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domingo, 19 de novembro de 2017

Resenha: O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati

Resultado de imagem para livro o deserto dos tártarosTítulo original: Il deserto dei Tartari
Título em português: O deserto dos tártaros
Autor: Dino Buzzati
Editora: Editora Nova Fronteira
Tradução: Aurora Fornoni Bernaradini/Homero Freitas de Andrade
Origem: Literatura Italiana
ISBN: 9788520923849
Bibliografia do autor: Bàrnabo delle montagne, 1933; Il segreto del bosco vecchio (O segredo do bosque velho), 1935; Il deserto dei Tartari, 1940; I sette mesaggieri, 1942; La famosa invasione degli orsi in Sicilia, 1945; Il libro delle pipe, 1945; Paura ala Scala, 1949; In quel preciso momento, 1950; Il crollo della Baliverna, 1957; Sessanta racconti, 1958; Le storie dipinte, 1958; Esperimento di magia, 1958; Il grande ritratto, 1960; Egregio signore, siamo spiacenti di..., 1975; Un amore, 1963; Il capitano Pic e altre poesie, 1965; Scusi da che parte per Piazza Duomo?, 1965; Tre colpi alla porta, 1965; Il colombre, 1966; Presentazione a L'opera di Bosch, 1966; Due poemetti, 1967; Prefazione a R.James, 1967; Prefazione a W:Disney, Vita e dollari di Paperon de' Paperoni, 1968; La boutique del mistero, 1968; Poema a fumetti, 1969; Le notti difficili, 1971; I miracoli di Val Morel, 1971; Prefazione a Tarzan delle scimmie, 1971; Cronache terrestri, servizi giornalistici, a cura di Domenico Porzio, 1972; Congedo a ciglio asciutto di Buzzati, 1974; Romanzi e racconti, 1975; I misteri d'Italia, 1978; Teatro, 1980; Dino Buzzati al Giro d'Italia, 1981; Le poesie, 1982; 180 racconti, 1984; Il reggimento parte all'alba, 1985; Lettere a Brambilla, 1985; Il meglio dei racconti, 1990; Le montagne di vetro, 1990; Lo strano Natale di Mr. Scrooge e altre storie, 1990; Bestiario, 1991; Il buttafuoco, 1992; La mia Belluno, 1992; Il borghese stregato ed altri racconti, 1994. Teatro: Piccola passeggiata, 1942; La rivolta contro i poveri, 1946; Un caso clinico, 1953; Drammatica fine di un musicista, 1955; Sola in casa, 1958; Una ragazza arrivò, 1958; Le finestre, 1959; L'orologio, 1959; Un verme al ministero, 1960; I suggeritori, 1960; Il mantello, 1960; L'uomo che andrà in America, 1962; L'aumento, 1962; La colonna infame, 1962; Spogliarello, 1962; La telefonista, 1964; La famosa invasione degli orsi in Sicilia (representado em Milão em 1965); La fine del borghese, 1968.

Dino Buzzati Traverso nasceu San Pellegrino (Itália), em 16/11/1906 e faleceu em Milão, em 28/01/1972. Foi jornalista, escritor italiano de romances, teatro. Em 1924, ingressou na Universidade de Milão, onde curso Direito. Quando terminava seu curso, iniciou suas atividades jornalísticas no Corriere della Siera, ficando neste emprego durante toda a sua vida. É bastante difundida a tese de que sua carreira jornalística tenha influenciado diretamente sua atividade literária, dando-lhe um estilo objetivo e próximo da realidade, mesmo nos escritos nos quais se aproxima do absurdo. Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu na África como jornalista da Marinha Italiana. Logo após, publicou sua obra O deserto dos tártaros, obtendo fama mundial.
