Um blogue de quem gosta de ler, para quem gosta de ler.

domingo, 6 de novembro de 2022

Resenha nº 199 - A Noite, de Elie Wiesel

 



Título original: La Nuit

Autor: Elie Wiesel

Tradutora: Dorothée de Bruchard

Editora : Sextante

Copyright : 2021

ISBN : 978-65-5564-207-0

Gênero Literário : Biografia

Origem : Romênia

 

Elie Wiesel é autor de mais de quarenta títulos, entre ficção e não ficção. Ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1986, pelo conjunto da obra. Trabalhou como presidente do Conselho Memorial Unido do Holocausto, tendo sido agraciado com diversas honrarias, entre as quais, a Medalha Presidencial de Liberdade dos EUA, título de Cavaleiro da Ordem do Império Britânico e a brasileira Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco.

Wiesel nasceu em 1928, em Sighet, na Transilvânia. Após a segunda Guerra Mundial estudou na Sorbonne, na França. Tornou-se repórter e correspondente. Mudou-se para Nova York em 1955 e se tornou cidadão americano. Faleceu em julho de 2016, aos 87 anos de idade.

A Noite é um livro de 156 páginas. Entretanto, não se deixe enganar o leitor: trata-se de uma leitura densa e marcante. Como já se deduz, Elie conta a experiência de sua estada no campo de concentração Auschwitz-Birkenau. Talvez a característica principal deste livro seja o contraponto entre o estilo do autor e os horrores relatados.

Explico-me melhor. Elie Wiesel, sendo autor de mais de quarenta obras, tem um estilo bastante depurado. Há um cuidado com a escolha das palavras, com a precisão dos termos. Não há palavras demais nem derramado é o relato. Tais constatações conferem à biografia, aqui resenhada, um ar de dignidade, de contida lucidez.

“Chamavam-no Moshe, o Bedel, como se nunca na vida tivesse tido um sobrenome. Era o ‘faz-tudo’ de uma sinagoga chassídica. Os judeus de Sighet – a cidadezinha da Transilvânia onde passei a infância – gostavam dele. Era muito pobre e vivia na miséria. O pessoal da minha cidade, embora ajudasse os pobres, em geral não era de gostar muito deles. Moshe, o Bedel, era uma exceção. Não incomodava ninguém. Sua presença não trazia aborrecimentos. Tornara-se mestre na arte de passar despercebido, de se fazer invisível.” (página 25)

Relata-nos Elie que muito cedo interessou-se pelos estudos da Cabala. Para nós, não judeus, é útil explicar, a Cabala é um método esotérico que abarca um conjunto de ensinamentos relacionados a Deus, o universo, o homem, a criação do mundo, a vida e a morte. Fundamenta-se na revelação de Deus a Adão e a Moisés.

Um estudo, portanto, complexo demais para ser o objeto de estudo de um jovem. Por isto, o pai de Elie é contrário ao desejo dele. Entretanto, apesar de ter apenas 13 anos de idade, o menino não desiste; esta obsessão o leva a ter Moshe como seu iniciador nos textos da Cabala:

“— Por que você chora quando reza? – ele me perguntou como se fôssemos próximos.

— Não sei – respondi, bastante perturbado.

Essa pergunta nunca tinha me ocorrido. Eu chorava porque... porque alguma coisa em mim sentia necessidade de chorar. Era só o que eu sabia.

— Por que você reza? – perguntou ele, passado um instante. Por que eu rezava? Que pergunta estranha. Por que eu vivia? Por que respirava?

— Não sei – respondi, sem jeito e ainda mais perturbado. – Não sei.” (páginas 21/22)

As estações de rádio estão cheias de notícias sobre o exército alemão que, ainda distante, avança sobre outros países. Na Transilvânia, a preocupação constante está no ar, bem como a indecisão sobre o que fazer. É que não estão claras ainda as intenções de Hitler:

“Então ele iria aniquilar um povo inteiro? Exterminar uma população espalhada por tantos países? Milhões de pessoas! Com que meios? E em pleno século XX!” (página 31)

Os horrores vêm lançando, sorrateiramente, sua sombra sobre a Europa. Ali, em Sighet, onde vivem muitos judeus romenos, a chegada dos alemães, apoiados pelos húngaros, não parece tão drástica assim:

“A vida, pouco a pouco, foi se ajustando. Os arames farpados que nos cercavam qual muralha não nos inspiravam maiores temores. Até nos sentíamos bastante bem: estávamos somente entre nós. Uma pequena república judia... As autoridades instituíram um Conselho Judaico, uma polícia judaica, uma agência de assistência social, um comitê do trabalho, um departamento de higiene – todo um aparato governamental.” (página 35)

O que é bom dura pouco, diz o adágio popular. Logo, a situação em Sighet piora. Os judeus seguem o mesmo destino de outros judeus, em outras partes do continente europeu. Eis a descrição de Elie Wiesel:

“Então puseram-se em marcha, sem olhar sequer para as ruas abandonadas, para as casas vazias e apagadas, para os jardins, para as lápides... Nas costas de todos, uma mochila. Nos olhos de todos, agora, um sofrimento, banhado em lágrimas. Lenta, pesadamente, a procissão avançou para os portões do gueto.” (página 41)

Vão passando filas de judeus, sem saberem qual o seu destino, e Sighet vai ficando vazia. Em breve, também chega a vez de Elie, seu pai, sua mãe e sua irmã. São colocados em vagões de carga, oitenta pessoas por vagão. A fome, o desespero, o medo fazem o seu trabalho:

“Liberados de qualquer censura social, os mais jovens se entregavam livremente aos seus instintos e, amparados pela escuridão da noite, se acariciavam no meio de todos, sem se importar com ninguém, sozinhos no mundo. Os outros fingiam não ver.” (página 49)

A viagem de trem termina:

“Fitávamos as chamas dentro da noite. Um cheiro abominável pairava no ar. Repentinamente, as portas se abriram. Figuras curiosas, todas de casaco listrado e calça preta, pularam para dentro do vagão. Levavam nas mãos uma lanterna e um porrete. Saíram batendo a esmo, antes de bradar:

— Desçam todos! Deixem tudo no vagão! Depressa!

Saltamos. Lancei um último olhar para a Sra. Schächter: seu garotinho segurava sua mão.

À nossa frente, as chamas. No ar, o cheiro de carne queimada. Devia ser meia-noite. Tínhamos chegado. A Birkenau.” (páginas 54/55)

Os judeus são separados em dois grupos. Um, de pessoas saudáveis, destinadas a trabalhar como forçados no campo de concentração. O outro, de crianças, homens e mulheres doentes ou fracos demais, que não serviam para nada e por isso, seriam exterminados.

O que seria melhor? Ser exterminado de uma vez ou desumanizar-se pouco a pouco, sem a garantia de que o sobrevivente não seria o próximo a ir para os fornos crematórios?

Sim, porque quando reduzimos a vida de um ser humano às condições sub-humanas, é o animal que passa a agir, pois animais nós somos. Quer-se viver de qualquer forma, de qualquer jeito:

“E de repente, como que despertando de um sono letárgico, lascou em meu pai uma bofetada tamanha que ele foi ao chão e voltou de quatro para o seu lugar.

Fiquei petrificado. O que tinha acontecido comigo? Acabavam de bater no meu pai na minha rente e eu não tinha sequer pestanejado. Tinha olhado e ficado quieto. Ainda ontem, teria cravado as unhas naquele criminoso. Teria mudado tanto assim? Tão rápido? O remorso começou a me corroer. Pensei apenas uma coisa: “nunca vou perdoá-los por isso”. (página 69)

Perde-se a crença em Deus, nos homens, em tudo:

“Como poderia eu Lhe dizer: “Bendito sejas tu, ó Eterno, Senhor do Universo, que nos elegeu entre os povos para vermos nosso pai, nossa mãe, nossos irmãos terminarem no crematório? Louvado seja o Teu Santo Nome, Tu que nos escolheste para sermos imolados em teu altar?” (página 100)

Elie Wiesel, entretanto, sobreviveu para nos contar sobre o Holocausto. Como tantos outros judeus de várias nações. Quando terminamos de ler este A Noite, ficam-nos intensas reflexões. O que, afinal de contas, teria gerado tamanho ódio aos judeus? O que eles fizeram de tão terrível para merecerem tal perseguição?

