Um blogue de quem gosta de ler, para quem gosta de ler.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Resenha nº 184 - Divórcio Em Buda, de Sándor Márai



Título original: Válás Budan

Autor: Sándor Márai

Tradutor: Ladislao Szabo

Editora: Companhia das Letras

Edição: s/n – 1ª reimpressão

Copyright: 1993

ISBN: 85-359-0440-9

Origem: literatura húngara

Gênero literário: romance

 

O escritor húngaro Sándor Márai (lê-se Tchándor Mároi) nasceu na cidade de Kassa (cujo nome atual é Kosice), no atual território da Eslováquia, no ano de 1900. À época do seu nascimento, os países da região ainda não existiam, estando todo aquele território sob o domínio do Império Austro-Húngaro. Tal império entrou em colapso em 1918, após derrota na Primeira Guerra Mundial (duração do conflito: de 1914 a 1918).

Autor de 46 livros – nem metade traduzida para o português, no Brasil – alcançou enorme popularidade na Hungria, até o momento em que foi proibido pelo regime comunista, em 1948. Neste mesmo ano, Sándor Márai vai viver nos Estados Unidos, em exílio. Mesmo em território norte-americano, continuou a escrever em sua língua natal, o húngaro. Morreu em 1989, na Califórnia, por suicídio.

Os direitos autorais das obras publicadas em terras brasileiras pertencem, em grande parte, à Companhia das Letras, a saber: As Brasas, 1999; O Legado de Eszter, 2001; Veredicto em Canudos, 2002; Divórcio em Buda, 2003; Rebeldes, 2004; Confissões de Um Burguês, 2006; De Verdade, 2008; Libertação, 2009; Jogo de Cena em Bolzano, 2017 e Brasas, em uma nova edição, de 2021. Encontram-se disponíveis na editora apenas duas obras: Brasas (edição de 2021) e Veredicto em Canudos (edição de 2002).

Dei de cara com o nome deste escritor quando fiz uma pesquisa sobre a literatura do Leste Europeu, pois, a partir da literatura russa, desejava descobrir o que mais existia, além de alguns escritores cujas obras já conhecia, como Kafka, Szigmond Móricz, Férenc Molnár (aquele, do clássico infantojuvenil, Os Meninos da Rua Paulo).

Há lacunas culturais que só se podem entender num país como o nosso, com pouco público para este tipo de literatura, somado à dificuldade de se conseguir bons tradutores de idiomas menos em evidência, como o húngaro e à valorização do que nos chega dos EUA. A julgar por este Divórcio em Buda, Sándor Márai é precioso. E dizem os entendidos, não é o melhor dele; Brasas (recebe, às vezes, o nome de As Velas Ardem Até O Fim) é considerada, por muitos, sua obra-prima. Não posso opinar a respeito, mas estou muito impressionado por este pequeno volume em minhas mãos.

O título Divórcio em Buda, para nós, brasileiros, soa meio estranho; por isso, merece explicação. O “Buda” que figura no título não tem nada a ver com o budismo. A capital da Hungria é Budapeste, e é uma junção da parte na margem direita do Danúbio, Buda (Ôbuda) e Peste, na margem esquerda do mesmo rio. Há uma ponte integrando definitivamente Buda e Peste. Portanto, o título se refere a certo divórcio acontecido na parte antiga da cidade, Buda.

Sándor Márai investe muito na caracterização psicológica de seus personagens. O juiz Kristóf Kömives tem 38 anos, é casado com Hertha e tem dois filhos pequenos. Certo dia, vem parar em suas mãos o processo de divórcio do casal Imre Greiner e Anna Fazekas. Acontece que Imre fora colega de sala de Kömives, nos tempos de escola.

Anna, também dos tempos de escola, despertara, em algum momento, seu interesse amoroso. Algumas vezes se encontraram, nas voltas da vida, mas nada aconteceu. E agora, Kristóf tem, diante de si, o retorno do passado: precisa dar uma definição para o processo de divórcio entre os dois antigos conhecidos.

Antes de continuar a resenha, seria interessante abordarmos alguns aspectos. As ações de Divórcio em Buda vão se localizar na década de 1930. Valores que seriam classificados de “modernos” pipocavam aqui e ali, mudando costumes, hábitos, interferindo nos relacionamentos. As pessoas descobrem que os banhos de sol são recomendados para a saúde, o modelo de mulher passa a ser magra, bronzeada – como Greta Garbo.

Também as tensões começavam no campo social, financeiro e político. A quebra da bolsa de Nova York acontecera em 1929, influenciando o mundo todo; os reflexos da Primeira Guerra Mundial ainda estão presentes na Europa como um todo. Num mundo assim, em ebulição, vamos localizar as questões envolvidas nesta obra.

Com o processo diante de si, sobre a mesa, o juiz Kömives divaga:

“Agora se lembrava do preciso instante em que soube, surpreso, irritado, que Imre Greiner, aquele Imre Greiner de quem sempre se recordava com carinho na escola e mais tarde na faculdade, com quem se encontraria e conversaria com prazer, e com quem nunca soube conversar quando ocasionalmente se encontravam, casara com aquela sua conhecida, que... e aqui parou. Quem era essa Anna Fazekas? Teria significado algo mais para ele do que um conhecimento superficial, até mais do que superficial, secundário, mundano? Quando solteiro, viu-a na quadra de tênis duas ou três vezes, e com certeza encontrou-a mais tarde, depois de seu casamento, mas de passagem, superficialmente, como outras moças e mulheres casadas que até conhecia, embora delas talvez nem soubesse o nome.” (página 14)

Kristóf Kömides é um homem arredio socialmente, não tem bom salário, pertence a uma família tradicional, com avô e pai também juízes. Ele é uma promessa, é um bom juiz, julga com lisura e, fatalmente, seguirá, tão logo a ascensão hierárquica o permita, os passos de seus predecessores e será reconhecido. Kristóf é, também, um homem que não gosta de certas modernices:

“A caminho, o juiz refletiu sobre como tudo se decompôs e se modificou naqueles últimos anos, inclusive as formas de convívio social. Ele conhecia e gostava dessa humilde classe média senhorial da qual fazia parte, sentia-a como uma única e grande família, em cujos costumes sociais percebia o mito da família, cujo gosto era o mesmo que o seu, no trabalho, e inclusive na vida particular, sentia-se responsável pelo seu bem-estar e segurança.” (página 18)

Em outro momento:

“Esse mundo contemporâneo, lamurioso, sem limites e irresponsável que manifestava excessivamente seus choros e desejos – como ele repudiava esses casamentos “modernos” e neuróticos, do qual marido e mulher fugiam com tamanha facilidade para a frente do juiz!” (página 21)

O juiz é um burguês, conservador, defensor da sacralidade da instituição casamento. A agitação ao redor, da qual a invasão do swing – ritmo alegre, barulhento, agitado – talvez fosse uma boa amostragem, o incomoda.

Numa das cenas mais dramáticas do livro, que demonstra muito bem a capacidade de Sándor Márai de criar cenas impactantes, de arranhar nossos sentimentos de leitores, eis a descrição da cena da morte do pai de Kömives:

“Ficou meses na cama, doente; só perdeu a paciência na última semana, e então, algumas horas antes da batalha final, ergue-se penosamente num momento em que ninguém o vigiava, arrastou-se até o escritório, tirou de uma gaveta um velho revólver e tentou dar um fim a tudo aquilo. Caiu com o revólver na mão e ficou estirado no chão do escritório, imóvel, paralisado sob os quadros que retratavam os membros da família; foi encontrado nessa posição, inconsciente. Horas mais tarde, entrou em agonia. O revólver com o qual procurou apressar seu fim, sem contudo ter dado o golpe de misericórdia, e alguns retratos da família foi tudo que Kristóf manteve do legado de seu pai.” (página 36)

A família, portanto, é a um tempo, uma instituição que acolhe o indivíduo e que pesa sobre ele. Que perpetua valores morais e sociais, dá segurança, mas que se constitui numa força de retenção do indivíduo. Este aspecto se torna mais dramático num mundo em transformação, para o bem ou para o mal.

