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domingo, 8 de abril de 2018

Resenha Nº 118: A Arte Francesa de Mandar Tudo À Merda, de Fabrice Midal


Resultado de imagem para livro a arte francesa de mandar tudo à merdaTítulo original: Foutez-vous la Paix !
Título em português : A Arte Francesa de Mandar Tudo À Merda
Autor: Fabrice Midal
Tradutor: André Telles
Editora: Planeta
Copyright: 2017
ISBN: 978-85-422-1235-8
Gênero: Autoajuda
Número de páginas: 194
Bibliografia do autor: Trungpa, Biographie, Paris, 2002; Le Bouddhisme à travers 100 chefs-d'œuvre, Paris, Presses de la Renaissance, 2007 ; Introduction au Tantra Bouddhique. L'incandescence de l'amour, Paris, Fayard, 2008 ; ABC du Bouddhisme, Éditions Grancher, 2008 ; Jackson Pollock ou l'invention de l'Amérique, Éditions du Grand Est, 2008 ; Rainer Maria Rilke, l'amour inexaucé, Paris, Le Seuil, "Points", 2009 ; Risquer la liberté. Vivre dans un monde sans repères, Paris, Le Seuil, 2009 ; Pourquoi n'y a-t-il-pas de chemin spirituel possible sans un maître ?, Éditions du Grand Est, 2009 ; La voie du Chevalier. Dépassement de soi, spiritualité et action, Paris, Payot, 2009 ; Et si de l'amour on ne savait rien ?, Paris, Albin Michel, 2010 ; Préceptes de vie des philosophes grecs, Presses du Châtelet, 2010 ; Mandalas. Retrouver l'unité du monde, Paris, Le Seuil, 2010 ; Pourquoi la poésie ?, Paris, Pocket, « Agora », 2010 ; Conférences de Tokyo. Martin Heidegger et la pensée bouddhique, Paris, Le Cerf, 2012 ; Auschwitz, l'impossible regard, Paris, Le Seuil, 2012 ; La Voie du Chevalier. Pratique de la méditation laïque, Paris, Payot & Rivages, 2014 ; Frappe le ciel, écoute le bruit : Ce que vingt-cinq ans de méditation m'ont appris, Paris, Pocket, 2014 ; Comment la philosophie peut nous sauver : 22 méditations décisives, Paris, Flammarion, 2015 ; La méditation, PUF, « Que sais-je ? », 2017

Nascido em 29 de setembro de 1967, em Paris, Fabrice Midal é filósofo, fundador de L’École Occidentale de Méditation. Reivindica um budismo laico, adaptado, portanto, das fontes tradicionais desta grande religião oriental. Em 1988, ele encontra o filósofo chileno Francisco Varela, que o inicia na prática da meditação. Fabrice Midal dá continuação ao seu aprendizado e estuda com mestres do budismo tibetano.
Em 1999, ele defende tese de doutorado em filosofia, na Universidade Paris I, sobre o tema "o sentido do sagrado nas obras de arte modernas". Torna-se um requisitado autor de livros sobre meditação e é considerado, hoje, a maior autoridade francesa sobre tais questões.

Entrei na livraria com o objetivo único de comprar o livro "A Livraria", da escritora inglesa Penelope Fitzgerald. Havia assistido ao filme homônimo e – tendo gostado muito – desejava ler o livro que lhe dera origem. Mas, na mesma bancada de livros, este "A Arte Francesa de Mandar Tudo À Merda", com sua chamativa capa branca com letras vermelhas me despertou a atenção. Tomei-o; li a quarta capa e resolvi conceder algum tempo de análise ao volume. Tentei esquecer o título apelativo de que não gostava, uma clara ação de marketing que navega nas mesmas águas do estrondoso sucesso de vendagem do americano Mark Manson, "A Sutil Arte de Ligar O Foda-se".
Considerei cuidadosamente o índice dos quinze curtos capítulos. Folheei o livrinho, pinçando aqui e ali algum trecho. Junto com o outro volume decidido, "A Livraria", levei-o ao vendedor, que já me conhecia. “Ah, você não gostaria de ver um outro livro, lançado anteriormente a este, que está vendendo muito, as pessoas voltam para comprar outro volume para darem de presente aos amigos? E qual é, indaguei. "A Sutil Arte de Ligar O Foda-se".”
Executei com ele o mesmo procedimento de análise do livro francês. Seguindo basicamente, no cômputo final, minha intuição ou sensibilidade textual, optei pelo exemplar de Fabrice Midal. Creio, para esta escolha foi fundamental a sólida bibliografia apresentada ao final do volume; reconheço que a minha formação acadêmica tem muito a ver com a escolha.