Somos seres cheios de ódios duradouros. Basta que alguém pense de maneira diferente de nós, e nos confronte, para todos – sem exceção – termos ganas de enforcá-lo. Ninguém está livre de preconceitos; seres de luz e de sombra, nós seguimos nossas vidas.

É preciso que relatos assim nos façam refletir. E, de preferência, que nos causem fortes incômodos. Não, não desejo ser assim. A força da Arte – em especial a da Literatura – pode nos ajudar: o autor nos ganha por meio da arte de construir histórias, nos faz adotar determinado personagem. Os atos, os pensamentos destes personagens então nos fazem dissipar a camada de verniz tênue e nos expõem nossas misérias, porque as misérias deles são as nossas.

Não posso deixar de mencionar O sentido da vida, de Viktor Frankl, já resenhado neste blogue. Como ele pôde extrair uma terapia da sua vivência terrível nos campos de concentração? Como estes humanos, submetidos às piores experiências não enlouqueceram? De Onde extraíram tanta força? É para tentar entender isto que desejo, ainda, ler a trilogia do escritor italiano, Primo Levi: É isto um homem?, Os afogados e os sobreviventes e Trégua.

A Noite, de Elie Wiesel. A ele voltarei, várias vezes. A outra linha de força do seu relato está na sinceridade com que esta biografia é montada. Sendo contada por ele mesmo, não escondendo seus piores pensamentos e atitudes, nos impacta porque, reconhecemos, qualquer um de nós, submetido a tais ocorrências, agiríamos e pensaríamos como ele.


sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Resenha nº 198 - Nada para ver aqui, de Kevin Wilson

 

 




Título original: Nothing to see here

Autor: Kevin Wilson

Tradutora: Natália Borges Polesso

Copyright: 2021

Editora: Harper Collins/TAG

ISBN: 978-65-5511-229-0

Origem: Literatura americana

Gênero Literário: Romance

 

Kevin Wilson é um escritor americano, nascido em Sewanee, no estado do Tennesee, em 1978. É professor de literatura na Universidade do Sul e autor dos seguintes livros: Tunneling to the center of the Earth (2009), The Family Fang, Caninos em Família, (2011), Perfect Little World (2017), Baby, You’re gonna be mine (2018), Nothing to see Here, Nada para ver aqui, (2019).

Lillian e Madison Billings são duas amigas que, afastadas uma da outra, se correspondem, como fica evidente já no parágrafo introdutório do livro:

“No final da primavera de 1995, poucas semanas depois que fiz vinte e oito anos, recebi uma carta da minha amiga Madison Roberts. Eu ainda pensava nela como Madison Billings. Ouvia notícias de Madison quatro ou cinco vezes ao ano, atualizações sobre a vida dela que eram tão distantes para mim quanto notícias da Lua, uma existência do tipo que você só vê em revistas. Ela era casada com um homem mais velho, um senador, e tinha um menininho que vestia com roupas náuticas, que parecia um ursinho de pelúcia caro transformado em humano. Eu estava trabalhando como caixa em dois mercados concorrentes e fumando maconha no sótão da casa da minha mãe, porque, assim que eu fiz dezoito anos, ela transformou meu quarto de infância em uma sala de ginástica, uma esteira enorme preenchendo o espaço onde eu tinha crescido infeliz. Eu esporadicamente namorava pessoas que não me mereciam mas pensavam que mereciam. Dá para imaginar com as cartas da Madison eram cem vezes mais interessantes do que as minhas, mas nós mantínhamos contato.” (página 7)

Acontece que Lillian recebe uma carta de Madison lhe propondo emprego. Será algo que, na aparência uma tarefa não tão difícil, terminará por ser uma ocupação impactante. Não tendo nada melhor, ela aceita a oferta da amiga: cuidar de um casal de gêmeos, filhos do marido, num casamento anterior.

Lillian havia sido colega de quarto de Madison na faculdade. Um incidente envolvendo a figura de Madison acontece:

“E então, uma das amigas bonitas de Madison – a menos bonita das seis, se quiser ser cruel – ficou chateada com uma piada que Madison tinha feito, um momento em que a esquisitice dela tinha transbordado para além do confinamento do nosso quarto, e contou aos pais do dormitório que Madison tinha um papelote de cocaína na gaveta da escrivaninha. Um dos pais veio conferir, e lá estava. Iron Mountain era um lugar para pessoas ricas e dependia daquelas pessoas, portanto, Madison esperava, na cama comigo uma noite, enquanto conversávamos sobre o assunto, que a escola pegasse leve com ela. Mas eu não era rica e sabia que, às vezes, um lugar como a Iron Mountain precisava dar o exemplo através de uma pessoa rica para ganhar a confiança de um bando de outras pessoas ricas. Era quase fim do ano, poucas semanas até as provas finais, e Madison seus pais foram chamados, com um convite enviado em papel timbrado oficial, na diretoria da escola, não mais comandada por um cara britânico, mas por uma mulher sulista chamada sra. Lipton, com um corte de cabelo branco e um terninho marrom. A sra. Lipton chamava todo mundo de “filha”, mas nunca se casou.” (página 18)

Resumo da ópera: o pai de Madison paga para que a mãe de Lillian aceite que sua filha assuma a culpa, livrando a reputação da filha rica. Apesar disto, a amizade entre as duas continua, mesmo após Lillian ter sido expulsa da faculdade.

Mas, voltemos ao emprego oferecido a Lillian: cuidar de um casal de gêmeos, Roland e Bessie. Fácil, não? Resposta: não. E por quê? Só uma coisinha, um detalhe de nada: as duas crianças sofrem de autocombustão. Entendeu? Isso mesmo, elas pegam fogo; o incêndio começa de dentro para fora. Entretanto, elas não se queimam. As chamas que as envolvem queimam suas roupas, outras coisas ao redor delas.

Para algo tão estranho, não podia deixar de pesquisar para saber mais. Achei referências ao estranho assunto pela internet a fora. Transcrevo, a título de informação, um trecho de uma matéria postada na revista de divulgação científica, Galileu:

"O primeiro registro de um caso do tipo foi feito em 1641 pelo médico dinamarquês Thomas Bartholin. Na compilação de episódios médicos não convencionais Historiarum Anatomicarum Rariorum, Thomas escreve sobre um cavaleiro italiano chamado Polonus Vorstius que em 1470 estava tomando vinho quando começou a vomitar labaredas até ter seu corpo totalmente consumido pelo fogo.

“Totalmente” não é a palavra certa, na realidade. Apesar de cercada de mistérios, a combustão espontânea em humanos costuma seguir um padrão: enquanto o tronco e a cabeça ficam completamente desfigurados pelo fogo, os pés e as mãos em geral permanecem intactos. Essa peculiaridade pode ser uma pista importante para descobrir o que causa o fenômeno.” (revista Galileu, “A Ciência tenta explicar o bizarro fenômeno da combustão humana, de João Mello Bourroul, de 06/10/2015, atualizada em 07/11/2015)

A diferença, como vimos no livro, é que os gêmeos não têm o corpo queimado, quando entram em combustão. De início, a autocombustão é instável; as crianças, filhas do senador Jasper, se incendeiam por qualquer motivo.

Lillian, aos poucos, vai conseguindo a confiança dos dois. E descobre que se conseguir acalmá-los, eles não pegam fogo. Para executar seu trabalho de babá, ela vai viver com seus protegidos na edícula no mesmo terreno que a mansão onde vivem Madison, Jasper e o pequeno Timothy – filho do atual casamento do senador.

