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sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Resenha nº 173 - Notas para uma definição do leitor ideal, de Alberto Manguel

 

 




Título: Notas Para Uma Definição Do Leitor Ideal

Autor: Alberto Manguel

Tradutores: Rubia Goldoni e Sérgio Molina

Editora: SESC

Copyright: 2020

ISBN: 978-65-86111-19-4

Gênero: Ensaios


 

Este é o terceiro livro de Alberto Manguel que resenho neste blogue. Os anteriores são: A Biblioteca à noite e O leitor como metáfora. O leitor poderá até me questionar por que, aparentemente, gosto tanto deste autor, não sendo ele um ficcionista. Não espero que minha resposta o convença, meu caro amigo.

Alberto Manguel diz coisas muito pertinentes, este o meu primeiro motivo. Ele fala sobre livros e leitura com bastante amplitude de visão, este o meu segundo. E, se houver necessidade de um terceiro, Manguel escreve muito, muito bem; sempre aprendo alguma coisa com ele.

Isto posto, vamos ao livro. É um conjunto de ensaios sobre livros – reunião de ensaios proferidos em tempos e circunstâncias diferentes. De um tempo para cá, quando vou fazendo minha leitura, com o hábito definitivamente estabelecido de resenhá-la, vou colando post-its contendo várias observações. Não gosto de rabiscar meus livros, nem mesmo com lápis. Por si só, isto já evidencia meu apreço pelo objeto livro. Dou-me ao luxo de fazer anotações a caneta, sem estragar os livros.

No presente caso, vou optar por transcrever várias destas passagens interessantes da obra. Alberto Manguel foi leitor de um ícone da ficção, Jorge Luís Borges. Foi diretor da Biblioteca Nacional da Argentina.

Sem mais delongas, comecemos, pois.

“É verdade: num desconcertante jogo de espelhos, todas as palavras utilizadas para definir uma determinada palavra num dicionário qualquer devem, elas mesmas, estar definidas nesse mesmo dicionário. Se somos, conforme acredito, a língua que falamos, os dicionários são nossas biografias.” (Elogio ao dicionário, página 33)

“Desde o tempo de Gilgamesh, os escritores sempre se queixaram da mesquinharia dos leitores e da avareza dos editores. E no entanto, todo escritor encontra, ao longo de sua carreira, alguns notáveis leitores e alguns generosos editores. ‘Vendi sete exemplares’, diz o protagonista de Nightmare Abbey, de Thomas Love Peacock. ‘Sete é um número místico, e o augúrio é excelente. Se eu encontrar os sete leitores que compraram meus sete exemplares, serão como sete candelabros de ouro com que iluminarei o mundo inteiro.” (Autor, editor, leitor, página 39)

“Se a encadernação artesanal, ainda hoje, dá a um livro uma identidade única e particular, as capas impressas, sobretudo a partir do século XIX, passam a ilusão de uma uniformidade democrática. Curiosamente, porém, essa mesma uniformidade pode dar a um livro uma nova vida. Com outra capa, com outro design, certo texto torna-se original.” (Breve história das capas, página 43)

“Até que, em 1566, Aldo Manuzio, o jovem neto do grande impressor veneziano a quem devemos a invenção do livro de bolso, definiu o ponto no seu manual da pontuação, o Interpugendi ratio. Com seu latim claro e inequívoco, Manuzio descreveu pela primeira vez seu papel e aspecto definitivo. Pensava preparar um manual para tipógrafos, não tinha como saber que estava legando a nós, futuros leitores, os dons do sentido e da música para toda a literatura posterior: Hemingway e seus staccati, Becket e seus recitativos, Proust e seus longos sostenuti.” (O ponto, página 46)

“Todo leitor se reflete em suas leituras de duas maneiras. Primeiro, porque a escolha dos títulos e a ordem em que se encontram revelam a lógica e a estética do leitor; segundo, porque as páginas obviamente lidas, marcadas com sinais e observações, apontam trechos em que esse leitor sentiu sua própria voz, suas próprias alegrias e temores, descobertos e traduzidos por palavras.” (Censura e sociedade, página 49)

“A sociedade de consumo não tolera os leitores, os verdadeiros leitores; quer apenas leitores diletantes, consumidores da papinha de bebê, pessoas convencidas de que não são suficientemente inteligentes para ler a chamada literatura séria. Essa é outra forma de censurar os livros: fazer-nos acreditar que não os merecemos.” (Censura e sociedade, página 50)

“Todo leitor, em geral, quando criança, faz uma descoberta fundamental: que o lobo que ameaça Chapeuzinho é e, ao mesmo tempo, não é um animal feroz e real, que Chapeuzinho é e, ao mesmo tempo, não é o próprio leitor que segue pela página, que o lenhador que resgata a menina é e, ao mesmo tempo, não é uma promessa de redenção. Esse entendimento duplo do mundo, essa descoberta de que a inteligência e a imaginação de cada um de nós são os instrumentos mais preciosos para desentranhar o mundo que nos rodeia, essa revelação que nos é dada através de palavras que narram uma história inventada, mas que sabemos nossa, concreta e verdadeira, isso é algo que só os livros, magicamente, podem nos dar.” (Censura e sociedade, página 55)

“A saga do boneco é a da educação de um cidadão, o velho paradoxo da pessoa que quer ser aceita na sociedade normal enquanto, ao mesmo tempo, tenta descobrir quem ela é na verdade, não como parece aos olhos dos outros, mas aos seus próprios. Pinóquio quer ser um menino de verdade, mas não um menino qualquer, não uma versão obediente e em miniatura do cidadão ideal. Pinóquio quer ser o que ele é por baixo da madeira pintada.” (Como Pinóquio aprendeu a ler, página 58)

“A linguagem pode permitir ao falante permanecer na superfície do pensamento, repetindo lemas dogmáticos e lugares-comuns em branco e preto, transmitindo mensagens em vez de significados, pondo o peso epistemológico no ouvinte (como na frase “você sabe do que estou falando”). Ou pode ajudá-lo a recriar uma experiência, dar forma a uma ideia, explorar profundamente, e não apenas na superfície, a intuição de uma revelação.” (Como Pinóquio aprendeu a ler, página 61)

“Há um feroz paradoxo no seio de todo sistema escolar. Uma sociedade deve transmitir a seus cidadãos o conhecimento dos códigos que a regem, de modo que todos possam participar ativamente dela; mas o conhecimento desses códigos, além da mera capacidade de decifrar um slogan político, um anúncio publicitário ou um manual de instruções, permite a esses mesmos cidadãos questionarem a sociedade, exporem seus males e buscarem uma mudança.” (Como Pinóquio aprendeu a ler, página 65)

“É notoriamente sabido que Cervantes afirma que sua invenção é uma tentativa de acabar com as tolices difundidas pelos livros de cavalaria, histórias, diz ele, “fingidas e desatinadas”. Não sabemos se ele atingiu esse declarado propósito: afinal, o que são Batman e o Homem-Aranha senão êmulos do Cavaleiro da Ardente Espada e de Florismarte de Hircânia? O que sabemos, sim, é que sua criação superou essa tentativa moralizante e escapou dela, o que faz de D. Quixote muito mais que uma paródia de má literatura.” (A leitura como ato fundador, página 72)

“A tarefa infinita do leitor, que é percorrer a biblioteca universal em busca de um texto que o defina e subvertê-lo, multiplica-se (se é que o infinito pode se multiplicar) quando esse leitor assume sua condição de tradutor. Então todo texto resgatado da página se desdobra numa miríade de outros, transformados nos vocabulários desse leitor, redefinidos em outros contextos, outras experiências, outras memórias ordenadas em outras estantes.” (A outra escrita, página 78)

“O reverso do mito de Babel é o reconhecimento de que viver juntos implica utilizar a linguagem para conviver, já que é uma função que exige tanto a consciência de si mesmo como a consciência do outro, entender que há um eu que transmite a informação a um tu para dizer “Este sou eu, é assim que eu te vejo, estas são as normas e os acordos que nos mantêm unidos através do espaço e acima do tempo.” (A construção da torre de Babel, página 154)

“Há três tipos de leitores: primeiro, o que desfruta sem julgar; terceiro, o que julga sem desfrutar, entre os dois, o que julga enquanto desfruta e desfruta enquanto julga. Esse último tipo recria a obra de arte de forma nova e verdadeira; não forma um grupo numeroso." (Goethe, em carta a Johann Friedrich Rochlitz, páginas 165/166)

Alberto Manguel é, ele mesmo, meu modelo de leitor. Consegue tirar ilações usando a obra que tem em mãos, a um tempo, extrapolando-a e respeitando-a. Afinal, como nos dizia outro autor sensacional, o semiólogo Umberto Eco, o bom leitor respeita os limites do texto. Em outras palavras, não serve qualquer construção de raciocínio interpretativo, mas sim aquele que guarda o princípio de coerência.

