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terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Resenha nº 213 - Oração Para Desaparecer, de Socorro Acioli

 




Título: Oração Para Desaparecer

Autora: Socorro Acioli

Editora: Cia. das Letras/TAG

Edição: 1ª

Copyright: 2023

ISBN: 978-85-359-3461-8

Gênero literário: Romance

Origem: literatura brasileira

 

Socorro Edite Oliveira Acioli Martins nasceu em Fortaleza, Ceará, em 24/02/1975. Iniciou-se na literatura infantil, escrevendo 16 obras. Como autora de literatura juvenil, foram mais 4 obras. É ganhadora de vários prêmios: Prêmio Jabuti 2013, Melhor Obra Inédita de Literatura Infantil da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará 2005, Selo Altamente Recomendável FNLIJ 2006, 2007 e 2008. Prêmio Ceará de Cinema e Vídeo da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará – Categoria Roteiro.

Dentro da categoria literatura adulta, ela publicou dois romances: A Cabeça de Santo (2014) e este Oração Para Desaparecer (2023).

Este livro tem algumas peculiaridades bastante interessantes. Um dos personagens, Félix Ventura, é “emprestado” do livro O Vendedor de Passados, do escritor angolano José Eduardo Agualusa – livro já resenhado neste blogue em 2015, resenha número 56. Para fazer esta apropriação, Acioli entrou em contato com o angolano, obtendo sua permissão.

A outra intertextualidade é com O Livro dos Itinerários, de José Saramago. A primeira frase deste livro é “Sempre chegamos ao sítio onde nos esperam”. Entretanto, tal livro nunca existiu, apesar de ser citado em A Viagem do Elefante, do mesmo Saramago – cuja epígrafe é a frase do livro fictício.

Os Tremembés são um povo indígena, conhecedor de práticas de caça de animais selvagens. Como está na revista da TAG, para eles “Há também a crença nos encantados e encantes. Para eles, algumas pessoas encantam-se começam a viver numa dimensão encantada, não acessível a outras.”

Estes são alguns dos ingredientes que vão compor este romance.

E acho que há necessidade de outra explicação. O livro vai tratar dos ressurrectos, isto é, pessoas que “ressuscitam” – no caso do livro, desaparecem de um lugar e aparecem em outro. Geralmente, não o fazem conservando a memória de quem foram, recuperando-a depois de certo tempo.

“Acordei com os olhos grudados de lama, o nariz entupido de terra e a boca cheia de areia estralando nos dentes alguém me enterrou. Bichos alisavam minha língua, rastejavam pelos ouvidos e por outros caminhos para dentro das carnes. Debaixo do chão era uma agonia gelada, molhada, fedida. Não sentia braços e pernas no breu daquela cova. Perdi a noção do meu corpo, achei que me transformaria em um bicho morto, me desfazendo até virar pó. Ninguém sabe o que fazer na hora da morte.” (página 13)

Socorro Acioli trafega no que se convencionou chamar de “realismo mágico”. As pessoas não estranham o fato de um corpo vivo brotar do chão. O casal Florice e Fernando, portugueses, estão ali a postos para acabar de extrair a protagonista do solo.

Não há qualquer explicação de como este estranho acontecimento – e estranhamento sempre acompanha o leitor de realismo mágico –, nem porque o casal foi indicado para estar na localidade, com a missão do resgate. Apenas é dito que tal função é frequente na família dos salvadores:

“Não é qualquer morto, são os escolhidos para isso. Quem começa uma vida nova. Meu avô repetia exatamente isso quando tocávamos no assunto o que aconteceu contigo é parte da história da minha família há anos, um absurdo que nunca entendemos, quase um delírio, não contamos para ninguém, sempre foi nosso segredo.” (página 27)

Atônita, a personagem não entende o que lhe aconteceu. Florice, muito solícita, tenta explicar:

“Não perceber o que te aconteceu é devastador, mas outros chegaram quase sempre mudos, soltando grunhidos que ninguém entende, latem, miam, um festival de horrores. As palavras vieram, isso é muito bom, mas tem paciência. É como reconstruir uma cidade depois de um terramoto. Tu te desfizeste, foi uma categoria de morte, mas não daquelas que encerram a via. É uma ressurreição, entendes?” (página 26)

A protagonista, ainda sem ser nomeada, tem confusas recordações sobre o soterramento de uma igrejinha. Florice lhe apresenta um caderno de anotações, chamado de O Livro das Visões e a orientou para que escrevesse suas progressivas recordações:

“Na segunda página comecei:

 Saí de um buraco na terra da Almofala, em Portugal. Estava nua e careca, só usava um colar de búzios. Não sei o meu nome. Fui salva por um casal de idosos. Tenho cortes e marcas de violência no corpo. Sou brasileira. Consigo ver os mortos. Não me lembro de nada. Acredito em Deus.” (página 34)

Aqui, outra informação interessante. Almofala nomeia várias cidades; são seis aldeias em Portugal e uma no Brasil, no distrito de Itarema, Ceará. Há uma igrejinha lá que sofreu o processo de soterramento (1897-1898), conhecido como erosão eólica, ou seja, o vento move as dunas de areia contra um obstáculo. A construção foi posteriormente recuperada.

Como a protagonista não se lembra do seu nome, é batizada de Aparecida por Fernando.

“Aceitei ser Cida, por puro cansaço. Fiz que sim, sorri de leve. Levaria a marca deles dois comigo, já que fizeram meu parto na cova. Não tinha por que recusar o nome novo, não me restava nada além de aceitar que as coisas teriam de seguir de alguma forma. Cida era um nome neutro, pois vinha do modo absurdo como cheguei aqui, no sentido deles, evocava milagre.” (página 40)

Félix Ventura aparece lá pelas páginas do capítulo 9. É contratado para fazer o que faz no livro do Agualusa, O Vendedor de Passados; afinal, ele é o único com esta profissão no mundo: constrói passados coerentes para pessoas que, por algum motivo, desejam viver nova vida. Aparecida é assim, não se lembra do seu próprio passado; então, é preciso criar-lhe um novinho.

Ventura conhece Cida. Para a criação de um passado eficiente, mister é conhecer a pessoa, entrevistá-la. E ele pede à protagonista que o mantenha informado, o que ela fará pelo menos uma vez por ano.

Cida e Jorge formam um casal. É ele quem vai ajudá-la a desvendar sua origem e os acontecimentos que antecederam seu parto na cova da Almofala portuguesa. Ligam-se as duas cidades do mesmo nome.

O parágrafo inicial do livro, transcrito acima, me fez lembrar da famosa epígrafe machadiana “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas”. Cida sente os bichos alisarem sua língua, rastejarem pelos seus ouvidos; isto, além de ela ser não uma defunta autora, mas uma estranha quase-defunta personagem, ressurrecta, tornou-me a associação inevitável. Vale anotar, Oração Para Desaparecer não tem a ironia genial de Machado – e nem é este o propósito.

Caro leitor, se você gosta de Jorge Luís borges, Bioy Casares, Silvina Ocampo, Gabriel Garcia Marques, deve se deleitar com este livro. Quero dizer, se você aprecia o realismo mágico, este livro será um prato feito.

