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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Viver Não Dói, de Leila Ferreira

Leila Ferreira é formada em Letras e Jornalismo, mestre em Comunicação pela Universidade de Londres. Atuou como repórter da Rede Globo Minas, tendo, durante 10 anos, apresentado o programa Leila Entrevista, pela Rede Minas e TV Alterosa. É autora de duas publicações anteriores: Mulheres: por que será que elas…? e A Arte de Ser Leve, ambas publicadas pela Globo Livros.

 

Gosto muito do gênero textual crônicas. Leila tem um estilo gostoso, de conversa com seus interlocutores. Os textos de Viver Não Dói são distribuídos ao longo de 275 páginas, agrupados em subtítulos: Felicidade: menos, por favor; Amor, sexo e sedução; Admirável mundo novo; No meio do caminho tinha uma serra; Vasto mundo; O tal do envelhecer; Mães e filhas; Faits divers (ou trivial variado) e Resumo da ópera.

Crônicas são textos habitualmente leves, sobre coisas, eventos, fatos do dia a dia. Como exerci o papel de turista recentemente, entendo muito bem o que ela diz na crônica Turista sofre (e não conta); está nas páginas 148:

“A começar pelos guias ou, sejamos justos, por alguns deles. Imagine conhecer a Capadócia, na Turquia, com uma guia que não fecha a boca – uma turca que, apesar de havermos dito a ela que falávamos inglês (idioma que ela dominava), insistia em se expressar num espanhol com sotaque carregadíssimo. Mas o problema nem era o sotaque: era que ela insistia em falar, ponto final. As palavras jorravam e, como nosso grupo consistia de duas pessoas apenas – meu companheiro e eu –, não havia com quem dividir a avalanche. Verbos, sustantivos, adjetivos e preposições se sucediam com a velocidade da luz, e nós, atordoados, íamos nos convencendo de que no mundo de hoje há formas de sofrimento que se aproximam muito daquelas vividas pelos cristãos perseguidos pelos romanos que se refugiavam nas catacumbas.”

Na página 65, por exemplo, começa a crônica Um cochilo na sex shop. Ela e o companheiro, em uma sex shop, resolvem parecer “normais” e como um número grande de clientes da loja, optam por participar de um curso sobre o tema Técnicas para aumentar o prazer sexual. Ministrado, segundo Leila, por duas americanas desenvoltas e desinibidas, vestidas com figurinos o menos sexy possível: tênis, jeans largos e camisetas idem, com o entusiasmo de duas cheerleaders. Eis a parte explícita a que se refere o título do texto (páginas 67):

“Minha vontade de rir, incontrolável no começo, aos poucos foi cedendo. No seu lugar, veio o sono. Um sono implacável que, a cada movimento de penetração simulada (a repetição entorpece), ia ficando mais intenso. Tentei me distrair. Comi um chocolate que estava na bolsa, fiz uma lista dos presentes que iria comprar para a minha família (certamente, nenhum ali), pensei em coisas alegres e tristes, prendi a respiração várias vezes e nada de passar o sono. A última imagem que meu consciente registrou foi das duas professoras de quatro pela vigésima vez, com sex-appeal comparável ao de dois caranguejos atracados num manguezal. Acordei minutos depois com meu companheiro me cutucando e dizendo “Acorda! Acorda! Tá todo mundo  olhando!”

O livro traz uma coletânea de frases de todas as crônicas, na sudivisão Resumo da ópera , frases-achado, tanto dela quanto de autores citados nas crônicas, pinçadas aqui e ali, como por exemplo, “Flertar era preservar distâncias estratégicas, enquanto se firmava em silêncio um contrato de cumplicidade. Areias movediças, ambivalências, a sedução no fio da navalha.” Ou, então, “A sensação é que arrancaram as cortinas do mundo, e as janelas estão todas abertas, as portas, escancaradas. Tudo se diz, tudo se mostra, tudo se explicita. Não há mais bastidores, não há mais avessos, não há mais intimidade.”

Espero ter dado ao leitor deste blog um gostinho do que o está aguardando nesse Viver Não Dói. Livro bom de se ter à mão, um antíodoto para a mesmice e chatice que, tantas vezes, assola nosso mundo.

Leila Ferreira. Viver Não Dói. 1ª Edição, Editora Globo: São Paulo, SP. 2013.

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