Complexa questão que vai muito além do que propunham os formalistas russos, para quem a interpretação deveria estar estritamente orientada pela forma. Há o contexto. Entretanto, magicamente, o bom leitor articula conhecimentos contextualizados, autorizados pelo texto que lê.

Para quem considera as complexidades do fenômeno da leitura, este Notas para uma definição do leitor ideal, de Alberto Manguel, é mais uma pérola de reflexão sobre o ato de ler.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Resenha nº 172 - A Revolução dos Bichos, de George Orwell

 



Título: A Revolução dos Bichos

Título original: Animal Farm

Autor: George Orwell

Tradutor: Fábio Bonillo

Editora: Gutenberg/TAG

Copyright: 2021

ISBN: 978-65-86553-43-7

Literatura inglesa


Uma fábula do século XX. Numa época em que o gênero literário parecia superado, eis que Eric Arthur Blair – mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell – nascido na Índia Britânica vai contra as tendências e nos dá uma fábula.

Mas, o que seria uma fábula? Bem, é um gênero textual em que personagens são animais. A estrutura narrativa é simples e direta e visa a transmitir uma mensagem, um conselho ou uma moral. Seus personagens não costumam ser complexos, assemelhando-se a tipos.

E é aí que está o pulo do gato – perdoem-me a associação fabulística – deste A Revolução dos Bichos. São poucas as vezes que podemos ver tão claramente um projeto literário sendo posto em prática:

“Ao retornar da Espanha, pensei em expor o mito soviético em uma história que pudesse ser facilmente entendida por quase qualquer um e que pudesse ser facilmente traduzida para outros idiomas. No entanto, por algum tempo, os próprios detalhes da história não me ocorreram, até que um dia (eu então vivia numa pequena aldeia) vi um garotinho, de talvez dez anos de idade, conduzido uma enorme carroça por um caminho estreito, açoitando o cavalo sempre que tentava virar. Ocorreu-me que, se calhasse de os animais se tornarem cientes da própria força, nós não teríamos poder sobre eles, e que os homens exploram os animais de maneira muito parecida com a maneira como os ricos exploram o proletariado.” (prefácio, página 10/11)

E Orwell segue, nos dando notícia de ter procedido a uma análise da teoria de Marx do ponto de vista dos animais. Completa, ressaltando a semelhança com a história real da Revolução Russa.

A Revolução dos Bichos se inicia nos dando notícia de uma importante reunião dos bichos da Fazenda Manor, sob o comando do Sr. Jones. Ele esquecera de trancar as portinholas dos galinheiros. Estava muito bêbado para isto. Todos os animais foram convocados pelo velho Major, um porco de aparência majestosa, sábio e benevolente. Os bichos foram chegando e se acomodaram dentro daquele grande celeiro.

Começa seu discurso constituindo-se como portador de sabedoria, tendo tido uma vida longa e experiências várias. Teve tempo para refletir sobre a situação dos humanos e dos animais e chegara a importantes conclusões, a serem partilhadas com seus confrades:

“O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Ele não dá leite, ele não põe ovos, ele é fraco demais para conduzir o arado, ele não corre rápido o bastante para apanhar coelhos. Contudo, ele é o senhor de todos os animais. Ele os põe para trabalhar, ele lhes restitui o mínimo para impedir que morram de fome, e o restante ele guarda para si. Nosso trabalho lavra a terra, nosso adubo a fertiliza, e contudo não há nenhum entre nós que possua mais do que a própria pele.” (página 33)

Major lhes conta seu sonho da noite anterior. Vislumbrara como seria a Terra depois que o Homem perdesse o poder sobre os animais. Compusera até um hino, chamado Bichos da Inglaterra, que, ironicamente, o narrador de Orwell diz situar-se entre “Clemetine” e “La cucaracha”. O discurso e o hino tiveram o efeito de uma bomba. A algazarra foi tanta, que o Sr. Jones acordou e acabou com a festança.

O visionário porco Major morreu pouco tempo depois. Dois jovens porcos, Napoleon e Snowball, foram então alçados ao comando da bicharada e batizaram a nascente filosofia do Major de Animalismo.

“Napoleon era um porco berkshire de grande porte e aparência assaz feroz, o único de sua raça na fazendo, pouco afeito à conversa, mas com reputação de conseguir o que queria. Snowball era um porco mais vivaz que Napoleon, de fala mais ágil e engenhoso, mas não era considerado dono da mesma profundeza de caráter.” (páginas 41/42)

Tipos vão se delineando, então. Temos Mollie, uma égua frívola e narcisista. De um modo geral, os cavalos continuam sendo meio imbecis e só podem contribuir com a força bruta. As ovelhas são subservientes, pois é de sua natureza seguir um pastor. Há também Moses, um corvo adestrado, falador e que convence alguns da existência de um lugar chamado Montanha do Açúcar-Cande – o paraíso perdido para onde irão todos os animais um dia.

Os animais conseguem se organizar e tomar a Manor Farm. Expulsam o Sr. Jones, dono da fazenda e seus empregados. A mulher do dono, vendo tudo da janela da casa, junta algumas de suas coisas na mala e foge por outro caminho. Liderados por Napoleon e Snowball, os bichos adotam os sete mandamentos do Animalismo, a saber:

  1. O que quer que ande sobre duas pernas é um inimigo.
  2. O que quer que ande sobre quatro pernas ou tenha asas é um amigo.
  3. Nenhum animal deve usar roupas.
  4. Nenhum animal deve dormir em uma cama.
  5. Nenhum animal deve ingerir álcool.
  6. Nenhum animal deve matar outro animal.
  7. Todos os animais são iguais.

Os bichos contam com uma filosofia, um hino. Também agora têm uma bandeira e uma estrutura; há os Comitês Animais: o Comitê do Produção de Ovos, a Liga dos Rabos Limpos, o Movimento por uma Lã Mais Branca.

Derivado de um dos sete mandamentos e guindado à posição de palavras de ordem, os animais se repetem a máxima “Quatro pernas, bom, duas pernas, ruim” à exaustão.

Os animais sabem muito bem dos perigos de serem os novos donos da fazenda, cercados que estão por fazendeiros humanos. Estes tentam retomar a fazenda, divulgando mentiras como “A Fazenda dos Bichos” está em decadência, está falindo, etc. Não é o que acontece. Para progredirem, os próprios animais vendem seus produtos e, com o dinheiro, realizam melhorias. Os pombos são encarregados de observarem os humanos e trazerem as notícias, funcionando como verdadeiras mídias sociais.

Pouco a pouco, disputando o poder, Napoleon e Snowball começam a discordar. Esta discordância se torna tão intensa que Napoleon toma o poder só para si, joga os cães que, em segredo, formam sua tropa de choque, sobre Snowball e dá um golpe de estado. Realiza uma rebelião dentro de uma rebelião.

Squealer é outro porco, sob as ordens de Napoleon, com a função de divulgar fake news, sempre que for do interesse do chefe. É uma espécie de “ministro das comunicações”. Induz, manipula, confunde. A tempo: a palavra inglesa squealer significa “delator”.

Esta obra é muitíssimo conhecida, por isso, não vou me incomodar com spoilers. Sempre haverá, não obstante, quem não tenha ouvido falar dela; a estes, direi que em nada os spoilers comprometem a leitura, pois o grande lance do livro é ver como as coisas, pouco a pouco, vão acontecendo em analogia com os acontecimentos da época e, ainda, com o mundo no qual vivemos.