Oração Para Desaparecer é uma das minhas melhores leituras do mês de dezembro do ano passado. Vejo como enorme satisfação mulheres produzindo literatura brasileira de qualidade. Conta o motivo de serem mulheres; mas é fundamental que suas produções sejam boas.

domingo, 28 de janeiro de 2024

Resenha Nº 212 - O Castelo de Gelo, de Tarjei Vesaas

 




Título original: Is-slottet

Autor: Tarjei Vesaas

Tradutor: Leonardo Pinto Silva

Edição: 1ª

Editora: Todavia

Copyright: 1963

ISBN: 978-65-5692-384-0

Gênero literário: romance

Origem: Noruega

 

Tarjei Vesaas é um escritor norueguês, nascido em 20/08/1897 e falecido em 15/03/1970. Filho de Olav Vesaas (fazendeiro) e Signe Øygarden, uma professora, ele veio ao mundo na cidade de Vinje, Telemark e morreu em Oslo.

É ganhador de vários prêmios: Gyldendarl’s Endowment (1943), Melsom Prize (1946), Dobloug Prize (1957), Nordic Coucil’s Literature Prize (1964) e Norwegian Bookseller’s Prize (1967). É considerado o autor norueguês mais importante do século XX.

Autor prolífico, como cita a enciclopédia livre, Wikepedia. Entre suas obras selecionadas – todas relacionadas com seus títulos em inglês ou norueguês – seguem-se: Dei svarte hestane, romance de 1928; The great cycle, romance, 1924; Women call home, romance, 1935; The seed, romance, 1940; The house in the dark, romance, 1945; The winds, contos, 1952; Land of Hidden fires, poesia, 1953; Spring night, romance, 1954; The Birds, romance, 1957; The ice palace, romance, 1963; The bridges, romance, 1966; The boat in the Evening, romance, 1968 e, finalmente, Through Naked branches, poemas selecionados, 2000. Destas, sua única obra traduzida aqui, no Brasil, é The ice palace, O palácio de gelo.

Muito bem, não sabemos muitas coisas sobre este autor norueguês. Além de percebermos que ele foi um autor muito premiado em seu país, sabemos mais duas particularidades de Vesaas. Ele era um apreciador de longas caminhadas. Escreveu em nynorsk (?).

Franqueando o resultado de uma pequena pesquisa na internet: “o nynorsk, que antes de 1929 era chamado de landsmål, é uma das duas línguas escritas oficiais da Noruega e foi adotada pela decisão de igualdade linguística realizada em 12 de maio de 1885. Ela é usada na escrita por volta de 13% da população.” (obtido em https://cursodenoruegues.com.br)

Respiremos.

Vamos a O Castelo de Gelo. Como já é costume meu, acessemos os parágrafos iniciais:

“Um rosto jovem e alvo a luzir na escuridão. Uma menina de onze anos. Siss.

Na verdade era ainda tardinha, mas já estava escuro. A agonia de um outono congelante. Estrelas, mas sem lua no firmamento, e nada de neve para refletir a luz – a escuridão, apesar delas, era total. De ambos os lados, a floresta morta e silente encerrava tudo o que bem poderia estar vivo e congelando naquele exato instante.

Siss remoía muitas coisas à medida que caminhava envolta pela neblina. Pela primeira vez estava indo à casa de Unn, uma garota que mal conhecia, desbravar algo incerto, e por isso mesmo tão excitante.” (página 7)

Temos aí a base deste belo e melancólico romance: as duas garotas de onze anos se iniciam uma amizade. Enquanto Siss é extrovertida, alegre, líder de turma, Unn é seu oposto. Recolhida, taciturna e de poucas palavras, tinha chegado recentemente à localidade para morar com uma tia. Entretanto, Siss se sente atraída pela colega de mesma sala, na escola:

“Siss sentia um formigamento pelo corpo. Uma sensação tão prazerosa que não se dava o trabalho de esconder. Ela fingia que não era nada de mais, mas era uma sensação diferente e até reconfortante. Não era um olhar invasivo, nem enciumado, havia desejo naqueles olhos – ela logo percebeu ao fitá-los também. Havia expectativa. Unn afetava indiferença assim que saíam da sala, evitava se aproximar. Mas uma certeza Siss tinha ao sentir aquele formigamento se espalhando pelo corpo inteiro: Unn está sentada logo ali, de olhos postos em mim.” (página 12)

Tateante, a amizade entre as duas aos poucos se solidifica. Siss vai pela estrada coberta de gelo, à noite, visitar Unn, na casa da tia:

“Era isso e nada mais o que Siss sabia sobre Unn – e agora estava a caminho de encontrá-la, depois de ter passado em casa e avisado os pais.

O frio penetrava suas roupas. O chão rangia sob os pés, e o gelo estalava ao longe.

Então despontou no horizonte a casinha onde Unn e a tia moravam. A luz bruxuleava por entre as folhas das bétulas. O coração acelerou de alegria e ansiedade.” (página 15)

O encontro entre as duas meninas será algo estranho. Não pela tia de Unn, que recebe Siss carinhosamente. Mas porque Unn é reservada demais, tem um comportamento como se o mundo pesasse, apesar de ser tão nova, sobre seus pequenos e frágeis ombros.:

“Elas se aproximaram. Sem desviar o olhar, como se estivessem examinando uma à outra. Medindo-se. Não era algo trivial – por alguma razão inconsciente. Havia um incômodo por estarem se sentindo assim, acanhadas, frente a frente. Seus olhares se encontravam, transmitiam uma espécie de nostalgia afetuosa, e mesmo assim as duas se sentiam profundamente envergonhadas.” (página 18)

Unn também gostava de longas caminhadas solitárias. É assim que ela descobre, um dia, o “castelo de gelo” de que trata o título desta obra. Ele fica perto de uma cachoeira e a temperatura ambiente é tão baixa que as águas, ao caírem, vão formando galerias, estrutura labiríntica de um castelo:

“Somente quando estava no sopé da encosta ela pôde apreciar aquilo tudo comparado à garotinha que era, e, se ainda restava algum peso em sua consciência, ele desapareceu completamente. Não podia haver coisa mais certa a fazer do que ter ido ali, agora tinha certeza. O imenso castelo de gelo era sete vezes maior e mais imponente daquela perspectiva.” (página 49)

Percebe-se tratar-se de uma obra delicada, com referências em que as coisas não se definem por inteiro. Por exemplo, o que poderia pesar tanto na consciência de Unn – uma garotinha de onze anos? Qual era a natureza da amizade entre as duas meninas, tão sensória?

Tarjei Vesaas usa, para sugerir, para compor seu romance as paisagens de gelo e neve da Noruega. Há uma melancolia – acho bonita esta palavra da língua portuguesa – uma tristeza contida, muito mais configurada em Unn do que em Siss.

Talvez seja exagero meu, mas noto algumas influências do simbolismo neste O Castelo de Gelo. As paisagens são um tanto... diáfanas, para usar uma palavra poética. O romance suscita, poderosamente, em minha tela imaginativa, aquele frio tão frio que do solo exala uma névoa, que congela tudo o que toca.

É um romance psicológico. O tempo, o enredo se prendem às sequências do que pensam as duas amigas. De início, pensa-se – talvez – que o castelo de gelo enorme, dominante, seja uma criação mental da pequena Unn. Mas não. Ele é visto por outras pessoas também. Galerias e mais galerias, transparentes, mas as imagens aparecem ali destorcidas, aumentadas, como se as paredes do castelo fossem lentes de aumento.

