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quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Resenha nº 197 - K. - Relato de Uma Busca, de B. Kucinski



 




Título: K.

Autor: B. Kucinski

Editora: Companhia das Letras/TAG

Edição: 4ª

Copyright: 2011

ISBN: 978-65-5921-218-7

Gênero literário: romance

Origem: Literatura brasileira

 

Bernardo Kucinski é cientista político, jornalista e escritor, nascido em São Paulo (1937). Tem formação, ainda, em Física, pela universidade em que leciona. É também professor da Universidade de São Paulo, atuando na cátedra Jornalismo Internacional. É filho de imigrantes poloneses, refugiados no Brasil.

Apenas ficando no campo da ficção, Bernardo publicou K – Relato de Uma Busca (2011), Você Vai Voltar Para Mim (2014), Alice Não Mais Que De Repente (2014), Pretérito Imperfeito (2017), este objeto da resenha nº 147 deste blog – , A Nova Ordem (2019), Júlia: Nos Campos Consagrados do Senhor (2020). O volume de contos Você Vai Voltar Para Mim integra o mais recente volume, A Cicatriz E Outras Histórias – uma coletânea dos contos de Kucinski, publicados em jornais.

Bernardo é ganhador de prêmios. Prêmio Jabuti, de 1997; finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e do Portugal Telecom, de 2012. Em 2018, obteve o Prêmio Vladmir Herzog de jornalismo.

Parte da família de Kucinski que ficou na Europa foi morta pelos horrores do Holocausto, na Segunda Guerra Mundial. Entretanto, o longo braço da tragédia veio alcançá-lo aqui mesmo, no Brasil.

Sua irmã, Ana Rosa Kucinski, professora de Química da USP e seu cunhado desapareceram em abril de 1974, durante a ditadura militar que assolou o Brasil. E é exatamente o desaparecimento da irmã que servirá de matéria narrativa deste romance incômodo que é K.

Bernardo Kucinski é considerado um dos mestres da chamada autoficção e da literatura brasileira contemporânea. Este termo, autoficção, merece algumas considerações, uma vez que vem sendo usado indistintamente, por estar na moda. Sinto-me na obrigação de explicar este rótulo, apesar de não ser objetivo deste blogue entrar em considerações teóricas.

Por autoficção entende-se obra de ficção que se vale dos dados da vida real do autor. Mais que isso, à voz do narrador funde-se a voz do autor. Os fatos, as emoções evidentemente, são aqueles do próprio escritor. Ele fará a seleção dos fatos, de acordo com o andamento pretendido para o romance.

Pode-se confundir autoficção com autobiografia. Entretanto, a autobiografia se pretende fiel à sequência dos fatos reais, quer-se documental, normalmente é escrita com a intenção de informar, de perpetuar a memória de determinada personalidade.

Já a autoficção destina-se a ser lida como um romance, como uma obra literária, na qual o autor exerce suas possibilidades estéticas; a estrutura aqui utilizada é a do romance, com seus conflitos, clímax e desenlaces. Um romance, portanto, não é simplesmente uma sequência de fatos, mas de fatos que servem à confecção de uma narrativa. A seleção deles só se faz por serem significativas para o andamento da estrutura da história.

Temos, então, Bernardo Kucinski como um autor de autoficção. Em K – Relato de Uma Busca há um narrador que se “cola” ao próprio autor. O personagem principal é um pai que busca, incessantemente, por sua filha desaparecida durante a ditadura militar. Envida todos os esforços para ter o direito de encontrar a filha ou, em último caso, poder reconhecer o cadáver dela.

“A tragédia já avançava inexorável quando, naquela manhã de domingo, K. sentiu pela primeira vez a angústia que logo o tomaria por completo. Há dez dias a filha não telefona. Depois, ele culparia a ausência dos ritos de família, ainda mais necessários em tempos difíceis, o telefonar uma vez por dia, o almoço aos domingos. A filha não afinava com sua segunda mulher.

E como não perceber o tumulto dos novos tempos, ele, escolado em política? Quem sabe teria sido diferente se, em vez dos amigos escritores do iídiche, essa língua morta que só poucos velhos ainda falam, prestasse mais atenção ao que acontecia no país naquele momento? Quem sabe? Que importa o iídiche? Nada. Uma língua-cadáver, isso sim, que eles pranteavam nessas reuniões semanais, em vez de cuidar dos vivos.” (páginas 19/20)

Um pai que busca o paradeiro da filha, mas um pai fortemente questionado pelo seu descuido com a família, pois dedicava sua atenção ao culto “do iídiche, essa língua morta que só poucos velhos ainda falam”.

Só agora ele se dá conta de algo muito grave estar acontecendo à filha:

“K rememorou cenas recentes, o nervosismo da filha, suas evasivas, isso de chegar correndo e sair correndo, do endereço só em último caso e com a recomendação de não passá-lo a ninguém.

Atarantado, deu-se conta da enormidade do autoengano em que vivera, ludibriado pela própria filha, talvez metida em aventuras perigosíssimas sem ele desconfiar, distraído que fora pela devoção ao iídiche, pelo encanto fácil das sessões literárias.” (página 23)

 O romance se inicia por uma situação, no mínimo, estapafúrdia:

“De tempos em tempos, o correio entrega no meu antigo endereço uma carta de banco a ela destinada; sempre a oferta sedutora de um produto ou serviço financeiro. A mais recente apresentava um novo cartão de crédito, válido em todos os continentes, ideal para reservar hotéis e passagens aéreas; tudo o que ela hoje mereceria, se sua vida não tivesse sido interrompida. Basta assinar e devolver no envelope já selado, dizia essa última carta.” (página 15)

Estapafúrdia, mas comum. Fico pensando como tal situação se repete, por este mundo afora, no qual um sistema imbecil e insensível dispara mensagens de felicitações de aniversário, desejo de feliz natal a pessoas que já morreram.

Em sua busca incessante, K. descobre que a filha era casada. A descoberta o impacta mais ainda, pois

“A filha confiara na outra família, não nele. Para a outra família o casamento não fora secreto, apenas discreto. Havia nisso um significado maior, terá ela sinalizado uma troca de famílias? Esse pensamento o machucava. Teria sido uma resposta ao seu segundo casamento com aquela alemã que a filha detestava? Ou à sua devoção tão intensa à língua iídiche? Uma língua que nem ela nem os irmãos sabiam falar, aliás, por culpa dele, que não se preocupou em os ensinar.” (página 51)

Tentativas aqui, tentativas ali e K. não sabe mais sobre sua filha do que incialmente sabia. Aciona amigos que, por sua vez, acionam outros contatos a fim de conseguir elucidar o que acontecera à filha. Comparece à igreja católica do bairro onde mora, na qual o sacerdote rebelde tenta minorar o sofrimento de várias famílias. Ele usa seus conhecimentos para obter informações sobre os desparecidos, mas muito pouco obtém de palpável. A máquina montada para fazer desaparecer, calar vozes dissidentes é muito bem azeitada.

Em K – Relato de Uma Busca não há risco de spoilers. A ausência, a inevitabilidade de se encontrar sequer os corpos daqueles sequestrados pelo regime, entre eles, o da irmã do narrador, é anunciado desde o começo.

Nas leituras de apoio que acompanham o livro é dito que

“De tudo, a única coisa que ele deixa transparecer é a referência a Kafka, padroeiro e assombração de quase todo escritor judeu. A primeira referência está clara no nome de seu personagem e no eco entre a trama de K. e a de O Processo. Em ambas, protagonista navega por uma burocracia torturante na tentativa de esclarecer um processo judiciário opaco” (página 9 da revista da TAG, Isadora Sinay)

Concordo. Natural que seja assim. Há uma relação biunívoca entre o nonsense kafkiano e o nonsense vivido pelos judeus no Holocausto. E o nonsense vivido pela família Kucinski aqui, no Brasil.

Não há cadáver, não há o fechamento natural de uma morte; um desparecimento é como uma suspensão, mas, como em música, uma suspensão cria uma tensão no ouvinte, a expectativa de outra nota que virá. No caso do desaparecimento, a nota restauradora não vem.

Ao leitor desconhecedor dos desdobramentos do Holocausto, talvez estranhe muito tamanha dedicação de K. ao culto do iídiche. Ainda utilizando os esclarecimentos de Isadora Sinay, à página 10 da revista de apoio da TAG:

“De tudo que se perdeu no Holocausto, nada é mais representativo do que o iídiche, a língua que desapareceu com os judeus da Europa. De língua materna de milhões de pessoas, o iídiche é hoje uma língua de avós, de palavras pronunciadas com carinho ou uma maldade íntima. Uma língua que, em seu desaparecimento, foi deixando sem lar aqueles como K., exilados de uma Europa impossível e que havia encontrado na literatura da língua uma extensão da comunidade judaica que tinham sido forçados a abandonar.”

