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domingo, 21 de agosto de 2022

Resenha nº 195 - Esfinge, de Coelho Neto

 




Título: Esfinge

Autor: Coelho Neto

Editora: Legatus

Edição: 1ª

Copyright:2020

ISBN: 978-1-8380473-5-1

Origem: literatura brasileira

Gênero literário: Romance de Ficção Científica

 

Henrique Maximiano Coelho Neto nasceu em 21/02/1864, em Caxias (Maranhão) e faleceu no Rio de Janeiro, em 28/11/1934. Era filho do português Antônio da Fonseca Coelho e da índia Ana Silvestre Coelho. Coelho Neto, como ficou conhecido, fez seus primeiros estudos no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, para onde sua família havia se mudado. Ele contava com seis anos de idade neste evento.

Tentou estudar medicina, mas acabou desistindo do curso. Em 1883, iniciou seus estudos superiores na Faculdade de Direito de São Paulo. De espírito inconformado com muitos fatos, viu-se envolvido em um movimento de protesto contra um professor. Diante da possibilidade de represálias, transferiu-se para o Recife, cidade na qual começou o primeiro ano de Direito, sob o comando de Tobias Barreto.

De ideais republicanos e abolicionistas, Coelho Neto tornou-se companheiro assíduo de José do Patrocínio, participando da campanha contra a escravidão no Brasil. Ingressou no jornal Gazeta da Tarde e depois no A Cidade do Rio, onde obteve o cargo de secretário. Data desta época a publicação de seus primeiros trabalhos.

Escreveu 120 obras, abrangendo os gêneros romances, contos, crônicas e teatro. Utilizou vários pseudônimos, tais como Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manês. Entre sua vasta obra literária, A Conquista (1899), Turbilhão (1906), Esfinge (1908) e Fogo Fátuo (1928).

Num concurso, promovido pelo famoso jornal O Malho, nosso autor foi reconhecido como “o príncipe dos prosadores brasileiros”. Foi um dos escritores mais lidos de sua época. Entretanto, por seu preciosismo textual, os autores modernistas (a Semana de Arte Moderna é de 1922) declararam guerra ao nosso autor. O beletrismo de Coelho era tudo o que o vendaval modernista abominava. Resultado, o autor caiu no ostracismo.  

Como venho fazendo sempre que abordo uma obra com mais anos de existência, passo à contextualização. Este livro foi publicado em 1908, quando o Rio de Janeiro vivia a Belle Époque – nome francês para designar o período agitado que vai do final do século XIX até a Primeira Guerra Mundial. No Brasil, durou até a Semana de Arte Moderna. Por todo lado, vivia-se a euforia, pois o futuro anunciado era esperançoso. Houve uma explosão de inventos que mudariam, realmente, a sociedade como as pessoas a conheciam. Invenção do avião, do automóvel, do telégrafo e telefone, da lâmpada elétrica. A ciência anunciava um mundo de bem-estar e era o centro das aspirações.

Nem tudo, entretanto, eram flores. Também ocorreu o êxodo rural para as cidades, a exploração da mão de obra trabalhadora. As nações europeias disputavam entre si a primazia no campo das artes, cultura e ciência; teve início a corrida armamentista – citada como um dos fatores decisivos para a Primeira Guerra Mundial.

O Brasil mantinha intenso intercâmbio com a França. A elite brasileira viajava a Paris, a fim de se informar a respeito da última moda, dos artistas mais prestigiados. A Belle Époque se fez presente, em nosso território, nas regiões mais adiantadas economicamente, como as do ciclo da borracha (Amazonas e Pará), as do ciclo cafeeiro (São Paulo e Minas Gerais). As três cidades principais de origem colonial (Rio de Janeiro, Recife e Salvador) também foram tocadas por esta verdadeira febre.

O estilo arquitetônico característico do período é o Art Noveau. Como exemplos desta tendência, temos o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Theatro Amazonas, a Confeitaria Colombo (Rio), a Estação da Luz (São Paulo), o Castelinho da Floresta e a casa de Afonso Pena Júnior (Belo Horizonte).

Esfinge é um livro de leitura difícil. Parte de sua dificuldade vem exatamente da linguagem empregada pelo autor. Coelho Neto é um beletrista. Isto quer dizer que ele escolhe palavras pouco comuns, usa frases caudalosas, dotando o texto, a meu ver, de afetação desnecessária, artificial. Talvez, mais fácil do que explicar, para o entendimento de quem me lê seja trazer um trecho:

“Os hóspedes tratavam-se com intimidade, só o inglês do segundo andar, o apolíneo James Marian, retraía-se a todo o convívio, sempre sorumbático, calado, aparecendo raramente à mesa às horas das refeições, tomando-as só ou no quarto, quando não as fazia no jardim, a uma pequena mesa de ferro, à sombra das acácias, com champanhe a refrescar em um balde, ouvindo os passarinhos.” (página 49)

O trecho selecionado acima mostra bem o bordado dos termos escolhidos. Observe a o longo período subordinado, cheios de vírgulas. Para o leitor moderno, desacostumado deste jeito de escrever, a percepção do que o autor deseja comunicar é difícil.

A pensão de Miss Barkley tinha boa reputação na cidade do Rio de Janeiro. Ali, viviam pessoas de cor branca, representantes da classe média em ascenção na sociedade carioca. A maternal Miss Barkey, inglesa de origem e dona da pensão; Miss Fanny, também inglesa, jovem e professora; o próprio narrador (do qual não saberemos o nome); Frederico Brandt, professor de piano, crítico musical e compositor; o comendador Bernaz, o mais antigo morador. Ainda, Décio, estudante de medicina e admirador da poesia francesa (citando, nominalmente, Baudelaire) e inglesa; Alfredo Penalva, estudante de medicina; Péricles de Sá, viúvo, empreiteiro de obras e fotógrafo ocasional; Basílio, guarda-livros. Completam o “time”, Chispim, estudante de Direito; Carlos e Eduardo, irmãos de origem inglesa, empregados em uma casa importadora. E, por fim, o protagonista, o inglês James Marian.

O “apolíneo” (belo) James Marian é, dentre todos, o mais excêntrico e misterioso. Dono de um rosto de beleza feminina, tem um corpo viril, musculoso. Por esta dualidade, causa estranheza por onde passa. Veste-se com apuro, um dândi (creio que o termo mais atual, que corresponde a esta palavra fora de moda, seria mauricinho). Não é preciso ser expert para deduzir que, num ambiente de intimidade forçada, como o da pensão, as fofocas, o assunto de todos os dias, não poderia ser outro além daquele estranho inglês.

Quando Brandt executa suas músicas ao piano, com maestria, duas pessoas sempre vêm ao jardim da pensão, a fim de escutar melhor a execução: James Marian e Fanny. Pouco a pouco, chegamos à revelação de que a professora Fanny se apaixonou por James. Entretanto, este não corresponde aos seus anseios femininos.

Marian é uma alma atormentada. Sofre de acessos episódicos, em que se debate, de olhos arregalados, como se visse fantasmas, forçando a gola da camisa como se lhe faltasse ar. Depois, volta ao normal.

James Marian demonstra amizade ao narrador. Isto leva o protagonista a solicitar-lhe a tradução de um manuscrito que carrega. É a história de sua vida. Por este artifício, o autor nos leva ao conhecimento da história de Marian. E que história, meus caros leitores! Pois James Marian era um híbrido, um corpo masculino sobre o qual havia sido implantada uma cabeça feminina.

Coelho Neto tomou emprestada esta ideia do Frankenstein, de Mary Shelley, adaptando-a. Certo Arhat – misto de cientista, orientalista, alquimista – conhecedor profundo de uma tal Ciência Magna, havia conseguido unir o que restava de um corpo masculino, ainda com vida, com uma cabeça feminina de uma jovem cujo corpo estava destroçado. O autor não nos explica o que seria tal ciência.

