítulo original: A Camisa do Marido
Autora: Nélida Piñon
Editora: Record
Copyright: 2014
ISBN: 978-85-01-06633-6
Literatura Brasileira
Gênero: Contos
Páginas: 162
Bibliografia da autora: Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, 1961; Madeira feita de cruz, 1963; Fundador, 1969; A Casa da Paixão, 1977; Tebas do meu coração, 1974; A foça do destino, 1977; A república dos sonhos, 1984; A doce canção de Caetana, 1987;  Coração andarilho, 2009; O livro das horas, 2012;  Tempo das frutas, 1966; Sala das armas, 1973; O cortejo do divino e outros contos escolhidos, 2001; O calor das coisas, 1980; O pão de cada dia: fragmentos, 1994; A camisa do marido, 2014; Até amanhã, outra vez, 1999. A roda do vento, 1996; O presumível coração das América, 2002; Aprendiz de Homero, 2008; O ritual da arte (inédito).

Nélida Piñon é de ascendência galega, mas nasceu no Rio de Janeiro, em 03/05/1937. A curiosidade é que o nome Nélida é um anagrama do nome do avô, Daniel. Formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e foi editora ou membro de conselho editorial de várias revistas brasileiras e estrangeiras. Estreou na literatura com o romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, publicado em 1961. Nélida é acadêmica correspondente da Academia de Ciências de Lisboa e também participante da Real Academia Galega.
Nélida possui muitos prêmios ao longo de sua carreira literária, que já tem mais de 35 anos. O último prêmio recebido foi o Príncipe das Astúrias das Letras, em 2005, conferido na cidade espanhola de Olviedo. Foi eleita em 27/07/1989 para ocupar vaga na Academia Brasileira de Letras e tomou posse em 03/05/1990. Foi a primeira mulher a se tornar presidente daquela prestigiosa instituição.
Soberbo livro de contos, este A Camisa do Marido, que terminei hoje de ler e já o estou postando aqui no blogue. A temática de Nélida Piñon foi evitada por muitos escritores, considerada de menor importância: as relações familiares. Realmente, com alta probabilidade de produzir lugares-comuns, pelas mãos seguras desta escritora tal tema não tem nada de lugar-comum.
É que, em literatura, não é bem o tema abordado o que realmente importa, mas o tratamento que o autor dá a ele. Na verdade, a quantidade de temas é limitada, embora grande. E Nélida sabe o que faz. Possui uma escrita elegante e objetiva ao mesmo tempo, isto é, não se perde em floreios desnecessários.
Compõem o livro exatamente nove contos: A camisa do marido, O trem, Dulcinéia, A mulher do pai, Para sempre, A sombra de Carlos, Em busca de Eugênia, A quimera da mãe, A desdita da lira. O tom que perpassa a maioria dos contos tem algo de erótico, sem ser vulgar. Outros, são surpreendentes pela ousadia das abordagens.
Adotarei aqui o mesmo critério ao resenhar o livro de contos História da sua vida, de Ted Chiang, já postado aqui neste blogue, ou seja, vou transcrever alguns trechos selecionados de cada conto e acrescentarei alguns comentários. Vamos lá, então.
A Camisa do Marido
“Após a morte do marido, Elisa emudeceu por alguns dias. De luto, o traje negro ficava-lhe bem. Exagerava em seu ascetismo. Parecia sujeita a uma prescrição religiosa. Cancelou qualquer visita, exceto a dos filhos, que vinham no final da tarde e cujo ruído contrastava com a paz imposta à casa. Ela própria providenciara as iguarias que eram do agrado do marido, com a condição de os filhos exortarem o pai durante as refeições. Ao morto deviam a fartura. E, com gesto vago, fazia-lhes ver que a fortuna feita pelos dois ficaria sob sua guarda.” (página 12)
A autora realiza admiravelmente a estratégia de dar voz a vários narradores, e obtemos, assim, análises parciais dos filhos e da viúva sobre as relações que os envolvem. E digo admirável, porque fazer isto no reduzido espaço de um conto não é tarefa para qualquer um. Há que ser um escritor experimentado e de muito talento.
