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quinta-feira, 14 de maio de 2020

Resenha nº157 - Os Bórgias, de Mario Puzo


Os Bórgias - Livros na Amazon Brasil- 9788501062765Título original: The Family
Título em português: Os Bórgias
Autor: Mario Puzo
Tradutor: Alves Calado
Editora: Record
Edição: 14ª
Copyright: 2001
ISBN: 978-85-01-06276-5
Gênero Literário: Romance histórico
Origem: Literatura americana
Outras obras: O Poderoso Chefão, Os Tolos Morrem Antes, O Quarto K, O Último Chefão, O Siciliano.





Impressões ao ler:

Há muito tempo este volume repousava na minha estante. Finalmente, chegara o dia de lê-lo e por isso convoquei minha disposição – trata-se de um volume de 420 páginas. Mas, como estamos em quarentena obrigada pelo coronavírus, iniciei a leitura. Um romance histórico, cheio de intrigas no âmbito da religião, envolvendo cardeais e o papa Alexandre VI. Rodrigo Bórgia, pai de César, Juan, Jofre e a famosa Lucrécia Bórgia. Relação incestuosa entre César e Lucrécia, hábitos um tanto estranhos, adesões costuradas por casamentos arranjados – tudo isto era bastante comum à época. A  Itália não existia ainda como um país unificado. O que prevalecia eram as cidades-estados. Os Bórgias não é uma história agradável de se ler no sentido de algo leve, mas é muito bem escrita. O enredo prendeu-me a atenção; mas, à medida em que tantas tramoias, assassinatos, traições (não só sexuais) aconteciam, certo asco ameaçava parar a leitura. Lancei mão, desta forma, de uma atitude útil para quando tenho de ler algo que não me agrada inteiramente: o distanciamento histórico. Virei a chave para uma leitura mais distante, menos emocional e emocionada. É um grande livro, embora não goste de certos elementos chamados a compor a narrativa.

Breve biografia do autor:

O escritor americano Mario Gianluigi Puzo nasceu em Manhattan, Nova Iorque, a 15/10/1920 e faleceu em Bay Shore, a 02/07/1999. Sua família era de italianos que habitavam o bairro nova-iorquino de Hell’s Kitchen. Sua infância, passou-a entre os trens, pois seu pai era ferroviário. Dividia este tempo entre os trilhos e a bibliotecas públicas; seu gosto pela literatura estava sendo formado. Desde cedo, também desenvolveu seu gosto pelo jogo, preferência que nunca abandonou. Quando Mario Puzo anunciou à família seu projeto de vida de tornar-se um escritor, obteve a rejeição da família. Alistou-se na Força Aérea americana e foi mandado para a Ásia e Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. De volta aos EUA, ingressou na New School For Social Research, em Nova Iorque. Publicou seu primeiro conto na revista American Vanguard, de nome The Last Christmas. A certa altura, surgiu-lhe uma proposta irrecusável: um adiantamento de cinco mil dólares para escrever um livro sobre a máfia. Assim veio a lume sua obra mais famosa, O Poderoso Chefão, que se tornou filme estrelado pelo excelente Marlon Brando, segundo minha avaliação, em sua melhor performance, contando a saga da máfia, e imortalizando o protagonista, Don Vito Corleone.

O Livro:

“Enquanto a peste negra varria a Europa, devastando metade da população, muitos cidadãos desesperados voltaram os olhos do céu para a terra. Ali, para dominar o mundo físico, os que tinham inclinação filosófica tentaram desvendar os segredos da existência e com isso desenredar os maiores mistérios da vida, enquanto os pobres só esperavam acabar com o sofrimento.
Foi assim que Deus caiu na terra como homem, e a rígida doutrina religiosa da Idade Média perdeu poder e foi substituída pelo estudo das antigas civilizações de Roma, da Grécia e do Egito. Quando a sede das cruzadas começou a diminuir, os heróis olímpicos renasceram e as batalhas olímpicas foram travadas de novo. O homem lançou sua mente contra o coração de Deus e a razão reinou.” (página 11, Prólogo)
Um parágrafo inicial fortemente contextualizador, escrito em tom grandiloquente, lembrando até certo ponto, as epopeias antigas. A história acontece na Roma do século XV, mais precisamente, no Vaticano. O Papa Inocêncio VIII (1484-1492) havia morrido e o cardeal Rodrigo Bórgia manipulou sua própria eleição como sucessor do Santo Pontífice, o que aconteceu no período de 11/08/1492 a 18/08/1503.

Com sua amante Vanozza Cattanei, Rodrigo tem César, Juan (seu preferido), Jofre e Lucrécia. Aos que estão estranhando a manutenção de uma amante e a existência de filhos no regaço papal, eis como Rodrigo – Papa Alexandre VI – justifica sua ligação amorosa:
“Como filho da Igreja, era proibido de se casar, mas como homem de Deus tinha certeza de que conhecia o plano do Bom Senhor. Ora, o Pai Celestial não criou Eva para completar Adão, mesmo no Paraíso? Então não era óbvio que, nessa erra traiçoeira cheia de infelicidade, um homem precisava ainda mais do conforto de uma mulher? Ele tivera os três filhos anteriores quando era um jovem bispo, mas essas últimas crianças de quem era pai, as de Vanozza, tinham um lugar especial em seu coração.” (página 15)
Bastante cínica a justificativa, não, meu caro leitor? Acostume-se. Alexandre VI adotará, no decorrer das páginas deste Os Bórgias, tanto cinismo quanto for necessário para suas pretensões.

E – claramente – uma delas é excercer seu poder religioso sobre uma Itália unificada. E aqui vamos a um parêntese explicativo. À época, a Itália como nação não existia. Deixemos, entretanto, que o narrador de Mario Puzo explique a situação:
“Além disso, o país que agora conhecemos como Itália não existia. Em lugar dele havia cinco grandes poderes: Veneza, Milão, Florença, Nápoles e Roma. Dentro das fronteiras da “bota” havia muitas cidades-estados independentes governadas por antigas famílias lideradas por reis locais, senhores feudais, duques ou bispos. Dentro do país, vizinho lutava contra vizinho para ganhar território. E os que conquistavam ficavam sempre alertas – porque a conquista seguinte estava próxima.” (página 12, Prólogo)
Já acontecera o cisma católico do ocidente – que o narrador de Puzo classifica como “paródia”. Cisma do ocidente é a divisão que ocorreu no poder da Igreja, com um papa em Roma e outro, na cidade francesa de Auvignon.

