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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Resenha nº 78 - Por que fazemos o que fazemos? de Mario Sergio Cortella

Resultado de imagem para livro por que fazemos o que fazemosTítulo: Por que fazemos o que fazemos?
Subtítulo: aflições vitais sobre trabalho, carreira e realização
Autor: Mario Sergio Cortella
Editora: Planeta
Edição:3ª
ISBN: 978.85.422.0741-5
Número de páginas:174

Mario Sergio Cortella é por demais conhecido nos meios de comunicação brasileiros. É filósofo, escritor, com mestrado e doutorado em educação e professor-titular da PUC-SP, com docência e pesquisa na Pós-graduação em Educação. Foi Secretário Municipal de Educação de São Paulo (1991-1992). Foi também Assessor Especial e Chefe de Gabinete do professor Paulo Freire. Exerce atividade como comentarista da Rádio CBN nos programas Academia CBN e Escola da Vida. Tem mais de vinte livros publicados, entre eles, Qual é a tua obra?, Educação, convivência e ética; Educação, Escola e Docência (resenhado neste blog e campeão absolutíssimo de acessos) e Vida e carreira: um equilíbrio possível?, com Pedro Mandelli e Pensar bem nos faz bem!

Este Por que fazemos o que fazemos? é o mais recente trabalho de Cortella. Sobre o que seria esse livro? Basta lermos o subtítulo: “aflições vitais sobre trabalho, carreira e realização. No estilo que lhe é peculiar, Mario Sergio abre o livro, numa espécie de prefácio, com o título “Vida com propósito”:
“Segunda-feira, seis da manhã. “Triiiiiimmmm, triiiiiimmmm...” O despertador do seu celular toca e você não quer sair da cama. E isso pode indicar dois estados de ânimo. Você gostaria de dormir mais um pouquinho. O que é sinal de cansaço. Provavelmente o final de semana foi movimentado, com festas, atividade física, viagem, e você precisaria de mais algumas horas até o corpo se recuperar de um esforço intenso. Se a vontade, no entanto, é de não sair da cama, isso é sinal de estresse. Você não enxerga mais razão para fazer o que faz. ” (página 7)

E o livro faz desfilar diante de nossos olhos uma série de pequenos textos que poderiam muito bem ser enquadrados como crônicas filosóficas (da crônica, herda a linguagem muito direta e descontraída, entre séria e brincalhona; da filosofia, a discussão de problemas éticos e motivacionais). Eis a sequência dos capítulos: 1) A importância do propósito; 2) Eu, robô? Não..., 3) Odeio segunda-feira; 4) Rotina não é monotonia; 5) Autoria da obra; 6) O trabalho que nos molda; 7) A origem da motivação; 8) O que mais desmotiva; 9) Trabalho com significação; 10) Ética do esforço; 11) Valores e propósitos; 12) Por que fazer? E por que não fazer?;13) Tempo, tempo, tempo; 14) Futuros e pretéritos; 15) Eu era feliz e não sabia; 16) Lealdade à empresa até quando?; 17) Desenvolvimento gera envolvimento; 18) Motivação em tempos difíceis; 19) Organizações com propósito; 20) A empresa me sustenta, eu a sustento; ainda, mais dois pequenos textos, fechando o volume: Paciência na turbulência e Sabedoria na travessia.

Quando o livro é bem planejado, ler o índice pode nos dar uma direção segura da estrutura da obra, uma indicação de para onde vai o autor na condução do seu texto.
Por que fazemos o que fazemos é sobre encontrar um significado para aquilo que fazemos, no trabalho ou fora dele, tornando assim, nossas ações ou escolhas significativas para nós. Claramente, a ideia advogada é a de, encontrada uma significação, uma motivação para fazer o que faço, faço-o melhor. E, dono de uma articulação de conhecimentos admirável, Cortella comenta:

“Algumas religiões, entre elas a judaico-cristã, nos falam sobre o Juízo Final, o momento em que uma divindade virá fazer as grandes perguntas para julgar nossa vida, se ela foi uma vida que valeu ou não valeu a pena. As perguntas da divindade supostamente seriam: O que fez, fez por quê? O que não fez, não fez por quê? O que fez e não deveria ter feito, por que o fez? O que não fez e deveria ter feito, por que não o fez? ” (página 11)

Aqui, um comentário. Mario Sergio, declaradamente, não tem uma religião definida. Sem religião definida, mas não tolo. Sabe perfeitamente estar inserido numa forte cultura religiosa, de predominância cristã. Utilizar seus elementos para tornar mais clara uma passagem ou mesmo brincar com ela, como alguém que nos pusesse a mão no ombro e nos dissesse “olha, isso que eu tenho para dizer é importante, preste a atenção” é um recurso de aproximação com o leitor. E torna o texto mais leve; ainda mais um texto filosófico, que tem fama de ser hermético, difícil – chato, mesmo.

Uma vida sem propósito é uma vida pequena. E a praga da procrastinação frequente – palavra difícil – para significar, em última análise, o constante adiar do sonho, acaba sendo um de nossos inimigos internos. “Ah, um dia vou ser escritor”, “um dia saio dessa empresa”. Não tomo qualquer atitude para que tais mudanças aconteçam. Isso é procrastinação.

Cortella faz desfilar de modo descomplicado dizeres de Marx, Nietzsche, Martin Heidegger, Fernando Pessoa, Nicolai Gogol e Jesus, John Milton, autor de O Paraíso perdido, Marcel Proust, escritor de Em busca do tempo perdido. Escutamos a voz grave do autor falando em nossa cabeça, em subvocalização.