O mito vai-se construindo:

“Napoleon, agora, jamais era referido simplesmente como ‘Napoleon’. Sempre se referia a ele, em estilo formal, como ‘Nosso Líder, Camarada Napoleon’, e os porcos gostavam de inventar-lhe títulos tais como Pai de Todos Os Animais, Terror da Humanidade, Protetor do Rebanho, Amigo dos Patos e congêneres. Em seus discursos, Squealer falava, com lágrimas a lhe rolar pelas bochechas, da sabedoria de Napoleon, da bondade de seu coração e do profundo amor que dedicava a todos os animais de toda parte, mesmo e especialmente aos animais infelizes que ainda viviam na ignorância e na escravidão em outras fazendas. Tornara-se habitual dar a Napoleon o crédito por todo feito bem-sucedido e todo golpe de sorte. Com frequência se ouvia uma galinha comentar com outra: “Sob a orientação do nosso Líder, Camarada Napoleon, botei cinco ovos em seis dias”; ou duas vacas, desfrutando de água no tanque, exclamavam: “Graças à liderança do Camarada Napoleon, como é excelente o gosto desta água.” (página 113)

A ironia de Orwell, através da boca do seu narrador instituído, nos dá a notícia de que logo-logo os porcos estavam recebendo um quartilho de cerveja por dia, com dois litros para o consumo do próprio Napoleon. Os suínos ocupam a casa da fazenda e suas refeições são servidas em terrinas Crown Derby.

Certo dia, surpreendem Napoleon caminhando ereto, sobre duas pernas. E a máxima que, à força de tanta repetição, sabiam de cor, fora alterada. Agora, era: “Quatro pernas, bom, duas pernas, MELHOR”. E poucos se incomodaram, quando leram no muro, no lugar onde outrora estavam estampados os sete mandamentos, estava um só: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros.”

Há livros que envelhecem, irremediavelmente. Entretanto, há os que não envelhecem, pelo menos, enquanto a humanidade for o que é.

A Revolução dos Bichos é uma obra-prima porque teve muito a dizer a sua época e continua tendo a dizer à atual. Concebido, em parte como uma crítica direta à revolução comunista, o autor não circunscreveu sua crítica social à sua época, dotando seu texto de universalidade.

Napoleon é associado à figura de Stalin; impõe-se pela autoridade ditatorial. Snowball, mais ameno ou mais sagaz, é associado à imagem de Trotsky, o argumentador, o intelectual e que, depois, sofre a perseguição do comunismo. Morto no México, corre até hoje a teoria de conspiração de que fora assassinado pelo regime ao qual servira.

O texto límpido de Orwell nos possibilita ampliar a chave e entender Napoleon como a representação de qualquer detentor de poder que explore seus comandados. No lugar de “detentor de poder” quase disse político, referência indevida, corrigida a tempo.

Afinal, esta é uma obra literária. Qualquer semelhança com a realidade de qualquer país atual terá sido mera coincidência, claro.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Resenha nº 171 - A Besta Humana, de Émile Zola

 


Título original: La Bête Humaine

Título em português: A Besta Humana

Autor: Émile Zola

Tradução, apresentação e notas: Jorge Bastos

Editora: Zahar Editores

Copyright: 2014

ISBN: 978-85-378-1291-4

Literatura francesa

 

Este volume faz parte de um projeto ambicioso de Émile Zola, Os Rougon-Macquart: História natural e social de uma família sob o Segundo Império. São vinte volumes lançados entre os anos 1871-1893. É comum comparar-se o projeto de Zola com o de Balzac – outro mestre francês – pela extensão de obra, acompanhando a saga de uma época. Entretanto, esta série de livros não se fixa na análise dos valores de uma geração anterior; ela será uma “consequência da evolução científica do século”.

Contemporâneo seu é O Médico e O Monstro, de Robert Louis Stevenson. À época desta história, a Europa vivia a Revolução Industrial, entronizando o cientificismo e as máquinas que vinham para tomar o lugar do homem. Situada na segunda metade do século XVIII, tal revolução estabeleceu as bases do que viria a ser o capitalismo.

Não será nem preciso dizer, a partir deste momento temos a exploração excessiva dos recursos naturais, pois através da mecanização crescente foi possível aumentar a produção. Como segunda consequência, veio também a exploração da mão de obra, desvalorizada pelo emprego das máquinas. Assim, o século XVIII também viu aumentarem movimentos e reivindicações trabalhistas por direitos e garantias.

A Besta Humana é um clássico. Personagens como Séverine, Roubaud, Jacques, Cabuche, Louisette desfilam nas páginas desta obra. Sem contar com Lison, a locomotiva conduzida por Jacques, ela mesma uma personagem importante no contexto desta história.

O primeiro parágrafo:

“Ao entrar no quarto, Roubaud pôs em cima da mesa o pão de meio quilo, o patê, a garrafa de vinho branco. Pela manhã, antes de descer para o trabalho, a velha Victoire havia deixado as brasas do fogão encobertas com tanta cinza que o calor era sufocante. O subchefe de estação abriu então uma janela, fincou os cotovelos no parapeito e ali ficou.” (página 21)

Certas ideias positivistas estão presentes aqui. Por exemplo, o narrador utiliza o recurso da imagem do protagonista refletida num espelho para proceder a uma análise física. São acionadas as teorias biantropológicas e a frenologia do italiano Cesar Lombroso. Segundo Lombroso, da conformação física, pela observação do crânio de uma pessoa, podia-se deduzir se ela seria um “criminoso nato”:

“A meia hora soou. Roubaud andava de um lado para outro e, ao menor barulho, virava o ouvido na direção da escada. Na falta do que fazer, passando diante do espelho, parou e olhou para si mesmo. Não envelhecera tanto, chegava aos quarenta sem que o ruivo ardente dos cabelos encrespados clareasse. A barba, deixada inteira, mantinha-se espessa, alourada de sol. De altura mediana, mas dono de extraordinário vigor, não tinha do que reclamar, satisfeito com a cabeça ligeiramente achatada, testa curta, pescoço grosso, rosto redondo e sanguíneo, iluminado por dois olhos vivos. As sobrancelhas se juntavam, dando à sua testa a pelagem dos ciumentos. Como se casara com mulher quinze anos mais moça, essas averiguações frequentes no espelho o tranquilizavam.” (página 25)

Se a frenologia, já naquela época sofria contestações, isto não impedia que ela granjeasse muita fama e conquistasse muita gente. O fato é que tal estudo nunca teve fundamentação científica.

Roubaud ocupa o cargo de subchefe de estação ferroviária da Compagnie de l’Ouest. Ele tem como esposa Séverine – importante personagem desta história. Filha caçula  do jardineiro, já falecido, que trabalhava na casa do presidente da Companhia férrea, Sr. Grandmorin. Ele a  tomara sob seus cuidados, sendo seu padrinho e tutor; Séverine servia como dama de companhia de Berthe, filha do Sr. Grandmorin.

O narrador de Zola procura caracterizar aquele casamento; Séverine é mostrada como superficial, um tanto coquete (para servir-me de um termo da época). O marido apaixonado tudo lhe perdoa, apesar de aquela superficialidade lhe trazer suspeitas quanto à fidelidade da mulher:

“Tudo nela exalava tanta sinceridade, tinha aparência tão cândida e direita que ele a apertou forte nos braços. Era como sempre terminavam as suas suspeitas. Ela se abandonava, contente com os afagos. E o marido a cobria de beijos, que ficavam sem resposta. Era esta, inclusive, a sua obscura intranquilidade, pois a passividade infantil parecia vir de uma afeição filial, sem despertar a mulher.” (página 27)

Numa cena capital para todo o restante da trama, Séverine e o marido estão sentados na cama, quando Roubaud observa um anel de ouro, com o formato de uma serpente – usado no mesmo dedo da aliança. Distraidamente, a mulher lhe diz ter sido um presente do padrinho, o Sr. Grandmorin.

O marido se torna cheio de suspeitas, pois a esposa lhe havia dito, tempos atrás, ter sido aquela joia um presente da mãe dela. Tenta se justificar diante do evidente ciúme de Roubaud, mas o estrago está feito. Ele se torna enlouquecido de raiva: a sua Séverine o traíra.

“— Confesse que dormiu com ele, santo Deus! Ou meto-lhe a faca na barriga!

Ele a mataria, via-se nitidamente em seu olhar. Ao cair, Séverine ainda havia percebido o canivete aberto em cima da mesa. Reviu o brilho da lâmina, achou que Roubaud estendeu o braço, buscando a arma. Uma grande indiferença a invadiu, um abandono de si e de tudo, uma necessidade de terminar com aquilo.

— Está bem é verdade. Deixe-me ir embora.” (página 40)

Deixemos, por enquanto, este complicado casal. É preciso falar um pouco de outro personagem, Jacques Lantier, maquinista da locomotiva Lison. Jacques é também uma pessoa estranha, pertencente à galeria de seres com compulsões de matar sem motivo aparente. Taras assim foram muito bem exploradas pela escola naturalista, à qual pertence nosso Émile Zola.