Habemus papam, Alexandre sobe ao trono católico; a César estará destinado o cardinalício e o Papa tenta garantir o melhor para a sua família. Agora, sua amante não é mais Vanozza, mas a jovem e bela Júlia, a cujo parceiro ela serve com prazer... inclusive sexual.

No trabalho de construir seu poder sobre todos os cinco centros irradiadores do poder, como descrito acima, Alexandre VI destina cada um de seus filhos a casamentos com representantes dos poderosos daqueles lugares. Busca uma aliança estável e maiores ganhos para a Igreja:
“Logo Alexandre começou a formular outro plano: com o objetivo de proteger sua posição no Vaticano e proteger a própria Roma de uma invasão estrangeira, teve certeza de que precisava unificar as cidades-estados da Itália. Foi então que concebeu o conceito da Liga Santa. Seu plano era unificar e liderar várias das maiores cidades-estados – isso lhes daria mais poder juntas do que cada uma tinha em separado.” (página 85)
Alexandre é também importante para a história de Portugal e Espanha. Chamado a dirimir uma pendenga existente com relação às novas terras descobertas no novo mundo, o Papa emite uma bula. Considera de Portugal as terras a leste da linha traçada próxima dos Açores e das ilhas de Cabo Verde. A oeste daquela linha estavam as terras de posse espanhola.

A sociedade romana era um verdadeiro caos. Para se ter ideia, vamos deixar falar o narrador de Os Bórgias:
“Seis mil e oitocentas prostitutas percorriam as ruas da cidade, gerando uma nova ameaça médica, além da moral, ao povo. A sífilis estava se tornando comum; tendo começado em Nápoles, foi espalhada pelas tropas francesas, seguiu para o norte até Bolonha e então foi levada pelo exército através dos Alpes. Os romanos mais ricos, infectado pela “erupção francesa”, pagavam vastas quantias aos vendedores de óleo de oliva para que os deixassem ficar durante horas dentro dos barris de azeite para aliviar a dor das feridas. Mais tarde o mesmo óleo era vendido em lojas elegantes como “puro extravirgem”. Que piada!” (página 185)
Aliás, este trecho serve bem para exemplificar como o narrador de Os Bórgias não só narra a história como observador privilegiado, mas ainda emite juízos sobre o que nos conta.

O papa tem inimigos. Se mantém relações mais amistosas com os Médici, de Florença, os Sforza, de Milão, ali mesmo, no Vaticano, os seguidores do cardeal Giulio della Rovere tramam contra o papa em exercício e sua família. Encarregam-se de espalhar notas quase sempre de condenação às libertinagens de Alexandre, à lubricidade dos filhos e dão larga divulgação ao relacionamento incestuoso entre César e Lucrécia, até mesmo incluindo Alexandre nesta relação.


Entretanto, neste festival de traições, negociatas, falcatruas e maledicências, há trechos belos. E um dos que mais chamou minha atenção, talvez num expediente de tornar a relação incestuosa dos dois irmãos mais aceitável, Mario Puzo faz seu narrador nos dizer, lá pelas páginas 243:
“Então ele se curvou para beijá-la, um beijo suave, o beijo de um irmão para a irmã... e alguma parte dele ficou rígida e fria. O que faria sem ela? Até aquela noite, sempre que pensava em amor, pensava nela; sempre que pensava em Deus, pensava nela. Agora temia que, sempre que pensasse em guerra, pensaria nela.”
César é um personagem muito interessante e bem construído. Mas é Lucrécia, Crécia para os familiares, que o autor dota de voz crítica, questionadora. Vejamos a seguinte passagem, na qual isto fica bastante evidente:
“Foi então que começou finalmente a questionar a sabedoria do pai. Tudo que lhe tinham ensinado era bom e certo? Seu pai era realmente o Vigário de Cristo na terra? E o julgamento do Santo Padre era também de Deus? Lucrécia tinha certeza de que o Deus gentil que estava em seu coração era muito diferente do deus punitivo que sussurrava nos ouvidos de seu pai.” (página 312)
Toda vez – creio eu – que voltar à leitura deste livro, vou sentir o mesmo asco, a mesma sensação de que da relação ser humano-poder não pode advir coisa boa. Não posso dizer que tenha adorado a obra, afinal, tenho meu conjunto de valores e este texto confronta vários deles. A obra se impõe por si mesma, e aí está o que se pode dizer ser o maior valor de um trabalho literário: impor-se por si próprio. Bem contada, bem conduzida, com personagens complexos (o bem e o mal fazem parte deles, mesmo de Alexandre VI – ou principalmente dele) a narrativa permanece em minha memória, após lida.

Por isso tudo, recomendo-a: é uma ótima experiência de leitura. Os Bórgias, de Mario Puzo.