Ou seja, mata-se uma língua materna, mata-se uma cultura, neste esforço de apagamento de seres.

Do ponto de vista estrutural, o romance K., de B. Kucinski pode ser enquadrado como um romance fix up. Este termo inglês, significando “gambiarra”, “arranjo”, “conserto”, caracteriza aqueles romances que são compostos por contos cujos personagens recorrentes, ou às vezes, a ambientação em comum formam um contínuo. Um bom exemplo disto é Eu, Robô, de Isaac Asimov. O termo é mais comumente aplicado aos livros de ficção científica, mas não creio exceder-me nesta qualificação. O livro se compõe de contos, como o atesta o próprio autor, ao comentar como elaborou a obra. Um tênue fio conduz o enredo até o fim, o do pai procurando a filha.

Este é um livro que mexe com minhas memórias e, portanto, me afeta emocionalmente. Eu era estudante universitário na parte final da ditadura militar. Embora não tenha sido afetado diretamente pelas ações dela, tive colegas que simplesmente desaparecerem, como Ana Rosa Kucinski. E corria, entre nós, os alunos, avisos para tomarmos cuidado com fulano, gente tão fina, pois eram dedos-duros da famigerada ditadura.

E, por isso, me irrito quando se esforçam para me convencer de que não houve ditadura, alegando “você não foi molestado”. Por este nefando raciocínio, o que não acontece a mim, não me importa. Poderia aliviar, “mas esta é outra história”. Não, não é verdade: é a mesma história.

K – Relato de Uma Busca: um livraço, uma transfiguração da dor em literatura. A generosidade de uma vivência individual em partilha. Obrigado, Bernardo Kucinski.


terça-feira, 6 de setembro de 2022

Resenha nº 196 - Sula, de Toni Morrison

 

 


Título original: Sula

Autora: Toni Morrison

Tradutor: Bárbara Landsberg

Editora: Companhia das Letras/TAG

Edição: 1ª

Copyright: 1973; 2004

ISBN: 978-85-359-3428-1

Origem: literatura americana

Gênero literário: romance

 

 

Chloe Ardelia Wofford, ou, como é mais conhecida, Toni Morrison, veio ao mundo na cidade de Lorain (Ohio), em 18/02/1931, e faleceu em Nova York, em 05/08/2019. Escritora, editora e professora universitária, estreou na literatura com O Olho Mais Azul (1970) – resenha de número 149, neste blogue.

Mas a obra desta escritora que chamou atenção sobre ela foi Song Of Solomon (1977). Sula, aqui resenhada, é seu segundo livro, publicado em 1974. Autora também de uma trilogia, na qual continua o relato das experiências vivenciais de mulheres afro-americanas. É composta por Amada (1987), Jazz (1992) e Paraíso (1997).

Nossa escritora vem de uma família profundamente afetada pela Grande Depressão, termo pelo qual ficou conhecido o Crash da Bolsa de Nova York, em 1929, com graves repercussões pelo mundo.

Toni era uma leitora ávida; alguns de seus autores prediletos eram Jane Austen e o russo Liev Tólstoi. Sua dissertação de mestrado, pela universidade de Cornell, foi sobre o suicídio nas obras de William Faulkner e Virginia Woolf.

Por Amada Toni Morrison levou o prestigiado prêmio Pulitzer. Este livro foi considerado pelo jornal The New York Times a melhor obra americana em 25 anos. A escritora, obteve, entretanto, o maior reconhecimento em 1993, com o Nobel de Literatura. A primeira escritora negra a ganhar tal distinção.

Ainda, uma saborosa curiosidade: de acordo com uma entrevista para o famoso jornal The Guardian, Morrison nos relata a origem do seu “apelido literário”. É que, segundo ela, em 1912, converteu-se ao catolicismo, tendo recebido o nome de batismo de Anthony, de onde veio Toni. O sobrenome Morrison lhe veio do casamento com o arquiteto jamaicano Harold Morrison, também professor.

Apesar de, em seus romances, abordar sempre mulheres negras, fortes e determinadas em suas batalhas de empoderamento, a autora não se considera uma feminista. Ela afirmou, certa feita, “Não concordo com o patriarcado, e não acho que ele deve ser substituído pelo matriarcado. É uma questão de acesso igualitário, de abrir portas para todos os tipos de coisas”.

Neste livro Toni Morrison nos conta a história de Nel Wright e Sula Peace, uma amizade que atravessa o tempo, desde quando eram crianças e moravam numa cidade pequena, localizada em Ohio. O nome era Medallion; mais precisamente, as duas residiam na parte mais pobre de Medallion, conhecida por Fundão:

“Uma piada. Uma piada de crioulo. Foi assim que começou. Não a cidade, é claro, mas aquela parte da cidade em que os negros moravam, a parte que chamavam de Fundão apesar de ficar no alto das colinas. Só uma piada de crioulo. Do tipo que os brancos contam quando o engenho é encerrado e estão buscando um pouco de consolo em algum lugar. Do tipo que as próprias pessoas de cor contam quando a chuva não vem, ou vem por semanas a fio, e estão buscando um pouco de consolo em algum lugar.” (páginas 26/27)

A vida da comunidade negra não era fácil. A pobreza, o preconceito dos brancos, a falta de oportunidades para ascenção social eram terríveis. Com alta frequência, o que restava às mulheres negras era a prostituição, como meio de sobrevivência. Um dos prostíbulos famosos era o Sundown House, onde nascera Helene Wright, mãe de Nel:

“De modo geral, sua vida era satisfatória, adorava sua casa e gostava de manipular a filha e o marido. Às vezes suspirava logo antes de adormecer, pensando que de fato tinha ido para bem longe de Sundown House.” (página 40)

Enquanto Nel era mais comportada, mais sonhadora, Sula era mais atrevida e “bagunceira”. Entretanto, as duas se combinavam, e Nel sentia verdadeiro fascínio por sua amiga, apesar de não poder ser do mesmo jeito:

“Mas isso foi antes de conhecer Sula, a menina que via fazia cinco anos na Garfield Primary, mas com quem nunca tinha brincado, nunca tinha conhecido, pois sua mãe dizia que a mãe de Sula era retinta. A viagem, talvez, ou seu recém-descoberto senso de individualidade lhe deu forças para cultivar uma amiga apesar da mãe.” (página 50)

Portanto, o racismo era algo endêmico naquela sociedade do Fundão. Não só brancos discriminavam negros, os negros discriminavam os brancos, mas os próprios negros discriminavam os “retintos” – de pele mais negra do que o “normal”.

Onde a luta feroz pela sobrevivência é a regra social, pouco espaço existe para delicadezas e famílias felizes. As descobertas, neste meio, não se fazem por deduções filosóficas ou aplicações religiosas, apenas pelas cruas experiências da vida, como no trecho a seguir:

“Já que ambas tinham descoberto anos antes que não eram nem brancas nem do sexo masculino, e que toda liberdade e triunfo lhes eram proibidos, elas passaram a criar outra coisa para ser. O encontro foi auspicioso, pois possibilitou que uma visasse a outra para seguir crescendo. Filhas de mães distantes e pais incompreensíveis (o de Sula, porque estava morto; o de Nel porque não estava).” (página 72)

No capítulo inicial da parte dois deste livro há uma cena muito interessante. Ela acontece com a chegada de Sula a Medallion, após algum tempo fora:

“Acompanhada de uma praga de tordos, Sula voltou a Medallion. Os passarinhos trêmulos com peito de inhame estavam por todos os lados, estimulando as crianças pequenininhas a deixar de lado a acolhida habitual e partir para o apedrejamento cruel. Ninguém sabia por que ou de onde vinham. O que sabiam era que não se ia a lugar nenhum sem pisar na bosta perolada deles, e era difícil pendurar roupas, arrancar ervas daninhas ou simplesmente ficar sentado no alpendre havendo tordos voando e morrendo ao redor.” (página 109)

Esta descrição me fez lembrar do filme Birds (Pássaros), de Alfred Hitchcock. Num completo nonsense, numa cidadezinha da Inglaterra, pássaros, de repente, começam a se juntar. Não há explicações. Hitchcock eleva o suspense; de um minuto para o outro, os animais se tornam camicases, se atirando sobre as pessoas e prédios.

Aqui, é um pouco diferente. Os tordos são pássaros europeus, originalmente tendo o campo como habitat. Com a destruição do seu domínio, aprenderam a viver em parques e jardins. Pois os tordos antecipam a chegada de Sula, como aves de mau agouro, aparecendo aos montes, morrendo pelas mãos das crianças pequenininhas.