A obra aborda o fim da infância, o peso enorme representado por este final; o inevitável contato com o nosso eu que amadurece e nos traz o fim da inocência. Sem cometer spoilers, Siss terá de lidar com um fato terrível para ela:

“Siss desmoronou assim que chegou àquela conclusão. O pensamento que se recusava terminantemente a considerar a ideia que nem sequer mencionava para si mesma, mas que a rondava o tempo todo se insinuando – e provavelmente todos em vota já a teriam repetido abertamente muitas vezes – não era mais possível evitar.” (página 124)

Aqui, portanto, tangencia o romance um outro subtema, mais abrangente: a constatação de que, todos nós, adultos que somos, temos de nos vergar às adversidades da vida. Nunca somos fortes o bastante para nos sobrepormos a tudo.

E o próprio castelo de gelo, tão bem estruturado, em suas misteriosas galerias, enorme, cujo brilho do gelo se impõe, vai se derreter quando o tempo mais quente chegar. O gelo se transformará em água, será incorporada à água do rio e se escoará para o mar.

Na quarta capa deste excepcional, sensível e sintético romance há dois depoimentos. Não os considero, de modo algum, exagerados:

“Como é simples este romance. Como é sutil. Como é potente. Como é diferente de qualquer outro. É único. É inesquecível. É extraordinário” (Doris Lessing)

“Me surpreende o fato de este não ser o livro mais famoso do mundo.” (Max porter, autor de Grief is the Thing with Feathers)

Se você, meu caríssimo leitor, gosta de literatura da mais fina concepção, reflexiva, recorrente, não deixe de ler este O Castelo de Gelo.

Não posso encerrar sem fazer outro elogio: como é bela esta capa de autoria de Júlia Custódio. Tem tudo a ver com a construção literária do livro. Tanto assim, que – obra em mãos – quedei-me longo tempo admirando a composição da capa, com a linha de horizonte alta, a maior parte branca como o gelo e somente a fotografia dos fiordes noruegueses no alto. Belíssima.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Resenha nº 211 - A Cidade de Vapor, de Carlos Ruiz Zafón

 




Título original: La Ciudad de Vapor

Autor: Carlos Ruiz Zafón

Tradutores: Ari Roitman e Paulina Wacht

Editora: Suma

Edição: 1ª – 1ª reimpressão

Copyright: 2020

ISBN: 978-85-5651-131-7

Gênero literário: Contos

Origem: Espanha

 

Carlos Ruiz Zafón nasceu em Barcelona, em 25/12/1964, e faleceu em 19/06/202 em Los Angeles, EUA. Tornou-se uma das maiores revelações literárias dos últimos tempos com A Sombra do Vento, finalista dos prêmios literários Fernando Lara 2001 e Llibreter 2002. Suas obras foram traduzidas para onze idiomas. O autor colaborou nos jornais La Vanguardia e El País.

Seguindo-se ao livro citado acima, veio O Jogo do Anjo (2008), e vendeu mais de um milhão de exemplares só na Espanha. Em 2011, chegou-nos O Prisioneiro do Céu e, fechando a tetralogia, O Labirinto dos Espíritos (2016).

Esta publicação engloba todos os contos produzidos por Zafón, incluindo aí: Rosa de Fogo (2012), Two-Minutes Apocalypse (2015). Funciona, portanto, como uma homenagem póstuma a Carlos Ruiz Zafón.

Publicou, também, uma trilogia juvenil, O Príncipe da Névoa (1993), O Palácio da Meia-Noite (1994) e As Luzes de Setembro (1995). Marina, de 1999, é a última produção de Zafón antes do seu sucesso A Sombra do Vento – a quarta resenha deste blogue, em 2012.

Sei que muita gente torce o nariz quando se fala de livros tidos como sucessos comerciais – bestsellers –, mas não me importo nem um pouquinho com tal posição. Muitas vezes, não estou com disposição para mergulhar num Dostoiévski ou num Thomas Mann e estes exemplares de leitura ligeira cumprem bem sua função.

A Cidade de Vapor reúne onze contos: Blanca e o adeus, Sem nome, Uma senhorita de Barcelona, Rosa de fogo, O príncipe do Parnaso, Lenda de Natal, Alicia, ao amanhecer, Homens cinzentos, A mulher de vapor, Gaudí em Manhattan, Apocalipse em dois minutos.

Creio oportuno reproduzir um trecho da “nota do editor”, que acompanha o livro:

“De Blanca e o adeus”, o conto que inaugura o livro, a “Apocalipse em dois minutos”, que funciona como despedida, as histórias vão se entrelaçando por meio da voz narrativa, da cronologia ou dos detalhes, para nos desenhar um mundo que se ergue pletórico ante os nossos olhos, por mais que seja um mundo de ficção, um universo de vapor.

Também em relação aos gêneros literários, A cidade de vapor nos mostra a habilidade com que Carlos Ruiz Zafón se serve deles para constituir uma literatura própria e inconfundível, na qual identificamos elementos do romance de iniciação, do romance histórico, do gótico, do thriller, do romântico, sem faltar o toque magistral do relato dentro do relato.” (página 8)

De verdade, é um prazer ler Carlos Ruiz Zafón. Por outro motivo não fosse – abstraindo sua evidente qualidade literária e criatividade – pela homenagem que presta à própria literatura, na interessante referência ao Cemitério dos Livros Esquecidos localizado numa gótica Barcelona. Em A cidade de vapor, o escritor espanhol nos brinda, a nós, leitores deliciados de A Sombra do Vento, com incursões sobre o mundo da literatura. Das páginas destes contos reunidos saltam, vivíssimos, Miguel de Cervantes e Antoní Gaudí, o louco sonhador que projetou a desconcertante e bela Igreja da Sagrada Família.

Em Branca e o adeus, o título é quase um spoiler, sinal de que o autor não considerava o desfecho como uma surpresa a ser preservada para o final. Realmente, o interessante é o que acontece no desenrolar da história:

“Blanca era uns dois anos mais velha que eu. Conheci-a num dia de abril, em frente ao portão da minha casa: ela vinha segurando a mão de uma criada que fora buscar livros numa pequena livraria de antiguidades em frente ao auditório em obras. Quis o destino que nesse dia a livraria só abrisse ao meio-dia e que a criada tivesse ido às onze e meia, criando uma lacuna de trinta minutos de espera durante os quais, sem que eu sequer desconfiasse, o meu destino seria selado. Por minha própria conta, eu jamais me atreveria a trocar uma palavra com ela. Sua indumentária, o seu cheiro e seu jeito patrício de menina rica, blindada de sedas e tules, não deixavam a menor dúvida de que aquela criatura não pertencia ao meu mundo, e muito menos eu ao dela.” (página 16)

Sem Nome é um conto de enredo mínimo, mas nem por isso menos impactante. Apresenta um narrador que se esconde em primeira pessoa, para só se revelar na frase que fecha o texto. Em ritmo de recordações e pressupostos, ele nos conta sobre uma garota que anda pelas ruas de Barcelona, numa ambientação gótica:

“A garota olhou a bateria de gárgulas que arrematava as cornijas e supurava colunas de vapor que exalavam um perfume amargo de tinta e papel. Sentindo que a dor inflamava de novo suas vísceras, apressou os passos até a grande entrada principal e bateu a aldrava. Ouviu-se o eco amortecido de um sino atrás de um portão de ferro forjado. A garota olhou para trás e constatou que em poucos instantes o rastro de suas pegadas já estava revestido outra vez pela neve. Um vento gélido e afiado a encurralava contra o portão. Bateu de novo a aldrava com força, duas ou três vezes, mas não teve resposta. A tênue claridade que a envolvia parecia se desvanecer em alguns momentos, com as sombras se estendendo rapidamente aos seus pés. Sabendo que não tinha muito tempo, recuou alguns passos e se afastou do portão para examinar as janelas da fachada principal. Havia uma silhueta recortada em uma das vidraças enfumadas, imóvel como uma aranha no meio de sua teia.” (página 37)

Em Uma senhorita de Barcelona, um narrador nos fala a respeito de certo fotógrafo de gente morta. Cumpre-nos explicar que tal atividade era corriqueira tempos atrás. Eduardo Sentís, fotógrafo das trevas, é um dia chamado a fotografar Margarita Pons, infanta de cinco anos. Era filha de abastado casal e morrera de febres.

