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quarta-feira, 30 de março de 2022

Resenha nº 187 - A Sucessora, de Carolina Nabuco



Título: A Sucessora

Autora: Carolina Nabuco

Editora: Instante

Edição: s/n

Copyright: 2018

ISBN: 978-85-52994-02-2

Gênero literário: romance

Origem: literatura brasileira

 

Carolina Nabuco, nome de batismo Maria Carolina Nabuco de Araújo, nasceu em 09/02/1890, na cidade do Rio de Janeiro. Faleceu em 18/08/1981, na mesma cidade. Filha do famoso Joaquim Nabuco, como o pai, foi também batalhadora pela causa abolicionista. Ela passou grande parte de sua infância em Petrópolis; sua adolescência, entretanto, deu-se nos Estados Unidos, onde o pai fora servir como embaixador do Brasil.

Seu primeiro livro data de 1929, uma biografia do pai. Por ele, Carolina ganhou o Prêmio de Ensaio da Academia Brasileira de Letras. Trabalhando como tradutora e escritora, ela sempre se manteve discreta, como no polêmico caso que envolve precisamente seu romance A Sucessora.

Sua trajetória como escritora é pontuada com as seguintes obras: A Vida de Joaquim Nabuco (1929, biografia); A Sucessora (1934, romance); Chama e Cinzas (1947, romance); Meu Livro de Cozinha (1977, receitas culinárias); O Ladrão de Guarda-Chuva e Dez Outras Histórias (contos); Oito décadas (memórias); Santa Catarina de Siena (biografia); Virgílio de Melo Franco (biografia); Retrato dos Estados Unidos à luz da sua literatura (ensaio).

Causa-me um desconforto muito grande constatar que uma escritora como esta tenha sido relegada ao esquecimento; aliás, outras escritoras brasileiras também o foram, como, por exemplo, Dinah Silveira de Queiroz, Júlia Lopes de Almeida, Maria Firmina dos Reis... Felizmente, porém, parece haver um movimento de redescoberta destas importantes artesãs da narrativa. Há publicações recentes, como este volume que tenho, da Editora Instante.

Carolina Nabuco deveria ter escrito outras obras ficcionais. Pena, foram apenas duas, este A Sucessora e Chama e Cinzas. Abolicionista e feminista, escrevendo numa época em que a abolição acabara de acontecer, no Brasil, e em que o feminismo, como movimento, sequer existia, provavelmente, ela teria muito a nos dizer com sua prosa elegante e culta.

Linhas acima disse que A Sucessora se envolveu numa polêmica. Uma polêmica internacional. Quando a publicação da escritora inglesa, Daphne du Maurier, Rebbeca – A Mulher Inesquecível veio a lume, dando, inclusive, um filme famoso do mesmo nome, dirigido por Alfred Hitchcock, verificou-se que aquela história era muito semelhante à de A Sucessora. Esta, por sua vez, foi adaptada por Manoel Carlos como novela da TV Globo, de enorme sucesso.

A respeito, a sempre discreta Carolina Nabuco se manifestou:

“Eu fiquei muito triste. Mas pus a minha dignidade acima de interesses financeiros do filme. Um advogado norte-americano veio cá ao Brasil me perguntar se eu escrevesse um papel dizendo que podia ser coincidência, eles me pagariam uma quantia patrimonial”. (Desvelando a intimidade feminina entre o concreto e o imaginário, de Mauro de Alencar, página 5)

O crítico Álvaro Lins, muito prestigiado na época, não titubeou em afirmar que Rebbeca era plágio da obra brasileira. Daphne lançou seu romance em 1934, no mesmo ano da publicação de Carolina. As histórias eram absolutamente semelhantes.

Polêmicas à parte, Carolina Nabuco escreve com um estilo, ao mesmo tempo, leve e elegante. Pertencente à Segunda Geração Modernista – mais conhecida como A Geração de 30 – o romance da nossa escritora contribuiu para a concretização dos novos valores sociais. Leitora, desde cedo, da literatura francesa, há muitas expressões desta língua em seu texto.

