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sábado, 25 de novembro de 2017

Resenha: Antes que os pássaros acordem, de Josué Montello

Título original: Antes que os pássaros acordem
Autor: Josué Montello
Editora: Nova Fronteira
Edição: não consta. 3ª Reimpressão
Copyright: 1987
Gênero literário: Romance
Número de páginas: 200
ISBN: 85-209-1325-3
Literatura Brasileira
Bibliografia do autor - Romances: Janelas Fechadas 1941; Luz da Estrela Morta, 1948; Labirinto de Espelhos, 1952; A Décima Noite, 1959; Os Degraus do Paraíso, 1965; Cais da Sagração, 1971; Os Tambores de São Luís, 1975; Noite Sobre Alcântara, 1978; A Coroa de Areia, 1979; O Silêncio da Confissão; 1980; Largo do Desterro, 1981; Aleluia, 1982; Pedra Viva, 1983; Uma Varanda sobre o Silêncio, 1984; Perto da Meia-Noite, 1985; Antes que os Pássaros Acordem, 1987; A Última Convidada, 1989; A vida eterna do major Taborda, 1989; Um Beiral para os Bem-te-vis, 1989; O Camarote Vazio, 1990; O Baile da Despedida, 1992; A Viagem sem Regresso, 1993; Uma Sombra na Parede; 1995; A Mulher Proibida, 1996; Enquanto o Tempo não Passa, 1996; Sempre Serás Lembrada, 2000. Novelas: O Fio da Meada, 1955; Duas Vezes Perdida, 1966; Numa Véspera de Natal, 1967; Uma Tarde, Outra Tarde, 1968; Um Rosto de Menina, 1983; A Indesejada Aposentadoria, 1972; Glorinha, 1977; O Melhor do Conto Brasileiro, 1979; Pelo Telefone, 1981. Teatro: Precisa-se de um Anjo, 1943; Escola da Saudade, 1946; O Verdugo, 1954; A Miragem, (1959; Através do Olho Mágico, 1959; O Anel que Tu Me Deste, 1960; A Baronesa, 1960; Alegoria das Três Capitais, 1960; Um Apartamento no Céu, 1995; O Baile da Despedida, 1997. Ensaios: Gonçalves Dias; 1942; O Hamlet de Antonio Nobre, 1949; Fontes Tradicionais de Antonio Nobre, 1953; Artur Azevedo e a Arte do Conto, 1956; O Oratório Atual do Brasil, 1959; Caminho da Fonte, 1959; O Presidente Machado de Assis,1961; Uma Palavra Depois de Outra, 1969; Um Maître Oublié de Stendhal, 1970; Estante Giratória, 1971; A Cultura Brasileira, 1977; Brazilian Culture, 1983; Viagem ao Mundo de Dom Quixote, 1983; Os Caminhos, 1984; Lanterna Vermelha, 1985; Janela de Mirante, 1993; Fachada de Azulejo, 1996; Condição Literária, 1996; Memórias Póstumas de Machado de Assis, 1997; Baú da Juventude, 1997; O Juscelino Kubitschek de Minhas Recordações, 1999. Contos: Um rosto de menina, 1980. Outros: Pequeno Anedotário da Academia Brasileira, 1961.