No capítulo 10, “A ética dos esforços”, Cortella nos fala sobre um caso acontecido com o pianista Arthur Moreira Lima, em tom de parábola:

“Após um concerto magnífico, um jovem foi até ele e falou: ‘Gostei demais do concerto, eu daria a vida para tocar piano como o senhor. ’ E ele, de pronto, respondeu: ‘Eu dei. Foram quarenta anos de dedicação de nove a dez horas diárias de esforço. ” (página 86)
E aí eu me lembro de uma história emblemática cuja tônica é a espera que algo aconteça. Chama-se A fera na selva, de Henry James, uma dessas pérolas pequenas no tamanho, mas grandes no engenho. É sobre um casal, ainda jovem, que passa a vida inteira aguardando, pois sente que alguma coisa de extraordinário vai acontecer em suas vidas.

Não se iluda o leitor: o texto “simples” de Cortella é, em si, uma demonstração do que pode fazer a motivação, o objetivo. Dono de uma erudição fantástica, nosso Mario Sergio deve ter percebido que uma boa quantidade de textos acadêmicos não se comunica com os não acadêmicos, o público em geral. E fez disto uma de suas plataformas: já que vou produzir textos para todos lerem, devo fazê-lo de modo objetivo, claro, divertido. Há um complexo trabalho de depuração por detrás da apresentação final do texto. A simplicidade é um efeito buscado.


Palmas para o Cortella, que ele merece!

sábado, 17 de setembro de 2016

Resenha nº 77 - A Balada de Adam Henry, de Ian McEwan

Resultado de imagem para livro a balada de adam henryTítulo: A balada de Adam Henry
Autor: Ian McEwan
Tradutor: Jorio Dauster
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1ª/1ª Reimpressão
202 páginas
ISBN: 978-85-359-2513-5
Copyright: 2014
Referência: TAG – Experiências Literárias – kit de junho de 2016
Bibliografia (incompleta): Amor sem fim (2011); Amsterdam (2012); O inocente (2003); O jardim de cimento (2009); Na praia (2007); Reparação (2002); Sábado (2005); Serena (2012) e Solar (2010).


Ian McEwan nasceu em Aldershot, condado inglês de Hampshire, em 21 de junho de 1948. Filho de oficial do Exército Britânico, teve de morar em vários lugares, como no Extremo Oriente, na Alemanha e no Norte da África. Estudou na Universidade de Sussex e na Universidade de East Anglia. Pela natureza de suas primeiras obras literárias, McEwan recebeu o apelido de “Ian Macabro”.

Hoje, Ian é consagrado como um dos maiores escritores; ao tomar contato com a competente tradução de Jorio Dauster, entendemos o porquê dessa fama: A balada de Adam Henry é um romance muito bom. Composto de 202 páginas, mas com um texto que preenche concisamente da 9 à 193, Ian McEwan consegue o prodígio de nos dar uma obra densa, conduzida com mão de mestre.

Tomemos contato com a história pelo começo:

“Londres. Sessões do tribunal encerradas havia uma semana. O tempo implacável de junho. Fiona Maye, juíza do Tribunal Superior, em casa na noite de domingo e deitada numa chaise longue, olha além de seus pés calçados com meia para o fundo da sala e a vista parcial das estantes embutidas junto à lareira: do lado oposto, perto de uma janela alta, uma pequena litografia de Renoir representando uma mulher no banho, comprada trinta anos atrás por cinquenta libras. Provavelmente falsa. Abaixo da gravura, no centro de uma mesa redonda de nogueira, um vaso azul. Nenhuma recordação de sua origem. Nem de quando pusera flores nele pela última vez. Havia um ano a lareira não era acesa. Gotas de chuva enegrecidas caíam de forma irregular no suporte de ferro da lareira, estalando ao se chocarem com as folhas de jornal amarrotadas que já começavam a amarelar com o passar do tempo. Estante embutida cheia de livros. Um tapete Bokhara cobrindo as largas tábuas enceradas. Na margem do seu campo de visão, um piano de cauda curta sobre cujo tampo negro e reluzente se viam fotografias da família em molduras de prata.”
O texto descritivo nos leva, habilmente, quase a visualizar toda a cena. E acrescenta caracterizações importantes na composição da personagem: a juíza Fiona é uma mulher requintada, pois em sua sala há uma chaise longue, um Renoir (não importando ser falso), um tapete Bokhara, um piano de cauda muito bem cuidado e, ainda, fotografias em moldura de prata. Seguindo o trecho descritivo, podemos acionar outro olhar interpretativo, o de que a juíza é uma mulher muito ocupada – há um ano a lareira não é utilizada, isso em Londres –, as folhas de jornal, já amarelecidas pelo tempo, o vaso azul estéril. Além de ocupada, estudiosa – veja-se a estante embutida, com livros. Deduz-se, também, que ela tenha alguma ligação com música, pela presença do piano de cauda curta; pelo conjunto de objetos sofisticados e mais a presença do piano, o leitor constrói a percepção de a Meritíssima gostar de música erudita.

Fiona é casada com Jack, um professor universitário, competente, de sessenta anos. Fiona e Jack vivem um casamento de 35 anos, sem filhos. Trabalha na Vara de Família, portanto, julgando processos que envolvam questões muito emocionais. É considerada uma juíza imparcial e competente. Entretanto, sua vida particular entra em completo caos pois, exatamente naquela sala descrita inicialmente, ela recebe uma notícia que a lança num abismo.

Jack reclama que precisa viver um grande envolvimento sexual, uma paixão alucinante e – alega – antes que seja tarde demais, pois ele também não é mais jovem. Para Fiona, sendo uma juíza de Vara de Família, o mais indecoroso é Jack solicitar sua compreensão e aceitação do seu caso com outra mulher. Não deseja abandonar o casamento, dizendo mesmo amá-la, mas – pergunta a ela – quando foi a última vez que fizeram sexo?

Um caso complexo, por outro lado, vem às mãos da juíza. Uma família de Testemunhas de Jeová está impedindo o filho menor de 18 anos e 9 meses de passar por uma transfusão de sangue. O rapaz tem leucemia, tomou remédios fortes que destruíram seu sistema imunológico e lhe causaram anemia. O complemento dos procedimentos médicos do hospital seria exatamente fornecer sangue ao paciente, para que seu corpo debilitado tivesse tempo de se recuperar. Risco iminente, caso tal não seja feito: morte.

