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sábado, 18 de fevereiro de 2017

Resenha: O Xará, de Jhumpa Lahiri

Resultado de imagem para livro o xaraTítulo do Livro: O Xará
Título Original: The Namesake
Autora: Jhumpa Lahiri
Tradutor: Rafael Mantovani
Edição Exclusiva da TAG Livros/Globo
ISBN: 978-85-250-6355-7
Edição: 2ª
Copyright: 2014 by Editora Globo
Número de páginas: 342
Bibliografia da autora: Contos – Interpreter of Maladies (Intérprete dos Males) 1999; Unacostummed Earth (Numa Terra Estranha) 2008; Romances – The Namesake (O Xará) 2003; The Lowland (Aguapés) 2013; não ficção – Cooking Lessons: The long way home 2004; Improisations: Rice 2009; Reflections: Notes from a Literary Apprenticeship 2011. Prêmios: Pulitzer de 2000, por Interpreter of Maladies; finalista do Man Booker Prize, por The Lowland.

Nilanjana Sudeshna Lahiri é uma escritora nascida em Londres, em 11/07/1967, filha de família indiana (Bengali). Seus pais imigraram para os Estados Unidos quando ela contava com dois anos de idade. É costume indiano as crianças terem um darknam (um nome pelo qual são conhecidas pelos amigos, pelos familiares) e só mais tarde receberem um “nome bom” – que constará dos documentos oficiais, passaportes, etc. Desta forma, quando ela ingressou em uma creche, na cidade americana de Rhode Island, os professores acharam mais fácil designá-la pelo seu darknam Jhumpa, ao invés do complicado Nilanyana.

Lahiri formou-se na South Kingstown High School e logo depois cursou Literatura Inglesa no Barnard College, em 1989. Fez mestrado em Inglês, MFA em Escrita Criativa e Mestrado em Literatura Comparada. Participou da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, em 2014.

Hoje, Jhumpa Lahiri é casada, tem dois filhos; vivem em Roma, Itália, tendo escrito um livro recente em língua italiana, In Altre Parole (Itália, 2015). Esse ‘desenraizamento’ é uma característica que irá aparecer em seus trabalhos, notadamente em O Xará e Aguapés.

Recebi O Xará, de Jhumpa Lahiri, numa edição exclusiva para os assinantes da TAG Livros, muito bonita, bem revisada. Não conhecia a autora, indiana de nascimento. A autora já declara ser “devedora” do livro de Vladimir Nabokov, Nikolai Gogol. Possivelmente, o que chamou a atenção de Jhumpa sobre o escritor russo foi exatamente sua experiência identitária, isto é, Nikolai Gógol nasceu em 1809 e possuiu nacionalidade ambígua. Rússia e Ucrânia reivindicam sua procedência, pois ele nasceu na Ucrânia – território que, à época – fazia parte do Império Russo. Além do mais, Nikolai sempre escreveu no idioma russo. Essa ambivalência de origem é profundamente importante para a significação do personagem de O Xará, Gógol Ganguli.

E esta significação de que falo começa muito antes do nascimento do personagem; o pai, Ashoke, precisa fazer uma viagem de trem de Calcutá para Jamshepdur, na Índia. Ashoke é um aficionado da literatura russa: Dostoiévski, Tolstoi e, naturalmente, Nikolai Vassílievitch Gógol são seus autores lidos. Assim, durante a viagem, ele lê O Capote – um conto famoso e considerado tão importante na Rússia que o escritor Dostoiévski declarou, a certa altura, “todos nós viemos de O Capote”.

Somente a título de adiantamento – estou aproveitando a deixa e lendo O Capote e Outras Histórias, para a próxima resenha – direi que se trata de um conto de teor fantástico, tão ao gosto do folclore russo.