Josué de Sousa Montello (Josué Montello), nascido em 21/08/1917, em São Luís, Maranhão e falecido em 15/03/2006, aos 88 anos. Com apenas 15 anos de idade, Josué Montello começou a integrar a Sociedade Literária Cenáculo Graça Aranha, da qual faziam parte jovens talentos ligados ao movimento do modernismo. Após uma passagem significativa pela cidade de Belém (Pará), seguiu para o Rio de Janeiro, onde se integrou também ao semanário literário Dom Casmurro. Janelas Fechadas foi seu romance de estreia, em 1941. Em novembro de 1954, foi eleito para ocupar a Cadeira de número 29 da Academia Brasileira de Letras. Dono de uma invejável produção espalhada por vários gêneros de expressão escrita, como se pode ver em sua bibliografia acima, Josué Montello possui uma prosa refinada, elegante, que nos passa aquela falsa sensação de que haver sido projetada com simplicidade.
Antes que os pássaros acordem, romance de 1987, me chamou a atenção pela capa, pelo nome do autor (eu já possuía uma edição, do mesmo autor, A vida eterna do Major Taborda, pelo extinto Círculo do Livro). Uma bela capa, mostrando a famosa Torre Eiffel de Paris ao fundo, em meio a um alvorecer. Este é o único livro de Montello ambientado fora do Brasil, mais precisamente, em Paris, na França. A temática também é francesa, envolvendo várias questões da invasão e permanência das tropas alemãs em solo parisiense, quando da Segunda Guerra Mundial.
Dividido em cinco partes, o romance se inicia:
“A cena foi rápida. Só o tempo necessário para abrir e fechar a alta porta do edifício, quase sem ruído, e atirar para dentro do vestíbulo o adolescente que se encolhia junto à ombreira de pedra, protegido pelas lâmpadas apagadas.
Depois, tanto Gérard quanto o desconhecido permaneceram de respiração suspensa, a olhar na direção da porta, ouvindo passos da patrulha na calçada da rua, ambos imóveis e com medo.” (página 11)
Início no meio da ação, ou como é tecnicamente conhecido, in medio res. O adolescente é Daniel Cohen, ficamos sabendo pouco depois; é um idealista lutando como pode contra a ocupação alemã. A Gestapo o procura por toda a cidade. Gérard o esconde em seu apartamento, onde vive com Isabelle. O protagonista da história tem seus próprios problemas. Chega a fugir de Paris, mas retorna à cidade, para o que der e vier. Além do mais, ele tem um problema sério: embora desejem – tanto ele quanto Isabelle – um filho, Gérard é estéril.
Trabalha numa agência publicitária como desenhista de talento. É amigo do seu chefe, Augustin. a trama que conduz o romance passa pelo fato de um desenho de Gérard representando o Arco do Triunfo ter sido utilizado pela agência, numa fusão com outro desenho dele, representando a águia alemã. A agência realizara uma fusão entre os desenhos, de modo que a águia sobrepaira o Arco do Triunfo, numa clara propaganda pró-nazista.
A relação de Gérard com Isabelle não é tranquila, assombrada pela impossibilidade de gerarem um filho. Este será o outro gatilho que move a história. O texto é muito bem escrito, dosando as informações num crescendo, até que, lá pelas páginas 40, me vi completamente conquistado pelo livro.
Mesmo a ambientação sendo parisiense, envolvendo fatos parisienses e fazendo, o tempo todo, referências à cidade-luz, Josué toca em algumas questões universais. Uma delas, por exemplo, é a grande questão sobre o que legitima atos violentos, como abaixo:
“Antoine, puxado por Isabelle, ia saindo de costas, na direção da orla da praça, enquanto Gérard dava por si defronte do guarda, interpelando-o:
— Que é que fez a menina? E, por que não pode brincar?
A resposta veio rápida, em tom ríspido, com o guarda a levantar ainda mais a cabeça autoritária:
— É judia, senhor. Sei que é. E os judeus estão proibidos de brincar nas praças públicas.
E para a senhora, que tinha a menina junto a si, protegendo-a com os braços por cima de seus ombros assustados:
— Onde está sua estrela amarela? E a estrela da menina? A senhora não sabe que tem de usar a sua em cima do peito, bem à vista? E que as crianças também têm de usá-la, depois dos seis anos, aqui no peito, como a senhora?
E a judia, já com ar acossado:
— As duas estrelas estão na bolsa, senhor. Me esqueci de pegá-las. Desculpe.
E o guarda, mais enérgico:
— Eu vou levar a senhora, com a sua neta, para o Comissário de Polícia. Tenho ordens severas para agir contra os judeus.” (página 115/116
E este outro trecho, desta vez, com a violência deflagrada pelos franceses:
“Ela, primeiro, enxugou os olhos. E atenuando a exaltação, como se houvesse conseguido superar a cólera:
— Eu estava sozinha na Agência, abrindo a correspondência atrasada, no momento em que dois homens e uma mulher apareceram na porta, um deles perguntando pelo Pierre. Depois, por ti. Com um gesto, mostrei-lhes as salas vazias, e logo fiquei gelada, vendo que o outro trazia na mão direita um revólver. Enquanto os dois passavam para a sala do Pierre, e ali revolviam gavetas e armários, a mulher me ordenou, já de tesoura em punho: — Baixa a cabeça. — Intimidada, obedeci. Senti que meus cabelos iam sendo arrancados a tesouradas. E quando eu pensava que já estava livre, começou o pior, com a navalha me raspando o crânio.” (página 149)
Dominando perfeitamente os truques narrativos, perto do desfecho Montello introduz um “personagem-alívio”, isto é, um personagem criado para dar ao leitor uma respirada antes do clímax e que tem, ao final das contas, a função de “esticar” o suspense, adiando-o. Até certo ponto, tal personagem – um visconde real ou suposto – me remeteu à figura tresloucada de Dom Quixote, quer pela descrição física, quer pela loucura evidente, quer pela função histriônica ou, talvez mais completo, por todas estas coisas juntas:
“Conquanto houvesse chegado ali pela manhã, o senhor alto e magro, de unhas bem tratadas...
— O cavalheiro não se importa se eu fizer uma pequenina alteração na sua cama? Obrigado. Ponho a minha do outro lado. Faço isso pelo senhor. Dizem-me que ronco um pouco nos meus sonos mais profundos. Quanto mais longe eu estiver, melhor será, tanto para mim, que não serei acordado pelo carteiro, quanto para o senhor, que não terá de me acorda para poder dormir.” (página 179)
É do tal visconde a estapafúrdia Teoria do Pavio, sobre a qual ele discorre, didaticamente:
“— A teoria é simples. Simplérrima. O senhor, como artista, não precisará recorrer a raciocínios metafísicos para entendê-la. Imagine uma vela. Há velas grandes. Há velas pequenas. Refiro-me às velas de cera que pomos nos altares. Cada vela tem seu pavio. Uns maiores. Outros menores. Conforme o tamanho da vela. Cada um de nós, para Deus, é uma vela. Maior. Menor. Sem que o tamanho da vela corresponda ao tamanho da pessoa. Se correspondesse, eu estaria, aqui, em posição melhor do que o senhor. Por quê? Já vai me entender. O tamanho de nossas vidas depende de nosso pavio. Tanto eu quanto o senhor podemos ter pavio longo ou pavio curto. Ou seja: eu posso ter pavio longo; p senhor pode ter pavio curto. Ou vice-versa. O curto é o meu, e o seu é longo. Por quê? Mistério. O importante é que há um pavio para cada um. Quando nascemos, esse pavio é aceso, lá em cima. E enquanto vivemos, ele vai queimando. Na hora em que tem de apagar, apaga mesmo, no finzinho da vela. Tudo quanto se fizer, aqui embaixo, para manter o pavio aceso, não adianta coisa alguma. Acabou, acabou.” (página 181)

Delicioso o livro, meu caro leitor. E quase passou despercebido, quando o comprei, naquela baciada de saldos. Também ficou um tempão sem que eu o lesse, até que, ao mexer na minha estante, dei de cara com ele. E me decidi a lê-lo, para o meu prazer literário.
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