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domingo, 29 de outubro de 2017

Resenha: As Alegrias da Maternidade, de Buchi Emecheta

Resultado de imagem para livro as alegrias da maternidade buchi emechetaTítulo original: The Joys of Motherhood
Título em português: As Alegrias da Maternidade
Autoria: Buchi Emecheta
Edição: TAG Livros/Dublinense (especial)
Copyright: 1979
ISBN: 9788583180968
Gênero literário: Romance
Literatura africana: Nigéria
Número de páginas: 311
Bibliografia: In the ditch, 1972; Second-class citizen, 1974; The bride price, 1976; The slave girl, 1977; The joys of motherhood, 1979; The moonlight bride, 1981; Our own freedom, 1981; Destination Biafra, 1982; Naira Power, 1982; Adah’s story, 1983; The rape of shavi, 1983; Double Yoki, 1982; A kind of marriage, 1986; Gwendolen, 1989; Kehinde, 1994; The new tribe, 2000.

Florence Onyebuchi Emecheta, mais conhecida como Buchi Emecheta, é uma escritora nigeriana nascida em 21/07/1944, em Lagos, antiga capital da Nigéria, e falecida em Londres, em 25/01/2017. Como se pode depreender de sua bibliografia acima, foi uma autora bastante prolífica. Passou boa parte da sua infância na cidade de Ibuza, terra dos pais. Eles faziam questão de cultivar em Buchi e seu irmão mais velho as raízes da cultura igbo. Entre outras coisas, isto significava que o irmão poderia estudar, por ser menino, e Buchi, por ser menina, não. As mulheres não se pertencem, elas simplesmente passam das mãos masculinas do pai para as do marido e, mais tarde, para as mãos masculinas dos filhos.
Ela adorava escutar histórias contadas pelos mais velhos. E tanto insistiu com os pais, que eles acabaram concordando: Buchi Emecheta passou a frequentar uma escola para meninas, onde aprendeu as línguas nativas e o inglês — idioma escolhido por ela mais tarde, para a produção de seus trabalhos.
Buchi casou-se muito cedo; aos onze anos, já estava noiva do estudante Sylvester Onwordi e aos dezesseis, já estavam casados. Nasceram-lhes dois filhos e a família se mudou para Londres, onde Sylvester entrou para a faculdade. Não foi um relacionamento tranquilo; muito pelo contrário, Onwordi revelou-se um homem machista e violento. A futura autora esboçava seu trabalho de estreia e sofreu o desgosto de ver os originais que compunha completamente queimados.
Aos vinte e dois anos, ela conseguiu o divórcio, pois Sylvester não podia tolerar os sonhos da mulher, de estudar também numa faculdade e tornar-se uma autora. O ex-marido não reconheceu a paternidade sobre os filhos e Emecheta viu-se num país estranho, com cinco filhos para criar e sozinha. Foi à luta, criou os filhos, arranjou trabalho e em 1974 estava formada em sociologia.
Acabei de ler este As Alegrias da Maternidade hoje, domingo, 29/10/2017. Leitura deliciosa, Buchi Emecheta — até então desconhecida para mim, aliás, desconhecida da absoluta maioria dos brasileiros — criou um texto em que o efeito da simplicidade está patente. Os personagens principais, de nomes estranhos, ainda estão circulando na minha cabeça. Nwokocha Agbadi, Ona, Nnu Ego, Nnaife Owulum, Adaku, Adankwo, Okpo, Dumbi, Ngozi, Oshiaju, Adimabua, Taiwo, Kehinde, Nmadio, Obiageli, Malachi...
Esta é uma edição de parceria entre a editora Dublinense, de Porto Alegre, e a TAG Experiências Literárias. Uma edição especial para os associados, mas que, depois de algum tempo, terá uma edição nas livrarias. Não compreendo como um livro desta qualidade pode estar fora do mercado editorial brasileiro há tanto tempo.
Emecheta assumiu o compromisso de “questionar os estereótipos da mulher nigeriana e africana, expondo sua realidade diária e a sua opressão das normas sociais. Sua obra critica, entre outros temas, o tipo de educação destinado à mulher, a valorização da maternidade como única preocupação possível, a violência degradante do colonialismo e a cultura que deslegitima sua autonomia”, de acordo com o exposto na página 11 da revista que acompanha o kit da TAG de outubro.
