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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Resenha nº 66 - Fome, de Knut Hamsun

Knut Hamsun nasceu em 1859, na região central da Noruega, chamada Grundbrandsdalen. Era o quarto filho de Peder Pedersen, um alfaiate – segundo consta – habilidoso. Com apenas três anos de idade, a família se mudou para a cidade de Hamarøi, aproximadamente a cento e cinquenta quilômetros ao norte do Círculo Polar Ártico. Peder fora trabalhar para o cunhado porque este lhe cobrara o dinheiro que pegara emprestado com ele e não tinha como pagar-lhe, a não ser com serviços. Naquela cidade havia uma biblioteca e Knut logo se identificou com os livros. Era uma criança solitária, pois o tio não permitia as brincadeiras com as crianças do lugar. O menino quase não teve educação formal, frequentando esporadicamente a escola. Entretanto, aos dezoito anos, escreveu seu primeiro livro, Den Gaadelfulde (O Enigmático)[1]. O nome que ele usava era Knut Pedersen Hamsund. Já em 1884, publicou um artigo sobre o escritor norte-americano Mark Twain e o seu nome saiu com um erro gráfico, faltando o “d” final em Hamsund. Nosso escritor acolheu o erro e passou a assinar seus trabalhos como Knut Hamsun.

Após ter publicado muito, tido uma vida controversa, ganhado o Prêmio Nobel em 1920 pelo romance Os Frutos da Terra (título brasileiro; em Portugal, recebeu o curioso nome de Pão e Amor), Knut faleceu na cidade de Nørholm, em 19/02/1952. Três anos antes, aos 90 anos de idade, publicou o livro Pelos Atalhos Fechados – sobre suas opções políticas e o julgamento a que tinha sido submetido, por sua simpatia pela política nacional-socialista. O imediato sucesso de público atesta a permanência de seu talento como escritor, mesmo em idade avançada.

Difícil falar sobre Knut Hamsun, por dois motivos muito importantes. O primeiro deles, torna-se dificultosa a tarefa de garimpar informações sobre esse escritor aqui no Brasil, em que pese ele ter sido, durante um tempo, um escritor de certa forma conhecido no nosso país. O segundo deles, a posição política de Hamsun nos coloca em uma condição incômoda, pois ele foi um simpatizante do nazismo, defendendo as ideias de Hitler e tendo contato com Goebbels, Ministro da Propaganda do Reich alemão. Não obstante, tal incômodo (como pode alguém supostamente com discernimento apoiar tais ideais?) não deve influir na apreciação da obra em si.

Fome foi a obra que trouxe fama e reconhecimento a Hamsun. Curta, com cento e poucas páginas, a obra é densa, complexa e atormentada. Sentem-se ecos de Dostoiévski. É uma narrativa de fundo psicológico, embora não de análise psicológica de personagens; o autor não extrai de seu próprio texto nenhuma tentativa de explicação, de teorização. Simplesmente, o atormentado protagonista anônimo de Fome tem, às vezes, delírios completos, atitudes inesperadas.

O enredo é mínimo: o protagonista é um miserável, passa fome quase o tempo todo da narrativa; é também um escritor e certa vez consegue obter  o valor de 10 coroas pela publicação de um artigo seu num jornal local. Toda a ação se passa na cidade de Cristiânia, atual Oslo, capital da Noruega. Dadas suas condições financeiras, vive entre a ameaça de um despejo e outro, não tendo o mínimo conforto. Seu maior amigo é o lápis com que escreve. Vive sozinho, é um tipo taciturno.

Com uma trama simples como essa, lógico esperar que alguma outra coisa justifique a obra em questão. Ela também não prima pela criação de muitos personagens; há apenas o protagonista, um homem abordado por ele na rua, uma moça. Os outros são figurantes, pessoas com quem ele lida e dos quais depois se esquece. Não obstante, a profundidade psíquica na construção do miserável faminto poucas vezes foi conseguida por um autor.