Kristóf foi enviado para um internato. Lá, conhece a figura do Padre Norbert, uma construção de personagem muito bem-feita pelo escritor húngaro. Ele será uma espécie de pai substituto:

“O padre Norbert lhe deu aquilo que, na maioria das vezes, nem as mães são capazes de dar, nem a família, nem os irmãos: com tato e visão, o gênio pedagógico do padre Norbert colocou-o sob a proteção de uma comunidade humana. Lá onde cada indivíduo sentia pertencer a algo, a um lugar, isso era tudo. Mais tarde, Kristóf Kömides muitas vezes se perguntou se conseguia passar aos próprios filhos esse sentimento de proteção, se sabia construir dentro da família esse refúgio. Não tinha uma grande opinião sobre as modernas teorias de educação. Com o passar dos anos, conheceu pessoas, vislumbrou destinos e percebeu que aqueles que mantêm o equilíbrio, os que resistem, não necessariamente provêm de circunstâncias familiares felizes – vinham da pobreza, de famílias muito numerosas, onde o dinheiro, o ciúme, as paixões fizeram seu trabalho destrutivo na alma de seus componentes, sem ter demolido a fundação espiritual da estrutura familiar – por quê? De que reserva se alimentavam essas almas?” (página 41)

Este padre Norbert será a influência decisiva na religiosidade do juiz Kömives, uma religiosidade “natural, não aprendida em livros”.

Hertha Wiesmeyer é a esposa de Kristóf. Ela é o eixo de equilíbrio do esposo; serena, conhecedora de sua importância na construção familiar, eis como ela é descrita:

“Hertha Wiesmeyer era bonita. Sua beleza se afirmou com o passar do tempo, sua face fina e longilínea, de testa alta, irradiava uma harmonia simples e tranquila. Não era uma beleza arrogante, mas apenas consciente de si mesma, sem ser provocante ou encantadora – as pessoas não conseguiam desviar-se dos efeitos do seu rosto, olhavam-na seriamente, com uma comoção involuntária.” (página 57)

Aquele clima de insegurança, provocado pelas forças ainda subjacentes, vívidas, de um horror mundial remanescente  (a Primeira Guerra Mundial) e as apenas intuídas, de outro conflito que se avizinha, repercutem na alma das pessoas, ainda que sob a forma de um “mal-estar generalizado”, disfarçado sob momentos de alegria compartilhada:

“Surpresa verdadeira, pensou, só existe uma na vida: quando descobrimos que nós também, pessoalmente, somos mortais. Essa descoberta foi feita por Kristóf aos trinta e oito anos. Aquela sensação física de origem puramente nervosa, por sorte passageira, quando por um segundo sentimos que algo pode acontecer também conosco... o quê? (página 74)

E mais:

“Agora entende: a guerra começa quando as pessoas, em todos os lugares do mundo, estão sentadas e falam de seus problemas e desejos do dia-a-dia e, de repente, alguém pronuncia a palavra “guerra” – e então elas não se calam, não olham para o chão caladas e assustadas, mas respondem de todas as maneiras, em tom natural: ‘guerra” – e se perguntam se é possível, quando e em que medida. É assim que começa.” (página 90)

Tarde da noite, na véspera do julgamento do processo de divórcio, a criada dos Kömives anuncia ao patrão uma visita. O juiz está contrariado, ele não recebe casos jurídicos em andamento em casa, preservando sua vida particular. A criada insiste; é alguém que diz ser conhecido do juiz e, por isto ele o atende. É Imre Greiner quem se insinua. Devo apenas entremostrar o que se segue, sob risco de spoiler, meu caro leitor.

Direi, apenas, que o próprio juiz será obrigado a encarar o significado de certos fatos do seu passado. Terá de responder, a si mesmo, aquela pergunta feita lá na página 14, “quem era essa Anna Fazekas? Teria significado algo mais para ele do que um conhecimento superficial, até mais do que superficial, secundário, mundano?”

Literatura não é psicologia, este resenhista não é psicólogo de formação. Entretanto, ocorre-me o livro Em busca de sentido, de Viktor E. Frankl (resenhado neste blogue) e sua logoterapia. Ele defende, naquela obra, que os homens temos de buscar um sentido para a vida, para nos equilibrarmos neste mundo. Ele mesmo, Viktor, um sobrevivente dos campos de extermínio nazista, conseguiu manter sua sanidade, apesar dos horrores espreitados, encontrando algum sentido para sua vida.

Aquele mundo, localizado no ambiente de pós-guerra mundial, o Império Austro-Húngaro destruído, mas – calculo – se esforçando inutilmente por sobreviver, sob aquela camada feérica de alegria fabricada, o que ele poderia oferecer às pessoas? Que questionamentos, que inquietações imporia às mentes?

A alma pressente as graves modificações, embora não a tragamos ao nível consciente. Uma outra Guerra Mundial, muito mais devastadora, pouco a pouco se anuncia. A respeito do mal-estar civilizatório, deixemos falar quem entende do assunto, num excerto do Professor de Antropologia da PUC-SP, Edgard de Assis Carvalho:

“Hans Jonas, em Para uma ética do futuro (1998), afirmou serem necessárias duas tarefas preliminares a ser levadas a cabo por todos os humanos que investem energia libidinal na boa utopia de um mundo menos antropocêntrico e mais ecocêntrico: a primeira, a maximização do conhecimento das consequências de todos os nossos agires, dada a agonia planetária que acomete a todos nós; a segunda, a elaboração de uma forma de conhecimento transdisciplinar, que fosse capaz de conjugar saberes fatuais e saberes axiomáticos.

Para isso, a fabricação do real teria de se pautar pela combinação do intelecto com a emoção, do necessário e do contingente, da harmonia e do caos. Essa modalidade renovada de consciência coletiva, destituída de qualquer intenção prometeica, seria saturada de complexus, ou seja, de agires e fazeres que rejuntariam tudo aquilo que a disjunção cartesiana se incumbiu de separar no plano físico, metafísico e metapolítico. Qualquer sistema vivo passaria, então, a ser entendido como um sistema incompleto, indeterminado, irreversível, sempre marcado pela auto-organização que combina, descombina e recombina a ordem, a desordem, a reorganização.” (in Mal-estar civilizatório e ética da compreensão, acessado em 20/02/2022, < https://www.scielo.br/j/spp/a/f5jBZbXgjFSSwkjhvf75V9H/?lang=pt>)

Nada mais a dizer. Nada mais a considerar.

Apenas uma constatação: pode não ser o melhor de Sándor Márai. Entretanto, este Divórcio em Buda é magnífico. Acima da média. Tenho como certo, suas reverberações serão muito frequentes e poderosas na minha memória de leitor. Assumo o compromisso comigo mesmo e com o leitor: vou fazer deste autor um projeto de leitura.

Concordo, existem leitores para os mais diversos tipos de livros, para as mais diferentes propostas. Esta obra não é exceção. Não agradará a todos, aliás, não existem livros que agradem a todos. Para apreciá-lo, você deverá gostar de enredos que não se focam em ação. História de fundo psicológico, de análise de personagens requerem leitores com estas predisposições.

Não há demérito em se gostar de outras propostas. Que seria do amarelo, se todos gostassem do vermelho?

  

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Resenha nº 183 - A Peste, de Albert Camus

 









 

Título original: La Peste

Autor: Albert Camus

Tradutora: Valerie Rumjanek

Editora: Record

Edição:18ª

Copyright:1947

ISBN:978-85-01-01487-0

Gênero literário: romance

Origem: Literatura francesa

 

 

Albert Camus é um escritor argelino de nacionalidade francesa. Nasceu em 07/11/1913, em Mondovi, Argélia, e faleceu em 04/01/1960, em Villeblevin, França. Um homem de vários talentos: romancista, ensaísta, jornalista, dramaturgo e filósofo. Na sua terra natal, viveu sob o guante da fome, da guerra, da miséria e do sol. Tais referências vão aparecer em toda a sua obra.

Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de 1957, pelo conjunto da obra. Ele era tuberculoso e esta condição, à época uma ameaça real de morte, lhe trouxe a dimensão da falibilidade do ser humano. Como filósofo, Albert integra a corrente existencialista; como escritor, vincula-se ao que se convencionou chamar “estética do absurdo”. Camus sempre defendeu que o melhor modo de filosofar é através da literatura. E o romance, como gênero literário, é o campo mais favorável para tal intento. Como precedentes, dentro da mesma proposta estética, temos Dostoiévski e Franz Kafka; como filiados posteriores, Samuel Beckett e Eugène Ionesco.

Este é a segunda obra de Albert Camus resenhada neste blogue; O Estrangeiro conta com a postagem de número 105. Pretendo ler, em breve, A Queda. Como vê o leitor, este argelino está se tornando um queridinho deste leitor entusiasmado.

A Peste é de 1947, quando a Segunda Guerra Mundial tinha terminado. Os ecos deste conflito, sobretudo na Europa, marcavam forte presença. Como é dito na orelha do livro, edição da Record, que tenho em mãos,

“Com A Peste (1947), Albert Camus tenta a demonstração de um novo cogito cartesiano: ‘Eu me revolto, portanto, nós somos.

Pois a revolta (individual) contra o absurdo é também revolta (coletiva) a favor dos valores que a própria revolta revela.”

