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quarta-feira, 25 de março de 2015

Teoria Geral do Esquecimento

Há muito tempo desejava incrementar minhas leituras com autores africanos de expressão portuguesa. São bons autores que deverão visitar as postagens desse blog com alguma regularidade. Desta forma, teremos o José Eduardo Agualusa (angolano), António Emílio Leite Couto, o Mia Couto (moçambicano), Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, o Pepetela (angolano), Ndalu de Almeida, o Ondjaki (angolano). Há outros mais e importantes autores, mas à medida que for tendo acesso a eles, terei prazer em resenhar alguma das obras.

Do pouco que já li, sem dúvida me afinizo mais com a escritura de Mia Couto. É ler para ver…

José Eduardo Agualusa nasceu na cidade de Huambo, Angola, em 1960. Tem uma ligação com o Brasil, pois seu avô era carioca. Seus dois filhos vivem em Luanda. É romancista, poeta, escritor de peças teatrais e jornalista. É um dos nomes mais influentes da literatura contemporânea internacional. Autor de mais de 20 livros, já foi traduzido para vinte idiomas.

Esse Teoria Geral do Esquecimento tem como pano de fundo a guerra pela independência de Angola. Ludovica – mais conhecida pelo apelido de Ludo – mora sozinha num apartamento luxuoso em Angola – o chamado Prédio dos Invejados. Como companhia, apenas o cachorro Fantasma, que foi assim batizado por ser inteiramente branco:

“Uma tarde, o engenheiro apareceu em casa segurando  cuidadosamente uma caixa de papelão. Entregou-a à cunhada:

É para si, Ludovica. Para lhe fazer companhia. A senhora passa demasiado tempo sozinha.

Ludo abriu a caixa. Lá dentro, olhando-a assustado, encontrou um cachorrinho branco, recém-nascido.

Macho. Pastor-alemão, esclareceu Orlando: Crescem depressa. Esse é albino, um tanto raro. Não deve apanhar muito sol. Como vai chamá-lo?

Ludo não hesitou:

Fantasma!

Fantasma?

Sim, parece um fantasma assim, todo branquinho.

Orlando encolheu os ombros ossudos:

Muito bem. Será Fantasma.”(páginas12/13)

Estoura a guerra pela independência de Angola. A família de Ludo vai embora, apenas ela ficará, agora acompanhada do cachorro Fantasma. E o pior, para se manter defendida da brutalidade daquela guerra, Ludo ergue uma parede, isolando-se do mundo. Tem víveres suficientes para um longo tempo.

Como sintetiza o título, esse é um romance sobre o esquecimento. Ludo é entregue à própria sorte, esquecida dos parentes, esquecida pela própria guerra, isolada por vontade própria do mundo ao redor:

“Ludo contemplava as nuvens e via alforrecas.

Ganhara o hábito de falar sozinha, repetindo as mesmas palavras horas a fio: Gorjeio. Pipilar. Revoada. Asa. Adejar. Gorjeio. Pipilar. Revoada. Asa. Adejar. Gorjeio. Pipilar. Revoada. Asa. Adejar. Gorjeio. Pipilar. Adejar. Gorjeio. Pipilar. Revoada. Asa. Adejar. Gorjeio. Pipilar. Revoada. Asa. Adejar. Vocábulos bons, que desfaziam como chocolate no céu da boca e lhe traziam à memória imagens felizes. Acreditava que ao dizê-las, ao evocá-las, regressassem aves aos céus de Luanda. Há anos não via pombos, gaivotas, nem sequer algum pequeno passarinho despardalado. A noite trazia morcegos. O voo dos morcegos, porém, nada tem a ver com o das aves. Os morcegos, como as alforrecas, são seres sem substância. Vê-se um morcego a riscar a sombra e não se pensa nele como algo feito de carne, de sangue, de ossos concretos, de febre de sentimentos. Formas esquivas, rápidos fantasmas entre os escombros, estão ali, não estão mais. Ludo odiava morcegos. Os cães eram mais raros do que os pombos, e os gatos mais raros do que os cães. Os gatos foram os primeiros a desaparecer. Os cães resistiram nas ruas da cidade alguns anos. Matilhas de cães de raça. Galgos esgalgados, pesados mastins asmáticos, alegres dálmatas, nervosos perdiqueiros, e depois, durante mais dois ou três anos, a improvável e deplorável mistura de tantos, e tão nobres pedigrees.” (página 62)

Desse trecho transcrito podemos tirar algumas observações, obtidas da poética de Agualusa.

A primeira, é a de ser Agualusa um escritor de excelentes recursos literários. A repetição intencional e enfadonha de palavras revela toda a solidão de Ludo, mirando o céu de Luanda.

A segunda, é o ótimo recurso literário, uma espécie de “refração” da realidade: ao invés de colocar em foco a luta dos homens – que, pouco a pouco vai minando classes sociais, restando apenas combatentes embrutecidos e sem rótulos sociais – desloca-o para os cães, a se tornarem igualmente embrutecidos, fragilizados em sua luta medonha e completamente misturados, sem pedigrees. Desta forma, as matilhas tornam-se metáforas dos homens.

A terceira, destaque-se a utilização de um ritmo duro, dado pela enumeração de palavras que se repetem, todas vinculadas ao anseio de liberdade. Depois, no ponto em que entram as enumerações das várias raças de cães, os adjetivos que acompanham os substantivos, tornando o ritmo mais melódico, mais ameno. Visível opção de simpatia do narrador pelos combantes.

Durante suas 171 páginas de texto, vemos a transformação do que era uma luta pela independência de Luanda, então colônia de Portugal, em uma verdadeira guerra civil. Apesar de um pano de fundo tão duro, há muita poesia na escrita de Agualusa; ele instaura um narrador que, em momento algum, perde de vista os valores intrínsecos do homem. Há espaço para uma história de amor entre dois seres distantes, cujo elo possível é um pombo-correio.

O que pensa, o que sente a Ludo emparedada em seu próprio apartamento nos é dado conhecer por meio de um diário escrito por ela. O diário de uma pessoa de quem o mundo se esqueceu  e de quem, a seu turno, fez tudo para esquecer-se do mundo também. E o interessante disso tudo, Ludo acaba sendo salva por aquilo que abomina, que lhe causa dor e isolamento – a luta pela independência de Luanda.

Excelente livro. Li-o duas vezes, está cheio de anotações, as quais me servem, depois, como um percurso mnemônico. Apenas um reparo, não propriamente uma crítica ao livro: Teoria Geral do Esquecimento não me soa como um título convidativo à leitura da obra. Ao leitor comum (livros têm de vender, afinal) tal nome não chamará tanto a atenção de leitores menos experientes; parece mais próprio a um trabalho acadêmico. Sabemos haver certas imposições das editoras. Ou, então, essa foi apenas uma opção do próprio autor, no sentido de marcar a frieza da guerra, mesmo uma guerra pela independência de um país. Os combatentes tornam-se feras, esquecem-se de suas íntimas humanidades.

AGUALUSA, José Eduardo. Teoria Geral do Esquecimento. Foz Editora. Rio de Janeiro, RJ: 2012.

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