O mal seria, então, algo imanente ao ser humano? Sula é uma representante do mal?

Sula se transforma numa mulher adulta que se recusa a ser domada. E, como o freio mais ostensivo sobre as mulheres se dá exatamente no sexo – aos homens, tudo é permitido, às mulheres, nada – é também (ou principalmente) nesta área que Sula afronta a todos:

“Era uma pária, então, e sabia disso. Sabia que a desprezavam e acreditava que eles enquadravam o ódio como asco pelo jeito fácil com que se deitava com os homens. O que era verdade. Ela ia para a cama com homens na maior frequência possível. Era o único lugar onde achava o que procurava: sofrimento e capacidade de sentir profunda tristeza. Nem sempre teve consciência de que era a tristeza o que almejava. Fazer amor lhe parecia, a princípio, a criação de um tipo especial de alegria. Julgava gostar da fuliginosidade do sexo e de sua comédia; ria bastante durante os começos ruidosos e rejeitava os amantes que consideravam sexo saudável ou lindo. A estética sexual a entediava.” (página 140/141)  

Parece-me, entretanto, que esta liberdade a que se atirava Sula era enganosa. Muitas vezes nós, seres humanos, sociais, nos sentimos sufocados pelas forças de contenção, de normatização advindas da sociedade. E, muitas vezes, nos lançamos a confrontá-las, a transgredi-las como ato externo, sem analisarmos se tais confrontos realmente constroem algo em nossa alma.

Tal se dá com a personagem Sula, pois

“Quando o parceiro se desprendia, ela erguia os olhos com espanto, tentando lembrar do nome dele; e ele olhava para ela de cima, sorrindo com a compreensão terna do estado de gratidão lacrimosa ao qual acreditava tê-la levado. Esperava com impaciência que ele virasse as costas e se acomodasse em uma espuma molhada de satisfação e leve asco, deixando-a na privacidade pós-coito em que ela se encontrava, se acolhia e se juntava a si em uma harmonia inigualável.” (página 142)

Amor ou posse? Fragmentar-se, dar-se como forma de reunir os próprios fragmentos e, na ilusão da doação, a posse? A Literatura é absolutamente admirável porque nos leva a mundos interpretativos equidistantes e possíveis. Já se disse, Toni Morrison vai, muitas vezes, por construções complexas e psicanalíticas de enredo e personagens. Tanto Sula quanto Nel poderiam estar num divã freudiano.

As duas haviam contratado um silêncio sobre um fato terrível acontecido no passado. A morte, a destruição, o desaparecimento, a mudança são algumas das angústias deste romance excelente:

“A Sula estava enganada. O inferno não é as coisas durarem para sempre. O inferno é a mudança. Não só os homens iam embora e filhos cresciam e morriam, mas nem a tristeza era duradoura. Um dia não teria nem isso. Esse mesmo sofrimento que a fazia se contorcer era uma curva no chão e a esfolava passaria. Perderia também isso.” (página 127)

Não sei dizer se isto é consciente em Toni Morrison, mas sua expressão artística filia-se àquela teoria de que a Literatura deve nos incomodar, tirar nosso chão, sacudir-nos, para melhor nos analisarmos.

Termino de ler Sula com inquietação. Não porque seja daqueles leitores que, à vista do pessimismo de um autor, o repudiam. Aprecio alguns autores que são bastante pessimistas; a outros, ditos otimistas, também aprecio. Sula não é uma leitura simples e não se pode ficar na superfície deste texto, sob pena de se perder o essencial.

Que tal deixar Toni Morrison finalizar esta resenha, com um dos trechos mais impactantes, dramático-filosófico, de que mais gostei? O narrador vê aqueles personagens do Fundão da seguinte maneira:

“Não acreditavam que a morte fosse acidental – a vida podia até ser, mas a morte era proposital. Não acreditavam que a natureza pudesse ser torta – apenas inconveniente. Pragas e secas eram tão “naturais” quanto a primavera. Se o leite podia coalhar, Deus sabia que tordos podiam cair. O sentido do mal era sobreviver a ele e decidiram (sem nunca saber que agiam deliberadamente) sobreviver a inundações, aos brancos, à tuberculose, à fome, à ignorância. Conheciam bem a raiva, mas não o desespero, e não apedrejavam pecadores pela mesma razão que não cometiam suicídio – estava aquém deles.” (página 110)

Sula, de Toni Morrison. Não, redefino o que afirmei. Não é apenas um excelente romance. É um romance soberbo. Provavelmente, não para todos os leitores. Eu assumo, tenho de relê-lo, várias vezes.


domingo, 21 de agosto de 2022

Resenha nº 195 - Esfinge, de Coelho Neto

 




Título: Esfinge

Autor: Coelho Neto

Editora: Legatus

Edição: 1ª

Copyright:2020

ISBN: 978-1-8380473-5-1

Origem: literatura brasileira

Gênero literário: Romance de Ficção Científica

 

Henrique Maximiano Coelho Neto nasceu em 21/02/1864, em Caxias (Maranhão) e faleceu no Rio de Janeiro, em 28/11/1934. Era filho do português Antônio da Fonseca Coelho e da índia Ana Silvestre Coelho. Coelho Neto, como ficou conhecido, fez seus primeiros estudos no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, para onde sua família havia se mudado. Ele contava com seis anos de idade neste evento.

Tentou estudar medicina, mas acabou desistindo do curso. Em 1883, iniciou seus estudos superiores na Faculdade de Direito de São Paulo. De espírito inconformado com muitos fatos, viu-se envolvido em um movimento de protesto contra um professor. Diante da possibilidade de represálias, transferiu-se para o Recife, cidade na qual começou o primeiro ano de Direito, sob o comando de Tobias Barreto.

De ideais republicanos e abolicionistas, Coelho Neto tornou-se companheiro assíduo de José do Patrocínio, participando da campanha contra a escravidão no Brasil. Ingressou no jornal Gazeta da Tarde e depois no A Cidade do Rio, onde obteve o cargo de secretário. Data desta época a publicação de seus primeiros trabalhos.

Escreveu 120 obras, abrangendo os gêneros romances, contos, crônicas e teatro. Utilizou vários pseudônimos, tais como Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manês. Entre sua vasta obra literária, A Conquista (1899), Turbilhão (1906), Esfinge (1908) e Fogo Fátuo (1928).

Num concurso, promovido pelo famoso jornal O Malho, nosso autor foi reconhecido como “o príncipe dos prosadores brasileiros”. Foi um dos escritores mais lidos de sua época. Entretanto, por seu preciosismo textual, os autores modernistas (a Semana de Arte Moderna é de 1922) declararam guerra ao nosso autor. O beletrismo de Coelho era tudo o que o vendaval modernista abominava. Resultado, o autor caiu no ostracismo.  

Como venho fazendo sempre que abordo uma obra com mais anos de existência, passo à contextualização. Este livro foi publicado em 1908, quando o Rio de Janeiro vivia a Belle Époque – nome francês para designar o período agitado que vai do final do século XIX até a Primeira Guerra Mundial. No Brasil, durou até a Semana de Arte Moderna. Por todo lado, vivia-se a euforia, pois o futuro anunciado era esperançoso. Houve uma explosão de inventos que mudariam, realmente, a sociedade como as pessoas a conheciam. Invenção do avião, do automóvel, do telégrafo e telefone, da lâmpada elétrica. A ciência anunciava um mundo de bem-estar e era o centro das aspirações.

Nem tudo, entretanto, eram flores. Também ocorreu o êxodo rural para as cidades, a exploração da mão de obra trabalhadora. As nações europeias disputavam entre si a primazia no campo das artes, cultura e ciência; teve início a corrida armamentista – citada como um dos fatores decisivos para a Primeira Guerra Mundial.

O Brasil mantinha intenso intercâmbio com a França. A elite brasileira viajava a Paris, a fim de se informar a respeito da última moda, dos artistas mais prestigiados. A Belle Époque se fez presente, em nosso território, nas regiões mais adiantadas economicamente, como as do ciclo da borracha (Amazonas e Pará), as do ciclo cafeeiro (São Paulo e Minas Gerais). As três cidades principais de origem colonial (Rio de Janeiro, Recife e Salvador) também foram tocadas por esta verdadeira febre.

O estilo arquitetônico característico do período é o Art Noveau. Como exemplos desta tendência, temos o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Theatro Amazonas, a Confeitaria Colombo (Rio), a Estação da Luz (São Paulo), o Castelinho da Floresta e a casa de Afonso Pena Júnior (Belo Horizonte).