Cronista de seu tempo, eis como A Sucessora se inicia:

“A volta ao Rio. O encostar do grande transatlântico. Os primeiros passos em terra firme, entre a escada de bordo e a limusine que os esperava. Depois. O movimento embalador do belo carro; o alvoroço da avenida Rio Branco ao cair da tarde, na hora do êxodo para os lares.

Tudo, até o grito dos jornaleiros, apregoando vespertinos, encantava Marina. Os marcos familiares da cidade surgindo um por um. As vitrinas que se iluminavam. O cansaço delicioso que a vencia. O aconchego em que viajava, com os olhos distraídos pela agitação exterior e a mão presa na de Roberto. A sensação feliz de se lhe abrirem na vida largos horizontes de ventura.” (página 9)

Então, temos que o casal formado por Marina e Roberto aportam ao Rio de Janeiro, recém-chegados da Europa, em viagem de lua-de-mel... Dirigem-se à mansão da Rua Paissandu, propriedade do marido. É lá que se desenvolve todo o drama narrativo; para melhor entendimento, diremos que aquele não era o habitat da bela Marina. Ela fora criada em uma fazenda, no interior do Rio de Janeiro.

O contato frequente com a natureza, com a gente simples das terras da família – agora uma fazenda em lento processo de decadência – constroem o jeito de ser de Marina:

“Mas nunca Marina conhecera o luxo e resistia-lhe inconscientemente. A fazenda protegera-a do amor ao dinheiro, não lhe dando modos de o gastar. Em Santa Rosa a vida era fácil e as necessidades poucas, mas não havia nada que se parecesse com esta riqueza de cortinas e tapetes de reluzentes painéis, de madeiras novas e de sedas frescas como na loja.” (página 12)

Num jogo de contrastes, Roberto representa a modernidade, os novos ares que respira o país:

“Este era o outro Brasil, o Brasil novo, industrial, no qual nascera Roberto, e que chamava os braços da lavoura, para as cidades, as fábricas e a tuberculose, mas que não produzira ainda, mesmo na capital, senão um fraco punhado de residências como esta, e de fortunas como a que Roberto gastava largamente, na vida organizada para o casal por Alice, no fausto que destoava dos hábitos de seus amigos e que atraía a atenção dos invejosos.” (página 12)

Esta Alice é a ex-esposa do viúvo Roberto. E o retrato dela, pintado por um célebre pintor francês, em moda em Paris, Verron, é o primeiro e impressionante contato de Marina com a casa da qual seria senhora. Um retrato posto na parede central da sala:

“Marina olhou depressa para Roberto. Percebeu ainda de seu primeiro olhar para o retrato, olhar de quem via um antigo companheiro, alguém cuja vista importasse num acréscimo de conforto moral, mas logo a boca se lhe esticou de contrariedade. Dera ordens para que o quadro fosse retirado dali, e não estava habituado a que se lhe não cumprissem as ordens. Veio a Roberto uma onda de irritação contra sua irmã por não ter respeitado o seu pedido urgente. Era bem da Germana isso, de florir-lhe a casa e ocupar-se de tudo, mas desatendendo à sua única recomendação positiva. Conhecendo-a tão bem, ele é que devia ter-lhe adivinhado a intenção, não ter tomado por aquiescência o silêncio repentino em que Germana caíra, depois de afirmar que um quadro de Verron era uma obra-prima impessoal, como o Reynolds e o Fragonard do salão nobre. Roberto deixar-se iludir pelo tom brando com que, desde a infância, a irmã costumava disfarçar sua teimosia.” (página 12)

Intensamente requisitada pelo retrato, a atenção de Marina sobre ele se detém, como que hipnotizada:

“Devia ser Alice viva. Os olhos viam. Penetravam o pensamento, olhavam o mundo como se fosse seu para conquistar, para governar. A boca palpitava. Ia falar. O corpo também ia mover-se. O veludo do vestido reluzia quase tão finamente quanto o do manto de Marina. O colar de pérolas era o mesmo que ela trazia no pescoço. Roberto percebeu este pormenor.” (página 14)

Lamentei, linhas acima, que Carolina Nabuco só tivesse produzido dois romances. Ela é uma escritora de vários recursos, sem dúvida. A tensão que se anuncia entre os dois Brasis – o agrícola, do passado e o industrial, embora por consolidar-se, do presente –, a mulher extraída de seu próprio mundo simples e o homem do mundo, a presença ainda intensiva da primeira esposa de Roberto, morta e viva no retrato, a insegura e inexperiente Marina.