Nossa autora faz mais do que isto, neste As Alegrias da Maternidade. Nnu Ego, a protagonista desta história, está longe de ser uma personagem plana. Filha do importante chefe Nwokocha Agbadi e a altiva Ona, Nnu casa-se primeiramente com Amatokwu. Não consegue engravidar dele, o que, para uma mulher, dentro desta cultura, é uma autêntica desgraça. É relegada a segundo plano e ela vê o marido contrair novo casamento, desta vez com uma mulher que lhe dá filhos.
O relacionamento é desfeito, pois o chefe Agbadi vê o sofrimento da filha e a compra de volta. Uma mulher não pode ficar sozinha e assim, mesmo com a compreensão paterna, Nnu se vê em outro relacionamento não desejado, desta vez com um homem da cidade de Lagos. O novo marido não é do seu agrado; barrigudo, trabalhando na casa dos ingleses colonizadores como lavador e passador de roupas, tudo o que ele obtém de Nnu é desprezo. Aquilo não é trabalho de homem. Homem é caçador, agricultor.
Nnu se constrói, então, como uma personagem rica, aparentemente incoerente, oscilando sem consciência da transformação entre a força da tradição e os novos tempos. Quem tem muita consciência sobre o processo de mudança imposta é Adamkwo, a esposa mais velha do irmão morto de Nnaife, quando esta dá sua opinião à Nnu, sobre o filho dela, Nnu:
“O que você acha que eu devo fazer com Oshia? Ele se adaptou tão bem à vida na lavoura quanto à do estudante. Adora estar aqui.”
“Isso é verdade”, respondeu Adamkwo, pensativa. “Mas há algo novo chegando à nossa terra, você percebeu? Nós, como família, não precisamos viver e ser criados no mesmo lugar. Deixe que ele estude em Lagos, onde nasceu. Depois, poderá vir para cá trazendo aquela cultura para enriquecer a nossa.” (página 223)
O romance analisa a questão da tradição que vai se perdendo, sufocada pelos novos costumes impostos pelo branco colonizador. Desta forma, o costume de um homem poder ter tantas esposas quantas consiga sustentar, tantos filhos quantos nasçam, ora é defendido por Nnu (dentro de sua cultura isto é normal), ora é combatido por ela.  E mais, quando o irmão de Nnaife morre, as esposas dele passam para a posse do seu marido, por herança.
Nnaife é um homem acomodado, com uma visão limitada. Ele quer apenas viver a vida sem grandes pretensões, ser amparado pelos filhos na velhice, ter muitos filhos com as esposas porque isto faz com que seja respeitado como homem. As filhas são vistas, não só por ele, como por todos, como investimentos (carreiam dotes para a economia da família).
Nnu Ego herdou a altivez da mãe Ona. Não exatamente como Ona, de gênio mais impositivo, mas a rebeldia a certos preceitos é a mesma. Isto não a impede, entretanto, de viver uma vida de ausências: ausência de dinheiro, mínimo para educar direito os filhos, para ter uma condição razoavelmente digna de vida; ausência prolongada do marido, transformado em combatente na Segunda Guerra Mundial. Não há grandes empregos em Lagos, para os nigerianos. Eles vivem à margem dos ingleses, contratados com baixos salários.
A Segunda Guerra Mundial estoura, mas o conflito é tratado no romance como algo distante, desconfigurado. Só se sabe que, de repente, os ingleses começam a abandonar suas casas na Nigéria e voltarem para a Inglaterra. A empregabilidade dos nigerianos da capital cai sensivelmente. Não há mais quem lhes dê serviço.
Entretanto, as coisas tomam matizes terríveis quando os próprios nigerianos são convocados — sequestrados seria a palavra mais correta — para uma guerra que não é deles, que eles não entendem.