Toda a narrativa tem lugar na cidade de Oran, tomada pela epidemia. Clara alegoria da condição humana, pela semelhança desta cidade envolta em peste e a França ocupada da Segunda Guerra Mundial, A Peste nos diz mais do que uma leitura de superfície pode nos dar. Certos traços narrativos, algumas digressões postas na boca de alguns personagens nos levam a estabelecer termos de comparação com a infecção do Nazismo.

Em apenas dois parágrafos iniciais, Camus nos pinta uma cidade em tons neutros, absolutamente normais – cenário da insuspeitada chegada da peste bubônica – exatamente como acontecera na Idade Média:

“Os curiosos acontecimentos que são o objeto desta crônica ocorreram em 194... em Oran. Segundo a opinião geral, estavam deslocados, já que saíam um pouco comum. À primeira vista, Oran é, na verdade, uma cidade comum e não passa de uma prefeitura francesa na costa argelina.

“A própria cidade, vamos admiti-lo, é feia. Com o seu aspecto tranquilo, é preciso algum tempo para se perceber o que a torna diferente de tantas outras cidades comerciais em todas as latitudes. Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas? Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas das flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados. Durante o verão, o sol incendeia as casas muito secas e cobre as paredes de uma poeira cinzenta; então, só é possível viver à sombra das persianas fechadas. No outono, pelo contrário, é um dilúvio de lama. Os dias bonitos só chegam no inverno.” (página 9)

O quadro da cidade, fornecido pelo narrador, me traz à lembrança a modorrenta tranquilidade daquela cidadezinha do filme Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, tranquilidade esta que será drasticamente alterada pelo bizarro ataque dos pássaros. Lá, eram pássaros; aqui, são ratos.

Neste cenário se movimenta o Dr. Bernard Rieux. Aliás, este protagonista-narrador merecerá comentários à parte, nesta resenha.

Como tudo começa:

“Na manhã do dia 16 de abril, o doutor Bernard Rieux saiu do consultório e tropeçou num rato morto, no meio do patamar. No momento, afastou o bicho sem prestar atenção e desceu a escada. Ao chegar, porém, veio-lhe a ideia de que esse rato não estava no lugar devido e voltou para avisar o porteiro. Diante da reação do velho Michel, sentiu melhor o que sua descoberta tinha de insólito. A presença deste rato morto parecera-lhe apenas estranha, enquanto para o porteiro constituía um escândalo. A posição deste último era aliás categórica: não havia ratos na casa. Por mais que o médico lhe garantisse que havia um no patamar do primeiro andar, provavelmente morto, a convicção de Michel permanecia firme. Não havia ratos na casa e era necessário que tivessem trazido este de fora. Em resumo, tratava-se de uma brincadeira.” (página 13)

De fato, o negacionismo tem por base a ignorância.

Como bom escritor que é, Camus só constrói personagens que sejam importantes para sua narrativa. São vários, mas quero destacar dois: o jornalista Raymond Rambert e Jean Tarrou. Ambos acompanharão o protagonista quase até o fim da história e têm, cada um a seu jeito, o que contribuir para o enredo.

Como jornalista, Rambert traz um tom investigativo à narração. Ele está ali para fazer uma matéria sobre a condição de vida dos árabes, enviado por um grande jornal de Paris. Jean Tarrou é um homem introspectivo, “encarregado” de portar os comentários filosóficos do livro.

O narrador nos apresenta Rambert da seguinte forma:

“Na tarde do mesmo dia, Rieux, no início de suas consultas, atendeu um rapaz que lhe disseram ser jornalista e que já viera de manhã. Chamava-se Raymond Rambert. Baixo de estatura, ombros largos, rosto decidido, olhos claros e inteligentes, Rambert vestia roupa esporte e parecia à vontade na vida. Foi direto ao assunto.” (página 16)

Jean Tarrou nos causa outra impressão:

“Às cinco horas, ao sair para novas visitas, o médico encontrou na escada um homem ainda novo, de aspecto pesado, de rosto maciço e cansado, riscado por sobrancelhas espessas. Tinha-o encontrado algumas vezes na casa dos bailarinos espanhóis que moravam no último andar do seu prédio. Jean Tarrou fumava com empenho um cigarro e contemplava as últimas convulsões de um rato que morria.” (página 17)

Pouco a pouco, vão aparecendo ratos mortos em lugares imprevistos. Breve, não são apenas os ratos que morrem; a peste bubônica começa a matar também os habitantes de Oran. Nenhuma categoria, nenhuma classe social é poupada. O Dr. Rieux quase nada pode fazer; as pessoas apresentam nódulos purulentos pelo corpo, notadamente nas virilhas. A febre sobrevém, a secura, a falta de ar. A peste promove verdadeira mudança na disposição dos seres humanos:

“Homens que se julgavam volúveis no amor redescobriram-se constantes. Filho que tinha vivido junto da mãe, mal olhando para ela, depositavam toda a preocupação e angústia numa ruga de seu rosto que lhes povoava a lembrança dessa presença, ainda próxima e já tão distante, que ocupava agora os nossos dias. Na verdade, sofríamos duas vezes: o nosso sofrimento, em primeiro lugar; e em seguida aquele que atribuíamos aos ausentes – filho, esposa ou amante.” (página 66)

Outro personagem absolutamente importante nestes relatos é o padre Paneloux:

“No entanto, onde uns viam a abstração, outros viam a verdade. De fato, o fim do primeiro mês de peste foi obscurecido por recrudescência acentuada da epidemia e um sermão veemente do Padre Paneloux, o jesuíta que assistira o velho Michel no princípio da doença. O padre Paneloux já se havia distinguido por colaborações frequentes no boletim da Sociedade de Geografia de Oran, onde suas reconstituições epigráficas constituíam autoridade. Mas conquistara um auditório mais vasto que o de um especialista ao fazer uma série de conferências sobre o individualismo moderno. Mostrara-se, então, defensor ardoroso de um cristianismo exigente, igualmente distanciado da libertinagem moderna e do obscurantismo dos séculos passados. Nessa ocasião, não poupara duras verdades ao seu auditório. Daí sua reputação.” (página 84)

A Peste segue com sua história sobre a infecção de Oran, pontuando, aqui e ali, discussões muito instigantes entre o padre Paneloux, o próprio narrador Rieux e Tarrou a respeito de questões éticas e religiosas:

“A contradição, aliás, não o assustava, pois tinha dito pouco depois a Tarrou que, certamente, Deus não existia, já que, de outro modo, os padres seriam inúteis. No entanto, por certas reflexões que se seguiram, Tarrou compreendeu que esta filosofia estava estreitamente ligada ao estado de espírito que lhe davam os peditórios frequentes de sua paróquia.” (página 106)

A meu ver, Rieux é um ateu, típico homem da ciência; Tarrou questiona a ideia e a atuação de Deus, de um ponto de vista filosófico. O padre Paneloux, um homem religioso, um sacerdote, que também atua na área da ciência – haja vista sua participação na Sociedade Geográfica de Oran. É portanto, uma tentativa de síntese entre a Religião e a Ciência, sem o “obscurantismo dos séculos passados”.

Como não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe, a partir de certo momento a epidemia vai perdendo força. Não conto como acaba tudo, embora o como acabe não seja importante num romance como este, que ouso chamar de um romance de tese. Isto é, uma obra literária montada para discutir ideias e ideais. No caso, o quão absurda é a existência humana.

Linhas acima, disse que o narrador de Camus mereceria comentários à parte.

De fato, um dos elementos a serem descobertos, durante a história, é quem é o narrador. Sim, porque ele se esconde, nega-se a dar evidências de si. Usa, estrategicamente, a terceira pessoa. Chama a si mesmo de “narrador”:

“Aliás, o narrador, que se revelará no momento oportuno, não disporia de meios para lançar-se nem empreendimento deste gênero se o acaso não o tivesse posto em condições de recolher um certo número de depoimentos e se a força das circunstâncias não o tivesse envolvido em tudo o que pretende relatar. É isso que o autoriza a agir como historiador. É claro que um historiador, mesmo que não passe de um amador, tem sempre documentos. O narrador desta história tem portanto os seus: em primeiro lugar, o seu testemunho; em seguida, o dos outros, já que, pelo seu papel, foi levado a recolher as confidências de todos os personagens desta crônica; e, finalmente, os textos que acabaram caindo em suas mãos. Pretende servir-se deles quando lhe parecer útil e utilizá-los como lhe aprouver.” (página 12)

Este narrador assim constituído, vale-se realmente das anotações de Rambert, o jornalista, mas, principalmente, das observações escritas no caderno de Tarrou.

E por que o narrador de A Peste é instituído desta forma, um narrador confiável, tão ao avesso daquele outro narrador famoso, nada confiável, do nosso Machado de Assis, em Dom Casmurro?