Inicia-se, então, a batalha judicial contrapondo, de um lado, o hospital e de outro, a família. Decisão difícil. Entram em jogo conceitos igualmente poderosos como o direito à vida versus respeito à liberdade de crenças. Para o seguidor das Testemunhas de Jeová, o sangue não pode ser impuro, misturado com o sangue de outra pessoa. Como se vê, uma questão que apesar de ser fundamentalmente religiosa, extrapola esse campo.

A balada de Adam Henry constitui-se, portanto, num ótimo exercício para o estudo do amor e seus entrelaçamentos complexos. A vida em caos da juíza Fiona, as necessidades do marido em crise de idade, a decisão de vida ou morte de um menor nas mãos da justiça, a liberdade de o indivíduo decidir sobre a própria vida, a discussão sobre o condicionamento imposto por uma crença religiosa, a fraqueza e a solidão humanas propiciadoras de envolvimentos colaterais, para além do socialmente aceitos serão os ingredientes deste livro maravilhoso.

Adam Henry – o jovem com leucemia – é um rapaz esperto para certas coisas e, para outras, de uma inocência encantadora; é possuidor de uma alma de poeta. Compõe poemas “não totalmente ruins”, carecendo de maior experiência de vida. Ele elabora uma balada, a balada do título. Mas o que caracteriza esse gênero literário?

Durante a Idade Média, balada era um tipo de poema lírico, composto para ser dançado durante sua execução. Mais tarde, eliminou-se a representação coreográfica, restringindo-se apenas à recitação. A partir do século XVI, a balada toma a forma fixa de um poema distribuído em três estrofes seguidas de um refrão de meia estrofe. Já no final do século XVIII, entretanto, observamos um poema narrativo com estrutura de três oitavas e uma quadra, normalmente chamada de “oferenda” ou “ofertório”.

Há no livro uma explícita referência/homenagem ao poeta irlandês William Butler Yeats – mais conhecido entre nós pelo seu último sobrenome, Yeats. W. B. Yeats pertence à galeria dos maiores poetas de todos os tempos. É sob a inspiração desse monstro sagrado que o jovem Adam elabora seus trabalhos.

Sem dúvida, A balada de Adam Henry é um dos melhores livros já resenhados neste 2016. É trabalho para releituras posteriores, pois é daquelas obras em que, à cada releitura, encontramos algum ângulo insuspeitado.

McEWAN, Ian. A balada de Adam Henry. 1ª Edição. Editora Cia das Letras. São Paulo, SP: 2014



terça-feira, 16 de agosto de 2016

Resenha nº 76 - O caminho estreito para os confins do norte, de Richard Flanagan

O Caminho Estreito Para Os Confins Do Norte
Autor: Richard Flanagan
Editora: Globo/Biblioteca Azul
Tradução: Celso Mauro Paciornik/Augusto Pacheco Calil
1ª Edição: 2015; 1ª reimpressão: 2016
ISBN: 978-85-250-5917-8
Prêmio Man Booker Prize
430 páginas
TAG – Experiências Literárias