A locomotiva tivera uma biela quebrada. Por isso, os homens escalados para trabalharem nela tiveram folga. Jacques Lantier, então, fica no meio do caminho, na localidade de Croix-de-Maufras. Trata-se de uma casa isolada, quase à beira da estrada de ferro, pertencente à tia de Lantier, uma senhora de quarenta e cinco anos, acamada.

No quintal, Jacques avista Flore e a cena é indicativa da tara dele:

“— Boa tarde, Flore – ele respondeu com simplicidade.

Mas os olhos dele, grandes e pretos, semeados de brilhos dourados, se turvaram com uma névoa pardacenta que os aclarava. As pálpebras bateram, o olhar se desviou num súbito desconforto que parecia chegar às raias do sofrimento. O corpo inteiro, instintivamente, se contraiu.

Imóvel e fitando fixamente o rapaz, ela percebeu a reação involuntária que ele, no entanto, rapidamente se esforçava para controlar, como sempre que se aproximava de uma mulher. A moça pareceu ficar séria e triste. Querendo disfarçar o quanto estava pouco à vontade, o recém-chegado perguntou se a mãe dela estava em casa, apesar de sabê-la doente, impossibilitada de sair. A moça respondeu apenas com um aceno de cabeça, afastando-se em seguida para que ele pudesse passar sem que se encostassem, e voltou ao poço calada, a postura reta e orgulhosa.” (página 55)

A estada de Jacques em Croix-de-Maufras enseja uma virada de enredo, pois ele presencia um assassinato a bordo de um trem.  

“E Jacques, muito distintamente, viu, nessa precisa fração de segundo, através dos vidros faiscantes de um cupê, um homem segurando outro contra a poltrona e cravando uma faca em seu pescoço, enquanto uma massa escura, talvez uma terceira pessoa, talvez uma bagagem despencada, fazia peso sobre as pernas convulsivas de quem estava sendo assassinado.” (página 75)

Temos um crime. E mais – temos o móvel de um crime – pois o elemento assassinado é precisamente o presidente da companhia, o Sr. Grandmorin, padrinho e tutor de Séverine. Não é um spoiler; o assassinato, anunciado nesta página 75, está muito no início do livro de 364. Esta não será uma narrativa em que o leitor não conheça o criminoso. O texto o diz com todas as letras e o suspense policial se constitui em como o personagem que investiga o acontecido, Dr. Denizet, conseguirá esclarecer tudo.

Zola insere elementos cruciais de trama policial neste clássico:

1)      Grandmorin tinha grande afeição por Séverine e a protegia;

2)      Há um testamento muito favorável ao casal;

3)   Não há, por enquanto, pistas conclusivas ou testemunhas decisivas para a     elucidação do crime.

Um enredo como este, mesmo se bem construído, seria pouco para justificar a fama deste A Besta Humana. Segue-se um estudo de personagens, como convém à escola naturalista, para quem o homem sempre sucumbe a seu lado mais sombrio.

O narrador de Émile não tem as mulheres em alta conta, como fica patente neste trecho:

“Camy-Lamotte foi obrigado então a fazer um gesto para que ela se sentasse, pois aquilo fora dito num tom perfeito, sem exageros de humildade nem de pesar, com a arte inata da hipocrisia feminina.” (página 139)

Anteriormente, disse que a locomotiva Lison era uma personagem importante. E eis uma passagem de onde se pode depreender tal condição, se não bastasse para tanto, a caracterização da Lison ao longo da história.

Às páginas 157 fica evidente, a locomotiva é um ser amado pelo seu condutor, Jacques Lantier, o mesmo Jacques que se configura como portador de uma tara assassina. Nele, manifestam-se os dois impulsos – Freud diria pulsões – de Tânatos (morte, destruição) e Eros (amor, criação)

Outro trecho elucidativo é quando Pecqueux, o foguista, se atrasa e irrita Lantier. Letra por letra, eis o que nos diz o narrador de Zola:

“Apesar de dez anos mais moço, o maquinista era paternal com o foguista, abafava os seus defeitos, deixava-o dormir uma hora quando estava bêbado demais. E Pecqueux retribuía o gesto com uma devoção de cão fiel. Independentemente disso, era ótimo ajudante e experiente na profissão, a despeito de suas bebedeiras. Diga-se que também amava a Lison, o que já bastava para o entendimento. Os dois e a locomotiva formavam verdadeiro ménage à trois, uma relação a três sem qualquer rusga.” (página 159)

Você, leitor esperto, há de me perguntar: mas, e Séverine? A história continua sem ela? Calma, meu caro, evitei comentar mais coisas sobre ela, nesta resenha que já vai longa. Há subtramas, subtextos, como num jogo de xadrez. Sossegue, o “destino” reservará a ela algumas maldades.

Pois fica extremamente clara a proposição de cunho naturalista desta obra magnífica, qual seja, a de que o homem é escravo de sua hereditariedade de besta-fera. Em Jacques, convivem, como já disse, a pulsão ambígua Tânatos-Eros. A natureza violenta do ser humano, como um animal, domina-o sem sublimação.

Há mais coisas a comentar, mas este não é um estudo acadêmico-literário. As locomotivas constantes da história – tanto a Lison, quanto depois, a 608 – são personagens fundamentais. Elas representam a Revolução Industrial, que exacerbou a ganância, em detrimento do trabalhador. Afinal, neste romance, ninguém se salva. Todos são lobos.

Que romance este A Besta Humana!

terça-feira, 23 de março de 2021

Resenha nº 170 - A Bela e A Fera - Madame de Villeneuve

 


Título original: La Belle et La Bête

Autora: Madame de Villeneuve

Tradução: André Telles

Ilustrações: Walter Crane e Outros

Apresentação: Rodrigo Lacerda

Editora: Zahar (clássicos Zahar)

Edição: n/c

Copyright: 2016

ISBN: 978-85-378-1604-2

Gênero textual: Conto de Fadas

Origem: literatura francesa


Foi um autêntico prazer ler este clássico dos contos de fadas, A Bela e A Fera. Antes, conhecia-o de ouvir falar – há certas obras de que a gente sempre ouve falar, como Dom Quixote, mesmo sem as ter lido – e pelos filmes da Disney. Obra várias vezes filmada, adaptada, editada pelo mundo todo, este livro de bolso e capa dura nos brinda com duas versões da mesma história, uma introdução muito esclarecedora e excelentes ilustrações.

A versão considerada clássica é mais recente, de Madame de Beaumont e data de 1756. Dela são tirados os roteiros para as obras cinematográficas e teatrais. O texto tem mais cara de conto de fadas. É mais curto que o anterior, mais enxuto.

A versão primeva é da autoria de Madame de Villeneuve, datada de 1740. É mais extensa, mais cheia de nuances e foge à estrutura consagrada dos contos desta espécie. Não sei como classificá-la, arrisco uma noveleta. Para o meu gosto literário, é de longe, a versão que mais me agrada. Vou falar dela, mas fique o leitor sabendo da possibilidade de levar as duas pelo preço de uma. Escolha a que melhor lhe aprouver.

Na apresentação de Rodrigo Lacerda, temos a informação de onde vem a inspiração para a fera da história: veio de fatos. É que, conforme nos informa Lacerda, houve certo Pedro Gonzáles, espanhol nascido nas Ilhas Canárias, portador de rara anomalia chamada de Hipertricose. Também conhecida como “síndrome de lobisomem”, de caráter hereditário, seu portador apresenta o corpo inteiro coberto de pelos. Pessoas portadoras de casos teratológicos ou anomalias como esta eram exploradas como atrações circenses, em verdadeiros shows de aberrações.

Pedro Gonzáles foi presenteado pelo próprio pai ao rei Carlos I da Espanha; criaturas assim faziam parte dos “acervos” dos monarcas e eram exibidas como símbolos de status. Pois bem. O estranho ser – para resumir – foi transferido para a posse do rei da França, Henrique II. Objeto de curiosidade, o rei decidiu submeter a criatura a uma experiência: conseguiria humanizar-se?

Sua majestade rebatizou-o Petrus Gonsalvus, deu-lhe roupas nobres e providenciou-lhe esmerada educação. Pedro aprendeu a ler, escrever, falar outras línguas e dominar as sofisticadas regras de etiqueta francesa. Continuando com sua abstrusa experiência, Henrique II o fez casar-se com Catarina, bela filha de uma serviçal do palácio. Com o tempo, a repulsa inicial da jovem se transformou em uma relação amorosa e um casamento bem-sucedido.