Haverá, sim, um motivo:

“Esta crônica chega ao fim. É tempo de o doutor Bernard Rieux confessar que é o seu autor. Mas, antes de narrar os últimos acontecimentos, ele gostaria, ao menos, de justificar a sua intervenção e fazer compreender por que quis assumir o tom de testemunha objetiva. Ao longo de toda a duração da peste, sua profissão o colocou em condições de ver a maior parte dos seus concidadãos e de recolher os seus sentimentos. Estava, pois, em boa posição para narrar o que tinha visto e ouvido.” (página 263)

Para arrematar, apenas mais uma questão.

A partir de que elementos poderíamos aproximar a epidemia relatada neste livro à invasão nazista da França? Bom, em primeiro lugar, pelo contexto – o livro foi escrito em 1947, sob fortes impressões da Segunda Guerra; o autor já ensaiara em outros livros a sua “estética do absurdo”, um ponto de vista segundo o qual o mundo dos humanos é absurdo.

Mas, há mais. Um trecho que, na minha opinião “cola” fortes imagens dos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau está transcrito abaixo:

“Um pouco depois, contudo, foi preciso procurar outro lugar, tomar outras medidas. Um decreto da prefeitura expropriou os jazigos perpétuos e todos os restos exumados foram encaminhados ao forno crematório. Em breve, tornou-se necessário conduzir os próprios mortos da peste para a cremação. Mas, então, foi preciso utilizar o antigo forno de incineração que se encontrava a leste da cidade, fora das portas. Afastou-se para mais longe o piquete da guarda e um empregado da prefeitura facilitou muito a tarefa das autoridades ao aconselhar o uso dos bondes que antigamente serviam à orla marítima e que se encontravam desativados. Para esse fim, arrumou-se o interior dos veículos retirando os assentos e desviou-se a linha para o forno, que se tornou, assim, uma estação final.” (páginas 157/158)

Não é demais lembrar aqui, os judeus eram constantemente caricaturizados, pelos nazistas, como ratos – raça impura e eliminável. Como acontece, também, na magnífica obra em quadrinhos, ganhadora do Prêmio Pulitzer, Maus (Rato, em alemão).

A Peste é um clássico. Talvez não seja uma obra para leitores iniciantes ou de leitura desatenta. Simplesmente – e aqui vou me apropriar do bordão do resenhista do blog “Bons Livros Para Ler”, Luiz Guilherme de Beaurepaire,

“Um livro que merece destaque na sua estante.”

domingo, 30 de janeiro de 2022

Resenha Nº 182 - Viagem ao redor do meu quarto, de Xavier de Maistre

 



 

Título original: Voyage autour de ma chambre

Autor: Xavier de Maistre

Tradutora: Veresa Moraes

Prefácio: Enrique Vila-Matas

Editora: 34

Copyright: 2020

ISBN: 978-65-5525-029-9

Origem: Ficção francesa

  

 

Xavier de Maistre nasceu em 08/11/1763, em Chambéry (antigo Reino da Sardenha[1]) e faleceu na cidade russa de São Petersburgo, em 12/06/1852. Era membro de uma família da nobreza da Saboia, tendo o pai como presidente do senado local. Joseph, seu irmão mais velho, tornou-se um nome importante no movimento de reação à Revolução Francesa. Ingressou na carreira militar, mas, de início, não obteve significativa ascenção de patente, pois sua área de interesse era literatura, pintura paisagista, balonismo e ciência.

O autor escreveu um relato breve, O leproso da cidade de Aosta, vindo à lume em 1811. Em 1794, Xavier envolveu-se num duelo e, por esta causa, ficou 42 dias recluso em seu quarto, na cidade de Turim, na Itália. Desta experiência nasceu este Viagem ao redor do meu quarto. O escritor desligou-se do serviço militar, viveu um tempo na Itália e, ainda, na Rússia. Escreveu, também, A jovem siberiana e Os prisioneiros do Cáucaso.

A “culpa” por eu chegar a este pequeno volume, um clássico, é inteiramente de um senhor chamado Brás Cubas. Ninguém mais, ninguém menos,  um personagem do nosso querido escritor brasileiro, Machado de Assis.

Com efeito, num famoso “aviso ao leitor”, nosso Machado escreveu:

“Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio.” (grifos meus)

O Sterne, a que Machado se refere, é Laurence Sterne, autor de outro clássico incontornável, A vida e opiniões do cavalheiro Tristram Shandy. O próprio Sterne influenciou Xavier de Maistre – aliás, influenciou outros grandes escritores.

Mas, eu dizia que a “culpa” é do Machado. Sim, pois quando eu li Memórias póstumas de Brás Cubas, fiquei muito curioso para entender quais influências eram aquelas, aludidas de própria pena, pelo escritor brasileiro. Some-se a isto a republicação de Viagem ao redor do meu quarto, em 2020, numa jogada de marketing livreiro, pois o livro fala exatamente das reações de um personagem vivendo uma quarentena em seu quarto, em Turim.

A edição da editora 34 está muito boa; a diagramação é interessante, sem parágrafos justificados, com notas ao texto colocadas no espaço à direita ou esquerda das margens recuadas.

É um livro cujo gênero literário não se deixa enquadrar; ao longo de suas 71 páginas, a narrativa corre com um fiapo de enredo. Não há ações, no plano físico, que impulsionem a leitura. Trata-se de um personagem preso em um quarto, por 42 dias, que usa sua imaginação para vencer o tédio. Entretanto, se fosse só isso, não seria, provavelmente, um clássico. Eis como se inicia:

“Como é glorioso inaugurar uma nova carreira e surgir de repente no mundo letrado, um livro de descobertas à mão, como um cometa inesperado que reluz no espaço!

Não, não guardarei mais meu livro in petto; ei-lo, senhores, leiam-no. Empreendi e levei a cabo uma viagem de quarenta e dois dias ao redor do meu quarto. As observações interessantes que fiz e o prazer contínuo que senti ao longo do caminho me inspiraram o desejo de trazê-lo a público; a certeza de sua utilidade facilitou a decisão. Meu coração saboreia uma satisfação inexprimível quando penso no número infinito de infelizes aos quais ofereço um recurso garantido contra o tédio e um alívio das dores que padecem. O prazer que há em viajar dentro do próprio quarto está a salvo do ciúme inquieto dos homens; ele tampouco está ao sabor da fortuna.” (página 9)

Lá no capítulo 6 o narrador culto deste livro nos dá a conhecer sua teoria de duplicidade constitutiva do ser humano:

“Seria impossível explicar como e por que vim a queimar meus dedos logo aos primeiros passos que dei, quando começava minha viagem, se não explicar antes ao leitor, nos mínimos detalhes, meu sistema da alma e do animal. – Aliás, essa descoberta metafísica tem tanta influência sobre minhas ideias e ações, que seria muito difícil compreender este livro caso eu não oferecesse essa chave já de saída.” (página 15)

E passa a explicar: o ser humano é dividido, composto de uma alma e um animal, completamente distintos um do outro. Justificando-se com Platão, nos diz que

“Aprendi com um antigo professor que Platão (se a memória não me engana) chamava a matéria de o outro. Está bem, mas eu preferiria dar esse nome de preferência ao animal conjugado à nossa alma. Essa substância, sim, é o verdadeiro outro que nos atormenta de maneira tão estranha. Sabe-se, em linhas gerais, que o homem é duplo, uma vez que é composto, segundo dizem, de uma alma e de um corpo, e acusam esse corpo de sabe-se lá quantas coisas; com o que cometem grande erro, pois o corpo é tão incapaz de sentir como de pensar. É contra o animal que devíamos nos voltar, contra esse ser sensível, perfeitamente distinto da alma, verdadeiro indivíduo que tem existência à parte, tem gostos, inclinações, vontade, e que só está acima dos outros animais porque foi mais bem adestrado e provido de órgãos mais perfeitos.” (página 15)

Dentro do que se propõe o narrador instituído por Xavier, o entendimento disto é, de fato, fundamental para se entender como se pode viajar dentro do próprio quarto. Enquanto o corpo fica confinado, a alma lança-se a voos nos campos da memória, do filosofar. O corpo se mexe, ora coleando-se à parede, ora dela se afastando e tocando móveis, explorando recantos.

Talvez não explicitado desta forma, mas este tema já nos deu outras obras literárias, como O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson. O homem duplo faz conviver, como seres completamente distintos, o médico e o monstro. Outro exemplo famoso é O duplo, de Dostoiévski, com seu personagem Golyádkin. As histórias de super-heróis usam e abusam desta mesma duplicidade, apresentando sempre, como seres independentes, o super-herói com seus poderes e seus alter egos, seres comuns, inexpressivos (vejam-se, por exemplo, Super-homem e Clark Kent, Homem-Aranha e Peter Parker).