Richard Flanagan é um escritor da Tasmânia, Austrália, nascido em 1961. Muito prestigiado – ele ganhou o prêmio literário Man Booker Prize de 2014 – é autor de seis livros. Tem trabalhos traduzidos para vinte  e seis países, o que atesta bem seu sucesso de crítica e de público. Aqui, no Brasil, também podemos encontrar O livro dos peixes de Gould, de sua autoria, ganhador do prêmio Commonwealth Writer’s Prize. O pai do nosso escritor foi um sobrevivente da construção da estrada de ferro Thai-Burma, mais conhecida como “Ferrovia da Morte”. Flanagan usou parte das memórias paternas para compor a história de O caminho estreito para os confins do norte, que, aparentemente, vai falar de guerra, somente.
Nada mais enganoso, porém. Esse é um texto excelente de um autor talentoso. Não é fundamentalmente uma história sobre qualquer episódio da Segunda Guerra Mundial, mas um mergulho na condição humana e em suas relações de cultura e de poder.
Richard Flanagan mistura uma poesia seca com uma prosa objetiva, sem muitos floreios, o que já transparece nas páginas 29/30, em um diálogo com Lynette Maison:
“Serei um monstro carniceiro, ele sussurrou na concha coralina da orelha dela, um órgão das mulheres que ele considerava indescritivelmente comovente com seu vórtice macio, espiralado, e que sempre lhe parecera um convite à aventura. E beijou com extrema suavidade o lobo da orelha da moça.
Você devia dizer o que pensa com suas próprias palavras, disse Lynette Maison. Palavras de Dorrigo Evans.
Ela tinha cinquenta e dois anos, estava além da idade de procriar, mas não de cometer loucuras, e se desprezava pelo domínio que o velho tinha sobre ela. Sabia que ele tinha não somente uma esposa, mas outra mulher. E, suspeitava, uma ou duas outras. Faltava-lhe até a glória sensual de ser sua única amante. [...]
Com ele, ela sentia a segurança inexpugnável de ser amada. Mas sabia, contudo, que uma parte dele – a parte que ela mais desejava, a parte que era luz nele – continuava elusiva e desconhecida. Em seus sonhos Dorrigo estava sempre levitando algumas polegadas acima dela. Em mais um dia ela se entregara à raiva, acusações, ameaças e frieza no trato com ele. Tarde da noite, porém, deitada ao seu lado, ela não desejava mais ninguém.”
Dorrigo Evans é um cirurgião militar e, junto com vários homens, é capturado e levado para o Japão, onde deverão atuar – esses australianos – na construção quase impossível da Ferrovia da Morte, ou Estrada de Ferro Thai-Burma. Centenas de soldados terão, capitaneados por Dorrigo, de patente mais alta, de construir tal via férrea vencendo uma intrincada floresta, por um caminho acidentado e difícil.
Instala-se um laboratório de horrores, sob a atuação de homens como Tomokawa, Fukuhara, Nakamura. Não há condições mínimas de preservação de saúde, de alimentação. Os homens começam a morrer como moscas, vítimas de tinha (um tipo de micose também conhecido como pé-de-atleta), carrapatos, exaustão física.  Um pequeno trecho, extraído da página 124 pode nos dar ideia de como era infernal aquele ambiente:
“Fiquei de pé atrás do prisioneiro, procurei meu equilíbrio, examinei cuidadosamente o seu pescoço – descarnado e velho com sujeira nas pregas; jamais esqueci aquele pescoço. Mal a coisa começava, ela já terminava, e eu fiquei pensando por que havia pequenos glóbulos de gordura na minha espada que não sairiam quando eu a esfregasse com o papel que eles me entregaram. Isso era tudo que eu pensava: de onde vinha aquela gordura num pescoço tão esquelético de um homem tão magricela. O pescoço dele estava sujo, cinzento, como terra onde você urina. Mas depois que eu o abri com o corte, as cores eram tão vívidas, tão vivas – o vermelho do seu sangue, o branco do seu osso, o rosado da sua carne, o amarelo daquela gordura. Vida! Essas cores eram a própria vida.”
O caminho estreito para os confins do norte não é uma leitura fácil. E isso em grande parte pela sua estrutura narrativa. O enredo é do tipo não linear, isto é, as cenas e os fatos narrados não seguem uma sequência cronológica, mas vão ao presente e retornam ao passado. Não existe qualquer marcação para esses deslocamentos temporais; não há títulos nos capítulos que possam dar uma pista ao leitor. Então, somente na leitura quem lê o livro pode estabelecer em qual faixa de tempo aquilo que se narra acontece.
Uma das propostas mais interessantes do livro, em termos de ponto-de-vista do narrador, é a elaboração de uma visão relativista a respeito dos japoneses. Explico-me: normalmente, em histórias passadas em guerras, o inimigo é geralmente retratado como o vilão, o monstro sem alma nem sentimentos. Flanagan, pelo contrário, instaura seu narrador que vê a frieza com a qual os nipônicos tratam seus prisioneiros, levando-os à morte pela exaustão física ou por doenças variadas como uma questão fundamental para os japoneses.
Criados numa cultura de absoluta submissão às ordens do seu imperador, a ferrovia simplesmente tem de ser construída, porque assim lhes foi ordenado. É a vontade emanada de um poder absoluto – inclusive, com poder sobre suas próprias precárias vidas. As falhas têm de ser punidas porque exatamente os nativos estão imersos nessa cultura. Não é demais lembrar que o fracasso, pelo menos no Japão daquela época, era visto como uma desonra punível com o suicídio ritualístico. Dentro dessa visão, por exemplo, a atuação dos kamikazes – pilotos-suicidas – perdiam suas vidas jogando seus aviões sobre os navios inimigos simplesmente estavam cumprindo ordens indiscutíveis.
Dorrigo Evans é um ser extremamente deslocado, no passado ou no presente. Não gosta de admitir, mas sente falta da guerra, onde – pelo menos em sua visão – fazia algo de útil, tentava salvar a vida de seus homens em condições completamente adversas. Por essa disposição, Dorrigo foi apelidado por seus comandados como “O Amigão”. Terminada a guerra, Evans se casa com Ella, mas se lembra o tempo todo de Amy.
Dessa forma, concluo eu em minha modesta opinião, o tema que perpassa todo o livro é o da perda e seus desdobramentos – principalmente a solidão. Amy é solitária, Evans é solitário, Ella é solitária. É o “solitário andar por entre as gentes”.
O caminho estreito para os confins do norte é daquelas leituras positivamente perturbadoras. Romance que – pelo menos, para mim – não se lê de uma sentada. Puxa reflexões, constrói novas interpretações sobre a convencionada realidade.
Pelo magnífico texto de Richard Flanagan perpassam haicais do poeta Bashô e Issa. Haicais são poemas característicos da cultura japonesa, caracterizados (geralmente) por conterem três versos, com esquema de sílabas 6-7-5. Bashô é considerado o maior “haicaísta” japonês. Essa forma poética é extremamente difícil de se elaborar, apresentando forte síntese de ideias.
Referências a livros vão pontuar a narrativa de Richard, informação com que a TAG – Experiências Literárias – teve a preocupação de nos brindar na revista anexa ao livro, ressaltando-nos tal importância, por meio de um texto e da indicação do livro resenhado anteriormente aqui nesse blog, Quando os livros foram à guerra.
O título – O caminho estreito para os confins do norte – é uma homenagem à obra de Bashô, de mesmo título – mas, sobretudo, uma apropriação extremamente significativa dentro da contextualização do livro do tasmaniano.


FLANAGAN, Richard. O caminho estreito para os confins do norte. 1ª Edição. Editora Globo S. A. São Paulo, SP: 2015

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Resenha nº 75 - Quando os livros foram à guerra, de Molly G.Manning

Ao receber meu kit relativo ao mês de maio da Tag – Experiências Literárias, na revista que acompanha o material encontrei uma referência a Quando os livros foram à guerra. A autora me era completamente desconhecida – uma tal Molly Guptill Manning.

Interessei-me imediatamente. É que, nesta obra, parte da história da Segunda Guerra Mundial era contada por uma outra ótica, não usual: a do valor das obras literárias como possibilidade de entretenimento, identificação e reflexão.

Numa guerra em que a principal arma era o discurso – os alemães de Hitler convenceram, por meio de emissões radiofônicas, os franceses de que não tinham qualquer chance de enfrentar os exércitos do Führer. Afinal de contas, as palavras eram extremamente importantes.