O texto A Bela e A Fera, de madame de Villeneuve, se estende da página 57 à página 233. A família de Bela vivia tranquilamente numa cidade. O pai era um comerciante; tinha seis filhas moças e seis filhos homens – todos solteiros. Entretanto, numa reviravolta característica de contos de fadas, quis o destino que eles perdessem tudo o que tinham. Os navios que traziam os artigos a serem comercializados pelo pai foram assaltados por piratas. Restou-lhe apenas uma modesta casa no campo.

Naquela nova situação, a caçula Bela, portadora de um bom coração, foi quem se deu melhor. Longe de viver se queixando das agruras da nova vida, arregaçou as mangas e dedicou-se com afinco ao trabalho rude do campo. Naturalmente, tornou-se a predileta do pai e admirada pelos irmãos homens. Espíritos mesquinhos, a inveja logo se instalou nas suas irmãs.

“A jovem tinha muito mais encantos para brilhar em sociedade do que qualquer uma delas [das irmãs]. Uma beleza perfeita adornava sua juventude, seu humor inalterável cativava a todos. Seu coração, generoso e misericordioso, guiava todos os seus atos e palavras. Tão sensível como as irmãs às atribulações vividas por sua família, porém com uma força de vontade incomum numa adolescente, soube esconder a dor e colocar-se acima da adversidade. Tamanha determinação foi tachada de insensibilidade. Estava claro para todos, entretanto, que essa opinião era ditada pela inveja.” (página 63)

Esta história tem sido tão repetida e filmada, que julgo não haver importância em incorrer em spoiler. Ao fazer tentativas para melhorar a vida da família, o pai viaja para a cidade. Entretanto, é noite e ele se perde no caminho, e em meio a uma floresta, vai dar numa propriedade estranha, a princípio parece abandonada. Ali pernoita, encontra comida pronta, posta em uma mesa no grande salão do castelo. Mas comete um erro: lembra-se do pedido de Bela, de que lhe trouxesse uma rosa. Ora, naquela propriedade havia as mais belas rosas por ele já vistas. Ao colhê-las para a filha, aparece-lhe a Fera, dizendo-lhe que o visitante devia pagar com a vida tal ousadia. Após choramingar muito, expondo sua vida miserável à criatura, ela decide comutar a pena de morte:

“— Disponho-me a perdoá-lo, mas com uma condição: que me entregue uma de suas filhas. Preciso de alguém para reparar este erro.

— Misericórdia! O que me pede? – não acreditava o comerciante. – Como prometer uma coisa assim? Quem poderia ser tão desumano a ponto de sacrificar a própria filha para salvar a pele, que pretexto eu alegaria para trazê-la aqui?

— Não deve haver pretexto – decretou a Fera. – A filha que porventura o acompanhe terá de vir espontaneamente, caso contrário não quero. Verifique se alguma delas é suficientemente corajosa, e o ama bastante, para sacrificar a vida em troca da sua.” (página 80)

Mesmo se não se conhecer a história, não será difícil concluir que, fatalmente, Bela se oferecerá para o sacrifício. Acreditando estar indo para uma morte inexorável, a jovem pouco se importa com a descrição do pai, sobre a fera horrenda. Se vai morrer, pouco lhe importa se seu executor seja bonito ou feio.

Entretanto, tudo se modifica e a Fera se apaixona pela moça, quase assim que a vê. Apesar do seu aspecto repulsivo, a criatura tem, no fundo, um bom coração e cobre Bela de agrados. Este esforço vai vencendo, pouco a pouco, a resistência da filha do comerciante.

Na segunda parte desta história, Bela passa a ter sonhos frequentes em que um jovem, muito bonito, vem estar com ela. Diz-lhe palavras de amor e ela acaba por desenvolver uma espécie de amor platônico pelo personagem dos seus sonhos. Entretanto, outro sonho se interpõe: se ela se demorasse na visita que tinha sido autorizada a fazer à família mais do que o prazo dado pelo seu algoz, a Fera morreria. E, com o drama de consciência de tornar-se responsável por uma morte, Bela gira um anel mágico no dedo e retorna ao castelo.

Ao retornar, encontra a Fera quase morta. Ausculta-lhe o coração e o sente bater debilmente; é tomada por um grande sentimento de perda:

“Animando-a com a voz, fez-lhe tantos afagos que ela aos poucos se recuperou:

— Quanta preocupação – Bela lhe disse polidamente –, eu não imaginava gostar tanto de você: o medo de perdê-lo me revelou que algo mais forte que os laços da gratidão me prendiam à sua pessoa. Juro que só pensava em morrer, se não conseguisse lhe salvar a vida.

Ao ouvir essas palavras carinhosas, a Fera, sentindo-se plenamente restabelecida, respondeu-lhe com a voz ainda fraca:

— Quanta generosidade sua, Bela, em ter apreço por um monstro, mas faz bem: amo-a mais que a minha vida. Achei que a senhorita não voltaria. Eu teria morrido. Uma vez que gosta de mim, quero viver. Vá descansar e esteja certa de que será feliz como seu generoso coração merece.” (páginas 148/149)

Bela e a Fera se tornam marido e mulher. Em uma noite, ao acordar, a jovem tem uma surpresa, pois deitado ao lado dela na cama, está o príncipe dos seus sonhos. Os indícios a levam a ligar uma coisa à outra e ela tem certeza de a Fera e o príncipe serem uma única pessoa. O príncipe não acorda, está mergulhado num sono letárgico, indicativo de um forte feitiço agindo ali.

Aqui, o conto de fadas se torna extremamente interessante. Ao invés de caminhar para o final feliz sem mais delongas, Madame de Villeneuve contraria a estrutura destes contos e faz entrarem em cena a mãe do príncipe e uma fada. A chegada destas duas tem a força de tirar o príncipe do feitiço a que estava submetido. Ele acorda.

Conta a história da sua vida, até ali. Contos de fadas não abrem espaço para os príncipes transformados em monstros se explicarem ou explicarem o que lhes havia acontecido. Vários segredos são revelados (não, não quero, definitivamente, dar spoilers, afinal).

A Fada revela aos dois e à mãe do príncipe, que ela tinha estado sempre protegendo quanto possível o rapaz. Entretanto, mesmo as fadas não podem tudo, ela estava presa às leis de certa Ilha Bem-Aventurada, onde habitava. Um feitiço assim como o que envolvia o caso, somente poderia ser desmanchado por fadas hierarquicamente superiores a ela, ou por alguma fada que houvesse sido cobra alguma vez. Há descrição de um intrincado jogo de regras que regulam as ações das fadas, quer sejam elas boas ou más.

Desavenças do passado haviam resultado nos encantamentos e desastres do presente. Mas, como nos outros tantos contos de fadas circulantes, as terríveis tramas foram deslindadas. E o final desta surpreendente história chega a seu termo, em termos bem diferentes daqueles a que estamos acostumados:

“A rainha e a Fada, sua irmã, foram igualmente generosas com Bela, seu esposo, a Rainha sua sogra, o velho e a família dele, de maneira que nunca houve humanos tão longevos. Querendo transmiti-la à posteridade, a Rainha, mãe do Príncipe, não se esqueceu de mandar incluir essa história maravilhosa nos anais de seu império e nos da Ilha Bem-Aventurada. Cópias foram distribuídas por todo o Universo, a fim de que se falasse eternamente das prodigiosas aventuras da Bela e da Fera.” (página 233)

Bem diferente do desenho da Disney, não, amigo leitor? Entretanto, não desprezo o desenho, penso ser ele um clássico da animação, com sua vertente diversa da mesma história. E parece que este conto de fadas nasceu para fornecer diferentes versões. Há uma realização fílmica muito boa, em branco e preto, dirigida sabe por quem? Ninguém menos que o habilidoso e genial Jean Cocteau, multiartista inquieto francês.

Verdadeiro prazer de ler. Um motivo a mais para ler outras tantas vezes. 

domingo, 7 de março de 2021

Resenha nº 169 - Política, Ideologia e Conspirações, de Gary Allen e Larry Abraham


Título original: None dare call it conspiracy

Autores: Gary Allen e Larry Abraham

Tradutor : Eduardo Levy

Editora : Faro Editorial

Edição : 1ª

Copyright : 2017

ISBN : 978-85-62409-90-5

Gênero textual : relato político

Origem : EUA

 Com certeza, você já ouviu estarrecido que apenas um por cento das pessoas detém mais riquezas do que os restantes noventa e nove por cento dos demais. Bem, esta informação tem cheiro e cara de mais uma daquelas Teorias de Conspirações que circulam no mundo. Ainda mais se você adiciona ao cardápio o nome dos Illuminati.

