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sábado, 25 de fevereiro de 2017

Resenha: Dresden - Terça-feira, 13 de fevereiro de 1945

Resultado de imagem para livro dresdenTítulo: Dresden – Terça-feira, 13 de fevereiro de 1945
Título Original: Dresden
Autor: Frederick Taylor
Tradutor: Vítor Paolozzi
Copyright: 2004
ISBN: 978-85-01108-7
Número de páginas: 587
Bibliografia do autor: Auf Wiedersehen, 1983; Walking Shadows, 1984; The Kinder Garden, 1990; The Peacebrokers, 1992. Não ficção: Dresden: Tuesday, 13 February 1945, 2004; The Berlin Wall: 13 August 1961; Exocising Hitler: The Occupation and Denazification of Germany, 2011; The Dowfall of Money: The Germany’s Hyprinflation and Destruction of  The Middle Class, 2013.

O ônibus da excursão, vindo de Berlim, após uma curva suave, passou em meio a prédios antigos. Seguiu a rua de acesso a uma praça ampla, Theaterplatz (Praça do Teatro), onde ao fundo está a Semperoper, ultrapassou um restaurante e pizzaria do lado direito e estacionou em frente a um prédio antigo. Nosso guia nos disse que aquela cidade alemã – Dresden – fora completamente destruída pelo fogo dos aliados no mês de fevereiro de 1945. Nós, turistas, não podíamos fazer ideia, nem aproximada, da realidade dos fatos ali acontecidos, naqueles fatídicos dias, entre 13 e 15 de fevereiro de 1945. Dresden – também conhecida pelo apelido merecido de “Florença do Elba” – erguia-se imponente em sua beleza plástica, cidade barroca, com belas fachadas dos prédios. O palácio Zwinger se destacava na paisagem, com sua área interna, intitulada “A Fonte do Banho das Ninfas”. Nada nos fazia lembrar os horrores da Segunda Guerra Mundial; as construções em arenito se apresentavam, em muitos casos, encardidas, escurecidas, e o guia nos disse que, por ser o arenito material muito poroso, a poluição se lhe entranhara. Verdade, mas não toda a verdade; vim a saber depois: pedras, blocos calcinados pelo fogo do incêndio ocasionado pelo bombardeio lhes emprestavam também a cor escura. Dresden, a bela e cultural capital da Saxônia alemã, a que fora conhecida como “Florença do Elba”, havia sido reconstruída, recuperando algumas de suas mais belas expressões arquitetônicas.

Frederick Taylor (não confundir com Frederick Winslow Taylor, pai do taylorismo) nasceu em Aylesbury, Buckinghamshire, Inglaterra. Frequentou a escola local e a Aylesbury Grammar School. Em 1967, foi para a Universidade de Oxford estudar História e Línguas Modernas (Alemão). Fez pós-graduação na Universidade de Sussex, onde obteve uma bolsa de estudos pela Volkswagen e trabalhou na Alemanha do Leste e do Oeste, pesquisando uma tese sobre a extrema-direita germânica antes de 1918. Desde então, ele trabalha como editor, tradutor de ficção e não ficção, romancista e roteirista. Ele traduziu e editou O Diário de Goebbels 1939-1941 como um dos muitos trabalhos de divulgação histórica voltados para o público.
O trecho acima, em itálico, expõe minhas primeiras impressões de Dresden, quando de uma viagem de turismo em 2014. A excursão ao leste europeu me deixou fortes impressões e, a partir daí, passei a pesquisar sobre os países componentes da região. Descobri muito: uma cultura interessante, uma história intrigante – em que se sobressaía o antigo Império Austro-Húngaro e suas tramas – e uma literatura de primeiríssima qualidade, felizmente representada por edições no Brasil.
