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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O Oceano no Fim do Caminho, de Neil Gaiman

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Neil Gaiman é muito conhecido do público das Graphic Novels. Nome completo: Neil Richard McKinnon Gaiman, nascido em 10/11/1960, em Hampshire, Inglaterra. É casado com Amanda Palmer, da banda Dresden Dolls. Vive em Minneapolis, EUA. É autor de livros e HQs – Histórias em Quadrinhos. Talvez sua obra mais famosa seja Sandman, que pode ser classificada como uma Graphic Novel. Essa classificação em geral designa aquelas revistas em quadrinhos com pretensões literárias. O personagem principal é Sandman, representando o sonho, motivo  pelo qual muitas vezes também é conhecido por Morpheus, antropomorfia do deus do sonho da mitologia grega.
A primeira sensação que o leitor normalmente tem (eu tive!), ao ler essa obra, é a de estranhamento, uma das categorias literárias listadas pelo crítico David Lodge, no seu exclente livro A Arte da Ficção. Realmente, a fantasia é predominante nas obras de Gaiman e este romance não foge à regra. Para o leitor pouco afeito à poética de Neil, tudo pode lhe soar como um completo nonsense, uma história sem pé nem cabeça. Mas, à medida que leitura avança, vamos descobrindo algumas pistas e, se temos já algum contato com outros trabalhos dele, o quebra-cabeças começa a ser montado. Um texto como esse, um tanto alegórico, fluido, estranho, certamente comporta várias e várias interpretações. Como ponto de partida, sabemos do uso intenso feito por nosso escritor da mitologia grega, da fantasia, de alguns mitos pagãos ou neopagãos e mesmo de alguns arquétipos.
Um personagem não nomeado retorna à localidade  de Sussex, no interior da Inglaterra. A casa onde morou há muito não existe mais; uma nova fora construída e posteriormente vendida quando seus pais se mudaram de lá. O personagem principal aparece na cidadezinha por causa de um enterro:
“Eu estava de terno preto, camisa branca, gravata preta e um par de sapatos pretos, bem-engraxados e lustrosos: um traje que normalmente me deixaria desconfortável, como se estivesse usando um uniforme roubado ou fingindo ser adulto. Hoje me confortou, de certa forma. Era a roupa certa para um dia difícil.
Tinha cumprido meu dever pela manhã, dissera as palavras que me cabia dizer com sinceridade e, em seguida, após a cerimônia religiosa, entrei no carro e dirigi sem rumo, sem planejamento, com mais ou menos uma hora para matar antes de ver mais gente que havia anos não encontrava, distribuir mais aperto de mão e beber várias xícaras de chá na mais fina procelana. Dirigi pelas sinuosas estradas rurais de Sussex, das quais me lembrava apenas parcialmente, até que me vi a caminho do centro da cidade, então sem pensar peguei outra via, dobrei à esquerda e depois à direita. Foi só então que percebi para onde estava indo, para onde ia desde o começo, e fiz uma careta, consciente de minha ausência de bom senso.” (página 11)
Quase inconscientemente, ele tinha se dirigido à antiga morada. E diante dele, de repente apareceu a fazenda dos Hempstock. Revê a Sra. Hempstock, que também o reconhece, e pergunta pela filha dela, sua amiga Littie. Obtém a informação de ela estar longe, na Austrália. Como é bem recebido, resolve andar um pouco pela fazenda, indo para o lago no fundo da propriedade, que Littie chamava de Oceano.
A partir desse ponto, o enredo segue em tempo de memória, retornando à época dos seus sete anos e Littie, onze. Fatos muito estranhos aconteceram, e aquela família, representada pelas três mulheres, Ginnie Hempstock, a velha Sra. Hempstock e Littie foi de importância capital em sua vida.
Nosso personagem se lembra de Ursula Monkton. Ela é a antagonista da história, mas não posso dizer muito a respeito dela, sem entregar um spoiler. Posso apenas dizer: a mãe do protagonista tem de começar a trabalhar fora e para isso, contrata uma governanta para supervisionar a casa e cuidar dele e da irmã. De cara, ele não gosta de Ursula Monkton, enquanto a irmã simplesmente a adora.
Uma resenha é feita para servir de referência para os leitores tomarem conhecimento de um livro, pelos olhos de quem o leu. E devem decidir se querem ou não lê-lo. Não costumo partir para um trabalho mais interpretativo, mas creio que, no presente caso, algumas explicações serão bem-vindas, dadas as carcterísticas textuais e contextuais. Pode tranquilizar-se o leitor, não cometerei a gafe maldita do spoiler!
