São seiscentas e dezenove páginas de eletrizante narrativa. J. J. Benítez, nascido em Pamplona, norte da Espanha, é famoso pelas suas obras vinculadas ao que se convencionou chamar de Realismo Fantástico. Por este rótulo entende-se a tendência literária que mistura coisas fantásticas ao mundo do real.
É difícil fazer a resenha desse livro; afinal, são dezenas de notas de pé de página, uma enorme massa de informação, muitas fontes de pesquisa listadas.
Um major aposentado da Força Aérea Americana participa de um projeto secreto da Nasa. Entra em contato com o autor e, após algumas provas de que poderá confiar no escritor, lhe entrega suas anotações, O Diário do Major. Ele – codinome Jasão – e seu companheiro – Eliseu – participam de uma viagem pelo tempo, por meio de uma máquina conhecida como berço. Retrocedem ao tempo de Jesus Cristo, mais precisamente ao tempo em que acontece a ressurreição de Lázaro.
Jasão é testemunha ocular de uma parte importante da vida do Cristo, abrangendo os episódios dos Vendilhões do Templo, da Oração no Monte das Oliveiras, da traição de Judas Iscariotes e, finalmente, do processo de condenação de Jesus e seu martírio na cruz.
Impressiona-nos a quantidade de detalhes históricos, geográficos, sociais de uma época quase perdida no tempo. Há também muitos detalhes técnicos sobre os aparelhos levados pelo astronauta do tempo. Por exemplo, uma revolucionária câmara fotográfica escondida no seu cajado. O Jesus que resulta desta história é extremamente coerente e humano.
Não é um livro para ser lido por quem tenha dificuldade com versões alternativas sobre Cristo, verdades não bíblicas. Portanto, se você é o tipo que vê a Bíblia como um texto divino, irretocável por conter a Verdade, sagrado por ter sido escrito sob inspiração divina, fique sabendo haver discordâncias entre o testemunho de Jasão e as versões dos evangelistas.
Uma possbilidade é ler o livro como ficção. Mas, a toda hora nos pica a pulga atrás da orelha, pois são muitos e precisos os detalhes exibidos por Benítez. Uma narrativa caudalosa e candente, mostrando Jesus como um homem bondoso e enérgico, com perfeito controle de sua vida e conhecimento integral de sua missão na Terra.
A sua submissão ao julgamento conduzido por Pôncio Pilatos revela a disciplina de alguém que sabia de antemão que os fatos teriam de se dar daquele exato modo. Sabedor de cada item de sua dura missão, Ele simplesmente a cumpriu até o fim.
Cavalo de Troia – Jerusalém faz parte de um projeto de leitura: ler todas as nove obras da série até o fim de 2013. Há muito tempo venho desejando executá-lo; entretanto, um projeto assim, de longo fôlego, precisa ser bem planejado. São todos livros grossos e como quero tirar de cada volume o máximo possível de informações, tanto do texto principal como das muitas notas de pé de página, a leitura se torna mais lenta. E, é claro, também mais reflexiva, pois a cada evento bíblico abordado, impossível não compará-los aos cânones dos quatro evangelhos.
Além disso, a leitura da série de Benítez terá de concorrer com a de outras obras. A primeira etapa foi altamente compensadora. Benítez escreve muito bem e recomendo a obra, apesar de ser polêmica ou, quem sabe, por isso mesmo.
J.J. Benítez.Operação Cavalo de Troia.Editora Planeta, São Paulo, SP.
Tomei contato com a história do personagem David Kepesh por meio do filme de Isabel Coixet, Fatal (em inglês, Elegy). Fiquei com uma boa impressão do filme, embora tenha lido algumas coisas que o depreciavam. Resguardei-me, entretanto; não queria “embarcar” em opiniões diversas, sem ter formado a minha. Aguardei a compra e leitura do livro O Animal Agonizante, de Philip Roth, que deu origem ao filme. Gostei do livro, mantive minha boa impressão do filme. A crítica, mesmo a mais especializada e competente, é sempre uma opinião com a qual podemos ou não concordar. E tenho muito cuidado ao comparar literatura a cinema. Bons livros nem sempre dão bons filmes, ou vice-versa. As linguagens, sendo muito diferentes, têm de ser adaptadas.
A Ficção Científica é ainda tratada, por muitos críticos, como uma espécie de “lixo literário”, ou subgênero, no sentido pejorativo. Esta ideia se construiu, no passado, por uma quantidade muito grande de péssimas histórias em publicações baratas. Edgar Rice Burroughs, o mesmo criador de Tarzan, incomodado com a baixa qualidade do que era feito na época, criou suas histórias envolvendo o planeta Marte. Idealizou o heroi John Carter, um americano abduzido pelos marcianos. Tais textos deram uma reviravolta de qualidade à chamada Ficção Científica.