O miserável vive um dilema terrível. Padece de fome, mas esta fome é o que impulsiona sua necessidade de escrever. Portanto, se ele saciá-la, não escreverá. E ele tem a atividade como muito importante para ele. Per Johns, em seu texto Hamsun e O Seu Paradoxal Individualismo Escandinavo, nos diz na página 29 do livro Knut Hamsun no Brasil:

“Perambula pelas ruas, praças e parques de Cristiânia, a capital da Noruega antes de se chamar Oslo, sempre à beira da morte por inanição corporal, à procura do que não pode ser encontrado neste mundo imperfeito. E não abre mão de uma estranha generosidade, apesar e além de sua própria fome fisiológica, a que se acrescenta uma insólita honestidade ou respeito pelo outro ao devolver o que não lhe pertence, caído em suas mãos por engano alheio.”

E estranhamento, categoria literária tão cara à corrente de crítica literária conhecida por formalistas russos – um comportamento, ideias, sequência que nos levam a um incômodo pelo inusitado, por exemplo, Gregor Samsa ter se transformado em um inseto em A Metamorfose – está realmente presente na obra de Hamsun.

A única personagem que tem nome, no livro, é Ylajali (lê-se Ilaiáli), “filha do senhor Happaloti, ministro na Pérsia, mas mora na praça do Santo Oluf número dois (...)”[2]

O provável leitor deste clássico importantíssimo para o modernismo mundial deverá ser alguém paciente, que aprecie um texto com ritmo lento, mas enxuto em palavras. A concisão é uma qualidade da obra que salta aos olhos. Não se pode tirar qualquer termo, sem se comprometer a arquitetura do trabalho. E Hamsun antecipa o uso que o modernismo fará do stream of counsciousness (fluxo de consciência), pelo qual determinado personagem é flagrado em seus pensamentos erráticos, com várias intromissões de assuntos vários.

Fome tem um parentesco com o livro de Herman Melville, Bartleby, O Escriturário: o miserável, assim como Bartleby, é também uma criatura do “não”, do que se nega a agir como o esperado, a ceder ao convencional. Suas atitudes e ideias são muito próprias.

O exemplar lido por mim é um e-book, em arquivo epub (o mais comum para leitores digitais), uma tradução indireta, do francês, de ninguém menos que o nosso Carlos Drummond de Andrade. Houve uma edição, ou pelo menos, uma tentativa de edição direta do norueguês, com problemas por falta de autorização da editora detentora dos direitos autorais.

A seguir, para sua degustação, meu caro leitor inteligente, alguns trechos deste fantástico clássico.

Um exemplo das descrições, fortemente influenciadas pelo estado de espírito do miserável:

“Um enxame de pensamentos imprecisos volteia no cérebro; o espetáculo do dia que finda torna-me melancólico e sentimental. Chegou o outono. Começa a mergulhar em letargia todas as coisas. Moscas e outros pequeninos seres sentiram-lhe os primeiros golpes. Lá em cima, nas árvores, e cá embaixo, na terra, percebe-se o rumor da vida obstinada, fervilhante, sonora, inquieta, lutando para não perecer.”  (págs. 25/26)

O protagonista é voltado para si mesmo, como fica evidente pelo trecho a seguir. Não tem amigos; sua solidão é de onde lhe vem o desespero e de onde tira sua força:

“Fui chorando pela rua afora; cada vez sentia mais pena de mim mesmo, e murmurava sem cessar as mesmas palavras, uma lamentação que fazia brotar novas lágrimas, quando pareciam estancar: “Meu Deus, como sou desgraçado! Meu Deus, como sou desgraçado!” (pág. 43)

Na passagem abaixo, um exemplo do domínio que o escritor tem do fluxo de consciência:

“Entrei na Livraria Pascha, procurei no catálogo o endereço do pastor Levison, e toquei para lá. “Desta vez é sério” – disse comigo. – “Não vá fazer tolices! O quê: sua consciência? Nada de infantilidades, você é pobre demais para ter consciência. Está com fome, não é? Veio para um negócio importante; primeiro, o que é mais urgente. Deixe pender a cabeça sobre o ombro, dê certo tom a suas palavras, certa melodia. Não quer? Então eu o abandono, não dou mais um passo, fique sabendo. Bem, seu estado é assustador, você está em luta com as potências da treva: à noite, sustenta uma luta medonha contra enormes monstros silenciosos, um verdadeiro horror. Está sedento de leite e de vinho, e não os possui. Eis a que ponto você chegou. A bem dizer, não tem onde cair morto. Suas forças chegaram ao fim. Mas você acredita na Graça Divina. Louvado seja Deus, ainda não perdeu a fé. Então, você ergue e junta as mãos, com ar de possesso, de tal modo acredita na Graça Divina. Quanto a Mammon, esse, você o odeia sob todas as formas. Um livro de salmos já é outra coisa: serve como lembrança, pequena lembrança de um par de coroas...” (pág. 66/67)

Eis a transcrição do trecho indicado por Per Johns, numa citação acima, na qual fica patente a inesperada honestidade de um faminto:

“Inclinei-me sobre o cesto da pobre mulher, como se quisesse comprar alguma coisa e, sem mais nem menos, botei-lhe o dinheiro na mão. Não pronunciei uma palavra, e fui andando logo.
Que gosto admirável, o de sentir-me novamente homem de bem! Os bolsos vazios já não me pesavam, era uma delícia encontrar-me outra vez a nenhum. Refletindo bem, esse dinheiro, no fundo, me enchera de preocupações secretas, eu realmente me arrepiava ao pensar nele; não era uma alma endurecida, pois minha natureza honesta se indignara profundamente com aquela ação vil. Graças a Deus, reabilitara-me perante a minha consciência.” (página 95)

Talvez o leitor desse blog esteja pensando que este autor, de uns tempos para cá, resolveu aventurar-se pela literatura exótica. Agora resenha livros desconhecidos, os quais ninguém lê.

Como justificativa, não vejo livros de outros mercados além do americano ou brasileiro como exóticos. Penso que toda a literatura do mundo tem alguma coisa a nos dizer, tem alguma forma de nos sensibilizar. Sempre fui um apreciador da magnífica literatura russa. Liev Tostoi, Nicolai Gogol, Ivan Turguêniev, Máximo Gorki, Dostoiévski, Anton Tchekov, Alexandre Pushkin, Leonid Andreiév... todos são meus velhos amigos, desde que, uma vez, me encantei com um calhamaço na biblioteca da escola pública em que estudei: Humilhados e Ofendidos, de Dostoiévski.

Também não tenho qualquer preconceito em relação à literatura americana, inglesa, francesa. Bem sei que a vida não chega para ler tanta coisa. Vou selecionando algo, então. É minha forma de abraçar o mundo. Ademais, o objetivo deste autor e deste blog é indicar livros.

Knut Hamsun é um autor fantástico. E um homem polêmico, com posições políticas claramente condenáveis. Não obstante, depois que uma obra é concluída, ela deixa de pertencer ao seu autor. Ela é um bem geral. Ela transcende, muitas vezes, as misérias morais de seus idealizadores.

Fome é um clássico, sem qualquer tipo de dúvida. E, como clássico, é obra para se ler, reler, reler.

HAMSUN, Knut Pedersen. Tradução de Carlos Drummond de Andrade. Fome. 1ª Edição. Geração Editorial. São Paulo, SP: 2009

Leitura complementar:

SCHØLLHAMMER, Karl Erik (org.). Knut Hamsun no Brasil. Editora 7Letras. Rio de Janeiro, RJ: 2011




[1] Deixo essa informação em dúvida. Em vários sites consultados, O Enigmático figura como a sua primeira obra. Mas, compulsando o livro Knut Hamsun no Brasil, com organização do professor associado do Departamento de Letras da PUC-Rio, Prof. Karl Erik Schøllhammer, Fome é dado como seu romance de estreia. Confira Knut Hamsun – Um Artista da Fome, pág. 93 e ss., do mesmo livro.
[2] Confira Knut Hamsun – Um Artista da Fome, pág. 100, op. cit.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Resenha nº 65 - Um Cântico Para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr.