Engana-se quem pensar que Arhat era só um cientista e que, à moda do Frankenstein, abandona sua criatura e mesmo a abomina. Ele tem amor paternal por James:

“Na mesma noite em que consegui realizar a conjunção dos dois corpos, que eram da Morte e que reintegrei na Vida, cedendo à terra o tributo que lhe cabia, porque os tassalhos foram sepultados pelo meu servo fiel, deixei a casa, vindo habitar este antigo castelo onde, à custa da minha própria essência, com prejuízo da minha energia, fui alimentando a vida que hoje tens, dando-te o meu fluido com o mesmo amoroso desinteresse com que a ave maternal encrava as garras no peito, esborcina a chaga a bicadas, fazendo rebentar o sangue com que ciba o ninho.

És verdadeiramente o filho da minha alma.” (página 159)

Temos, portanto, a “realidade” de James Marion. Um ser ambíguo em sua (re)criação; uma cabeça que pensa em chave feminina, num corpo masculino – por quem se apaixonara Fanny. O feminino em James Marion jamais poderia liberar o masculino nele para corresponder ao amor manifestado pela professora.

O protagonista corre o mundo em busca de um sentido para sua vida. Muitos anos depois, após a Segunda Guerra Mundial, o psicoterapeuta Viktor Emil Frankl elabora a sua psicologia denominada Logoterapia. Ele defendia que o impulso mais forte a mover um ser humano é encontrar um sentido para a sua vida. A função do logoterapeuta, portanto, é ajudar o paciente a encontrar o seu sentido de vida, para ser pleno.

Filosofias, religiões diversas não deram conta do conflito interno, da transexualidade de Marion. Então, recorre ao Brasil na tentativa de encontrar aqui, junto à exuberância da natureza, o apaziguamento, o sentido para a vida. Tentativa inútil. E como não encontra a paz, deve partir, ir buscá-la ainda em outro lugar.

Mas, haverá algum lugar, alguma filosofia, alguma religião, ou mesmo alguma psicologia a resolver tal impasse? Não é só a transexualidade conflituosa; a ela, soma-se a questão ambígua da sua re(criação). Marion é e não é humano. É humano, se se considerar que Arhat usou sua ciência para juntar duas partes humanas. Não é humano, pois o alquimista interferiu no ciclo de vida-morte e criou um híbrido por meio de uma intervenção não natural.

Não se enquadra na discussão atual de gênero versus sexo. James não é, simplesmente, um homem com psicologia feminina e muito menos, uma mulher com psicologia masculina; são duas peças distintas, em irremediável conflito, como lhe assevera o próprio Arhat:

“Se em ti predominar o feminino que transluz na beleza do teu rosto, o rosto de tua irmã, serás um monstro: se vencer o espírito do homem, como faz acreditar o vigor dos teus músculos, serás como um ímã de lascívia: mas infeliz serás como ainda não houve outro no mundo se as duas almas que pairavam sobre a carne rediviva lograram insinuar-se nela.

O Linga-sharira, ou corpo astral, “aura” ambiente, que circula, em auréola, em torno da cabeça, é o último princípio que abandona o corpo e a tua cabeça é feminina. Será o coração viril?” (página 161)

Trata-se, como está explícito na passagem, de duas almas que tentam conviver no mesmo corpo e isto não é simbólico. É validado pelo raciocínio de que, se o corpo astral de característica feminina circula ao redor da cabeça, o corpo astral masculino, por semelhança, circula ao redor do resto do corpo.

Coelho Neto, como grande construtor de narrativas que é, não deixa pontas soltas. Uma delas, o que será feito de Fanny; está lá, leitor; só não vou contar para você o que acontece. Haveria algo mais que o relato do narrador, que dê ao livro um fechamento mais verossímil? Claro que há, mas também não o adianto. Sugiro que você se aventure a ler o livro.

Parte da citação acima, relativa à página 161, nos dá ideia da complexidade dos componentes sob a superfície do texto. Coelho Neto faz uma mistura de orientalismo, conceitos teosóficos e espiritismo. Não soa falso porque o personagem Arhat é instaurado como um sábio, versado na Magna Ciência. Desta expressão, conclui-se tratar-se de uma ciência maior, além do conhecimento comum. Uma mistura entre o experimentalismo científico e o conhecimento ocultista, que resultaria numa ciência dos deuses (grifo nosso). A época privilegiou muita especulação de cunho ocultista, teosófico, espírita. Para se ter ideia do ambiente do Rio de Janeiro, Marcelo Spalding (in Digestivo Cultural) cita trecho de As Religiões do Rio, do cronista João do Rio (1904):

“Nós dependemos do feitiço. Não é um paradoxo, é a verdade de uma observação longa e dolorosa. Há no Rio magos estranhos que conhecem a alquimia e os filtros encantados, como nas mágicas de teatro, há espíritos que incomodam as almas para fazer os maridos incorrigíveis voltarem ao tálamo conjugal, há bruxas que abalam o invisível só pelo prazer de ligar dois corpos apaixonados, mas nenhum desses homens, nenhuma dessas horrendas mulheres tem para este povo o indiscutível valor do feitiço, do misterioso preparado dos negros.”

Vou ser honesto com você: eu, com a experiência de quem já leu muita coisa e coisas variadas, tive dificuldade em completar a leitura. Somente com disciplina venci alguns capítulos intermediários, usando a intuição leitora de que o restante do livro compensaria a dedicação. Confiei no talento de Coelho Neto, já detectado nos capítulos iniciais, e segui adiante. Não me decepcionei.

Tenho com este Esfinge sentimentos confusos. É uma obra “fora da curva”, estranha, leitura cheia de camadas. Não tenho muito costume com literatura gótica e talvez daí venham tais sentimentos confusos. Vale lembrar, o teórico das histórias de fantasia, Tzvetan Todorov, nos alerta de que um dos elementos do fantástico é, exatamente, o estranhamento.

Foram importantíssimos para esta tentativa de resenha os dois textos de apoio que acompanham esta bela edição da Editora Legatus. Um prefácio do professor Alexander Meireles da Silva e um posfácio, de autoria da professora Mary Elizabeth Ginway. Sem eles, a leitura teria sido menos proveitosa.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Resenha nº 194 - Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe

 



Título original: Die Leiden des jungen Werthers

Título em português: Os Sofrimentos do Jovem Werther

Autor: Johann Wolfgang von Goethe

Tradutor: Daniel Martineschen

Editora: TAG Experiências Literárias

Copyright: domínio público

ISBN: 978-65-88526-21-7

Origem: Literatura alemã

Gênero Literário: romance

 

Johann Wolfgang von Goethe nasceu em 28/08/1749, na cidade de Frankfurt e faleceu em 22/03/1832, em Weimar, ambas localidades da Alemanha. O escritor alemão foi polímata e estadista do Sacro Império Romano-Germânico, fazendo, inclusive, incursões pelas ciências naturais. Figura mais importante da literatura alemã, Goethe é um dos valores do cânone da literatura ocidental.

É apontado como introdutor do Romantismo na Alemanha, período que compreende o final do século XVIII e início do XIX. Juntamente com Friedrich Schiller, foi um dos líderes do movimento literário alemão denominado Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto).

Goethe foi um autor prolífico; o ponto alto de toda a sua obra, sem dúvida, é Fausto – um drama trágico –, em que explora o mito fáustico. Este mito, em sua interpretação mais ampla, tem tudo a ver com o homem moderno e sua luta incessante pela busca do sentido para sua vida. Mas o que tornou o autor conhecido do público foi este Os Sofrimentos do Jovem Werther. O espantoso é que ele o escreveu aos 25 anos, em quatro semanas. Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister é outra obra importante, inauguradora do que se convencionou chamar “romance de formação”. Por esta denominação entende-se aquela narrativa que acompanha determinado personagem, desde a mais tenra idade até a fase madura.

O autor foi apontado como gênio no Segundo Reich, sendo também fundamental para a instauração da República de Weimar, logo após a Primeira Guerra Mundial. Lido por ninguém menos que Napoleão – coisa de que o autor alemão se gabava – influenciou vários escritores ao redor do mundo. Aqui, no Brasil, dois gigantes literários sofreram sua influência: Machado de Assis e Guimarães Rosa.

