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domingo, 4 de dezembro de 2016

Resenha: A Livraria Mágica de Paris, de Nina George

Resultado de imagem para a livraria mágica de paris resenhaTítulo: A Livraria Mágica de Paris
Título original: Das lavendelzimmer
Autora: Nina George
Tradução: Petê Rissatti
Editora: Record
Edição: 1ª
Copyright: 2016
ISBN: 978-85-01-10761-9
Gênero Literário: Romance
Nacionalidade: Alemanha
Bibliografia: com o nome de Nina George – (2013) A Livraria Mágica de Paris; (2010) The Moon Player; (2008) How the Hell; (2005) The Vocabulary of Men; (2003) The Way of the Warrior; (2003) Jack, Queen, Checked, Death; (2001) No Sex, No Beer and Lots of Dead. Como Anne West: (2009) What Women Dream and How To Get It; (2009) Sex for advanced skiers; (2009) Feeling - the feeling; (2009) Absolute Sex; (2007) Sex Goddesses Manual; (2006) One Day Sex; (2006)The Venus Effect;(2005) First Aid For Those in Love; (2004) Dirty Stories, Droemer Knaur; (2003) Kamasutra Without Hernia, as co-author; (2003) Why Men Are So Quick and Women Just Pretend; (1998) Good Girls Do It in Bed - Bad Ones Everywhere. Como Jean Bagnol: (2015) Commissarire Mazan and the blind angel; (2013) Commissaire Mazan and the heirs of the Marquis.
Como fica evidente em sua bibliografia, Nina George é uma autora prolífica. Este A Livraria Mágica de Paris é a única obra da autora com tradução para a língua portuguesa; pelo menos, é o que consegui apurar nas pesquisas pelo google. Nina nasceu em 30/08/1973, na cidade de Bielefeld, Alemanha. Publicou nada menos que 26 livros, entre literatura e não ficção, bem como mais de 100 contos. É jornalista, escritora e professora. Nina é casada com o também escritor Jens J. Kramer e divide seu tempo entre Hamburgo e a Bretanha. Este seu A Livraria Mágica de Paris já vendeu mais de um milhão de exemplares no mundo, sendo igualmente um sucesso de crítica.
A obra em questão é a história de Jean Perdu, possuidor de um barco-livraria, onde ele pratica a biblioterapia, isto é, a prescrição de livros para todos os males – físicos ou psíquicos. Ele se considera um “farmacêutico literário”. Portanto, seus clientes-pacientes saem da livraria com alguma indicação para seus males, após fazerem uma “consulta” com Monsieur Perdu. É um dom que ele tem, não explicado no livro, dom usado com bastante competência. Competência quase total. O quase, aí, é porque Jean, se resolve os problemas dos outros, não consegue solucionar o seu.
Há algum tempo, Jean Perdu tivera uma amante, por nome Manon Basset – uma mulher casada –, por quem se apaixonara. Certo dia, entretanto, ele acordara sem a presença da amante; existe apenas uma carta, na qual ela explica os motivos do seu sumiço. Mas Perdu não abre a carta por medo do que encontraria nela. E assim, os 21 anos vão se passando, o livreiro convive com o seu drama pessoal, com sua tristeza.
Perdu reside num prédio de apartamentos, localizado em Paris, à rua Montagnard. Aí residem pessoas interessantes, várias são frequentadoras do barco-livraria. A todos Perdu atende solicitamente.
Certo dia, aparece por lá Max, um escritor, que se tornará um amigo muito importante para nosso personagem principal. O livreiro, finalmente, resolve abrir e ler a carta de sua Manon. Quando o dono do barco resolveu partir para o interior da França, indo para a cidade de Sanary-sur-Mer, navegando pelo Rio Ródano. Vai finalmente em busca de maiores notícias de sua querida e inesquecível Manon.
Nesta viagem, conhece mais duas pessoas, as quais serão suas amigas: Samantha e o interessantíssimo Salvatore Cuneo. Enquanto isso, Jean Perdu escreve cartas e envia postais dos lugares por onde passa para Catherine, sua vizinha do prédio da rua Montagnard. Monsieur Perdu tivera uma quase relação íntima com ela, mas os medos dele não deram margem a que tal acontecesse.
Apesar de fixar residência em Sanary, onde trabalha numa livraria, é na localidade de Luberon que seu passado o espera. Conhecemos melhor Manon Basset por intermédio dos diários de viagem que são inseridos na trama; eles, pouco a pouco, vão compondo a personalidade de Manon, seus caminhos e suas escolhas.
Para Monsieur Perdu, há três categorias de clientes do seu barco-livraria:
“Os primeiros eram aqueles para quem os livros significavam o único sopro de ar fresco no sufoco do dia a dia. Seus clientes preferidos. Confiavam no que Monsieur Perdu lhes dizia que precisavam. Ou compartilhavam com ele suas vulnerabilidades, como ‘Por favor, nada de romances com montanhas, elevadores ou grande paisagens vistas de cima... tenho medo de altura’. [...]
“A segunda categoria de clientes só ia ao Lulu, nome original do barco-livraria ancorando no Port de Champ-Élysées, porque era atraída pelo nome do estabelecimento: La pharmacie littéraire. [...]
“Mas essas pessoas eram pouco irritantes se comparadas às do terceiro tipo, que se consideravam reis e rainhas, só que, infelizmente, não se comportavam como tal. Com tom de censura, sem nem lhe dar um Bonjour, sem olhá-lo na cara, tocando cada livro com dedos engordurados de pommes frites, questionavam Perdu: ‘O senhor não tem curativos adesivos com poemas? Não tem papel higiênico estampado com romances policiais? Por que o senhor não vende travesseiros infláveis de viagem? Faria bastante sentido numa farmácia literária’.” (páginas 19/20)
Samantha (Samy) torna-se amiga do livreiro, terá um papel importante no desenrolar da história. É dela, por exemplo, o conceito de mundo intermediário (ou tempo ferido):
“Tenho pensado com frequência nisso que Samy chamou de tempo ferido, de mundo intermediário. Em deixar para trás a soleira entre a despedida e o recomeço. Eu me pergunto se minha soleira acabou de começar... ou se já dura vinte anos. Você também conhece esse tempo ferido? A dor de amor é como a dor do luto? Essas são perguntas que posso te fazer?” (página 236)
Como não podia deixar de ser num livro sobre a função terapêutica da literatura, há diversas referências metaliterárias (quando a literatura faz referências à própria literatura):
“Monsieur Perdu pegou A elegância do ouriço do chão. A queda havia danificado a lombada. Ele teria de vender o romance de Muriel Barbery por um ou dois euros a um dos buquinistas que ficavam nas margens do rio e comercializavam livros em caixas que as pessoas fuçavam.” (página 19)
Há determinadas obras literárias (os clássicos, de um modo especial possuem essa característica) nas quais um determinado trecho, não necessariamente longo, joga luz sobre si próprio, fornece uma importante chave interpretativa ou fornece uma nuance sensorial que pode mudar a maneira pela qual vínhamos construindo o trabalho de interpretação, de entendimento ou mesmo de sentir o texto. Aconteceu com este A Livraria Mágica de Paris:
“— Porque você me ama, eu aprendo a me amar também – lhe dissera ela naquela manhã, quando o mar ainda estava azul-cinzento e meio adormecido. — Eu sempre aceitei o que a vida me ofereceu... mas nunca me ofereci. Eu não conseguia me esforçar por mim mesma. — Quando ele a puxou com suavidade, Jean pensou que com ele acontecia o mesmo. Ele só conseguia se amar porque Catherine o amava.” (página 258)
Vejam bem, meus caríssimos leitores deste blogue, a ideia contida aqui é uma compreensão mais ampla, a de que é porque alguém me ama – pela existência do amor do outro – que eu aprendo a me amar. Não é só um achado poético, belíssimo, mas uma verdade: nós, seres humanos, somos interdependentes, queiramos ou não; bebês criados sem amor morrem cedo. Não é a ideia do amor piegas, mas do que os gregos conheciam como “storge”, isto é, um amor conjugal, sacrificial, o que une um homem e uma mulher e eles a seus filhos. Entretanto, vai além desse conceito, pois, objetivamente, é sentir-me incondicionalmente acolhido que me faz amar a mim mesmo.
O aspecto do suspense, também presente no livro, é dado pela seguinte questão: quem seria o autor do livro Luzes do Sul, o qual tanto impressionara o livreiro Jean Perdu? Ninguém o conhece. O desafio de encarar o passado e dele se libertar, de lançar a carga fora e poder amar integralmente outra vez é motivo impulsionador da viagem do farmacêutico literário a bordo do Lulu.
Mais que recomendo a leitura desta obra absolutamente apaixonante. Pelo menos na minha modesta opinião, não é a trama que nos dá vontade de ler o texto até o fim; também não é a forma com que a autora trata o tempo; não são as memórias. É a construção dos personagens. Ricos, com coisas interessantes para dizer, com personalidades complexas, atitudes inesperadas, são eles que me motivaram a leitura. Quem degustar A Livraria Mágica de Paris até o fim, encontrará o personagem Luc Basset – e terá um belo exemplo do que estou querendo dizer.

Não perca essa leitura por nada!
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