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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Morre o escritor Autran Dourado

No dia 30/09/2012 morreu o escritor mineiro Waldomiro de Freitas Autran Dourado, mais conhecido por somente Autran Dourado, aos 86 anos de idade, de hemorragia estomacal. Ele já havia sido internado por quatro meses antes, para tratar de problemas respiratórios.

Autor de uma obra coerentemente construída, não foi exatamente um sucesso de público; entretanto, alguns de seus livros foram mais conhecidos, como Uma vida em segredo, Ópera dos mortos, O Risco do bordado, Os Sinos da Agonia. No total, foram 20 obras.

Ainda, era um escritor preocupado com a divulgação do seu fazer literário, o que o motivou a publicar Uma poética de romance (1973), Uma poética de romance: matéria de carpintaria (1976), Um artista aprendiz (2000) e Breve Manual de Estilo e Romance (2003).

O primeiro livro de sua autoria, lido por mim, foi exatamente o Sinos da Agonia. É de 1967 e o meu contato com o texto se deu por causa do vestibular. O que deveria ser apenas uma questão de atualização tornou-se um prazer. O livro é muito bom e cabe releitura; o tempo e o volume de leituras posteriores me fez perder detalhes. Li, também, o Uma vida em segredo, texto enxuto e aparentemente simples, contando-nos a história da personagem Biela .

Outros trabalhos: A Barca dos Homens, Solidão, Solitude, Novelas de Aprendizado, Novelário de Donga Novais, Um cavalheiro de Antigamente, A Serviço del-Rei, Confissões de Narciso, Ópera dos Fantoches, Monte da Alegria (seu último romance publicado), Armas & Corações, Lucas Procópio, Violetas e Caracóis, As Imaginações Pecaminosas. Em 2006, publicou um volume de histórias curtas, O Senhor das Horas.

Dourado foi secretário de imprensa do presidente Juscelino Kubitschek, experiência esta relatada no livro Gaiola Aberta, publicado em 2000. Nosso escritor ganhou vários prêmios, como o Goethe 1981), Jabuti (1982), Camões (2000), e Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (2008).

Seus personagens são angustiados, o que fez a crítica identificar Lúcio Cardoso (outro fantástico e esquecido escritor) como uma de suas influências; outros, entretanto, apontam Graciliano Ramos, com seus personagens atormentados, como influência decisiva.

É na cidade fictícia de Duas Pontes que grande parte de suas criaturas se move e, em muitos livros, é sempre o mesmo narrador, João da Fonseca Ribeiro. Pode-se dizer que Autran Dourado era um escritor com um projeto literário definido, do qual nunca se afastou. Para ele, seus romances “tinham que ser cruéis, bater no centro da alma humana.”

Sua obra alcançou reconhecimento no exterior, sendo traduzida para vários idiomas. Essa universalidade, repetindo o caminho de vários escritores, vem do tratamento dado aos dramas localizados em Minas Gerais, mas concedendo amplitude ao que, na verdade, é o drama de todos nós, é o drama do viver. Dostoiévski fez isso ao retratar o homem médio russo, Guimarães Rosa trilhou por esta vereda ao tornar universal o drama do sertanejo. Lições não esquecidas.

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