Dada a urgência e não tendo com quem deixar Laia, sua própria filha, leva-a à casa abastada e lhe recomenda ficar fora do aposento onde jaz a defunta. Dona Eulália, mãe da morta, estava no quarto e, alucinada de dor, beija a testa da filha. E a cena que se segue é a seguinte:

“— Meu anjo fala comigo – disse [a mãe] a Sentís. – Não está ouvindo?

 Sentís fez que sim e continuou com seus preparativos. Quanto mais cedo saísse dali, melhor. Quando já estava tudo pronto para começar a fazer as primeiras imagens, o fotógrafo pediu à mãe que se retirasse por uns instantes do campo de visão da câmera. Ela beijou a testa do cadáver e se colocou atrás dele.

 Sentís estava tão absorto em seu trabalho que não percebeu que Laia havia entrado no quarto e estava em pé ao seu lado, olhando congelada a menina morta estendida na cama. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, a senhora Pons foi até Laia e se ajoelhou à sua frente. “Olá, meu bem. Você é o meu anjo?”, perguntou. A dona da casa pegou a filha de Sentís nos braços e apertou-a contra o peito”. (página 47)

Rosa de fogo é, para mim, um dos melhores contos desta excelente coletânea. Possui referência à famosa Scherezade das Mil e Uma Noites, como também Raimundo de Sempere – uma autorreferência ao Cemitério dos Livros Esquecidos (A Sombra do Vento).

Um navio chegara a Barcelona, trazendo uma horrenda carga: vários sarcófagos flutuavam entre os escombros da embarcação. Ao leme, o único sobrevivente – meio morto, meio vivo – Edmond de Luna, o construtor de labirintos.

O inquisidor da cidade, homem religioso, mas tocado pelo verme da ambição desmedida, requisitou um caderno que encontraram com Edmond. Ninguém o podia entender – nem mesmo o inquisidor, pois estava escrito em persa. Esta ambição o põe a perder e quase põe a perder a cidade de Barcelona. Sobre aquele caso, pesava insuspeitada maldição:

“Com os olhos envenenados de cobiça, o Inquisidor pegou o frasco escarlate, subiu ao alar para benzê-lo e, agradecendo a Deus e ao inferno por aquela dádiva, ingeriu todo o conteúdo. Passaram-se alguns segundos sem que nada acontecesse. Depois, o Inquisidor começou a rir. Os soldados se entreolharam, desconcertados, perguntando-se se Jorge de León não teria perdido o juízo. Para a maioria deles, foi o último pensamento de suas vidas. Viram o Inquisidor cair de joelhos e uma lufada de vento gelado varrer a catedral, arrastando os bancos de madeira, derrubando imagens e círios acesos.

Depois, ouviram sua pele e seus membros se partirem, e a voz de Jorge de León se perder, entre uivos de agonia, no rugido da besta-fera que emergia de suas carnes, crescendo rapidamente em uma massa ensanguentada de escamas, garras e asas.” (página 73)

Como não será possível reescrever trechos de todos os contos do livro, fiquemos por aqui. O leitor já terá um gostinho do que o espera ao ler este livro. Inventividade, imaginação e uma escrita contagiante – as mesmas que consagraram nosso escritor estão presentes. Referências a Cervantes, a Antoní Gaudí o aguardam.

Prefiro deixar falar, novamente, o editor Émile de Rosiers Castellaine:

A Cidade de vapor é uma ampliação do mundo literário do Cemitério dos Livros Esquecidos, seja pelo desenvolvimento de aspectos desconhecidos de alguns personagens, seja pelo aprofundamento da história da construção da mítica biblioteca, ou porque a temática, os motivos e a atmosfera que envolve esses relatos parecerão familiares aos leitores da saga. Escritores malditos, arquitetos visionários, identidades fraudadas, edifícios fantasmagóricos, uma plasticidade descritiva irresistível, a mestria no diálogo... e principalmente a promessa de que o relato, o conto e o próprio fato de narrar nos levarão a um território novo e fascinante.” (página 8)

Nada a acrescentar.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Resenha Nº 210 - Os Meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár

 




Título original: A Pál utcai fiúk

Autor: Ferenc Molnár

Tradutor: Edith Elek

Editora: Nova Fronteira

Copyright: 2023

ISBN: 978-6556-40651-0

Gênero literário: romance de formação

Origem: literatura húngara

 

Ferenc Molnár é destes escritores dos quais pouco se sabe aqui no Brasil. Nasceu em Budapeste, capital da Hungria, em 12/01/1878 e faleceu em Nova Iorque, EUA, em 01/04/1952. Imigrou para os Estados Unidos fugindo da perseguição nazista aos judeus do seu país de origem.

Ele nasceu Ferenc Neumann, numa família judia de classe média; teve seu sobrenome traduzido para o idioma magiar (húngaro). Assim, foi rebatizado para Molnár, palavra que, em húngaro, significa “moleiro”. Esta exigência era regra geral na Hungria, pertencente, na época, ao Império Austro-Húngaro: todos os judeus eram obrigados a receberem nomes húngaros.

Entre suas obras – cujas referências são escassas nesta terra brasilis – constam a peça Lilion (1909), O Poste de Vapor, resenhado aqui neste blogue em 2016, sob o número 84, e o seu livro mais famoso, o clássico infanto-juvenil Os Meninos da Rua Paulo (1907).

Falar sobre este Os Meninos da Rua Paulo é voltar à minha formação como leitor. Uma viagem emocional. Lembro-me de ter compulsado um livro de bolso, com capa amarela e título com grandes letras vermelhas, editado pela Edições de Ouro. Os nomes de Boka, Nemescek e Geréb fazem parte da minha memória afetiva, constituindo-se eles poderosas chaves a abrirem referências à literatura húngara.

Pois bem. Desta caprichada edição da Nova Fronteira, que tenho em mãos, seleciono parte do parágrafo:

“Às quinze para uma, naquele exato momento, quando na sala de ciências naturais, sobre a mesa principal, após longas e inconclusivas experiências, finalmente, a muito custo, atingimos algum resultado, depois de uma longa e ansiosa espera, com a explosão de um lindo feixe verde-esmeralda na chama incolor do bico de Bunsen, demonstrando que com aquela mistura, com a qual o professor queria provar que pintaria a chama de verde, e ele de fato pintou a chama de verde, como eu disse: justo às quinze para uma, naquele triunfante momento, no quintal da casa vizinha, soou uma pianola e com isso toda a seriedade simplesmente se rompeu. As janelas estavam escancaradas naquele dia quente de março e, nas asas do ar fresco primaveril, a música voou para dentro da sala de aula. Eram algumas notas alegres de uma canção húngara, que lembravam uma abertura garbosa, ressoando como qualquer coisa vienense, e a classe toda desejou sorrir, aliás, teve quem de fato sorrisse.” (página13)

Interessante notar algumas coisas neste parágrafo introdutório. Primeiro, no tocante ao estilo do autor, a abundância de períodos subordinados, o que exige destreza na organização do que se quer dizer, sob risco de o pensamento se perder entre tantas vírgulas e encadeamentos de ideias. Segundo, a música que voou para dentro da sala de aula, portadora de uma abertura garbosa, com notas alegre de uma canção húngara ressoando como qualquer coisa vienense é uma referência ao Império Austro-Húngaro.