Do ponto de vista estrutural, a obra possui 42 capítulos, todos bem curtos – um capítulo para cada dia de reclusão. Há também mini capítulos, como o 33, composto de apenas 4 frases; há o capítulo composto por pontos e apenas a expressão “a colina”, deixando espaço para que o leitor, a seu bel-prazer, o complete. Muito parecido fez Machado de Assis, na antes referida obra.  

O narrador culto de Xavier de Maistre pontua o texto com algumas referências do mundo grego:

“Eu me encaminhava insensivelmente para uma dissertação sobre a medicina e seus progressos desde Hipócrates. — perguntava-me se os personagens famosos da Antiguidade que faleceram em seus leitos, como Péricles, Platão, a célebre Aspásia e o próprio Hipócrates, morreram como pessoas comuns, de uma febre pútrida, inflamatória ou verminosa, ou foram sangrados e cevados de remédios.” (página 66)

Para este curioso livro, não há problemas de spoiler. Desde o início, já é dito que tal viagem duraria os exatos 42 dias da detenção. E o excelente final pode ser publicado aqui:

“Entretanto, jamais me dei conta com tanta clareza que sou duplo. — Por mais que lamente meus deleites imaginários, sinto-me forçosamente consolado: uma força secreta me arrasta; ela me diz que preciso do ar e do céu, e que a solidão mais se parece à morte. — Eis-me vestido; – minha porta se abre: — deambulo sob as espaçosas arcadas da via Po — mil fantasmas agradáveis revoluteiam diante dos meus olhos; — Sim, eis aqui esta mansão — esta porta, — esta escada; — estremeço de antemão!

É assim que experimentamos um antegosto ácido, quando cortamos um limão para comer.

Ah, meu animal, meu pobre animal, toma cuidado!” (página 71)

Por este final, o leitor atento verificará mais uma característica deste De Maistre: a forma muito, muito particular como ele usa os travessões – sinais tradicionalmente empregados para a inserção de falas de personagens.

 O autor trafega com facilidade da ironia ao deboche, construindo uma obra que, não é demais dizer, é transgressora. Imaginem um militar, preso em seu quarto por determinação superior. Ele se vinga, como se dissesse: “ok, vocês cercearam a minha liberdade, me atirando a este cômodo; eu reencontro minha liberdade pela minha imaginação!”

A leitura deste opúsculo durou uma sentada, menos que um dia. Diverti-me e, ao mesmo tempo, lamentei por não tê-lo lido durante a pior fase da pandemia. Teria me valido dos caminhos propostos por ele.

Para terminar, penso ser útil transcrever aqui a apreciação do mestre Antônio Cândido:

“Parece claro, portanto, que houve impregnações de Xavier de Maistre na virada narrativa de Machado de Assis, como este sugere na citada nota ao leitor. Talento de envergadura infinitamente superior, ele percebeu que na modesta e encantadora Viagem a teoria do “outro” era um recurso ameno para ilustrar sem pedantismo a complexidade e as contradições do comportamento e da mente. Na sua obra, o automatismo, aqui e noutros lugares, se engrena com um tratamento muito mais rico e expressivo das divisões do ser, mas nem por isso é menor a dívida em relação ao oficial escritor que hoje poucos consideram e alguns chegam a desprezar, como André Gide em certo trecho do Diário, [Diário de um escritor] onde (como se estivesse pensando com acrimónia em Machado de Assis) escreve que nada o irritava mais do que certo espírito convencional “gênero Sterne e Xavier de Maistre”.

Já se disse, parte da explicação do frescor de Viagem ao redor do meu quarto vem de seu autor não desejar mais que se divertir, vencer o tédio. Não sei, opinião é apenas isto: uma opinião. Não temos como invocar a alma de Xavier de Maistre, numa sessão de mesa girante, e exigir-lhe explicações dos seus feitos de escrevente...



[1] Reino da Sardenha: era um estado nacional, na Europa, existente entre 1297 e 1861. Foi legalmente substituído pelo Reino da Itália.

 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Resenha Nº 181 - A Mulher Ruiva, de Orhan Pamuk


    

Título original: Kirmizi Saçh Kadin

Tradutor (do inglês): Luciano Vieira Machado

Copyright: 2016

Edição: 1ª

Editora: TAG/Cia. das Letras

ISBN: 978-85-359-3407-6

Gênero: romance

Origem: literatura turca


 

Ferit Orhan Pamuk nasceu em 07/06/1952, na importante cidade de Istambul (antiga Constantinopla), Turquia. Sua família era abastada, mas em declínio – experiência que ele descreve em alguns dos seus livros, mais especialmente em Istambul: Memórias e a Cidade. Passou pelo Robert College da Turquia e iniciou o curso superior de Arquitetura na Universidade Técnica de Istambul. Entretanto, largou-o três anos após ter começado os estudos. Graduou-se em jornalismo pelo Instituto de Jornalismo da Universidade do mesmo local.

Em 01/03/1982, casou-se com a historiadora Aylin Turegen. De 1985 a 1988, enquanto ela se graduava na Universidade de Colúmbia, EUA, Pamuk conseguiu visitar aquela instituição de ensino superior e utilizou este tempo para escrever seu romance, O Livro Negro.

Algumas obras deste autor: A Casa do Silêncio, O Castelo Branco, O Meu Nome É Vermelho, Neve, Istambul, A Maleta do Meu Pai, O Livro Negro, Outras Cores, O Museu da Inocência, O Romancista Ingênuo e O Sentimental, Uma Sensação Estranha e este A Mulher Ruiva. Todos estes volumes são encontrados em língua portuguesa, com edições da Companhia das Letras.

Não sou muito adepto de traduções indiretas, isto é, tradução de uma tradução. Entretanto, reconheço, encontrar tradutores do turco para o português não é uma tarefa fácil. Por isto, acolho esta tradução do inglês. Ademais, hoje, as traduções contam já com um aparato teórico que as oriente, para que não aconteçam malversações, como nas antigas obras de Dostoiévski. Vertidas do russo para o francês, houve interferência dos tradutores nos textos do autor, no sentido de evitar certas incoerências do autor, e “embelezamento” dos trabalhos.

Orhan Pamuk é o autor, de longe, mais conhecido fora da Turquia; ganhou o prestigioso Prêmio Nobel de Literatura em 2006. Em A Mulher Ruiva, trata-se de um autor maduro, com evidente domínio do fazer literário e já há um tempo eu desejava ler algo dele. Nada melhor do que começar deste livro.

É a história de Cem Çelik, que é o narrador em primeira pessoa na maior parte do romance; na última, entretanto, apesar da manutenção da voz narrativa em primeira pessoa, muda o narrador. Quem assume o posto é Gülcihan, a mulher ruiva do título. O livro tem características de um Bildungsroman – romance de formação – acompanhando Cem dos 16 anos até a idade madura.

A primeira coisa que aguçou minha curiosidade, antes mesmo de iniciar a leitura, foi o nome: por que A Mulher Ruiva? Não sendo spoiler, a resposta pode ser publicada. Esta personagem, importantíssima para o romance de Pamuk, causa desconforto na sociedade turca. Seja pelo seu cabelo ruivo artificial, estranhável por ser raro entre os turcos, seja por ela ser alguém vinculado ao teatro, cujas artistas femininas não eram bem-vistas pela sociedade conservadora.

Cem vai para a cidade de Öngören, onde arranja um trabalho de ajudante de cavador de poços do Mestre Mahmut. Cavar poços fora uma atividade muito requisitada na Turquia, pois não havia qualquer tipo de saneamento básico. O terreno era árido e encontrar água no subsolo possibilitava valorização da terra e o empreendimento de negócios.

Mestre Mahmut torna-se quase como um pai para o jovem. Çelik fora criado pela mãe, sem saber o paradeiro da figura paterna. Mestre Mahmut lhe conta histórias antigas, lendas de apreensão oral. Portanto, uma importante voz da cultura oriental – é fundamental que você, leitor, tenha em mente que a Turquia é um país de cultura muçulmana –, numa Istambul que se ocidentaliza febrilmente. Ele é um dos poucos cavadores de poços que existem.

Eis como nossa história principia:

“Eu queria ser escritor. Mas depois dos acontecimentos que passarei a narrar, estudei geologia e me tornei empreiteiro. Mas os leitores não devem concluir, pelo fato de eu contar a minha história, que agora tudo é coisa do passado, que deixei tudo para trás. Quanto mais penso nela, mais fundo mergulho. Talvez vocês também sigam esse caminho, seduzidos pelo enigma de pais e filhos.” (página 11)

A última frase deste parágrafo de abertura é o alicerce. O caminho apontado pelo narrador, o enigma de pais e filhos, orienta A Mulher Ruiva. Duas referências literárias, nomeadas no correr da narrativa, são basilares: Édipo Rei, clássico de Sófocles, e Shahnameh, outro clássico da cultura da Pérsia, de autoria de Ferdowsi.