Um diálogo muito bem-colocado acrescenta uma pimenta à narrativa, numa conversa entre o casal, a respeito das impressões de Marina quanto ao retrato de Alice:

“Puxou-a pela mão e ela pôs-se de pé, ainda em frente ao retrato.

— Há uma coisa que ela nos quer dizer – murmurou Marina, interrogando a imagem com olhos dilatados.

Roberto assustou-se, mas fingiu que gracejava.

— Isso é espiritismo? – perguntou.

Séria, Marina respondeu:

— Espiritismo? Deus me livre! Sou católica.

— Então não penses mais neste infeliz retrato, nestas bobagens. Como é que um retrato poderia te dizer alguma coisa?

— Quer sim, mas não percebo.” (página 17)

O tom alusivo a coisas ocultas se repete, páginas à frente, numa recepção que Marina e Roberto dão, organizada por Germana (aliás, é Germana, de fato, quem governa a casa), em que brilha a figura culta e provocativa de Munhoz:

“Laurita Menezes pusera-se a apregoar uma série de superstições e de fetiches. Bastaria a Marina fechar os olhos para acreditar-se outra vez no meio do povinho de Santa Rosa. Faltava apenas a pronúncia negra. O desembargador, abandonando as reminiscências, passara a falar de espiritismo. Tinha um reluzir de apóstolo nos olhos, tal qual o velho Carlos, cozinheiro da roça.’

— A senhora daria uma excelente médium – disse a Marina. – Tem intuição. Eu conheço pelos olhos e pelas mãos.

— Eu também vejo pelos olhos e pelas mãos de Dona Marina que ela tem intuição – intercalou Munhoz, sorrindo. – Mas não só para as influências ocultas. Para todas as influências. Vejo também que é uma natureza tímida, embora corajosa, não é?” (página 65)

O olhar percuciente do embargador Munhoz acabara de desenhar, para todos, o perfil de Marina: tímida, mas corajosa; dona de muita sensibilidade, impressionável.

Outro fato vem acrescentar mais condimento à trama (já que iniciei esta linha de metáforas temperadas). Marina, sem intenção, deixa uma ponta de cigarro cair sobre o divã da sala; o fogo começa a alastrar-se rapidamente. É contido pelos empregados da mansão, mas rende outro trecho que mostra bem como um escritor de talento constrói seu clima de mistério e suspense:

“Depois, no quarto, Isabel banhou os dedos de Marina com unguentos. Acabou, num excesso de piedade, por beijá-los, chorando tolamente.

— Foi pena ela [Alice] não queimar mesmo – disse Isabel com ar vingativo.

Marina ficou perplexa diante desse comentário estranho.  Mais de uma vez lhe parecera que Isabel tinha a intuição do seu sofrimento secreto.

Uma coruja gritou no arvoredo. Isabel parou repentinamente para ouvir. Com a expressão concentrada, a máscara ficou-lhe um tanto trágica.

— A coruja, Sinhazinha! Este pássaro desgraçado anda sempre por aí. Deus nos livre.

Marina ralhou com ela. Imitou o tom de Dona Emília repreendendo os pretos que repetiam histórias de augúrios e de feitiços. Nas censuras de Dona Emília alternavam-se a irritação e a mofa, sinceras ambas.” (página 133)

De posse destes elementos fornecidos, aqui e ali, pelo narrador onisciente de A Sucessora, o leitor analisará: sei que o principal embate será entre esta Marina, nova esposa de Roberto, e forte presença da defunta Alice. Como acabará tudo isto?