sexta-feira, 10 de abril de 2020

Resenha nº 156 - Êxtase da Transformação, de Stefan Zweig


Êxtase da Transformação - Stefan ZweigTítulo Original: Rausch der Verwandlung
Título em português: Êxtase da Transformação
Autor: Stefan Zweig
Tradutor: Kurt Jahn
Editora: TAG/Cia das Letras
Copyright: 2019
Edição: 1ª
ISBN: 978-85-359-3290-4
Origem: Literatura austríaca
Gênero: Romance
Bibliografia do autor: Cordas de prata (Poemas) 1901; A filosofia de Hippolyte Taine (Tese de Doutorado) 1904; O Amor de Erika Ewald (Contos) 1904; As Primeiras Grinaldas (Poemas) 1906; Tersites (drama teatral em três atos) 1907; Emile Verhaeren 1910; Segredo Queimado 1911; Primeira experiência. Quatro histórias de mundo infantil 1911; A casa junto ao mar. Um drama em duas partes (Em três atos) 1912; O comediante se virou. Um jogo do rococó alemão 1913; Jeremias - Poema dramático em nove cenas 1917; Memórias de Emile Verhaeren 1917; O Coração da Europa - Uma visita à Cruz Vermelha de Genebra 1918; Lenda de uma vida (Drama teatral em três atos) 1919; Viagens - Paisagens e cidades 1919; Três mestres: Balzac - Dickens – Dostoiévski 1920; Marceline Desbordes-Valmore, A imagem de um poeta vivo 1920; Romain Rolland. O homem e a obra' 1921; Carta de uma desconhecida 1922; Amok. Histórias de paixão 1922; Os olhos do irmão eterno. Uma lenda 1922; Frans Masereel (com Arthur Holitscher) 1923; Os poemas reunidos 1924; A monotonia do mundo (Ensaio)1925; Ansiedade 1925; A batalha com o demônio, Hölderlin - Kleist – Nietzsche 1925; Ben Johnson ‘Volpone’. Uma comédia sem amor em três atos (Livremente editado por Stefan Zweig. Com seis pinturas de Aubrey Beardsley) 1926; O fugitivo. Episódio do Lago Genebra 1927; Adeus a Rilke. Um discurso 1927; A confusão de emoções. Três novelas (Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma MulherO Naufrágio de um Coração e A Confusão de Sentimentos) 1927; Grandes momentos da humanidade. Cinco miniaturas históricas 1927; Três poetas de sua vida. Casanova - Stendhal – Tolstoi 1928; Rachel pede a Deus 1928; Joseph Fouché. Retrato de uma pessoa política 1929; O cordeiro do pobre. Tragicomédia em três atos 1929; A cura através do Espírito. Mesmer - Mary Baker Eddy e Freud 1931; Maria Antonieta. Retrato de um personagem central 1932; Triunfo e Tragédia de Erasmo de Rotterdam 1934; A Mulher Silenciosa. Ópera cômica em três atos 1935; Mary Stuart 1935; 24 horas na vida de uma mulher 1935; Pequenas Histórias Selecionadas – ‘A cadeia’ e ‘Caleidoscópio’ 1936; Castellio ou Contra Calvino. Uma consciência contra a violência 1936; O candelabro enterrado 1937; Encontros com pessoas, livros e cidades 1937; Fernão de Magalhães. O homem e sua ação (Biografia) 1938; Cuidado da Piedade 1939; Brasil, País do Futuro (Ensaio) 1941; Histórias de Xadrez 1942; Tempo e lugar. Ensaios e Palestras selecionados - 1904-1940 1943; O Mundo que Eu Vi - Memórias de um Europeu 1942; Amerigo. A história de um erro histórico 1944; Lendas de Estocolmo 1945; Balzac. Romance de sua vida 1946; Fragmentos de um romance 1961; Ruído da transformação 1982.

Êxtase da Transformação: um livro que começa como um conto de fadas, apesar de escrito após a segunda guerra mundial. A leitura fluía e eu pensava cá com os meus botões, “este autor vai mudar o tom da narrativa a qualquer momento”. Minha experiência de leitor me dizia, me gritava isto. Pouco a pouco, a história de Christine Hoflehner Kleinreifling se desenrola, na Áustria. Está referida  a derrota de Austerlitz, sofrida por Francisco José, imperador. Não consigo entender como um escritor do quilate de Stefan Zweig pôde estar tanto tempo no ostracismo. Não aceito a falta de oportunidade de lê-lo. ainda mais – pelo menos isto eu sabia – por ele ter morado no Brasil, mais precisamente na cidade de Petrópolis. Êxtase da Transformação é um daqueles grandes romances, devia frequentar uma destas listas de “nunca deixar de ler antes de morrer.

Stefan Zweig foi um escritor austríaco extremamente prolífico. Basta olhar-se para sua bibliografia acima; este Êxtase da Transformação foi um dos seus últimos trabalhos. Nosso autor nasceu na belíssima cidade de Viena (Áustria), em 28/11/1881 e morreu em Petrópolis (Brasil), em 1942.

Zweig era pacifista de carteirinha, defendia o fim da Segunda Guerra Mundial e a unificação da Europa; foi amigo de outra celebridade, o francês Romain Rolland. Ele fora muito bem recebido pelo povo e pela crítica brasileiros, mas por conta de sua bagagem liberal e antinazista, foi visto com certa reserva pelo então Presidente Getúlio Vargas, um homem de fortes tendências autoritárias. Após três viagens ao Brasil, ele e a esposa passaram a residir na cidade carioca de Petrópolis. Chamou o Brasil de “país do futuro” e esta alcunha logo pegou. Entretanto, sob forte depressão, acabou por se suicidar. A notícia foi um choque para os brasileiros e para o mundo, pois Zweig era um autor muito conhecido.

Uma das mais incríveis introduções que já tive a oportunidade de ler. Vejam como ele descreve o ambiente de trabalho de Christine, sua protagonista, em uma simples agência de correio em Kleinreifling, “uma insignificante aldeia não longe de Krems, a umas duas horas de trem de Viena”:
“Um livro de registro dura um mês, uma lâmpada três meses, um calendário um ano. À cadeira de palha foi atribuída uma duração de três anos antes que ela seja renovada, àquele alguém que passa a vida nela sentado, trinta anos de serviço ou 35, depois sentam um novo alguém na mesma cadeira. Nesse último não há diferença.
“Na sala de repartição de Kleinreifling, uma insignificantes aldeia não longe de Krems, a umas duas horas de trem de Viena, aquela peça substituível da decoração que se chama “funcionário” pertence ao sexo feminino, e sua designação oficial, já que esse posto pertence a uma classe de baixa remuneração, é de assistente postal. Dela se vislumbra, através da vidraça, pouco mais que o perfil simpático e discreto de uma moça, os lábios um pouco finos, as faces um pouco pálidas, um pouco de cinza sob as sobrancelhas. À note, quando ela precisa acender a lâmpada elétrica que lhe acentua as feições, um olhar mais atento perceberá na testa e nas têmporas alguns sulcos e rugas.” (páginas 16/17)
Stefan descreve com pormenores perfeccionistas os utensílios, os objetos constantes da sala onde trabalha a moça, incluindo-a entre eles: peça substituível da decoração. Para nosso escritor, está claro, o trabalho, por si, não dignifica o homem, como muito se diz por aí. Christine é reduzida a um objeto, ou seja, sem liberdade, sem vida. A descrição de sua rotina vai seguindo o mesmo tom.