O livro é narrado em primeira pessoa, por Lillian. Um trecho bastante elucidativo para a linha interpretativa que passaremos a desenvolver aqui, vai transcrito abaixo, a respeito da narradora:

“Eu morava com a minha mãe e com um rodízio do elenco de seus namorados, meu pai ou estava morto, ou simplesmente tinha vazado. Minha mãe falava dele muito vagamente, não havia sequer uma foto. Parecia que talvez algum deus grego tivesse assumido a forma de um garanhão e a emprenhado, antes de retornar à sua casa no topo do Monte Olimpo. Era mais provável que fosse só um pervertido das casas chiques que a minha mãe limpava.” (página 10)

Mais à frente, a narradora torna a referir-se a si própria, fazendo um paralelo com aquelas estranhas crianças:

“Nós éramos um mundo à parte, mesmo que eu soubesse que era temporário. Em algum momento, teríamos que um jeito, achar uma forma de integrar as crianças ao mundo real. Imaginei um dia em que eles estariam sentados a uma grande mesa de jantar na mansão, comendo ovos beneditinos ou a porra que fosse, enquanto o pai lia o jornal e dizia a eles o resultado do jogo dos Braves no dia anterior.” (página 109)

Lillian, Roland e Bessie pertenciam, portanto, ao mesmo mundo “irreal”, deslocado. O trio era de seres enjeitados. É interessante anotar que fogo, frequentemente, é visto como elemento depurador. Apesar de pegarem fogo, no entanto, as crianças não queimam a si próprias. É um suplício na mesma linha simbólica daquele prometeu acorrentado que tem seu fígado devorado por uma águia durante o dia e, à noite, tem o órgão recomposto.

Nada para ver aqui é uma obra que flerta com o realismo mágico – movimento literário muito presente na literatura latino-americana (Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márques, é bem um exemplo). Algo de aspecto surreal, mas contado sem estranheza dentro da história, como se fosse fenômeno natural.

Outro aspecto que podemos extrair dos dois trechos citados acima (páginas 10 e 109) é como a negligência, a ausência ou rigidez dos pais pode afetar o desenvolvimento afetivo dos filhos. Tanto Jasper quanto Madison fazem questão de não ter contato com as crianças-problema. Igualmente, a ausência do pai de Lillian e a negligência da mãe dela fazem com que ela também se torne uma adulta deficiente em questões afetivas. Por isso, talvez, se deem tão bem.

Nada para ver aqui é um livro que agradou a muitos leitores, embora tenhamos ficado com a impressão de que desagradou ainda mais a uma turma maior. Estou entre estes últimos. Tive imensas dificuldades em prosseguir a leitura até o fim. Não gostei de como a narrativa foi conduzida, para mim ficou faltando examinar as questões postas na elaboração da obra com mais profundidade. A meu ver, Nada para ver aqui, ao se desenvolver muito perto de um realismo fantástico, perdeu muito de sua força.

Não se realiza bem como um autêntico exemplo do realismo mágico, pois a questão da combustão humana, apesar de rara, é documentada. Talvez o problema tenha sido fazermos uma pesquisa anterior, o que destruiu a “mágica” da combustão.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Resenha nº 197 - K. - Relato de Uma Busca, de B. Kucinski



 




Título: K.

Autor: B. Kucinski

Editora: Companhia das Letras/TAG

Edição: 4ª

Copyright: 2011

ISBN: 978-65-5921-218-7

Gênero literário: romance

Origem: Literatura brasileira

 

Bernardo Kucinski é cientista político, jornalista e escritor, nascido em São Paulo (1937). Tem formação, ainda, em Física, pela universidade em que leciona. É também professor da Universidade de São Paulo, atuando na cátedra Jornalismo Internacional. É filho de imigrantes poloneses, refugiados no Brasil.

Apenas ficando no campo da ficção, Bernardo publicou K – Relato de Uma Busca (2011), Você Vai Voltar Para Mim (2014), Alice Não Mais Que De Repente (2014), Pretérito Imperfeito (2017), este objeto da resenha nº 147 deste blog – , A Nova Ordem (2019), Júlia: Nos Campos Consagrados do Senhor (2020). O volume de contos Você Vai Voltar Para Mim integra o mais recente volume, A Cicatriz E Outras Histórias – uma coletânea dos contos de Kucinski, publicados em jornais.

Bernardo é ganhador de prêmios. Prêmio Jabuti, de 1997; finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e do Portugal Telecom, de 2012. Em 2018, obteve o Prêmio Vladmir Herzog de jornalismo.

Parte da família de Kucinski que ficou na Europa foi morta pelos horrores do Holocausto, na Segunda Guerra Mundial. Entretanto, o longo braço da tragédia veio alcançá-lo aqui mesmo, no Brasil.

Sua irmã, Ana Rosa Kucinski, professora de Química da USP e seu cunhado desapareceram em abril de 1974, durante a ditadura militar que assolou o Brasil. E é exatamente o desaparecimento da irmã que servirá de matéria narrativa deste romance incômodo que é K.

Bernardo Kucinski é considerado um dos mestres da chamada autoficção e da literatura brasileira contemporânea. Este termo, autoficção, merece algumas considerações, uma vez que vem sendo usado indistintamente, por estar na moda. Sinto-me na obrigação de explicar este rótulo, apesar de não ser objetivo deste blogue entrar em considerações teóricas.

Por autoficção entende-se obra de ficção que se vale dos dados da vida real do autor. Mais que isso, à voz do narrador funde-se a voz do autor. Os fatos, as emoções evidentemente, são aqueles do próprio escritor. Ele fará a seleção dos fatos, de acordo com o andamento pretendido para o romance.

Pode-se confundir autoficção com autobiografia. Entretanto, a autobiografia se pretende fiel à sequência dos fatos reais, quer-se documental, normalmente é escrita com a intenção de informar, de perpetuar a memória de determinada personalidade.

Já a autoficção destina-se a ser lida como um romance, como uma obra literária, na qual o autor exerce suas possibilidades estéticas; a estrutura aqui utilizada é a do romance, com seus conflitos, clímax e desenlaces. Um romance, portanto, não é simplesmente uma sequência de fatos, mas de fatos que servem à confecção de uma narrativa. A seleção deles só se faz por serem significativas para o andamento da estrutura da história.

Temos, então, Bernardo Kucinski como um autor de autoficção. Em K – Relato de Uma Busca há um narrador que se “cola” ao próprio autor. O personagem principal é um pai que busca, incessantemente, por sua filha desaparecida durante a ditadura militar. Envida todos os esforços para ter o direito de encontrar a filha ou, em último caso, poder reconhecer o cadáver dela.

“A tragédia já avançava inexorável quando, naquela manhã de domingo, K. sentiu pela primeira vez a angústia que logo o tomaria por completo. Há dez dias a filha não telefona. Depois, ele culparia a ausência dos ritos de família, ainda mais necessários em tempos difíceis, o telefonar uma vez por dia, o almoço aos domingos. A filha não afinava com sua segunda mulher.

E como não perceber o tumulto dos novos tempos, ele, escolado em política? Quem sabe teria sido diferente se, em vez dos amigos escritores do iídiche, essa língua morta que só poucos velhos ainda falam, prestasse mais atenção ao que acontecia no país naquele momento? Quem sabe? Que importa o iídiche? Nada. Uma língua-cadáver, isso sim, que eles pranteavam nessas reuniões semanais, em vez de cuidar dos vivos.” (páginas 19/20)

Um pai que busca o paradeiro da filha, mas um pai fortemente questionado pelo seu descuido com a família, pois dedicava sua atenção ao culto “do iídiche, essa língua morta que só poucos velhos ainda falam”.

Só agora ele se dá conta de algo muito grave estar acontecendo à filha:

“K rememorou cenas recentes, o nervosismo da filha, suas evasivas, isso de chegar correndo e sair correndo, do endereço só em último caso e com a recomendação de não passá-lo a ninguém.

Atarantado, deu-se conta da enormidade do autoengano em que vivera, ludibriado pela própria filha, talvez metida em aventuras perigosíssimas sem ele desconfiar, distraído que fora pela devoção ao iídiche, pelo encanto fácil das sessões literárias.” (página 23)

 O romance se inicia por uma situação, no mínimo, estapafúrdia:

“De tempos em tempos, o correio entrega no meu antigo endereço uma carta de banco a ela destinada; sempre a oferta sedutora de um produto ou serviço financeiro. A mais recente apresentava um novo cartão de crédito, válido em todos os continentes, ideal para reservar hotéis e passagens aéreas; tudo o que ela hoje mereceria, se sua vida não tivesse sido interrompida. Basta assinar e devolver no envelope já selado, dizia essa última carta.” (página 15)

Estapafúrdia, mas comum. Fico pensando como tal situação se repete, por este mundo afora, no qual um sistema imbecil e insensível dispara mensagens de felicitações de aniversário, desejo de feliz natal a pessoas que já morreram.

