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domingo, 15 de abril de 2018

Livro Livre, por Cleuber Marques da Silva



Imagem: trabalho de Emma Taylor, obtido em www.konyvkultura.kello.hu/kepgaleriak/emma-taylor

Texto: Cleuber Marques da Silva

É uma hora qualquer, qualquer hora do dia. Abro a capa do livro, salto as páginas iniciais, que já conheço e vou direto para o texto, que ainda não conheço. Meus olhos sequiosos procuram as palavras inscritas sobre a folha (de preferência, em papel amarelado) e a minha consciência se transporta para outro lugar.
Lá fora ficam o mundo real e suas necessidades, medos, fortes apelos. Eu estou lendo. Não sinto as complexas ligações entre as sinapses do meu cérebro. Apenas confirmo o seu efeito: enquanto os olhos, ligeiros, saltam de frase em frase, de período em período, de parágrafo em parágrafo, minha mente me dá o entendimento do que leio.
De vez em quando, são extraídos do fundo da memória fatos acontecidos, outros textos ruminados, sentimentos já vividos e eles vêm coparticipar do texto que leio. Enchem lacunas informativas e sensoriais que, necessariamente, toda escrita traz em si; enriqueço-a e enriqueço-me com este comensalismo.
Personagens – entidades misteriosas encarnadas em palavras – me fazem sentir raiva, requestam meu amor, me fazem torcer por seu sucesso ou fracasso, dependendo do caso. São seres sedutores, cheios de artimanhas discursivas: não só conduzem a narrativa, enchendo-a de uma espécie de humanidade de segunda instância, mas vivem uma estranha dualidade, pois tanto servem o texto, quanto por ele são servidos.
Muitos dos meus processos químicos, físicos ou biológicos são fortemente influenciados pela leitura. Às vezes, os batimentos do meu coração se aceleram; por vezes, minhas pupilas se abrem mais sob a escuridão de uma passagem, ou se fecham, sob a luz de outras. Os músculos se retesam sob o ataque do suspense bem construído ou se relaxa, quando, findo todo o conflito e após a descarga do clímax, vem a paz dos grandes finais. Ler é um ato sensual e potencialmente libertador.
No tocante à leitura, vivo uma fase de profunda realização: só leio o que desejo ler. Ninguém me força, nenhuma encomenda – nada. E, aos poucos, vou inclusive desconstruindo certas bobagens que me ensinaram. Não sou obrigado a gostar previamente de nada. Se leio algum clássico, é porque ele me interessa; se leio algum best-seller sem grandes pretensões, e daí? Sou livre para ler o que me liberta.
Experiências novas, textos novos, leio quadrinhos, graphic novels, livros tolinhos e sabichões. Nesse mix maluco e atual, a única coisa que busco, de modo muitas vezes inconsciente, é entender o Ser Humano em seu Mundo. Entender-me como Ser Humano em meu Mundo. E, ao escrever estas duas últimas frases, minhas associações mentais me esclarecem: elas nada mais são que uma espécie de perífrase do “amar o próximo como a ti mesmo”. E, em assim sendo, atestam a força dos substratos religiosos.
Pergunta que me fica, andando à volta da minha mente, será esta busca tão sôfrega por ler livros, produzidos por tantas culturas diferentes, uma forma de amar o próximo?

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