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sábado, 21 de fevereiro de 2015

Anotações de Cleuber Marques, leitor

por Cleuber Marques da Silva

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Naqueles distantes anos 50, guiado pela minha irmã – que lia muito – iniciava meus caminhos como leitor. Não havia ainda o ensino infantil e normalmente as crianças eram alfabetizadas a partir do primeiro ano do “grupo escolar”. Cansada de ler para mim todas as noites, antes de dormir – ou mesmo, quem sabe – sensibilizada pela fome de leitura do futuro devorador de textos, minha irmã Doralice resolveu me alfabetizar por conta própria. A empreitada foi um sucesso, pois minha paixão pelos livros era tanta que garantia o êxito. Pouco a pouco, deixaria de ouvir os personagens Saci Pererê, o Marquês de Rabicó, a rebelde Emília, Pedrinho, Dona Benta, Tia Anastácia, Narizinho, o Visconde de Sabugosa falarem pela voz dela para ouvir seus diálogos pela minha própria voz e seguir eu mesmo as histórias criadas por Monteiro Lobato.

Quando chegueiResultado de imagem para As Mais Belas Histórias ao primeiro ano, lia com dificuldade, lentamente, mas lia. E à medida que me esforçava, lia cada vez melhor. Lembro-me perfeitamente, na época tínhamos os livros de antologia entre o material a ser usado na escola. As Mais Belas Histórias, organizado pela Lucia Monteiro Casasanta, nem bem chegava às minhas mãos e já era prontamente lido.

Não sei o nome da alma caridosa, mas me emprestaram uma belíssima coleção Os Mais Belos Contos de Fada – título seguido dos adjetivos pátrios relativos a vários países europeus.

Mais crescido, já adolescente quieto e introspectivo, preferia ler um bom livro a qualquer programa que me apresentassem. Com um livro nas mãos, esquecia até de almoçar, minha mãe quase tinha de vir me sacudir para eu retornar ao mundo habitado pelos não leitores.

Descobri na biblioteca da escola em que cursava o último ano do ensino fundamental, em Contagem, um exemplar do Humilhados e Ofendidos, do escritor russo Dostoiévski. Foi maravilhamento à primeira leitura! Não podia ainda apreender a complexidade da narrativa dostoievskiana, me faltava bagagem, vivência. Não me importei com essa dificuldade, entretanto. Fiz inscrição na Biblioteca do SESC, pois lá descobrira a coleção inteira do meu fascinante autor russo e dei sequência às minhas aventuras literárias, com o Crime e Castigo. Era uma coleção de capa dura, vermelha, com apliques dourados, trazendo a figura de um minarete russo na lombada; a editora era a José Olympio.

Sempre gostei de escrever também, embora o amor pela leitura ganhasse, com larga margem, das minhas atividades como autor. O que eu escrevia, como escrevia, não me agradava nem um pouco.

Conheci o Machado de Assis por meio de Dom Casmurro, num trabalho feito para o Grêmio Literário da escola. E me apaixonei também pelo Machado. Para mim, todo aquele apuro da frase bem-feita, da construção psicológica dos personagens eram absolutamente fascinantes. Já lera muita coisa do José de Alencar, da biblioteca domiciliar, em edição antiga, cheia de “elles”, “dous”, “loiro”, “ph”, etc. O autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas me propunha coisas novas, diferentes.  

Enfim, eis-me aqui. Leitor maduro, nunca deixei de ler os nacionais e os estrangeiros. Não faço distinção entre os autores brasileiros e os de outras nacionalidades. Agora mesmo, estou interessado em Milan Kundera; está nos meus planos voltar a ler Graciliano Ramos, outro autor de quem gosto bastante. Estou com A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende para degustar. Há lugar para os mais novos, como o Cristovão Tezza, a Martha Medeiros, o Chico Buarque, a Fernanda Torres, a Leila Ferreira. E a Clarice Lispector? Da Clarice, a gente nunca se esquece…

Minhas preferências vêm mudando, ou melhor, se ampliando: atualmente, manejo biografias, livros de história (desde que agradáveis de ler – o prazer do bom texto é primordial), como os do Laurentino Gomes. Recentemente, comecei a fazer incursões pela literatura africana de expressão portuguesa, com o Mia Couto, o Ondjaki, o Pepetela, o Eduardo Agualusa. Não podem faltar os portugueses, José Saramago, António Lobo Antunes, Miguel Sousa Tavares, Inês Pedrosa, Valter Hugo Mãe… Com estes, presto uma homenagem ao meu pai, um português da província de Trás-os-montes. E tenho descoberto que existe um filão de bons autores de ficção científica nacionais.

Como não podemos parar no tempo, agora leio também num leitor de e-books. Eles têm a praticidade de podermos levar toda a nossa biblioteca num aparelhinho que cabe na palma da mão. E para entender todo esse processo de mudança no suporte da leitura, adquiri a obra de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, cujo título é Não contem com o fim do livro; naturalmente, uma… brochura.

De tal modo me afeiçoei à leitura que ela me é essencial, faz parte da minha personalidade. Algumas pessoas me perguntam por que leio tanto, ainda mais numa época em que quase já não há tempo para tal. Respondo-lhes: leio pela paixão, leio porque me é necessário, leio como um esforço inaudito para entender o mundo, para me entender melhor. A matéria que alimenta as obras são as histórias das pessoas – as acontecidas e as passíveis de acontecer. Quanto ao tempo, bem, meus caros leitores, tempo é uma questão de prioridade… Roubo tempo à televisão, aos videogueimes, e mais recentemente, aos Facebooks, aos Whatsapps.

Espere um pouco, leitor apressado desse blog, não vivo só de leituras. Gosto de fotografar, de ir ao cinema (acho os dvd players ou blue-ray players bons quebra-galhos, nada mais) e – sobretudo – como bom leitor, gosto de escutar as pessoas. Então se puder embalar tudo com o som de um violãozinho, melhor…

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