Esfinge é um livro de leitura difícil. Parte de sua dificuldade vem exatamente da linguagem empregada pelo autor. Coelho Neto é um beletrista. Isto quer dizer que ele escolhe palavras pouco comuns, usa frases caudalosas, dotando o texto, a meu ver, de afetação desnecessária, artificial. Talvez, mais fácil do que explicar, para o entendimento de quem me lê seja trazer um trecho:

“Os hóspedes tratavam-se com intimidade, só o inglês do segundo andar, o apolíneo James Marian, retraía-se a todo o convívio, sempre sorumbático, calado, aparecendo raramente à mesa às horas das refeições, tomando-as só ou no quarto, quando não as fazia no jardim, a uma pequena mesa de ferro, à sombra das acácias, com champanhe a refrescar em um balde, ouvindo os passarinhos.” (página 49)

O trecho selecionado acima mostra bem o bordado dos termos escolhidos. Observe a o longo período subordinado, cheios de vírgulas. Para o leitor moderno, desacostumado deste jeito de escrever, a percepção do que o autor deseja comunicar é difícil.

A pensão de Miss Barkley tinha boa reputação na cidade do Rio de Janeiro. Ali, viviam pessoas de cor branca, representantes da classe média em ascenção na sociedade carioca. A maternal Miss Barkey, inglesa de origem e dona da pensão; Miss Fanny, também inglesa, jovem e professora; o próprio narrador (do qual não saberemos o nome); Frederico Brandt, professor de piano, crítico musical e compositor; o comendador Bernaz, o mais antigo morador. Ainda, Décio, estudante de medicina e admirador da poesia francesa (citando, nominalmente, Baudelaire) e inglesa; Alfredo Penalva, estudante de medicina; Péricles de Sá, viúvo, empreiteiro de obras e fotógrafo ocasional; Basílio, guarda-livros. Completam o “time”, Chispim, estudante de Direito; Carlos e Eduardo, irmãos de origem inglesa, empregados em uma casa importadora. E, por fim, o protagonista, o inglês James Marian.

O “apolíneo” (belo) James Marian é, dentre todos, o mais excêntrico e misterioso. Dono de um rosto de beleza feminina, tem um corpo viril, musculoso. Por esta dualidade, causa estranheza por onde passa. Veste-se com apuro, um dândi (creio que o termo mais atual, que corresponde a esta palavra fora de moda, seria mauricinho). Não é preciso ser expert para deduzir que, num ambiente de intimidade forçada, como o da pensão, as fofocas, o assunto de todos os dias, não poderia ser outro além daquele estranho inglês.

Quando Brandt executa suas músicas ao piano, com maestria, duas pessoas sempre vêm ao jardim da pensão, a fim de escutar melhor a execução: James Marian e Fanny. Pouco a pouco, chegamos à revelação de que a professora Fanny se apaixonou por James. Entretanto, este não corresponde aos seus anseios femininos.

Marian é uma alma atormentada. Sofre de acessos episódicos, em que se debate, de olhos arregalados, como se visse fantasmas, forçando a gola da camisa como se lhe faltasse ar. Depois, volta ao normal.

James Marian demonstra amizade ao narrador. Isto leva o protagonista a solicitar-lhe a tradução de um manuscrito que carrega. É a história de sua vida. Por este artifício, o autor nos leva ao conhecimento da história de Marian. E que história, meus caros leitores! Pois James Marian era um híbrido, um corpo masculino sobre o qual havia sido implantada uma cabeça feminina.

Coelho Neto tomou emprestada esta ideia do Frankenstein, de Mary Shelley, adaptando-a. Certo Arhat – misto de cientista, orientalista, alquimista – conhecedor profundo de uma tal Ciência Magna, havia conseguido unir o que restava de um corpo masculino, ainda com vida, com uma cabeça feminina de uma jovem cujo corpo estava destroçado. O autor não nos explica o que seria tal ciência.

Engana-se quem pensar que Arhat era só um cientista e que, à moda do Frankenstein, abandona sua criatura e mesmo a abomina. Ele tem amor paternal por James:

“Na mesma noite em que consegui realizar a conjunção dos dois corpos, que eram da Morte e que reintegrei na Vida, cedendo à terra o tributo que lhe cabia, porque os tassalhos foram sepultados pelo meu servo fiel, deixei a casa, vindo habitar este antigo castelo onde, à custa da minha própria essência, com prejuízo da minha energia, fui alimentando a vida que hoje tens, dando-te o meu fluido com o mesmo amoroso desinteresse com que a ave maternal encrava as garras no peito, esborcina a chaga a bicadas, fazendo rebentar o sangue com que ciba o ninho.

És verdadeiramente o filho da minha alma.” (página 159)

Temos, portanto, a “realidade” de James Marion. Um ser ambíguo em sua (re)criação; uma cabeça que pensa em chave feminina, num corpo masculino – por quem se apaixonara Fanny. O feminino em James Marion jamais poderia liberar o masculino nele para corresponder ao amor manifestado pela professora.

O protagonista corre o mundo em busca de um sentido para sua vida. Muitos anos depois, após a Segunda Guerra Mundial, o psicoterapeuta Viktor Emil Frankl elabora a sua psicologia denominada Logoterapia. Ele defendia que o impulso mais forte a mover um ser humano é encontrar um sentido para a sua vida. A função do logoterapeuta, portanto, é ajudar o paciente a encontrar o seu sentido de vida, para ser pleno.

Filosofias, religiões diversas não deram conta do conflito interno, da transexualidade de Marion. Então, recorre ao Brasil na tentativa de encontrar aqui, junto à exuberância da natureza, o apaziguamento, o sentido para a vida. Tentativa inútil. E como não encontra a paz, deve partir, ir buscá-la ainda em outro lugar.

Mas, haverá algum lugar, alguma filosofia, alguma religião, ou mesmo alguma psicologia a resolver tal impasse? Não é só a transexualidade conflituosa; a ela, soma-se a questão ambígua da sua re(criação). Marion é e não é humano. É humano, se se considerar que Arhat usou sua ciência para juntar duas partes humanas. Não é humano, pois o alquimista interferiu no ciclo de vida-morte e criou um híbrido por meio de uma intervenção não natural.

Não se enquadra na discussão atual de gênero versus sexo. James não é, simplesmente, um homem com psicologia feminina e muito menos, uma mulher com psicologia masculina; são duas peças distintas, em irremediável conflito, como lhe assevera o próprio Arhat:

“Se em ti predominar o feminino que transluz na beleza do teu rosto, o rosto de tua irmã, serás um monstro: se vencer o espírito do homem, como faz acreditar o vigor dos teus músculos, serás como um ímã de lascívia: mas infeliz serás como ainda não houve outro no mundo se as duas almas que pairavam sobre a carne rediviva lograram insinuar-se nela.

O Linga-sharira, ou corpo astral, “aura” ambiente, que circula, em auréola, em torno da cabeça, é o último princípio que abandona o corpo e a tua cabeça é feminina. Será o coração viril?” (página 161)

Trata-se, como está explícito na passagem, de duas almas que tentam conviver no mesmo corpo e isto não é simbólico. É validado pelo raciocínio de que, se o corpo astral de característica feminina circula ao redor da cabeça, o corpo astral masculino, por semelhança, circula ao redor do resto do corpo.

Coelho Neto, como grande construtor de narrativas que é, não deixa pontas soltas. Uma delas, o que será feito de Fanny; está lá, leitor; só não vou contar para você o que acontece. Haveria algo mais que o relato do narrador, que dê ao livro um fechamento mais verossímil? Claro que há, mas também não o adianto. Sugiro que você se aventure a ler o livro.

Parte da citação acima, relativa à página 161, nos dá ideia da complexidade dos componentes sob a superfície do texto. Coelho Neto faz uma mistura de orientalismo, conceitos teosóficos e espiritismo. Não soa falso porque o personagem Arhat é instaurado como um sábio, versado na Magna Ciência. Desta expressão, conclui-se tratar-se de uma ciência maior, além do conhecimento comum. Uma mistura entre o experimentalismo científico e o conhecimento ocultista, que resultaria numa ciência dos deuses (grifo nosso). A época privilegiou muita especulação de cunho ocultista, teosófico, espírita. Para se ter ideia do ambiente do Rio de Janeiro, Marcelo Spalding (in Digestivo Cultural) cita trecho de As Religiões do Rio, do cronista João do Rio (1904):

“Nós dependemos do feitiço. Não é um paradoxo, é a verdade de uma observação longa e dolorosa. Há no Rio magos estranhos que conhecem a alquimia e os filtros encantados, como nas mágicas de teatro, há espíritos que incomodam as almas para fazer os maridos incorrigíveis voltarem ao tálamo conjugal, há bruxas que abalam o invisível só pelo prazer de ligar dois corpos apaixonados, mas nenhum desses homens, nenhuma dessas horrendas mulheres tem para este povo o indiscutível valor do feitiço, do misterioso preparado dos negros.”