Este Império Austro-Húngaro tinha dois centros, como o nome deixa entrever: na Áustria e na Hungria. Mais especificamente, na Viena imperial e em Budapeste. A abertura garbosa, possivelmente ufanista, dizia respeito à bravura húngara. Mas as notas, soando como qualquer coisa vienense são referências à Viena – à Viena do importantíssimo legado musical das valsas ligeiras de Johann Strauss, por exemplo.

Os personagens desta história vão sendo apresentados, um a um: Geréb, Boka, Csónakos, Csele, Nemecsek e, ainda os adversários, os irmãos Pásztor. Formam dois grupos, portanto: os meninos da rua Paulo, capitaneados por Boka e outro grupo, liderado pelos irmãos Pásztor.

Os da rua Paulo utilizavam o grund – o território deles, localizado numa madeireira, e que deveria ser defendido com unhas e dentes. A outra turma montara sua base no Parque Municipal da cidade. Entretanto, logo o Parque se revela não apropriado para os meninos jogarem bola. Este conflito que se avizinha será o ponto crucial desta história. Uma guerra entre bandos de garotos por um território.

O azedume entre as duas “facções” é apontado desde cedo:

“— Ontem fizeram einstand no museu de novo!

— Quem?

— Os Pásztor. Os dois irmãos Pásztor.

Um grande silêncio se sucedeu.

Para isso, é preciso explicar o que é einstand, algo que toda criança de Budapeste do começo do século XX sabia. Quando um dos meninos mais fortes queria brincar com bolas de gude, por exemplo, ou outros jogos que exigiam equipamentos especiais que ele não tinha, mas via nas mãos de garotos mais fracos, decidia tomá-los, então dizia bem alto: einstand. Essa horrível palavra alemã significa que o mais fraco deve ceder o jogo ao mais forte, e quem ousar recusar será dominado pela força. É, portanto, um grito de guerra. Ao mesmo tempo, é o caminho mais curto para o estado de emergência do recurso da força, da lei do mais forte e de atos de pirataria, o próprio motivo da declaração.” (páginas 23/24)

Deste pequeno trecho podemos fazer algumas ilações. O Império Austro-Húngaro já vinha perdendo força, tendo sido o assassinato do imperador Francisco Fernando, na Sérvia, como o motivo da Primeira Guerra Mundial. Os austro-húngaros (ao qual se vincularam os Habsburgos) se esfacela ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Por esta digressão, aproximamos Os Meninos da Rua Paulo das tensões presentes no ambiente de pré-primeira guerra – o livro é de 1907 – iniciada em 1914. Sopram ventos do conflito vindouro nas páginas deste excelente livro.

Boka e sua turma representam os pacifistas e os arruaceiros irmãos Pásztor são os mais fortes, os detentores do poder (dado pela força física). Boka e sua turma devem usar a sua imaginação para a defesa do que consideravam seu território:

“No grund, ninguém sabia que esse pedacinho de terra não seria mais deles. Esse pequeno pedaço de chão sem nenhum cultivo, acidentado, em Budapeste, essa várzea espremida entre duas casas que para suas almas de meninos representava o infinito, a liberdade, que, no período da manhã, era as planícies americanas e, de noite, a Transilvânia, quando chovia era o mar e, no inverno, o Polo Norte; era sempre a sua terra amiga, que se transformava no que eles queriam, só para a sua diversão.” (página 102)

Os Meninos da Rua Paulo continua um livro a ser lido. A história pode ser vista como uma singela narrativa sobre os valores da vida, a coragem de todo o grupo ao combater os mais fortes, na defesa de seus ideais; o respeito às regras criadas pelo próprio grupo, também. Sobretudo, a questão da dignidade e da dedicação a uma causa considerada válida, exemplificada pelo lourinho franzino Nemecsek.

“Sim, Boka se sentia agora como um grande comandante antes da batalha final. Pensou no grande Napoleão ... E se perdeu no futuro. Como seria? O que seria? O que resultaria disso tudo? Será que seu futuro seria o exército? De verdade, com uniforme oficial, comandando algum dia, em algum lugar distante, em campo de batalha real – não em um pequeno pedaço de terra, como esse grund, mas, sim, por aquele grande pedaço de terra amada, que chamamos de pátria? Ou seria médico, que esgrima com as doenças todos os dias, batalhas grandes, sérias e corajosas?” (página 133)

Aqui, Boka já não é mais um simples adolescente de quatorze anos. Aqui, ele é capaz de fazer projeções para um futuro – visto, é certo, como nebuloso em suas possibilidades – , sonha, pressente um conflito mais denso, mais real que aquele para o qual se prepara agora, na defesa do grund.  Sente o chamamento para a defesa de algo maior – a própria pátria. Aquela pitada de angústia diante do desafio visto como importante.

E, neste caso, a defesa do grund se transforma num rito de passagem, em que certas provas acontecem para provar o valor ou ascenção de determinado indivíduo a uma nova categoria validada pela sociedade.

E, ao acompanhar estes personagens – notadamente Boka e Nemecsek – na perda da inocência de um mundo infantil, Os Meninos da Rua Paulo se caracteriza no que se convencionou chamar romance de formação, cujo exemplar fundador é Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, do mestre alemão Goethe.

Nestes muitos anos que separam a minha primeira leitura deste clássico infanto-juvenil e esta, os olhos maduros perceberam muito mais coisas; fizeram muito mais contextualizações. Ser um clássico destinado à leitura de jovens não invalida o reencontro com o livro. Muito pelo contrário, o leitor maduro tem muito mais condições de ver no livro os valores que ele tem e no valor que tem um escritor como Ferenc Molnár.

Os Meninos da Rua Paulo continua um romance a mexer com as minhas emoções de leitor.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Resenha Nº 209 - A Outra Volta do Parafuso, de Henry James




Título original: The Turn Of The Screw

Autor: Henry James

Tradutor: Caetano Galindo

Editora: TAG Experiências Literárias

Copyright: 2023

ISBN: 978-88526-25-5

Gênero Literário: Novela

Origem: Estados Unidos

 

Henry James nasceu em Nova Iorque, EUA, em 15/04/1843 e veio a falecer em Londres, Inglaterra, em 28/02/1916. Escritor americano, cidadão inglês por nacionalização. Trata-se de um dos principais escritores da escola literária do realismo (séc. XIX). Escreveu romances, peças de teatro, contos e críticas literárias das mais conceituadas da literatura em língua inglesa.

O pai de nosso resenhado de hoje – William James – era um homem culto; filósofo, fez absoluta questão de propiciar boa educação ao filho. Viajou pela Europa em 1855 e por três anos andaram pela Inglaterra, Suíça e França. O turismo a estes países incluiu visitas a museus, bibliotecas e teatros.

Henry era apaixonado por literatura francesa, apesar de sua formação ser na área do direito (Harvard). Viveu em Paris por um tempo (ah, Paris, sempre Paris!) e teve contato com o círculo de Flaubert; conheceu Daudet, Maupassant e Zola. Em 1876, definiu-se por fixar residência em Londres – a maior parte de sua obra foi escrita na capital dos ingleses.

