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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Resenha nº 76 - O caminho estreito para os confins do norte, de Richard Flanagan

O Caminho Estreito Para Os Confins Do Norte
Autor: Richard Flanagan
Editora: Globo/Biblioteca Azul
Tradução: Celso Mauro Paciornik/Augusto Pacheco Calil
1ª Edição: 2015; 1ª reimpressão: 2016
ISBN: 978-85-250-5917-8
Prêmio Man Booker Prize
430 páginas
TAG – Experiências Literárias


Richard Flanagan é um escritor da Tasmânia, Austrália, nascido em 1961. Muito prestigiado – ele ganhou o prêmio literário Man Booker Prize de 2014 – é autor de seis livros. Tem trabalhos traduzidos para vinte  e seis países, o que atesta bem seu sucesso de crítica e de público. Aqui, no Brasil, também podemos encontrar O livro dos peixes de Gould, de sua autoria, ganhador do prêmio Commonwealth Writer’s Prize. O pai do nosso escritor foi um sobrevivente da construção da estrada de ferro Thai-Burma, mais conhecida como “Ferrovia da Morte”. Flanagan usou parte das memórias paternas para compor a história de O caminho estreito para os confins do norte, que, aparentemente, vai falar de guerra, somente.
Nada mais enganoso, porém. Esse é um texto excelente de um autor talentoso. Não é fundamentalmente uma história sobre qualquer episódio da Segunda Guerra Mundial, mas um mergulho na condição humana e em suas relações de cultura e de poder.
Richard Flanagan mistura uma poesia seca com uma prosa objetiva, sem muitos floreios, o que já transparece nas páginas 29/30, em um diálogo com Lynette Maison:
“Serei um monstro carniceiro, ele sussurrou na concha coralina da orelha dela, um órgão das mulheres que ele considerava indescritivelmente comovente com seu vórtice macio, espiralado, e que sempre lhe parecera um convite à aventura. E beijou com extrema suavidade o lobo da orelha da moça.
Você devia dizer o que pensa com suas próprias palavras, disse Lynette Maison. Palavras de Dorrigo Evans.
Ela tinha cinquenta e dois anos, estava além da idade de procriar, mas não de cometer loucuras, e se desprezava pelo domínio que o velho tinha sobre ela. Sabia que ele tinha não somente uma esposa, mas outra mulher. E, suspeitava, uma ou duas outras. Faltava-lhe até a glória sensual de ser sua única amante. [...]
Com ele, ela sentia a segurança inexpugnável de ser amada. Mas sabia, contudo, que uma parte dele – a parte que ela mais desejava, a parte que era luz nele – continuava elusiva e desconhecida. Em seus sonhos Dorrigo estava sempre levitando algumas polegadas acima dela. Em mais um dia ela se entregara à raiva, acusações, ameaças e frieza no trato com ele. Tarde da noite, porém, deitada ao seu lado, ela não desejava mais ninguém.”
Dorrigo Evans é um cirurgião militar e, junto com vários homens, é capturado e levado para o Japão, onde deverão atuar – esses australianos – na construção quase impossível da Ferrovia da Morte, ou Estrada de Ferro Thai-Burma. Centenas de soldados terão, capitaneados por Dorrigo, de patente mais alta, de construir tal via férrea vencendo uma intrincada floresta, por um caminho acidentado e difícil.
Instala-se um laboratório de horrores, sob a atuação de homens como Tomokawa, Fukuhara, Nakamura. Não há condições mínimas de preservação de saúde, de alimentação. Os homens começam a morrer como moscas, vítimas de tinha (um tipo de micose também conhecido como pé-de-atleta), carrapatos, exaustão física.  Um pequeno trecho, extraído da página 124 pode nos dar ideia de como era infernal aquele ambiente:
“Fiquei de pé atrás do prisioneiro, procurei meu equilíbrio, examinei cuidadosamente o seu pescoço – descarnado e velho com sujeira nas pregas; jamais esqueci aquele pescoço. Mal a coisa começava, ela já terminava, e eu fiquei pensando por que havia pequenos glóbulos de gordura na minha espada que não sairiam quando eu a esfregasse com o papel que eles me entregaram. Isso era tudo que eu pensava: de onde vinha aquela gordura num pescoço tão esquelético de um homem tão magricela. O pescoço dele estava sujo, cinzento, como terra onde você urina. Mas depois que eu o abri com o corte, as cores eram tão vívidas, tão vivas – o vermelho do seu sangue, o branco do seu osso, o rosado da sua carne, o amarelo daquela gordura. Vida! Essas cores eram a própria vida.”
O caminho estreito para os confins do norte não é uma leitura fácil. E isso em grande parte pela sua estrutura narrativa. O enredo é do tipo não linear, isto é, as cenas e os fatos narrados não seguem uma sequência cronológica, mas vão ao presente e retornam ao passado. Não existe qualquer marcação para esses deslocamentos temporais; não há títulos nos capítulos que possam dar uma pista ao leitor. Então, somente na leitura quem lê o livro pode estabelecer em qual faixa de tempo aquilo que se narra acontece.
Uma das propostas mais interessantes do livro, em termos de ponto-de-vista do narrador, é a elaboração de uma visão relativista a respeito dos japoneses. Explico-me: normalmente, em histórias passadas em guerras, o inimigo é geralmente retratado como o vilão, o monstro sem alma nem sentimentos. Flanagan, pelo contrário, instaura seu narrador que vê a frieza com a qual os nipônicos tratam seus prisioneiros, levando-os à morte pela exaustão física ou por doenças variadas como uma questão fundamental para os japoneses.
Criados numa cultura de absoluta submissão às ordens do seu imperador, a ferrovia simplesmente tem de ser construída, porque assim lhes foi ordenado. É a vontade emanada de um poder absoluto – inclusive, com poder sobre suas próprias precárias vidas. As falhas têm de ser punidas porque exatamente os nativos estão imersos nessa cultura. Não é demais lembrar que o fracasso, pelo menos no Japão daquela época, era visto como uma desonra punível com o suicídio ritualístico. Dentro dessa visão, por exemplo, a atuação dos kamikazes – pilotos-suicidas – perdiam suas vidas jogando seus aviões sobre os navios inimigos simplesmente estavam cumprindo ordens indiscutíveis.
Dorrigo Evans é um ser extremamente deslocado, no passado ou no presente. Não gosta de admitir, mas sente falta da guerra, onde – pelo menos em sua visão – fazia algo de útil, tentava salvar a vida de seus homens em condições completamente adversas. Por essa disposição, Dorrigo foi apelidado por seus comandados como “O Amigão”. Terminada a guerra, Evans se casa com Ella, mas se lembra o tempo todo de Amy.
Dessa forma, concluo eu em minha modesta opinião, o tema que perpassa todo o livro é o da perda e seus desdobramentos – principalmente a solidão. Amy é solitária, Evans é solitário, Ella é solitária. É o “solitário andar por entre as gentes”.
O caminho estreito para os confins do norte é daquelas leituras positivamente perturbadoras. Romance que – pelo menos, para mim – não se lê de uma sentada. Puxa reflexões, constrói novas interpretações sobre a convencionada realidade.
Pelo magnífico texto de Richard Flanagan perpassam haicais do poeta Bashô e Issa. Haicais são poemas característicos da cultura japonesa, caracterizados (geralmente) por conterem três versos, com esquema de sílabas 6-7-5. Bashô é considerado o maior “haicaísta” japonês. Essa forma poética é extremamente difícil de se elaborar, apresentando forte síntese de ideias.
Referências a livros vão pontuar a narrativa de Richard, informação com que a TAG – Experiências Literárias – teve a preocupação de nos brindar na revista anexa ao livro, ressaltando-nos tal importância, por meio de um texto e da indicação do livro resenhado anteriormente aqui nesse blog, Quando os livros foram à guerra.
O título – O caminho estreito para os confins do norte – é uma homenagem à obra de Bashô, de mesmo título – mas, sobretudo, uma apropriação extremamente significativa dentro da contextualização do livro do tasmaniano.