A assistente postal ganha pouquíssimo, tem uma mãe doente, de quem cuida e com quem mora, sendo solteira.  Nada digno de nota acontece naquela pequena e misérrima localidade. O texto, muito focado incialmente na descrição torna a leitura desta primeira parte um pouco arrastada; compensa, entretanto, pelo perfeito domínio de técnica e pela inteligência utilizada pelo autor ao realizá-la.

A vida de Christine começa a mudar quando lá mesmo, na agência postal, ela recebe um telegrama – fato quase inusitado na calmaria da pequena sala – endereçado a ela:
“De repente: Taque! Ela leva um susto. E de novo, mais forte, mais metálico, mais impaciente: Taque, taque, taque. O aparelho Morse martela com insistência, o mecanismo de relógio matraqueia: um telegrama – hóspede raro em Kleinreifling – quer ser recebido com respeito. A assistente postal impetuosamente se livra da sonolenta sensação de preguiça, corre à mesa e liga a fita. Mas, assim que ela decifra as primeiras palavras da escrita que corre em volta, o sangue lhe sobe até a raiz dos cabelos. Pois é a primeira vez, desde que serve nessa agência, que ela vê seu próprio nome num despacho telegráfico. Ela lê uma, duas, três vezes, a mensagem que agora já foi martelada até o fim, sem entender o sentido. Mas como? O quê? Quem é que lhe telegrafa de Pontresina?” (página 18)
E eis que a acomodada Christine, se vê, de uma hora para outra, a bordo de um trem, em uma viagem para a tal cidade, nos Alpes suíços. Um verdadeiro éden com o qual a moça jamais poderia sonhar. Mas os édens podem esconder muita coisa estranha ou mesmo maléfica, como nos diz o mito da criação bíblica. Adão e Eva foram, afinal, seduzidos pela serpente e violaram a única regra edênica que não podiam violar.

As férias de Christine são do tipo “tudo pago”, incluindo o hotel. Portando sua melhor roupa, ainda assim, não condiz com o apuro do lugar. Pontresina é um lugar para ricos. Sua chegada é descrita:
“Excitada, a face quente e corada colada ao caixilho da janela com apaixonada curiosidade, nesse primeiro momento de revelação encontra-se todo o tempo diante da paisagem uma pessoa alheada de si própria. Nenhum pensamento sonda o passado. Esqueceu-se da mãe, do emprego, da aldeia, esqueceu-se do mapa na bolsa, desenhado com tanto carinho, e que poderia lhe revelar o nome de cada um dos  picos e cada um dos regatos que com apressado ímpeto se lançam no vale, esqueceu-se do próprio eu de ontem.” (página 44)
Não obstante, a tia Claire, “em outros tempos chamada simplesmente Klara”, como nos diz o narrador em terceira pessoa, cuida de tudo, ao perceber que sua protegida não passa de uma simplória para os padrões daquela estação de lazer. Anthony – seu marido – concorda com tudo, um pouco penalizado pelo completo despreparo demonstrado por Christine.

Após o banho, veste o maravilhoso vestido que a tia lhe emprestara e eis a cena na qual ela, transformada, vê sua imagem refletida no espelho pela primeira vez:
“Levanta os olhos, e então leva um susto, um susto tão grande que sem querer a empurra um passo para trás. O que é isto? Quem é esta esbelta e nobre dama, de busto inclinado para trás, a boca entreaberta, os olhos arregalados, que a encara com sincera e iniludível surpresa? É ela própria? Não é possível! Ela não o diz, não o pronuncia conscientemente, mas involuntariamente a palavra não pronunciada lhe move os lábios. E, é um milagre: também a imagem no espelho move os lábios.” (página 63)
Naquele meio, a fascinada Christine custa a perceber que tudo se regula pela procedência nobre ou rica, que se media pela aparência. Não demora muito e a origem pobre de Christine é do conhecimento de toda aquela sociedade, como se torna claro nesta passagem:
“Assim que a porta se fecha às suas costas, as forças tão custosamente reunidas abandonam Christine. Como um animal ferido pelo caçador ainda cambaleia alguns passos e se mantém de pé só pelo movimento, para depois cair com os membros inertes, assim ela se arrasta apoiando-se na parede até o seu quarto, onde desaba na poltrona, rígida, fria, imóvel.” (páginas 139/140)
Stefan Zweig expõe, neste Êxtase da Transformação, a podridão de uma sociedade que vive sua abastança em um mundo que se esforça como pode para se recompor, diante dos horrores da segunda guerra mundial.

Christine nunca mais será a mesma. Ela agora tem consciência da sua miséria, gritaram-lhe ao rosto sua equiparação aos objetos da sala do correio onde trabalho e que tão laboriosamente o autor a colocara. Não posso, entretanto, abordar mais nada sob pena de arruinar sua leitura, caro leitor, caso se disponha a ler o livro.

Comento apenas que o final é surpreendente. Mais do que isso, já que o fim do romance se afunila para duas propostas. O desenlace incomoda. Há um estranhamento porque, no final das contas, esta protagonista faz considerações pouco esperadas para alguém em sua situação, diante daquelas duas possibilidades. Mais que isso, não digo.

Êxtase da Transformação. Primeiro livro que leio deste autor e desejaria ler outro. Indiscutível, um escritor e obra que valem a pena se conhecer. É o último romance de Zweig; logo depois, ele se suicida na cidade carioca de Petrópolis, para onde se exilara. Tal ato extremo é perpetrado pelo desgosto com o desenrolar do conflito mundial. Naquele momento, parecia a Stefan que a Alemanha de Hitler ganharia a guerra; ele não o podia suportar, pacifista que era.

O tom do livro é pessimista. Mas parece um pessimismo conformado, de alguém que balança negativamente a cabeça diante do que vê – e simplesmente constata – a humanidade é mesmo assim, hipócrita.