Na época do Iluminismo, certas organizações secretas denominadas os Illuminati (Iluminados, em Latim) foram descobertas pela investigação policial na antiga Baviera e proibidas pelo soberano Carlos Teodoro. Foram acusados de ingerência na política de estado, agindo por meio de conspirações diversas.

Gary Allen é graduado em História pela Stanford University. Foi um membro eminente da John Birch Society. De 1964 em diante, escreveu também artigos para revistas como Conservative Digest e American Opinion. Ocupou o cargo de redator dos discursos de George Wallace, durante as campanhas deste governador do Alabama à presidência.

Larry Abraham, também formado em História, liderou movimentos republicanos ainda na juventude. Tornou-se uma voz ativa dentro do meio liberal; foi cofundador da PanAmerica Capital Group, Inc., autor e palestrante sobre temas políticos, econômicos e financeiros.

E o que estes dois autores nos dizem neste Política, Ideologia e Conspirações – livro famoso no exterior, escrito e publicado em 1971 – e só agora merecendo uma primeira edição no Brasil? Basicamente, uma pequena parcela da humanidade detém o poderio econômico maior que o restante dos habitantes deste planeta. E quando se possui um poderio econômico tão grande, pode-se entender a influência que podem exercer sobre governos. E aí temos um problema: quem detém poder luta para mantê-lo, não é mesmo? E mais: luta para expandi-lo. Fará qualquer coisa para continuar a ter o poder nas suas mãos e nas de seus familiares.

Afinal, foi assim desde que o mundo é mundo: temos exemplo disto nos Bórgias, nos Césares, nos Médicis, etc. Não serão estes os nomes a desfilarem neste livro, substituídos pelos poderosos do mundo moderno: Os Rockefeller, os Rothschild, os Warburg e alguns mais. Mas a tese central deste livro polêmico não é exatamente declinar os nomes dos mais ricos, como se depreende do título.

Gary e Larry (daria uma dupla de música country norte-americana, não?) arrolam uma quantidade impressionante de argumentos para dizer: “olha, enquanto nós achamos que comunismo e capitalismo são arquirrivais, como óleo e água não se misturam, os tais detentores do poder, lá em cima, não têm essa delimitação ideológica. Sendo capitalistas, todos eles, fazem e fizeram acordos com os comunistas sempre que disto pudesse resultar mais dinheiro ou poder para seus cofres – uma coisa puxa a outra.

Anotei a primeira passagem do livro:

“Os ‘acidentalistas’ querem que acreditemos que é ‘simplista’ atribuir qualquer um dos nossos problemas a planejamento, e que na verdade, todos eles são causados pela tríade Pobreza, Ignorância e Doença. Os ‘acidentalistas’ ignoram o fato de que alguns dos países mais avançados do mundo foram conquistados pelos comunistas, como a Tchecoslováquia, que era um dos mais industrializados e Cuba, que tinha a segunda maior renda per capita da América Central e do Sul.” (página 14)

Levantando argumentos a favor de sua tese, os dois autores, calçados em documentos, afirmam que

“Karl Marx foi contratado para escrever O Manifesto comunista, um pega-trouxas demagógico para atrair as massas, por um misterioso grupo que se autonomeava a Liga dos Homens Justos. Na realidade, O Manifesto comunista já estava em circulação havia muito tempo quando o nome de Marx passou a ter reconhecimento suficiente para estabelecer sua autoria do manual revolucionário.” (página 29)

Na busca das evidências para desenvolver uma variação do seu tema, os autores deste livro apelam para um efeito textual extremamente sedutor: partem do conhecimento que qualquer de nós temos sobre o crime organizado. Dizem-nos que estes mandatários são gente sem educação formal, que são formados na” pobreza e aprenderam o ofício nos becos sujos de Nápoles, Nova York e Chicago”.

E aí deduzimos facilmente: “nossa, isto deve ser verdade, conheço realidade parecida com esta aqui mesmo, no Brasil. Igualzinho aos traficantes nas comunidades pobres espalhadas por este imenso país”. Baseados nesta analogia que você foi levado a formar em sua mente, eles acrescentam:

“Agora suponha que um sujeito com a mesma personalidade amoral gananciosa dos chefes da máfia nascesse em uma família patrícia de grande riqueza, estudasse nos melhores colégios secundários e depois em Harvard, Yale ou Princeton, com uma possível pós-graduação em Oxford. Nessas instituições, viria a conhecer bem história, economia, psicologia, sociologia e ciência política. Depois de graduar-se em estabelecimentos tão ilustres, seria possível encontrá-lo pelas ruas vendendo bilhetes de jogo, passando maconha para adolescentes ou controlando prostíbulos? Será que ele participaria de guerras de gangues? De modo algum. Pois com esse tipo de formação, ele perceberia que se você quer poder, poder de verdade, o que a história ensina é: ‘Entre para o governo’. Torne-se político e se empenhe para conquistar poder político ou, melhor ainda, transforme políticos em laranjas seus. É aí que está o poder de verdade – e o dinheiro de verdade.” (página 27)

Escrevendo que sempre o que está por trás dos conflitos econômicos e políticos deste grupo detentor do poder – nomeados pelos autores como Adeptos – pelo mundo todo são os ganhos e manutenção do poder daquele pequeno grupo dos absolutamente ricos. Os autores afirmam, por exemplo, a morte do Rei Ferdinando, dada como estopim da Primeira Guerra Mundial pelos historiadores, nada mais foi que um pretexto.

Os adeptos sempre agiram para capturar a esquerda. Garry e Larry argumentam, nesta linha de raciocínio:

“Não existe nenhum movimento proletário nem mesmo movimentos comunistas, que não tenha operado de acordo com os interesses do dinheiro, na direção indicada pelo dinheiro e pelo período permitido pelo dinheiro – e isso sem que os idealistas entre seus líderes tenham a mais leve suspeita do fato.” (página 64)

E Seguem:

“Na Revolução Bolchevique veem-se alguns dos homens mais ricos e mais poderosos do mundo financiando um movimento que alega como base de sua própria existência a ideia de privar homens como os Rothschild, os Rockefeller, os Schiff, os Warburg, os Morgans, os Harriman e os Milner de sua riqueza. É evidente, no entanto, que esses homens não têm o menor medo do comunismo internacional. A conclusão lógica é que... o controlam.” (página 78)

De acordo com Gary e Larry, são membros das famílias Rockefeller e Eaton que têm o poder de transferência tecnológica à União Soviética (o livro foi escrito em 1971, lembre-se. A URSS ainda estava de pé).

Uma conclusão para tudo isto, sendo verdade, é que será muito mais fácil para controlar, manipular governos totalitários, tanto de esquerda quanto de direita, por mão que saiba jogar e tenha dinheiro e poder. Isto é o que tem sido feito no mundo. Tais famílias – Adeptos, na terminologia dos autores – não conhecem crise. Cada vez têm mais poder e mais dinheiro. Cada vez mais suas influências se disseminam pelo mundo.

Enquanto isto, para seguir a linha de raciocínio dos dois escritores, fico eu e ficamos nós cá embaixo, trocando ódios e ameaças de acordo com nossas ideologias. Tal estado seria ótimo, pois assim não vemos o que, de verdade, acontece no andar superior.

Resta nos perguntarmos: mas tudo isto – e a partir do título – não seria meramente uma Teoria de Conspiração, como tantas circulantes por aí? Pode ser. O livro nos deixa com muitas pulgas atrás das duas orelhas. Incomoda-nos sermos estúpidos. Um fantoche, provavelmente, se sentiria assim, se pudesse ter sentimentos.

Teoria de Conspiração. Pode ser. Mas que o livro é bem escrito, tem argumentos bem arranjados e cita fontes para certos fatos, isto também é verdade. 