FLANAGAN, Richard. O caminho estreito para os confins do norte. 1ª Edição. Editora Globo S. A. São Paulo, SP: 2015

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Resenha nº 75 - Quando os livros foram à guerra, de Molly G.Manning

Ao receber meu kit relativo ao mês de maio da Tag – Experiências Literárias, na revista que acompanha o material encontrei uma referência a Quando os livros foram à guerra. A autora me era completamente desconhecida – uma tal Molly Guptill Manning.

Interessei-me imediatamente. É que, nesta obra, parte da história da Segunda Guerra Mundial era contada por uma outra ótica, não usual: a do valor das obras literárias como possibilidade de entretenimento, identificação e reflexão.

Numa guerra em que a principal arma era o discurso – os alemães de Hitler convenceram, por meio de emissões radiofônicas, os franceses de que não tinham qualquer chance de enfrentar os exércitos do Führer. Afinal de contas, as palavras eram extremamente importantes.

E foi assim que a ASE – Armed Services Editions – editora que se especializou na produção de livros para os combatentes americanos ganhou proeminência no conflito. Todo e qualquer soldado conhecia os horrores e a carnificina que se instauravam no solo guerreiro. Mas a guerra não era feita apenas de heroísmos, violência e mortes. Por períodos muito longos, o sofrimento dos homens era brutalmente aumentado pelo tédio entre as batalhas, a incerteza de sua própria vida, as condições sub-humanas em trincheiras cheias de frio, fome e chuva. E os livros, à medida que chegavam, tornavam a vida daqueles soldados menos terrível:

“Os livros, porém, eram uma catarse para muitos homens. Essa resposta intangível tornou-se evidente pelas reações dos soldados a certos livros. De modo improvável, Katherine Anne Porter foi uma autora que conquistou grande apelo. Seus contos expunham de maneira delicada experiências e emoções profundamente pessoais, que tendiam a dar aos leitores a impressão de que ela entendia seus pensamentos e sentimentos mais íntimos. Centenas de homens escreveram para Porter após a leitura do seu livro da ASE: alguns descreviam como tinham se identificado com determinado personagem, outros sentiam como se uma camada de solidão e isolamento tivesse sido removida por sua prosa. Ao escrever para a pessoa que tocou seu coração, os soldados davam vida à relação que tinham com as páginas que liam. Frequentemente, essas cartas detalhavam experiências e sentimentos bastante pessoais; na realidade, detalhes que muitas vezes não haviam sido revelados nem mesmo aos entes queridos foram confidenciados aos autores. ” (páginas 116/117)

Outro relato pungente aparece à página 123, dos combatentes localizados nas ilhas Aleutas:

“Das ilhas Aleutas, um soldado escreveu para Taylor dizendo que não foi capaz de “resistir à tentação de escrever para a senhora, para revelar como Chicken Every Sunday está sendo lido e apreciado por um público para o qual, com toda a certeza, seu livro não era destinado”. Na realidade, afirmou, ele “não estava falando de um ou dois quando disse que é um livro para soldados, pois o vi passando de beliche em beliche em minha própria barraca e ouvi a explosão de risadas que provocava até dores abdominais, seguida por trechos lidos em voz alta para todo o grupo”. E ouviram-se “ecos das barracas vizinhas, dos dois lados”. Esse soldado recordou que, quando alguém “levava Chicken para o trabalho”, ele “mal conseguia conter seu entusiasmo quando aquele homem voltava à noite”. O livro era o produto mais desejado da guarnição. Como a leitura era uma das poucas formas de recreação disponíveis para os recrutas baseados nas Aleutas, esse soldado revelou que ele e seus amigos tinham se tornado bastante seletivos nos gostos de leitura. Ele explicou que o motivo pelo qual Chicken Every Sunday dialogou com ele e com os homens próximos dele era o fato de os personagens do livro serem “pessoas familiares, e todo recruta que lê a respeito delas se recorda nostalgicamente de seus semelhantes que ficaram no país”. “Em nome de muitos de nós, quero agradecer-lhe as muitas horas de ótima diversão”, afirmou ele. “Todos nós esperamos que lancem mais livros de Rosemary Taylor. ” E lançaram. O conselho publicou Ridin’ the Rainbow. ”

As edições da ASE chegavam às mãos dos destinatários em formato pocket, por alguns motivos. Primeiro, eram mais baratos de se produzir; segundo e maior motivo, seu tamanho era desenhado para caber nos bolsos dos homens e serem leves de transportar. Feitos de papel fino, com capa mole, diferente daqueles postos à venda no país, confeccionados em papel de alta gramatura, em hard cover (capa dura), eram companheiros de todas as horas.

Quando a guerra acabou, a ASE e suas edições econômicas perderam a razão de ser. Mas houve um incrível “efeito colateral”. Quando aqueles ex-combatentes retornavam a sua vida normal e participavam do programa de incentivo ao Ensino Superior, eles faziam a alegria de qualquer professor: eram fortemente dedicados, persistentes e com uma capacidade de entendimento textual acima da média. Há no Quando os livros foram à guerra alguns trechos transcritos em que os outros estudantes reclamavam dos “malditos que elevavam a média”:

“Entre agosto de 1945 e janeiro de 1946, 5,4 milhões de norte-americanos que serviram no Exército e na Marinha foram dispensados do serviço. Quando esses veteranos ficaram sabendo dos benefícios disponíveis de acordo com a GI Bill emendada, afluíram em massa para se matricular no ensino superior. Em 1948, as matrículas alcançaram seu auge, com 900 mil veteranos se matriculando. Ao longo de nove anos, cerca de 7,8 milhões de veteranos procuraram formação acadêmica ou profissional de acordo com a GI Bill, com um total de 2,2 milhões se matriculando em cursos de nível superior. De 1947 a 1948, nos Estados Unidos, 50% dos alunos do ensino superior eram veteranos, e a quantidade total dos alunos em faculdades e universidades era maior do que época anterior. Embora alguns críticos iniciais acreditassem que os veteranos não queriam estudar, não tinham interesse em ler livros, e estavam inclinados a procurar emprego em vez de formação educacional, os veteranos rapidamente adquiriram a reputação de estudantes sérios e maduros; eles frequentavam as aulas, anotavam as matérias meticulosamente, estudavam muito e tiravam notas altas. Os estudantes não veteranos começaram a se ressentir de ter veteranos em suas turmas, pois as altas notas dos ex-soldados causavam estragos na média geral das notas. ” (página 197)

Quando os livros foram à guerra é uma obra de reportagem. Há casos e mais casos de depoimentos dos leitores, os quais não transcrevi na íntegra para não ficar cansativo. Ademais, uma resenha deve dar apenas uma ideia do que o leitor pode encontrar nas páginas de um livro.

Recomendo fortemente essa leitura, embora não consiga entender a precariedade da divulgação dos livros no Brasil. A editora LeYa poderia ter feito um trabalho bem melhor ao divulgá-lo. Nós, amantes de livros, ainda conseguimos “farejar” algo, escutando um comentário aqui ou ali, mas não deveria ser assim.


Agora, posso começar a ler o livro enviado pela Tag – Experiências Literárias. É uma história de guerra também; O caminho estreito para os confins do norte é escrito pelo australiano Richard Flanagan. Trata dos horrores sofridos por soldados australianos nas mãos dos japoneses. As referências a todo esse cenário composto pelo sofrimento e tédio dos combatentes, amenizados apenas pela chegada dos livros está lá. Contextualização feita, fico com melhores condições de entender e avaliar o que se passa na história.

HANNING, Molly Guptill. Quando os livros foram à guerra. Editora Casa da Palavra. Rio de Janeiro, RJ: 2015

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Resenha nº 74 - Felicidade foi-se embora?, de vários autores

Esta obra é escrita a três mãos, polifonia de três vozes sobre um mesmo tema, já indiciado pelo título: Felicidade foi-se embora? Escreveram-na Frei Betto, Leonardo Boff e Mario Sergio Cortella.

E, contrariamente ao que sempre faço (é bom a gente se reiventar, de vez em quando),  já começo contando um causo, que é como nós, mineiríssimos, gostamos de dar a essa palavra nosso sotaque. Gostamos de causos.