O livro Dresden, objeto desta resenha, pertence à categoria dos calhamaços e o texto de Frederick Taylor é preciso, cheio de fatos e documentos pesquisados com rara disposição e é, também, uma narrativa fluente e sensível, na qual fica extremamente clara a condenação do autor à tragédia ocorrida ali. E – o que não é pouco – é um livro capaz de pôr um ponto final nas especulações sobre ter sido o ataque uma barbárie gratuita (barbárie o foi, como o fora também a ação alemã na guerra, mas não gratuita) contra uma cidade inocente. Produto em parte de desconhecimento sobre o que representava Dresden para o esforço de guerra alemão, além de seu aspecto cultural, em parte pela propaganda habilmente maliciosa de Goebbels – Ministro da Propaganda de Hitler.
O texto de Taylor tem trechos extremamente técnicos; expõe dados, planilhas das incursões da RAF – Royal Air Force – sobre a cidade às margens do Rio Elba; naturalmente, há um motivo para que o autor faça isso, tão minuciosamente: desfazer os enganos sobre Dresden ter sido atacada sem motivo, como se unicamente fosse uma vingança pelo ataque alemão à cidade britânica de Coventry. Opto conscientemente por fornecer alguns dados extraídos do livro Dresden, mas o que me orienta nesta resenha não são os dados estatísticos do conflito, mas a sua dimensão humana.
Dresden teve sua fundação com base num povoado de origem eslava, de nome Drezdane e começou a ser germanizada a partir do século XIII. Ao longo de sua história, sofreu outros incêndios, um deles perpetrado pelos nazistas, destruindo a sinagoga durante a famosa “Noite dos Cristais”, em 09/11/1938.
Taylor nos dá uma ideia da pujança da cidade, à página 58:
“O sutiã foi inventado em Dresden pela Fräulein Christine Hardt em 1889. (De forma ainda mais curiosa, o primeiro e último gauleiter (líder de província) da Saxônia nazista foi um fracassado fabricante de lingerie). A cidade também podia proclamar ter sido o primeiro lugar na Europa a fabricar cigarros (no começo manualmente e depois com máquinas), filtro de café, saquinho de chá, pasta de dente em tubo (“Chlorodont”) – e preservativo de látex. Ah, e tornou-se um grande centro das indústrias de máquinas fotográficas e de escrever. A clássica e portátil máquina datilográfica Erika, de Seidel & Naumann ganhou fama mundial. Carl Zeiss pode ter estabelecido suas lentes e espelhos especiais em Jena, mas, na hora de produzir câmeras para o público, foram dedos ágeis e olhos treinados de milhares de trabalhadores de Dresden que ganharam sua confiança. Muitas outras companhias ergueriam fábricas de câmeras em Dresden, não apenas Zeiss, tornando-a a mais importante indústria individual da cidade. ”
Acrescente-se a essas indústrias a fábrica de porcelana em Meissen (cidade a 25 km de Dresden), rivalizando seu produto com as marcas chinesas. Toda esta atividade industrial pouco conhecida foi adaptada ou transformada para produzir peças necessárias aos aviões e armamentos. Por exemplo, a Carl Zeiss passou a fabricar lentes para a mira das armas utilizadas pelos soldados alemães.
Na noite de 14 de novembro de 1940, a Luftwaffe – Força Aérea da Alemanha – com 515 bombardeiros, fez um ataque à cidade de Coventry, bem ao sul da Inglaterra, utilizando-se de sinais luminosos lançados por paraquedas, com o fito de marcar o alvo. Cilindros incendiários, à base de fósforo, foram jogados sobre o alvo. Quando estavam caindo, tais cilindros emitiam uma chuva de fagulhas, espalhando incêndio por todos os lados. Logo depois, vieram as bombas de alto poder explosivo. O ataque atingiu seu máximo por volta da meia-noite. Embora a destruição tenha sido intensa, “apenas” 568 civis morreram. A Luftwaffe, entretanto, tinha limitações e só podia realizar incursões por etapas, pois os aviões tinham de voltar à base, reabastecer e retomar o ataque.
Naquele momento, a Alemanha possuía uma Força Aérea muito superior à dos aliados e essa supremacia desequilibrava francamente as coisas para os alemães. São figuras importantes, do lado inglês, Winston Churchill e o mal-humorado major-brigadeiro Sir Arthur Travers Harris. Nas mãos de Harris estavam as decisões operacionais da RAF – Royal Air Force. E ele era partidário do arrasamento sistemático das cidades alemãs, como forma de lhes abater o moral.
