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sábado, 18 de maio de 2013

O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

Há muito tempo as Graphic Novels atingiram o status de Arte. Elas são histórias em quadrinhos, caracterizadas por um tratamento gráfico sofisticado e criativo, com roteiros bem elaborados.

Descobri, quase por acaso, numa agência de revistas, a edição de luxo de Batman – O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?, da Panini Books. A história é de ninguém menos que Neil Gaiman, o fantástico autor de Sandman; os desenhos são de Andy Kubert, a superestrela dos quadrinhos dos superpersonagens.

De todos os super-heróis da minha adolescência somente o Batman ficou. Personagem atormentado, muitas vezes passando dos próprios limites impostos pela ética, no sentido exato da expressão ele não é um super-herói. Estes têm, via de regra, superpoderes, são sobre-humanos. O Batman, não. Ele tem força física, construída por ginásticas constantes; apoia-se em uma parafernália técnica desenhada especialmente para ele.

Como pode, entretanto, alguém gostar de um herói assim, atomentado, que não consegue se livrar da síndrome da perda dos pais, que se põe ao lado da Justiça na sombria e gótica cidade de Gotham City, mas que, muitas outras vezes, tende a fazer justiça pelas próprias mãos? Na verdade, o Encapuzado representa a nossa parte mais escura, aquele que todos nós gostaríamos não existisse. Em episódios sem conta, Batman esmurra criminosos, nos dando a impressão de só a custo se conter nos limites da lei.

Sua figura é imponente e amedrontadora; silencioso e imprevisível em sua indumentária de morcego, nosso personagem vive na noite, galgando edifícios ou “voando” pelos telhados da cidade. Tem gosto de brincar com a presa; atua poderosamente nos arquétipos localizados em algum desvão escuro das mentes para despertar o medo, desestabilizar o criminoso e então, atacar. Na realidade, Batman é um psicopata que descobriu como lidar com sua doença mental, mantendo-a sob as fronteiras do socialmente aceitável. Gothan City é obrigada a conviver com essa dualidade, pois, apesar de condenar o Cavaleiro das Trevas, depende muito dele na sua luta contra o crime. E a sociedade de Gothan é igualmente uma sociedade doente.

O enredo de Batman – O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas? é empolgante e, ao mesmo tempo, o atestado de humanidade do nosso herói: super-heróis não morrem. A história começa com a morte de Batman; sua figura encapuzada, dentro de um caixão, no escuro Beco do Crime, local onde o Homem-Morcego teve sua gênese, em Gothan City. Seus principais inimigos ou adversários comparecem fielmente ao velório: lá estão o Charada, a Hera Venenosa, o Coringa, o Pinguim, o Duas Caras, a Mulher-gato… A recepção dos personagens é feita por Alfred, o fiel mordomo.

Não há a “encomenda da alma” do Batman, isto é, não há aquele ritual de todo velório, em que se pede a Deus (com qualquer concepção que se tenha Dele) pela alma do morto, recomendando-a à misericórdia divina. A alma do Batman, caso ele realmente a tenha, está no inferno.

Cada um dos oponentes fornece sua versão para a morte do herói, atribuindo a si mesmo a consecução de tal ato. É um festival de egolatria e de invencionices. Batman, Charada, Hera Venenosa, Mulher-gato, Pinguim, Duas Caras, Coringa – todos têm o ego inflado, revoltados contra uma sociedade que os criou e os mantém e da qual todos se julgam vítimas. Desta forma, esses verdadeiros espectros jusfiticam sua revolta constante.

No final da história, ficamos com uma desagradável percepção de que, se todos mentem, não há como saber a verdade: quem matou o Batman, e de que ele teria morrido. E – coisa curiosa – todos os adversários demonstram algum tipo de afeição ao Cavaleiro das Trevas. Afinal, grande parte dos que eles são devem ao herói; morto o que os sustenta, só lhes resta lamentar profundamente, nunca mais serão os mesmos.

A voz narradora da história é a do Batman, numa espécie de manifestação extracorpórea, muito embora ele diga, em certa altura, no diálogo com a aparição identificada como sua mãe:

“Eu… na verdade não acredito em vida após a morte, sabia? Não acredito que haja um lugar para onde você finalmente parta se foi alguém bom. Tentei acreditar, mas não consigo. O que temos sou só EU, sozinho na minha mente. Certo, mamãe? Ou seja, você não está realmente aqui.”

Ao que ela lhe responde, tomando as mãos dele entre as suas:

“Estou aqui, Bruce. Sempre estou.”       (página 62)

Numa leitura atenta, num quadrinho antes, Batman se refere ao seu estado como uma “experiência de quase morte”. Gancho para, numa outra história, em sequência, reviver o Cavaleiro?

O arquétipo da MÃE como redentora dos pecadores (e Batman é um pecador, ou, pelo menos, sua autoassumida culpa nos faz pensar assim) é nitidamente cristão. A mãe de Jesus, Nossa Senhora, é uma espécie de modelo de pureza feminina e por sua alta condição espiritual e posição privilegiada nas relações com a divindade, constitui-se numa interventora.

Recomendo entusiasticamente a leitura desta Graphic Novel. Há outras histórias a comporem o volume encadernado, mas a cereja do bolo é realmente este O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?

Neil Gaiman e Andy Kubert. Batman – O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?. Editora Panini Books. São Paulo, SP, 2013

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