Era uma quarta-feira, dia da palestra tríplice e lançamento do livro em questão. Entrada gratuita, sendo necessário apenas o comparecimento duas horas antes do horário marcado para o início do evento. Lá fui eu, na expectativa de poder fruir a reflexão desses três, os quais tanto admiro. Não contava com um incidente: mesmo chegando cedo, muitas, muitas outras pessoas chegaram mais cedo ainda; dessa forma, foi-me impossível atingir o meu intento.

Podia, é claro, ter dois sentimentos. Sabe aquela coisa de se ver o copo meio cheio ou meio vazio? Pois é. Eu podia ficar irritado contra alguma coisa indefinida, deixar o sentimento de frustração tomar conta de mim, ou podia – estoicamente – deixar-me ficar contente, pois aquela enorme fila de pessoas comuns à minha frente significava exatamente isso: pessoas comuns, gente como a gente, interessada em algo mais reflexivo, mais profundo, mais filosófico. Optei pelo copo meio cheio.

“Frei Betto – diz-nos a orelha do livro – é frade dominicano e escritor. Estudou Jornalismo, Filosofia, Antropologia e Teologia. Possui 60 títulos publicados, muitos deles traduzidos do exterior.

O reconhecimento de seu talento literário o fez merecer os prêmios Jabuti (1982); da Associação Paulista de Críticos de Arte (1998) – “Melhor Obra Infantojuvenil” com o livro A noite em que Jesus nasceu, editado pela Vozes; e o Prêmio Alba de Literatura (2009). Entre suas obras literárias se destacam Sinfonia universal – A cosmovisão de Teilhard de Chardin, A arte de reinventar a vida e, em parceria com Leonardo Boff, Mística e espiritualidade, editadas pela Vozes.

Ao longo de sua trajetória, Frei Betto tem recebido vários prêmios por se destacar na luta pelos direitos humanos, com destaque para o Prêmio Intrernacional Unesco José Martí, para o qual foi indicado por unanimidade em 2012. Recebeu, em 2015, o título Doutor Honoris Causa em Filosofia da Universidade de Havana.”

 “Leonardo Boff – continua a orelha do livro – (1938) foi por mais de 20 anos professor de Teologia Sistemática no Instituto Franciscano de Petrópolis e posteriormente professor de Ética, Filosofia da Religião e de Ecologia Filosófica na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Também professor-visitante em várias universidades estrangeiras. Por muitos anos coordenou as publicações religiosas da Editora Vozes e especialmente a Obra Completa de C. G. Jung. É membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra, da qual é um dos corredatores. Em 2002 foi galardoado pelo Parlamento Sueco com o Prêmio Nobel Alternativo da Paz, por associar ecologia com justiça social e espiritualidade.

É autor de quase cem livros, em sua maioria publicados pela Editora Vozes, entre os quais se destacam: Ecologia – Grito da Terra; grito dos pobres; O Tao da Libertação – Explorando a ecologia da transformação, junto com o cosmólogo Mark Hathaway; O rosto materno de Deus; A Trindade e a Sociedade. Por mais de 15 anos é colunista semanal do Jornal do Brasil.”

 “Mario Sergio Cortella, nascido em Londrina, em 05/03/1954, - seguem as informações do livro – filósofo e escritor, com mestrado e doutorado em Educação, professor-titular da PUC-SP (na qual atuou por 35 anos, 1977-2012), com docência e pesquisa na Pós-Graduação em Educação: Currículo (1997-2012) e no Departamento de Teologia e Ciências da Religião (1977-2007).

É professor-convidado da Fundação Dom Cabral (desde 1997) e ensinou no GVpec da FGV-SP (1998-2010). Foi secretário municipal de Educação de São Paulo (1991-1992), tendo antes sido assessor especial e chefe de gabinete do Prof. Paulo Freire.

Comentarista da Rádio CBN no Academia CBN (rede nacional, de segunda a sexta-feira) e Escola da Vida (capital paulista às terças e quintas-feiras). É autor de dezenas de obras de sucesso.”

Felicidade foi-se embora? é uma pequena obra sobre o tema “felicidade”. Mas dizer somente isso não basta; da cabeça maravilhosa dessas três figuras sai um livro absolutamente fascinante. Texto leve, poético muitas vezes; naturalmente, Frei Betto vai nos dar uma visão eminentemente religiosa (o termo não tem aqui a conotação de religião católica, como se pode erroneamente inferir, mas o de religiosidade), centrando a felicidade como uma experiência transcendente do ser humano.

Ele nos conta uma Parábola das sementes de felicidade, a qual vale a pena transcrever:

“Um homem muito rico, porém infeliz, vendeu todos os seus bens, disposto a comprar, a qualquer custo, a felicidade. Saiu pelo mundo afora com suas arcas repletas de barras de ouro. Nas Arábias, soube por um jovem cameleiro que, em pleno deserto, junto a um oásis, havia uma tenda sobre a qual se erguia um anúncio: “Felicidade”.

Esperançoso, o homem partiu rumo ao local indicado. Após muitos dias de viagem, acompanhado pela fila de camelos com suas arcas cheias de ouro, atingiu o oásis. De fato, lá estava a tenda da “Felicidade”. Ao entrar, deparou-se com um balcão e, do lado de dentro, uma atenciosa moça.

“É aqui que se encontra a felicidade?”, indagou. “Sim, é aqui”, confirmou a moça. “Quero comprá-la. Não importa o preço. Estou disposto a pagar por ela toda a minha fortuna”.