O Trem
“O pai amava os trens. Nascido no sul de Minas, em vilarejo acanhado, vira, desde a infância, o trem cortando a paisagem em direção a São Lourenço, sem se deter na estação local, havia muito abandonada. Após o último vagão serpentear pelos trilhos e desaparecer na curva, atrás da montanha, acenava como se despedisse da sorte que o abandonara aos menos daquele dia. Até a tarde seguinte, quando aguardava esperançoso que a passagem do trem lhe deixasse de novo como lembrança certa imagem fugidia e a fumaça impregnada de carvão.” (página 36)
Este foi um dos contos de que mais gostei. O homem leva a família para dentro do esqueleto de um vagão, já em ruínas e depredado, para fazerem uma viagem imaginária pelo mundo. Nesta viagem, a geografia é subvertida em favor do prazer de imaginar-se viajando e conhecendo o mundo. Reconhecidamente, um excelente conto.
Dulcineia
“O súbito silêncio de Maritornes incomodou o escudeiro, ainda que se ressentisse com a ausência de um interlocutor que acatasse suas respostas. Ansioso, pois, de também dialogar consigo mesmo, acionou a memória, que lhe trouxe a cena de quando ambos entraram na taberna naquela tarde, dom Quixote agindo como se algum castelão o acolhesse, cedendo-lhe o castelo para repousar da caminhada. Uma cortesia habitual entre homens de boa vontade e que lisonjeava o exausto cavalheiro. Estimulado assim pelo espírito onírico que brotava do seu ser, ele acomodou-se à mesa até surpreender-se com a presença de Dulcineia, de Toboso, a servir-lhe o vinho como se fora uma taberneira.” (página 54)
O conto tem um narrador em terceira pessoa, jungido a Sancho Pança, isto é, o narrador nos faz perceber os fatos e interpretá-los sob a ótica do escudeiro; Sancho sabe, portanto, que ali não há castelo algum, não existe qualquer castelão, nem confunde a figura de Maritornes com a de Dulcineia. Somente dom Quixote vê as coisas pela ótica distorcida de sua loucura.
A Mulher do Pai
“Penso que a minha redenção seria matar o pai. Cumprir o ritual parricida que procede das cavernas. Há que suceder ao pai e ocupar seu lugar no leito. A lei é severa, mas também é justa. Pois, se tarda ele em morrer, alguém deve lhe chamar a atenção. Buscar uma justificativa. Com que direito ele vive a plenitude de seu corpo, esbravejando na cama com Ana, enquanto eu vivo de sobras, como um castrado? Foi ele quem me esmagou os testículos para perder o direito à herança.” (página 79)
Este conto é outro de que gostei muito. Drama tipicamente edípico, o desejo do filho de matar o pai para relacionar-se com a madrasta desejada. É uma variante, pois no conflito de Édipo – cumprindo a profecia inexorável – ele mata o próprio pai e termina por casar-se com Jocasta, sua própria mãe.
Para Sempre
“Ao passar dos anos, seguia recordando o homem, que guardava no corpo e na memória. Envelhecia gradualmente, a despeito de ser ainda jovem. Contudo, não conquistara serenidade. O ritual da morte do amante, que se fundira com os funerais do pai, a desorientava. Ao recordá-los, os dois homens se confundiam, as perdas se misturavam.” (página 89)
Aqui, em um caso de traição feminina, a mulher perde o amante, morto durante uma relação sexual com ela e, posteriormente, a morte do pai e tem de conviver com a dupla perda. Aquele amante era marido da tia e o passamento do pai a libera para chorar, intimamente, a perda do amor proibido.
A Sombra de Carlos
“Há muito capitulei. Desarmado, cedo quem sou a quem me reclame. Como parte da maldita caravana de carros e de camelôs, entrincheiro-me na paz fria do banheiro azulejado. Não sofro, contudo, o mesmo desespero que abateu Carlos V, César do mundo e da fé. A ele coube cruzar seus reinos em incessante cavalgada, premido pela suspeita de jamais regressar a casa, onde Isabel o aguardava. Não tinha, como eu, este apartamento, a toca da modéstia. E isso porque, vendo-o no quadro pintado por Tiziano, parecia dono do mundo, a despeito do queixo prognata, marca dos Habsburgo.” (páginas 96/97)
Neste conto, um sobrinho enterra a tia. Mas o problema é que ele sentia forte atração por ela. A narrativa é perpassada por motivos eróticos, carregados de desejo.