Vou ser honesto com você: eu, com a experiência de quem já leu muita coisa e coisas variadas, tive dificuldade em completar a leitura. Somente com disciplina venci alguns capítulos intermediários, usando a intuição leitora de que o restante do livro compensaria a dedicação. Confiei no talento de Coelho Neto, já detectado nos capítulos iniciais, e segui adiante. Não me decepcionei.

Tenho com este Esfinge sentimentos confusos. É uma obra “fora da curva”, estranha, leitura cheia de camadas. Não tenho muito costume com literatura gótica e talvez daí venham tais sentimentos confusos. Vale lembrar, o teórico das histórias de fantasia, Tzvetan Todorov, nos alerta de que um dos elementos do fantástico é, exatamente, o estranhamento.

Foram importantíssimos para esta tentativa de resenha os dois textos de apoio que acompanham esta bela edição da Editora Legatus. Um prefácio do professor Alexander Meireles da Silva e um posfácio, de autoria da professora Mary Elizabeth Ginway. Sem eles, a leitura teria sido menos proveitosa.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Resenha nº 194 - Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe

 



Título original: Die Leiden des jungen Werthers

Título em português: Os Sofrimentos do Jovem Werther

Autor: Johann Wolfgang von Goethe

Tradutor: Daniel Martineschen

Editora: TAG Experiências Literárias

Copyright: domínio público

ISBN: 978-65-88526-21-7

Origem: Literatura alemã

Gênero Literário: romance

 

Johann Wolfgang von Goethe nasceu em 28/08/1749, na cidade de Frankfurt e faleceu em 22/03/1832, em Weimar, ambas localidades da Alemanha. O escritor alemão foi polímata e estadista do Sacro Império Romano-Germânico, fazendo, inclusive, incursões pelas ciências naturais. Figura mais importante da literatura alemã, Goethe é um dos valores do cânone da literatura ocidental.

É apontado como introdutor do Romantismo na Alemanha, período que compreende o final do século XVIII e início do XIX. Juntamente com Friedrich Schiller, foi um dos líderes do movimento literário alemão denominado Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto).

Goethe foi um autor prolífico; o ponto alto de toda a sua obra, sem dúvida, é Fausto – um drama trágico –, em que explora o mito fáustico. Este mito, em sua interpretação mais ampla, tem tudo a ver com o homem moderno e sua luta incessante pela busca do sentido para sua vida. Mas o que tornou o autor conhecido do público foi este Os Sofrimentos do Jovem Werther. O espantoso é que ele o escreveu aos 25 anos, em quatro semanas. Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister é outra obra importante, inauguradora do que se convencionou chamar “romance de formação”. Por esta denominação entende-se aquela narrativa que acompanha determinado personagem, desde a mais tenra idade até a fase madura.

O autor foi apontado como gênio no Segundo Reich, sendo também fundamental para a instauração da República de Weimar, logo após a Primeira Guerra Mundial. Lido por ninguém menos que Napoleão – coisa de que o autor alemão se gabava – influenciou vários escritores ao redor do mundo. Aqui, no Brasil, dois gigantes literários sofreram sua influência: Machado de Assis e Guimarães Rosa.

Quanto à religiosidade, o escritor era cristão. Entretanto, um cristão diferente: acreditava na mensagem de Cristo, sem se vincular a uma expressão religiosa. Para ele, qualquer especulação metafísica racionalista era incapaz de mensurar os movimentos do universo, e compreender o mistério divino em sua integridade.

Envolveu-se em pesquisas de alquimia, filiou-se, em 1780, à sociedade secreta Illuminati, conhecida como “Maçonaria Iluminada”, de grande prestígio entre as elites europeias de então.

Do ponto de vista político, ele se classificava como um “liberal moderado”. Este liberalismo tinha toques de conservadorismo. Era defensor do federalismo, posicionando-se como crítico da centralização do poder na Alemanha (durante muito tempo, a Alemanha fora composta de vários territórios, sob o nome geral de Sacro Império Romano-Germânico).

Caro leitor, estamos diante de um clássico, considerando-se aquela caracterização de que “um clássico é uma obra que, tendo sido escrita há muito tempo, continua tendo coisas a dizer ao mundo atual”. Sem dúvida, Os Sofrimentos do Jovem Werther tem coisas importantes a nos dizer.

Um triângulo amoroso: o jovem Werther, Charlotte (Lotte) e Alfred, noivo dela. Você poderá dizer: meu Deus, tantas histórias lidas por mim envolvem este mesmo drama. Se fosse só isso, este livro não poderia ser enquadrado como um clássico. Há muito mais.

É um romance epistolar, curto (minha edição conta com 172 páginas). A narrativa é feita por cartas, organizadas cronologicamente. Elas são escritas por certo Werther e dirigem-se, em sua maioria, ao amigo Wilhelm. Portanto, sabemos apenas suas impressões sobre o mundo, seus sofrimentos, de que nos fala o título.

Werther muda-se de uma cidade do interior. Eis como ele fala de sua nova moradia ao amigo Wilhelm:

“Fiz todo tipo de amizade, mas ainda não encontrei companhia. Não sei o que tenho de tão atraente para as pessoas; tantas gostam de mim e se aproximam, e fico muito triste quando nosso caminho é o mesmo apenas por um curto trecho. Se você me perguntasse como são as pessoas daqui, teria que lhe responder: como de qualquer lugar! É uma coisa uniforme, o ser humano. A maioria das pessoas trabalha a grande parte do tempo para viver, e o pouco de liberdade que lhes resta lhes exige tanto que procuram todas as formas para se livrar dela. Ah, a determinação do ser humano!” (página 16)

O protagonista conhece a bela Charlotte (Lotte) e por ela se apaixona desvairadamente. O problema é que Lotte está prometida a Alfred. A princípio, contenta-se em amá-la sem lhe confessar seus sentimentos:

“Ela é sagrada para mim. Todo desejo se cala na presença dela. Nunca sei como agir quando estou com ela; é como se a alma se torcesse em todos os meus nervos. Ela tem uma melodia que toca ao piano com a força de um anjo, tão simples e espirituosa! É sua canção preferida, e me remove de toda dor, confusão e martírio tão logo toca a primeira nota.” (página 47)

Não há nada a fazer. Ainda mais que Werther aprecia Alfred; seu rival é um homem adequado para Lotte, bem capaz de fazê-la feliz:

“Chega, Wilhelm, o noivo chegou! Um homem dedicado e querido a quem devemos ser bons. Felizmente não estive presente na sua chegada! Isso teria me partido o coração. Ele também é bastante horado, não beijou Lotte nem uma única vez na minha presença. Que Deus lhe pague! Devo amá-lo, pelo respeito que tem pela menina. Ele quer o meu bem, e especulo que isso seja mais obra de Lotte do que seu próprio sentimento pois para isso as mulheres têm fino senso e entendimento. Quando podem manter dois admiradores em boa convivência, a vantagem é sempre delas, mesmo que isso só raramente funcione.” (página 51)

Pouco a pouco, o jovem Werther vai mudando de humor. Mergulha num estado depressivo sem remissão (melancolia, como era conhecido este estado psicológico):

“Ranjo os dentes e escarneço da minha desgraça, e escarneço duas e três vezes mais de quem quisesse dizer que eu deveria me resignar, pois não há nada a se fazer. Tirem tais espantalho de perto de mim! Corro pelas florestas, e quando chego até a casa de Lotte, vejo Albert sentado ao seu lado no jardim sob as folhas e não posso prosseguir, então me torno um verdadeiro palhaço e começo a fazer todo tipo de confusão.” (página 51)

Como tudo é dito apenas do ponto de vista de Werther, não podemos ter certeza se Lotte percebe a devoção dele e a alimenta, ou se tudo é produto de sua imaginação sobre-excitada.

Apesar de a minha edição não trazer a divisão em duas partes (livro 1 e 2), o tom da narrativa muda a partir de certo ponto. A segunda parte é sombria, tudo se precipita. Alfred e Lotte se casam. Werther é despedido do emprego, a depressão piora.

O livro coloca a interpretação de muitos fatos sob a ótica filosófica, como quando Alfred e Werther debatem sobre o suicídio. Para o marido de Lotte, o ato será uma covardia, uma fuga; para o protagonista, há justificativas para tal:

“A natureza humana”, prossegui, “tem seus limites. Ela pode suportar alegria, sofrimento e dores até um determinado grau, e colapsa assim que esse grau é ultrapassado. Portanto, aqui não se trata de alguém ser fraco ou forte, mas sim se é capaz de aguentar a dimensão da própria dor? Ela pode ser moral ou corporal: considero também incrível dizer que é covarde quem tira a própria vida, da mesma maneira que seria impertinente chamar de covarde aquele que morre com uma terrível febre.” (página 57)

 Visivelmente, neste debate, Albert representa a força da análise, da razão; Werther incorpora a força da emoção, do sentimento. A escola do romantismo sempre propugnou pela supremacia da emoção. Compreende-se. Aquele mundo industrializado que despertava, com suas máquinas, sua ciência, não era capaz, aos olhos dos românticos, de possibilitar a felicidade ou a realização ao ser humano. O mundo não podia ser reduzido a equações, a experimentos controlados. Onde a criatividade, a imaginação?