Já na cafeteria, no mesmo piso da livraria, enquanto esperava ser atendido, iniciei a leitura. Foram-se a introdução, o primeiro e o segundo capítulos. Boa impressão: achava ter acertado na opção. No mesmo dia acabei de ler o volume de 194 páginas, escrito num estilo leve e divertido.
Antes de entrar propriamente na apreciação do livro, desejo avançar alguns comentários a respeito do que se convencionou chamar ‘gênero de autoajuda’. Há pelo menos dois níveis conceituais, pelos quais podemos entender um livro como sendo enquadrado nesta classificação; uma, mais geral, não se constituindo propriamente um gênero à parte, e outra, mais restrita e por isso mesmo, pertencente a um determinado gênero.
No sentido amplo, qualquer livro pode ser considerado de autoajuda. Se pensarmos que a experiência de leitura, mesmo variada, pode nos incutir ideias e desejos, reações e sentimentos, isto será mais claro. Um dos maiores livros de autoajuda que conheço, dentro desta proposta, é a Bíblia. Quantas pessoas se beneficiaram de sua leitura? Quantas ainda se beneficiam? Há ali belíssimos e interessantes textos, independente de qual a religião se professe.
Clássicos podem ser de autoajuda, também. Agora mesmo acabei de ler O Morro dos Ventos Uivantes e a figura do protagonista, Heathcliff, me impressionou tremendamente. “Não gostaria de ser como ele”, pensei comigo mesmo. E este homem estranho, egoísta, fechado em seu mundinho torpe me disse alguma coisa exatamente porque alguns de seus defeitos – humanos – fizeram com que os identificasse em mim.
No sentido restrito, formando as características de gênero, a coisa muda. Geralmente, são textos bobos, com uma fraseologia superficial, açucarada como ‘sorria para o mundo e o mundo sorrirá pra você’. Coisas do tipo. Simplesmente abomino tais livros, embora respeite quem goste deles. Há público para tudo.
A Arte Francesa de Mandar Tudo À Merda, em que pese o oportunismo marqueteiro do título, traz, a meu ver alguma contribuição ao leitor. Sua tese central é a de que somos seres extremamente pressionados, infelizes, derrotados por termos perdido a capacidade de dialogar com nós mesmos; em última análise, estamos perdendo a nossa essência. E o pior – Midal cita apropriadamente Discurso da Servidão Voluntária, do também francês Étienne de la Boétie – com nossa própria aquiescência. Eis o trecho:
“Étienne de la Boétie, conhecido por sua amizade com Montaigne, escreveu ainda muito jovem, em 1549, um livro inusitado, Discurso da Servidão Voluntária. Esse texto prodigioso foi ‘esquecido’ durante séculos, antes de ter sido reabilitado em parte por Gandhi, o apóstolo da não violência. Nele, La Boétie faz uma pergunta surpreendente: por que os homens desistem tão facilmente de sua liberdade para obedecer a outro? Uma das razões, ele diz, é nosso medo de perder a parcela de poder que detemos, por mínima que seja. A ideia é resumida por esta fórmula que, infelizmente, não perdeu nada de seu brilho: ‘O tirano tiraniza graças a uma série de pequenos tiranos, tiranizados sem dúvida, mas tiranizando por sua vez.” (página 22/23)
Obedeço por que não quero criar problemas. Afundo-me no sistema porque sou beneficiado por ele.
São quinze capítulos com títulos instigantes, outra característica de um livro que deseja ser lido: 1) Pare de Meditar, Não Faça Nada; 2) Pare de Obedecer, Você é Inteligente; 3) Para de Ser Sábio, Seja Entusiasta; 4) Pare de Ser Calmo, Fique em Paz; 5) Para de Se Reprimir, Deseje; 6) Para de Ser Passivo, Saiba Esperar; 7) Pare de Ser Consciente, Seja Presente; 8) Pare de Querer Ser Perfeito, Aceite As Adversidades; 9) Pare de Tentar Entender Tudo, Descubra O Poder da Ignorância; 10) Pare de Racionalizar, Relaxe; 11) Pare de Se Comparar Aos Outros, Seja Você Mesmo; 12) Pare de Sentir Vergonha, Seja Vulnerável; 13) Pare de Se Torturar, Seja Seu Melhor Amigo; 14) Pare de Querer Amar, Seja Benevolente; 15) Pare de Controlar Seus Filhos, Meditação Não É Ritalina.