Em sua busca incessante, K. descobre que a filha era casada. A descoberta o impacta mais ainda, pois

“A filha confiara na outra família, não nele. Para a outra família o casamento não fora secreto, apenas discreto. Havia nisso um significado maior, terá ela sinalizado uma troca de famílias? Esse pensamento o machucava. Teria sido uma resposta ao seu segundo casamento com aquela alemã que a filha detestava? Ou à sua devoção tão intensa à língua iídiche? Uma língua que nem ela nem os irmãos sabiam falar, aliás, por culpa dele, que não se preocupou em os ensinar.” (página 51)

Tentativas aqui, tentativas ali e K. não sabe mais sobre sua filha do que incialmente sabia. Aciona amigos que, por sua vez, acionam outros contatos a fim de conseguir elucidar o que acontecera à filha. Comparece à igreja católica do bairro onde mora, na qual o sacerdote rebelde tenta minorar o sofrimento de várias famílias. Ele usa seus conhecimentos para obter informações sobre os desparecidos, mas muito pouco obtém de palpável. A máquina montada para fazer desaparecer, calar vozes dissidentes é muito bem azeitada.

Em K – Relato de Uma Busca não há risco de spoilers. A ausência, a inevitabilidade de se encontrar sequer os corpos daqueles sequestrados pelo regime, entre eles, o da irmã do narrador, é anunciado desde o começo.

Nas leituras de apoio que acompanham o livro é dito que

“De tudo, a única coisa que ele deixa transparecer é a referência a Kafka, padroeiro e assombração de quase todo escritor judeu. A primeira referência está clara no nome de seu personagem e no eco entre a trama de K. e a de O Processo. Em ambas, protagonista navega por uma burocracia torturante na tentativa de esclarecer um processo judiciário opaco” (página 9 da revista da TAG, Isadora Sinay)

Concordo. Natural que seja assim. Há uma relação biunívoca entre o nonsense kafkiano e o nonsense vivido pelos judeus no Holocausto. E o nonsense vivido pela família Kucinski aqui, no Brasil.

Não há cadáver, não há o fechamento natural de uma morte; um desparecimento é como uma suspensão, mas, como em música, uma suspensão cria uma tensão no ouvinte, a expectativa de outra nota que virá. No caso do desaparecimento, a nota restauradora não vem.

Ao leitor desconhecedor dos desdobramentos do Holocausto, talvez estranhe muito tamanha dedicação de K. ao culto do iídiche. Ainda utilizando os esclarecimentos de Isadora Sinay, à página 10 da revista de apoio da TAG:

“De tudo que se perdeu no Holocausto, nada é mais representativo do que o iídiche, a língua que desapareceu com os judeus da Europa. De língua materna de milhões de pessoas, o iídiche é hoje uma língua de avós, de palavras pronunciadas com carinho ou uma maldade íntima. Uma língua que, em seu desaparecimento, foi deixando sem lar aqueles como K., exilados de uma Europa impossível e que havia encontrado na literatura da língua uma extensão da comunidade judaica que tinham sido forçados a abandonar.”

Ou seja, mata-se uma língua materna, mata-se uma cultura, neste esforço de apagamento de seres.

Do ponto de vista estrutural, o romance K., de B. Kucinski pode ser enquadrado como um romance fix up. Este termo inglês, significando “gambiarra”, “arranjo”, “conserto”, caracteriza aqueles romances que são compostos por contos cujos personagens recorrentes, ou às vezes, a ambientação em comum formam um contínuo. Um bom exemplo disto é Eu, Robô, de Isaac Asimov. O termo é mais comumente aplicado aos livros de ficção científica, mas não creio exceder-me nesta qualificação. O livro se compõe de contos, como o atesta o próprio autor, ao comentar como elaborou a obra. Um tênue fio conduz o enredo até o fim, o do pai procurando a filha.

Este é um livro que mexe com minhas memórias e, portanto, me afeta emocionalmente. Eu era estudante universitário na parte final da ditadura militar. Embora não tenha sido afetado diretamente pelas ações dela, tive colegas que simplesmente desaparecerem, como Ana Rosa Kucinski. E corria, entre nós, os alunos, avisos para tomarmos cuidado com fulano, gente tão fina, pois eram dedos-duros da famigerada ditadura.

E, por isso, me irrito quando se esforçam para me convencer de que não houve ditadura, alegando “você não foi molestado”. Por este nefando raciocínio, o que não acontece a mim, não me importa. Poderia aliviar, “mas esta é outra história”. Não, não é verdade: é a mesma história.

K – Relato de Uma Busca: um livraço, uma transfiguração da dor em literatura. A generosidade de uma vivência individual em partilha. Obrigado, Bernardo Kucinski.


terça-feira, 6 de setembro de 2022

Resenha nº 196 - Sula, de Toni Morrison

 

 


Título original: Sula

Autora: Toni Morrison

Tradutor: Bárbara Landsberg

Editora: Companhia das Letras/TAG

Edição: 1ª

Copyright: 1973; 2004

ISBN: 978-85-359-3428-1

Origem: literatura americana

Gênero literário: romance

 

 

Chloe Ardelia Wofford, ou, como é mais conhecida, Toni Morrison, veio ao mundo na cidade de Lorain (Ohio), em 18/02/1931, e faleceu em Nova York, em 05/08/2019. Escritora, editora e professora universitária, estreou na literatura com O Olho Mais Azul (1970) – resenha de número 149, neste blogue.

Mas a obra desta escritora que chamou atenção sobre ela foi Song Of Solomon (1977). Sula, aqui resenhada, é seu segundo livro, publicado em 1974. Autora também de uma trilogia, na qual continua o relato das experiências vivenciais de mulheres afro-americanas. É composta por Amada (1987), Jazz (1992) e Paraíso (1997).

Nossa escritora vem de uma família profundamente afetada pela Grande Depressão, termo pelo qual ficou conhecido o Crash da Bolsa de Nova York, em 1929, com graves repercussões pelo mundo.

Toni era uma leitora ávida; alguns de seus autores prediletos eram Jane Austen e o russo Liev Tólstoi. Sua dissertação de mestrado, pela universidade de Cornell, foi sobre o suicídio nas obras de William Faulkner e Virginia Woolf.

Por Amada Toni Morrison levou o prestigiado prêmio Pulitzer. Este livro foi considerado pelo jornal The New York Times a melhor obra americana em 25 anos. A escritora, obteve, entretanto, o maior reconhecimento em 1993, com o Nobel de Literatura. A primeira escritora negra a ganhar tal distinção.

Ainda, uma saborosa curiosidade: de acordo com uma entrevista para o famoso jornal The Guardian, Morrison nos relata a origem do seu “apelido literário”. É que, segundo ela, em 1912, converteu-se ao catolicismo, tendo recebido o nome de batismo de Anthony, de onde veio Toni. O sobrenome Morrison lhe veio do casamento com o arquiteto jamaicano Harold Morrison, também professor.

Apesar de, em seus romances, abordar sempre mulheres negras, fortes e determinadas em suas batalhas de empoderamento, a autora não se considera uma feminista. Ela afirmou, certa feita, “Não concordo com o patriarcado, e não acho que ele deve ser substituído pelo matriarcado. É uma questão de acesso igualitário, de abrir portas para todos os tipos de coisas”.