Resultado de imagem para livro um cantico para leibowitzWalter Michael Miller Jr. foi um escritor norte-americano nascido em 23 de janeiro de 1923, em New Smyrna Beach, Flórida. Estudou na Universidade do Tennessee e na Universidade do Texas. Trabalhou como engenheiro. Serviu às Forças Armadas americanas como radiotelegrafista e artilheiro de retaguarda, tendo participado de mais de cinquenta bombardeios aéreos sobre a Itália. Tomou parte no ataque a uma Abadia Beneditina em Monte Castelo – experiência muito traumática para ele. Sofreu de depressão pós-traumática por trinta anos.

Walter converteu-se ao catolicismo e se casou com Anna Louise Becker em 1945, logo após o término da Segunda Guerra Mundial. Faleceu em 9 de janeiro de 1996. Escreveu vários contos do gênero ficção científica e ganhou o prestigioso prêmio Hugo, em 1955, por The Darfsteller. Entretanto, tornou-se famoso pelo único romance publicado em vida, Um Cântico Para Leibowitz, publicado em 1959 e pelo qual ganhou novamente o Hugo de 1961.

 Oportuníssima essa reedição brasileira pela Editora Aleph, de 2014. Com o miolo em papel pólen (amarelado, que contribui para descansar os olhos), boa diagramação, um belo projeto de capa de Mateus Valadares e uma cuidada tradução de Maria Sílvia Mourão Netto, Um Cântico Para Leibowitz é considerado um clássico da literatura de ficção científica distópica, ou pós-apocalíptica.

A capa apresenta um monge de cabeça para baixo, segurando um crânio em posição normal. Neste aspecto, a capa nos lembra as Vanitas, termo latino que designa, nas Artes Pictóricas, a tendência a se usar caveiras em pinturas, nos lembrando da insignificância da vida terrestre e da condenação da vaidade. O acabamento da capa é levemente aveludado e alude diretamente ao conteúdo do livro.

É sempre complicado tentar justificar uma história pelos dados autobiográficos do seu autor; todavia, nesse caso específico, alguma coisa daqueles dados não explica, mas ajuda a entender o tom sarcástico e de desencanto com a humanidade que permeia todo o texto. O bombardeamento da Abadia Beneditina durante a guerra e a depressão contraída por Walter Miller, além de sua experiência na guerra, sua conversão ao catolicismo vão constituir uma espécie de “sentimento de fundo”. A história começa a quatrocentos anos após o Dilúvio de Fogo e se estende por mil e oitocentos anos da humanidade, depois desse cataclisma nuclear. O livro é dividido em três partes, com nomes em latim: Fiat Homo, Fiat Lux e Fiat Voluntas Tua. Ou seja, em português, Faça-se o Homem, Faça-se a Luz e Faça-se Tua Vontade. Cada seção destas tem seus próprios personagens, embora outros, com participação ativa nas outras divisões sejam lembrados.

A escrita de Walter M. Miller é erudita. Cheia de termos em latim, com um excelente glossário ao fim da obra. E não é só um uso de fachada, pois o autor nos oferta, inclusive, trocadilho nessa língua, algo que só pode executar quem realmente a domine com propriedade. A utilização do latim eclesiástico contribui para criar uma atmosfera de autoridade às manifestações religiosas, ao mesmo tempo que serve como uma linguagem atemporal, já que atravessa todo o arco de existência da humanidade abordado pela obra. Une-se a isto um profundo conhecimento das liturgias católicas. Há outro glossário, que nos explica termos fundamentais na história, como por exemplo, a filiação da Ordem de São Leibowitz – Albertina.

Tudo começa com o noviço Francis Gerald de Utah realizando seu jejum quaresmal. Ele é vinculado à Abadia de Leibowitz, no deserto. Leibowitz tinha sido um mártir nos tempos do Dilúvio de Fogo (leia-se guerra nuclear) por dar importância ao Conhecimento e Cultura da humanidade, em detrimento da destruição do passado, defendida pelos Simplórios. Estes são os atingidos diretamente pelo Dilúvio; seus descendentes apresentam deformidades pela ação da radioatividade e abominam tudo o que esteja ligado ao passado.