E foi assim que a ASE – Armed Services Editions – editora que se especializou na produção de livros para os combatentes americanos ganhou proeminência no conflito. Todo e qualquer soldado conhecia os horrores e a carnificina que se instauravam no solo guerreiro. Mas a guerra não era feita apenas de heroísmos, violência e mortes. Por períodos muito longos, o sofrimento dos homens era brutalmente aumentado pelo tédio entre as batalhas, a incerteza de sua própria vida, as condições sub-humanas em trincheiras cheias de frio, fome e chuva. E os livros, à medida que chegavam, tornavam a vida daqueles soldados menos terrível:

“Os livros, porém, eram uma catarse para muitos homens. Essa resposta intangível tornou-se evidente pelas reações dos soldados a certos livros. De modo improvável, Katherine Anne Porter foi uma autora que conquistou grande apelo. Seus contos expunham de maneira delicada experiências e emoções profundamente pessoais, que tendiam a dar aos leitores a impressão de que ela entendia seus pensamentos e sentimentos mais íntimos. Centenas de homens escreveram para Porter após a leitura do seu livro da ASE: alguns descreviam como tinham se identificado com determinado personagem, outros sentiam como se uma camada de solidão e isolamento tivesse sido removida por sua prosa. Ao escrever para a pessoa que tocou seu coração, os soldados davam vida à relação que tinham com as páginas que liam. Frequentemente, essas cartas detalhavam experiências e sentimentos bastante pessoais; na realidade, detalhes que muitas vezes não haviam sido revelados nem mesmo aos entes queridos foram confidenciados aos autores. ” (páginas 116/117)

Outro relato pungente aparece à página 123, dos combatentes localizados nas ilhas Aleutas:

“Das ilhas Aleutas, um soldado escreveu para Taylor dizendo que não foi capaz de “resistir à tentação de escrever para a senhora, para revelar como Chicken Every Sunday está sendo lido e apreciado por um público para o qual, com toda a certeza, seu livro não era destinado”. Na realidade, afirmou, ele “não estava falando de um ou dois quando disse que é um livro para soldados, pois o vi passando de beliche em beliche em minha própria barraca e ouvi a explosão de risadas que provocava até dores abdominais, seguida por trechos lidos em voz alta para todo o grupo”. E ouviram-se “ecos das barracas vizinhas, dos dois lados”. Esse soldado recordou que, quando alguém “levava Chicken para o trabalho”, ele “mal conseguia conter seu entusiasmo quando aquele homem voltava à noite”. O livro era o produto mais desejado da guarnição. Como a leitura era uma das poucas formas de recreação disponíveis para os recrutas baseados nas Aleutas, esse soldado revelou que ele e seus amigos tinham se tornado bastante seletivos nos gostos de leitura. Ele explicou que o motivo pelo qual Chicken Every Sunday dialogou com ele e com os homens próximos dele era o fato de os personagens do livro serem “pessoas familiares, e todo recruta que lê a respeito delas se recorda nostalgicamente de seus semelhantes que ficaram no país”. “Em nome de muitos de nós, quero agradecer-lhe as muitas horas de ótima diversão”, afirmou ele. “Todos nós esperamos que lancem mais livros de Rosemary Taylor. ” E lançaram. O conselho publicou Ridin’ the Rainbow. ”

As edições da ASE chegavam às mãos dos destinatários em formato pocket, por alguns motivos. Primeiro, eram mais baratos de se produzir; segundo e maior motivo, seu tamanho era desenhado para caber nos bolsos dos homens e serem leves de transportar. Feitos de papel fino, com capa mole, diferente daqueles postos à venda no país, confeccionados em papel de alta gramatura, em hard cover (capa dura), eram companheiros de todas as horas.

Quando a guerra acabou, a ASE e suas edições econômicas perderam a razão de ser. Mas houve um incrível “efeito colateral”. Quando aqueles ex-combatentes retornavam a sua vida normal e participavam do programa de incentivo ao Ensino Superior, eles faziam a alegria de qualquer professor: eram fortemente dedicados, persistentes e com uma capacidade de entendimento textual acima da média. Há no Quando os livros foram à guerra alguns trechos transcritos em que os outros estudantes reclamavam dos “malditos que elevavam a média”:

“Entre agosto de 1945 e janeiro de 1946, 5,4 milhões de norte-americanos que serviram no Exército e na Marinha foram dispensados do serviço. Quando esses veteranos ficaram sabendo dos benefícios disponíveis de acordo com a GI Bill emendada, afluíram em massa para se matricular no ensino superior. Em 1948, as matrículas alcançaram seu auge, com 900 mil veteranos se matriculando. Ao longo de nove anos, cerca de 7,8 milhões de veteranos procuraram formação acadêmica ou profissional de acordo com a GI Bill, com um total de 2,2 milhões se matriculando em cursos de nível superior. De 1947 a 1948, nos Estados Unidos, 50% dos alunos do ensino superior eram veteranos, e a quantidade total dos alunos em faculdades e universidades era maior do que época anterior. Embora alguns críticos iniciais acreditassem que os veteranos não queriam estudar, não tinham interesse em ler livros, e estavam inclinados a procurar emprego em vez de formação educacional, os veteranos rapidamente adquiriram a reputação de estudantes sérios e maduros; eles frequentavam as aulas, anotavam as matérias meticulosamente, estudavam muito e tiravam notas altas. Os estudantes não veteranos começaram a se ressentir de ter veteranos em suas turmas, pois as altas notas dos ex-soldados causavam estragos na média geral das notas. ” (página 197)

Quando os livros foram à guerra é uma obra de reportagem. Há casos e mais casos de depoimentos dos leitores, os quais não transcrevi na íntegra para não ficar cansativo. Ademais, uma resenha deve dar apenas uma ideia do que o leitor pode encontrar nas páginas de um livro.

Recomendo fortemente essa leitura, embora não consiga entender a precariedade da divulgação dos livros no Brasil. A editora LeYa poderia ter feito um trabalho bem melhor ao divulgá-lo. Nós, amantes de livros, ainda conseguimos “farejar” algo, escutando um comentário aqui ou ali, mas não deveria ser assim.