Quanto à religiosidade, o escritor era cristão. Entretanto, um cristão diferente: acreditava na mensagem de Cristo, sem se vincular a uma expressão religiosa. Para ele, qualquer especulação metafísica racionalista era incapaz de mensurar os movimentos do universo, e compreender o mistério divino em sua integridade.

Envolveu-se em pesquisas de alquimia, filiou-se, em 1780, à sociedade secreta Illuminati, conhecida como “Maçonaria Iluminada”, de grande prestígio entre as elites europeias de então.

Do ponto de vista político, ele se classificava como um “liberal moderado”. Este liberalismo tinha toques de conservadorismo. Era defensor do federalismo, posicionando-se como crítico da centralização do poder na Alemanha (durante muito tempo, a Alemanha fora composta de vários territórios, sob o nome geral de Sacro Império Romano-Germânico).

Caro leitor, estamos diante de um clássico, considerando-se aquela caracterização de que “um clássico é uma obra que, tendo sido escrita há muito tempo, continua tendo coisas a dizer ao mundo atual”. Sem dúvida, Os Sofrimentos do Jovem Werther tem coisas importantes a nos dizer.

Um triângulo amoroso: o jovem Werther, Charlotte (Lotte) e Alfred, noivo dela. Você poderá dizer: meu Deus, tantas histórias lidas por mim envolvem este mesmo drama. Se fosse só isso, este livro não poderia ser enquadrado como um clássico. Há muito mais.

É um romance epistolar, curto (minha edição conta com 172 páginas). A narrativa é feita por cartas, organizadas cronologicamente. Elas são escritas por certo Werther e dirigem-se, em sua maioria, ao amigo Wilhelm. Portanto, sabemos apenas suas impressões sobre o mundo, seus sofrimentos, de que nos fala o título.

Werther muda-se de uma cidade do interior. Eis como ele fala de sua nova moradia ao amigo Wilhelm:

“Fiz todo tipo de amizade, mas ainda não encontrei companhia. Não sei o que tenho de tão atraente para as pessoas; tantas gostam de mim e se aproximam, e fico muito triste quando nosso caminho é o mesmo apenas por um curto trecho. Se você me perguntasse como são as pessoas daqui, teria que lhe responder: como de qualquer lugar! É uma coisa uniforme, o ser humano. A maioria das pessoas trabalha a grande parte do tempo para viver, e o pouco de liberdade que lhes resta lhes exige tanto que procuram todas as formas para se livrar dela. Ah, a determinação do ser humano!” (página 16)

O protagonista conhece a bela Charlotte (Lotte) e por ela se apaixona desvairadamente. O problema é que Lotte está prometida a Alfred. A princípio, contenta-se em amá-la sem lhe confessar seus sentimentos:

“Ela é sagrada para mim. Todo desejo se cala na presença dela. Nunca sei como agir quando estou com ela; é como se a alma se torcesse em todos os meus nervos. Ela tem uma melodia que toca ao piano com a força de um anjo, tão simples e espirituosa! É sua canção preferida, e me remove de toda dor, confusão e martírio tão logo toca a primeira nota.” (página 47)

Não há nada a fazer. Ainda mais que Werther aprecia Alfred; seu rival é um homem adequado para Lotte, bem capaz de fazê-la feliz:

“Chega, Wilhelm, o noivo chegou! Um homem dedicado e querido a quem devemos ser bons. Felizmente não estive presente na sua chegada! Isso teria me partido o coração. Ele também é bastante horado, não beijou Lotte nem uma única vez na minha presença. Que Deus lhe pague! Devo amá-lo, pelo respeito que tem pela menina. Ele quer o meu bem, e especulo que isso seja mais obra de Lotte do que seu próprio sentimento pois para isso as mulheres têm fino senso e entendimento. Quando podem manter dois admiradores em boa convivência, a vantagem é sempre delas, mesmo que isso só raramente funcione.” (página 51)

Pouco a pouco, o jovem Werther vai mudando de humor. Mergulha num estado depressivo sem remissão (melancolia, como era conhecido este estado psicológico):

“Ranjo os dentes e escarneço da minha desgraça, e escarneço duas e três vezes mais de quem quisesse dizer que eu deveria me resignar, pois não há nada a se fazer. Tirem tais espantalho de perto de mim! Corro pelas florestas, e quando chego até a casa de Lotte, vejo Albert sentado ao seu lado no jardim sob as folhas e não posso prosseguir, então me torno um verdadeiro palhaço e começo a fazer todo tipo de confusão.” (página 51)

Como tudo é dito apenas do ponto de vista de Werther, não podemos ter certeza se Lotte percebe a devoção dele e a alimenta, ou se tudo é produto de sua imaginação sobre-excitada.

Apesar de a minha edição não trazer a divisão em duas partes (livro 1 e 2), o tom da narrativa muda a partir de certo ponto. A segunda parte é sombria, tudo se precipita. Alfred e Lotte se casam. Werther é despedido do emprego, a depressão piora.

O livro coloca a interpretação de muitos fatos sob a ótica filosófica, como quando Alfred e Werther debatem sobre o suicídio. Para o marido de Lotte, o ato será uma covardia, uma fuga; para o protagonista, há justificativas para tal:

“A natureza humana”, prossegui, “tem seus limites. Ela pode suportar alegria, sofrimento e dores até um determinado grau, e colapsa assim que esse grau é ultrapassado. Portanto, aqui não se trata de alguém ser fraco ou forte, mas sim se é capaz de aguentar a dimensão da própria dor? Ela pode ser moral ou corporal: considero também incrível dizer que é covarde quem tira a própria vida, da mesma maneira que seria impertinente chamar de covarde aquele que morre com uma terrível febre.” (página 57)

 Visivelmente, neste debate, Albert representa a força da análise, da razão; Werther incorpora a força da emoção, do sentimento. A escola do romantismo sempre propugnou pela supremacia da emoção. Compreende-se. Aquele mundo industrializado que despertava, com suas máquinas, sua ciência, não era capaz, aos olhos dos românticos, de possibilitar a felicidade ou a realização ao ser humano. O mundo não podia ser reduzido a equações, a experimentos controlados. Onde a criatividade, a imaginação?

Os Sofrimentos do Jovem Werther é obra por demais conhecida. Penso não ser spoiler dizer que a história termina mal. O suicídio do personagem central já fora anunciado lá na página 57, durante a discussão entre Werther e Albert. A descrição do ato terminal tem forte carga dramática, em parte constituída pelo detalhamento. Cheguei a iniciar a transcrição do trecho, mas desisti. Deixo ao leitor a tarefa de ler o trecho no livro.

Nesta parte final do romance, já não são as cartas de Werther que nos dão ciência dos fatos. Entra em cena, a partir da página 109, sob o título “Do Editor ao Leitor”, um novo narrador. Ele publica mais algumas cartas e passa a nos introduzir nos momentos derradeiros.

Duas observações a mais. Primeiro, Goethe era fã da cultura clássica, tendo estudado Platão e lido o autor grego Homero, no original. Ele transfere esta característica ao seu protagonista. Werther é também um fã do autor de Ilíada e Odisseia. Segundo, a obra em questão tem fortes presenças autobiográficas; certa Charlotte von Stein fora uma paixão não correspondida de Goethe.

É interessante notar como um autor pode usar dados da sua própria biografia para compor seus personagens, sem que eles sejam, na integralidade, seus sósias. Nada a se estranhar, pois, quem escreve, sempre parte de determinados fatos, acontecimentos; escrever é revelar-se, como já foi asseverado por alguém.

A repercussão do Jovem Werther, à época, foi enorme, um best-seller. Foi muito criticado por ter incitado jovens europeus a uma onda de suicídio, no que passou para a posteridade como “efeito Werther”. Foi, inclusive, condenado por um pastor por ser um livro pernicioso para os jovens. Semelhante ao acontecido a outro clássico, este russo, de Léon Tólstoi, o Ana Kariênina.

Cumpre dizer que este livro não é, segundo apreciações abalizadas, o melhor do autor; cabe esta celebração ao Fausto, obra monumental publicada em dois volumes. O segundo, póstumo.