Sei que o romance tem uma história já por demais conhecida, por ter sido bastante divulgada, quer pelo filme de Hitchcock (há, ainda, um remake em rede de streaming, em catálogo), quer por muito ainda se lembrarem da telenovela. Mas, como desejo que você, leitor, busque este livro e o leia, não vou dar spoiler.

O ambiente sociopolítico é o do Brasil do começo do século. O comércio do café sofre declínio; a atividade fazendeira perde mão-de-obra para a indústria que se instala no país. A escravidão – período terrível da história do Brasil – se encerrara; mas, não de todo, uma vez que, aqueles escravos libertos, mas idosos ou acostumados à saga perversa, ainda permanecem junto aos Sinhôs e Sinhás. Como na fazenda Santa Rosa, que ainda abrigava alguns destes serviçais.

Neste caldo de cultura, move-se o político, médico e escritor, Adolfo Bezerra de Menezes. Para quem não se recorda, Bezerra de Menezes era também abolicionista e... espírita. Na verdade, uma das figuras mais importantes dos primórdios do movimento espírita brasileiro. Impossível Carolina Nabuco não ter, pelo menos, ouvido falar de Bezerra e suas atuações. Daí, justificar-se a alusão ao espiritismo.

A Sucessora: um bom romance, um clássico da literatura brasileira. Merece este lugar. Aborda uma história de fundo universal – o enfrentamento de um mundo em mutação.

Ainda uma questão que desejo abordar. Na passagem do incêndio da mansão da Rua Paissandu, uma carta do pintor Verron para Alice quase não se salva. Apenas um fragmento, como nos relata o narrador desta história:

“Da carta de Verron, Marina só encontrou um fragmento carbonizado, onde apenas eram legíveis duas palavras, em linhas diversas... vous... affection [sua... afeição].” (página 132)

Teria havido aí um caso de traição de Alice, quando esteve em Paris com Roberto, e o pintor Verron? A reação de vingança da criada Isabel contra Alice revelaria algo do caráter daquela?

Carolina Nabuco não nos revela. O narrador se cala.

Muito importante resgatarmos esta obra. Romances de fundo histórico são bons caminhos para se compreender uma época; ao dar vida a personagens em seus mundos de referência, o autor acaba por nos fornecer várias informações sobre a cultura, a sociedade, o pensamento de uma época. 

quinta-feira, 17 de março de 2022

Resenha nº 186 - Nós, de I. I. Zamiátin

 



Título original: MЫ

Autor: I. I. Zamiátin

Tradutora: Gabriela Soares

Editora: Aleph

Copyright: obra em domínio público

ISBN: 978-85-7657-311-1

Gênero literário: Romance (ficção científica)

Origem: Literatura russa

 

Ievguêni Ivanóvitch Zamiátin nasceu na Rússia, em 01/02/1884 e faleceu em Paris, em 10/03/1937. Seus pais foram Ivan Zamiátin, sacerdote ortodoxo e professor, e Maria Zamiatina, musicista. Consta que ele se casou com Ludmila Zamiatina, mas não consegui encontrar o ano do evento. O escritor estudou Engenharia Naval na cidade de São Petersburgo, no período entre 1902 e 1908. 

Começou a escrever ficção como passatempo, após ter concluído o ensino superior. Durante seus estudos, apoiou a revolução bolchevique. Preso durante a revolução russa em 1905, foi exilado; retornou à cidade peterbuguense de modo clandestino, vivendo ali até 1906, quando partiu para a Finlândia para conclusão de estudos.

Preso outra vez em 1911, conseguiu anistia em 1913. Pouco tempo depois, foi para a Inglaterra, supervisionar a construção de navios quebra-gelo nos estaleiros Newcastle-upon-Tyne, na Inglaterra. Desta sua estada inglesa resultou um conto, The Islanders (Os Ilhéus), em que faz críticas ao modo de vida britânico.

Progressivamente, foi se tornando cada vez mais crítico do regime socialista e, como consequência, seus trabalhos foram severamente censurados. Para se ter uma ideia, Nós – obra aqui resenhada – só obteve sua primeira edição em inglês. Na verdade, esta distopia nunca foi publicada em solo russo.

