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quinta-feira, 24 de maio de 2007

Aprender


Cleuber Marques da Silva

Ao nascermos não trazemos um infalível plano de vôo. Nossos primeiros ensaios são, entre decolagens e batidas de asas, uma balança entre o caos e o equilíbrio: ensaiamos a ousadia, o risco, o aprender com os erros e, quando o fazemos, obedecemos a um impulso orientador da nossa própria evolução: temos de arriscar para evoluir. Já dizia o clarividente João Guimarães Rosa, “viver é perigoso: travessia.”
À medida que crescemos, entretanto, ensinam-nos a necessidade de um plano de vôo preciso, um campo de pouso claramente delimitado. Esquecem-se, todo pouso é um risco, mas tem de ser feito e voar sempre para o mesmo aeroporto é empobrecedor. Desta forma, gastamos um enorme esforço em tornar objetivo, claramente definido, algo que é impreciso e sem contornos muito claros, pela sua própria formatação: nossa própria vida.
Sim, porque a vida não se exercita pelos manuais nem se apreende inteiramente pelos exemplos dos outros. Se assim fosse, não seríamos mais que extensões de um ideal ou extensões de outras pessoas. Maravilhosamente, porém, não somos nem extensões de idéias (embora tentem nos impingir isso), nem extensões de outros (embora isso também tentem nos impor).
Mudamos à medida que vivemos. Hoje quero uma coisa, sou de um jeito; amanhã posso não querer a mesma coisa, pois a superei; posso não ser mais de um determinado jeito, pois aprendi com meus próprios erros, isto é, mudei minha perspectiva, vivi.
Ah, se economizássemos a energia usada em tentar controlar tudo e todos! Talvez nos enganássemos menos... Não temos que controlar tudo nem todos: ao procurar esse controle, paramos na vida, concentramos nossa energia em acionar freios e cabos de tração.
Na nossa civilização, o erro foi historicamente descaracterizado. Não podemos errar porque isso nos deixa vulneráveis. Essa é uma das maiores falácias que nos ensinam: é justamente a preocupação incessante com o acerto eterno o que nos deixa vulneráveis. As probabilidades não são feitas apenas de uma via (ou não seriam probabilidades), nem sempre o caminho mais longo é o que deve ser evitado. Às vezes, esse caminho mais longo nos reserva maior qualidade.
Com os planos de vôo que nos impõem aprendemos a rapidez insana, a superficialidade embrutecedora, a redução a um ou a dois ângulos consensuais sobre quaisquer problemas, quando a ordem seria a diversidade e a liberdade de pensamento e expressão.
Até as nossas formas de lazer foram padronizadas. Ir a shoppings é obrigatório, assistir ao telejornal X é obrigatório, ter visto tal programa ou ter lido tal livro é sinal de prestígio. E para não levarmos a etiqueta de alienados, obrigamo-nos a dizer coisas com as quais interiormente não concordamos, a aplaudir coisas das quais realmente não gostamos.
Não se defende aqui a proposta de uma sociedade hedonista, fixada apenas na obtenção do prazer a qualquer custo. Isto também é redutor. Crescemos, tornamo-nos adultos e esse maravilhoso processo envolve responsabilidade, respeito e... exposição a riscos. Responsabilidade, porque a pessoa a nosso lado também tem o direito de exercitar suas próprias buscas; respeito, porque temos de entender nossas características únicas, bem como as dos outros; exposição aos riscos, porque em cada rota pode estar um imprevisto, já que vivemos em constante sócio-interação.
Não há como garantir o sucesso de nossa vida, até porque este é auferido pelo olhar viciado de uma cultura repleta de pré-julgados, de verdadeiros déjà-vu. Somos seres diferentes uns dos outros e deveríamos ter várias possibilidades de sonhos e de aerovias. Preocuparmo-nos excessivamente com a segurança de cada vôo nos faz medrosos e pouco criativos.
O planejamento para se alcançar metas é bom, e não há contradição entre essa afirmação e tudo o que foi dito acima. O que se faz aqui não é a apologia do risco pelo risco, é antes a defesa da flexibilização, a defesa de um espaço (ou de um tempo, não importa) em que possamos fazer exercício do nosso direito mais caro: tentar, experimentar, não em busca de uma recompensa externa (ela pode ser conseqüente), mas pelo prazer de aprender, pelo prazer de descobrir a unicidade de cada ser humano. E dessa forma, aprendermos a nossa relatividade de seres humanos.
Belo Horizonte, 29 de abril de 2006
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