Neste livro Toni Morrison nos conta a história de Nel Wright e Sula Peace, uma amizade que atravessa o tempo, desde quando eram crianças e moravam numa cidade pequena, localizada em Ohio. O nome era Medallion; mais precisamente, as duas residiam na parte mais pobre de Medallion, conhecida por Fundão:

“Uma piada. Uma piada de crioulo. Foi assim que começou. Não a cidade, é claro, mas aquela parte da cidade em que os negros moravam, a parte que chamavam de Fundão apesar de ficar no alto das colinas. Só uma piada de crioulo. Do tipo que os brancos contam quando o engenho é encerrado e estão buscando um pouco de consolo em algum lugar. Do tipo que as próprias pessoas de cor contam quando a chuva não vem, ou vem por semanas a fio, e estão buscando um pouco de consolo em algum lugar.” (páginas 26/27)

A vida da comunidade negra não era fácil. A pobreza, o preconceito dos brancos, a falta de oportunidades para ascenção social eram terríveis. Com alta frequência, o que restava às mulheres negras era a prostituição, como meio de sobrevivência. Um dos prostíbulos famosos era o Sundown House, onde nascera Helene Wright, mãe de Nel:

“De modo geral, sua vida era satisfatória, adorava sua casa e gostava de manipular a filha e o marido. Às vezes suspirava logo antes de adormecer, pensando que de fato tinha ido para bem longe de Sundown House.” (página 40)

Enquanto Nel era mais comportada, mais sonhadora, Sula era mais atrevida e “bagunceira”. Entretanto, as duas se combinavam, e Nel sentia verdadeiro fascínio por sua amiga, apesar de não poder ser do mesmo jeito:

“Mas isso foi antes de conhecer Sula, a menina que via fazia cinco anos na Garfield Primary, mas com quem nunca tinha brincado, nunca tinha conhecido, pois sua mãe dizia que a mãe de Sula era retinta. A viagem, talvez, ou seu recém-descoberto senso de individualidade lhe deu forças para cultivar uma amiga apesar da mãe.” (página 50)

Portanto, o racismo era algo endêmico naquela sociedade do Fundão. Não só brancos discriminavam negros, os negros discriminavam os brancos, mas os próprios negros discriminavam os “retintos” – de pele mais negra do que o “normal”.

Onde a luta feroz pela sobrevivência é a regra social, pouco espaço existe para delicadezas e famílias felizes. As descobertas, neste meio, não se fazem por deduções filosóficas ou aplicações religiosas, apenas pelas cruas experiências da vida, como no trecho a seguir:

“Já que ambas tinham descoberto anos antes que não eram nem brancas nem do sexo masculino, e que toda liberdade e triunfo lhes eram proibidos, elas passaram a criar outra coisa para ser. O encontro foi auspicioso, pois possibilitou que uma visasse a outra para seguir crescendo. Filhas de mães distantes e pais incompreensíveis (o de Sula, porque estava morto; o de Nel porque não estava).” (página 72)

No capítulo inicial da parte dois deste livro há uma cena muito interessante. Ela acontece com a chegada de Sula a Medallion, após algum tempo fora:

“Acompanhada de uma praga de tordos, Sula voltou a Medallion. Os passarinhos trêmulos com peito de inhame estavam por todos os lados, estimulando as crianças pequenininhas a deixar de lado a acolhida habitual e partir para o apedrejamento cruel. Ninguém sabia por que ou de onde vinham. O que sabiam era que não se ia a lugar nenhum sem pisar na bosta perolada deles, e era difícil pendurar roupas, arrancar ervas daninhas ou simplesmente ficar sentado no alpendre havendo tordos voando e morrendo ao redor.” (página 109)

Esta descrição me fez lembrar do filme Birds (Pássaros), de Alfred Hitchcock. Num completo nonsense, numa cidadezinha da Inglaterra, pássaros, de repente, começam a se juntar. Não há explicações. Hitchcock eleva o suspense; de um minuto para o outro, os animais se tornam camicases, se atirando sobre as pessoas e prédios.

Aqui, é um pouco diferente. Os tordos são pássaros europeus, originalmente tendo o campo como habitat. Com a destruição do seu domínio, aprenderam a viver em parques e jardins. Pois os tordos antecipam a chegada de Sula, como aves de mau agouro, aparecendo aos montes, morrendo pelas mãos das crianças pequenininhas.

O mal seria, então, algo imanente ao ser humano? Sula é uma representante do mal?

Sula se transforma numa mulher adulta que se recusa a ser domada. E, como o freio mais ostensivo sobre as mulheres se dá exatamente no sexo – aos homens, tudo é permitido, às mulheres, nada – é também (ou principalmente) nesta área que Sula afronta a todos:

“Era uma pária, então, e sabia disso. Sabia que a desprezavam e acreditava que eles enquadravam o ódio como asco pelo jeito fácil com que se deitava com os homens. O que era verdade. Ela ia para a cama com homens na maior frequência possível. Era o único lugar onde achava o que procurava: sofrimento e capacidade de sentir profunda tristeza. Nem sempre teve consciência de que era a tristeza o que almejava. Fazer amor lhe parecia, a princípio, a criação de um tipo especial de alegria. Julgava gostar da fuliginosidade do sexo e de sua comédia; ria bastante durante os começos ruidosos e rejeitava os amantes que consideravam sexo saudável ou lindo. A estética sexual a entediava.” (página 140/141)  

Parece-me, entretanto, que esta liberdade a que se atirava Sula era enganosa. Muitas vezes nós, seres humanos, sociais, nos sentimos sufocados pelas forças de contenção, de normatização advindas da sociedade. E, muitas vezes, nos lançamos a confrontá-las, a transgredi-las como ato externo, sem analisarmos se tais confrontos realmente constroem algo em nossa alma.

Tal se dá com a personagem Sula, pois

“Quando o parceiro se desprendia, ela erguia os olhos com espanto, tentando lembrar do nome dele; e ele olhava para ela de cima, sorrindo com a compreensão terna do estado de gratidão lacrimosa ao qual acreditava tê-la levado. Esperava com impaciência que ele virasse as costas e se acomodasse em uma espuma molhada de satisfação e leve asco, deixando-a na privacidade pós-coito em que ela se encontrava, se acolhia e se juntava a si em uma harmonia inigualável.” (página 142)

Amor ou posse? Fragmentar-se, dar-se como forma de reunir os próprios fragmentos e, na ilusão da doação, a posse? A Literatura é absolutamente admirável porque nos leva a mundos interpretativos equidistantes e possíveis. Já se disse, Toni Morrison vai, muitas vezes, por construções complexas e psicanalíticas de enredo e personagens. Tanto Sula quanto Nel poderiam estar num divã freudiano.

As duas haviam contratado um silêncio sobre um fato terrível acontecido no passado. A morte, a destruição, o desaparecimento, a mudança são algumas das angústias deste romance excelente:

“A Sula estava enganada. O inferno não é as coisas durarem para sempre. O inferno é a mudança. Não só os homens iam embora e filhos cresciam e morriam, mas nem a tristeza era duradoura. Um dia não teria nem isso. Esse mesmo sofrimento que a fazia se contorcer era uma curva no chão e a esfolava passaria. Perderia também isso.” (página 127)

Não sei dizer se isto é consciente em Toni Morrison, mas sua expressão artística filia-se àquela teoria de que a Literatura deve nos incomodar, tirar nosso chão, sacudir-nos, para melhor nos analisarmos.

Termino de ler Sula com inquietação. Não porque seja daqueles leitores que, à vista do pessimismo de um autor, o repudiam. Aprecio alguns autores que são bastante pessimistas; a outros, ditos otimistas, também aprecio. Sula não é uma leitura simples e não se pode ficar na superfície deste texto, sob pena de se perder o essencial.

Que tal deixar Toni Morrison finalizar esta resenha, com um dos trechos mais impactantes, dramático-filosófico, de que mais gostei? O narrador vê aqueles personagens do Fundão da seguinte maneira:

“Não acreditavam que a morte fosse acidental – a vida podia até ser, mas a morte era proposital. Não acreditavam que a natureza pudesse ser torta – apenas inconveniente. Pragas e secas eram tão “naturais” quanto a primavera. Se o leite podia coalhar, Deus sabia que tordos podiam cair. O sentido do mal era sobreviver a ele e decidiram (sem nunca saber que agiam deliberadamente) sobreviver a inundações, aos brancos, à tuberculose, à fome, à ignorância. Conheciam bem a raiva, mas não o desespero, e não apedrejavam pecadores pela mesma razão que não cometiam suicídio – estava aquém deles.” (página 110)

Sula, de Toni Morrison. Não, redefino o que afirmei. Não é apenas um excelente romance. É um romance soberbo. Provavelmente, não para todos os leitores. Eu assumo, tenho de relê-lo, várias vezes.


domingo, 21 de agosto de 2022

Resenha nº 195 - Esfinge, de Coelho Neto

 




Título: Esfinge

Autor: Coelho Neto

Editora: Legatus

Edição: 1ª

Copyright:2020

ISBN: 978-1-8380473-5-1

Origem: literatura brasileira

Gênero literário: Romance de Ficção Científica

 

Henrique Maximiano Coelho Neto nasceu em 21/02/1864, em Caxias (Maranhão) e faleceu no Rio de Janeiro, em 28/11/1934. Era filho do português Antônio da Fonseca Coelho e da índia Ana Silvestre Coelho. Coelho Neto, como ficou conhecido, fez seus primeiros estudos no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, para onde sua família havia se mudado. Ele contava com seis anos de idade neste evento.