Os Sofrimentos do Jovem Werther é obra por demais conhecida. Penso não ser spoiler dizer que a história termina mal. O suicídio do personagem central já fora anunciado lá na página 57, durante a discussão entre Werther e Albert. A descrição do ato terminal tem forte carga dramática, em parte constituída pelo detalhamento. Cheguei a iniciar a transcrição do trecho, mas desisti. Deixo ao leitor a tarefa de ler o trecho no livro.

Nesta parte final do romance, já não são as cartas de Werther que nos dão ciência dos fatos. Entra em cena, a partir da página 109, sob o título “Do Editor ao Leitor”, um novo narrador. Ele publica mais algumas cartas e passa a nos introduzir nos momentos derradeiros.

Duas observações a mais. Primeiro, Goethe era fã da cultura clássica, tendo estudado Platão e lido o autor grego Homero, no original. Ele transfere esta característica ao seu protagonista. Werther é também um fã do autor de Ilíada e Odisseia. Segundo, a obra em questão tem fortes presenças autobiográficas; certa Charlotte von Stein fora uma paixão não correspondida de Goethe.

É interessante notar como um autor pode usar dados da sua própria biografia para compor seus personagens, sem que eles sejam, na integralidade, seus sósias. Nada a se estranhar, pois, quem escreve, sempre parte de determinados fatos, acontecimentos; escrever é revelar-se, como já foi asseverado por alguém.

A repercussão do Jovem Werther, à época, foi enorme, um best-seller. Foi muito criticado por ter incitado jovens europeus a uma onda de suicídio, no que passou para a posteridade como “efeito Werther”. Foi, inclusive, condenado por um pastor por ser um livro pernicioso para os jovens. Semelhante ao acontecido a outro clássico, este russo, de Léon Tólstoi, o Ana Kariênina.

Cumpre dizer que este livro não é, segundo apreciações abalizadas, o melhor do autor; cabe esta celebração ao Fausto, obra monumental publicada em dois volumes. O segundo, póstumo.

Muita gente pode não gostar deste livro, e por algumas razões. A linguagem tem um sabor antigo, é um romance epistolar (há "buracos" de informação entre uma carta e outra, já que só temos os textos escritos por Werther), é um livro de alta densidade psicológica, conquanto lírica. A carga de pessimismo oriunda dos desvarios amorosos do protagonista, desagradam a muita gente. Ainda, a técnica escolhida por Goethe ao dirigir-se indiretamente ao leitor, endereçando as cartas a Wilhelm, mas permitindo ao leitor conhecê-las pode causar algum cansaço a quem não estiver acostumado a este artifício.

Os Sofrimentos do Jovem Werther é uma obra importantíssima, um marco da literatura alemã. Escrito em 1774, nos apresenta uma narrativa que poderia, talvez, ser classificada com pré-romântica. Tenho consciência, clássicos não são para todos os espíritos e não há qualquer demérito nisto. Inicialmente, tem-se de vencer as dificuldades apontadas acima.


segunda-feira, 25 de julho de 2022

Resenha nº 193 - A Rainha do Ignoto, de Emília Freitas

 

 



Título: A Rainha do Ignoto

Autora: Emília Freitas

Editora: Wish

Edição: 2ª

Copyright: 2021

ISBN: 978-85-67566-27-6

Origem: Literatura brasileira

Gênero: romance fantasia/ficção científica

 

Projeto Escritoras Esquecidas – 2

 

Emília Freitas nasceu em Aracati, Ceará, em 11/01/1855 e veio a falecer em Manaus, capital do Estado do Amazonas, em 18/10/1908, portanto, com 53 anos de idade. Filha de Antônio José de Freitas, tenente-coronel, e de Maria de Jesus Freitas; após o falecimento do pai, a família muda-se para Fortaleza. Emília, ali, teve aulas de inglês, francês, geografia e aritmética, num colégio particular. Transferiu-se, depois, para a Escola Normal e se tornou professora.

A partir de 1873, colaborou em diversos jornais literários do Ceará, e outros, de Belém do Pará. São poesias, depois compiladas num volume intitulado Canções do Lar (1891). Em 1899, ela publicou este A Rainha do Ignoto. Consta, ainda, que ela tenha escrito outro romance, mas dele não temos mais do que poucas notícias.

A vida não foi benigna com Emília. Perdeu, aos poucos todos os familiares. Emília Freitas era uma mulher branca, mas, mesmo assim, teve enorme dificuldade em tornar-se escritora. Naquela época, mulheres deveriam ficar quietas, cuidando de seus lares. Apesar disto, ela conseguiu algum reconhecimento.

Casou-se muito tarde para a época, aos quarenta e cinco anos. As moças costumavam contrair matrimônio aos dezesseis, aos dezoito anos de idade. Em 1900, em Manaus, teve por marido Arthunino Vieira, jornalista e redator do Jornal de Fortaleza. Residentes na Serra do Maranguape, Ceará, tiveram outra parceria: fundaram  o grupo religioso Verdade e Luz (Centro Espírita).

Tempos depois, mudaram-se para Belém, onde fundaram o Centro Espírita Paraense. Naquele tempo, o espiritismo era tão perseguido quanto o candomblé e o casal teve sua casa apedrejada.

Emília posicionou-se como pacifista, contra a Guerra do Paraguai, na qual dois irmãos seus serviram como voluntários. Era francamente contra a escravidão, feminista e assumidamente espírita. Uma mulher assim, vivendo numa sociedade fortemente patriarcal, não podia mesmo obter notoriedade.

Quanto mais antigo é um livro, mais teremos de recorrer a conhecimentos da época envolvida, para conseguirmos entender as referências usadas pelo autor. É o caso de A Rainha do Ignoto.

O livro foi escrito no século XIX. O Romantismo, como escola literária, dominava o período, com o espelhamento dos sentimentos dos personagens nas descrições da natureza. Por exemplo, se alguém estivesse triste, a natureza apresentava-se chuvosa; os transportes de felicidade se faziam sob um céu límpido e cheio de sol. A Escola Romântica não foi o único fato de importância.

É também quando temos a Revolução Industrial, modificando as relações de trabalho, invenções como o automóvel, o telefone, Freud dá a conhecer a psicanálise, Charles Darwin publica A Origem das Espécies, os trens rasgam as distâncias. A ciência desponta com seus métodos experimentais. Cria-se aí o ambiente propício à eclosão das histórias futuristas, inflamadas pela ciência. O gênero literário ainda não está delineado; muitas vezes, deixa-se influenciar pelas narrativas de aventuras ou exploração de lugares exóticos.

O conservadorismo dos costumes, defendido pela Era Vitoriana, na Inglaterra, se espalha por todos os lugares. Às mulheres eram reservados o lar e as futilidades; entretanto, sempre houve quem, dentre elas, se empenhasse em romper este status quo.

Contextualização feita, vamos ao romance A Rainha do Ignoto. A Literatura sempre me entusiasma: quando penso que já li de tudo, descubro algo que me encanta, que me propõe novas abordagens. E, como neste romance, pode ser que não seja um livro novo; este é de 1899.

A obra de Emília Freitas desconcerta o leitor. É uma ficção científica? É um romance gótico? Será uma fantasia? Há um pouco de cada um destes elementos. A imaginação desta autora toca, às vezes, o inverossímil.

A Rainha do Ignoto me lembrou de Jules Verne, de Vinte Mil Léguas Submarinas, Marion Zimmer Bradley, de As Brumas de Avalon e, de quebra, H. G. Wells, de A Ilha do Dr. Moreau.

Há mistérios lançados no livro, esperando a atenção do leitor. Esta moça que aparece numa canoa e a quem a população chama de Funesta, afinal, é uma bruxa? Uma fada, como o afirmam alguns? Um ser encantado? Por que ela aparece assim – sozinha, tocando uma harpa? Seu passado esconde alguma tristeza intransponível, como ela faz parecer?

“O Jaguaribe corria em frente da janela, onde o Dr. Edmundo ficou ainda a cismar; mas sua vista errante parou sobre a lua erguendo-se no firmamento azul, como uma hóstia de ouro.

A solidão era completa, o silêncio era profundo!