Como disse, Êxtase da Transformação é uma leitura incômoda. Denúncia, libelo contra o egoísmo, o jogo do poder. Mesmo assim, me deixou com vontade de voltar a esta leitura em algum outro momento e aí se comprova o mérito do romance.

domingo, 22 de março de 2020

Resenha nº 155 - Eu, Tituba, bruxa negra... de Salem


Eu, Tituba: Bruxa negra de Salem por [Condé, Maryse] Título original: Moi, Tituba, sorcière... noire de Salem
Título em português: Eu, Tituba, Bruxa Negra de Salem
Autora: Maryse Condé
Tradutor: Natália borges Polesso
Edição: 1ª
Editora: Rosa dos Tempos
Copyright: 2019
ISBN: 978-85-01-11723-6
Gênero: Romance
Origem: Literatura Francesa
Bibliografia (incompleta): Heremakhonon (1976); Une Saison à Rihata (1981); Ségou: Les Murailles de Terre (1984); Ségou: La Terre em Miettes (1985); Eu, Tituba: Bruxa Negra de Salem (1986); A árvore da vida (1987); Traversée de la mangrove (1989); An Tão Revolysion (Play, 1989); Tree of Life (1992); O último dos reis africanos (1994); Winward Heights (2008); Le coeur à rire et à pleurer - Souvenirs de mon enfance (1999) ; Célanire cou-coupé (2004); Histoire de la Femme Cannibale (2007); Como dois irmãos (Play, 2007); Victoire, les saveurs et les mots (2010) ; La Vie sans Fards (2012)

As feiticeiras de Salem... diante desta referência, acudiram-me à memória certos fatos já lidos muito antes. Arbitrariedades de uma sociedade de puritanos, na localidade americana de Salem... puritanos protestantes do século XVII que levaram ao cadafalso muitas mulheres suspeitas de bruxaria. Até onde vai o fanatismo, em todas as épocas? Lembranças misturadas à indignação vieram à tona diante da capa deste Eu, Tituba, Bruxa... Negra de Salem, de Maryse Condé. Dela, já havia lido Le Coeur à Rire et à Pleurer. Já sabia, de antemão, leria uma história trágica, mas muito bem escrita, de uma escritora que sabe o que faz. E, tão logo iniciei a leitura, a obra me pegou, a leitura engrenou e emoções fluíram.

Maryse Boucolon, premiadíssima escritora, detentora do Nobel alternativo de 2018, nasceu em Guadalupe, 11/02/1937. Escritora francesa, doutora em Literatura Comparada pela Universidade de Sorbonne, Paris. Difusora de cultura e da história africana das Caraíbas, ela se casou em 1959 com o ator guineano Mamadou Condé; o nome de casada, Maryse Condé tornou-se referência de boa literatura, com temas de cultura e história dos afrodescendentes.

Num dos mais objetivos inícios que já tive oportunidade de ler, Maryse Condé assim começa seu romance:
“Abena, minha mãe, foi violentada por um marinheiro inglês no convés do Christ the King, num dia de 16**, quando o navio zarpava para Barbados. Dessa agressão nasci. Desse ato de agressão e desprezo.
Quando, longas semanas mais tarde, chegamos ao porto de Bridgetown, ninguém notou a condição de minha mãe. Como ela não tinha mais do que dezesseis anos e coo era bonita, com sua tez de um negro azeviche e suas bochechas altas com o desenho sutil das cicatrizes tribais, um rico fazendeiro de nome Darnell Davis a comprou por bastante dinheiro. Junto com ela, ele adquiriu dois homens, axanti também, vítimas das guerras entre fânti e axanti. Ele destinou minha mãe à sua mulher, que estava inconsolável por ter deixado a Inglaterra e cujo estado físico e mental necessitava de cuidados constantes. Pensou que minha mãe saberia cantar para distraí-la, quiçá pudesse dançar e realizar aqueles truques que, acreditava, os negros gostassem de fazer. Destinou os dois homens à sua plantação de cana-de-açúcar, que crescia bem, e a seus campos de tabaco.” (página 25)
Darnell descobre, pouco depois, que havia comprado uma escrava grávida e, contra a vontade da sua própria esposa, decide punir Abena e a destina a outro axanti que havia comprado, Yao. Quando ela entra na cabana do homem a que fora dada, ele percebe imediatamente seu estado:
“Minha mãe entrou na cabana de Yao um pouco antes da refeição da noite. Ele estava deitado na cama, deprimido demais para cogitar comer qualquer coisa, muito pouco curioso com essa mulher cuja vinda lhe foi anunciada. Quando Abena apareceu, ele se apoiou sobre um dos cotovelos e murmurou:
— Akwaba! [Bem-vinda]
Depois ele a reconheceu e exclamou:
— É você.
Abena se verteu em lágrimas. Tempestades demais se acumularam a longo de sua curta vida: seu vilarejo incendiado, seus pais estripados ao tentar se defender, sua violação e, agora, a separação brutal de um ser tão doce e tão desesperado quanto ela mesma.
Yao se levantou, e sua cabeça tocou o teto da cabana, pois esse negro era tão alto quanto uma laranjeira-do-mato.
— Não chore. Não vou te tocar. Não vou te fazer mal algum. Acaso não falamos a mesma língua? Não adoramos o mesmo deus?
Então ele baixou os olhos até o ventre da minha mãe:
— É o filho do senhor, não é?
As lágrimas, ainda mais quentes, de vergonha e de dor, brotavam dos olhos de Abena:
— Não, não! Mas ainda assim é o filho de um branco.
Enquanto ela estava lá, na frente dele, cabeça baixa uma imensa e doce compaixão preencheu o coração de Yao. A ele pareceu que a humilhação dessa criança simbolizava aquela de todo seu povo, derrotado, disperso, leiloado. Ele secava as lágrimas que escorriam dos olhos dela.
— Não chore. A partir de hoje, seu filho é o meu filho. Ouviu? E que se cuide aquele que disser o contrário.” (página 26/27)
A narradora de Maryse, a própria Tituba, nos relata que Yao e sua mãe passaram a noite um nos braços do outro, castos como pai e filha.  Somente uma semana após estes acontecimentos os dois iniciam suas relações como homem e mulher. Mas os fatos aguardavam; quatro meses depois, nasce uma menina e o trecho que descreve o evento segue abaixo:
“Minha mãe chorava, porque eu não era um menino. Parecia que o destino das mulheres era ainda mais doloroso que o dos homens. Para que se libertassem de sua condição, elas não deveriam passar pelas vontades dos homens que as mantinham em escravidão e deitar na cama deles? Yao, ao contrário, ficou contente. Ele me pegou com suas grandes mãos ossudas e besuntou minha testa com sangue fresco de uma galinha depois de ter enterrado a placenta da minha mãe debaixo de uma mafumeira. Em seguida, me segurando pelos pés, apresentou meu corpo aos quatro cantos do horizonte. Foi ele quem me deu o meu nome: Tituba. Ti-tu-ba.” (página 28)
Abena sofre o assédio sexual do seu amo Darnell e, para se defender, ela comete o crime definitivo de ferir um homem branco, embora não o tivesse matado. Como resultado, Tituba assiste ao enforcamento da mãe, nos galhos de uma mafumeira. Yao fora vendido para outra plantação e a pequena Tituba, expulsa definitivamente das terras do senhorio.