A moça fitou-o compassiva e disse: “Não vendemos felicidade”. O homem ficou indignado: “Como não vendem!? Posso pagar quanto pedirem!” A moça sorriu e retrucou: “Senhor, não vendemos; damos”. “Dão? De graça?” “Sim, de graça”, confirmou a balconista.

Ela se enfiou nos fundos da tenda e, pouco depois, retornou. Sobre o balcão, depositou  uma pequena embalagem, do tamanho de uma caixa de fósforos. “Toma, senhor. Pode levar. Aqui está a felicidade.”

O homem, espantado, sem entender o que sucedia, abriu a caixinha e se deparou com uma dúzia de pequenas bolinhas pretas. “O que é isso? Não compreendo”, queixou-se.

A moça tomou a caixa em mãos e apontou as bolinhas: “Esta aqui é a semente da amizade; esta, da solidariedade; esta, da fidelidade; esta, da generosidade. Se o senhor souber cultivá-las, será um homem feliz.” (páginas 20-22)

Para aqueles que acharem o texto do Frei Betto muito fluido, poderão contentar-se com o escrito por Leonardo Boff. Alertando já de início que “por mais definições que se tenham dado, elas não vão além daquilo que Aristóteles em sua Ética a Nicômaco já explanou.” Ela (a felicidade), sendo um fruto do agir bem e do viver bem, resulta de um modo de vida virtuoso.

Boff vai dar importância ao modo como nos relacionamos com Gaia – a Terra. Porque ela é, raciocina ele, a que nos dá condições de sustentação de vida. Somos seres integradas à natureza. Cita, por exemplo, os astronautas:

“Daqui de cima não há diferença entre Terra e humanidade. Elas formam uma unidade complexa, constituem uma única grande e diversa realidade”. (páginas 62)

E Leonardo Boff conclui daí:

“Se vivermos consoante ao ritmo musical da Terra, se nos afinarmos à sua melodia, se cuidarmos dela com terno afeto, como cuidamos de nossas mães, colheremos o melhor fruto, que é a felicidade.” (página 62)

O texto de Mario Sergio Cortella é talvez mais acadêmico, embora, no fundo, essa tentativa de caracterização não diga muita coisa. Cortella nos avisa que a felicidade é circunstancial; somente o alienado é feliz por toda a sua vida. E somente conseguimos nos avaliar como felizes porque fomos, alguma vez, anteriormente, infelizes:

“Felicidade não é um estado contínuo, não pode nem deve sê-lo. E nem seria possível, pois isso colocaria a pessoa próxima do estado de demência. Não se confunda felicidade com euforia. A euforia contínua é um distúrbio mental. Afinal de contas, estamos num mundo onde há atribulações, passos tortos, turbulências, problemas.” (páginas 81/82)

Este não é um livro resumível. Os três autores são talentosos ao lidar com a escrita. Provam por a + b que filosofia não tem que ser uma coisa chata, bocejante. Outra coisa boa de se constatar, com posturas analíticas tão diferentes, esses três amigos dão o exemplo de, como quer Edgar Morin, é possível ser-se diverso na unidade. Três maneiras diferentes de ver o objeto de suas análises resultam num livro coeso, polifônico, mas equilibrado e uno.

A visão de Leonardo Boff, pensei ao concluir o rascunho dessa resenha, me fez lembrar muito da filosofia contida no filme Avatar, do diretor James Cameron. Não é só um filme bem feito esteticamente, mas divulgador da ideia de que todos estamos de algum modo unidos à Gaia. Os Na’Vi são os habitantes do planeta Pandora e vivem em íntima integração com as forças da natureza. Colaboram com elas e delas tiram seu sustento e sua harmonia. O elemento perturbador dessa paz é o homo ambiciosus.  Não é demais lembrar que Jake Sully precisa morrer para a ambição humana para integrar-se à natureza de Pandora, “renascendo” para a harmonia e para o amor de Neytiri. Precisa cumprir a epopeia de uma profecia: a de que o elemento portador do mal também será o elemento restaurador das Forças Harmônicas.

Disse no começo que Felicidade foi-se embora? é uma pequena obra sobre o tema felicidade. Ledo engano! É, na verdade, uma grande obra; suas 130 páginas nos mergulham numa sensação preconceituosa (no sentido de conceito formado antes da experiência em si); os textos são gostosamente densos, vozes de bons pais para filhos, ou seja, com carinho e respeito. Que mais se pode exigir de um livro?


BETTO, Frei; BOFF, Leonardo; CORTELLA, Mario Sergio. Felicidade foi-se embora?. Editora Nobilis/Vozes. Petrópolis, RJ: 2016.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Resenha nº 73 - Benjamim, de Francisco Buarque de Hollanda

Resultado de imagem para livro benjamim chico buarqueFrancisco Buarque de Hollanda quase dispensa apresentação. Filho de outro ícone da cultura brasileira, o historiador e crítico literário Sérgio Buarque de Hollanda, Chico Buarque é autor de músicas que o colocaram no primeiro time da chamada MPB. É também escritor com uma produção literária não muito ampla, mas solidamente constituída.

Escreveu Fazenda Modelo, Estorvo, Benjamim, Budapeste, Leite Derramado e, mais recentemente, O Irmão Alemão.

Este romance Benjamim não é das narrativas mais fáceis de se ler. Há obras literárias para determinadas faixas de maturidade, isto é, considero um desserviço entregar, por exemplo, obras de Machado de Assis para leitores pouco amadurecidos lerem. E não ajudam nada, defendo eu, as famigeradas adaptações de clássicos.

Mas essa é uma discussão para outra ocasião.