Retomando o fio da meada, Ashoke então, lê no trem o conto fantástico. Sofre um acidente:

“Mas a luz do lampião demorou-se ali, apenas por tempo suficiente para que Ashoke levantasse a mão, um gesto que ele achou que fosse consumir o pequeno fragmento de vida que lhe restava. Ainda segurando uma única página de O Capote, amassada com força em seu punho, e quando levantou a mão, o maço de papel caiu de seus dedos. “Espera! ”, ele ouviu uma voz gritar. “O cara perto daquele livro se mexeu. Eu vi. ” (página 27)

Ashoke foi então levado, muito machucado, ao hospital. O Capote havia lhe salvado a vida. O fascínio sentido por ele, em relação à literatura russa, só aumentou, depois do acidente. E aquele homem ficou sequelado: ao andar, puxava de uma perna.

Seu filho nasceu e, pelo costume bengali, devia receber um darknam, uma espécie de “nome de casa”, a ser usado somente pelos parentes e amigos; tempos depois, a criança deveria receber o “nome bom”, pelo qual seria registrada oficialmente e para o mundo externo, seria sua identificação. A honraria caberia à avó de Ashima, esposa de Ashoke. Como o casal já reside nos Estados Unidos e a veneranda senhora envia um nome de menina e outro, de menino por carta, o atraso no recebimento da correspondência começa a inquietar o pai. O menino precisa de um nome.

Resolve ele mesmo pensar em um, premido pela necessidade. Lembra-se da obra de Nikolai Gógol, que lhe havia salvado a vida uma vez e opta por dar esse nome ao filho: Gógol, ajuntando-lhe o sobrenome de família, Ganguli. Logo, o pequeno passa a ser conhecido por Gógol Ganguli.

Problemas começam a acontecer, por diferenças culturais e notariais: em seu novo país, os Estados Unidos, não existe essa possibilidade de se considerar o nome de uma criança e deixá-la sem um nome oficial. Então, aquele que deveria ser apenas um darknam torna-se um nome oficial, um “nome bom”.

Gógol Ganguli cresce com uma crise de identidade que só aumenta: é um descendente de indianos bengalis, que fazem questão absoluta de manter suas tradições vivas, mas é um americano influenciado pela filosofia do “american way of life”. Seu nome não é exatamente algo que o identifique, pois além de soar estranho tanto em seu país de nascimento quanto no país de nascimento de seus pais, ainda é um sobrenome transformado em nome. Gógol odeia seu nome:

“Pois a essa altura, ele passou a odiar perguntas relacionadas a seu nome, odeia ter que explicar o tempo todo. Odeia ter que dizer às pessoas que não significa nada “em indiano”. Odeia ter que usar um crachá preso ao suéter no dia das Nações Unidas na escola. Odeia inclusive assinar seu nome embaixo de seus desenhos na aula de artes. Odeia que seu nome seja tanto absurdo quanto desconhecido, que não tenha nada a ver com quem ele é, que não seja nem indiano nem americano, mas justamente russo. ” (página 93)

A questão central da identidade, simbolizada aqui pelo nome, atormenta nosso personagem durante muito tempo. Toma a decisão de mudar de uma vez por todas aquele nome esdrúxulo e procura os meios legais para a alteração desejada. Vai se chamar Nikhil. Mas, pelo menos de início, os problemas não são minorados:

“Só há uma complicação: ele não se sente Nikhil. Ainda não. Parte do problema é que as pessoas que agora o conhecem como Nikhil não fazem ideia de que antigamente ele era Gógol. Elas o conhecem apenas no presente, nada do passado. Mas após dezoito anos de Gógol, dois meses de Nikhil parecem algo desprezível, insignificante. Às vezes ele se sente como se tivesse escolhido a si mesmo para o elenco de uma peça, fazendo o papel de gêmeos indistinguíveis a olho nu, mas fundamentalmente diferentes. ” (página 128)

O tema central, o do não pertencimento a um determinado lugar, a uma determinada cultura, aos quais a pessoa deverá se adaptar é contundente. Muitos imigrantes jamais se acostumam inteiramente aos novos valores. Será uma questão que permeará, com esmagadora frequência, os imigrantes da Síria para os países europeus. Choque cultural, de concepções sobre a vida, usos, costumes. Muitas vezes, esses imigrantes se aferram à suas próprias tradições como meio de não perderem a própria identidade. Tornam-se grupos fechados, dentro de uma cultura “externa” que, na maioria dos casos, não os acolhe exatamente pelo efeito de isolamento.