Esta sequência de acontecimentos dramáticos é amenizada com a introdução, na história, de outra personagem:
“Uma velha me acolheu. Parecia corajosa, pois havia visto morrer torturados seu companheiro e seus dois filhos, acusados de fomentar uma revolta. Na verdade, ela só tinha os pés sobre a nossa terra e vivia constantemente na companhia deles, cultivara o extremo dom de se comunicar com os invisíveis. Não era uma axanti como minha mãe e Yao, mas era uma nagô, da costa, cujo nome, Yetunde, sofrera uma transformação para o crioulo, Man Yaya. As pessoas tinham medo dela. Mas vinham de longe para vê-la por causa do seu poder.” (página 32)
Nesta passagem está demonstrada um dos maiores valores deste livro excelente: o respeito à cultura das nações africanas. Seus deuses, suas crenças, aparecem na obra e explicam muito da condução dos personagens. Ideias como reencarnação, comunicação entre seres humanos e espíritos são frequentes. Man Yaya, por exemplo, mesmo depois de morta continua a velar por Tituba, bem como, um pouco mais tarde, sua mãe Adena e seu pai adotivo Yao.

Nossa protagonista tem os mesmos dons de Man Yaya, ou quase, realizando curas com rezas e beberagens. Numa sociedade majoritariamente branca, purista e racista, não demora muito para Tituba ser levada ao tribunal como suspeita de bruxaria. Não é condenada, mas vendida a um outro senhor, desta vez um homem chamado Samuel Parris.

A esposa deste senhor, Elizabeth Parris é outra personagem de alguma importância na história. Muito doente e acamada, recorre aos dons paranormais de Tituba e consegue alguma melhoria. Tituba vive um amor intenso com John Indien, trabalhador nas mesmas terras que ela.

Mal sabe Tituba que o enredo desta história se modificará por completo, com sérias injunções para a sua vida e de toda a comunidade da pequena reacionária cidade de Salem.

Aqui abro um enorme parêntese necessário ao esclarecimento do que, de fato, era o tal puritanismo tão forte em Salem. A revolução puritana teve sua origem na Inglaterra, sob matriz calvinista. Era contrário tanto à Igreja Católica quanto à Igreja Anglicana; seus partidários tentavam escoimar os resíduos do catolicismo da Igreja inglesa, trazendo-a para mais perto dos valores calvinistas.

De acordo com a revista Galileu (www.revistagalileu.globo.com), em fevereiro de 1692, a filha do reverendo de Salem, Samuel Parris (que adquiriu Tituba) caiu doente, tendo alucinações e contorções de dor. Iguais sintomas estranhos aconteceram com uma prima e com um outra garota, ambas com onze anos de idade. Pressionadas pelas autoridades, as três menores atribuíram tudo às intervenções de Tituba, de Sarah Osborne, uma idosa pobre e Sarah Good, uma mendiga.

Iniciado o julgamento, Tituba, provavelmente para se livrar da morte que a rondava, confessou ser uma serva do diabo e acusou outras mulheres de tramarem contra os puritanos. Ainda de acordo com o artigo, somente com a intervenção do governador, William Phipps, a caça às bruxas terminou. Consta que a própria filha de William estava entre as acusadas.

Apesar de várias pessoas terem morrido na localidade, o julgamento do qual Tituba participara é anulado, os nomes dos envolvidos limpos e determinados valores pagos aos descendentes dos réus.

O julgamento das bruxas de Salem passou, então, à História como um dos casos de histeria ou paranoia coletiva. Há teses que atribuem os sintomas esquisitos das crianças à ação de fungos encontrados no pão e que provoca espasmos musculares, vômitos e alucinações.

A História não registra qual o fim de Tituba. Maryse Condé, entretanto, se apropria do acontecido a esta personagem da vida real e lhe dá um tratamento ficcional; de acordo com a autora, então, Tituba retorna para sua terra natal, Barbados, senhora de suas condições paranormais, influindo, por isto mesmo, nos acontecimentos do país.

Eu, Tituba, Bruxa Negra de Salem é, portanto, uma obra com inclusão forte de fatos misturados à ficção – técnica muito utilizada nos bons romances históricos. Encaixa-se no projeto literário desta ótima escritora (pouco conhecida no Brasil) de valorizar de defender a cultura afrodescendente.

Leitura de fácil entendimento, enredo linear, constitui-se num libelo contra o racismo de uma comunidade predominantemente branca, com fortes tons de assustador preconceito religioso, bastante atual para nossos tempos e sociedade, na qual parece, ser-se participante da diferenciação religiosa vai se tornando condenável e insuportável.

Recomendo o livro de Maryse Condé por algumas razões, mas nenhuma mais importante do que a de uma boa leitura – coisa ótima nestes tempos de isolamento social pela ameaça da propagação do coronavírus. Saber mais a respeito de um fato importante, histórico e que pode nos alertar sobre nossa atualidade e a compreensão do direito de etnias afrodescendentes são dois outros motivos para se ler esta obra. Há um prefácio bastante interessante de ninguém menos que Conceição Evaristo, escritora brasileira.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Resenha nº 154 - Jude, O Obscuro, de Thomas Hardy