Nós é livro considerado, hoje, o pai das distopias. A tempo, distopias são histórias de ficção científica que têm uma visão catastrófica do futuro da humanidade. Reportam-se, no mais das vezes, a civilizações (ou o que restou delas) pós-apocalípticas. Nós foi publicado em 1920, como disse, na Inglaterra. É extraordinária a semelhança com outras distopias famosas, como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, 1984, de George Orwell, Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, Farenheit 451, de Ray Brudbury e, ainda, teria influenciado Anthen, de Ayn Rand. Não é pouca coisa e por isso, merece ser lido.

Mas, quais foram as influências recebidas pelo próprio Zamiátin, além daquelas de H. G. Wells, de quem foi tradutor para o russo? Sua distopia tem digressões sobre moral e religião muito próximas às de Dostoiévski. Este sempre foi um “cristão atormentado”, oscilando entre crer e não crer nas propostas do cristianismo. Aponto, por exemplo, o trecho em que o narrador de Zamiátin – D-503 – nos relata no capítulo 36:

“Não lhe parece que o papel dos que estão no alto é o mais difícil, o mais importante? Se não fosse por eles, seria possível realizar toda essa magnífica tragédia? Eles foram vaiados pela multidão ignorante: mas, por tudo isso, o autor dessa tragédia, Deus, devia tê-los recompensado ainda mais generosamente. O próprio Deus cristão e misericordioso queimava lentamente no fogo do inferno todos os insubmissos. Ele não é um carrasco? E não são menos os queimados pelos cristãos nas fogueiras do que os cristãos queimados? E, contudo, compreenda isso, contudo, esse Deus, ao longo dos séculos foi glorificado como o Deus do amor. Absurdo? Não, ao contrário: é uma permissão escrita com sangue, do inerente juízo humano.” (página 290)

As pessoas não são chamadas pelos seus nomes. Nesta sociedade, elas recebem números e assim mesmo são referidas – números. Assim, temos I-330, uma mulher com quem D-503 se relaciona, com ideias, a princípio, disfarçadamente subversivas. Há também O-90, a quem o nosso protagonista dedica um afeto não muito bem compreendido por ele mesmo.

Numa passagem bastante elucidativa, logo após ter tido uma conversa com I-330, o narrador nos diz:

“Essa mulher me afetava da mesma maneira desagradável que um termo irracional e irredutível que se intromete ao acaso numa equação. Fiquei feliz de passar algum tempo a sós com a querida O.

De mãos dadas, passamos quatro avenidas. Na esquina, ela teve de virar à direita, e eu, à esquerda.

— Hoje eu gostaria muito de ir para casa com você e fechar as cortinas. Hoje, agora mesmo... – O-90 levantou timidamente para mim os olhos redondos, de um azul cristalino.

Graciosa. Mas o que eu poderia dizer? Ela havia estado em minha casa ainda ontem e sabia tão bem quanto eu que nosso próximo dia sexual seria depois de amanhã. Esse era simplesmente mais um caso de seu “pensamento antecipado”, como acontece (e às vezes é prejudicial) com uma faísca antecipada num motor.

Ao despedir-nos, duas... Não, serei preciso, três vezes beijei seus maravilhosos olhos azuis, não maculados por nenhuma nuvem.” (página 26)

Sim, é isto mesmo, leitor. Os números (cidadãos) têm “horas particulares” e, dentro destas, alguns dias em que podem fechar as cortinas contras as paredes de vidro de suas residências e terem o que D-503 chamou de “dia sexual”:

“Naturalmente, tendo submetido a Fome (algebricamente=a soma dos bens externos) o Estado Único conduziu uma ofensiva contra outro senhor do mundo: contra o Amor. Finalmente, esse elemento também foi vencido, isto é, organizado e matematizado, e por volta de trezentos anos atrás foi promulgada nossa histórica Lex Sexualis: “todo número [leia-se pessoa] tem direito a qualquer outro número como produto sexual”.

