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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Um copo de cólera

Raduan Nassar nos dá um magnífico texto nesse Um copo de cólera. O livro foi escrito em 1970 e publicado em 1978, ainda sobre a terrível pressão da ditatura militar, ocorrida no Brasil, de 1964 a 1985. Entretanto, a obra não é uma militância contra os Anos de Chumbo. É antes o olhar crítico às relações humanas desestruturadas, agoniadas.

O personagem principal não tem nome, assim como a mulher com quem vive uma relação amorosa. O erotismo permeia o texto de 64 páginas, dividido em pequenos capítulos. O casal se acaricia, faz amor, troca ideias. Dela, o que sabemos é que é jornalista; a ação se desenrola numa fazenda ou sítio, em que dois caseiros, dona Mariana e seu Tonho, cuidam das coisas.

A paixão dos dois é um tanto conflituosa:

“…assim que ela deixou o quarto e foi por instantes até o banheiro, tirei rápido a calça e a camisa, e me atirando na cama fiquei aguardando por ela já teso e pronto, fruindo em silêncio o algodão do lençol que me cobria, e logo eu fechava os olhos pensando nas artimanhas que empregaria (das tantas que eu sabia), e com isso fui repassando sozinho na cabeça as coisas todas que fazíamos, de como ela vibrava com os trejeitos iniciais da minha boca e o brilho que eu forjava nos meus olhos, onde eu fazia aflorar o que existia em mim de mais torpe e sórdido, sabendo que ela arrebatada pelo meu avesso haveria de gritar “é esse canalha que eu amo,”… (página 10)

Um fato corriqueiro é o bastante para o homem derramar toda a sua raiva:

“… deixei as duas para trás e desabalei feito louco, e assim que cheguei perto não aguentei “malditas saúvas filhas da puta” e pondo mais força tornei a gritar “filhas da puta, filhas da puta”, vendo uns bons palmos de cerca drasticamente rapelados, vendo uns bons palmos de chão forrados de pequenas folhas”… (página 26)

Na verdade, a raiva foi menos pela devastação das saúvas na cerca viva do que por “essas formigas tão ordeiras, puto com sua exemplar eficiência, puto com essa organização de merda que deixava as pragas de lado e consumia o ligustro  da cerca viva”… O fel interior, detonado pela aparente ocorrência de menor valor, faz com o homem admoeste os empregados, desproporcionalmente, e quando sua parceira tenta intervir, seu ódio se volta contra ela e os dois discutem acidamente.

A linguagem do livro oscila entre o chulo e confessional, apontando para os extremos ideológicos do casal. Afloram, então, as pressões criadas pela condição política vivida no Brasil. Não se podia expressar livremente naqueles tempos. Também as polarizações entre os apoiadores do regime ditatorial e os contra ele eram muito comuns.

O homem apresenta-se, no fundo, como um ser confuso e dependente:

“…fiquei aguardando até que ela me jogou uma ampla toalha sobre a cabeça, cuidando logo de me enxugar os cabelos, em movimentos tão ágeis e precisos que me agitavam a memória,”… (página 18)

“…não era a primeira vez que ele fingia esse sono de menino, e nem seria a primeira vez que me prestaria a seus caprichos, pois fui tomada de repente por uma virulenta vertigem de ternura, tão súbita e insuspeitada, que eu mal continha o ímpeto de me abrir inteira e prematura pra receber de volta aquele enorme feto.” (página 64)

Além dessa novela, Um copo de cólera, Raduan Nassar ainda publicou Lavoura arcaica, livro esse que o fez ser reconhecido como um dos excelentes autores da literatura brasileira.

Um copo de cólera não é leitura fácil. O texto, apesar de pequeno, é extremamente denso. O enredo é muito simples, como se pode ver por essa resenha, mas a capacidade de síntese do autor não facilita as coisas para um leitor neófito. Não há propriamente, parágrafos; cada capítulo é um único, imenso parágrafo, em que o pensamento do personagem, suas impressões têm um ritmo alucinante. Não chega a ser um fluxo de consciência, um pensamento errático. Há certas frases que se servem de uma distribuição rítmica e rímica, características dos poemas.

Se você gosta de narrativas de fundo psicológico, não hesite. Um copo de cólera é um texto riquíssimo, e por todas as suas características, algumas das quais abordadas aqui, constitui-se em literatura de primeira.

Raduan Nassar. Um copo de cólera. Folha de São Paulo, coleção Literatura Ibero-americana, volume 11, 2012.

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