Muita gente pode não gostar deste livro, e por algumas razões. A linguagem tem um sabor antigo, é um romance epistolar (há "buracos" de informação entre uma carta e outra, já que só temos os textos escritos por Werther), é um livro de alta densidade psicológica, conquanto lírica. A carga de pessimismo oriunda dos desvarios amorosos do protagonista, desagradam a muita gente. Ainda, a técnica escolhida por Goethe ao dirigir-se indiretamente ao leitor, endereçando as cartas a Wilhelm, mas permitindo ao leitor conhecê-las pode causar algum cansaço a quem não estiver acostumado a este artifício.

Os Sofrimentos do Jovem Werther é uma obra importantíssima, um marco da literatura alemã. Escrito em 1774, nos apresenta uma narrativa que poderia, talvez, ser classificada com pré-romântica. Tenho consciência, clássicos não são para todos os espíritos e não há qualquer demérito nisto. Inicialmente, tem-se de vencer as dificuldades apontadas acima.


segunda-feira, 25 de julho de 2022

Resenha nº 193 - A Rainha do Ignoto, de Emília Freitas

 

 



Título: A Rainha do Ignoto

Autora: Emília Freitas

Editora: Wish

Edição: 2ª

Copyright: 2021

ISBN: 978-85-67566-27-6

Origem: Literatura brasileira

Gênero: romance fantasia/ficção científica

 

Projeto Escritoras Esquecidas – 2

 

Emília Freitas nasceu em Aracati, Ceará, em 11/01/1855 e veio a falecer em Manaus, capital do Estado do Amazonas, em 18/10/1908, portanto, com 53 anos de idade. Filha de Antônio José de Freitas, tenente-coronel, e de Maria de Jesus Freitas; após o falecimento do pai, a família muda-se para Fortaleza. Emília, ali, teve aulas de inglês, francês, geografia e aritmética, num colégio particular. Transferiu-se, depois, para a Escola Normal e se tornou professora.

A partir de 1873, colaborou em diversos jornais literários do Ceará, e outros, de Belém do Pará. São poesias, depois compiladas num volume intitulado Canções do Lar (1891). Em 1899, ela publicou este A Rainha do Ignoto. Consta, ainda, que ela tenha escrito outro romance, mas dele não temos mais do que poucas notícias.

A vida não foi benigna com Emília. Perdeu, aos poucos todos os familiares. Emília Freitas era uma mulher branca, mas, mesmo assim, teve enorme dificuldade em tornar-se escritora. Naquela época, mulheres deveriam ficar quietas, cuidando de seus lares. Apesar disto, ela conseguiu algum reconhecimento.

Casou-se muito tarde para a época, aos quarenta e cinco anos. As moças costumavam contrair matrimônio aos dezesseis, aos dezoito anos de idade. Em 1900, em Manaus, teve por marido Arthunino Vieira, jornalista e redator do Jornal de Fortaleza. Residentes na Serra do Maranguape, Ceará, tiveram outra parceria: fundaram  o grupo religioso Verdade e Luz (Centro Espírita).

Tempos depois, mudaram-se para Belém, onde fundaram o Centro Espírita Paraense. Naquele tempo, o espiritismo era tão perseguido quanto o candomblé e o casal teve sua casa apedrejada.

Emília posicionou-se como pacifista, contra a Guerra do Paraguai, na qual dois irmãos seus serviram como voluntários. Era francamente contra a escravidão, feminista e assumidamente espírita. Uma mulher assim, vivendo numa sociedade fortemente patriarcal, não podia mesmo obter notoriedade.

Quanto mais antigo é um livro, mais teremos de recorrer a conhecimentos da época envolvida, para conseguirmos entender as referências usadas pelo autor. É o caso de A Rainha do Ignoto.

O livro foi escrito no século XIX. O Romantismo, como escola literária, dominava o período, com o espelhamento dos sentimentos dos personagens nas descrições da natureza. Por exemplo, se alguém estivesse triste, a natureza apresentava-se chuvosa; os transportes de felicidade se faziam sob um céu límpido e cheio de sol. A Escola Romântica não foi o único fato de importância.

É também quando temos a Revolução Industrial, modificando as relações de trabalho, invenções como o automóvel, o telefone, Freud dá a conhecer a psicanálise, Charles Darwin publica A Origem das Espécies, os trens rasgam as distâncias. A ciência desponta com seus métodos experimentais. Cria-se aí o ambiente propício à eclosão das histórias futuristas, inflamadas pela ciência. O gênero literário ainda não está delineado; muitas vezes, deixa-se influenciar pelas narrativas de aventuras ou exploração de lugares exóticos.

O conservadorismo dos costumes, defendido pela Era Vitoriana, na Inglaterra, se espalha por todos os lugares. Às mulheres eram reservados o lar e as futilidades; entretanto, sempre houve quem, dentre elas, se empenhasse em romper este status quo.

Contextualização feita, vamos ao romance A Rainha do Ignoto. A Literatura sempre me entusiasma: quando penso que já li de tudo, descubro algo que me encanta, que me propõe novas abordagens. E, como neste romance, pode ser que não seja um livro novo; este é de 1899.

A obra de Emília Freitas desconcerta o leitor. É uma ficção científica? É um romance gótico? Será uma fantasia? Há um pouco de cada um destes elementos. A imaginação desta autora toca, às vezes, o inverossímil.

A Rainha do Ignoto me lembrou de Jules Verne, de Vinte Mil Léguas Submarinas, Marion Zimmer Bradley, de As Brumas de Avalon e, de quebra, H. G. Wells, de A Ilha do Dr. Moreau.

Há mistérios lançados no livro, esperando a atenção do leitor. Esta moça que aparece numa canoa e a quem a população chama de Funesta, afinal, é uma bruxa? Uma fada, como o afirmam alguns? Um ser encantado? Por que ela aparece assim – sozinha, tocando uma harpa? Seu passado esconde alguma tristeza intransponível, como ela faz parecer?

“O Jaguaribe corria em frente da janela, onde o Dr. Edmundo ficou ainda a cismar; mas sua vista errante parou sobre a lua erguendo-se no firmamento azul, como uma hóstia de ouro.

A solidão era completa, o silêncio era profundo!

Nem o vento movia os ramos das árvores. Elas se levantavam do meio da sombra projetada pela copa, como espectros cismadores.

De repente, soou ao longe uma voz doce e triste entoando uma canção francesa, e era tão saudosa, tão cheia de melancolia que as próprias pedras da margem pareciam comover-se, escutando:

Te souvient tu Marie

De notre enfance au champs

Notre jouet a la prairie,

J’avais alors quinze ans. 

A voz era de mulher e vinha se aproximando. Já se distinguia o som de uma harpa com que ela se acompanhava.” (páginas 39/40)

É neste trecho que o Dr. Edmundo, advogado, tem o primeiro contato com a chamada Funesta – a Rainha do Ignoto. Personagem estranha, cercada de mistério, logo tem a atenção do doutor. As pessoas a seu redor não têm muitas explicações; apenas sabem que ela aparece de repente, às vezes seguida por um enorme cão negro como a noite e de olhos esbraseados e um ser recurvado, um orangotango. Estaríamos, aqui, em contato com o mito fáustico (venda da alma ao diabo), que tanta literatura produziu? Não, não se trata disto.

Com o interesse aguçado, o Dr. Edmundo obtém a informação de Funesta aparecer sempre lá pelas bandas da Serra do Areré. A moça encantada sai de uma gruta inexplorada, mas de acordo com Valentim – personagem que dialoga com o Dr. Edmundo – é melhor não ir lá, pois

“Ela tem pacto com Satanás! Dizem que, onde aparece, é desgraça certa. Chamam-na “A Funesta”. Deus me livre de encontrá-la.” (página 39)

Para o bem do mistério e do enredo, o Dr. Edmundo não obedece às recomendações de Valentim.

Outros personagens misteriosos entram nesta história. Probo, o caçador de onças, é um homem solitário, de poucas palavras. Ele e Roberta, sua esposa, moram em uma casinha isolada. Com o casal, vive a filha Diana, moça bonita e sobre a qual ninguém pode dar informações detalhadas. No entanto, é Probo quem iniciará Edmundo naqueles mistérios funestos.

