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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Resenha nº 114 - O Físico, de Noah Gordon

Resultado de imagem para livro o físicoTítulo original: The Physician
Título em português: O Físico
Autor: Noah Gordon
Tradutor: Aulyde Soares Rodrigues
Editora: Rocco
Edição: N/c
Copyright: 1986
ISBN: 85-325-0303-9
Gênero: Romance
Literatura americana
Bibliografia do autor: O Rabino, 1965; O Comitê da Morte, 1969; O Diamante de Jerusalém, 1979; O Físico, 1986; Xamã, 1992; A Escolha da Dra. Cole, 1996; O Último Judeu, 2000; Sam e Outros Contos de Animais, 2005; La Bodega, 2007 (no Brasil, todos os títulos publicados pela Editora Rocco).

Noah Gordon nasceu em Worcester, EUA, em 11/11/1926. Serviu no exército, durante Segunda Guerra Mundial; após esta conflagração, entrou para o curso de pré-medicina, por pressão dos pais. Cursou apenas por um semestre. Transferiu-se para o curso de jornalismo e se formou em 1950. Atuou como editor em algumas revistas, tendo publicado seu primeiro romance O Rabino em 1965. Seus trabalhos falam a respeito da história da medicina e ética médica; mais recentemente, passaram a focar a inquisição e a herança cultural judia.
Há muito tempo tenho, na minha estante, os três volumes que compõem esta saga da história da medicina: O Físico, Xamã e A Escolha da Dra. Cole. Por motivos completamente obscuros para mim, só agora li o primeiro volume, O Físico. Tenho muitos livros na fila, para ler – nada muito organizado – não se constituindo este, portanto, um bom motivo para que o volume ficasse me esperando.
Quinhentas e noventa páginas lidas em quatro dias e meio dão bem a imersão que foi esta leitura. E não consigo realizar uma tal imersão sem prazer estético. Leituras a que me obrigo são feitas com disciplina, mas levam tempo. O Físico é dessas obras que antes mesmo de as ler, já sabemos do que tratam, mesmo em linhas gerais. Pertencem já ao imaginário coletivo, ao mundo das referências literárias.
A história se passa na Europa do Séc. XI, mais precisamente começa na Inglaterra e avança à Pérsia (do grego transliterado Persís), país sucedido, nos dias de hoje, pelo Irã e retorna à Inglaterra, terminando nas terras distantes da Escócia. A Pérsia sempre fora nominada pelo seu próprio povo como Irã (Ērānšahr significa “País dos Arianos” ou “País dos Iranianos”); em 1934, Reza Palávi, por decreto, restituiu o nome Irã para seu país.
A palavra físico, do título, não tem nada a ver com o conceito de Física – um dos ramos da ciência moderna. Físico era o nome dado aos profissionais formados em medicina, na Idade Média. Entretanto, o livro não trata da história da medicina, embora luminares desta profissão sejam citados no livro. O Físico vai nos pegar pela mão e nos levar, entre aventuras, pelo tema da dificuldade que tais profissionais tiveram para implantar sua ciência num mundo obscurantista e cheio de crenças impostas pelas religiões.
Enredo: certo jovem, de nome Robert Jeremy Cole torna-se órfão primeiro da mãe, depois do pai. Tem irmãos, o bebê Roger, Jonathan Carte, de 18 meses, Samuel Edward, de sete anos, William Stewart, de seis e Anne Mary, quatro. A família se desfaz, pois Robert não pode cuidar de todos; são adotados por famílias. O próprio Robert segue como aprendiz de Henry Croft, autocognominado Barber, por exercer a profissão de barbeiro-cirurgião. São muitas aventuras colhidas ao lado de Barber e, um dia, o jovem descobre desejar, mais que tudo, ser médico. Como a melhor escola de medicina do século XI fica na cidade persa de Ispahan (também grafada Isfaran), onde Abū ‘Alī al-Husayn ibn ‘Abd Allāh ibn Sīnā – reduzido para Ibn Sīnā, ou mais conhecido pelo nome latinizado, Avicena – é o Príncipe dos Médicos, Rob Cole empreende uma viagem desgastante para o país dos xás. Seguem-se outras tantas aventuras.
As estradas da época são difíceis e perigosas; há assaltantes por toda parte e a única segurança dos viajantes é ajuntar-se em aglomerados maiores e assim continuarem seus caminhos. Num destes trajetos em grupo, Rob conhece uma escocesa, Mary Cullen, acompanhada do pai e por quem se apaixona, sendo correspondido. Entretanto, em sua persistente busca da formação em medicina, Rob terá de adiar a convivência com Mary, abrir mão da sua própria identidade britânica e de seu modo de vida.