Agora, posso começar a ler o livro enviado pela Tag – Experiências Literárias. É uma história de guerra também; O caminho estreito para os confins do norte é escrito pelo australiano Richard Flanagan. Trata dos horrores sofridos por soldados australianos nas mãos dos japoneses. As referências a todo esse cenário composto pelo sofrimento e tédio dos combatentes, amenizados apenas pela chegada dos livros está lá. Contextualização feita, fico com melhores condições de entender e avaliar o que se passa na história.

HANNING, Molly Guptill. Quando os livros foram à guerra. Editora Casa da Palavra. Rio de Janeiro, RJ: 2015

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Resenha nº 74 - Felicidade foi-se embora?, de vários autores

Esta obra é escrita a três mãos, polifonia de três vozes sobre um mesmo tema, já indiciado pelo título: Felicidade foi-se embora? Escreveram-na Frei Betto, Leonardo Boff e Mario Sergio Cortella.

E, contrariamente ao que sempre faço (é bom a gente se reiventar, de vez em quando),  já começo contando um causo, que é como nós, mineiríssimos, gostamos de dar a essa palavra nosso sotaque. Gostamos de causos.

Era uma quarta-feira, dia da palestra tríplice e lançamento do livro em questão. Entrada gratuita, sendo necessário apenas o comparecimento duas horas antes do horário marcado para o início do evento. Lá fui eu, na expectativa de poder fruir a reflexão desses três, os quais tanto admiro. Não contava com um incidente: mesmo chegando cedo, muitas, muitas outras pessoas chegaram mais cedo ainda; dessa forma, foi-me impossível atingir o meu intento.

Podia, é claro, ter dois sentimentos. Sabe aquela coisa de se ver o copo meio cheio ou meio vazio? Pois é. Eu podia ficar irritado contra alguma coisa indefinida, deixar o sentimento de frustração tomar conta de mim, ou podia – estoicamente – deixar-me ficar contente, pois aquela enorme fila de pessoas comuns à minha frente significava exatamente isso: pessoas comuns, gente como a gente, interessada em algo mais reflexivo, mais profundo, mais filosófico. Optei pelo copo meio cheio.

“Frei Betto – diz-nos a orelha do livro – é frade dominicano e escritor. Estudou Jornalismo, Filosofia, Antropologia e Teologia. Possui 60 títulos publicados, muitos deles traduzidos do exterior.

O reconhecimento de seu talento literário o fez merecer os prêmios Jabuti (1982); da Associação Paulista de Críticos de Arte (1998) – “Melhor Obra Infantojuvenil” com o livro A noite em que Jesus nasceu, editado pela Vozes; e o Prêmio Alba de Literatura (2009). Entre suas obras literárias se destacam Sinfonia universal – A cosmovisão de Teilhard de Chardin, A arte de reinventar a vida e, em parceria com Leonardo Boff, Mística e espiritualidade, editadas pela Vozes.

Ao longo de sua trajetória, Frei Betto tem recebido vários prêmios por se destacar na luta pelos direitos humanos, com destaque para o Prêmio Intrernacional Unesco José Martí, para o qual foi indicado por unanimidade em 2012. Recebeu, em 2015, o título Doutor Honoris Causa em Filosofia da Universidade de Havana.”

 “Leonardo Boff – continua a orelha do livro – (1938) foi por mais de 20 anos professor de Teologia Sistemática no Instituto Franciscano de Petrópolis e posteriormente professor de Ética, Filosofia da Religião e de Ecologia Filosófica na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Também professor-visitante em várias universidades estrangeiras. Por muitos anos coordenou as publicações religiosas da Editora Vozes e especialmente a Obra Completa de C. G. Jung. É membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, da qual é um dos corredatores. Em 2002 foi galardoado pelo Parlamento Sueco com o Prêmio Nobel Alternativo da Paz, por associar ecologia com justiça social e espiritualidade.

É autor de quase cem livros, em sua maioria publicados pela Editora Vozes, entre os quais se destacam: Ecologia – Grito da Terra; grito dos pobres; O Tao da Libertação – Explorando a ecologia da transformação, junto com o cosmólogo Mark Hathaway; O rosto materno de Deus; A Trindade e a Sociedade. Por mais de 15 anos é colunista semanal do Jornal do Brasil.”

 “Mario Sergio Cortella, nascido em Londrina, em 05/03/1954, - seguem as informações do livro – filósofo e escritor, com mestrado e doutorado em Educação, professor-titular da PUC-SP (na qual atuou por 35 anos, 1977-2012), com docência e pesquisa na Pós-Graduação em Educação: Currículo (1997-2012) e no Departamento de Teologia e Ciências da Religião (1977-2007).

É professor-convidado da Fundação Dom Cabral (desde 1997) e ensinou no GVpec da FGV-SP (1998-2010). Foi secretário municipal de Educação de São Paulo (1991-1992), tendo antes sido assessor especial e chefe de gabinete do Prof. Paulo Freire.

Comentarista da Rádio CBN no Academia CBN (rede nacional, de segunda a sexta-feira) e Escola da Vida (capital paulista às terças e quintas-feiras). É autor de dezenas de obras de sucesso.”

Felicidade foi-se embora? é uma pequena obra sobre o tema “felicidade”. Mas dizer somente isso não basta; da cabeça maravilhosa dessas três figuras sai um livro absolutamente fascinante. Texto leve, poético muitas vezes; naturalmente, Frei Betto vai nos dar uma visão eminentemente religiosa (o termo não tem aqui a conotação de religião católica, como se pode erroneamente inferir, mas o de religiosidade), centrando a felicidade como uma experiência transcendente do ser humano.

Ele nos conta uma Parábola das sementes de felicidade, a qual vale a pena transcrever:

“Um homem muito rico, porém infeliz, vendeu todos os seus bens, disposto a comprar, a qualquer custo, a felicidade. Saiu pelo mundo afora com suas arcas repletas de barras de ouro. Nas Arábias, soube por um jovem cameleiro que, em pleno deserto, junto a um oásis, havia uma tenda sobre a qual se erguia um anúncio: “Felicidade”.