Por estes títulos, fica claro que o autor parte para uma redefinição de uma série de termos, postos como contrários pela estrutura ‘pare de fazer ou ser isto; no lugar, outra coisa’.
Fabrice Midal trabalha um novo conceito do que seja meditar: para ele, meditar não é não pensar em nada, impor um vazio à mente. Ser calmo o tempo todo, nos diz ele, só será possível ao morto ou ao psicopata. Seria não reagir à realidade que nos cerca:
“Dito isso, extasiar-se não significa esquivar-se da realidade, nem sonhar com os olhos abertos. Extasiar-se não é recusar se confrontar com as dificuldades do cotidiano – e deixar seu ônus para os outros. Extasiar-se não é deixar-se devorar por essas dificuldades, é também enfrentá-las, mas admitir que elas não constituem senão parte da realidade. Cabe a nós procurar onde está a outra parte, reconhecer, num primeiro momento, que nem tudo vai mal e que se trata simplesmente de pequenos dissabores, que não conseguirão estragar toda a nossa existência.” (página 168/169)
Outro trecho muito bem colocado segue-se na página 169:
“ ‘Viver é tão subversivo que deixa pouco espaço para as outras ocupações’, escreve Emily Dicksinson, uma poeta que aprecio. Mas estamos tão assoberbados por essas outras ocupações que nos esquecemos de existir. Habitamos permanentemente um personagem: aqui sou mãe (ou pai) e devo me comportar de determinada maneira, ali sou enfermeira ou enfermeiro e devo agir e devo agir de determinada maneira, ou funcionário público e cumpre-me atuar como funcionário público. Sou essas máscaras que eram usadas no teatro grego antigo para definir o personagem: um homem ou uma mulher, um cômico ou um trágico, um humano ou um deus, um herói ou um vilão. Vamos de máscara em máscara, por trás das quais nos dissimulamos. Mas quando é que eu sou eu? Quando é que toco a vida nua e crua, essa coisa que não controlamos, que não decidimos, que não dominamos e que está aqui, só podendo, no fundo, nos extasiar? Prisioneiro de todas as minhas identidades, tenho a impressão de ser apenas a minha função, minha posição social, meu lugar na família.”
Meditar, portanto, é deixar-se em paz.
Midal comenta, ao final do seu livro:
“Aprendi a ter confiança na minha capacidade de me extasiar. Deixo-me em paz com mais facilidade e experimento então a estranha sensação que é a gratidão. Gratidão para com a vida, para com a minha vida. Afinal, ela existe... Confesso que precisei de um longo tempo até falar do êxtase que eu sentia: era um discurso que me parecia muito frouxo, eu temia que ficasse aquém da radicalidade que me chamava, da urgência de deixar-se em paz. Dou-me conta de que, na verdade, trata-se do mesmo discurso: deixar-se em paz é simplesmente permitir-se participar desse êxtase, descobrir o espírito infantil soterrado sob nossas palavras de especialista. Essa felicidade não depende das circunstâncias e é uma profunda liberação...” (página 171)
Fico feliz de ter vencido meu preconceito contra livros de autoajuda. Teria perdido a ocasião de poder ler um livro bom, entre tantos livros bons. Vou relê-lo daqui a algum tempo, com pacificação interior, para melhor aproveitá-lo.
Recomendo este A Arte Francesa de Mandar Tudo À Merda. Continuo não gostando do título, mas isto é apenas um detalhe.
Nota atribuída: 9,0

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