Adiantemos um pouco as páginas do livro, a propósito destas duas obras, e transcrevamos um trecho:

“Ler reler a mesma coisa como uma prece me tranquilizava, mas a certa altura percebi que minha mente não reagia da mesma maneira a cada uma das cenas. Ambos os livros eram fundamentais para as culturas que lhes deram origem – de um lado, a Grécia ou o Ocidente, de outro, a Pérsia ou o Oriente –, mas, embora eu os relesse muitas vezes, só conseguia me preocupar com os muitos problemas que seus protagonistas viviam ou com as grandes questões éticas e existenciais que afloravam.” (página 173)

Édipo Rei é uma tragédia grega que trata do destino implacável do jovem Édipo. Há uma profecia, segundo a qual, ele irá matar seu próprio pai e se casará com a própria mãe; como numa boa tragédia, tal destino se cumpre, mesmo sem a intenção do moço. Portanto, é um caso de parricídio.

Shahnameh é uma epopeia pré-islâmica que, entre outras coisas, trata do destino igualmente implacável do valoroso rei-guerreiro Rostam que, por acidente (manobrado pelo destino) acaba matando o jovem Sohrab, numa batalha. Descobre, depois, que o jovem morto era seu filho. Portanto, é um caso de filicídio.

Vimos, então, que Édipo Rei representa a força do Ocidente, enquanto Shahnameh liga-se à força do Oriente. No caso específico da Turquia abordada por Orhan Pamuk, o épico oriental (também é chamado de Épica dos Reis) representa a cultura conservadora, que tenta se manter viva. A tragédia grega representa a força estrangeira e avassaladora do Ocidente. E é esta uma das camadas interpretativas desta obra: Cem Çelik, jovem, empreendedor, reveste-se do novo que chega, enquanto o Mestre Mahmut é a energia da permanência, a voz do passado.

Tanto é verdade que Mahmut representa a cultura conservadora, quanto isto se torna mais evidente no trecho transcrito:

“Onde existe civilização, onde existem cidades e aldeias, tem de haver poços. Não pode haver civilização sem poços, nem poços sem o cavador de poços. E não pode haver aprendiz de cavador de poços que não cumpra as ordens do mestre. Quando descobrirmos água, estaremos ricos. Entendeu?” (página 119)

Dissemos que a mulher ruiva tem papel relevante nesta história. Seu grupo de teatro está em Öngören e, pouco a pouco, o jovem Cem Çelik se apaixona por esta mulher enigmática para ele. Diferente, livre, é assim que ele descreve o que acontece entre os dois:

“Naquela noite, dormi com uma mulher pela primeira vez na vida. Foi importante e foi divino. Minha percepção da vida, das mulheres e de mim mesmo – tudo mudou instantaneamente. A Mulher Ruiva me mostrou quem eu era e o que era a felicidade.

Soube que ela tinha trinta e três anos, portanto tinha vivido quase duas vezes mais do que eu, mas poderia ser dez vezes mais. Naquele dia, não pensei muito em diferenças de idade – ponto que seria de grande interesse e admiração entre meus amigos da escola e da vizinhança. Mas, mesmo enquanto vivia aqueles momentos, já sabia que nunca faria um relato completo deles para ninguém. Mesmo agora, não vou me deter nos detalhes, os quais, ainda que os tivesse revelado, meus amigos teriam descartado como apenas “mentiras.” (página 110)

Cem monta uma empresa imobiliária, com o mesmo nome do personagem morto da Shahnameh, Sohrab; tem informações privilegiadas de amigos e adquire terrenos a serem muito valorizados pela urbanização galopante. Constrói prédios com várias unidades habitacionais e ganha muito dinheiro. Casa-se com Ayse. Formam um casal quase feliz. O que lhes falta para serem plenamente felizes? Um filho. Ayse é estéril.

Outro dado importante, a certa altura do romance, Çelik próspero e casado, recebe uma notícia-bomba: ele tem um filho.

“Sr. Cem,

Gostaria de poder respeitá-lo; o senhor é meu pai.

A Sohrab passou dos limites em Öngören.

Sendo seu filho, quis adverti-lo.

Escreva para mim neste endereço, que vou explicar tudo.

Não tenha medo de seu filho.

Enver.” (página 212)

Fruto de uma única relação, numa noite dentro de sua memória, ele descobre ter tido um filho de nome Enver. Sim, Gülcihan, a Mulher Ruiva, é a mãe do seu filho. O passado se intromete poderosamente no presente. O destino implacável move suas teias e se completa.

“A vida imita o mito!”, disse, em tom apaixonado. “Você não concorda?”

“Concordo”, disse Ayse, educadamente.” (página 287)

Este diálogo entre Gülcihan e Ayse, eu deixo como uma pimenta para aguçar sua vontade ler este magnífico romance, meu caro leitor. Não posso dizer mais do que isto, estragaria sua leitura e é exatamente o não desejado.

Ok, sei da sua disposição de ler o livro; por isso, dou-lhe de presente outra citação. Uma interpretação diferente da usual, do que desencadeia Édipo Rei e Shahnameh:

“Visto que ambos agiram num acesso de raiva, será que Édipo, que matou o pai, e Rostam, que matou o filho, podiam ser considerados inocentes? Os antigos gregos que assistiam à peça de Sófocles decerto acreditavam que o maior crime de Édipo não fora matar o pai, mas rebelar-se contra o destino que Deus lhe reservara – exatamente como mestre Mahmut dissera tantos anos atrás. Da mesma forma, o verdadeiro pecado de Rostam não foi o filicídio, mas gerar um filho numa noite de paixão e deixar de cumprir seus deveres paternos.” (página 168)

Desta forma, desloca-se Édipo Rei da compulsão de matar o pai e desloca-se Shahnameh da compulsão de matar o filho e unem-se, ambas as obras, a um único gatilho: a punição pela rebeldia, pelo não cumprimento dos papéis atribuídos.

Sensacional este A Mulher Ruiva. Lamento muito não poder comentar a história toda. Estou em grande expectativa para continuar lendo Orhan Pamuk. A próxima obra será Neve. 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Resenha Nº 180 - Anos de Chumbo e Outros Contos, de Chico Buarque de Hollanda

 

Titulo: Anos de Chumbo

Autor: Chico Buarque

Editora: Companhia das Letras

Copyright: 2021

ISBN: 978-65-5921-307-8

Gênero literário: Contos

Origem: literatura brasileira



 

Francisco Buarque de Hollanda nasceu em 19/07/1944, na então capital do Brasil, Rio de Janeiro. Compositor, cantor e escritor, é irmão das também cantoras Miúcha, Ana de Hollanda e Cristina. Chico – apelido pelo qual é conhecido – é um artista multifacetado. Sua discografia conta com mais de oitenta músicas e ele venceu o antigo Festival de Música Popular Brasileira, com a icônica A Banda.

Como escritor, Chico é autor de Estorvo (Prêmio Jabuti, 1992), Benjamim, Budapeste (Prêmio Jabuti, 2004), Leite Derramado (Prêmio Jabuti, 2010), O Irmão Alemão, Essa Gente. Pelo conjunto da obra, o autor levou o Prêmio Camões, em 2019. Seu livro mais recente é um livro de contos, Anos de Chumbo.

Anos de Chumbo e outros contos é a obra resenhada aqui. Tem oito textos: Meu Tio, O passaporte, Os Primos de Campos, Cida, Copacabana, Para Clarice Lispector com Candura, O Sítio e Anos de Chumbo. Nesta obra – como nas outras – está estampada a visão engajada com que este autor compõe suas histórias.