Escreveu os seguintes romances: Roderick Hudson (1876); Os Europeus (1878); Washington Square (1880); Retrato de Uma Senhora (1881); Os Bostonianos (1886); Pelos Olhos de Maisie (1897); A Outra Volta do Parafuso (1898); As Asas da Pomba (1902); Os Embaixadores (1903) e A Taça de Ouro (1904).

Seus contos: Uma Tragédia de Enganos (1864), The Story of A Year (1865); A Passionate Pilgrim (1871); Madame de Mauves (1874); Daisy Miller (1878); Os Manuscritos de Jeffrey Asper (1888); The Lesson of The Master (1888); O Desenho no Tapete (1896) e A Fera na Selva (1903).

Meu primeiro contato com o escritor foi por meio da novela A Fera na Selva. Uma excepcional novela, curta no tamanho, mas grande no que se propõe como obra literária. Tanto me foi importante a leitura, ela me ficou na memória após passados tantos anos.

A escrita de Henry James é impressionante. A Outra Volta do Parafuso é uma novela pequena, enxuta, vazada em um texto preciso e sem filigranas – aliás, como convém a um texto vinculado ao realismo. Não acho uma obra fácil de ler, apesar de não contar com palavras difíceis; a dificuldade está no enredo, que progride psicologicamente, tornando a narrativa lenta e cheia de análises.

É uma história de fantasma; entretanto, o autor subverte este subgênero (atenção, a referência a subgênero, aqui, é meramente classificatória – sou daqueles que acreditam que se podem produzir grandes obras em qualquer gênero) e não segue os clichês das histórias fantasmagóricas.

“A história nos mantivera, ao redor da lareira, aflitos o bastante, porém, com exceção do reparo óbvio de que era arrepiante, como um estranho conto em uma casa antiga na véspera de Natal deveria mesmo ser, não me lembro de nenhum comentário ter sido proferido até alguém notar que era o único caso com que havia deparado no qual tal provação recaísse sobre uma criança. O caso, posso mencionar, era o de uma aparição em uma casa tão antiga quanto aquela em que nos encontrávamos reunidos – uma manifestação de um tipo terrível, perante um menininho dormindo no quarto com a mãe, que a despertou, apavorado, não para que ela dissipasse seu medo e o tranquilizasse até que voltasse a dormir, mas para que ela mesma deparasse, antes de conseguir fazê-lo, com a visão que o havia chocado.” (página 17)

O parágrafo de abertura deste A Outra Volta do Parafuso – sem sombra de dúvida, um clássico – tem lugar na Mansão de Bly, em Essex, Inglaterra. É propriedade do Sr. Douglas, viúvo, com um casal de filhos: Miles e Flora. Naquela casa, existe ainda a figura da Sra. Grose, que toma conta das duas crianças. O Sr. Douglas não mora com elas, pois trabalha na cidade.

É a Sra. Grose que, até certo ponto, vai deixar a narradora em primeira pessoa, não nomeada, a par de fatos do passado. Digo até certo ponto porque Henry James capricha na ausência de informações que levem o leitor a transitar com segurança interpretativa e tirar conclusões indubitáveis sobre os fantasmas que habitam esta história.

As primeiras impressões da governanta começaram da entrevista de emprego, sobre o Sr. Douglas, seu patrão em potencial:

“Quando ela se apresentou para consideração em uma casa na Harley Street, que lhe pareceu enorme e imponente, tal pessoa, seu patrão em potencial, se revelou um cavalheiro, um homem solteiro no auge da vida, uma figura como nunca havia parecido fora de um sonho ou de um antigo romance a uma jovem alvoroçada e ansiosa, recém-saída de um presbitério em Hampshire. É fácil imaginar o tipo, que, por sorte, nunca míngua. Ele era bonito, ousado e agradável, espontâneo, alegre e gentil.” (página 22)

Henry James utiliza a técnica de liberar informações sobre esta governanta – que a esta altura da resenha já desconfiamos ser a figura central, a protagonista deste livro – aos poucos. É sempre ela que nos atualiza observações; é sempre ela que nos conta como se sente; é ela quem nos fala de suas impressões, como no trecho abaixo:

“Conforme me lembro, tal figura produziu em mim, na clareza do crepúsculo, dois suspiros de emoção distintos, nitidamente o choque de minha primeira e de minha segunda surpresa. A segunda foi a percepção violenta do erro que havia cometido: o homem que me olhava em meus olhos não era quem eu supusera a princípio. Veio-me então uma visão desnorteante da qual, tantos anos depois, não posso esperar fazer uma descrição vívida. Um desconhecido em um lugar solitário é algo que se permite que cause medo a uma jovem criada no âmbito privado; e a figura que me encarava era – como alguns segundos mais me asseguraram – tão pouco alguém que eu conhecia quanto a imagem que eu tinha na cabeça.” (página 40)

E, para lhes dar mais subsídios para a construção da imagem da governanta, mais uma pequena passagem:

“A fascinação dos meus pequenos pupilos era uma alegria constante, que me levava a refletir sobre a futilidade de meus medos originais e a aversão que eu entretivera em relação a um trabalho próximo da literatura burocrática. Não haveria nada de burocrático, aparentemente, e não seria uma labuta; como não poderia ser agradável um trabalho o que se apresentava como beleza diária? (página 44)

Há elementos góticos – ambientes pouco iluminados por uma lareira, sensações de que alguém observa a protagonista através de vidraças, estantes cobertas com livros antigos, coisas entrevistas numa paisagem cheia de neblina. Mas nunca será algo que resvale para o mórbido, como nos contos do americano Edgar Allan Poe. Aliás, a certa altura, o texto de James faz referência a uma outra obra, da escritora Ann Radcliff, Os Mistérios de Udolfo; este é um livro de literatura gótica inglesa, apontado, inclusive, como forte influência para Jane Austen escrever o seu A Abadia de Northanger.

Veja, você que me lê: temos uma narradora em primeira pessoa, protagonista da história; temos uma mansão em que vivem a Sra. Grose, a governanta, as duas crianças muito imaginativas, como se verá; temos um passado obscuro, envolvendo o valete Quint e a governanta Jessel, dois empregados já falecidos. A narradora substitui exatamente a Srta. Jessel.

Pelos trechos selecionados para esta resenha, podemos notar o caráter reflexivo, mas dado a expansões de sensações e sentimentos da mulher que nos conta a história. Reserve estes elementos. Já, já, voltaremos a eles.

Numa passagem crucial para a tentativa de entender este A Outra Volta do Parafuso, do capítulo XI, selecionamos outra passagem, bastante significativa. É o momento em que a governanta olha pela janela, à noite, e vê um vulto lá fora, no gramado. Este vulto não olha diretamente para ela; mira algo mais acima, mas lhe causa forte impressão. Ao fixar melhor, vê tratar-se de ninguém menos que o “pobre Miles”. Segue-se um estranho diálogo, pois ela o questiona por ter se exposto ao frio a à escuridão da noite:

“— Deve me dizer agora, assim como toda a verdade: para que saiu? O que estava fazendo lá fora?

Ainda posso ver seu sorriso maravilhoso, o branco de seus belos olhos, a revelação de seus dentes claros, brilhando para mim no crepúsculo.

— Se eu contar o motivo, você entenderá?