Bem, o que se segue é apenas técnico. No laboratório do Departamento Sexual examinam-nos e calculam exatamente a composição de nossos hormônios sexuais no sangue, e produzem para nós uma Tábua apropriada dos dias sexuais. Em seguida, fazemos uma declaração de que queremos utilizar nossos dias com esse ou aquele número, e recebemos o devido talão cor-de-rosa. Isso é tudo.” (páginas 42/43)

A cultura, os costumes e desejos da civilização antiga, antecedente à implantação do Estado Único são considerados nocivos, desorganizadores, causadores de infelicidade. Em poucos termos, todo individualismo foi banido. Obras de arte, discursos, poesias só podem existir se exaltarem as qualidades deste Estado, pois

“O homem só deixa de ser uma besta selvagem quando construiu a primeira parede. O homem só deixou de ser um selvagem quando construímos o Muro Verde, quando com esse Muro isolamos nossas máquinas, nosso mundo perfeito, do insensato e repugnante mundo das árvores, pássaros, animais...” (página 132)

As cidades são cercadas por muros, apartando delas os rebelados, os insensatos que ousaram resistir ao término da dor, da inveja, do crime. Isoladas em células administráveis e sobre elas, paira a figura do Benfeitor – alguém que garante o funcionamento das mínimas peças deste estado totalitário – tais cidades eliminaram quaisquer diferenças, uniformizando todos os humanos, certamente sem paixões, mas igualmente acríticos, acéfalos, submissos. Em suma, sem possibilidade de evolução.

Uma das poucas figuras admiradas da sociedade antiga é Taylor, autor do taylorismo. Num artigo buscado na Internet, intitulado “Entenda o que é o taylorismo, como surgiu e quais são seus princípios”, assinado por Thiago Coutinho, há explicação sobre em que consiste tal termo:

“O taylorismo é um método de produção idealizado pelo teórico Frederick Winslow Taylor, no final do século XIX. Ele também é conhecido pelo nome de Administração Científica.

Ele é marcado por uma forte racionalização do trabalho, sendo a especialização dos colaboradores a expressão máxima desse conceito. Isso quer dizer que cada trabalhador, ao invés de executar várias tarefas, deve ser treinado e capacitado para somente algumas delas, de maneira a executá-las melhor.

Podemos considerar isso como a aplicação do método científico na organização do trabalho. Por isso o nome "administração científica". Portanto, cada aspecto do trabalho deve ser planejado cientificamente, com o objetivo de maximizar a produção.

Além disso, a administração científica de Taylor ainda dizia que era tarefa dos gerenciadores da empresa desenvolverem sistemas de produção apropriados para alcançar a eficiência econômica.

Apesar dos termos "administração científica" e "taylorismo" serem utilizados como sinônimos, é mais preciso considerar o taylorismo como uma primeira forma de utilização de métodos científicos na administração.”

Ficam evidentes os motivos para a exaltação de Taylor:

“Sim, esse Taylor foi, sem dúvida, o mais genial dos antigos. É verdade que ele não chegou a pensar em estender seu método para todas as esferas da vida, para cada passo, dia e noite. Não soube integrar seu sistema às 24 horas do dia. Mas, de qualquer forma, como eles puderam escrever uma biblioteca inteira sobre um tal de Kant, sem quase notar Taylor, esse profeta que conseguiu enxergar dez séculos à frente?” (página 57)

A completa aceitação dos postulados do Estado Único, pelo narrador em primeira pessoa – D-503 – é algo que nos irrita, como leitores. Sabiamente instituído por Zamiátin, este narrador “colado” ao que se quer denunciar, torna-se uma ferramenta poderosa, do ponto de vista discursivo, contra o Estado Único. Esta submissão derrama-se para fora da obra literária, articula-se com o nosso conhecimento de mundo de leitores, fere-nos os conceitos morais e libertários:

“A tabuada de multiplicação é mais sábia e absoluta do que o antigo Deus: ela nunca erra, entenda, nunca erra. E não há cifras mais felizes do que as que vivem pela lógica eterna das leis da tabuada de multiplicação. Sem variações, sem erros. Existe apenas uma verdade e um caminho verdadeiro; e essa verdade é o dois vezes dois, e o caminho verdadeiro é o quatro.” (página 98)

D-503 é o construtor da “Integral” – uma nave espacial que terá como tarefa grandiosa levar o Estado Único ao restante do universo, obrigando – que paradoxo! – todos os seres a serem felizes.