Em Meu Tio prevalece a crítica à hipócrita família brasileira, que acoberta um caso de abuso sexual da menor, protagonista do conto, por seu tio. Tudo acontece com o conhecimento e aquiescência da mãe e do pai:

“Meu tio veio me buscar em casa com seu carro novo. Ele não costumava subir, mas dessa vez trazia uma encomenda para a minha mãe. Como sempre acontece nessas situações, papai fingiu que estava dormindo no quarto. Mamãe recebeu meu tio com dois beijinhos, ofereceu café, água, pão de queijo, mas lá em casa ele ficava irrequieto, não se instalava. Os beijinhos da chegada já valeram como despedida, e mal tive tempo de catar a bolsa. Meu tio parecia menor sem os óculos escuros, que só tirou para descer os dois lances de escada de lâmpadas quebradas. Reclamou do elevador que vive enguiçado, mas até o fim do ano pretendia nos mudar para um apartamento melhor.” (páginas 11/12)

O Passaporte aborda um grande artista que chega ao Aeroporto Tom Jobim e esquece seu documento sobre a pia do banheiro. Volta ao mictório para reavê-lo; numa passagem-síntese, o artista é mostrado como alguém em decadência:

“O passaporte não estava no cubículo, e sem saber o que fazer, o grande artista se olhou no espelho bem no momento em que estava envelhecendo. Pensou na humilhação de depender de um acompanhante nas próximas viagens, por incapaz de cuidar de seus papéis e se arranjar sozinho. Pensou nos filhos, que mesmo com pena dele, tinham seus próprios filhos e a vida para levar. Pensou nas mulheres que o amaram num passado próximo e que hoje talvez preferissem não ser vistas em sua companhia. Mas ao sair para o saguão atrás do funcionário com o cadeirante, se convenceu de ser um homem de sorte. Deu de barato que alguma boa alma, porventura um passageiro do seu voo que encontrasse o passaporte, o confiaria a um comissário da companhia aérea no portão de embarque.” (Página 30)

Os primos de campos nos coloca no centro do preconceito racial, num país em que, com poucas exceções, temos o sangue africano circulando nas nossas veias:

“Nunca mais me ocupei disso até ver a foto do caçula no colo da mãe, seus traços tão sedentários do meu irmão, para quem os primos são afrodescendentes, segundo minha namorada, que já publicou no jornal do grêmio estudantil um artigo sobre a negritude. Confesso a mim mesmo que por um instante vacilei, mas agora posso lhe jurar que ter primos-irmãos afrodescendente é motivo de orgulho para mim. Ela acha graça e diz que não poderia ser de outra maneira, pois em boa medida afrodescendente eu também sou. Não sei, as pessoas costumam dizer que sou a cara do meu irmão, que por sua vez é igual à minha mãe, com seus cabelos lisos e alourados.” (página 63/64)

Em Cida, a personagem central é uma mulher em situação de rua – como se atenua hoje – completamente sem noção. Mistura fatos, tem uma visão bastante peculiar das pessoas que a cercam:

“Por um bom tempo a Cida encasquetou que eu era um agente secreto. Ao me ver chegando ela fugia com a caixa de sapatos debaixo do braço para se esconder atrás dos carros estacionados na praça. Depois passou a me ignorar, período em que deu para se pintar; usava batom, blush, esmalte de unhas, bobes de cabelo, e descobriu um balde para escovar os dentes com água do canal. Ao mesmo tempo foi corrigindo a postura acorcundada, a cabeça baixa, o modo de olhar sem ver, e um dia me parou para dizer que, apesar de ser político, eu tinha jeito de bom pai. Eu tinha cara de quem amaria o seu futuro filho, o levaria para morar num apartamento alto e lhe ensinaria bons modos. Expliquei que eu era casado, não podia fazer filho nela, mas não era isso que ela queria. Ela queria que eu criasse o filho que ela trazia na barriga, e bem que eu já a tinha achado meio pançuda.” (páginas 77/78)

Copacabana é o conto mais curto do livro. Nele, o tom é o do non sense; um narrador nos conta fantasias que só se passam em sua cabeça. Envolve, no mesmo texto, Walt Disney com Pablo Neruda, passando, de quebra, por Jorge Luís Borges:

“Relembrar a juventude é como olhar dentro de um poço, e da última vez em que estive numa avenida Atlântica cheia de gente esquisita, minha cabeça rodou e vi tudo preto. Busquei abrigo no Copacabana Palace, onde Pablo Neruda me contou que Romy Schneider também tinha síndrome do pânico. Tudo começou quando ela descobriu que o tio Adolfo, que a sentava no colo e beijava suas bochechas de criança, outro não era senão Adolf Hitler, íntimo de sua mãe. Daí compreendi o ar angustiado com que ela me pediu um cigarro na piscina do hotel.” (páginas 95/96)

Num vídeo do YouTube, numa entrevista, Chico Buarque nos fala de uma conversa que ele teve com a escritora Clarice Lispector. Ele declara, a certa altura, que não entendia aquela mulher.

Em Para Clarice Lispector com candura, ele presta uma homenagem à escritora. O narrador nos conta sobre um escritor incipiente que envia seus originais para Clarice, que deverá fazer uma apreciação do trabalho. A homenagem procede, pois, neste ato; o autor iniciante, um poeta, a tem como referência:

“Numa folha à parte, encaminhou um poema de recente feitura, acreditando que Clarice Lispector, se escrevesse em versos, o assinaria com gosto. Na falta de resposta, dias mais tarde telefonou para ela, que após nove toques atendeu pedindo perdão mas não podia interromper sua tarefa. Seus erres franceses soaram mais ríspidos que o habitual, mas nem por isso ele se acabrunhou: nutria o sonho de um dia ser ele a publicar um livro e imaginava o estado de nervos de que se confronta com um reles revisor para impor sua sintaxe, sua pontuação peculiar, seu direito de escrever errado.” (páginas 113/114)

O Sítio é o penúltimo trabalho que compõe o livro. Nele, um casal classe média se isola do mundo – vai passar algum tempo num sítio. Apesar da paisagem bonita, com cachoeira, logo a incompatibilidade entre os dois se torna visível.

O caseiro é um personagem quase fantasmagórico, ou, pelo menos, alguém parece que saído de um filme de terror: não tem um braço (a manga direita pende, vazia), e “fartas marcas de varíola lhe davam um rosto sem contornos” (página 129). Vive sozinho.

O sinal do celular ali não chega bem. É preciso subir ao telhado para conseguir uma ligação:

“Logo o vulto segue sua escalada de galho em galho, e quando ela desfalece a meu lado, vou lá fora ter com o caseiro. Ele está falando sozinho, sentado no topo do telhado, e ao me ver desce pelo outro flamboyant nos fundos da casa. Traz um celular no bolso da jaqueta e parece nervoso quando o interpelo, pois desata a falar comendo as palavras, explicando que somente no telhado tem sinal de telefone para se comunicar com o primo.” (página135)

Em Anos de Chumbo, há um menino com paralisia infantil. Tendo a mobilidade prejudicada, e sofrendo bullying, ele prefere ficar em casa, brincando com soldadinhos de chumbo que ganhara de presente. Luís Haroldo é seu amigo e os pais dele visitam sua família, sendo as figuras paternas, ambas, militares.

 

“É possível que tais maledicências tenham chegado aos ouvidos do major. Sem explicações ele deixou de vir tomar seu uísque com meu pai, o que não o impedia de ver minha mãe toda semana. O Luiz Haroldo deve ter precavido o pai contra a comida da casa, pois nessas visitas ele mandava vir jantares e vinhos de bons restaurantes. Eu também me servia dessas iguarias, com exceção do vinho e dos queijos mofados, e ficava por ali até minha mãe me mandar para a cama.” (Página 161)

O projeto gráfico do livro lembra bem aquelas edições antigas, com lombada confeccionada em pano, complementada por capa dura e cinza. Anos de Chumbo não é uma obra para se ler apenas na superfície; o tom dos textos é de quem apenas relata o que vê. Isto, e mais a estrutura do gênero conto – textos curtos, com camadas mais internas de significado – pode representar alguma dificuldade.

Trata-se de uma sociedade disfuncional. A conivência da família quanto ao abuso da menor, em Meu Tio, o delírio de quem se vacina contra a dura realidade, em Copacabana e Cida, ou de quem sabe que seu sonho não sairá do papel, em Para Clarice Lispector com Candura, o preconceito de cor, o distrato de uma classe social mais baixa, em Os Primos de Campos, a perda da identidade em O Passaporte, a ameaça de um mundo externo (pandemia) em O Sítio e, sobretudo, em Anos de Chumbo tornam a obra bastante contemporânea. Os implícitos do último conto não podem ser inteiramente compreendidos pelo menino semiparalítico, que no seu discurso ingênuo, os revela aos leitores. Tais implícitos não serão, óbvio, circunscritos à ditadura militar. Eles encharcam o mundo atual

Anos de Chumbo foram aqueles, do golpe militar, mas são também estes tempos, em que vivemos. Afinal, a sociedade não mudou tanto que não possa abrigar as mesmas disfuncionalidades.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Resenha Nº 179 - O Tenente Quetange, de Iúri N. Tyniánov

 



Título em português: O Tenente Quetange

Título original em russo: Podporútchik Kije

Autor: I. N. Tyniánov

Tradutora: Aurora Bernardini

Edição: s/n

Editora: Cosac & Naify

Copyright: 2002

ISBN: 85-7503-163-5

Gênero literário: Novela

Origem: literatura russa

 

Iúri Nikoláievitch Tyniánov é muito conhecido nos meios acadêmicos da Literatura. Foi um importante componente da chamada Escola dos Formalistas Russos, também conhecida como crítica formalista. Creio que não será demais, para quem não frequente este meio, dar algumas informações pertinentes.