Irmão Francis vive o seu jejum de modo extremamente penoso. O calor do deserto, a presença constante dos lobos, a companhia dos abutres – tudo funciona como uma espécie de rito de iniciação. Encontra, certo dia, um velho, um peregrino que descobre uma pedra para se encaixar à perfeição num buraco de sua morada de pedras, uma proteção contra os lobos. Ao apanhar a pedra, o noviço descobre um antigo abrigo subterrâneo, antiatômico; dentro do refúgio, vários documentos referentes a Leibowitz, fundador da Ordem. Sua descoberta vai mudar o curso dos acontecimentos dentro daquela Abadia, pois tal achado é tratado como relíquia sagrada.

Importante dizer que ninguém consegue entender direito o que aqueles documentos dizem, por dois motivos. Primeiro, porque o inglês utilizado oferece uma enorme dificuldade, dada a sua antiguidade; segundo, porque falam de assuntos e conhecimentos de uma época não mais existente, sem contextualização. O conhecimento se perdeu. Só existe a terra arrasada, os humanos utilizam armas rústicas. A Ordem de São Leibowitz, desse modo, funciona como guardiã de uma era a qual não consegue compreender; naturalmente, os objetos tornam-se objeto de culto, de mistério.

Existem dentro da Ordem, duas atividades básicas: a dos copistas – monges dedicados à manutenção dos livros antigos mediante cópia, e a dos memorizadores – religiosos compromissados com a propagação oral do conhecimento vivo. Todos privilegiam a Memorabilia, que é o acervo contendo a cultura e o conhecimento antigos.

O tempo que separa cada uma das três partes em que é divido o livro é de seiscentos anos. Esses primeiros acontecimentos têm lugar na divisão inicial, o Fiat Homo. Na segunda parte, a humanidade é composta pela barbárie e o retorno, inclusive, à antropofagia; a luta de tribos e um pouco mais tarde, de cidades-estados (como na Grécia antiga) se intensifica. No seio da Ordem, o conhecimento, pouco a pouco, vai sendo recuperado. Não obstante, ouvem-se os rumores de uma nova guerra.

Na terceira divisão, algumas pessoas identificam com mais facilidade os elementos caracterizadores da ficção científica propriamente ditas, com elementos futuristas como naves interestelares, carros automáticos, computadores, tecnologia nuclear, etc.

Um Cântico Para Leibowitz, publicado, como se viu, em 1959, adianta já alguns elementos técnicos narrativos da pós-modernidade. Integram o texto muitas onomatopeias (termos usados para representar ruídos, como hummpf!) frequentes em histórias em quadrinhos. Trechos de entrevistas, com alternância rápida de diálogos. Outro uso interessante é o do monólogo, ou diálogo interno.

O sarcasmo intenso perpassa o livro e, às vezes, a amargura tem o seu lugar. Vejamos alguns trechos.

Observe, leitor, o sarcasmo com que é descrita a figura do abade:

“O abade caminhava ao longo dos muros da abadia ao pôr do sol, seu maxilar projetado para frente como um velho rochedo barbado contra o qual arrebentavam as possíveis ondas do mar dos acontecimentos. Seus cabelos ralos esvoaçavam como flâmulas brancas ao vento do deserto, o mesmo vento que enrolava seu hábito colado como uma bandagem ao corpo curvado para frente, dando-lhe a aparência de um Ezequiel emaciado e dotado de uma pança estranhamente arredondada.” (página 157)

E nesta outra passagem:

“Havia novamente espaçonaves naquele século, e eram veículos tripulados por impossibilidades indistintas que caminhavam sobre duas pernas e tinham tufos de pelos brotando em partes inesperadas de sua anatomia. Eram criaturas expansivas e animadas. Pertenciam a uma raça muito capaz de admirar a própria imagem ao espelho, e igualmente capaz de cortar a própria garganta perante o altar de algum deus tribal, como, por exemplo, a deidade do Barbear Diário.” (página 283)