Benjamim tem uma estrutura circular; isto equivale dizer, no caso, que a obra se inicia por onde termina. Benjamim Zambraia é fuzilado logo na primeira página, primeiro parágrafo. Naqueles minutos entre os disparos dos fuzis e sua morte toda sua vida passa diante de seus olhos, em tempo de memória. Entretanto, esta não será uma memória objetiva, precisa; muito do mundo dos sonhos estará ali presente, num elaborado jogo de espelhos.

Vejamos:

“O pelotão estava em forma, a voz de comando foi enérgica e a fuzilaria produziu um único estrondo. Mas para Benjamim Zambraia soou como um rufo, e ele seria capaz de dizer em que ordem haviam disparado as doze armas ali defronte. Cego, identificaria cada fuzil e diria de que cano partira cada um dos projéteis que agora o atingiam no peito, no pescoço e na cara. Tudo se extinguira com a velocidade de uma bala entre a epiderme e o primeiro alvo letal (aorta, coração, traquéia, bulbo), e naquele instante Benjamim assistiu ao que já esperava: sua existência projetou-se do início ao fim, tal qual um filme, na venda dos olhos.” (página 5)

Benjamim é um ex-modelo fotográfico:

“Fez-se filmar durante toda a juventude, e só com o advento do primeiro cabelo branco decidiu abolir a ridícula coisa. Era tarde: a câmera criara autonomia, deu de encarapitar-se em qualquer parte para flagrar episódios medíocres, e Benjamim já teve ganas de erguer a camisa e cobrir o rosto no meio da rua...”(página 7)

Ele conhece certa Castana Beatriz e por ela se apaixona, repelido pelo pai dela, que não via futuro naquilo que o pretendente da filha fazia. Como o pai surpreendera uma fotografia de Castana em biquíni de duas peças, numa capa de revista, manda-a para o exterior. Posteriormente, ela retorna e reassume o relacionamento com Benjamim.

Castana Beatriz é uma ativista nos anos 60, duros anos da ditadura e, como Benjamim acredita que por sua causa ela fora morta, ele vive obsediado por seu sentimento de culpa. Não será difícil, portanto, ao conhecer outra personagem, Ariela Masé – alguma coisa nela lhe lembra Castana – que ele se ligue afetivamente a ela.

Manipulando tais elementos de ficção do tipo thriller, Chico Buarque nos leva a uma situação complexa, em que elementos ficcionais e biográficos dos personagens vêm misturados.

Um pouco da biografia de Castana Beatriz:

“Castana Beatriz sempre foi péssima aluna, mal completou o ginásio, colava, fumava no banheiro, foi expulsa do colégio de freiras, só foi readmitida porque o pai era um benemérito, e a essa altura da vida queria fazer crer a Benjamim que se convertera ao universo acadêmico. Benjamim não fez o espetáculo de ciúmes que agora talvez fizesse. Preferiu arriscar a reviravolta drástica, que daqui para sempre renegará: levou Castana Beatriz a um restaurante bolorento e propôs-lhe que se casasse com ele. Agora é claro que ele retira a proposta. Mas não é capaz cancelar a reação de Castana Beatriz, que soltou uma gargalhada e jogou para trás a cabeça cheia de cachos castanhos.” (página 56)

A narrativa, do ponto de vista histórico, se passa em duas épocas: a primeira, em que existe o relacionamento de Benjamim Zambraia e Castana Beatriz, durante a didatura dos anos 60; a segunda, em que circulam o protagonista e Ariela Masé, já nos anos 70.

Um outro ponto de destaque é a capacidade de Chico Buarque de lidar com detalhes miúdos, de uma vida absolutamente corriqueira:

“Ariela arregaça a meia-calça, calça a perna direita, a esquerda, levanta-se, acaba de ajustá-la às virilhas e desconfia que a vestiu de trás para diante. Despe-se, tateia a cabeceira, tateia os lambris da parede, topa num pé de sapato, alcança o espaldar da poltrona, apalpa a saia plissada e o casado do tailleur. Chega à porta do quarto, mercê de uma nesga de luz rente ao carpete, e atravessa nua a sala de jogos que dá no bar que dá no salão de visitas, onde as lâmpadas ficam acesas.” (página 141)

Os vários personagens – Castana, Ariela, Benjamim, Alyandro Sgaratti – não são protagonistas de suas próprias vidas. A vida os leva, as situações constroem suas ações, isto é, eles reagem aos fatos, aos acontecimentos, mas não os criam. Alyandro Sgaratti, por exemplo, fora um puxador de carros na adolescência, depois se torna o rei das peças usadas originadas de desmanches clandestinos e, diríamos, num automatismo determinante, chega à carreira de político corrupto. Sua candidatura é o resultado de uma campanha de marketing político.

Aqui nesse blog já foi resenhado o livro Leite Derramado, do mesmo autor. Como aquele, esse Benjamim é leitura altamente recomendada, mas, como a outra obra, não é uma leitura das mais fáceis. Chico possui uma narrativa densa, cheia de pormenores, ritmos e rimas, referências em planos mais elaborados que, obviamente, o tornam um autor recomendado para leitores com mais experiência de vida, de leituras mais sutis; ele é daqueles escritores que, provavelmente, não serão considerados best-sellers, mas sim alcançarão prestígio e consideração da cognominada “Alta Literatura”.

Dele, disse certa vez o também escritor José Saramago, Hollanda seria uma voz realmente importante e nova na literatura brasileira.