Este O deserto dos tártaros é um clássico, indubitavelmente. Filiado à corrente literária que propõe uma narrativa cujos elementos constitutivos pertencem ao mundo do absurdo, a leitura da obra é angustiante. Ela me deixou ansioso em vários trechos. Apesar de ter fatos absurdos, desconcertantes, Dino Buzzati os descreve com riqueza de detalhes, como se estivesse tratando de coisas aceitáveis, corriqueiras.
Em muitos livros, realiza-se a catarse grega, isto é, uma espécie de depuração; seguimos o drama do personagem e depois nos advém o alívio. Não precisamos experimentar o drama em nossa vida, observamos tais acontecimentos na vida do personagem e, ao fim, o sentimento de empatia nos eleva. Não, entretanto, neste O deserto dos tártaros. Não há catarse. Ao término da leitura, fica-se com a amargura do personagem, sem remissão.
Certo Giovanni Drogo é designado para servir no Forte Bastiani, uma fortaleza de fronteira. Ela guarda a segurança das terras contra a invasão dos tártaros, que devem atravessar um deserto. Daí o nome da obra. Não obstante, a história não é sobre militarismo ou guerra.
O Forte Bastiani não é considerado importante, por um pequeno detalhe: ninguém acredita ser possível um ataque dos tártaros, tendo de atravessar um deserto inóspito. Ela se configura, então, como uma fortaleza protocolar, uma afirmação da autoridade. Tão desimportante é a construção que nem mesmo o comum dos habitantes de uma cidade próxima se lembram da existência dela:
“Da sombra acumulada aos pés da muralha surgiu então um homem, uma espécie de vagabundo e mendigo, com uma barba grisalha e um pequeno saco na mão. Na penumbra, contudo, não se distinguia bem, somente o branco de seus olhos emitia reflexos. Drogo fitou-o, reconhecido.
— O que está procurando o senhor? – perguntou.
— Procuro o forte. É este?
— Não existe mais forte aqui – disse o desconhecido, com voz afável. – Está tudo fechado, já faz uns dez anos que não há ninguém.
— E onde fica o forte, então? – perguntou Drogo, repentinamente irritado com aquele homem.
— Que forte? Aquele, talvez? – E o desconhecido estendia um braço para indicar alguma coisa.” (página 10)
Giovanni Drogo é um homem simples e acompanhamos sua trajetória; é um tenente e se apresenta, então, ao comando militar. Conhece a rotina do forte e, pouco a pouco, se integra a ela. E vai percebendo duas coisas: primeira, as pessoas que servem no forte vão se acomodando a ele e não desejam mais ir embora; segunda, ciclicamente, alguém diz ter identificado ao longe, no deserto, alguma movimentação do inimigo, o que poria em estado de atenção o destacamento do forte. Entretanto, tais avistamentos não se concretizam.
Os acontecimentos cíclicos marcam o romance. O ciclo das estações, que vão se sucedendo, o ciclo dos avistamentos, o ciclo da água que goteja na cisterna, inicialmente se tornando uma tortura para Drogo, no silêncio da noite. O madeirame do forte range quando se dilata sob o calor do verão ou quando se retrai, sob os rigores do inverno.
A certa altura, Giovanni Drogo vai passar um tempo com a família. Acentua-se a sensação do absurdo que é a vida no forte e é um ponto a mais para termos a percepção de que o forte significa muito mais do que uma mera construção militar:
“Não pense mais nisso, Giovanni Drogo, não se vier para trás, agora que chegou à borda do planalto e a estrada está para mergulhar no vale. Seria uma tola fraqueza. Você conhece, pedra por pedra, o forte Bastiani, certamente não corre o risco de esquecê-lo. O cavalo trota alegremente, o dia está bom, o ar, morno e leve, a vida à frente é longa, como que ainda por começar, que necessidade haveria de dar uma última olhada nas muralhas, nas casamatas, nas sentinelas de turno na borda dos redutos? Assim uma página lentamente é virada, passada para o outro lado, acrescenta-se a outras já findas, por hora é apenas uma leve camada; as que falta ler são, em comparação, um monte inesgotável. Mas é sempre uma outra página gasta, senhor tenente, uma porção de vida que se foi.” (página 110/111)
Drogo retorna, entretanto. A sua vida de antes da apresentação ao forte não tem mais significado; a sua própria casa se torna estranha a ele. O forte exerce uma estranha atração sobre Giovanni. Não lhe importa o absurdo de servir a uma fortaleza decrépita, quase inoperante porque antiga, defasada, contra um inimigo que não comparece.