Perpassa o texto um sentimento nostálgico, mais evidente (talvez por ser claramente dito, ao invés de mostrado), no trecho seguinte:

“E, mesmo assim, esses eventos formaram Gógol, moldaram-no, determinaram que ele é. Eram coisas para as quais era impossível se preparar, mas que faziam alguém passar uma vida inteira relembrando, tentando aceitar, interpretar, compreender. Coisas que nunca deveriam ter acontecido, que pareciam descabidas, eram essas que prevaleciam, que duravam, no fim das contas. ” (páginas 332/333)

Como subtema, a solidão do indivíduo entre seus iguais, como bem nos lembra Carlos Drummond de Andrade em um de seus poemas: “Ó solidão do boi no campo, /Ó solidão do homem na rua. ” Não se identificando com o jeito americano de ser, nem com o jeito indiano de ser, Gógol Ganguli é um homem marcado pela solidão, pelo relacionamento difícil com o outro.

E entre todos os personagens deste excelente livro (finalista do prestigioso prêmio Man Booker Prize 2013 e do National Book Award do mesmo ano), quem mais sente com clareza esse problema do “solitário andar por entre as gentes” é a mãe de Gógol/Nikhil, Ashima:

“Para Ashima, migrar para os subúrbios parece um gesto mais drástico, um transtorno maior do que tinha sido a mudança de Calcutá para Cambridge. Queria que Ashoke tivesse aceitado o cargo na Northeastern, para que eles pudessem ter ficado na cidade grande. Espanta-se com o fato de que nessa cidade universitária não existam calçadas, semáforos, transporte público, nenhuma loja a quilômetros de distância. Ela não tem interesse em aprender a dirigir o novo Toyota Corolla que agora precisam ter. Embora não esteja mais grávida, continua, às vezes, a misturar Rice Krispies, amendoins e cebolas numa tigela. Pois Ashima está começando a se dar conta de que ser estrangeira é uma espécie de gravidez eterna – uma espera perpétua, um fardo constante, um sentimento contínuo de indisposição. É uma responsabilidade ininterrupta, um parêntese no que antes tinha sido a vida normal, apenas para descobrir que a vida anterior desapareceu, suplantada por algo mais complicado e exaustivo. Ashima acredita que, assim como a gravidez, ser estrangeira é algo que desperta a mesma curiosidade em estranhos, a mesma combinação de pena e respeito. ” (páginas 64/65)

O Xará é escrito em tempo presente, em seu uso mais conhecido como “presente histórico”, que consiste em se utilizarem verbos no presente do indicativo para abordar fatos, acontecimentos ocorridos no passado. O efeito? Traz para perto de nós, leitores, as sensações e eventos já acontecidos, atualiza a narração.

A importância do nome é abordada nas páginas 335:

“Sem pessoas no mundo que o chamem de Gógol, por mais que ele próprio viva, Gógol Ganduli vai, de uma vez por todas, desaparecer dos lábios dos entes queridos e, assim, deixar de existir. No entanto, a ideia dessa extinção final não lhe proporciona sensação de vitória ou consolo. Não proporciona consolo algum. ”


Sentimento igualmente enunciado pelo herói Aquiles, diante de sua mãe Tétis, ao justificar sua participação na Guerra de Troia, desequilibrando as ações para o lado dos gregos, mesmo que houvesse uma profecia de ele morrer na empreitada: deseja que o seu nome passe à posteridade. Não deseja ser esquecido e, em se arriscando,  futuras gerações pronunciarão o nome Aquiles.
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