Tentou estudar medicina, mas acabou desistindo do curso. Em 1883, iniciou seus estudos superiores na Faculdade de Direito de São Paulo. De espírito inconformado com muitos fatos, viu-se envolvido em um movimento de protesto contra um professor. Diante da possibilidade de represálias, transferiu-se para o Recife, cidade na qual começou o primeiro ano de Direito, sob o comando de Tobias Barreto.

De ideais republicanos e abolicionistas, Coelho Neto tornou-se companheiro assíduo de José do Patrocínio, participando da campanha contra a escravidão no Brasil. Ingressou no jornal Gazeta da Tarde e depois no A Cidade do Rio, onde obteve o cargo de secretário. Data desta época a publicação de seus primeiros trabalhos.

Escreveu 120 obras, abrangendo os gêneros romances, contos, crônicas e teatro. Utilizou vários pseudônimos, tais como Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manês. Entre sua vasta obra literária, A Conquista (1899), Turbilhão (1906), Esfinge (1908) e Fogo Fátuo (1928).

Num concurso, promovido pelo famoso jornal O Malho, nosso autor foi reconhecido como “o príncipe dos prosadores brasileiros”. Foi um dos escritores mais lidos de sua época. Entretanto, por seu preciosismo textual, os autores modernistas (a Semana de Arte Moderna é de 1922) declararam guerra ao nosso autor. O beletrismo de Coelho era tudo o que o vendaval modernista abominava. Resultado, o autor caiu no ostracismo.  

Como venho fazendo sempre que abordo uma obra com mais anos de existência, passo à contextualização. Este livro foi publicado em 1908, quando o Rio de Janeiro vivia a Belle Époque – nome francês para designar o período agitado que vai do final do século XIX até a Primeira Guerra Mundial. No Brasil, durou até a Semana de Arte Moderna. Por todo lado, vivia-se a euforia, pois o futuro anunciado era esperançoso. Houve uma explosão de inventos que mudariam, realmente, a sociedade como as pessoas a conheciam. Invenção do avião, do automóvel, do telégrafo e telefone, da lâmpada elétrica. A ciência anunciava um mundo de bem-estar e era o centro das aspirações.

Nem tudo, entretanto, eram flores. Também ocorreu o êxodo rural para as cidades, a exploração da mão de obra trabalhadora. As nações europeias disputavam entre si a primazia no campo das artes, cultura e ciência; teve início a corrida armamentista – citada como um dos fatores decisivos para a Primeira Guerra Mundial.

O Brasil mantinha intenso intercâmbio com a França. A elite brasileira viajava a Paris, a fim de se informar a respeito da última moda, dos artistas mais prestigiados. A Belle Époque se fez presente, em nosso território, nas regiões mais adiantadas economicamente, como as do ciclo da borracha (Amazonas e Pará), as do ciclo cafeeiro (São Paulo e Minas Gerais). As três cidades principais de origem colonial (Rio de Janeiro, Recife e Salvador) também foram tocadas por esta verdadeira febre.

O estilo arquitetônico característico do período é o Art Noveau. Como exemplos desta tendência, temos o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Theatro Amazonas, a Confeitaria Colombo (Rio), a Estação da Luz (São Paulo), o Castelinho da Floresta e a casa de Afonso Pena Júnior (Belo Horizonte).

Esfinge é um livro de leitura difícil. Parte de sua dificuldade vem exatamente da linguagem empregada pelo autor. Coelho Neto é um beletrista. Isto quer dizer que ele escolhe palavras pouco comuns, usa frases caudalosas, dotando o texto, a meu ver, de afetação desnecessária, artificial. Talvez, mais fácil do que explicar, para o entendimento de quem me lê seja trazer um trecho:

“Os hóspedes tratavam-se com intimidade, só o inglês do segundo andar, o apolíneo James Marian, retraía-se a todo o convívio, sempre sorumbático, calado, aparecendo raramente à mesa às horas das refeições, tomando-as só ou no quarto, quando não as fazia no jardim, a uma pequena mesa de ferro, à sombra das acácias, com champanhe a refrescar em um balde, ouvindo os passarinhos.” (página 49)

O trecho selecionado acima mostra bem o bordado dos termos escolhidos. Observe a o longo período subordinado, cheios de vírgulas. Para o leitor moderno, desacostumado deste jeito de escrever, a percepção do que o autor deseja comunicar é difícil.

A pensão de Miss Barkley tinha boa reputação na cidade do Rio de Janeiro. Ali, viviam pessoas de cor branca, representantes da classe média em ascenção na sociedade carioca. A maternal Miss Barkey, inglesa de origem e dona da pensão; Miss Fanny, também inglesa, jovem e professora; o próprio narrador (do qual não saberemos o nome); Frederico Brandt, professor de piano, crítico musical e compositor; o comendador Bernaz, o mais antigo morador. Ainda, Décio, estudante de medicina e admirador da poesia francesa (citando, nominalmente, Baudelaire) e inglesa; Alfredo Penalva, estudante de medicina; Péricles de Sá, viúvo, empreiteiro de obras e fotógrafo ocasional; Basílio, guarda-livros. Completam o “time”, Chispim, estudante de Direito; Carlos e Eduardo, irmãos de origem inglesa, empregados em uma casa importadora. E, por fim, o protagonista, o inglês James Marian.

O “apolíneo” (belo) James Marian é, dentre todos, o mais excêntrico e misterioso. Dono de um rosto de beleza feminina, tem um corpo viril, musculoso. Por esta dualidade, causa estranheza por onde passa. Veste-se com apuro, um dândi (creio que o termo mais atual, que corresponde a esta palavra fora de moda, seria mauricinho). Não é preciso ser expert para deduzir que, num ambiente de intimidade forçada, como o da pensão, as fofocas, o assunto de todos os dias, não poderia ser outro além daquele estranho inglês.

Quando Brandt executa suas músicas ao piano, com maestria, duas pessoas sempre vêm ao jardim da pensão, a fim de escutar melhor a execução: James Marian e Fanny. Pouco a pouco, chegamos à revelação de que a professora Fanny se apaixonou por James. Entretanto, este não corresponde aos seus anseios femininos.

Marian é uma alma atormentada. Sofre de acessos episódicos, em que se debate, de olhos arregalados, como se visse fantasmas, forçando a gola da camisa como se lhe faltasse ar. Depois, volta ao normal.

James Marian demonstra amizade ao narrador. Isto leva o protagonista a solicitar-lhe a tradução de um manuscrito que carrega. É a história de sua vida. Por este artifício, o autor nos leva ao conhecimento da história de Marian. E que história, meus caros leitores! Pois James Marian era um híbrido, um corpo masculino sobre o qual havia sido implantada uma cabeça feminina.

Coelho Neto tomou emprestada esta ideia do Frankenstein, de Mary Shelley, adaptando-a. Certo Arhat – misto de cientista, orientalista, alquimista – conhecedor profundo de uma tal Ciência Magna, havia conseguido unir o que restava de um corpo masculino, ainda com vida, com uma cabeça feminina de uma jovem cujo corpo estava destroçado. O autor não nos explica o que seria tal ciência.

Engana-se quem pensar que Arhat era só um cientista e que, à moda do Frankenstein, abandona sua criatura e mesmo a abomina. Ele tem amor paternal por James:

“Na mesma noite em que consegui realizar a conjunção dos dois corpos, que eram da Morte e que reintegrei na Vida, cedendo à terra o tributo que lhe cabia, porque os tassalhos foram sepultados pelo meu servo fiel, deixei a casa, vindo habitar este antigo castelo onde, à custa da minha própria essência, com prejuízo da minha energia, fui alimentando a vida que hoje tens, dando-te o meu fluido com o mesmo amoroso desinteresse com que a ave maternal encrava as garras no peito, esborcina a chaga a bicadas, fazendo rebentar o sangue com que ciba o ninho.