Antes de prosseguir, algumas contextualizações necessárias. A Europa do Século XI era dominada por ideias às vezes, religiosas, às vezes ditadas pela tradição de crendices. Junte-se a isto uma enorme ignorância quanto à higiene, à infraestrutura sanitária e ao uso de remédios estranhos, como esterco de animais para curar feridas e teremos um quadro de arrepiar qualquer leitor moderno. Não foi por acaso que a peste negra assolou o velho continente e muito tempo se gastou até se descobrir de onde vinha aquela praga. Os ratos, que infestavam as aglomerações humanas, portavam pulgas – estas agentes da doença – logo espalhando a peste negra ou peste bubônica entre cada vez mais ratos e humanos.
Os barbeiros-cirurgiões eram um misto de saltimbancos, barbeiros  e cirurgiões de pequenas cirurgias; consertavam braços e pernas quebrados de modo bastante precário, vendiam loções revigorantes e remédios universais para quase todos os males. Viajavam em carroças, cuja identificação se fazia por um cilindro pintado de branco e vermelho, colocados nas laterais dos veículos. Realizavam shows de musicais, malabarismo e tudo o mais que pudesse atrair a atenção da população para seus cataplasmas, unguentos salva-vidas e intervenções. Barbeiros-cirurgiões tratavam da população pobre e de baixa renda; os médicos tratavam dos ricos, possuidores de bolsas mais abastadas para pagar o atendimento bem mais caro dispensado por eles. Como os médicos, os barbeiros-cirurgiões não eram bem vistos por boa parte da população, sobretudo, pelo fervor religioso.
O Físico põe em curso três grupamentos religiosos: os cristãos, os judeus e os muçulmanos. Têm extrema resistência em aceitar a medicina por motivos que vão desde a repulsa por dissecar cadáveres para estudo até o preconceito de que os médicos interfeririam na vontade divina.
Retomando a resenha, eis um trecho no qual Rob percebe possuir um dom especial:
“Era como segurar um par de pássaros trêmulos. Os dedos finos encostaram nos seus e enviaram a mensagem.
Barber viu o garoto ficar tenso.
— Vamos – disse impaciente. – Não podemos ficar aqui o dia todo.
Rob não parecia estar ouvindo.
Duas vezes sentira algo estranho e desagradável passar do corpo de outra pessoa para o seu. Agora, como nas outras duas ocasiões, foi dominado por um terror intenso, largou a mão do paciente e fugiu.
Praguejando, Barber procurou até encontrar seu aprendiz encolhido sob uma árvore.
— Quero saber o que isso significa. Agora!
— Ele... O velho vai morrer.
Barber olhou espantado para ele.
— Que conversa de merda é essa?
O aprendiz começou a chorar.
— Pare com isso – disse Barber. – Como você sabe?
Rob tentou falar mas não conseguiu. Barber o esbofeteou e ele deu um suspiro. Quando começou a falar, as palavras jorraram, pois estavam rolando em sua mente desde antes de deixar Londres.
Tinha sentido a morte iminente da mãe e aconteceu, explicou ele. Então, teve certeza de que o pai estava morrendo, e ele morreu.” (página 77)
O livro é divido em sete partes. O grande vulto que se destaca do fundo narrativo da quarta à sexta parte é Ibn Sīnā, o Avicena, o Príncipe dos Médicos. A universidade em que esta figura lecionava preparava seus candidatos a serem sobretudo polímatas, isto é, indivíduos que dominam vários saberes. Desta forma, todos são submetidos a uma terrível avaliação, na qual deveriam demonstrar domínio do saber médico, filosófico e do direito – este fortemente influenciado por conceitos e argumentos fundados em Maomé.
Avicena é, ele mesmo, um polímata. Homem atencioso com seus pacientes, vestindo-se sempre de maneira simples, tem uma cultura invejável, sobretudo do que o rodeia, incluindo aí a filosofia ocidental (Platão, Aristóteles), astronomia, política e, naturalmente, medicina. Ele é realmente o grande mestre de Rob Cole. Avicena é outro personagem apaixonante pela sua integridade, pela sua lúcida e tranquila sabedoria e pela sua bondade.
O Físico não é somente um livro de aventuras; críticas sociais recheiam o texto, a par de tantas informações históricas reveladoras de uma pesquisa bem conduzida:
“Fascinado agora, Rob Observou os três homens, cada um cercado por nobres bajuladores e embevecidos. O Xá com seu grupo habitual de beijadores de traseiro, Ibn Sina, grave e discreto, respondendo calmamente as perguntas dos homens com aparência de estudiosos. Karim, como sempre naqueles dias, praticamente escondido entre os admiradores que queriam falar com ele, tocar suas roupas, banhar-se na excitação e fulgor daquela presença tão disputada.