Probo revela ao doutor que Funesta é a Rainha do Ignoto (em tempo, ignoto significa “desconhecido”, “incógnito”). Ela possui vários navios a vapor, mas viaja sempre no Tufão e lidera o que ele chama de uma maçonaria só constituída por mulheres. Às vezes, estas paladinas (a associação com as amazonas da mitologia grega é imediata), disfarçadas, se misturam à população para melhor agirem.

Elas vivem na Ilha do Nevoeiro. Um local perto da costa, mas que ninguém viu. Pelas revelações de Probo, envolta em neblina, a ilha é mantida ignorada de todos em parte pelo nevoeiro, em parte pela prática da hipnose a distância. As habitantes da Ilha do Nevoeiro são cultas, corajosas e têm muito poder.

Este trecho me fez lembrar de três obras, já referidas acima: Vinte Mil Léguas Submarinas (o Capitão Nemo também mantém a base do Nautilus numa ilha ocultada), As Brumas de Avalon (Morgana habita uma ilha envolta em neblina mágica). Há mesmo certa ligação com A Ilha do Dr. Moreau (é numa ilha desconhecida que o tal Dr. Moreau faz suas tétricas experiências). A obra de Marion Zimmer Bradley é muito posterior à de Emília Freitas. Explica-se a lembrança por As Brumas de Avalon serem uma recriação literária de lendas muito mais antigas, do ciclo arturiano da literatura inglesa.

Disfarçado de mulher, o Dr. Edmundo pôde visitar a Ilha do Nevoeiro e acompanhar de perto todo o trabalho desenvolvido pela Rainha do Ignoto e suas paladinas. O local conta com uma imensa biblioteca, inclusive, com obras espíritas. Kardec e Camille Flammarion são citados nominalmente. Para quem não sabe, Camille, além de ter trabalhado junto a Kardec, era também um astrônomo de renome do século XIX.

Probo não é só o introdutor do Dr. Edmundo nos mistérios das paladinas. Ele é um personagem que funciona como contraponto das ideias da Rainha do Ignoto, representando, deste modo, as opiniões da maioria das pessoas. Vejamos alguns trechos, em que Probo reproduz falas da Rainha, em tom de desagrado:

“...não há lei alguma de direito humano que possa escravizar um cidadão que a condição de escravo resultou de um abuso de força contra a fraqueza...”

“A pena última é o recurso dos governos impotentes para regenerar o criminoso pela instrução e pelo trabalho.”

“... o rei é o produto da ignorância dos povos antigos, que ainda não estavam em estado de governarem-se...” (todas as citações nas páginas 185/186)

A cada uma destas condenações de Probo, o Dr. Edmundo antepõe suas aprovações: então a personagem em questão é uma rainha republicana – coisa admirável –; é abolicionista – tem ideias sãs –; ao ouvir que ela é espírita, antepõe, zombando: “Espírita! Mais um crime!”

Disse acima que há certas características de romance gótico. Por este rótulo, reconhecem-se narrativas ligadas ao terror, ao sombrio, ao fantasmagórico. Por exemplo, Frankenstein, Drácula, O Morro dos Ventos Uivantes.

Eis um trecho:

“A lua pairava no céu azulado, derramando uma luz pálida e saudosa sobre o mármore dos túmulos. O silêncio da hora, a tristeza do lugar, o mistério dos vivos casado ao mistério dos mortos traziam ao coração do Dr. Edmundo o frio do pavor!” (página 270)

Nem só de mistérios e peripécias femininas vive este bom romance. Em outra vertente temática, há a história de amor de Carlotinha pelo Dr. Edmundo. Ele, porém, só tem olhos para a Rainha do Ignoto. Acompanhando Probo e a mulher dele, Roberta, ele se ausenta do povoado por nada menos que três anos. Entretanto, o escritor – no caso, escritora – emula Deus e linhas que se afastam também podem se aproximar...

Desejo marcar outra passagem, esta, como exemplo dos recursos usados pela Escola do Romantismo:

“— Meu coração foi como tu, oceano! Lidou sem cessar, mas tu continuas, e ele despedaçou-se como esses navios que voam com o arfar do teu seio. Tu ficas e eu vou... Adeus, querido oceano, imagem de minhas dores, adeus! Tu guardas em teu seio tesouros que nunca foram vistos, e eu guardo em meu peito segredos que não foram adivinhados. As cãs de minha fronte são comuns a tuas vagas, espuma vaporosa onde se reflete a luz da lua, o cintilar das estrelas e o clarão do sol. Adeus, irmão de minha alma, retrato de minha vida.” (página 367)

Certamente, não será uma obra a agradar todo leitor. Ela contém, como visto, aqueles clichês do romantismo. Além disso, há períodos longos. São muitas as frases exclamativas, o que confere ao texto o tom de sentimentalismo. Mas – isto acontece com os clássicos – para além de tais clichês e “defeitos”, A Rainha do Ignoto chega aos nossos dias com ainda algo a nos dizer.

A edição que tenho é a da Editora Wish. Um belo tratamento devido a um clássico esquecido. Percebo um movimento de resgate destas mulheres escritoras corajosas. Desejo ingressar nesta fileira dos que valorizam tais leituras. E descubro, outra escritora esquecida, contemporânea de Emília Freitas, e igualmente cearense, Francisca Clotilde. Ela escreveu um romance abolicionista e feminista, A Divorciada.

Para finalizar, o livro A Rainha do Ignoto traz o prefácio O Fantástico Ignoto de Uma Rainha, da autoria do professor Alexandre Meireles da Silva e o posfácio Paladina das Paladinas, assinado pela professora Adrianna Alberti.

O prof. Alexandre me dá duas referências que me deixam assanhado: o primeiro romance de ficção científica escrito no Brasil é O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emílio Zaluar (há uma edição atual dele). Outra referência preciosa, O Mundo Resplandecente (1666!), de Margaret Cavendish, Duquesa de Newcastle.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Resenha n° 192 - Nada digo de ti, que em ti não veja, de Eliana Alves Cruz

 



Título: Nada digo de ti, que em ti não veja

Autora: Eliana Alves Cruz

Editora: Pallas

Edição: n/c

Copyright: 2020

ISBN: 978-65-5602-000-6

Gênero literário: Romance

Origem: Literatura brasileira

200 páginas

 

Eliana Alves dos Santos Cruz, ou Eliana Alves Cruz, nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1966. É graduada em Comunicação Empresarial pela Universidade Cândido Mendes. Foi gerente de imprensa da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos e cobriu quinze campeonatos mundiais, além de seis jogos Pan-Americanos e mais seis Jogos Olímpicos.

Na literatura, sua estreia se deu com o romance Água de Barrela. Baseado na trajetória de sua própria família, desde o século XIX, na África, foi obra vencedora da primeira edição do Prêmio Literário Oliveira Silveira, oferecido pela Fundação Cultural Palmares, em 2015.

O segundo romance recebeu o título de O crime do cais do Valongo, publicado em 2018. O terceiro é este Nada digo de ti, que em ti não veja, de 2020. Recentemente, foi publicado seu quarto romance, Solitária, pela Companhia das Letras, em 2022.

Nada digo de ti, que em ti não veja é minha primeira incursão nos trabalhos desta escritora. Como os outros dois que o precedem, trata-se de um romance histórico, ambientado no período escravagista brasileiro. Vitória é um travesti que atua como prostituta. Tema dos mais delicados e inusuais, em se tratando de romance situado na época do Brasil colônia. Ainda mais que, além de já ser estigmatizado por ser, como diz o texto – um invertido, passível de ser punido pelo crime de sodomia pela Inquisição – tem a pele negra, e é mandingueiro.

Vitória tem uma paixão declarada por Felipe Gama, e por este é correspondido. Os encontros se fazem às ocultas. Para complicar, Felipe está noivo de Sianinha – um relacionamento “arranjado” – como era prática entre famílias mais bem postadas da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

O livro nos conta, também, sobre o relacionamento entre os escravos Zé Savalú e Quitéria. O casal trabalha na casa de dona Manuella, mãe de Sianinha. A filha, embora não ame Felipe, enxerga com bons olhos o seu noivado com ele. A família tem boa ascendência social e se enriquece com seus negócios. No entanto, Sianinha tem uma queda por Zé Savalú, apesar de ele ser seu escravo.