A amargura está evidente no trecho:

“O monge entregou a carta e saiu. Zerchi deixou-a fechada e mais uma vez olhou rapidamente para a promessa redigida pelo médico. Sem nenhum valor, talvez. Mas mesmo assim o homem tinha sido sincero. E dedicado. Ele teria de ser dedicado a julgar pelo trabalho que realizava pelo pagamento que a Estrela Verde oferecia. Parecia dormir menos do que precisava e trabalhar demais. (...) Vendo desgraças para todo lado e detestando, sincero em seu desejo de fazer algo a respeito. Sincero: essa era sua maldição. De longe, nossos adversários parecem malignos, mas, de perto, podemos enxergar sua sinceridade e ver que é tão grande como a nossa. Talvez satã fosse o mais sincero de todos.” (página 341)

Muita coisa poderia anotar nessa resenha, caro leitor, mas ela já vai muito longa. O livro é cheio de referências merecedoras de estudos mais aprofundados do que uma humilde resenha pode ofertar. E, sempre lembrando, não se procura nesse blog um trabalho acadêmico, mas sim oferecer uma degustação honesta sobre a obra lida. Parcial, é claro; subjetiva, sim. Enfim, o fito é adiantar alguma coisa sobre um livro, para que você – que não o leu – decida se quer ou não se aventurar.

Mas já o aviso: desejo seduzir você para a leitura deste Um Cântico Para Leibowitz. Para mim, não é apenas um clássico de ficção científica; é um clássico digno de figurar entre os clássicos de quaisquer gêneros. Quatrocentas páginas foram devoradas em três dias. Terminei de o ler no dia 21/01/2016, por volta das onze horas da noite; simplesmente, não conseguia me desgrudar do livro e, ao final da leitura, o indício seguro de que tinha valido a pena. Uma sensação de completude, de prazer estéticos.


MILLER JR., Walter M. Um Cântico Para Leibowitz. s/ ed. Editora Aleph. Rio de Janeiro, RJ: 2014

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Resenha nº 64 - O Tempo Entre Costuras, de María Dueñas

Resultado de imagem para livro o tempo entre costurasMaría Dueñas nasceu em Puertollano, Ciudad Real, em 1964. É PhD em Filologia Inglesa. Trabalha como professora na Universidade de Múrcia, tendo ainda lecionado em  universidades americanas. Em 2009, publicou o romance El Tiempo Entre Costuras (O Tempo Entre Costuras), que se tornou um Best-seller, um sucesso de público e de crítica. É autora de diversos trabalhos acadêmicos, com participação em diversos projetos educacionais, culturais e editorais.

Escreveu, ainda, Misíon Olvido, de 2012, (A Melhor História Está Por Vir) e Destino: La Templanza, de 2015 (conservaram o título espanhol na tradução brasileira). Todos os livros dessa autora publicados no Brasil são da Editora Planeta.

O texto do romance se estende por 471 páginas de puro prazer da leitura. A ambientação em que se movem os personagens é a de dois conflitos armados – A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Com uma vasta e sólida pesquisa sobre essas duas conflagrações, María Dueñas consegue construir ricas referências históricas e culturais. Seus personagens fictícios convivem lado a lado com personagens reais.

Numa preocupação assumida, Dueñas não abre mão de incluir, ao final do livro, uma bibliografia utilizada na pesquisa. Muitos são contra tal apêndice numa obra ficcional; a meu ver, isso só valoriza um romance de fundo histórico. É mais uma questão pessoal, já que a ausência de uma bibliografia assim não desmerece qualquer obra narrativa.

O texto da autora é muito fluente, o que contribui sensivelmente para o seu sucesso; a leitura não representa qualquer dificuldade para o leitor mediano. As referências, quando atinentes às guerras, personalidades espanholas, à haute couture (alta costura) são devidamente explicadas, para que o leitor não se perca. O enredo apresenta boas reviravoltas, manejadas – surpreendentemente, mas não tanto – pela ficcionista iniciante. Ressalvei o termo "surpreendentemente", acima, pois acredito ser María Dueñas uma leitora frequente de obras literárias, como se pode depreender da segurança com que manipula a narrativa. À medida que a gente vai lendo, inconscientemente internaliza estruturas textuais, elaborações de personagens.

