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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Slow Reading, de John Miedema

Resultado de imagem para slow reading john miedemaJohn Miedema é especialista em tecnologia da informação na IBM, empresa na qual ele se especializou, mais especificamente, em tecnologias da rede. É aluno, em tempo parcial, do programa de mestrado em Biblioteconomia e Ciência da Informação da Universidade  de Ontario Ocidental. A ênfase é nas áreas de pesquisa sobre a leitura e bibliotecas de fonte aberta. John mora com a mulher e dois filhos adolescentes em Southwestern Ontario.

Antes de se falar em slow reading, devemos abordar o slow movement, surgido como um contraponto ao fast movement (movimento rápido, em português). A pressa parece uma constante no mundo moderno; tudo é fast, desde a alimentação, passando pelo trabalho, pelos (longínquos) prazeres da vida. O ritmo alucinante de nossas vidas, desde o momento em que nos levantamos – ou até mesmo enquanto dormimos, cada vez mais, pouco e mal – até quando chegamos em casa, exaustos de tanta correria. A famosa fast food, um hábito que já não se restringe mais ao “american way of life”, mas toma conta do mundo todo, acabou por gerar um movimento contrário. As proposições desse novo modo de vida são fruir as coisas, a nossa vida, de um modo lento, com degustação e, portanto, maior prazer.

O slow reading é uma das vertentes dessa proposta: ler atentamente, ler de modo relexivo, sempre com o intuito de aproveitar o máximo possível o prazer da leitura. Não prega que devamos, em toda e qualquer situação, ler de maneira lenta. O livro nos lembra haver casos nos quais a rapidez se impõe:

“Slow reading significa ler em ritmo reflexivo. A ideia de ler mais lentamente pode parecer estranha numa época em que cada vez mais se exige leitura dinâmica, em face da quantidade de literatura informativa. Claro que muitas vezes é importante ser capaz de ler rapidamente. Quem por natureza lê devagar só a custo admite isso. Eu sou um leitor lento. Um livro que leio em um mês é lido pelos outros em uma semana. Às vezes se considera que a leitura lenta reflete o pensamento lento, e eu não contesto essa associação. A leitura lenta de um livro leva a uma relação mais profunda com suas histórias e ideias. Quando leio um livro lentamente, ele continua me influenciando mesmo depois de passados anos.” (página 13)

Este Slow Reading – os benefícios e o prazer de uma leitura sem pressa – é dividido em quatro capítulos, nos quais o autor, em cada um deles recorre à pesquisa e às ideias já apresentadas e oferece uma perspectiva original.

O primeiro capítulo chama-se A natureza pessoal da slow reading. O segundo, Slow Reading numa ecologia da informação; o terceiro, O Slow Movement e a Slow Reading e, finalmente, o quarto, A psicologia da Slow Reading.

No passado, a leitura era artigo de luxo, pois somente uns poucos letrados podiam se dedicar a ela. Como o livro era ainda muito caro, muitas vezes consistindo em réplicas manuais, pacientemente feitas pelos copistas, somente as obras de caráter clerical eram feitas, bancadas pela Igreja. Lia-se reverentemente um livro sagrado. Mais tarde, dentro das faculdades, os estudos acadêmicos eram praticados de maneira lenta, acurada, para extrair o pleno significado de um texto. Ainda hoje, os professores de português se utilizam das mesmas técnicas nas aulas de leitura com seus alunos. Ressalta-se a construção frasal aqui, o uso extremamente apropriado de um adjetivo ou de um tempo verbal ali.

Nunca se leu tanto quanto hoje. Essa afirmação pode parecer em descompasso com as pesquisas sobre leitura, apontando sempre que cada vez lemos menos. Mas esses resultados, cheios de estatísticas refletem, na verdade, um certo tipo de leitura. Por exemplo, costuma-se dizer que o Brasil lê muito pouco. Essa afirmativa não está errada, mas ela reflete uma visão de leitura restrita. John Miedema propõe um conceito mais amplo de leitura (não só de livros, não só de literatura), abrangendo, por exemplo, ebooks, memorandos, ofícios, revistas, leitura na internet, cartazes, anúncios, etc. Dentro deste conceito, realmente lemos muito. Lemos blogues, lemos sites, consultamos enciclopédias digitais, revistas digitais, jornais (formato tradicional ou digital) – textos, textos e mais textos.