O romance é o gênero literário que permite digressões de um personagem, de um narrador. Entretanto, tais digressões não podem se afastar do tema central, sob pena de perda de coerência, o que será fatalmente notado pelo leitor.

No capítulo 28 há uma dessas digressões, importante para se entender até onde vai o domínio da ideologia do Estado Único:

“Então há duas forças no mundo: a entropia e a energia. Uma tende ao repouso beatífico, ao equilíbrio feliz; a outra tende à destruição do equilíbrio, ao doloroso movimento sem fim. A entropia, os nossos, ou melhor, os seus antepassados, os cristãos, adoravam-na como a um Deus. E nós, os anticristãos, nós...” (página 224)

A propósito desta postura anticristã, dentro do projeto literário de Nós é perfeitamente compreensível. O que caracteriza o Antigo Testamento é exatamente a Justiça, a Ordem. Entretanto, o Novo Testamento tem como tônica a nova revolucionária do Amor. Não mais aquele Deus sisudo, punitivo e inflexível, mas outro, o da compreensão, do Amor Incondicional, que nos diz, pela boca de Jesus, seu filho, que “o que fazeis ao mais pequenino é a mim mesmo que o fazeis”.

Não é demais lembrar, todos os regimes ditatoriais têm verdadeiro horror às expressões de arte e a seus criadores. É que sabem muito bem, a forma mais definitiva de se dominar as pessoas é lhes possuindo a mente, a consciência. Abafado o senso crítico, a segurança do ditador se instaura.

Excelente livro. A edição que tenho, da Editora Aleph – graficamente muito bonita, por sinal – conta com uma carta de Zamiátin a Stálin, em que o autor solicita a permissão de sair da Rússia e, ainda, uma análise de ninguém menos que George Orwell. Autor do aclamado 1984, ele é de opinião que, embora Admirável Mundo Novo e Nós tenham tantas semelhanças, Aldous Huxley tem menos consciência política que Zamiátin. Não entro nesta discussão. Basta-me reconhecer que tanto um quanto o outro são duas legítimas análises sociais.

Na minha opinião, mesmo as mais delirantes obras de ficção científica são sobre os humanos e suas ambições, seus abismos e altiplanos. Somos seres humanos. Por conseguinte, tudo o que produzimos nos reflete, conta a nossa própria história. Quer como indivíduos, quer como sociedade.

quarta-feira, 2 de março de 2022

Resenha nº 185 - Amor Nenhum Dispensa Uma Gota de Ácido, de Carlos Drummond de Andrade

 


Título: Amor Nenhum Dispensa Uma Gota de Ácido

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Organização: Hélio de Seixas Guimarães

Editora: Três Estrelas

Copyright: 2019

ISBN: 978-85-68493-55-7

Gênero: Ensaios

Origem: Brasil

 

Carlos Drummond de Andrade é bastante conhecido pelo Brasil afora. Um dos nossos maiores poetas, nasceu na cidade mineira de Itabira, em 31/10/1902. Foi poeta, farmacêutico, cronista, contista. Drummond pertenceu ao que se convencionou chamar de segunda geração do modernismo brasileiro.

Nosso poeta passou pelo Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte, pelo Colégio Anchieta de Nova Friburgo e formou-se em farmácia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Com Emílio Moura, fundou A Revista, para divulgar o modernismo no Brasil.

Em 1925, casou-se com Dolores Dutra de Moraes, com quem teve dois filhos – Carlos Flávio e Maria Julieta; o menino, entretanto, teve apenas meia hora de vida. A ele, o pai dedicou o poema O que viveu meia hora, constante da Obra Completa, edição da editora Nova Aguilar (2002).