Para complicar mais ainda as coisas, entra em cena, vindo do Santo Ofício, em Portugal, frei Alexandre Saldanha Sardinha, Inquisidor. Este personagem terá papel fundamental em toda a trama.

O próprio frei Saldanha, tão ciente de suas obrigações como sacerdote e como Inquisidor, não consegue passar incólume aos encantos femininos nem aos apelos do ouro das Gerais. E é um ponto interessante, pois se os portugueses colonizaram estas terras brasileiras, impondo sua cultura, o Brasil, por sua vez, impôs-lhes novos costumes. Frei Saldanha pode ser visto, desta forma, como símbolo desta aculturação dos portugueses pelos locais.

Eliana Alves Cruz trabalha, deste modo, com elementos explosivos em sua história. A autora constrói, logo de início, um narrador que anuncia a si próprio como tal:

“Vou lhes contar aqui algumas vidas. Apenas existências que passaram diante de meus olhos. Se você está aqui, é porque vamos passar algum tempo junto, então saiba que sou um confesso bisbilhoteiro, um fofoqueiro dos mais terríveis. Acabo revelando tudo o que vejo sem dó ou enfeites e, no confortável papel de espectador, lhes digo: não sejam tão duros porque, com o passar dos segundos, minutos, dias, horas, semanas, meses e anos, grande parte dos dramas vão morar no reino do ridículo.” (página 10)

Em outro trecho, o narrador também se manifesta:

“Prezados, estou me esforçando para não interferir na história, tentando ater-me aos fatos, mas Vitória era alguém a quem eu acompanhava com muito gosto, pois, se existiu uma pessoa com perfeita noção de tempo e espaço, este alguém era ela, não perdia um mísero segundo.” (página 174)

Um narrador assim constituído justifica os fatos que traz a público. Ele é “um fofoqueiro dos mais terríveis”; não terá escrúpulos para narrar as escabrosidades dos personagens postos a agir numa sociedade fortemente influenciada por julgamentos religiosos. Naquela época, a igreja católica era uma força inibidora. Este narrador, na verdade, acrescenta uma “pimenta” à narrativa, pois ele é não confiável e, além do mais, os ouvidos humanos amam uma fofoca, não é mesmo?

A chegada do representante desta força julgadora e punitiva, frei Saldanha, ao Brasil, já dá o tom:

“Olhava espantado e tapava o nariz, pois São Sebastião do Rio de Janeiro podia ser considerada a cidade mais suja que jamais vira. Os dejetos atirados às ruas e nas praias traziam de volta a imundície de um lugar que superlotou sem qualquer ordem. Alguns sobrados pomposos sobressaíam entre muitas casas feias, porcos e outros animais domésticos comiam o lixo a se amontoar por todos os cantos das ruas.” (página 28)

Ou, ainda:

“Viu dois moleques banhando-se em um chafariz, reluzidos pela água e pelo sol que os dourava. Os panos que levavam atados nas cinturas, mal lhes cobriam “as vergonhas” e, molhados, deixavam os jovens praticamente nus. Procurou não deter as pupilas nos seios quase à amostra sob a bata de tecido ordinário da mulher que levava um balaio enorme na cabeça, em equilíbrio e malabarismo impressionante.” (página 29)

É, portanto, naquele inferno tropical que o frei Saldanha vai exercer – ou tentar exercer – seu santo ofício. Um vulcão de calor, hormônios, sujeira, corpos seminus dos escravos. A sexualidade explosiva ali só podia ser refreada por fortes convenções sociais e religiosas. Entretanto, atrás de portas fechadas as convenções sociais se afrouxavam, o látego religioso era abandonado por atitudes... digamos, mais prazerosas.

A certa altura, o romance abandona a ambientação do Rio de Janeiro. Zé Savalú, Felipe Gama e frei Saldanha viajam para a cidade de Vila Rica – capital da Capitania das Minas Gerais. Vão em busca do enriquecimento, pois a notícia que corre solta é que, por aquelas paragens, o ouro se encontrava facilmente. Um ouro de cor escura, daí o batismo da localidade, tempos depois, como Ouro Preto.

Eliana Alves Cruz procedeu a uma pesquisa histórica detalhada. O que regulava a sociedade, na época abordada, eram as chamadas “Ordenações Filipinas”. Estas eram uma compilação do precedente Código Manuelino. Melhor explicando, tais ordenações regulavam, juridicamente, as punições e as obrigações dos cidadãos.

Em Vila Rica, como de resto no Rio de Janeiro e em toda a colônia, disseminava-se a prática de corrupção. Balthazar, irmão de Felipe, por exemplo, transportava o ouro encontrado por seus escravos sem o pagamento do quinto – imposto cobrado pela coroa sobre valioso ouro. Transportavam-no por caminhos alternativos e difíceis, para evitar os fiscais de Portugal. Mais tarde, esta revolta contra o recolhimento do imposto será um dos veios a alimentar a futura Inconfidência Mineira.

São vários os perigos a que estão sujeitos os transportadores de mercadorias, viajantes, daquela época. A trilha de mulas entre o Rio e Vila Rica é vencida, muitas vezes, a custo de vidas, em três meses de duríssima viagem. Índios à espreita, ataques de animais selvagens ou peçonhentos, acidentes nas trilhas, chuvas torrenciais e o risco das travessias de rios caudalosos eram comuns.

Sobre a personagem Vitória, é dito que ela teve 5 existências: ainda na África, teve os nomes de Kiluanji Ngonga (ao nascer, como menino); Nzinga Ngonga (quando se reconhece sua natureza feminina); Nganga Marinda (sacerdotisa dos mistérios ancestrais). No Brasil, Manuel Dias (nome cristão, quando chegou como escravo); finalmente, como Vitória.

Calunduzeira – nome dado à época aos afrodescendentes que entendiam de magias e feitiçarias – Vitória era, ao mesmo tempo, temida e procurada por muitos. Previa o futuro, receitava beberagens para cura de doenças. Entretanto, ser calunduzeira também era passível de crime sob a Inquisição.

As tais Ordenações Filipinas previam benesses para quem denunciasse praticantes de crimes. Naquela cidade do Rio instituiu-se um verdadeiro salve-se quem puder; os dedos-duros surgiam por todos os lados. Daí, um outro costume, tão presente ainda no Brasil de hoje: para se assegurarem, pessoas não tinham rubores de serem puxa-sacos. Era melhor estar bem com quem tinha o poder de punir do que deixar pontas soltas, sem a devida amarração.

Nada digo de ti, que em ti não veja é um ótimo livro. Gosto muito de romances históricos. Neles, aprendo muito de outros tempos, de uma forma muito mais lúdica, interessante do que a dos livros didáticos. Há, digamos, uma socialização dos fatos. Pelo texto contamos – mas não vou reproduzi-los aqui – com várias notícias sobre costumes, limitações, características daquele tempo.

Penso ser muito válido uma escritora de cor preta contar a história da época da escravidão. Temos muitos depoimentos do ponto de vista do branco. Precisamos de mais relatos como este, necessitamos que mais vozes como a de Eliana se disponham a abordar o passado.

 

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Resenha nº 191 - A Intrusa, de Júlia Lopes de Almeida



Título: A Intrusa

Autora: Júlia Lopes de Almeida

Editora: Pincipis

Copyright: 2019

ISBN: 978-85-380-9217-9

Gênero literário: romance

Origem: literatura brasileira

 Projeto Escritoras Brasileiras Esquecidas - 1

Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1862. Filha do médico de nome Valentim José da Silveira Lopes, o qual se tornou, mais tarde, Visconde de São Valentim. Sua mãe era Adelina Pereira Lopes. Portugueses emigrados para o Brasil, foram morar em Campinas, São Paulo. Lá, Júlia Lopes publicou seus primeiros textos no jornal Gazeta de Campinas. Na época, literatura não era vista como algo que uma mulher séria pudesse fazer; numa entrevista a João do Rio, ela até confessara adorar fazer versos, mas isto ela o fazia às escondidas.