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Resenha nº 168 - A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói

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Título original: Smiert Ivana Ilitcha

Autor: Liev Tólstoi

Tradutor: Irineu Franco Perpétuo

Copyright: 2016

Editora: Folha de São Paulo

Coleção: Grandes Nomes da Literatura

ISBN: 978-85-7949-273-0

Edição: 1ª

Gênero Literário: Novela

Origem: Literatura russa




Primeiras Impressões: 

Tema pesado. Uma novela sobre a morte de alguém chamado Ivan Ílitch. Quem gosta de ler dificilmente não terá ouvido falar deste livro do escritor russo Liev Tólstoi, o mesmo autor de pelo menos outros dois calhamaços-referência da literatura mundial: Anna Kariênina e o épico Guerra e Paz. Este é pequeno, mas como é denso! E o spoiler vem logo de cara, pois já de saída sabemos que o protagonista desta novela morre. Portanto, não é importante saber que ele morre, mas como morre. Ou, quem é este tal, que morre? Novela exemplar, em que tudo funciona a serviço da intencionalidade do texto. Não há mais nada a dizer... 

Pequena Biografia: 

Liev Tólstoi é um dos grandes escritores russos. E a Rússia os tem variados: Turguêniev, Gógol, Dostoiévski, Anton Tchékhov, Alexander Soljenítsin, Púshkin, Anna Akhmátova – para ficar só nos clássicos. 

Nosso Tólstoi nasceu em 09/09/1828, numa localidade chamada Iasnaia Poliana, perto da cidade de Tula, no Império Russo. Faleceu em 20/11/1910, Astapovo, ainda sob o mesmo Império. Seu nome é grafado em português de diversas formas: Leão, Leon, Lev, além do Liev Tólstoi. 

Originário de uma família aristocrática, nem por isso sua vida foi menos interessante. Durante a década de 1870, Tólstoi passou por uma profunda crise moral, depois da qual veio uma espécie de despertar espiritual. O Sermão da Montanha, texto constante dos evangelhos, reproduzindo as palavras de Jesus ecoou fundo em sua alma, como consta do seu trabalho não ficcional, A Confissão (1882). Tornou-se um anarquista cristão, defendendo a ideia de resistência através da não violência – ideia fortemente influenciadora de personalidades como Wittigenstein e Ghandi. 

Liev teve uma passagem pelo exército, participando da guerra da Criméia – experiência depois utilizada na composição do monumental Guerra e Paz. Aliás, diga-se a respeito desta obra, ela foi influenciada por outro grande escritor, desta vez francês, Victor Hugo. 

O Livro: 

“No grande edifício da Justiça, no intervalo da audiência do caso dos Melvínski, os membros do tribunal e o promotor entraram no gabinete de Ivan Iegórovitch Chébek, e a conversa discorreu a respeito do caso Krássov. Fiódor Vassílievitch exaltou-se ao demonstrar que não era da competência da corte, Ivan Iegórovitch permaneceu com sua opinião, e Piotr Ivánovitch, que não participava da discussão desde o início, não intervinha, folheando o recém-recebido Boletim. 
— Senhores! – disse. – Ivan Ilitch morreu. 
— É mesmo? 
— Está aqui, leia – disse Fiódor Vassílievitch, entregando-lhe a edição fresca, que ainda recendia: ‘É com pesar no coração que Praskóvia Fiódorovna Goloviná comunica a parentes e conhecidos o falecimento de seu amado esposo, o membro da Câmara de Justiça Ivan Ilitch Golovin, ocorrido em 4 de fevereiro do ano corrente de 1882. O cortejo sai na sexta-feira, à uma da tarde” (página 6) 

Assim começa esta excelente novela. Observe o leitor que em poucas linhas, já temos informações importantes para a compreensão da história. O Ivan Ilitch do título era detentor de cargo jurídico – pessoa com alguma proeminência na sociedade russa – e morreu de repente. 

A partir daí, Tólstoi vai nos falar um pouco da personalidade do protagonista, da sua relação com a esposa, família, amigos. Bem cedo na narrativa, entretanto, vamos notando que algo na vida de Ivan Ilitch não vai bem. A certa altura, o narrador nos comunica: 

“A satisfação de Ivan Ilitch eram os pequenos jantares, para os quais chamava damas e cavalheiros de boa situação social, e esse jeito de passar o tempo com eles parecia-se com o jeito habitual de passar o tempo dessas pessoas, assim como sua sala de visitas se parecia com todas as salas de visitas.” (página 31) 

Então é isso: o personagem principal da história vive uma vidinha de conveniências, de aparências sociais, de repetição de padrões. Para complicar as coisas, examinemos outros dois trechos curtos: 

“Praskóvia Fiódorovna atribuía-se grande mérito por sua resignação. Ao decidir que o marido tinha um caráter difícil e fazia de sua vida uma desgraça, passou a ter pena de si mesma. Quanto mais pena tinha de si, mais odiava o marido. Passou a desejar que ele morresse, mas não podia desejar isso porque, daí, não haveria vencimentos. Isso a deixava com ainda mais raiva. Achava-se terrivelmente infeliz justamente porque nem a morte dele poderia salvá-la; ficava com raiva, ocultava-a, e essa ocultação fazia a raiva ficar ainda mais forte.” (página 34) 

E este outro trecho, da relação entre marido e mulher: 

“Ela abanou a cabeça e se sentou. 
— Sabe, Jean, penso se não é o caso de chamar Leschetítski aqui em casa. 
Isso significava chamar um médico famoso e não poupar dinheiro. Ele deu um sorriso venenoso e disse: “Não”. Ela ficou sentada, achegou-se e o beijou na testa. 
Odiava-a com todas as forças da alma enquanto era beijado, e fez um esforço para não afastá-la. 
— Adeus. Se Deus quiser, você vai dormir. 
— Sim.” (página 45) 
O tradutor, em nota à página 42, nos explica que “A aristocracia russa falava francês entre si. Jean, aqui, é a forma afrancesada de Ivan”. 

Esta relação tóxica – como se diz hoje em dia, com bastante propriedade – segue-se até o fim da novela. 

Somente uma pessoa tem consideração com Ivan, naquela casa. Quando seu mal piora (nunca é dito qual o diagnóstico, somente se diz que é uma dor abdominal, no lado do corpo, que progressivamente vai piorando), é Guerássim, o empregado da casa, quem lhe dá assistência: 

“Guerássim foi; com os braços fortes, e a mesma leveza de passos, abraçou-o, ergue-o de forma suave e hábil, sustentou-o, puxou as pantalonas com a outra mão e quis assentá-lo. Ivan Ilitch, porém, pediu para ser colocado no sofá. Sem esforço, e como se não apertasse, Guerássim amparou-o, quase carregando, e o acomodou no sofá.” (página 53) 
Premido pela iminência da morte, Ivan Ilitch pensa na vida. Reavalia-a. desespera-se com o vazio de significado de sua existência, na qual não cultivara nada de mais profundo: 

“Piotr saiu. Sozinho, Ivan Ilitch passou a gemer não tanto de dor, por mais terrível que ela fosse, mas de angústia. “Tudo é igual, sempre igual, esses dias e noites sem fim. Que seja rápida. Que quem seja rápida? A morte, as trevas. Não, não. Tudo é melhor do que a morte!” (página 58) 
Então, no cômputo geral, temos uma sociedade inteiramente decadente. As pessoas não se importam umas com as outras; quando um ocupante de cargo proeminente morre, seus subalternos discutem sobre quem será o herdeiro da cadeira. Uma sociedade artificial, afetada (fala francês porque era considerada a língua da cultura, de toda a gente polida, educada). Uma corte corrupta e distante das necessidades do povo de que deveria cuidar; a revolução comunista, na Rússia, se deu em 1917. As condições para que tal acontecesse já vinham de muito longe: uma nobreza autocentrada, promovendo apenas o que julgava ser bom para si; por todo lado a fome, a pobreza. 

Fácil seria para um líder que viesse do povo, com carisma suficiente para convencer seus iguais de que, se lutassem, haveria uma chance de mudar as coisas a seu favor, levá-lo à revolução. O rastilho se espalhava pela Europa inteira, com as ideias de Marx e, depois, de Engels. Na Rússia, porém, as condições explosivas levaram à sublevação popular e ao assassinato da última dinastia czarista, a dos Nicolaus. Somente Anastácia, uma das filhas do casal real, teria escapado e vivido em Paris. Isto é já outra história. 

sábado, 31 de outubro de 2020

Resenha nº 167 - Sem Trama e Sem Final, de Anton Tchékhov


Título do original (italiano): Senza trama e senza finale

Autor: Anton Pávlovitch Tchékhov

Tradutor: Homero Freitas de Andrade

Editora: Martins Fontes

Edição: 2ª

Copyright: 2002

ISBN: 978-85-8063-371-9

Seleção e prefácio: Piero Brunello

Origem: Rússia

Gênero textual: carta



1.      Preliminares

Há algum tempo venho namorando este pequeno volume – ele tem 112 páginas – pois, vez ou outra, em sítios de orientação para escrita de textos criativos, sua leitura é aconselhada. Bom, a autoria é de ninguém menos do que o mestre dos contos, Anton Tchékhov. São 99 conselhos, orientações para outros escritores, por meio de cartas. Tchékhov foi um grande missivista. Foi feita uma seleção de passagens, em que tais orientações apareceram. Simplesmente imperdível, mesmo para quem não deseja escrever. As observações do mestre são sempre bem-vindas.