Os formalistas russos inauguraram uma escola teórica. Como o nome o sugere, para eles a forma dos textos não podia ser deixada de lado, indo contribuir poderosamente para a interpretação textual. Não podemos reconhecer este movimento com algo coeso, com uma proposta única.

Dois princípios orientavam estes estudiosos: “literatura, por ela mesma, ou especialmente, as características que a distinguem de outras atividades humanas devem constituir o objeto de inquisição da teoria literária”; em segundo lugar, “fatos literários têm de ser priorizados sobre os compromissos metafísicos da crítica literária (sejam filosóficos, estéticos ou psicológicos)”.

Em suma, toda a teorização literária deve emergir dos próprios objetos de estudo, a saber, a literatura. Um formalista russo, portanto, olha para o texto a sua frente e tira dele as implicações teóricas como contributo para o estudo da literatura.

Tyniánov nasceu em 06/10/1894, na cidade de Rêzekne, e faleceu em 20/12/1943, em Moscou. Formou-se pela Universidade de Petrograd, em 1918, e publicou seu primeiro livro, junto com outro célebre formalista, Roman Jakobson, em 1921.

O autor publicou, além de estudos teóricos, romances históricos, como por exemplo, La jeunesse de Pouchkine – A juventude de Púchkin. Este O Tenente Quetange é de 1928, inserindo-se esta mesma novela, numa das geniais categorizações dos formalistas russos, como é o estranhamento. Aqui, devo abrir outra explicação para este termo.

Por estranhamento compreende-se o efeito criado na obra literária para nos distanciar do modo comum de recepcionarmos o texto e a própria arte, pelo efeito de um deslocamento, produzindo em nós a sensação do estranho. Não sei se ficou claro, mas Clarice Lispector é uma escritora brasileira cuja escrita pode nos dar um bom exemplo desta categoria. Ao lermos seus textos, muitas vezes, temos de lê-los outra e outra vez, porque não conseguimos entender seus escritos. A Metamorfose, de Kafka, é outro exemplo: um homem amanhecer transformado em um inseto?! O significado deste fato não pode ser apanhado na superfície da nossa construção de sentido. Teremos de executar um esforço e ir buscar sentido nas camadas mais profundas do que lemos.

Isto posto, vamos ao livro, propriamente. Assim se inicia a novela:

“O Imperador Pável estava cochilando diante de uma janela aberta. Depois do almoço, enquanto a comida travava uma demorada luta com seu corpo, era proibido qualquer tipo de perturbação. Ele cochilava sentado numa poltrona de espaldar alto, cercada atrás e nas laterais por um biombo de vidro. Pável Petróvitch sonhava sua costumeira sesta vespertina.” (página 25)

Pável I (ou Paulo I) – Czar da Rússia – é uma pessoa real, histórica. Sobre ele, dividem-se as opiniões sobre suas inconstâncias: ou ele era um deficiente mental, não tinha percepção do que fazia, ou era um inconsequente, tendo consciência, mas não se importando com as consequências dos seus atos. De qualquer forma, um problema para a então Rússia czarista.

O enredo deste O Tenente Quetange é mínimo, mas genial: baseia-se num erro de redação oficial. É que certo escrivão militar erra ao transcrever o teor de uma ordem-do-dia. Melhor deixar o narrador de Tyniánov nos contar todo o imbróglio:

“Na primeira cópia havia cometido dois erros: o Tenente Siniukháiev era dado como morto no lugar do finado Major Sokolov, cujo nome aparecia imediatamente antes, e, além disso, havia incorrido, sem querer, no seguinte absurdo: em vez de escrever a propósito de certa promoção, “a nomeação para Tenentes que tange a Stíven, Rybin e Azantchéiev foi determinada”, ele escrevera: “a nomeação para Tenentes Quetange, Stíven, Rybin e Azatchéiev foi determinada...” Enquanto escrevia a palavra “Tenentes” tinha entrado um oficial e ele se levantou imediatamente para bater continência, parando justamente aí, depois tornou a sentar-se para a ordem-do-dia, confundiu-se e escreveu: “Tenente Quetange”. (página 27/28)

Estes dois erros são cruciais para a narrativa de O Tenente Quetange. De um lado, um vivo é considerado morto; de outro, um ser inexistente é considerado vivo, ambos por um simples ato normativo.

O sarcasmo do narrador de Tyniánov reveste seu texto, seus personagens e os fatos a que alude. Quando o ex-Tenente Siniukháiev, destituído do seu cargo, pois era considerado morto pela ordem-do-dia, toma consciência do seu novo status, sua reação é bizarra:

“Ao ouvir a ordem-do-dia, ele a princípio ficou parado no lugar, como se não tivesse ouvido bem. Pôs-se a remoer as palavras. Daí, não teve mais dúvidas. Referiam-se a ele. E quando sua fileira moveu-se, ele começou a duvidar se estava mesmo vivo.” (página 40)

Ordens-do-dia são ordens, não se discutem. Numa aparente lógica, se não se pode duvidar de ordens superiores, então o fato estava posto, irremediável, concreto: Siniukháiev deveria considerar-se morto.

Mas, sigamos. Aquele bendito documento tinha parado, mesmo com o erro crasso nas informações, na mesa do Imperador Pável I, que o assina, incontinenti. A partir daquele momento, com o reforço de uma assinatura do próprio Czar, o Tenente Quetange passa a existir na narrativa.

Antes desta trama, alguém não identificado havia gritado “Socorro!” à janela do Imperador. Ele move seus seguranças para identificar quem o houvera assustado. Apertados, os homens de Pável jogam a culpa naquele Tenente Quetange, cujo paradeiro e informações pessoais ninguém sabia.

Um ato do Czar manda dar chibatadas no infeliz tenente e o manda para a penitenciária na Sibéria por desacato imperial. Simplesmente, os soldados de Sua Majestade “cumprem” as ordens, participando de um teatro do absurdo; “dão as chicotadas prescritas” e o “conduzem” amarrado à Sibéria.  Desta forma, o nosso incontornável tenente ganha uma biografia e consistência.

Toda esta situação bizarra – efeito de estranhamento – posto no texto, nos faz buscar o sentido na camada mais profunda, pois na leitura superficial, não se sustenta. Como posso entender que uma situação assim se propague, não apareça ninguém para denunciar o erro, ninguém para desdizer a existência de tal figura, alguém para comprovar que tal morto está vivinho da silva?

A história passa a fazer sentido, se lida na chave da crítica, do sarcasmo ao estabelecido. E, como no famoso A Revolução dos Bichos, de George Orwell, sob as camadas do alegórico está o texto entremostrado.

Fico impressionado ao saber que esta narrativa circulou livremente sob a ditadura de Stálin, nas terras russas. A crítica a Pável I e sua corte subserviente, afinal, facilmente se estende a Stálin e seus comandados subservientes. É, portanto, um texto altamente subversivo, um deboche sobre o poder exercido por um homem só, sobre sobre pessoas subservientes, burocráticas e cheias de maneirismos franceses para arrotar uma cultura que não têm.

Na minha opinião, isto se dá exatamente pela presença do estranhamento, a categoria anotada pelos formalistas russos. Este já é um texto alegórico, e a característica apontada o deixa ainda mais estranho na leitura superficial. Agora, pensem comigo: na pressa de julgar uma montanha de textos como apropriados ou não ao consumo popular, este O Tenente Quetange teria passado pela censura stalinista.

Coisa semelhante se deu aqui, no Brasil, à época da ditadura militar: os compositores de várias músicas apelaram para o significado posto em camadas mais profundas de suas letras para passarem o recado.

Esta postagem está sendo publicada após uma releitura. Entre a primeira e a segunda leitura, alguns meses se passaram. E a nova degustação se fez muita mais prazerosa.

É um volume pequeno, de apenas 96 páginas, com um quase-prefácio de Bóris Schnaiderman, de onde tirei vários dados de contextualização. É uma edição – da qual me declaro orgulhoso proprietário – da saudosa Editora Cosac & Naify.

Encerrando esta resenha, não poderia deixar de abordar um aspecto da tradução de Aurora Bernardini, apontada, inclusive, por Bóris Schnaiderman. Nos outros países em que houve esta obra vertida para a língua nacional, optou-se por traduzir o nome da obra: O Tenente Kije. Isto porque, em russo, o termo que estabelece a confusão na ordem-do-dia é precisamente kije – entendido como nome do militar.

A tradutora da língua portuguesa foi além, numa criativa adaptação; ao invés de manter aquele Kije, optou por adaptá-lo para Quetange, criando um possível sobrenome, e, ao mesmo tempo, unindo as duas palavras que e tange (do verbo tanger, tocar, fazer referência). Sorte nossa ter uma tradutora com tal sensibilidade linguística.