A Pérsia parecia perita em fazer de cada homem um corno.” (página 423)
Sem esforço, podemos ler a crítica social como se fosse do nosso tempo, não é mesmo, leitor?
Uma das coisas que me conquistou em O Físico é a postura neutra do narrador não nominado, no tocante às questões de religião:
“— Já pensou – perguntou Rob – como cada religião reivindica a posse do coração e dos ouvidos de Deus? Nós, vocês e o islã, cada um diz que sua religião é a verdadeira. Será que nós todos estamos errados?
— Talvez estejamos todos certos – respondeu Mirdin.
Rob sentiu uma intensa afeição pelo amigo. Logo Mirdin seria médico e voltaria para sua família em Masqat, e quando Rob chegasse a hakim[1], também voltaria para casa. Sem dúvida nunca mais se veriam.” (página 429)
Um exemplo de como Noah Gordon maneja eficientemente sua pesquisa histórica transparece no trecho transcrito abaixo:
“Para ela, Londres era um lodaçal negro onde já estavam afundados até os tornozelos. A comparação não era acidental, pois a cidade fedia mais do que os pântanos que tinham visto durante suas viagens. Os esgotos abertos e a sujeira não eram piores do que os esgotos abertos e a sujeira de Ispahan, mas em Londres vivia muito mais gente e em alguns bairros vivam amontoadas, de modo que o fedor das excreções humanas misturado ao do lixo era abominável.” (página 546)
Difícil não nos apaixonarmos pelo personagem principal, Robert Jeremy Cole. Ele não é um herói, no sentido do termo. Seus feitos são direcionados por uma firme vontade de atingir seu sonho. Este é, portanto, um personagem de superação; erra, acerta, é brilhante às vezes, é ingênuo outras tantas. Como disse Flaubert em Madame Bovary, “Madame Bovary sou eu”. Rob Cole somos nós. Ou, pelo menos, sua fidelidade aos seus propósitos, ao alto conceito dado à profissão abraçada deveria entusiasmar qualquer de nós:
“— Talvez o sistema funcione para as raças inferiores, mas os médicos ingleses têm espírito mais independente e devem ter liberdade para conduzir seus negócios.
— Sem dúvida a medicina é mais do que um negócio – observou Rob delicadamente.
— É menos que um negócio – retrucou Hunne –, com o preço das consultas e com os borra-botas inexperientes que estão sempre chegando a Londres. Por que acha que é mais do que um negócio?
— É uma vocação, Mestre Hunne, como o chamado divino para os homens da Igreja.” (página 558)
Recomendo a leitura desta obra com louvor, caro internauta que se dá o trabalho de me ler esta resenha. Bom enredo, história interessante, um ritmo apropriado, a respiração do texto acelera quando deve, acalma-se quando precisa.
Gostei da posição neutra do narrador, no tocante às religiões: não estaremos todos certos? Avicena, o Príncipe dos Médicos, figura comprovada pelos registros históricos – um gênio do seu tempo, embora, até certo ponto, ainda preso a concepções religiosas engessantes – também nos impressiona. A fibra demonstrada tanto por Rob Cole quanto por Mary Cullen são fortes referências para nossa vida.
O Físico é uma leitura bastante oportuna pela neutralidade já referida, num momento em que cresce no mundo a generalização perigosa de que todo muçulmano seja um terrorista, afirmação sem conhecimento de causa e baseada apenas nas loucuras perpetradas pelo Estado Islâmico em nome de Maomé ou Allah. Nós, os cristãos, também não fizemos guerras com armas “abençoadas” e benzidas por sacerdotes? Seríamos todos igualmente impiedosos?

Tocado pela experiência de ter lido o livro, imaginei-me sentimentalmente a bordo de um camelo, com seu passo cadenciado, mergulhado nas tinturas cambiantes do lusco-fusco, a caminho de Londres. Pela minha mente repassavam todas as experiências de vida, todos os sacrifícios pelos quais trafegou Rob Cole – a esta altura já sou íntimo do personagem – e tenho a meu lado a obstinada Mary. Seguimos o caminho seguro, do ponto de vista geográfico; não obstante, o caminho psicológico a minha frente é completamente imprevisível.

Enfim, é desnecessário continuar “babando” sobre o livro: numa palavra, amei-o. Atribuo-lhe uma justa nota 10.






[1] Médico aprovado pela Banca Examinadora.
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