Isso fez meu coração saltar da boca. Ele pretendia me contar o motivo? Nenhum som saiu de meus lábios para o incentivar, e percebi que respondia apenas assentindo repetidamente, ainda que de maneira vaga. Ele foi a personificação da gentileza, e enquanto eu balançava a cabeça me pareceu mais do que nunca um pequeno príncipe de conto de fadas. Foi sua animação, de fato, que me ofereceu uma trégua. Seria mesmo bom se ele realmente me contasse?

— Bem – ele disse afinal –, exatamente para que isso acontecesse.

— Isso o quê?

— Para que pensasse em mim, para variar, como malvado!” (página 88)

Um pouco de contextualização sempre é bem-vinda, notadamente se o livro lido por nós possui referências de épocas já recuadas, como é o caso. A Outra Volta do Parafuso foi escrito sob a cultura da chamada Era Vitoriana inglesa. Costuma-se pensar nela como uma sociedade altamente repressora, cheia de regras do que seriam os bons costumes e isto é verdade. Mas, também é verdade, nesta época surgem valores como o naturalista Charles Darwin, autor da teoria da evolução das espécies; surge o gigante Sigmund Freud, pai da psicanálise.

É certo que Henry James tomou conhecimento das teorias freudianas. Suas histórias, de cunho marcadamente psicológico lhe custaram, inclusive, a crítica de seus personagens serem excessivamente mentais, não têm vida fora deste campo mental. Aqui vai outra informação: o irmão de Henry, William James, é um dos criadores da moderna psicologia e pensador influente.

Meu caro leitor, havia pedido a você para guardar algumas informações sobre a narradora e lhe prometi retornar a elas. Pois bem, vamos lá.

Ao criar uma narradora assim, afetada diretamente pelos fatos que narra, e sendo ela a única voz narrativa a nos chegar, temos a subjetividade da narração. Como é uma narradora reflexiva, mas muito impressionada (sensações, sentimentos), temos aí uma depoente não confiável. E o romance ainda faz mais: descobrimos que as crianças maravilhosas não são tão maravilhosas assim, Miles é capaz de montar uma armadilha para convencer a governanta de que ele é, para variar, um malvado!

Não há saída para a interpretação desta obra literalmente fantástica: ou o leitor pertence ao time dos “metafísicos” e crê que os fantasmas vistos pela protagonista são realmente fantasmas, ou o leitor se enquadra no time dos “psicólogos” e parte da ideia de os fantasmas não passarem de alucinações da governanta.

Se você, com seus botões, está aproximando, até certo ponto, Henry James de Machado de Assis, está certo. A Outra Volta do Parafuso e Dom Casmurro têm narradores não confiáveis, dando seus depoimentos. Por isso, tanta tinta se gastou na defesa de uma e de outra tese: os fantasmas são reais? Os fantasmas são alucinações? Afinal, Bentinho foi traído por Capitu? Ou ela é inocente, tudo não passando das projeções de um homem inseguro de si próprio?

Um outro ponto – este para o time dos “psicólogos”, se os fantasmas são alucinações da protagonista, de que natureza seriam tais mentalizações?

Uma corrente muito forte elabora a tese de serem tais alucinações de fundo sexual. Para isto, servem-se de Freud e das questões da libido – sobretudo da incompreendida libido feminina, dentro de uma sociedade vitoriana que negava a realização sexual às mulheres. O encantamento da narradora com o pequeno Miles, no trecho exposto acima, transcrito da página 88, é bastante sugestivo, não?

Creio ser uma bobagem o esforço de esclarecer estes dilemas, tendo em vista que tais autores geniais planejaram as obras assim, as narrativas desejam ficar no limbo, na fugacidade, propõem a dúvida.

Resta finalizar. As histórias de fantasmas de Henry James são deste jeito, “tortas quanto ao gênero”. As criações deste autor não são macabras; talvez a gente possa dizer que assustam os outros personagens mais pela sua inconsistência não humana... mas aí, possivelmente, quem está tendo alucinações é o autor desta resenha. 

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Resenha Nº 208 - Alguém Para Correr Comigo, de David Grossman



Título original: Mishehu larutz itô

Autor: David Grossman

Tradutor: George Schlesinger

Edição: TAG/Companhia das Letras

Edição: 1ª

Copyright: 2000

ISBN: 978-65-5921-368-9

Gênero literário: Romance

Origem: Israel (hebraico)

 

David  Grossman nasceu na cidade de Jerusalém, no ano de 1954. Formou-se em filosofia e teatro e é hoje um dos nomes de destaque em seu país, quando o assunto é literatura. Sua obra é mundialmente conhecida pelo tom pacifista; ele acredita que a literatura pode ser um poderoso recurso para resgatar o aspecto humano do conflito.

Seus trabalhos abrangem ficção e não ficção. Relaciono aqui apenas os livros de ficção: Duelo (1982), The Smile of The Lamb (1983), Amor (1986), O Livro da Gramática Interior (1991), O Garoo Zigue Zague (1994), Em Carne Viva (1998), Alguém para Correr Comigo (2000), Her Body Knows: Two Novellas (2003), Desvario, Até O Fim da Tarde A Mulher Foge (2008), Fora do Tempo (2012), Um Cavalo Entra num Bar (2017) e A Vida Brinca Comigo.

“Um cão galopa pelas ruas, e atrás dele corre um rapaz. Uma longa corda une os dois e se embaraça nas pernas das pessoas, que ficam passando de um lado a outro, e se irritam e xingam: o rapaz murmura sem parar: “Desculpe, desculpe” e, em meio às desculpas, grita para o cachorro: “Pare! Stop!”, e uma vez, cúmulo da vergonha, escapa-lhe também um “Porra!”. E o cachorro continua correndo.” (página 9)

Este parágrafo inicial abre o romance com a técnica que se convencionou nomear com a expressão latina in medio res, isto é, “a ação no meio”. Melhor explicado: não há uma progressiva introdução, como nos romances antigos, em que personagens primeiro eram apresentados e se procurava estabelecer a ligação entre eles. Depois, vinha a ação. Aqui, o cachorro e o menino, em desabalada carreira, são apresentados e não sabemos quem são, do que correm e nem por quê.

Este arco narrativo se alonga por boa parte do livro; entretanto, nas páginas 92 acontece a introdução de outro arco, que também se estenderá:

“Tamar levantou-se da floreira de pedra e ficou em silêncio refletindo. Por um instante teve a impressão de haver sido sequestrada para um lugar distante, e seus olhos se arregalaram ainda mais, fixos no espaço vazio. E só quem acredita em coisas sobrenaturais diria que, numa fração de segundo, um raio atingiu seu cérebro e, sem que ela entendesse, foi tomada por uma estranha e vaga profecia: que após um tempo não muito longo, a quatro semanas de hoje, ela perderia sua Dinka, e que um rapaz que ela não conhecia sairia à sua procura seguindo cada um de seus passos por toda Jerusalém.” (página 92)

Podemos agora preencher alguns porquês. O rapaz que corre atrás do cão chama-se Assaf e trabalha na prefeitura local. O animal foi encontrado perambulando pelas ruas da cidade e foi capturado. Como ele portava identificação na coleira, Assaf foi incumbido de uma missão: encontrar o dono do cachorro, fazê-lo preencher um questionário e cobrar dele uma espécie de multa.

O cão, de início, parece facilitar o trabalho de Assaf; leva-o a vários pontos conhecidos, na procura aflita de sua dona. E se aproxima, pouco a pouco, de um endereço importante – uma propriedade antiga, onde há uma torre em que reside uma freira de nome Teodora. A esta altura, já descobrimos que o cão não é um cão, é uma cadela. E a placa de identificação da coleira diz o nome: Dinka. E mais, a cachorra enlouquece de alegria ao receber as carícias de Teodora.