No ano de 1886, Júlia foi viver em Lisboa. Em 1887, ela se casou com o também poeta Filinto de Almeida. O marido era diretor da revista A Semana Ilustrada e ela passou a ser colaboradora assídua desta publicação. A escritora participou também da criação da Academia Brasileira de Letras – ABL.

Como era vetada a composição do quadro de escritores com mulheres na ABL, Júlia não foi indicada. Em seu lugar, o marido Filinto de Almeida foi homenageado. Posteriormente, ele teria reconhecido ser a esposa a verdadeira merecedora da cadeira ocupada por ele. Júlia faleceu em 30/05/1934, aos 71 anos de idade, no Rio de Janeiro.

Sua vasta obra compõe-se, entre outras publicações: A Família Medeiros, 1892; Memórias de Marta, 1899; A Viúva Simões, 1897; A Falência; A Intrusa, 1908; Cruel Amor, 1911; A Silveirinha, A Casa Verde (com Filinto de Almeida); Pássaro Tonto, 1934; O Funil do Diabo (Novelas e contos), Traços e Iluminuras, 1887; Ânsia Eterna, 1903; A Isca (quatro novelas), 1922; A caolha.

Este A Intrusa é de 1908. Estamos vivendo, nesta época, com o declínio da monarquia no Brasil, a chamada República Velha. Uma mudança de regime nada popular, com forte crise econômica. O apoio à instauração desta mudança veio das classes mais abastadas, que viam nela uma maneira de recuperar os prejuízos advindos da abolição da escravatura.

O primeiro capítulo vai introduzir alguns dos personagens importantes para a história:

“Por essa feia noite de chuva, conversavam em casa do advogado Argemiro Cláudio, no Cosme Velho, o seu grande amigo padre Assunção, o deputado Armindo Teles e o Adolfo Caldas, homem de quarenta anos, sem profissão determinada, mas muito bem aceito nas rodas políticas e literárias, que frequentava assiduamente.

Tinham jantado tarde, fumavam agora na biblioteca de Argemiro, sentados à mesa do pôquer.

Menos por virtude que por cansaço, padre Assunção não quisera tomar parte no jogo e andava pela sala sacudindo o pano da batina a cada impulso de suas largas passadas. Era alto, magro, anguloso, de uma cor pálida; e nas suas feições acentuadas, em que melhor condiria o sarcasmo, havia uma tal expressão de candura, que Adolfo Caldas costumava dizer:

— O riso do Assunção cheira a rosas brancas.

O dr. Argemiro, advogado, conforme rezavam os diários do Rio, dos mais distintos do nosso foro, jogava por jogar, sem vivo interesse, só para pretexto de chamar os amigos à sua casa de viúvo e de lhe dar uma palpitação de alma que lhe ia faltando...” (página 8)

Aqui temos algumas informações para a leitura deste livro. O dr. Argemiro Cláudio é um advogado bem-posto socialmente, pois a boa casa é dele; temos, também o padre Assunção, bondoso e dono de senso crítico.

A esposa do dr. Argemiro faleceu. O viúvo tem uma filha, Maria da Glória, criada pelos avós, já idosos. O padre Assunção tem verdadeira adoração pela menina e visita a propriedade rural dos responsáveis por Glória com alguma frequência.

Entretanto, Argemiro começa a sentir falta da filha consigo. Para tanto, ele precisa de alguém que tome conta da menina e da casa:

“— Preciso de uma mulher em casa, que não seja boçal como uma criada, mas que não tenha pretensões a outra coisa. Saberei indicar-lhe o seu lugar. Nem quero vê-la, mas sentir-lhe apenas a influência na casa. É a minha primeira condição.” (página 15)

Dentro deste contexto de regras sociais mais rígidas, como acontece neste início do século XX, o que Argemiro pretende não deixará de suscitar comentários maldosos. Entretanto, ele está disposto a concretizar suas ideias. O negro Feliciano, serviçal em sua casa, não o contenta; as coisas permanecem desarrumadas, os móveis cheios de pó e ainda, ele gasta mais do que o necessário, refestelando-se com compras para ele mesmo. 

O dono da casa põe, então, um aviso no jornal e a única candidata para o cargo é dona Alice:

“O advogado levantou os olhos e viu entrar na sala uma figura meio encolhida, que lhe pareceu ter um ombro mais alto que o outro e cujas feições não viu, porque vinham cobertas com um véu bordado e ficavam contra a claridade.” (página 18)

Entendidos quanto às características do cargo, inclusive quanto à de não se verem, o contrato de trabalho é assinado. Ele poderá, agora, trazer sua filha Glória para conviver com ele pelo menos alguns dias.

Em conversa com sua sogra, mãe de sua esposa falecida, Argemiro aprendera a chamá-la de mamãe. O narrador do livro traça o perfil desta senhora, sem evitar alguns traços caricaturais:

“A baronesa era uma senhora gorda, alta, de lindos olhos negros e cabelos completamente brancos. Tinha as faces flácidas, a carne do pescoço descaídas, a boca larga, a testa curta e ainda roubada pela espessura das sobrancelhas escuras. Cosia sentada em uma cadeira de balanço, ao lado de uma mesa redonda, coberta de um pano escuro e onde floriam em um vaso, um ramo de crisântemos pálidos.” (página 35)

Toda esta caracterização tem razão de ser. Bons romancistas utilizam particularidades de um personagem quando a ele vão, palavras à frente, contrapor outras características. Por isso, a baronesa – mulher de um tempo que vai passando, abrindo espaço para outras propostas sociais – responde às ideias de Argemiro:

“— Não é razão. A mulher hoje precisa ser instruída, solidamente instruída, mamãe, e eu quero, eu exijo que minha filha o seja.

— Está direito, mas sempre quero saber se o sacrifício do estudo tem compensações verdadeiras! Andar atrás de uma pobre criança o dia inteiro, fazendo-a conjugar verbos e compor e recompor orações gramaticais, atirando-lhe para dentro da cabeça nomes de terras e complicações matemáticas; curvar-lhe a espinha em cima de mapas e linhas geométricas, cansar-lhe a vista antes do empo, roubando-lhe a liberdade que dá saúde, alegria e ousadia, olhem que não me parece obra de amor nem de caridade! Eu, cá por mim, confesso: fujo da sala de estudo quando vejo meu marido chamar a neta para a lição...” (página 37)

Esta baronesa é, portanto, não só o símbolo de uma época em decadência; é uma mulher acomodada ao papel de que a investiram o consórcio com um homem de posses, o título de nobreza (estes títulos nobiliárquicos muitas vezes eram vendidos) e não deseja mudanças.

Claro está, a baronesa – vigilante desde sempre da promessa do genro, em manter-se sem amar outra, feita no leito de morte da filha – não vê com bons olhos a contratação de uma governanta jovem, solteira, que vá viver em casa dele... uma indecência e um perigo! Juntam-se a isto os ciúmes, pois sua querida neta Maria da Glória teria contato com outra mulher, além dela: dona Alice poderá ganhar o coração da menina.

Argemiro, entretanto, vive atrelado às recordações da sua querida morta:

“Sentou-se ao lado de uma mesa a ler um jornal, mas a folha descaiu-lhe das mãos e ele pôs-se a olhar para um retrato da mulher, suspenso em um cavaletezinho de prata fosca. A saudade da sua morta revivia todas as vezes que vinha ver a filha; sentia-lhe a falta então, poderosamente. Se ela vivesse! Ah, se ela vivesse correria tudo suavemente!

Argemiro levantou o retrato e contemplou-o de perto. Quantas vezes beijara aquela fronte larga e pálida, emoldurada por cabelos loiros, que tão se adivinhavam na fotografia! Que pena não ter Glória herdado a finura daquelas feições, tão bem delineadas, tão puras, nem a doçura daquele caráter, que só o ciúme conseguia agitar. Pobre ciumenta, quantas torturas inventava para seu martírio! Que imaginação a dela para criar fantasmas de amores...” (página 43)

Mancomunada com o negro Feliciano, que via suas regalias diminuírem dia a dia, a baronesa influencia negativamente as impressões da neta, para que ela resista à tal governanta, aquela intrusa.