Resultado de imagem para livro jude o obscuroTítulo original: Jude The Obscure
Título em português: Jude, O Obscuro
Autor: Thomas Hardy
Tradutor: Caetano Galindo
Edição: s/n
Editora: Cia das Letras/TAG Experiências Literárias
Copyright: 2019
ISBN: 978-85-359-3209-6
Gênero: Romance
Origem: Literatura Inglesa
Alguns dados bibliográficos do autor: The Poor Man and the Lady (1866); Remédios Desesperados (Desperate Remedies) (1871); Sob a Árvore Verdejante (Under the Greenwood Tree ) (1872); Um Par de Olhos Azuis (A Pair of Blue Eyes) (1873); Longe da Multidão Estulta (Far from the Madding Crowd) (1874); A Volta do Nativo (The Return of the Native) (1878); The Trumpet Major (1880); Dois numa Torre (Two on a Tower) (1882); O Prefeito de Casterbridge: A Vida e a Morte de um Homem de Caráter (The Mayor of Casterbridge: The Life and Death of a Man of Character ) (1886); The Woodlanders (1887); Wessex Tales (1888); Tess of the d'Ubervilles (1891); Judas, O Obscuro (Jude the Obscure ) (1895); Wessex Poems and other Verses (1898) ; Os Dinastas (The Dynasts) (1903 - 1908); Late Lyrics and Ealier (1922); The Famous Tragedy of the Queen of Cornwall at Tintagel in Lyonnesse (1923)

Comecei a ficar curioso sobre o livro, de autor do qual nada sabia, a partir da indicação da atriz brasileira Fernanda Montenegro. Ela foi a curadora da TAG, para a indicação de Jude, O Obscuro. Mesmo assim, foi o livro que levei mais tempo para ler, e isto não pode ser creditado às dificuldades porventura apresentadas pelo volume. É que, em meio a uma reforma na minha residência, as providências necessárias me roubaram foco, tempo e disposição para ler. Se o leitor se der ao trabalho de verificar, desde setembro do ano passado não publiquei nada no meu blogue. Agora, retorno. Jude, O Obscuro é um clássico fascinante. A obra foi escrita sob as influências da Era Vitoriana inglesa; e Hardy usa todo este mundo vitoriano para se insurgir contra ele. Claro se supor, tal posicionamento lhe rendeu ataques terríveis. De todas as personagens que povoam o livro, aquela de que mais gostei foi Sue Bridehead.

Thomas Hardy nasceu em Higher Bockhampton, Dorset, em 02/06/1940. Faleceu em Max Gate, Dorchester, em 11/01/1928. Novelista, contista, romancista e poeta, notabilizou-se pelo pessimismo radical dos seus romances. Estudou arquitetura e ocupou-se com restauração de imóveis antigos, sobretudo igrejas, concomitantemente à escrita de poemas que publicaria somente ao final da vida.
Casou-se com Emma Lavinia Gifford, em 1874. Após a morte de sua esposa, uniu-se em segundas núpcias a Florence Emily Dugdale.

Depreciado por grande parte da crítica vitoriana, pois que ele era um escritor que não se enquadrava nos moldes morais e valores culturais vitorianos, Thomas Hardy adentra o século XX conquistando, pouco a pouco, a fama de escritor clássico. De fato, seus livros são consumidos até hoje por um público que não lhe é contemporâneo – e isto se constitui numa das características de um clássico, o valor de uma obra que transcende seu tempo.

Creio que aqui se faz necessário uma pequena contextualização sobre a Era Vitoriana, para se compreender melhor o que se passa no romance Jude, O Obscuro e, principalmente, da maneira pela qual se passam os fatos:

O período vitoriano ocorreu sob o governo da rainha Vitória, no Reino Unido, entre os anos 1838-1901, meados do século XIX. Durante estes anos, vigorou no Reino uma época de paz (conhecida como Pax Britannica) e de relativa prosperidade para o povo britânico. Lucros advindos da expansão do Império Britânico e o surgimento da Revolução Industrial foram dois ingredientes que caracterizaram os anos vitorianos.

A classe social mais beneficiada pelas características deste período talvez tenha sido a classe média inglesa. Aqueles empresários que apostaram na revolução que as máquinas causariam se deram bem. Educada com valores rígidos e até mesmo reacionários, a ascenção desta classe média, reforçada pelo bem-estar gerado pela riqueza, poderio, disseminou seu reacionarismo, dando origem a uma sociedade repressora. Nesta mesma época, foram forjados três grandes nomes do pensamento moderno: Sigmund Freud (psicanálise), Charles Darwin (naturalista) e Karl Marx (filósofo, sociólogo e historiador).

No caso específico da literatura – o que nos interessa diretamente – houve duas tendências presentes nos romances do período: de um lado, histórias que falassem dos gostos e hábitos da burguesia florescente e de outro, narrativas com temas da ficção científica. São autores da era vitoriana nomes como Jane Austen, Oscar Wilde, George Eliot, Charles Dickens, Mary Shelley (autora de Frankenstein), as irmãs Charlotte, Emily e Anne Brontë, além do próprio Thomas Hardy e mesmo Sir Arthur Conan Doyle, autor de Sherlock Holmes.

Sobre o período, Charles Dickens disse (a citação ajuda a contextualizar):
“Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos. Foi a idade da sabedoria, foi a idade da tolice. Foi a época da fé, foi a época da incredulidade. Foi a estação da luz, foi a estação das trevas. Foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero. Tínhamos tudo diante de nós, não havia nada antes de nós. Todos íamos direto para o céu, todos íamos direto para o outro lado.”

Hardy tem um estilo objetivo, sem floreios e bordados, valendo-se de uma narrativa que não descreve muito. Criou locais fictícios onde localizar suas narrativas, como Wessex, a cidade de Christminster, Marygreen, etc. Há mesmo, no livro objeto desta resenha, uma lista de correspondência entre cidades reais e fictícias, baseando-se nas coincidências.

“O mestre-escola estava indo embora do vilarejo, e todos pareciam lamentar. O moleiro de Cresscombe lhe emprestou o cavalo e a inclinada carrocinha branca para levar suas posses à cidade para onde rumava, a cerca de trinta quilômetros dali, sendo que as dimensões de tal veículo se provaram mais do que suficientes para os bens do professor que partia. Pois a casa da escola havia sido em parte mobiliada pela direção, e o único artigo mais volumoso que o mestre possuía, além de seu baú de livros, era o piano de armário que comprara em um leilão durante o ano em que pensou em aprender música instrumental. Mas, arrefecido o entusiasmo, ele jamais desenvolveu habilidade alguma para tocar o instrumento, e desde então aquela compra se transformou em um perpétuo problema para ele quando precisava se mudar.” (página 15)

Deste início se tira algo. O protagonista – pois é do próprio Jude Fawley de que o texto fala – está se mudando com todos os seus poucos pertences para a cidade de Christminster. Sua bagagem maior são seus sonhos. Deseja ser reconhecido como um erudito, ordenar-se pastor. Para isto, dedicou grande parte de seus esforços; enquanto trabalhava como entalhador, estudava com afinco livros usados de latim e de grego. Sonhara com um curso na Universidade local. Procura seguir as passadas de sua grande inspiração, Mr. Phillotson, que tinha exercido igualmente o cargo de professor e se mudara também para Christminster, a meca da cultura.