Nem o vento movia os ramos das árvores. Elas se levantavam do meio da sombra projetada pela copa, como espectros cismadores.

De repente, soou ao longe uma voz doce e triste entoando uma canção francesa, e era tão saudosa, tão cheia de melancolia que as próprias pedras da margem pareciam comover-se, escutando:

Te souvient tu Marie

De notre enfance au champs

Notre jouet a la prairie,

J’avais alors quinze ans. 

A voz era de mulher e vinha se aproximando. Já se distinguia o som de uma harpa com que ela se acompanhava.” (páginas 39/40)

É neste trecho que o Dr. Edmundo, advogado, tem o primeiro contato com a chamada Funesta – a Rainha do Ignoto. Personagem estranha, cercada de mistério, logo tem a atenção do doutor. As pessoas a seu redor não têm muitas explicações; apenas sabem que ela aparece de repente, às vezes seguida por um enorme cão negro como a noite e de olhos esbraseados e um ser recurvado, um orangotango. Estaríamos, aqui, em contato com o mito fáustico (venda da alma ao diabo), que tanta literatura produziu? Não, não se trata disto.

Com o interesse aguçado, o Dr. Edmundo obtém a informação de Funesta aparecer sempre lá pelas bandas da Serra do Areré. A moça encantada sai de uma gruta inexplorada, mas de acordo com Valentim – personagem que dialoga com o Dr. Edmundo – é melhor não ir lá, pois

“Ela tem pacto com Satanás! Dizem que, onde aparece, é desgraça certa. Chamam-na “A Funesta”. Deus me livre de encontrá-la.” (página 39)

Para o bem do mistério e do enredo, o Dr. Edmundo não obedece às recomendações de Valentim.

Outros personagens misteriosos entram nesta história. Probo, o caçador de onças, é um homem solitário, de poucas palavras. Ele e Roberta, sua esposa, moram em uma casinha isolada. Com o casal, vive a filha Diana, moça bonita e sobre a qual ninguém pode dar informações detalhadas. No entanto, é Probo quem iniciará Edmundo naqueles mistérios funestos.

Probo revela ao doutor que Funesta é a Rainha do Ignoto (em tempo, ignoto significa “desconhecido”, “incógnito”). Ela possui vários navios a vapor, mas viaja sempre no Tufão e lidera o que ele chama de uma maçonaria só constituída por mulheres. Às vezes, estas paladinas (a associação com as amazonas da mitologia grega é imediata), disfarçadas, se misturam à população para melhor agirem.

Elas vivem na Ilha do Nevoeiro. Um local perto da costa, mas que ninguém viu. Pelas revelações de Probo, envolta em neblina, a ilha é mantida ignorada de todos em parte pelo nevoeiro, em parte pela prática da hipnose a distância. As habitantes da Ilha do Nevoeiro são cultas, corajosas e têm muito poder.

Este trecho me fez lembrar de três obras, já referidas acima: Vinte Mil Léguas Submarinas (o Capitão Nemo também mantém a base do Nautilus numa ilha ocultada), As Brumas de Avalon (Morgana habita uma ilha envolta em neblina mágica). Há mesmo certa ligação com A Ilha do Dr. Moreau (é numa ilha desconhecida que o tal Dr. Moreau faz suas tétricas experiências). A obra de Marion Zimmer Bradley é muito posterior à de Emília Freitas. Explica-se a lembrança por As Brumas de Avalon serem uma recriação literária de lendas muito mais antigas, do ciclo arturiano da literatura inglesa.

Disfarçado de mulher, o Dr. Edmundo pôde visitar a Ilha do Nevoeiro e acompanhar de perto todo o trabalho desenvolvido pela Rainha do Ignoto e suas paladinas. O local conta com uma imensa biblioteca, inclusive, com obras espíritas. Kardec e Camille Flammarion são citados nominalmente. Para quem não sabe, Camille, além de ter trabalhado junto a Kardec, era também um astrônomo de renome do século XIX.

Probo não é só o introdutor do Dr. Edmundo nos mistérios das paladinas. Ele é um personagem que funciona como contraponto das ideias da Rainha do Ignoto, representando, deste modo, as opiniões da maioria das pessoas. Vejamos alguns trechos, em que Probo reproduz falas da Rainha, em tom de desagrado:

“...não há lei alguma de direito humano que possa escravizar um cidadão que a condição de escravo resultou de um abuso de força contra a fraqueza...”

“A pena última é o recurso dos governos impotentes para regenerar o criminoso pela instrução e pelo trabalho.”

“... o rei é o produto da ignorância dos povos antigos, que ainda não estavam em estado de governarem-se...” (todas as citações nas páginas 185/186)

A cada uma destas condenações de Probo, o Dr. Edmundo antepõe suas aprovações: então a personagem em questão é uma rainha republicana – coisa admirável –; é abolicionista – tem ideias sãs –; ao ouvir que ela é espírita, antepõe, zombando: “Espírita! Mais um crime!”

Disse acima que há certas características de romance gótico. Por este rótulo, reconhecem-se narrativas ligadas ao terror, ao sombrio, ao fantasmagórico. Por exemplo, Frankenstein, Drácula, O Morro dos Ventos Uivantes.

Eis um trecho:

“A lua pairava no céu azulado, derramando uma luz pálida e saudosa sobre o mármore dos túmulos. O silêncio da hora, a tristeza do lugar, o mistério dos vivos casado ao mistério dos mortos traziam ao coração do Dr. Edmundo o frio do pavor!” (página 270)

Nem só de mistérios e peripécias femininas vive este bom romance. Em outra vertente temática, há a história de amor de Carlotinha pelo Dr. Edmundo. Ele, porém, só tem olhos para a Rainha do Ignoto. Acompanhando Probo e a mulher dele, Roberta, ele se ausenta do povoado por nada menos que três anos. Entretanto, o escritor – no caso, escritora – emula Deus e linhas que se afastam também podem se aproximar...

Desejo marcar outra passagem, esta, como exemplo dos recursos usados pela Escola do Romantismo:

“— Meu coração foi como tu, oceano! Lidou sem cessar, mas tu continuas, e ele despedaçou-se como esses navios que voam com o arfar do teu seio. Tu ficas e eu vou... Adeus, querido oceano, imagem de minhas dores, adeus! Tu guardas em teu seio tesouros que nunca foram vistos, e eu guardo em meu peito segredos que não foram adivinhados. As cãs de minha fronte são comuns a tuas vagas, espuma vaporosa onde se reflete a luz da lua, o cintilar das estrelas e o clarão do sol. Adeus, irmão de minha alma, retrato de minha vida.” (página 367)

Certamente, não será uma obra a agradar todo leitor. Ela contém, como visto, aqueles clichês do romantismo. Além disso, há períodos longos. São muitas as frases exclamativas, o que confere ao texto o tom de sentimentalismo. Mas – isto acontece com os clássicos – para além de tais clichês e “defeitos”, A Rainha do Ignoto chega aos nossos dias com ainda algo a nos dizer.

A edição que tenho é a da Editora Wish. Um belo tratamento devido a um clássico esquecido. Percebo um movimento de resgate destas mulheres escritoras corajosas. Desejo ingressar nesta fileira dos que valorizam tais leituras. E descubro, outra escritora esquecida, contemporânea de Emília Freitas, e igualmente cearense, Francisca Clotilde. Ela escreveu um romance abolicionista e feminista, A Divorciada.

Para finalizar, o livro A Rainha do Ignoto traz o prefácio O Fantástico Ignoto de Uma Rainha, da autoria do professor Alexandre Meireles da Silva e o posfácio Paladina das Paladinas, assinado pela professora Adrianna Alberti.

O prof. Alexandre me dá duas referências que me deixam assanhado: o primeiro romance de ficção científica escrito no Brasil é O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emílio Zaluar (há uma edição atual dele). Outra referência preciosa, O Mundo Resplandecente (1666!), de Margaret Cavendish, Duquesa de Newcastle.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Resenha n° 192 - Nada digo de ti, que em ti não veja, de Eliana Alves Cruz

 



Título: Nada digo de ti, que em ti não veja

Autora: Eliana Alves Cruz

Editora: Pallas

Edição: n/c

Copyright: 2020

ISBN: 978-65-5602-000-6

Gênero literário: Romance

Origem: Literatura brasileira

200 páginas

 

Eliana Alves dos Santos Cruz, ou Eliana Alves Cruz, nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1966. É graduada em Comunicação Empresarial pela Universidade Cândido Mendes. Foi gerente de imprensa da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos e cobriu quinze campeonatos mundiais, além de seis jogos Pan-Americanos e mais seis Jogos Olímpicos.