És verdadeiramente o filho da minha alma.” (página 159)

Temos, portanto, a “realidade” de James Marion. Um ser ambíguo em sua (re)criação; uma cabeça que pensa em chave feminina, num corpo masculino – por quem se apaixonara Fanny. O feminino em James Marion jamais poderia liberar o masculino nele para corresponder ao amor manifestado pela professora.

O protagonista corre o mundo em busca de um sentido para sua vida. Muitos anos depois, após a Segunda Guerra Mundial, o psicoterapeuta Viktor Emil Frankl elabora a sua psicologia denominada Logoterapia. Ele defendia que o impulso mais forte a mover um ser humano é encontrar um sentido para a sua vida. A função do logoterapeuta, portanto, é ajudar o paciente a encontrar o seu sentido de vida, para ser pleno.

Filosofias, religiões diversas não deram conta do conflito interno, da transexualidade de Marion. Então, recorre ao Brasil na tentativa de encontrar aqui, junto à exuberância da natureza, o apaziguamento, o sentido para a vida. Tentativa inútil. E como não encontra a paz, deve partir, ir buscá-la ainda em outro lugar.

Mas, haverá algum lugar, alguma filosofia, alguma religião, ou mesmo alguma psicologia a resolver tal impasse? Não é só a transexualidade conflituosa; a ela, soma-se a questão ambígua da sua re(criação). Marion é e não é humano. É humano, se se considerar que Arhat usou sua ciência para juntar duas partes humanas. Não é humano, pois o alquimista interferiu no ciclo de vida-morte e criou um híbrido por meio de uma intervenção não natural.

Não se enquadra na discussão atual de gênero versus sexo. James não é, simplesmente, um homem com psicologia feminina e muito menos, uma mulher com psicologia masculina; são duas peças distintas, em irremediável conflito, como lhe assevera o próprio Arhat:

“Se em ti predominar o feminino que transluz na beleza do teu rosto, o rosto de tua irmã, serás um monstro: se vencer o espírito do homem, como faz acreditar o vigor dos teus músculos, serás como um ímã de lascívia: mas infeliz serás como ainda não houve outro no mundo se as duas almas que pairavam sobre a carne rediviva lograram insinuar-se nela.

O Linga-sharira, ou corpo astral, “aura” ambiente, que circula, em auréola, em torno da cabeça, é o último princípio que abandona o corpo e a tua cabeça é feminina. Será o coração viril?” (página 161)

Trata-se, como está explícito na passagem, de duas almas que tentam conviver no mesmo corpo e isto não é simbólico. É validado pelo raciocínio de que, se o corpo astral de característica feminina circula ao redor da cabeça, o corpo astral masculino, por semelhança, circula ao redor do resto do corpo.

Coelho Neto, como grande construtor de narrativas que é, não deixa pontas soltas. Uma delas, o que será feito de Fanny; está lá, leitor; só não vou contar para você o que acontece. Haveria algo mais que o relato do narrador, que dê ao livro um fechamento mais verossímil? Claro que há, mas também não o adianto. Sugiro que você se aventure a ler o livro.

Parte da citação acima, relativa à página 161, nos dá ideia da complexidade dos componentes sob a superfície do texto. Coelho Neto faz uma mistura de orientalismo, conceitos teosóficos e espiritismo. Não soa falso porque o personagem Arhat é instaurado como um sábio, versado na Magna Ciência. Desta expressão, conclui-se tratar-se de uma ciência maior, além do conhecimento comum. Uma mistura entre o experimentalismo científico e o conhecimento ocultista, que resultaria numa ciência dos deuses (grifo nosso). A época privilegiou muita especulação de cunho ocultista, teosófico, espírita. Para se ter ideia do ambiente do Rio de Janeiro, Marcelo Spalding (in Digestivo Cultural) cita trecho de As Religiões do Rio, do cronista João do Rio (1904):

“Nós dependemos do feitiço. Não é um paradoxo, é a verdade de uma observação longa e dolorosa. Há no Rio magos estranhos que conhecem a alquimia e os filtros encantados, como nas mágicas de teatro, há espíritos que incomodam as almas para fazer os maridos incorrigíveis voltarem ao tálamo conjugal, há bruxas que abalam o invisível só pelo prazer de ligar dois corpos apaixonados, mas nenhum desses homens, nenhuma dessas horrendas mulheres tem para este povo o indiscutível valor do feitiço, do misterioso preparado dos negros.”

Vou ser honesto com você: eu, com a experiência de quem já leu muita coisa e coisas variadas, tive dificuldade em completar a leitura. Somente com disciplina venci alguns capítulos intermediários, usando a intuição leitora de que o restante do livro compensaria a dedicação. Confiei no talento de Coelho Neto, já detectado nos capítulos iniciais, e segui adiante. Não me decepcionei.

Tenho com este Esfinge sentimentos confusos. É uma obra “fora da curva”, estranha, leitura cheia de camadas. Não tenho muito costume com literatura gótica e talvez daí venham tais sentimentos confusos. Vale lembrar, o teórico das histórias de fantasia, Tzvetan Todorov, nos alerta de que um dos elementos do fantástico é, exatamente, o estranhamento.

Foram importantíssimos para esta tentativa de resenha os dois textos de apoio que acompanham esta bela edição da Editora Legatus. Um prefácio do professor Alexander Meireles da Silva e um posfácio, de autoria da professora Mary Elizabeth Ginway. Sem eles, a leitura teria sido menos proveitosa.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Resenha nº 194 - Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe

 



Título original: Die Leiden des jungen Werthers

Título em português: Os Sofrimentos do Jovem Werther

Autor: Johann Wolfgang von Goethe

Tradutor: Daniel Martineschen

Editora: TAG Experiências Literárias

Copyright: domínio público

ISBN: 978-65-88526-21-7

Origem: Literatura alemã

Gênero Literário: romance

 

Johann Wolfgang von Goethe nasceu em 28/08/1749, na cidade de Frankfurt e faleceu em 22/03/1832, em Weimar, ambas localidades da Alemanha. O escritor alemão foi polímata e estadista do Sacro Império Romano-Germânico, fazendo, inclusive, incursões pelas ciências naturais. Figura mais importante da literatura alemã, Goethe é um dos valores do cânone da literatura ocidental.

É apontado como introdutor do Romantismo na Alemanha, período que compreende o final do século XVIII e início do XIX. Juntamente com Friedrich Schiller, foi um dos líderes do movimento literário alemão denominado Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto).

Goethe foi um autor prolífico; o ponto alto de toda a sua obra, sem dúvida, é Fausto – um drama trágico –, em que explora o mito fáustico. Este mito, em sua interpretação mais ampla, tem tudo a ver com o homem moderno e sua luta incessante pela busca do sentido para sua vida. Mas o que tornou o autor conhecido do público foi este Os Sofrimentos do Jovem Werther. O espantoso é que ele o escreveu aos 25 anos, em quatro semanas. Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister é outra obra importante, inauguradora do que se convencionou chamar “romance de formação”. Por esta denominação entende-se aquela narrativa que acompanha determinado personagem, desde a mais tenra idade até a fase madura.

O autor foi apontado como gênio no Segundo Reich, sendo também fundamental para a instauração da República de Weimar, logo após a Primeira Guerra Mundial. Lido por ninguém menos que Napoleão – coisa de que o autor alemão se gabava – influenciou vários escritores ao redor do mundo. Aqui, no Brasil, dois gigantes literários sofreram sua influência: Machado de Assis e Guimarães Rosa.

Quanto à religiosidade, o escritor era cristão. Entretanto, um cristão diferente: acreditava na mensagem de Cristo, sem se vincular a uma expressão religiosa. Para ele, qualquer especulação metafísica racionalista era incapaz de mensurar os movimentos do universo, e compreender o mistério divino em sua integridade.

Envolveu-se em pesquisas de alquimia, filiou-se, em 1780, à sociedade secreta Illuminati, conhecida como “Maçonaria Iluminada”, de grande prestígio entre as elites europeias de então.

Do ponto de vista político, ele se classificava como um “liberal moderado”. Este liberalismo tinha toques de conservadorismo. Era defensor do federalismo, posicionando-se como crítico da centralização do poder na Alemanha (durante muito tempo, a Alemanha fora composta de vários territórios, sob o nome geral de Sacro Império Romano-Germânico).