HOLLANDA, Francisco Buarque de. Benjamim. Editora Companhia das Letras, 2ª edição. São Paulo, SP: 1995

sexta-feira, 25 de março de 2016

Resenha nº 72 - A Ilha, de Victoria Hislop


Resultado de imagem para livro A Ilha, de Victoria HislopVictoria Hislop é uma inglesa nascida na cidade de Kent. Ela é graduada em Letras pela Universidade de Oxford; trabalhou no mercado editorial e tornou-se jornalista. Este A Ilha foi o seu primeiro livro, publicado em 2006. Aqui, neste blog, já foram resenhadas as obras dela O Retorno e O Fio. A presente edição brasileira, bem como as outras, saiu pela editora Intrínseca.

Na capa do livro nos deparamos com o marketing, nos seduzindo para a leitura sob a alegação de “mais de um milhão de exemplares vendidos em todo o mundo”, e logo após a reprodução do parecer do prestigioso jornal inglês The Observer: “Finalmente – um best-seller que toca o coração... repleto de sagas de família, amores condenados e segredos devastadores. ”

Este resumo nos dá, de antemão, alguns elementos sobre o livro e sobre o modo de escrever romances de Victoria Hislop. Uma fórmula bem-sucedida, que, por isso mesmo, será repetida em O Retorno e O Fio. Nossa escritora trata de dramas familiares, seus segredos; pessoas emergentes do passado afetam o presente dos personagens. Um conflito de grandes proporções permeia a cena dramática, não só a tocando, mas influenciando-a. A vida dos personagens não seria a mesma, caso o conflito (leia-se guerra) não tivesse acontecido.

Hislop conduz suas histórias com mão segura. Isso já está evidente mesmo nesse seu primeiro livro. Sua característica se compõe de forte pesquisa da cultura na qual se movem seus personagens, a ambientação da história em países diferentes, como se nos levasse em uma viagem turística, o uso de alguns vocábulos em língua nativa, com a visível intenção de “dar cor local” às suas criaturas. Seu poder descritivo é notável: a um tempo, poético, preciso, sucinto.

A Ilha inicia sua trama exatamente por uma descrição excelente, não geográfica, mas sim do estado de ânimo dos personagens envolvidos. Observe o tratamento poético, melancólico, do estado psicológico dos seres que fazem a travessia de barco entre a cidade grega de Plaka, em 1953, e a ilha de Spinalonga, do outro lado do canal marítimo da cidadezinha:

“Um vento gelado fustigava as ruas estreitas de Plaka, e o frio do ar de outono rodeava a mulher, paralisando seu corpo e sua mente com uma dormência que quase lhe aniquilava os sentidos, mas não aliviava em nada sua tristeza. Ao atravessar cambaleando os últimos poucos metros que a separavam do embarcadouro, ela se apoiou pesadamente no pai, e seu andar lembrava o de uma velha, para quem cada passo causava uma pontada de dor. No entanto a dor não era física. Seu corpo era tão forte quanto o de qualquer outra moça que houvesse passado a vida respirando o ar puro de Creta, e a pele era tão jovial e os olhos de um castanho tão intenso e brilhante quanto os de qualquer garota da ilha.

O pequeno barco oscilava e balançava no mar, desequilibrado pelo peso do carregamento de pacotes de tamanhos diversos, amarrados uns aos outros com barbante. O homem mais velho embarcou com cuidado e enquanto tentava com uma das mãos manter o barco firme entendeu a outra para ajudar a filha. Depois que ela estava em segurança a bordo, envolveu-a de forma protetora com um cobertor para protegê-la do frio e do vento. A única indicação visível de que ela não era apenas mais um item do carregamento era as longas madeixas de cabelo castanho-escuro que esvoaçavam e dançavam livremente ao sabor do vento. Ele soltou com cuidado as amarras que prendiam a embarcação – não havia mais nada a dizer nem a fazer –, e começavam a viagem. Não era o início de uma travessia curta para entregar mantimentos. Era o início de uma jornada sem volta para uma vida nova. A vida em uma colônia de leprosos. A vida em Spinalonga. ” (página 7, não numerada)

A esta altura, o leitor poderá estar se perguntando por que diabos o resenhista começou seu trabalho de maneira tão diferente do seu habitual e estampou, logo de cara, as palavras do jornal The Observer e esta transcrição tão longa da abertura do romance. Como você, inteligentemente, já depreendeu, a seleção não é gratuita e dois serão os motivos declarados: primeiro, a partir de uma breve análise do material transcrito, inicio a parte da resenha na qual se dá ao leitor uma visão ligeira do enredo do livro; segundo, desejo dar uma ideia ao leitor do que pode render a chamada close reading (leitura atenta ou pormenorizada).

Com bastante cuidado para não cometer spoilers, que prejudicariam as surpresas propiciadas pela leitura, vamos à primeira parte, a extração de informações contidas no material selecionado, para orientar o leitor.

The Observer nos afirma “[o romance é]...repleto de sagas de família, amores condenados e segredos devastadores.” Sagas são histórias que envolvam os feitos ou dramas de várias gerações; serão, portanto, feitos ou dramas de várias gerações de famílias envolvidas em algum acontecimento, cujos componentes serão amores condenados (por quê?) e segredos mantidos em sigilo (quais?) pelo seu potencial destrutivo das relações familiares.