Na literatura, sua estreia se deu com o romance Água de Barrela. Baseado na trajetória de sua própria família, desde o século XIX, na África, foi obra vencedora da primeira edição do Prêmio Literário Oliveira Silveira, oferecido pela Fundação Cultural Palmares, em 2015.

O segundo romance recebeu o título de O crime do cais do Valongo, publicado em 2018. O terceiro é este Nada digo de ti, que em ti não veja, de 2020. Recentemente, foi publicado seu quarto romance, Solitária, pela Companhia das Letras, em 2022.

Nada digo de ti, que em ti não veja é minha primeira incursão nos trabalhos desta escritora. Como os outros dois que o precedem, trata-se de um romance histórico, ambientado no período escravagista brasileiro. Vitória é um travesti que atua como prostituta. Tema dos mais delicados e inusuais, em se tratando de romance situado na época do Brasil colônia. Ainda mais que, além de já ser estigmatizado por ser, como diz o texto – um invertido, passível de ser punido pelo crime de sodomia pela Inquisição – tem a pele negra, e é mandingueiro.

Vitória tem uma paixão declarada por Felipe Gama, e por este é correspondido. Os encontros se fazem às ocultas. Para complicar, Felipe está noivo de Sianinha – um relacionamento “arranjado” – como era prática entre famílias mais bem postadas da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

O livro nos conta, também, sobre o relacionamento entre os escravos Zé Savalú e Quitéria. O casal trabalha na casa de dona Manuella, mãe de Sianinha. A filha, embora não ame Felipe, enxerga com bons olhos o seu noivado com ele. A família tem boa ascendência social e se enriquece com seus negócios. No entanto, Sianinha tem uma queda por Zé Savalú, apesar de ele ser seu escravo.

Para complicar mais ainda as coisas, entra em cena, vindo do Santo Ofício, em Portugal, frei Alexandre Saldanha Sardinha, Inquisidor. Este personagem terá papel fundamental em toda a trama.

O próprio frei Saldanha, tão ciente de suas obrigações como sacerdote e como Inquisidor, não consegue passar incólume aos encantos femininos nem aos apelos do ouro das Gerais. E é um ponto interessante, pois se os portugueses colonizaram estas terras brasileiras, impondo sua cultura, o Brasil, por sua vez, impôs-lhes novos costumes. Frei Saldanha pode ser visto, desta forma, como símbolo desta aculturação dos portugueses pelos locais.

Eliana Alves Cruz trabalha, deste modo, com elementos explosivos em sua história. A autora constrói, logo de início, um narrador que anuncia a si próprio como tal:

“Vou lhes contar aqui algumas vidas. Apenas existências que passaram diante de meus olhos. Se você está aqui, é porque vamos passar algum tempo junto, então saiba que sou um confesso bisbilhoteiro, um fofoqueiro dos mais terríveis. Acabo revelando tudo o que vejo sem dó ou enfeites e, no confortável papel de espectador, lhes digo: não sejam tão duros porque, com o passar dos segundos, minutos, dias, horas, semanas, meses e anos, grande parte dos dramas vão morar no reino do ridículo.” (página 10)

Em outro trecho, o narrador também se manifesta:

“Prezados, estou me esforçando para não interferir na história, tentando ater-me aos fatos, mas Vitória era alguém a quem eu acompanhava com muito gosto, pois, se existiu uma pessoa com perfeita noção de tempo e espaço, este alguém era ela, não perdia um mísero segundo.” (página 174)

Um narrador assim constituído justifica os fatos que traz a público. Ele é “um fofoqueiro dos mais terríveis”; não terá escrúpulos para narrar as escabrosidades dos personagens postos a agir numa sociedade fortemente influenciada por julgamentos religiosos. Naquela época, a igreja católica era uma força inibidora. Este narrador, na verdade, acrescenta uma “pimenta” à narrativa, pois ele é não confiável e, além do mais, os ouvidos humanos amam uma fofoca, não é mesmo?

A chegada do representante desta força julgadora e punitiva, frei Saldanha, ao Brasil, já dá o tom:

“Olhava espantado e tapava o nariz, pois São Sebastião do Rio de Janeiro podia ser considerada a cidade mais suja que jamais vira. Os dejetos atirados às ruas e nas praias traziam de volta a imundície de um lugar que superlotou sem qualquer ordem. Alguns sobrados pomposos sobressaíam entre muitas casas feias, porcos e outros animais domésticos comiam o lixo a se amontoar por todos os cantos das ruas.” (página 28)

Ou, ainda:

“Viu dois moleques banhando-se em um chafariz, reluzidos pela água e pelo sol que os dourava. Os panos que levavam atados nas cinturas, mal lhes cobriam “as vergonhas” e, molhados, deixavam os jovens praticamente nus. Procurou não deter as pupilas nos seios quase à amostra sob a bata de tecido ordinário da mulher que levava um balaio enorme na cabeça, em equilíbrio e malabarismo impressionante.” (página 29)

É, portanto, naquele inferno tropical que o frei Saldanha vai exercer – ou tentar exercer – seu santo ofício. Um vulcão de calor, hormônios, sujeira, corpos seminus dos escravos. A sexualidade explosiva ali só podia ser refreada por fortes convenções sociais e religiosas. Entretanto, atrás de portas fechadas as convenções sociais se afrouxavam, o látego religioso era abandonado por atitudes... digamos, mais prazerosas.

A certa altura, o romance abandona a ambientação do Rio de Janeiro. Zé Savalú, Felipe Gama e frei Saldanha viajam para a cidade de Vila Rica – capital da Capitania das Minas Gerais. Vão em busca do enriquecimento, pois a notícia que corre solta é que, por aquelas paragens, o ouro se encontrava facilmente. Um ouro de cor escura, daí o batismo da localidade, tempos depois, como Ouro Preto.

Eliana Alves Cruz procedeu a uma pesquisa histórica detalhada. O que regulava a sociedade, na época abordada, eram as chamadas “Ordenações Filipinas”. Estas eram uma compilação do precedente Código Manuelino. Melhor explicando, tais ordenações regulavam, juridicamente, as punições e as obrigações dos cidadãos.

Em Vila Rica, como de resto no Rio de Janeiro e em toda a colônia, disseminava-se a prática de corrupção. Balthazar, irmão de Felipe, por exemplo, transportava o ouro encontrado por seus escravos sem o pagamento do quinto – imposto cobrado pela coroa sobre valioso ouro. Transportavam-no por caminhos alternativos e difíceis, para evitar os fiscais de Portugal. Mais tarde, esta revolta contra o recolhimento do imposto será um dos veios a alimentar a futura Inconfidência Mineira.

São vários os perigos a que estão sujeitos os transportadores de mercadorias, viajantes, daquela época. A trilha de mulas entre o Rio e Vila Rica é vencida, muitas vezes, a custo de vidas, em três meses de duríssima viagem. Índios à espreita, ataques de animais selvagens ou peçonhentos, acidentes nas trilhas, chuvas torrenciais e o risco das travessias de rios caudalosos eram comuns.

Sobre a personagem Vitória, é dito que ela teve 5 existências: ainda na África, teve os nomes de Kiluanji Ngonga (ao nascer, como menino); Nzinga Ngonga (quando se reconhece sua natureza feminina); Nganga Marinda (sacerdotisa dos mistérios ancestrais). No Brasil, Manuel Dias (nome cristão, quando chegou como escravo); finalmente, como Vitória.

Calunduzeira – nome dado à época aos afrodescendentes que entendiam de magias e feitiçarias – Vitória era, ao mesmo tempo, temida e procurada por muitos. Previa o futuro, receitava beberagens para cura de doenças. Entretanto, ser calunduzeira também era passível de crime sob a Inquisição.

As tais Ordenações Filipinas previam benesses para quem denunciasse praticantes de crimes. Naquela cidade do Rio instituiu-se um verdadeiro salve-se quem puder; os dedos-duros surgiam por todos os lados. Daí, um outro costume, tão presente ainda no Brasil de hoje: para se assegurarem, pessoas não tinham rubores de serem puxa-sacos. Era melhor estar bem com quem tinha o poder de punir do que deixar pontas soltas, sem a devida amarração.

Nada digo de ti, que em ti não veja é um ótimo livro. Gosto muito de romances históricos. Neles, aprendo muito de outros tempos, de uma forma muito mais lúdica, interessante do que a dos livros didáticos. Há, digamos, uma socialização dos fatos. Pelo texto contamos – mas não vou reproduzi-los aqui – com várias notícias sobre costumes, limitações, características daquele tempo.

Penso ser muito válido uma escritora de cor preta contar a história da época da escravidão. Temos muitos depoimentos do ponto de vista do branco. Precisamos de mais relatos como este, necessitamos que mais vozes como a de Eliana se disponham a abordar o passado.