Esperançoso, o homem partiu rumo ao local indicado. Após muitos dias de viagem, acompanhado pela fila de camelos com suas arcas cheias de ouro, atingiu o oásis. De fato, lá estava a tenda da “Felicidade”. Ao entrar, deparou-se com um balcão e, do lado de dentro, uma atenciosa moça.

“É aqui que se encontra a felicidade?”, indagou. “Sim, é aqui”, confirmou a moça. “Quero comprá-la. Não importa o preço. Estou disposto a pagar por ela toda a minha fortuna”.

A moça fitou-o compassiva e disse: “Não vendemos felicidade”. O homem ficou indignado: “Como não vendem!? Posso pagar quanto pedirem!” A moça sorriu e retrucou: “Senhor, não vendemos; damos”. “Dão? De graça?” “Sim, de graça”, confirmou a balconista.

Ela se enfiou nos fundos da tenda e, pouco depois, retornou. Sobre o balcão, depositou  uma pequena embalagem, do tamanho de uma caixa de fósforos. “Toma, senhor. Pode levar. Aqui está a felicidade.”

O homem, espantado, sem entender o que sucedia, abriu a caixinha e se deparou com uma dúzia de pequenas bolinhas pretas. “O que é isso? Não compreendo”, queixou-se.

A moça tomou a caixa em mãos e apontou as bolinhas: “Esta aqui é a semente da amizade; esta, da solidariedade; esta, da fidelidade; esta, da generosidade. Se o senhor souber cultivá-las, será um homem feliz.” (páginas 20-22)

Para aqueles que acharem o texto do Frei Betto muito fluido, poderão contentar-se com o escrito por Leonardo Boff. Alertando já de início que “por mais definições que se tenham dado, elas não vão além daquilo que Aristóteles em sua Ética a Nicômaco já explanou.” Ela (a felicidade), sendo um fruto do agir bem e do viver bem, resulta de um modo de vida virtuoso.

Boff vai dar importância ao modo como nos relacionamos com Gaia – a Terra. Porque ela é, raciocina ele, a que nos dá condições de sustentação de vida. Somos seres integradas à natureza. Cita, por exemplo, os astronautas:

“Daqui de cima não há diferença entre Terra e humanidade. Elas formam uma unidade complexa, constituem uma única grande e diversa realidade”. (páginas 62)

E Leonardo Boff conclui daí:

“Se vivermos consoante ao ritmo musical da Terra, se nos afinarmos à sua melodia, se cuidarmos dela com terno afeto, como cuidamos de nossas mães, colheremos o melhor fruto, que é a felicidade.” (página 62)

O texto de Mario Sergio Cortella é talvez mais acadêmico, embora, no fundo, essa tentativa de caracterização não diga muita coisa. Cortella nos avisa que a felicidade é circunstancial; somente o alienado é feliz por toda a sua vida. E somente conseguimos nos avaliar como felizes porque fomos, alguma vez, anteriormente, infelizes:

“Felicidade não é um estado contínuo, não pode nem deve sê-lo. E nem seria possível, pois isso colocaria a pessoa próxima do estado de demência. Não se confunda felicidade com euforia. A euforia contínua é um distúrbio mental. Afinal de contas, estamos num mundo onde há atribulações, passos tortos, turbulências, problemas.” (páginas 81/82)

Este não é um livro resumível. Os três autores são talentosos ao lidar com a escrita. Provam por a + b que filosofia não tem que ser uma coisa chata, bocejante. Outra coisa boa de se constatar, com posturas analíticas tão diferentes, esses três amigos dão o exemplo de, como quer Edgar Morin, é possível ser-se diverso na unidade. Três maneiras diferentes de ver o objeto de suas análises resultam num livro coeso, polifônico, mas equilibrado e uno.

A visão de Leonardo Boff, pensei ao concluir o rascunho dessa resenha, me fez lembrar muito da filosofia contida no filme Avatar, do diretor James Cameron. Não é só um filme bem feito esteticamente, mas divulgador da ideia de que todos estamos de algum modo unidos à Gaia. Os Na’Vi são os habitantes do planeta Pandora e vivem em íntima integração com as forças da natureza. Colaboram com elas e delas tiram seu sustento e sua harmonia. O elemento perturbador dessa paz é o homo ambiciosus.  Não é demais lembrar que Jake Sully precisa morrer para a ambição humana para integrar-se à natureza de Pandora, “renascendo” para a harmonia e para o amor de Neytiri. Precisa cumprir a epopeia de uma profecia: a de que o elemento portador do mal também será o elemento restaurador das Forças Harmônicas.

Disse no começo que Felicidade foi-se embora? é uma pequena obra sobre o tema felicidade. Ledo engano! É, na verdade, uma grande obra; suas 130 páginas nos mergulham numa sensação preconceituosa (no sentido de conceito formado antes da experiência em si); os textos são gostosamente densos, vozes de bons pais para filhos, ou seja, com carinho e respeito. Que mais se pode exigir de um livro?


BETTO, Frei; BOFF, Leonardo; CORTELLA, Mario Sergio. Felicidade foi-se embora?. Editora Nobilis/Vozes. Petrópolis, RJ: 2016.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Resenha nº 73 - Benjamim, de Francisco Buarque de Hollanda

Resultado de imagem para livro benjamim chico buarqueFrancisco Buarque de Hollanda quase dispensa apresentação. Filho de outro ícone da cultura brasileira, o historiador e crítico literário Sérgio Buarque de Hollanda, Chico Buarque é autor de músicas que o colocaram no primeiro time da chamada MPB. É também escritor com uma produção literária não muito ampla, mas solidamente constituída.

Escreveu Fazenda Modelo, Estorvo, Benjamim, Budapeste, Leite Derramado e, mais recentemente, O Irmão Alemão.