Em Busca de Eugênia
“E você, Eugênia, quantos filhos teve? Se me contou, esqueci-me agora. Estranho destino, o nosso. Ao parir, mugimos como vacas, balimos como ovelhas. Tanto estardalhaço para que os filhos nos paguem mais tarde com vistas apressadas. Absortos com o mundo, mal chegam, de olho no relógio, querem logo partir. Como se a sina do homem fosse fugir do estábulo onde afinal foi parido.” (página 113)
Aqui, a narradora é uma mulher viúva e já envelhecida, que clama contra a solidão e o afastamento do filho. Dirige-se a Eugênia, em estilo missivista, comentando sua situação e a relação com o filho que a visita apressadamente. Gostei muito deste conto também.
A Quimera da Mãe
“A mãe, contudo, nunca dera nome ao suposto lugar de sua quimera. Sequer admitira que existisse. Vai ver era sua Shangri-Lá. Vira em algum filme monges do Tibete que asseguravam existir a felicidade humana. Eu não sabia como defender a memória da mãe, para nada se lhe perder. Como lhe fazer a vontade no futuro? Eu a examinava. Era um ávido investigador de gestos, apto a lhe descobrir os segredos. Até surpreender, certa tarde, em um papel de pão, escrito em letra miúda, como que nascida de um desabafo, a palavra Porto.” (página 134)
Um filho faz um esforço enorme para recuperar a trajetória sentimental da mãe, mas tem dificuldades, pois ela lhe declarara, certa vez, “que tinha o coração repartido em muitos pedaços. Embora vivesse no Brasil, aspirava seguir para longe, instalar-se em algum rincão da Europa...”
A Desdita da Lira
“Na velhice, nada espero. Às vezes, encurralado na água-furtada do meu quarto, contíguo à sala onde o escravo dorme, assalta-me a esperança de tomar da pena e declarar que jamais estive na Índia. Ou que, havendo estado ali, pronto a abandonei, movida pela extrema pobreza. Talvez pudesse promover mudanças no meu Os Lusíadas, dando, por exemplo, relevância ao trecho em que menciono o Brasil entregue a Martim Afonso de Souza, que, sob as benesses dos trópicos, em obediência ao rei, dividiu aquele território em capitanias e ali plantou o que fizesse falta ao reino. Tal esperança solapa-me a alma. Mas, como exaltar o Brasil se à época me faltou inspiração? E se jamais pus os pés naquela terra? Destilo raiva por conta dos meus desacertos. Embora fosse aceitável o que disse do Brasil, onde, segundo consta, mal se balbucia a língua lusa, não seria o mesmo como discorrer sobre Portugal.” (página 145)
Claro está, o narrador aqui é o sujeito histórico Luís Vaz de Camões. Ele reflete sobre sua vida, sua obra, sua velhice desamparada (vive numa água-furtada); arrepende-se de umas tantas coisas. Este é outro conto extraordinário.
Concluindo, este A Camisa do Marido é quase a minha primeira incursão na obra desta excelente Nélida Piñon. Já lera alguns textos dela, nem todos de teor literário, já a conhecia por entrevistas, homenagens. Creio que seus livros são pouco divulgados junto ao grande público, justamente por se ter dela uma imagem de escritora difícil, laureada pela Academia Brasileira de Letras.
Realmente, estes contos A Camisa do Marido não são livro para estar nas mãos de jovens iniciantes ao mundo da leitura. Seus temas também não são os da moda; sua escrita apurada, cheia de referências cultas provavelmente incomodará o leitor mediano. Mas Nélida Piñon, sem dúvida, é uma escritora de primeiro time, não bastasse pertencer à Academia.


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