Caro leitor, estamos diante de um clássico, considerando-se aquela caracterização de que “um clássico é uma obra que, tendo sido escrita há muito tempo, continua tendo coisas a dizer ao mundo atual”. Sem dúvida, Os Sofrimentos do Jovem Werther tem coisas importantes a nos dizer.

Um triângulo amoroso: o jovem Werther, Charlotte (Lotte) e Alfred, noivo dela. Você poderá dizer: meu Deus, tantas histórias lidas por mim envolvem este mesmo drama. Se fosse só isso, este livro não poderia ser enquadrado como um clássico. Há muito mais.

É um romance epistolar, curto (minha edição conta com 172 páginas). A narrativa é feita por cartas, organizadas cronologicamente. Elas são escritas por certo Werther e dirigem-se, em sua maioria, ao amigo Wilhelm. Portanto, sabemos apenas suas impressões sobre o mundo, seus sofrimentos, de que nos fala o título.

Werther muda-se de uma cidade do interior. Eis como ele fala de sua nova moradia ao amigo Wilhelm:

“Fiz todo tipo de amizade, mas ainda não encontrei companhia. Não sei o que tenho de tão atraente para as pessoas; tantas gostam de mim e se aproximam, e fico muito triste quando nosso caminho é o mesmo apenas por um curto trecho. Se você me perguntasse como são as pessoas daqui, teria que lhe responder: como de qualquer lugar! É uma coisa uniforme, o ser humano. A maioria das pessoas trabalha a grande parte do tempo para viver, e o pouco de liberdade que lhes resta lhes exige tanto que procuram todas as formas para se livrar dela. Ah, a determinação do ser humano!” (página 16)

O protagonista conhece a bela Charlotte (Lotte) e por ela se apaixona desvairadamente. O problema é que Lotte está prometida a Alfred. A princípio, contenta-se em amá-la sem lhe confessar seus sentimentos:

“Ela é sagrada para mim. Todo desejo se cala na presença dela. Nunca sei como agir quando estou com ela; é como se a alma se torcesse em todos os meus nervos. Ela tem uma melodia que toca ao piano com a força de um anjo, tão simples e espirituosa! É sua canção preferida, e me remove de toda dor, confusão e martírio tão logo toca a primeira nota.” (página 47)

Não há nada a fazer. Ainda mais que Werther aprecia Alfred; seu rival é um homem adequado para Lotte, bem capaz de fazê-la feliz:

“Chega, Wilhelm, o noivo chegou! Um homem dedicado e querido a quem devemos ser bons. Felizmente não estive presente na sua chegada! Isso teria me partido o coração. Ele também é bastante horado, não beijou Lotte nem uma única vez na minha presença. Que Deus lhe pague! Devo amá-lo, pelo respeito que tem pela menina. Ele quer o meu bem, e especulo que isso seja mais obra de Lotte do que seu próprio sentimento pois para isso as mulheres têm fino senso e entendimento. Quando podem manter dois admiradores em boa convivência, a vantagem é sempre delas, mesmo que isso só raramente funcione.” (página 51)

Pouco a pouco, o jovem Werther vai mudando de humor. Mergulha num estado depressivo sem remissão (melancolia, como era conhecido este estado psicológico):

“Ranjo os dentes e escarneço da minha desgraça, e escarneço duas e três vezes mais de quem quisesse dizer que eu deveria me resignar, pois não há nada a se fazer. Tirem tais espantalho de perto de mim! Corro pelas florestas, e quando chego até a casa de Lotte, vejo Albert sentado ao seu lado no jardim sob as folhas e não posso prosseguir, então me torno um verdadeiro palhaço e começo a fazer todo tipo de confusão.” (página 51)

Como tudo é dito apenas do ponto de vista de Werther, não podemos ter certeza se Lotte percebe a devoção dele e a alimenta, ou se tudo é produto de sua imaginação sobre-excitada.

Apesar de a minha edição não trazer a divisão em duas partes (livro 1 e 2), o tom da narrativa muda a partir de certo ponto. A segunda parte é sombria, tudo se precipita. Alfred e Lotte se casam. Werther é despedido do emprego, a depressão piora.

O livro coloca a interpretação de muitos fatos sob a ótica filosófica, como quando Alfred e Werther debatem sobre o suicídio. Para o marido de Lotte, o ato será uma covardia, uma fuga; para o protagonista, há justificativas para tal:

“A natureza humana”, prossegui, “tem seus limites. Ela pode suportar alegria, sofrimento e dores até um determinado grau, e colapsa assim que esse grau é ultrapassado. Portanto, aqui não se trata de alguém ser fraco ou forte, mas sim se é capaz de aguentar a dimensão da própria dor? Ela pode ser moral ou corporal: considero também incrível dizer que é covarde quem tira a própria vida, da mesma maneira que seria impertinente chamar de covarde aquele que morre com uma terrível febre.” (página 57)

 Visivelmente, neste debate, Albert representa a força da análise, da razão; Werther incorpora a força da emoção, do sentimento. A escola do romantismo sempre propugnou pela supremacia da emoção. Compreende-se. Aquele mundo industrializado que despertava, com suas máquinas, sua ciência, não era capaz, aos olhos dos românticos, de possibilitar a felicidade ou a realização ao ser humano. O mundo não podia ser reduzido a equações, a experimentos controlados. Onde a criatividade, a imaginação?

Os Sofrimentos do Jovem Werther é obra por demais conhecida. Penso não ser spoiler dizer que a história termina mal. O suicídio do personagem central já fora anunciado lá na página 57, durante a discussão entre Werther e Albert. A descrição do ato terminal tem forte carga dramática, em parte constituída pelo detalhamento. Cheguei a iniciar a transcrição do trecho, mas desisti. Deixo ao leitor a tarefa de ler o trecho no livro.

Nesta parte final do romance, já não são as cartas de Werther que nos dão ciência dos fatos. Entra em cena, a partir da página 109, sob o título “Do Editor ao Leitor”, um novo narrador. Ele publica mais algumas cartas e passa a nos introduzir nos momentos derradeiros.

Duas observações a mais. Primeiro, Goethe era fã da cultura clássica, tendo estudado Platão e lido o autor grego Homero, no original. Ele transfere esta característica ao seu protagonista. Werther é também um fã do autor de Ilíada e Odisseia. Segundo, a obra em questão tem fortes presenças autobiográficas; certa Charlotte von Stein fora uma paixão não correspondida de Goethe.

É interessante notar como um autor pode usar dados da sua própria biografia para compor seus personagens, sem que eles sejam, na integralidade, seus sósias. Nada a se estranhar, pois, quem escreve, sempre parte de determinados fatos, acontecimentos; escrever é revelar-se, como já foi asseverado por alguém.

A repercussão do Jovem Werther, à época, foi enorme, um best-seller. Foi muito criticado por ter incitado jovens europeus a uma onda de suicídio, no que passou para a posteridade como “efeito Werther”. Foi, inclusive, condenado por um pastor por ser um livro pernicioso para os jovens. Semelhante ao acontecido a outro clássico, este russo, de Léon Tólstoi, o Ana Kariênina.

Cumpre dizer que este livro não é, segundo apreciações abalizadas, o melhor do autor; cabe esta celebração ao Fausto, obra monumental publicada em dois volumes. O segundo, póstumo.

Muita gente pode não gostar deste livro, e por algumas razões. A linguagem tem um sabor antigo, é um romance epistolar (há "buracos" de informação entre uma carta e outra, já que só temos os textos escritos por Werther), é um livro de alta densidade psicológica, conquanto lírica. A carga de pessimismo oriunda dos desvarios amorosos do protagonista, desagradam a muita gente. Ainda, a técnica escolhida por Goethe ao dirigir-se indiretamente ao leitor, endereçando as cartas a Wilhelm, mas permitindo ao leitor conhecê-las pode causar algum cansaço a quem não estiver acostumado a este artifício.

Os Sofrimentos do Jovem Werther é uma obra importantíssima, um marco da literatura alemã. Escrito em 1774, nos apresenta uma narrativa que poderia, talvez, ser classificada com pré-romântica. Tenho consciência, clássicos não são para todos os espíritos e não há qualquer demérito nisto. Inicialmente, tem-se de vencer as dificuldades apontadas acima.