Sira Quiroga, a protagonista deste O Tempo Entre Costuras, é absolutamente fascinante. Acompanhamos o seu desenvolvimento desde uma ingênua adolescente, aprendiz de costureira, trabalhando com sua mãe no ateliê de dona Manuela, em Madri, insegura e dependente, a uma mulher madura, dona de suas escolhas e do seu destino. Nesse sentido, a presente obra se caracteriza como um romance de formação.

Rosalinda Fox é uma inglesa, muito esperta, vivida, não obstante presa a um casamento infeliz (fora contraído quando ela estava muito nova) com um marido que não lhe concede o divórcio sob nenhuma hipótese. Os diálogos entre Sira e Rosalinda são pontuados de termos em inglês, português e um espanhol pouco fluente. Tornam-se amigas.

Candelária é outra personagem excelente. Velha trambiqueira, contrabandista de plantão, terá um papel fundamental na vida de Sira. Dona de uma pensão, uma verdadeira pocilga, essa mulher sem muita instrução, mas com uma enorme experiência de vida é afável e dura e, ao mesmo tempo, uma verdadeira mãezona para a protagonista.

Dom Claudio Vázquez é um delegado humano, com um forte sentido de intuição, sentido esse usado por ele sem culpa. Sira também deverá a Dom Cláudio, durante parte da narrativa, alguns favores imprescindíveis para ela.

O coronel Juan Beigbeder Atienza é um alto comissário da Espanha em Marrocos; supreendentemente, sente-se em casa entre os marroquinos. Creio, María Dueñas tirou um coelho da cartola, ao construir um personagem como este. É um militar sensível, culto, com ideias, digamos, pouco afeitas ao militarismo, ao nazismo hitleriano e à ditadura do Generalíssimo Franco.

Marcus Logan, de origem inglesa, a princípio um jornalista que vai fazer um trabalho sobre o Marrocos – mais precisamente, a cidade de Tetuán – é cheio de mistérios, alguém que irá ocupar um papel fundamental na vida de Sira. Ela obterá revelações importantes sobre ele no final da história.

Gonzalo Alvarado é um empresário cuja empresa possui duzentos empregados; no passado, cedeu a pressões familiares e não impôs sua vontade, não tendo lutado por construir sua vida amorosa ao lado de quem realmente amava, fato ainda perturbador para ele no presente. Como nunca é tarde para mudanças, ele resolve assumir a filha do relacionamento anterior ao seu atual casamento, dotando-a com uma considerável quantia em dinheiro e joias.

Dolores, mãe de Sira Quiroga, outra personagem muito bem elaborada. Mostra-se forte, determinada e segura sobre qual caminho seguir, mas secretamente, tem seus momentos de indecisão. Mesmo assim, é uma mulher com profundo sentido de dever e de caráter. A sucessão dos acontecimentos vai trazer maior flexibilidade à sua forma de pensar e ela consegue, em meio aos conflitos, desenvolver certa visão crítica dos fatos.

Enfim, num ambiente de guerra, de conspirações, a obra nos mostra um pouco do que acontece nos bastidores desses conflitos. Serviços de espionagem e contraespionagem, cenário constantemente ambíguo, inseguro, fluido, no qual nenhum dos envolvidos mostra aquilo que realmente é tornam a vida de Sira Quiroga uma aventura de alto risco; mas é aí mesmo, sem muitas escolhas uma vezes, outras fazendo escolhas de modo acrítico, que ela deverá se mover.