O trecho inicial do romance nos informa: duas pessoas – um homem mais velho e uma jovem mulher pulam do embarcadouro para uma frágil embarcação. Algumas palavras mais adiante, ficamos sabendo tratar-se de pai e filha. A filha está sofrendo horrivelmente, pois apoia-se pesadamente no pai e o vento gelado fustigava-lhe o corpo quase até a dormência, mas não lhe diminuía a dor da alma. Parte da descrição é calcada em cima de expressões de instabilidade, inevitabilidade, falta de esperança. A filha é como outra jovem qualquer de sua idade; seu corpo é forte, com o vigor próprio da idade. Então, o que pode estar lhe trazendo tanta infelicidade? A única segurança sentida pela jovem é a presença do pai, o acolhimento e o compartilhamento da tristeza.

“A única indicação visível de que ela não era apenas mais um item do carregamento era as longas madeixas de cabelo castanho-escuro que esvoaçavam e dançavam livremente ao sabor do vento. ” O narrador nos conta que a jovem se sentia como uma “coisa”, isto é, sentia-se despersonalizada, completamente estática, entregue ao seu sofrimento, sendo apenas o movimento esvoaçante dos seus cabelos o que ainda lhe assinalava vida. Não era apenas uma travessia costumeira de Plaka à ilha de Spinalonga; era algo além disso, um caminho sem volta, para uma vida nova. E o pior, era uma vida numa colônia de leprosos, pois Spinalonga era uma ilha destinada aos portadores de hanseníase.

As 365 páginas do livro contam os acontecimentos pelos quais passam a família Petrakis e a família Vandoulakis. Serão eventos trágicos, impactantes, ampliados pela Segunda Guerra Mundial, finalmente alcançando a região de Creta e, por consequência, a cidadezinha de Plaka. Histórias de resistência contra os alemães, aclamação de heróis; em Spinalonga, um grupo de atenienses traz alento à sofrida vida dos leprosos e quase lhes torna a vida invejável.

A jovem Alexis é filha de Sofia Fielding. Alexis deixa a casa materna, em Atenas, para estudar em Londres.  A filha tem um namorado, Ed, em um relacionamento no qual se sente insegura. Afinal, sua mãe e seu pai têm um casamento maduro, e partindo deste modelo, fica patente sua insegurança quanto ao amor por Ed. Daria para partilhar uma vida com ele? Sofia sempre se calara quanto ao passado. Alexis sentia uma curiosidade imensa em saber mais alguma coisa, mas sua mãe sempre se calara diante de suas perguntas. A relação delas não era tranquila; já com o pai, as coisas iam melhores.

Mas há também um momento no qual Sofia, mesmo a contragosto, resolve lhe abrir o acesso à história da família. Não tem coragem de contar, ela mesma, sobre sua vida, mas diz à filha para ir até a cidadezinha cretense de Plaka e procurar sua amiga Fotini. Sem delongas, Alexis chega ao seu destino, antes deixando Ed em Hania, uma cidade distante. O encontro com Fotini, beirando os setenta anos, mas com um frescor ainda presente, é fundamental, é o turning point do romance. Esse termo inglês é usado para designar uma “virada” substancial no enredo, uma mudança de rumo.

Victoria Hislop faz seu narrador, a partir do momento em que Fotini começa suas revelações, assumir a condução da narração.

Serão revelações progressivas, terríveis – Alexis amadurece por meio delas e pela amizade aconchegante da generosa Fotini, amiga de sua mãe. Em certo momento, os “destinos” (uso a palavra entre aspas, com o sentido de destino traçado pelas necessidades da trama) da família Petrakis e da família Vandoulakis se unem. Outra tragédia terá o seu lugar. Por tudo, Alexis passa a compreender muito melhor a história sofrida de sua mãe.

Não pense o leitor ser esta obra uma história em que tudo dará errado. Os dramas acontecerão, de fato; haverá amores proibidos, traições, enganos, desenganos, esperanças, desesperanças – mas, ao final, vários personagens sairão com seus relacionamentos depurados e melhores criaturas. A Vida imita a Arte ou a Arte imita a Vida? Tanto faz.

Dizem ser o romance moderno um dos gêneros literários tributários das tragédias gregas. Neste trabalho de Hislop, tanto como na vida dita real, as criaturas sofrem seus revezes, suas crises cheias de sofrimentos. Entretanto, de dentro das crises, expurgadas pela catarse, lentamente elas se levantam e retomam suas vidas, modificadas.

A utilização da close reading nesta resenha, ainda que não detalhada como deveria ser, dá uma pequena mostra ao leitor de que, partindo das informações minuciosas de um texto, conseguimos acessar os quebra-cabeças de uma obra. Não quer dizer, em absoluto, que o autor tenha pensado, passo a passo, em tudo. Não. Muito será inconsciente, produto da ampla experiência que todos temos com o gênero romance. Além do mais, o ser humano é um ser contador de histórias. Esses modelos narrativos, vindos de tudo o que lemos, funcionam como um gigantesco arquivo em nossas mentes.

Essa não foi uma leitura. Foi uma releitura. Embora feita com a intenção de resenha para um blog, o simples fato de me interessar por uma releitura já dá indício do valor reconhecido do livro. Preciso urgentemente  organizar melhor minha pequena biblioteca; não há espaço para tudo o que desejo ler. Então, uma das saídas é exatamente selecionar entre livros cuja leitura será a primeira e a única e aqueles outros, cujo valor ou prazer de reler justifique mantê-los. A Ilha, O Retorno e O Fio, de Victoria Hislop são livros a serem mantidos.

HISLOP, Victoria. A Ilha. Editora Intrínseca. Rio de Janeiro, RJ: 2005