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domingo, 17 de junho de 2012

A elegância do ouriço: uma distopia

Nunca havia ouvido falar desse A elegância do ouriço e nem de sua autora marroquina, Muriel Barbery. Entretanto, a obra já vendeu mais de um milhão de exemplares ao redor do mundo, sendo, segundo nos informa a 4ª capa da obra, mais de 850 mil só na França.

Muriel Barbery nasceu no Marrocos, em 1969. Formou-se pela École Normale Supérieur, em Paris, e lecionou filosofia em Saint-Lô, na Normandia. A morte do gourmet, seu romance de estreia (2000), ganhou o prêmio de Melhor Livro  de Literatura Gourmande. Desde 2008 a autora vive em Kyoto, no Japão.

O livro A Elegância do ouriço já estava na fila das minhas leituras há algum tempo. Foi-me emprestado por uma colega, também professora. Muito bem, comecei a lê-lo. Como vários leitores, li até uma parte e a leitura travou.

Reconhecendo certos indícios promissores na obra, resolvi investir minha disciplina no projeto de leitura e continuei. Não gosto de deixar livros que começo a ler sem a devida finalização, quando por nada, pelo menos para ser honesto ao dizer “não gostei desse”. Ou, talvez por muito respeito à literatura, não sei. Mas o fato é que continuei a ler.

O restante foi puro prazer, tanto estético como intelectual, pois o livro é muito, muito bom mesmo. A elegância do ouriço é explicitamente filosófico, mas – pontos para a autora – coloca as considerações de maneira leve e atraente.

Todo o enredo se passa num prédio de apartamentos luxuosos à Rue de Grenelle, 7, no qual vivem pessoas ricas. Lá trabalha uma concierge, de nome Renée, mais conhecida como Sra. Michell. É viúva, e tem como companheiro de sua solidão um gato chamado Leon, em homenagem ao escritor russo Leon Tolstoi. Renée faz o possível e o impossível para se fazer passar por uma pessoa sem cultura, embora seja amante de literatura e possua uma profunda visão filosófica sobre o mundo e pessoas. Começou aí o meu estranhamento: uma simples zeladora ter predileções tão eruditas e mais, não querer se fazer valer delas.

Há também uma menina de 12 anos, Paloma, que faz anotações de seus pensamentos profundos e sobre o movimento do mundo. Ela havia prometido a si mesma que, se não conseguisse achar um sentido para a vida, se suicidaria no dia dos seus 13 anos e atearia fogo ao seu apartamento. Acontece que a pequena Paloma compartilha com Renée o olhar filosófico sobre seu redor. Esse foi o segundo estranhamento: uma menina de apenas doze anos e já preocupada com questões filosóficas e, ainda, sendo capaz de explicitá-las.

Como se estivessem colocadas por trás da cortina de luxo dos maneirismos dos moradores do prédio da Rue de Grenelle, as duas fazem releituras daquelas pessoas, vendo-as por trás de suas máscaras de convenção social. Esses relatos são, às vezes, sutis e bem-humorados; noutras, entretanto, prevalece a crítica ácida.

Um terceiro elemento entra na composição dessas personagens que têm uma visão distópica daquela aparente harmonia, sossegada convivência dos vizinhos: o Sr. Kakuro Ozu. Ele é um japonês que adquire um apartamento quando um dos moradores morre e o imóvel é posto à venda.

Sendo um elemento de fora, trazendo uma visão de uma cultura diferente, japonesa, embora ele se expresse bem em francês, ele forma com Renée e Paloma um trio dissonante. Como Renée, ama a literatura russa; como Paloma, tem gosto por questões filosóficas. Como as duas, não se enquadra no padrão intelectual e comportamental dos residentes do prédio.

Eis alguns trechos pinçados da obra:

“Mas para que serve a gramática?”, ele perguntou. “Você deveria saber”, respondeu a senhora-eu-sou-paga-para-ensinar-lhes. “Bem, não”, respondeu Achille com sinceridade, pelo menos dessa vez, “ninguém nunca se deu o trabalho de nos explicar isso. “A sra. Maigre deu um longo suspiro, do tipo “será que ainda tenho que aguentar perguntas estúpidas?”, e respondeu: “Serve para falar bem e escrever bem”.

Aí então, achei que ia ter uma ataque cardíaco. Nunca ouvi nada tão inepto. E com isso não quero dizer que é errado, quero dizer que é realmente inepto. Dizer a adolescentes que já sabem falar e escrever que a gramática serve para isso é como dizer a alguém que é preciso ler uma história dos banheiros através dos tempos para fazer xixi e cocô. É sem sentido!” (página 167)

“Pessoas inteligentes, há aos montes. Há muitos débeis, mas também muitos cérebros extraordinários. Vou dizer uma banalidade, mas a inteligência, em si, não tem nenhum valor e nenhum interesse. Gente muito inteligente dedicou a vida à questão do sexo dos anjos, por exemplo. Mas muitos homens inteligentes têm uma espécie de bug: consideram a inteligência como um fim. Têm uma única ideia na cabeça: ser inteligente, o que é muito estúpido.” (página 177)

“Para que serve a Arte? Para nos dar a breve mas fulgurante ilusão da camélia, abrindo no tempo uma brecha emocional que parece irredutível à lógica animal. Como nasce a Arte? Nasce da capacidade que tem o espírito de esculpir o campo sensorial. Que faz a Arte por nós? Ela dá forma e torna visíveis nossas emoções, e, ao fazê-lo, apõe o selo de eternidade presente em todas as obras que, por uma forma particular, sabem encarnar a universalidade dos afetos humanos.” (página 218)

E por último, por que o nome do livro, A elegância do ouriço? Deixo o próprio texto se explicar:

“A sra. Michell tem a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes.” (página 152)

A elegância do ouriço não é um livro fácil de se ler. Pede urgente(s) releitura(s) pela sua densidade de informações, pela sutileza na composição dos personagens e situações. Se você, leitor, começou a ler e parou em algum ponto do texto, insista e será premiado; se você ainda não leu, faça-o! Eu vou adquiri-lo, para mais releituras.

Muriel Barbery. A elegância do ouriço. Companhia das Letras. São Paulo, SP, 2011. 350 páginas.

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