2.      Breve biografia

Anton Pávlovitch Tchékhov nasceu em 17/01/1860, em Taganrog, no Império Russo. Foi médico, dramaturgo e contista. Autor de quatro clássicos da dramaturgia mundial, que são: A Gaivota, Tio Vânia, As Três Irmãs e O Jardim das Cerejeiras. A representação de tais peças oferecem dificuldades aos atores, nem sempre aceitas de bom grado. Ao invés da convencionalidade do texto dramático, Tchékhov os dotou de “vida submersa no texto”.

Conforme consta, o grande Liev Tolstoi execrava seu trabalho dramatúrgico: “sabe, não consigo tolerar Shakespeare, mas suas peças são ainda piores”, teria dito ele. Não obstante, Tolstoi admirava o trabalho de Anton com os contos.

Nosso autor começou a escrever simplesmente por imposição financeira. Mas, pouco a pouco, interessou-se pela literatura e transformou-se numa referência importante do gênero conto. Até então, os contos estavam vinculados a uma mensagem moral.

Defendendo a ideia de que cabia ao autor fazer perguntas e não fornecer respostas, ele foi um inovador. Utilizou largamente a técnica narrativa do fluxo de consciência, mais tarde utilizada também por nomes de peso como James Joyce e outros modernistas (técnica também muito utilizada em Mrs. Dalloway, de Virginia Wolf).

Anton Tchékhov morreu em 15/07/1904, em Badenweiller, Império Alemão.

3.      O Livro

Como já se disse, este Sem Trama e Sem Final não é um livro escrito pelo autor russo. É um compilado de trechos de cartas, nos quais ele tece comentários a respeito do trabalho de outros autores, orientações a escritores, num total de 99 passagens selecionadas e organizadas por títulos.

O libreto se divide em um prefácio de Piero Brunello (muito bom, aconselho a leitura dele), “Questões Gerais”, que se subdivide em Por que escrever, Para quem escrever, O que e como escrever e Quando e quanto escrever. A outra divisão recebe o nome de “Questões Particulares”, subdividida em Veracidade, Descrições, Personagens, Sentimentos, O que evitar, A sociedade literária e Últimas coisas.

Esta é uma resenha difícil de se fazer. Terei, para isto, de realizar uma seleção da seleção, de acordo com meu particular senso. Lá na página 37, por exemplo, chamou-me a atenção um trecho de carta a Aleksandr Tchékhov, datada de 20/02/1883:

“Basta apenas ser mais honesto: livrar-se de si mesmo onde quer que seja, não se colocar nos protagonistas do seu romance, renunciar a si próprio nem que seja por meia hora. Tens um conto em que, durante todo o almoço, um jovem casal se beija, desmancha-se em lamúrias, chove no molhado... Nem uma palavra sensata, só blandícia! Não escreveste para o leitor... Escreveste porque esse lero-lero te dá prazer. Ora, descrevesses o almoço, como comiam, o que comiam, como era a cozinheira, quão vulgar era o teu protagonista, satisfeito com sua felicidade pachorrenta, quão vulgar era tua heroína, ridícula em seu amor por esse pilantra bem cevado, empanturrado, de guardanapo no pescoço... Todos gostam de ver pessoas bem nutridas, satisfeitas – isso é verdade; mas para descrevê-las não basta dizer o que elas conversavam e quantas vezes se beijaram... É preciso algo mais: renunciar à impressão pessoal que a felicidade melosa causa nas pessoas não exacerbadas... A subjetividade é uma coisa terrível. Já é ruim só pelo fato de desmascarar o pobre autor da cabeça aos pés.”

Anton Tchékhov era conhecido por não ter uma definição política, coisa que imprime em seus trabalhos, conforme seu depoimento, em carta a Dmítri Grigoróvitch (09/10/1888):

“Ainda não tenho do mundo uma concepção política, religiosa e filosófica: mudo-a todo mês, e por isso devo limitar-me somente à descrição de como os meus protagonistas amam, casam-se, procriam, morrem e de como falam.” (página 63)

Amigo de outro grande escritor russo contemporâneo seu, Máxim Gorki (autor do romance A Mãe), Anton lhe dá sua opinião a respeito de um dos trabalhos do romancista:

“Você pergunta qual a minha opinião sobre seus contos. Qual a opinião? Talento indiscutível e, ainda por cima, autêntico, um grande talento. No conto “Na Estepe”, por exemplo, ele se manifestou com uma força extraordinária, e cheguei a sentir inveja por não ter sido eu a escrevê-lo. Você é um artista, um homem inteligente. Sente à perfeição. É um plástico, ou seja, ao representar um objeto, você o vê e o apalpa com as mãos. Isso é arte autêntica.” (páginas 65/66)

Os contos tchekhovianos carecem de um final impactante, como o queria Edgar Allan Poe – outro importante teórico deste gênero literário tão difícil. Prevalece neles a psicologia dos personagens, como evidenciado pelo conselho dado a Aleksandr Tchékhov (10/05/1886):

“Na esfera da psique também são os detalhes que contam. Deus nos livre dos lugares-comuns! O melhor de tudo é evitar descrever o estado de espírito das personagens; deve-se fazer com que ele seja apreendido a partir de suas ações...” (página 68)

Sob o título Chorar sem que o leitor perceba”, nos vem um conselho absolutamente primordial para um conto – gênero curto por excelência – em que tudo deve ser conciso e servir a um objetivo:

“Sim, escrevi-lhe certa vez que se deve ficar indiferente ao escrever contos que despertam a compaixão. E você não me entendeu. Pode-se chorar ou gemer em cima de um conto, pode-se sofrer junto com as próprias personagens, mas, creio eu, deve-se fazer isso de um jeito que o leitor não perceba. Quanto maior a objetividade, mais forte será a impressão. É isso o que estava querendo dizer.” (página 79)

Claro está, leitor, que adorei o livro todo. Mas, sob o título “O escritor é um simples mortal” está uma das passagens que aplaudo de pé; a transcrição é um pouco longa, mas você me fará o favor de me perdoar:

“Você me escreve que os escritores são seres eleitos. Não vou discutir. Chtcheglov chama-me o Potiómkin da literatura, por isso mesmo não me cabe falar do caminho espinhoso, das decepções, e assim por diante. Não tenho ideia se alguma vez sofri mais do sofrem os sapateiros, os matemáticos ou os maquinistas dos trens; não tenho ideia de quem profetiza através dos meus lábios, se Deus ou qualquer outro de menor valor. Eu me permitirei tão somente constatar uma pequena contrariedade que sinto, a qual, por sua experiência, você também deve conhecer. Eis do que se trata. Eu e você amamos as pessoas comuns, mas somos amados por verem em nós pessoas fora do comum. A mim, por exemplo, vivem me convidando e, aonde quer que eu vá, oferecem-me comida e bebida, como a um general num casório; minha irmã se queixa de que a convidam para todo o canto por ser irmã de um escritor. Ninguém deseja amar em nós pessoas comuns. Em decorrência disso, se ama nhã aparecermos diante dos olhos de nossos bons amigos como simples mortais, deixarão de nos amar e passarão a sentir pena de nós. E isso é péssimo. É péssimo também que amem em nós o que nós mesmos muitas vezes não amamos nem apreciamos.” (página 97)

Por que valeria a pena ler um livro, cheio de recortes de cartas, com conselhos de escrita? Talvez não valesse nada, se o autor não soubesse do que fala. Mas este é Anton Tchékhov, alguém que tem o que dizer. Um gênio do conto, reconhecido entre seus pares. Autor de clássicos, dentro daquela definição de clássico que tanto prezo:

Clássico é aquele livro que, tendo a dizer muito à sua época, tem também muito a dizer a qualquer época. Um abraço!