Este romance Benjamim não é das narrativas mais fáceis de se ler. Há obras literárias para determinadas faixas de maturidade, isto é, considero um desserviço entregar, por exemplo, obras de Machado de Assis para leitores pouco amadurecidos lerem. E não ajudam nada, defendo eu, as famigeradas adaptações de clássicos.

Mas essa é uma discussão para outra ocasião.

Benjamim tem uma estrutura circular; isto equivale dizer, no caso, que a obra se inicia por onde termina. Benjamim Zambraia é fuzilado logo na primeira página, primeiro parágrafo. Naqueles minutos entre os disparos dos fuzis e sua morte toda sua vida passa diante de seus olhos, em tempo de memória. Entretanto, esta não será uma memória objetiva, precisa; muito do mundo dos sonhos estará ali presente, num elaborado jogo de espelhos.

Vejamos:

“O pelotão estava em forma, a voz de comando foi enérgica e a fuzilaria produziu um único estrondo. Mas para Benjamim Zambraia soou como um rufo, e ele seria capaz de dizer em que ordem haviam disparado as doze armas ali defronte. Cego, identificaria cada fuzil e diria de que cano partira cada um dos projéteis que agora o atingiam no peito, no pescoço e na cara. Tudo se extinguira com a velocidade de uma bala entre a epiderme e o primeiro alvo letal (aorta, coração, traquéia, bulbo), e naquele instante Benjamim assistiu ao que já esperava: sua existência projetou-se do início ao fim, tal qual um filme, na venda dos olhos.” (página 5)

Benjamim é um ex-modelo fotográfico:

“Fez-se filmar durante toda a juventude, e só com o advento do primeiro cabelo branco decidiu abolir a ridícula coisa. Era tarde: a câmera criara autonomia, deu de encarapitar-se em qualquer parte para flagrar episódios medíocres, e Benjamim já teve ganas de erguer a camisa e cobrir o rosto no meio da rua...”(página 7)

Ele conhece certa Castana Beatriz e por ela se apaixona, repelido pelo pai dela, que não via futuro naquilo que o pretendente da filha fazia. Como o pai surpreendera uma fotografia de Castana em biquíni de duas peças, numa capa de revista, manda-a para o exterior. Posteriormente, ela retorna e reassume o relacionamento com Benjamim.

Castana Beatriz é uma ativista nos anos 60, duros anos da ditadura e, como Benjamim acredita que por sua causa ela fora morta, ele vive obsediado por seu sentimento de culpa. Não será difícil, portanto, ao conhecer outra personagem, Ariela Masé – alguma coisa nela lhe lembra Castana – que ele se ligue afetivamente a ela.

Manipulando tais elementos de ficção do tipo thriller, Chico Buarque nos leva a uma situação complexa, em que elementos ficcionais e biográficos dos personagens vêm misturados.

Um pouco da biografia de Castana Beatriz:

“Castana Beatriz sempre foi péssima aluna, mal completou o ginásio, colava, fumava no banheiro, foi expulsa do colégio de freiras, só foi readmitida porque o pai era um benemérito, e a essa altura da vida queria fazer crer a Benjamim que se convertera ao universo acadêmico. Benjamim não fez o espetáculo de ciúmes que agora talvez fizesse. Preferiu arriscar a reviravolta drástica, que daqui para sempre renegará: levou Castana Beatriz a um restaurante bolorento e propôs-lhe que se casasse com ele. Agora é claro que ele retira a proposta. Mas não é capaz cancelar a reação de Castana Beatriz, que soltou uma gargalhada e jogou para trás a cabeça cheia de cachos castanhos.” (página 56)

A narrativa, do ponto de vista histórico, se passa em duas épocas: a primeira, em que existe o relacionamento de Benjamim Zambraia e Castana Beatriz, durante a didatura dos anos 60; a segunda, em que circulam o protagonista e Ariela Masé, já nos anos 70.

Um outro ponto de destaque é a capacidade de Chico Buarque de lidar com detalhes miúdos, de uma vida absolutamente corriqueira:

“Ariela arregaça a meia-calça, calça a perna direita, a esquerda, levanta-se, acaba de ajustá-la às virilhas e desconfia que a vestiu de trás para diante. Despe-se, tateia a cabeceira, tateia os lambris da parede, topa num pé de sapato, alcança o espaldar da poltrona, apalpa a saia plissada e o casado do tailleur. Chega à porta do quarto, mercê de uma nesga de luz rente ao carpete, e atravessa nua a sala de jogos que dá no bar que dá no salão de visitas, onde as lâmpadas ficam acesas.” (página 141)

Os vários personagens – Castana, Ariela, Benjamim, Alyandro Sgaratti – não são protagonistas de suas próprias vidas. A vida os leva, as situações constroem suas ações, isto é, eles reagem aos fatos, aos acontecimentos, mas não os criam. Alyandro Sgaratti, por exemplo, fora um puxador de carros na adolescência, depois se torna o rei das peças usadas originadas de desmanches clandestinos e, diríamos, num automatismo determinante, chega à carreira de político corrupto. Sua candidatura é o resultado de uma campanha de marketing político.

Aqui nesse blog já foi resenhado o livro Leite Derramado, do mesmo autor. Como aquele, esse Benjamim é leitura altamente recomendada, mas, como a outra obra, não é uma leitura das mais fáceis. Chico possui uma narrativa densa, cheia de pormenores, ritmos e rimas, referências em planos mais elaborados que, obviamente, o tornam um autor recomendado para leitores com mais experiência de vida, de leituras mais sutis; ele é daqueles escritores que, provavelmente, não serão considerados best-sellers, mas sim alcançarão prestígio e consideração da cognominada “Alta Literatura”.

Dele, disse certa vez o também escritor José Saramago, Hollanda seria uma voz realmente importante e nova na literatura brasileira.


HOLLANDA, Francisco Buarque de. Benjamim. Editora Companhia das Letras, 2ª edição. São Paulo, SP: 1995