Algumas chaves interpretativas são colocadas no romance e o leitor deverá estar atento a elas. Há referências capitais e expressas a dois livros que povoam nossa fantasia: As crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis e Alice no país das maravilhas, de Lewis Carrol. Nestas obras, o mundo calmo e ordenado da realidade é perturbado quando se atravessa determinado portal, que no caso de As crônicas é o guarda-roupa e no de Alice é o oco da árvore. Transpostos esses portais, virtualmente tudo é possível de acontecer. E tudo acontece.
Uma outra referência, importantíssima se o leitor desejar entender a história, é a questão do feminino. Gaiman, em suas obras, trata as mulheres com muita devoção; elas são, na verdade, portadoras de elementos mágicos, são doadoras da vida; restauradoras da normalidade, no caso desta obra. São misteriosas, têm o seu lado não inteligível, zona pantanosa em que o explicável não atua.
O neopaganismo, principalmente a Wicca, uma religião de crenças pré-cristãs, explora a figura da Deusa Tríplice, representando as ligações de três fases femininas com as fases da lua, a saber: 1) Lua Nova/Crescente: A Virgem ou Donzela (a pureza, a busca do conhecimento); 2) Lua Cheia: A Mãe (poder, proteção e carinho maternal); 3) Quarto Minguante: A Anciã (sabedoria, conhecimento e renovação). E, para complicar tudo, há ecos da peça Sonhos de uma noite de verão, de William Shakespeare. Em Sonhos, Shakespeare nos fala do amor de Lisandro e Hérmia, que fogem para uma floresta encantada, cheia de seres da mitologia.
Algumas “comprovações” de que a família Hempstock não tem natureza humana:
“E, como Lettie estava falando a língua da criação, mesmo que não entendesse o que ela dizia, compreendia o que estava sendo dito. A criatura na clareira estava sendo atada àquele lugar para sempre, presa, proibida de exercer sua influência sobre qualquer coisa além daqueles domínios.” (página 56)
E nessa outra passagem:
“Meu segundo pensamento foi de que eu sabia tudo. O oceano de Lettie Hempstock fluiu dentro de mim e preencheu o universo inteiro, do Ovo à Rosa. Eu soube. Soube o que era o Ovo – onde o universo se iniciou, ao som de vozes incriadas cantando no vácuo – e eu soube onde estava a Rosa – a dobra peculiar de espaço no espaço em dimensões como origami e que florescem como orquídeas estranhas, e que marcaria a última época boa antes do consequente fim de tudo e do próximo Big Bang, que não seria, agora eu sabia, nem nada do gênero.
Eu soube que a velha sra. Hempstock estaria aqui para esse, da mesma forma que esteve para o anterior.”(página 163)
Claramente, uma alusão à teoria do Universo Pulsante, em que não há apenas um Big Bang, com a consequente expansão, mas também uma retração, na qual a concentração termina por gerar outro Big Bang. E assim por diante. E a sra. Hempstock, a velha, esteve presente no primeiro como estará no segundo. Quer dizer, ela não pode ser humana, visto que atemporal e pré-existente. Ser não criado. Uma deusa.
Estão presentes no romance a oposição entre o mundo dos adultos x mundo das crianças – duas formas de ver que não se entendem; a confiança no valor da amizade; a ideia de nem tudo poder ser explicado pela razão (a vida como fonte de aventuras e experiências, muitas vezes sensoriais); a fragilidade do humano. Ouso apontar outra percepção, a interferência ou imbricação de um mundo dito “espiritual”, com organização e seres diferentes na nossa própria realidade. As aspas cabem na palavra espiritual pois, aqui, ela não tem a conotação costumeira, cristã. Significa o lugar dos seres de outra ordem, talvez supranaturais.
Bem sei, caríssimo leitor, você deve estar meio confuso, com cara de “não entendi nada”. Também eu não entenderia as loucuras literárias do Sr. Neil Gaiman desse O oceano no fim do caminho, se não tivesse lido o livro. Não é propriamente uma interpretação o que forneço aqui. São chaves interpretativas para a minha leitura. O trabalho de juntar tudo isso ou não, verificando como todas essas informações podem funcionar dentro da história é todo seu, meu caro. “Você pode até dizer/Que eu estou por fora/Ou então/Que eu estou inventando”, como na letra da música Como nossos pais, de Belchior, imortalizada na voz maravilhosa de Elis Regina.
Leia, leia o livro!
GAIMAN, Neil. O oceano no fim do caminho. Editora Intrínseca. Rio de Janeiro, RJ: 2013.
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