Arabella e Jude se casam, mas não é propriamente o que se poderia chamar de casamento por amor. São os dois praticamente “empurrados para um relacionamento” pelos julgamentos e valores vitorianos, conforme se pode apreender destas duas passagens:
“Ele caminhava como se tivesse se sentindo um homem diferente do Jude de ontem. De que lhe valiam seus livros? Quais eram suas intenções, até ali obedecidas de modo tão estrito, de não perder um único minuto de seu tempo a cada dia? Perder! Essa definição dependia de seu ponto de vista: ele estava simplesmente vivendo pela primeira vez: não perdendo a vida. Era melhor amar uma mulher do que ser bacharel ou sacerdote; sim, melhor do que ser papa!” (página 49/50)

“Quem não arrisca...! Além disso, você confirma que ele [Jude] é honrado antes de começar. Com esse aí você não corre muito risco. Quem me dera a chance fosse minha! Muitas meninas fazem assim, ou você acha que elas iam conseguir se casar?” (página 52)

Algum tempo depois, Jude descobre Sue Bridehead – de longe, para mim, a personagem mais interessante do livro. Sue é prima de Jude Fawley e as encrencas se anunciam:
“Fingia pensar nela como uma parenta, pois que havia motivos arrasadores que o impediriam e o proibiriam de pensar nela de outra maneira.
O primeiro motivo era o fato de ser casado e de que isso seria errado. O segundo era o de serem primos. Não ficava bem que os primos se apaixonassem, nem quando as circunstâncias pareciam favoráveis ao sentimento. O terceiro: mesmo que ele estivesse livre, numa família como a sua, em que o casamento normalmente significava uma trágica tristeza, o casamento com alguém de seu sangue duplicaria as condições adversas e uma trágica tristeza podia ser intensificada num trágico terror.” (página 90)

Sue Bridehead ora deseja afirmar sua independência e seu direito à individualidade, ora se deixa levar pelos valores morais vigentes. É esta dualidade que, a princípio, soa como falta de caráter ou falta de firmeza em seus propósitos que a torna tão interessante. Não percamos de vista estarmos falando de uma sociedade vitoriana com fortíssimo poder de coação. Claro que havia escapadelas conjugais, mas elas eram mantidas em absoluto segredo... ou viravam escândalos, manchas morais não perdoadas pela sociedade.

Jude não consegue seu ingresso na faculdade, algo tão desejado por ele. Perde seu cargo de professor, perde a possibilidade de se tornar um pastor, como Mr. Phillotson por causa da sua relação com Sue e por sua origem pobre. Numa sociedade vitoriana, somente duas origens têm direitos reconhecidos: os de origem nobre (vinculados à corte) e os que têm dinheiro e poder.

Em um trecho, reproduzindo a fala de Jude, ficam extremamente claros os valores sociais vitorianos:
“Jude a esta altura já voltara a si. ‘Que opinião ele deve ter sobre a vida, meu ou não meu, que seja!’, ele disse. Tenho que dizer que, se estivesse em situação mais favorável, não pararia nem um segundo para pensar em quem era seu pai. Eu o assumiria e o criaria. A miserável questão da paternidade – ela representa o quê, afinal? Que diferença faz, quando se pensa a respeito, se uma criança é sua por um laço de sangue ou não? Todos os pequeninos do nosso tempo são coletivamente filhos dos adultos deste momento e merecem ser cuidados por todos. Aquela excessiva consideração que os pais têm por seus filhos e o desamor que têm pelos outros, são, como sentimento de classe, o patriotismo, o salve-se-quem-puder-ismo, e outras virtudes, no fundo, um pérfido elitismo.” (página 263)

Outro personagem que nos emociona é o Anciãozinho, filho de Jude e Arabella, mas sobre este, leitor, não comentarei para não cometer um spoiler imperdoável. Apenas direi que sobre ele desaba todo o peso de uma sociedade hipócrita, insensível e superficial.

O narrador-observador de Thomas Hardy, cuja voz em terceira pessoa soa isenta o suficiente para analisar as relações humanas é bastante objetiva. Disseca a hipocrisia da sociedade, questiona seus valores e por isso, Hardy – imagino – deve ter sofrido as penas do inferno. Aliás, para seu livro de estreia, ele foi aconselhado a amenizar o tom de crítica social, ou não seria publicado.

A recepção de Jude, O Obscuro foi inamistosa. Tanto assim, que Thomas fez dele seu último romance; a partir daí, dedicou-se a compor poemas, formato literário mais propício à voz do eu-poético e ao autorrecolhimento.

Grande, grande livro. Fernanda Montenegro, curadora da TAG para esta edição, desejo agradecer-lhe a importante indicação. Ainda mais que, em território brasileiro, esta obra já estava esgotada tempo demais. Merecíamos ter acesso a ela.

Por último, mas não menos importante, como este texto de Thomas Hardy soa moderno! Em nenhum momento senti estar lendo, do ponto de vista dos elementos estilísticos, um livro escrito em 1895. Ao criticar aquela sociedade vitoriana, Jude, O Obscuro estende suas pertinentes observações à sociedade contemporânea, até certo ponto. Muitos daqueles valores hipócritas, preconceituosos, só a pouco e pouco têm se amenizado. Pois continuam, estão aí mesmo, o desrespeito à mulher, ao diferente, o desprestígio do indivíduo de origem pobre, que levou um ministro a defender a alta do dólar para que empregadas domésticas não pudessem mais ir à Disneylândia?! É, sem dúvida, um clássico da literatura mundial que merece ser lido e relido, pois ainda tem muito a dizer ao nosso tempo – por isso mesmo é um clássico, e terá um lugar garantido na minha estante.