Vemos uma Lagos em transformação. Um conflito potencialmente modificador dos hábitos locais, apesar de distante; o cristianismo modificando os costumes e condenando o sistema familial; a industrialização promovida pelos colonizadores, ainda que incipiente. O contraponto é Ibuza, onde a vida segue dentro dos eixos da tradição, pacata e sem fortes contradições internas, pois vigoram as leis da ancestralidade — vale dizer, leis advindas da tradição.
As Alegrias da Maternidade é, sem dúvida, uma grande obra. Buchi Emecheta é, sem dúvida, uma grande escritora. Não à-toa, a famosa Chimamanda Ngozi Adichie, curadora da TAG para o mês de outubro, tem nela uma de suas inspiradoras. O título, que poderia ser interpretado como um elogio à maternidade, constitui-se como uma rasgada ironia, como se pode verificar neste trecho, transcrito da página 308:
“Nunca fizera muitos amigos, de tão ocupada que vivera acumulando as alegrias de ser mãe.”
Uma das coisas que valoriza muito o romance é que Emecheta fala de dentro da cultura igbo, localizando ali grande parte dos conflitos de suas personagens:
“Meses depois, quando caiu naquele sono cansado que muitas vezes aprece no início da gravidez, Nnu Ego sonhou que estava vendo um menininho de cerca de três meses de idade abandonado junto a um riacho. Ficara pensando por qual razão a criança estaria abandonada daquele jeito. Metade do corpo do bebê estava coberto de lama, a outra metade de muco que escorria de seu nariz e de sua boca. Ela estremeceu quando se aproximou para recolhê-lo. era muito escuro, tinha a cor de azeviche de seu pai, mas era gorducho e estava extremamente sujo. Ela não pensou duas vezes: pegou o bebê e resolveu lavá-lo no regato para depois esperar a chegada da mãe dele. A mãe não chegava e Nnu Ego sonhou que o dependurava nas costas, já que o menino estava sonolento. Depois, em seu torpor, viu a escrava, sua chi, do outro lado do riacho, dizendo: ‘Isso, pegue os bebês sujos e gorduchos.” (página 111)
Chi, o deus ou deusa particular, reencarnação, predestinação... valores de uma cultura. Estes mesmos valores que são questionados, cada vez mais, na cidade de Lagos são aqueles mesmos inquestionados em lugares mais distantes, nos quais a influência do branco ainda não chegou.
É o que está presente na página 215, quando morre o grande chefe Agbadi:
“Semanas mais tarde, Nnu Ego entrou em trabalho de parto. O menino que ela teve chegou ao mundo exatamente na mesma hora da madrugada em que seu pai morrera. Ela queria dar a ele o nome do pai, mas não sabia como dizer isso à gente de Nnaife, temendo que a considerassem uma mulher ultracivilizada, dessas que escolhem sozinhas os nomes dos filhos. Só porque o marido estava lutando na guerra. Era uma preocupação desnecessária. Bastou um olhar para a criança de corpo alongado e pele seca deitada sobre a folha de bananeira para que Adamkwo, a esposa Owulum mais velha, que auxiliara no parto, exclamasse:”
“É Agbadi! Ele está de volta!.”
 O filho Oshia representa a nova mentalidade que se impõe aos mais velhos, não sem sofrimento e conflito:
“Não estou entendendo, pai. Você está me dizendo que eu deveria alimentar meus irmãos, você e minha mãe também, mas vocês estão vivos e fortes, ainda trabalham...”.
“Cale a boca! Cale a boca antes que eu jogue você no chão e lhe mostre que você não ficou assim tão crescido que eu não possa lhe dar uma lição. Por acaso não ouviu meus amigos dizerem, no outro dia, que estava na hora de eu descansar, depois de todo o trabalho que tive ao longo dos anos? Que você devia assumir os gastos?”.
“Não posso assumir os gastos, pai. Vou para os Estados Unidos. Ganhei uma bolsa de estudos, embora tenha que pagar pelo alojamento.” (Página 278)          
Para finalizar, um lamento profundo comparece nas páginas finais do capítulo O pai soldado:

“Deus, quando você irá criar uma mulher que se sinta satisfeita com sua própria pessoa, um ser humano pleno, não o apêndice de alguém?” (desabafo de Nnu Ego, página 257)                                                                                                                                                                                                                      
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