Não poderia dizer muita coisa mais, no tocante ao enredo, sem prejudicar a leitura deste romance. O leitor já terá deduzido que a vilã desta história será a baronesa. Se prestou atenção à figura do padre Assunção, suspeitará que ele terá um papel mediador no conflito armado. E terá razão. Mas nem tudo pode um religioso que, a custo de mediar tanta confissão dentro da igreja, termina por conhecer tão bem a alma humana e seus amores...

E, a respeito deste personagem de batina, o narrador nos conta alguma coisa:

“Padre Assunção morava para os lados da Lapa, numa casa encravada no morro de Santa Teresa, velha e esguia como uma torre, com frente de dois andares para uma rua tranquila e fundos rentes a um jardinzinho bem-cultivado.

Entre o habitante e a habitação havia certas analogias de forma e de caráter. Tinham ambos a silhueta fina e o aspecto melancólico e fatigado. E se as paredes grossas, da velha construção, davam a ideia da firmeza que o vulto ossudo do padre sugeria, as rosas brancas entrelaçadas junto ao telhado, no jardim do morro, fariam lembrar a doçura dos seus sentimentos impregnados de lealdade...” (página 159)

Muito interessante a passagem acima, não, meu caro leitor? Por que a autora se incomodaria em tão bem caracterizar este personagem coadjuvante, se ele não tivesse importância? Seria um mau romance, perdendo tempo em polir um padre Assunção sem maiores funções dentro da trama.

O meu caro leitor não se engana. Ele terá, sim, sua função. Na verdade, será fundamental para o desenlace do romance. E mais, guardará, ele mesmo, um segredo cuja revelação só se fará ao final.

Há finais fechados – os preferidos do grande público – em que todas as pontas são amarradas e tudo é explicado; há finais abertos – sempre com risco de desagradar leitores comuns – onde nem todas as pontas são atadas e cada um pode concluir pela sua escolha, dentro do que a história permitir. Há, enfim, os finais sugeridos – esses mais característicos, acredito, de certos livros de suspense – em que, igualmente, nem todas as pontas se amarram, cria-se uma tensão, mas exige-se que o leitor feche a última ponta solta, mas visível.

Pistas são fornecidas durante a história. O leitor atento, então, vai juntando-as em sua cabeça e, ao final, tem um sorriso malicioso: não disse que terminaria assim? Então, vem a astúcia de uma autora e lhe tira o sabor da vitória. Esticou o suspense, mas não afirma a solução. Apenas deixa-a entrever, a autora, por sua vez, com o tal sorriso malicioso: deixo-te a pensar; não te digo tudo, decifra-me ou te devoro...

A Intrusa. Neste friozinho que se apossou de Belo Horizonte, foi um prazer. E, ainda, Júlia Lopes de Almeida tem como marca estilística longas frases subordinadas. Hoje, já não se usam mais assim. Longos trechos com frases subordinadas exigem um domínio alto na expressão do pensamento, na construção das frases, para não se perder a coerência. Júlia faz isto com tranquilo domínio. Daí, algo de que gosto: pontos-e-vírgulas cirúrgicos.

Não deixe de o ler, meu caro, este A Intrusa. Não compreendo porque ficou ele tanto tempo sem reedição. 

domingo, 15 de maio de 2022

Projeto Escritoras Brasileiras Esquecidas

 

 

O que pode tornar uma autora, um autor esquecidos? Mesmo se eles forem bastante populares em seu tempo? Para estas perguntas podemos pensar em algumas causas.

Primeiro, pode ser que novos movimentos literários lancem no limbo autores antes conhecidos. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Coelho Neto. Bom escritor, tendo sido considerado “o príncipe dos escritores”, sofreu intensa perseguição – hoje, dizemos sofreu apagamento – pelo rolo compressor do modernismo. Coelho Neto foi autor muito apreciado antes daquele movimento; escreveu um romance gótico, uma espécie de Frankenstein brasileiro, Esfinge.

Segundo, podemos falar do desinteresse comercial das editoras. Não desejo ser injusto, sei das dificuldades enormes por que passam as casas de publicação literária para sobreviverem do que publicam, num país com tão poucos leitores per capta por motivos que não me cabe analisar aqui. Muitas vezes, certo autor/autora que já não vende tanto pode ser preterido por alguém que possua maior apelo de vendagem – mesmo que a qualidade, por vezes, não chegue nem perto da obra preterida.

Terceiro – o que é muito pior – o esquecimento por serem, simplesmente, mulheres, autoras. A maioria das doze artesãs da palavra que integram esta minha lista teve o período de maior evidência entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX. Todas as doze autoras são falecidas.

Quarto – argumento que se vincula ao terceiro, acima – por serem mulheres em defesa de propósitos considerados incômodos pela sociedade. Aliás, este argumento, aplicado aqui especificamente às mulheres, se aplica também em épocas de ditaduras, de esquerda ou de direita, a artistas em geral. Parece que ditadores morrem de medo das expressões artísticas, tanto que as vigiam ou as proíbem: Index Librorum Prohibitorum (Lista de Livros Proibidos).

Encontrei escritoras brasileiras esquecidas de maneira sistemática, o que me motivou a este projeto. Estou inconformado com a qualidade das obras e da importância histórica das publicações e o limbo a que foram atiradas autoras e suas produções. Para tanto, vou me apoiar no excelente trabalho da professora Nelly Novaes Coelho, Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, livro este esgotado na editora.

Abordarei, dentro do Projeto Escritoras Brasileiras Esquecidas, uma publicação de cada autora selecionada, para resenha neste blogue. Serão elas, levantadas em pesquisa prévia: Dinah Silveira de Queirós (A Muralha), Carolina Maria de Jesus (Casa de Alvenaria), Júlia Lopes de Almeida (A Intrusa), Maura Lopes Cançado (Deus é Hospício), Carolina Nabuco (Chama e Cinzas), Emília Freitas (A Rainha do Ignoto), Adalgisa Nery (A Imaginária), Ana Cristina César (A Teus Pés), Teresa Margarida da Silva e Orta (As Aventuras de Diófanes), Maria Firmina dos Santos (Úrsula), Maria Benedita Bormann (Lésbia) e Emília Moncorvo Bandeira de Melo (A Luta).

Várias destas queridas escritoras tinham posição muito definida na defesa do abolicionismo e do pré-feminismo (aspirações de igualdade de direitos sempre tiveram defensoras, embora não constituíssem ainda um movimento com pauta de reivindicações), dentro de uma cultura conservadora e machista. Vale lembrar, Lisístrata é uma comédia grega de Aristófanes, em que mulheres, fartas da guerra, iniciam uma greve sexual de consequências... para lá de socialmente incômodas.

Felizmente, os tempos são outros ou os assuntos que antes incomodavam a sociedade hoje são mais deglutíveis ou não fazem mais estardalhaço. É assim que estas mulheres vêm sendo resgatadas, em publicações disponíveis. Emília Freitas teve seu volume A Rainha do Ignoto magnificamente republicado pela editora Wish. É inacreditável o alheamento perpetrado, mas trata-se do primeiro romance com temática de ficção científica/fantasia escrito no Brasil. Talvez, apesar da minha indignação, isto pouco importe, já que ficção científica de autores brasileiros não encontra espaço de publicação entre nós ou, se o encontra, é sempre reduzido.

Seja como for, vêm ganhando notoriedade Maria Firmina dos Reis, com o seu Úrsula e Carolina Maria de Jesus, com Quarto de Despejo. Que bom, desejo contribuir ainda que minimamente para torná-las mais conhecidas.

Surpreendentemente, pelo menos para mim, dei com o resultado de uma pesquisa na internet, não sei se verdadeira (suponho que o seja): homens não leem obras escritas por mulheres. Quero ser exceção. O único gênero que reconheço em literatura é o das obras literárias em si: gênero conto, romance, novela, poemas, etc.