E, num dos belos trechos desta obra, entre tantos outros, lemos o seguinte:
“Aos poucos a fé se enfraquecia. É difícil acreditar numa coisa quando se está sozinho e não se pode falar com ninguém. Justamente naquela época Drogo deu-se conta de que os homens, ainda que possam se querer bem, permanecem sempre distantes; que, se alguém sofre, a dor é totalmente sua, ninguém mais pode tomar para si uma mínima parte dela; que, se alguém sofre, os outros não vão sofrer por isso, ainda que o amor seja grande, e é isso o que causa a solidão da vida.” (páginas 144/145)
O trecho acima é fundamental para o entendimento do livro. Estamos lendo uma obra literária sobre o grande tema da solidão do Homem, mesmo em meio aos seus semelhantes. O forte nos dá uma amostragem da sociedade em que vivemos; ali, os soldados e oficiais, desejam ardentemente a tal invasão dos tártaros, cujo combate lhes trará glória, os tornará importantes. Dão os melhores anos de sua vida para este gran finale, que, afinal de contas, provavelmente não vai acontecer.
O famoso mal de siècle, o mal-estar da humanidade. A sociedade que começa a emergir do período de guerras mundiais, que nos promete o paraíso se todos participarmos da sua sustentação. Entretanto, a premiação é pífia e difusa, num mundo líquido (Bauman, obrigado), em que nada é aquilo que parece ser, tudo muda o tempo todo. Agimos com um cão correndo atrás de um naco de carne amarrado, numa extremidade, a uma vara e a vara, na outra extremidade, na própria coleira do cão. Nunca a alcançará.
Perturbador, sim, mas leitura obrigatória, pelo menos para aqueles que gostam ou sentem necessidade de reflexão. Na minha opinião, este é um livro que trafega no mesmo caminho de A fera na selva, de Henry James, Bartleby, O escriturário, de Herman Melville, Esperando Godot, de Samuel Beckett, A metamorfose, de Franz Kafka. Cada uma deles tem suas peculiaridades, os temas não são exatamente os mesmos, mas trabalham a percepção de um mundo absurdo. Em sentido amplo, são obras distópicas, embora se tenha convencionado a aplicação desta palavra – distópico – a obras de ficção científica que mostram uma visão pessimista de uma sociedade futura.
Para degustação final, outro belo trecho deste O deserto dos tártaros:
“À soleira estava sentada uma mulher, ocupada em tricotar uma meia, e a seus pés dormia, num rústico berço, uma criança. Drogo fitou espantado aquele sono maravilhoso, tão diferente do dos homens grandes, tão delicado e profundo. Não haviam nascido ainda naquele ser os sonhos turvos, a pequena alma vagava despreocupada, sem desejos ou remorsos, por um ar puro e calmo. Drogo permaneceu parado, admirando a criança adormecida, e uma aguda tristeza penetrava em seu coração. Tentou imaginar a si mesmo mergulhado no sono, um Drogo estranho que ele nunca pudera conhecer.” (página 167)
Curiosa aqui a presença de uma mulher tricotando uma meia, provavelmente para a criança. Uma construção possível é a da mulher que, ao pôr o filho no mundo, já começa a construir para ele os passos que fatalmente o levarão ao sofrimento de ser sozinho.
Pessimista, caro leitor, mas belo. Este O deserto dos tártaros é um livro que certamente revisitarei. Esquecê-lo, provavelmente, nunca mais.


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