Os fatos seguem, num crescendo trágico. O esforço britânico logo consegue produzir aviões melhores, bombardeiros de alta carga de destruição, apelidados de “pesadões” e, junto com os aliados americanos, começam a virar o jogo na cena da guerra. Entra no cenário a tal “guerra moral”, em que se procura infringir derrotas vexatórias ao lado inimigo, com o propósito de tirar o ânimo combativo dos soldados.
Dresden, bem como algumas outras localidades alemãs, ainda não havia sido alvo de qualquer tentativa de ataque sistemático. Não obstante, longe dos olhos do inimigo, o alto comando britânico já selara o destino de Dresden. Era apenas uma questão de momento certo e condições meteorológicas apropriadas. A população dresdense não podia conceber um ataque à cidade, em parte por ela estar muito distante da Inglaterra e em parte, pelo convencimento de serem um oásis em meio à guerra. Desta forma, a cidade se descuidou; as autoridades não construíram abrigos antiaéreos eficientes, não havia bateria antiaérea. Muitos ingleses e americanos haviam estudado nas universidades de Dresden, o que contribuiu para aquele bem-estar dresdense em relação ao inimigo.
Quando o ataque britânico se tornou visível, pegou uma cidade completamente desprevenida. Iniciou-se às 12h35 de 13/02/1945:
“Tudo começou em poucos minutos, com as bombas sendo jogadas entre 12h35 e 12h40. As fotos da Força Aérea dos EUA remanescentes mostram marcadores de alvo ainda em queda e bombas explodindo no perímetro sul dos pátios de manobra da Friedrichstadt. Algumas das bombas destinadas aos pátios desviaram-se a norte, caindo na vizinha fábrica Seidel & Naumann, onde no passado eram feitas máquinas de escrever, de costura e bicicletas, mas que agora se devotava à produção de armamentos. ”
Os aliados desenvolveram o ataque em cascata, isto é, aviões atacavam e não precisavam voltar à base para o reabastecimento; ao invés disso, reinvestiam sobre os alvos. O plano arquitetônico de Dresden atuou contra a cidade: a localidade era constituída por vários prédios antigos, com muita madeira seca e secular, as construções eram muito próximas umas das outras.
A segunda onda de ataque aéreo aconteceu de 1h21 a 1h45, já na noite do dia 14/02/1940. Dentro em pouco, o centro de Dresden não existia mais. Tanto na primeira onda do ataque quanto na segunda, as pessoas eram orientadas a se esconderem nos porões das construções, num sistema que se interconectava a outros, por meio de túneis e passagens estreitas. Tal orientação se revelou além de ineficiente para muitos, uma verdadeira tragédia.
As bombas incendiárias ateavam fogo em toda parte e logo os pequenos focos se juntavam e formavam uma verdadeira fornalha. O oxigênio, em temperatura mais baixa e mais perto do chão, era sugado para cima pelo calor ascendente, matando uma enorme quantidade de pessoas por asfixia, mesmo dentro dos porões. Os túneis e passagens tornaram-se impraticáveis pelo calor, pela fumaça, pelo gás carbônico gerado e pela propagação do fogo. Os depoimentos recolhidos por Frederick Taylor nos impressionam, ainda hoje – tanto tempo passado:
“No entanto, nós logo percebemos que o avanço era impossível. Ao passarmos por uma rua estreita atrás do Altmarkt – a Webergasse, eu creio –, nos vimos sugados por uma forte corrente rasteira de fogo. De repente, minha mãe parecia estar voando. Papai disse: ‘Temos que dar o fora daqui.’ Nós conseguimos chegar à Zeughausstrasse. A casa comunitária judaica estava em chamas. Nós deveríamos nos apresentar ali dois dias mais tarde para o ‘deslocamento’. Que ironia, estarmos agora diante da construção incendiada com a ordem de deportação dentro da mochila! ”
Por volta do meio-dia de 14/02/1945, um terceiro e curto ataque à já combalida Dresden aconteceu. Desta vez, perpetrado pela Força Aérea dos EUA, utilizando suas temíveis Fortalezas Voadoras B17.