O parágrafo que abre o segundo arco narrativo adianta algumas coisas. Dinka pertence a Tamar. É ela que Assaf terá de encontrar, para lhe devolver o animal, ao qual já se afeiçoa, fazê-la preencher o tal questionário guardado em seu bolso e cobrar-lhe a tal multa.

Entretanto, se o parágrafo junta partes, estabelece outras questões cruciais para o prosseguimento do romance. Por que Tamar está ali, parada, tão reflexiva? Por que ela tem a impressão de ter sido sequestrada? Por que ela perdeu Dinka? O que, exatamente, ela está fazendo?

Tamar é uma cantora e se apresenta nas ruas de Jerusalém:

“Mesmo sem abrir os olhos, ela consegue sentir como a rua se parte ao meio, não no comprimento nem na largura, e sim entre a rua que existia antes de ela cantar e a rua que existe depois. É uma sensação clara e precisa, e ela se sente segura. Não precisa olhar. A pele está sentindo: as pessoas aos poucos vão parando, outros dão a volta e retornam hesitantes ao lugar de onde vem o som. Parados. Atentos. Esquecem-se de si próprios ao ouvir sua voz.” (página 93)

Voltemos ao arco anterior, o de Assaf e Dinka. Eis que Assaf é preso por dois policiais – um homem e uma mulher. Levam-no à delegacia para colher depoimento, levam também Dinka, sem que o rapaz entenda o que está acontecendo.

“Uma chave girou na fechadura, e Assaf pulou do chão para o banco. O investigador entrou e chegou a ver o pulo assustado, e Assaf imediatamente sentiu-se culpado. Junto com o investigador entrou uma mulher jovem e simpática. Disse seu nome a Assaf, Sigal ou Sigalit, ele não entendeu bem, acrescentando que era encarregada da investigação, especializada em delinquência juvenil, e que iria conversar come junto com o investigador. Perguntou se ele queria que algum parente fosse chamado para estar presenta ao interrogatório, e Assaf, apavorado, quase gritou que não.” (página 110/111)

Assaf não entende nada, a princípio. O que fizera ele? Por que está detido? As perguntas não demoram a ser respondidas:

“Ouça bem”, disse [o investigador] após um segundo, “já estou há sete anos nesse sérvio, e, todo mundo sabe, tenho memória fotográfica. O seu cachorro fedorento, eu já vi, não faz um ano, nem dois, faz menos de um mês. E ele estava junto com uma garota, de quinze anos, mais ou menos, talvez dezesseis. Cabelo cacheado, preto, comprido, mais ou menos um metro e sessenta, rosto bonito.” O investigador falava nesse momento voltado para a mulher, e sem dúvida tentava impressioná-la com sua memória: “E ela já estava nas minhas mãos, no meio de uma transação com o anão da praça Zion, e se não fosse esse cachorro filho da p...” (página 111)

Assaf fora preso por causa de Dinka. Fica claro que Tamar estava envolvida em algo errado e, ao ser abordada, a cadela reagira, mordendo a pena do investigador. Entretanto, Assaf consegue se safar desta, ao ser identificado como funcionário da prefeitura em missão de devolução do bicho a alguém de direito e, portanto, inocente do que o acusavam.

Mas ficamos com a pulga atrás da orelha. Então Tamar estava envolvida em alguma coisa suspeita? O problema é o que acontece durante os shows dos agenciados, como fica explícito nesta passagem:

“Minha carteira, com todo o dinheiro e os documentos.” Ela tinha um rosto gordo e vermelho, veias saltando em torno do nariz enorme e na cabeça uma torre de cabelos loiros cintilantes. “Hoje o patrão me deu trezentos shekels para o casamento da minha filha. Trezentos shekels! Ele nunca dá tanto dinheiro! E no caminho eu escuto você cantar, paro só um momento, oy!, sou uma idiota! Agora... nada, não tem mais nada!” Sua voz foi morrendo de pesar e incompreensão.

Sem hesitar, Tamar lhe estendeu todo o dinheiro que havia no chapéu. “Pegue.” (página 168-169)

Cortemos de novo. Tamar tem um contato com dois agenciadores de talentos. Mantém um local, onde dão abrigo e comida, em troca de os agenciados exporem suas artes ao público. As pessoas deixam dinheiro aos artistas de rua; estes têm de cumprir uma agenda, com shows em lugares públicos.

“O que você precisa conhecer? Eu sou a vovó, e ele, o vovô. Velhos! E há um rapaz lá. Pessach, que é o gerente, e ele é gente boa, pode acreditar, queridinha, é um garoto de ouro!” Tamar olho para os dois desesperada. Era isso mesmo. Esser era o nome que Shai mencionara quando lhe telefonou de lá. Pessach. O homem que lhe dera uma surra, que quase o matara de tanto bater. A velha prosseguiu: “E ele tem esse local exatamente para jovens como você”.

O grande problema aqui é o acontecimento enquanto Tamar  canta. Batedores de carteira roubam as pessoas.

Shai é o irmão desaparecido de Tamar. A nossa experiência com a estrutura do romance nos diz que, claro, os dois arcos narrativos vão se aproximar e, em dado momento, vão se misturar. É próprio de uma boa obra não deixar pontas desamarradas. Aqui deixo o leitor com o gostinho do quero-mais. Não sou um estraga-leitura...

Você, leitor que me lê, já sacou, este Alguém para correr comigo tem uma condução em zigue-zague. E Grossman faz este trabalho de maneira muito competente. Os deslocamentos temporais são precisos e com bons indicadores, que levam o leitor e entender os fatos anteriores e posteriores dos dois arcos.

Durante a leitura, me lembrei muito de Oliver Twist, de Charles Dickens – lido há muito tempo – e o ponto de contato entre as duas obras é a ambiência dos jovens num submundo que perverte a inocência e joga-os num mundo adulto do pior jeito possível. A revista da TAG, que acompanha este livro, confirma a aproximação.

A narrativa tem um tom delicado, as frases têm uma respiração tranquila, apesar da realidade crua do que narram, no mais baixo substrato social de uma cidade grande. Exploração de mão-de-obra juvenil, drogadição:

“Porque, ela pensou, o que eu sou em comparação a eles? Uma menina boazinha, caseira, um passo ou outro fora da linha. E eles, com que coragem se recusavam a ser parte do jogo cínico e hipócrita do mundo, do jogo de força e ambição... Naquele momento realmente teve inveja deles – da liberdade, da coragem de quebrar as regras, de se revoltar assim, até o fim de renunciar à segurança da casa, dos pais, da família, que, de toda forma não passavam de uma grande ilusão, um tipo diferente de droga tranquilizante, capaz de eliminar os medos...” (página 278)

Alguém para correr comigo é uma leitura marcante. Sem termos difíceis, é um projeto em que o autor deseja encontrar o seu leitor sensível ao tema. Olha o mundo com tristeza, olha a natureza humana com os olhos marejados.

Afinal, concluo eu, se condeno a humanidade, condeno-me como parte incontornável dessa mesma humanidade. E há dois caminhos: ter esperança e batalhar para que ela, a esperança, não morra ou entregar os pontos de vez.

Tamar manteve a esperança. Assaf manteve a esperança. Ou Tamar não procuraria resgatar o irmão. Ou Assaf teria desistido de cumprir a missão que tomara nos braços.