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segunda-feira, 28 de maio de 2012

O fotógrafo Cristovão Tezza

Cristovão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, em 1952, mudando-se ainda criança para Curitiba. Escreveu Trapo, O fantasma da infância, Aventuras provisórias, Breve espaço entre cor e sombra, Juliano Pavollini, O Filho Eterno (esse último recebeu os mais importantes prêmios literários brasileiros de 2008).

A trama de O Fotógrafo envolve cinco personagens; desses, quatro interagem. O personagem central, chamado de o fotógrafo, nunca é nomeado. É casado com Lídia, com quem tem uma filha, Alice. Depois de muito tempo, Lídia volta aos bancos da faculdade, para fazer mestrado e encontra Duarte, um professor por quem tem admiração.

O professor Duarte é casado com Mara, uma psicanalista (linha Freudiana) e seu casamento entrou naquela fase morna, mantido mais pelo costume e acomodação. Quando Lídia retorna à faculdade, Duarte e ela começam um caso.

Também acontece algo parecido entre o fotógrafo e Lídia. Estão num relacionamento que já acabou e nenhum dos dois toma iniciativa de conversar. Guardam para si mesmos seus problemas. Fazem opção pelo silêncio ressentido.

Íris é modelo mantida por um ricaço e mora em apartamento próprio. A relação dela com o ricaço é sem amor; o encaminhamento dela à psicanalista é para revelar-lhe seus fantasmas particulares. Curiosamente, Íris é a única que fala abertamente de seus dramas, pelo menos com sua terapeuta.

Toda a ação se passa em um único dia. Como pano de fundo, temos a disputa pela presidência do Brasil entre José Serra e Lula. Tal situação é abordada por uma ou outra referência feita por algum personagem.

O fotógrafo é contratado por um homem misterioso, para tirar fotos de Íris. Receberá 200 dólares por rolo de filme batido. Ele acaba se sentindo fortemente atraído por Íris e terá de decidir se continua a fotografá-la e ganhar o dinheiro ou abandonar o projeto e tentar ficar com a modelo.

Cristovão Tezza administra com segurança todo esse caos relacional. Quase não há diálogos entre os personagens, o que lhes enfatiza a solidão orientada por ressentimentos, que caracteriza o livro. O autor opta por verdadeiros solilóquios, isto é, todos “pensam alto” e esses solilóquios vêm misturados às intervenções do narrador, em discurso indireto livre.

O foco narrativo também se alterna, ora para primeira pessoa, ora para terceira pessoa; isso confere dinâmica à narrativa que, em nenhum momento se torna tediosa, monótona (risco que corre quem insiste em apresentar personagens falando para si próprios), além de criar um efeito de aproximação do leitor com o texto.

O fotógrafo vive, além da crise de relação com Lídia, outra crise de relação com seu emprego. Escuta sempre de seu patrão “que ele é o único fotógrafo mal-humorado que conheço”. O desemprego é uma ameaça permanente sobre sua cabeça, embora ele seja, como diz o texto, um profissional reconhecido pelo seu trabalho.

O personagem principal guarda um outro tipo de ressentimento: como ele é adepto das câmara analógicas, não vê com bons olhos o uso crescente das máquinas digitais em seu ambiente. E há coisas que detesta na sua profissão: por exemplo, o trabalho de fotografar um político ou, ainda, a fotografia de publicidade.

Alguns trechos do livro:

“— Você leu As ilusões perdidas? — ele perguntou, e era como se ele ganhasse tempo, recuperando o próprio terreno, a voz do professor. E antes que ela respondesse: — Leia. Antes de ver o filme, para não destruir a leitura — e ela riu. É a grande obra de Balzac.

— As ilusões perdidas — Lídia repetiu, contrita, mas o tom era de quem não ouve o que está dizendo.” (página 80)

“Viu seu próprio rosto atentamente — é melhor tomar banho agora antes que ele invente de se trancar nesse laboratório horrendo, sempre que ele se deprime ele se tranca ali, e ele vai ficar deprimido, ele já está deprimido — e aproximou-se mais de sua imagem. Um rosto cansado, ela avaliou. O que tão fortemente me levou a acreditar que o Duarte me ama? Cada gesto, ela pensou; ele sabe disso.Talvez ele aguarde uma declaração formal: eu estou apaixonada por você.” (página 191)

Apesar da pouca probabilidade das relações tão próximas entre os personagens — Duarte é casado com a psicanalista de Íris e tem um caso com a mulher do fotógrafo que se apaixona por Íris, lembrando uma quadrilha —, o romance é muito bem escrito, merece ser lido. Tezza é um escritor em plena maturidade, demonstrando mão segura na condução do enredo.

Cristovão Tezza. O Fotógrafo. Editora Record, São Paulo, 2ª ed., 2011. 285 páginas

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