“Dresden inteira era um inferno!
Na rua, as pessoas vagavam, impotentes. Vi minha tia. Ela havia se embrulhado com um cobertor molhado e, ao me ver, gritou: ‘Vá para o terraço do Elba! ’ O som da tempestade de fogo crescente engoliu suas últimas palavras. A parede de uma casa ruiu com grande estrondo, enterrando várias pessoas. Uma grossa nuvem de poeira subiu e, combinada à fumaça, tornou a visão impossível. Então uma mão me agarrou pelo pescoço e me puxou para longe dos destroços. Era o jovem piloto, que com toda a sua tranquilidade, provavelmente salvou minha vida no meio desse caos. A gente não parava de tropeçar em cadáveres...”
Em 15/02/1945, por volta das 15h45, a única construção dresdense que ficara de pé, a Frauenkirche (Igreja de Nossa Senhora) começou a ruir. Com a diferença de temperatura entre o auge do incêndio a que fora submetida e o posterior resfriamento, uma série de distorções na construção ocorreram. As traves que sustentavam o teto, encimado por um domo feito de cobre soltaram-se e a igreja implodiu.
Frederick Taylor, neste magnífico livro Dresden sobre os ataques à “Florença do Elba” arrola alguns motivos para os fatos terem se passado como se passaram. Primeiro, Dresden não era uma cidade “inocente”, como a propaganda de Goebbels fez crer; a bela cidade participava do esforço de guerra alemão, fornecendo peças para armamento. Nesse caso, os ataques, dentro da lógica bélica, não foram indevidos. Segundo, “os russos haviam iniciado mais cedo sua ofensiva rumo ao leste da Alemanha, a pedido dos aliados – nos relata Taylor – para reduzir a pressão nas forças anglo-americanas. Em resposta a esse ‘favor’, os aliados usaram seu poderio aéreo para destruir cidades alemãs aquém do front russo – incluindo Dresden – com a intenção de produzir uma recompensa que pudesse ser demonstrada de maneira prática. ”
Um terceiro motivo, não confessado, nem documentado, mas perfeitamente dedutível, os Estados Unidos queriam mostrar de maneira cabal aos comunistas russos – seus aliados de momento – o quão destrutivo poderia ser um ataque aéreo, no qual mantinham a soberania absoluta de forças. Uma prática intimidatória, portanto.
Fica extremamente difícil não pensar, após a leitura dessa volumosa obra, tão rica em detalhes, dados, depoimentos, que não tenha havido um componente de vingança por parte dos britânicos – eles não esqueceram Coventry.
Deixo a finalização desta longa resenha por conta do autor, Frederick Taylor, às páginas 475/476:
“É verdade que muito do que se pensou e falou sobre Dresden desde a sua destruição se deve em grande parte aos esforços dos propagandistas nazistas, primeiro, e comunistas, depois. Mesmo assim, tão logo a guerra acabou e nós começamos a procurar por símbolos para compreendê-la, o instinto popular corretamente identificou, e continua a identificar, o que aconteceu em 13/14 de fevereiro de 1945 como alerta de excesso. Dresden permanece como uma terrível ilustração do que seres humanos aparentemente civilizados são capazes de fazer sob circunstâncias extremas, quando todos os freios normais no comportamento humano se erodiram por anos de guerra total. O bombardeio de Dresden não foi irracional ou sem sentido – ou pelo menos não para aqueles que o ordenaram e o realizaram, que estavam profundamente imersos numa guerra que já havia custado dezenas de milhões de vidas, e ainda poderia custar outros milhões, e que não tinham como prever o futuro. Se foi errado – moralmente errado –, é uma outra questão. Quando pensamos em Dresden, nos debatemos com os limites do que é permissível, mesmo na melhor das causas.”
(...) 
“Ou, como o pintor Goya – igualmente familiarizado com o horror – expressou de maneira ainda mais econômica: ‘O sono da razão faz surgir monstros.’”
Saio dessa leitura pesada, desconfortável, mas necessária, menos ingênuo...
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