O autor localiza o início do uso da expressão caracterizadora da leitura lenta:

“Parece que a mais antiga referência explícita à expressão “slow reading” está no prefácio de Nietzsche para o livro Aurora: “Não é a troco de nada qua alguém foi filólogo, talvez ainda o seja, o que equivale a dizer: um professor de slow reading”(1997). Nietzsche vê a filologia como uma “especilização da palavra” que exige do leitor a dedicação de tempo para uma boa leitura.” (página 25)

Historiando ainda a slow reading, John vai relacioná-la à crítica literária chamada New Criticism (Nova Crítica), para a qual a proposta de abordagem de uma obra literária apagava a figura do autor diante; ele não importava, mas única e exclusivamente o texto. Isolando o artefato do criador, só buscavam o que podiam extrair da obra. Nada de dados biográficos, do modo de vida do escritor, do seu credo estético.

Em uma proposta extremamente voltada para a pedagogia do prazer da leitura, entre os jovens, Miedema nos recomenda a Leitura Voluntária  Livre (ou LVL):

“LVL significa ler pela vontade de ler. Não há relatório sobre o livro, não se fazem perguntas no final do capítulo e não se pesquisa cada palavra nova. A LVL significa refugar  um livro  de que não gostamos e escolher outro em seu lugar. É o tipo de leitura que as pessoas com alta capacidade de ler e escrever fazem o tempo todo.” (página 32)

Extremamente oportuno citar aqui o livro Como um romance, do francês Daniel Pennac, em que ele elabora dez direitos de qualquer leitor:

Resultado de imagem para Como um romance“1) O direito de não ler; 2) O direito de pular páginas; 3) O direito de não terminar o livro; 4) O direito de reler; 5) O direito de ler qualquer coisa; 6) O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível); 7) O direito de ler em qualquer lugar; 8) O direito de ler uma frase aqui e outra ali; 9) O direito de ler em voz alta; 10) O direito de calar.”

Para quem se interessou pelo livro de Pennac, ele saiu pela editora Rocco/L&PM Pocket, com tradução de Leny Werneck, 152 páginas, gênero Ensaios (mas saboroso de se ler).

Como esse Slow Reading é um livro teórico, não preciso me preocupar com spoilers; portanto, aí vai um deles, reproduzindo o depoimento de John Miedema, ele mesmo um dos praticantes da slow reading:

“A slow reading pode ser feita de muitos modos, mas em todos eles uma parte maior do ser interior do leitor é levada para o ato de ler. Minha prática pessoal envolve a leitura num ritmo moderado, normalmente por períodos curtos, parando quando noto que estou começando a pular palavras. Enquanto leio, de vez em quando dou uma parada para tomar notas que posteriomente integrarão uma resenha que faço no meu site. Embora goste que as pessoas as leiam e comentem as minhas resenhas de livros, na verdade isso acaba não tendo muita importância. Para mim, o ato de escrever uma resenha é útil por si mesmo: é um modo de aprofundar a compreensão de um livro, registrando-o na minha memória e dando-lhe um arremate. Mas algumas pessoas não gostam de fazer anotações, achando que elas perturbam a continuidade da leitura.” (página 106)

A todos aqueles que amam ler, recomendo enfaticamente a leitura lenta deste opúsculo de 125 páginas, obra de cabeceira de qualquer bibliófilo.

O melhor de tudo – eu me reconheço (eu nunca havia me visto como tal, juro!) um leitor em modo slow reading. Leio um livro uma vez, releio-o para fazer anotações e elaborar uma resenha como esta, que você agora está lendo. E puxo pela minha memória: todas essas leituras que de alguma forma, em algum momento, impactaram minha vida, modificando ideias, instilando conhecimento e, sobretudo, causando-me prazer foram slow readings.

Por ser tão significativa para mim a leitura dessa obra, caro leitor, peço-lhe licença para abrir mais uma citação do autor, exatamente o trecho com que ele termina seu trabalho, curto, mas rico:

“Frequentemente se diz que durante a vida uma pessoa só pode ler cerca de 5 mil livros. É um número pequeno, tendo em vista a assombrosa quantidade que está disponível para nós. Essa limitação pode levar alguns leitores a acelerarem seu ritmo de leitura para aumentar o número de livros lidos. Essa reação transforma o leitor num turista, que passa de experiência para experiência, observando apenas os pontos principais, ficando apto a dizer que realizou, embora sem estar inteiramente certo do que realizou. Outra reação é apenas reconhecer que na verdade a vida é curta e que nossa seleção reduzida de livros representa uma expressão única do nosso caráter. Essa segunda escolha retira da leitura a pressão desnecessária e a faz voltar a ser um grande prazer.” (página 109)

MIEDEMA, John. Slow Reading – Os benefícios e o prazer da leitura sem pressa. Editora Octavo, São Paulo, SP: 2011

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