Os personagens vão e voltam, trazendo evocações à protagonista. Ela aprende sentindo o perigo, a dor na própria pele. Tais seres, importantes dentro da narrativa, têm suas virtudes e seus defeitos; Sira Quiroga, por exemplo, tem seus medos, é acusada por Ignácio de não se lembrar dos mais pobres, das pessoas conhecidas do bairro onde havia morado, em Madri e sente o golpe, por ser verdade. Como seres humanos reais, eles mostram às vezes suas faces menos elogiáveis, agem por interesse. Como a certa altura a mãe de Sira lhe lembra, a Inglaterra quer a Espanha fora do apoio às potências do eixo em benefício próprio, mas tal interesse deve ser aproveitado, pois o povo espanhol, sobretudo a camada mais pobre, já não suporta mais passar por privações e desmandos. Ficar fora da guerra seria para eles um alívio ao sofrimento pelas privações impostas pela Guerra da Espanha.

Como já disse, Sira Quiroga tinha uma vida tranquila com a mãe, em Madri. Entretanto, apaixona-se por um homem sedutor, trai o noivo, distancia-se da mãe e muda-se para o Marrocos, na cidade de Tânger. O Marrocos, à época, é um protetorado espanhol, isto é, uma espécie de território anexado à Espanha, mas gozando de bastante liberdade. As coisas se complicam para nossa personagem e ela é obrigada a se mudar para Tertuán e lá monta um ateliê de alta costura, com a ajuda de Candelária. Pela sua confecção circulam mulheres de oficiais alemães e esta movimentação acaba por envolver a senhorita Quiroga num complexo jogo de quebra-cabeças político de bastidores. Aparece a oportunidade de montar uma confecção como a que tem em Tertuán em Madri. É o que faz. De lá, entretanto, depois de algum tempo, viaja para Lisboa, em Portugal.

Sossegue, caro leitor, não estou avançando qualquer spoiler; isso é apenas um resumo, muito por alto, do enredo, uma espécie de planta baixa. O que acontece entre essas constantes mudanças de endereço é o que realmente importa para manter sua atenção à leitura.

Algumas pequenas degustações, como costumo fornecer:

“Uma máquina de escrever detonou meu destino. Foi uma Hispano-Olivetti, e dela me separou durante semanas o vidro de uma vitrina. Visto hoje, do  parapeito dos anos passados, é difícil acreditar que um simples objeto mecânico pudesse ter potencial suficiente para alterar o rumo de uma vida e dinamitar em quatro dias todos os planos traçados para sustentá-la. Pois assim foi, e nada pude fazer para impedir.” (página 10)

“Trabalhei manhã, tarde e noite ao longo dos dias seguintes. Era a primeira vez que eu fazia peças daquela envergadura sozinha, sem a supervisão nem a ajuda de minha mãe ou de dona Manuela. Por isso, apliquei na tarefa os cinco sentidos multiplicados por cinquenta mil, e, contudo, o medo de falhar não me abandonou nem por um segundo. Desmanchei mentalmente os modelos das revistas, e quando as imagens não podiam me oferecer mais nada, afiei a imaginação e intuí tudo aquilo que não consegui visualizar.” (página 124)

“Deus sabe que não sou nenhum liberal, mas acho repugnante o totalitarismo megalomaníaco que Franco montou depois da vitória; esse monstro que ele engendrou e que muitos de nós colaboramos para alimentar. Você não imagina como me arrependo de ter contribuído para engrandecer sua figura em Marrocos durante a guerra. Não gosto deste regime, não gosto de jeito nenhum. Acho que nem gosto da Espanha; pelo menos, não gosto dessa grande e livre que estão tentando nos vender. Passei mais anos de minha vida fora deste país que dentro; aqui eu me sinto um estranho, muitas coisas são estranhas para mim.” (página 327)

A quarta capa da obra diz:

“Seria injusto classificar O tempo entre costuras. Mais correto seria dizer que se trata desses romances deliciosos nos quais cada página nos provoca sensações diferentes. Sem sombra de dúvidas, María Dueñas é dessas autoras que sabem falar e tocar os leitores. Entregue-se a esta história, você não vai se arrepender.”

Não tenho nada a acrescentar. Nem uma vírgula.



DUEÑAS, María. O tempo entre costuras. Editora Planeta do Brasil, 4ª reimpressão. São Paulo, SP: 2012.