Sua primeira publicação em livro foi Alguma Poesia (1930). A partir daí, segue-se longa lista de títulos: Brejo das Almas (1934), Sentimento do Mundo (1940), José (1942), A Rosa do Povo (1945), etc. A lista é tão grande que seria enfadonho publicá-la aqui nesta resenha.

Vários escritores brasileiros optaram por exercer o serviço público e com Carlos Drummond não foi diferente. Foi Chefe de Gabinete do governador Gustavo Capanema, de Minas Gerais (1933) e Chefe de Gabinete do Ministério da Educação do Brasil (1934-1945). Foram vários prêmios literários obtidos por ele: Prêmio Jabuti (1968), Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (1973), Prêmio Morgado de Mateus (1980), Prêmio Juca Pato (1982) e Ordem do Mérito Cultural (2010). Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro, em 17/08/1987, aos 84 anos de idade.

O interesse por este livro, Amor Nenhum Dispensa Uma Gota de Ácido, pelo selo editorial Três Estrelas, com organização de Hélio de Seixas Guimarães, justifica-se por entender qual a relação entre o poeta mineiro e Machado de Assis. Além disto, os textos de Drummond, por si sós, são interessantes de se resgatar.

Afiliado literário do vendaval que foi a Semana de Arte Moderna, em 1922, é bastante motivante se saber como Drummond via Machado de Assis; sim, porque, de modo geral, o trator modernista condenou os escritores que vieram antes. Propunha uma nova estética, novas ideias. Desejava quebrar com tudo o que havia sido feito antes. E, certamente, Joaquim Maria Machado de Assis era um ícone a ser quebrado. Além de fama de maior escritor brasileiro, era o fundador da Academia Brasileira de Letras.

Drummond de Andrade sempre fora crítico, reflexivo, irônico. E o pesquisador Hélio de Seixas deixa isto bem claro, ao reunir ensaios do poeta.

“Mas, no princípio, Drummond teve de se defrontar com a sombra do outro, que era ainda a da velha tradição dos “mestres do passado”, na expressão de Mário de Andrade, que trouxe aos moços não só o fermento do novo, mas a necessidade de uma “deseducação salvadora”, como percebeu o próprio Drummond, jovem aprendiz modernista em 1924, ao comentar “Suas cartas”, nas Confissões de Minas.” (orelha do livro, Davi Arreguci Jr.)

O jovem Drummond, na força contestatória de sua juventude e aprendizado, não tinha o velho Machado em alta conta. Ele comenta, em Sobre a tradição em literatura:

“O que chamamos de tradição propriamente não existe. Que vem a ser uma tradição literária? Talvez o mosaico fantasista e caprichoso com que o tempo se divertiu em transformar a sucessão de obras e autores que constituem uma literatura? Não pode ser mais do que isso, e a nossa época, terrivelmente dotada de espírito crítico, acha pouco. Temos, pois, mais que o direito de desrespeitar essa falsa tradição: temos o imperioso dever.” (página 40)

E assesta sua metralhadora, no mesmo ensaio:

“Amo tal escritor patrício do século XIX, pela magia irreprimível de seu estilo e pela genuína aristocracia de seu pensamento. Mas se considerar que este escritor é um desvio na orientação que deve seguir a mentalidade de meu país, para a qual um bom estilo é o mais vicioso dos dons, e a aristocracia um refinamento ainda impossível e indesejável, que devo fazer? A resposta é clara e reta: repudiá-lo. Chamemos este escritor pelo nome: é o grande Machado de Assis. Sua obra tem sido o cipoal em que se enredou e perdeu mais de uma poderosa individualidade, seduzida pela sutileza, pela perversidade profunda e ardilosa deste romancista tão curioso e, ao cabo, tão monótono.” (página 41)

Verdadeira saia-justa, autêntica sinuca-de-bico: Drummond diz reconhecer o engenho do bruxo, seu estilo sedutor. Recusa-se, entretanto, a se render a ele pelo que Machado representa para a ideologia da modernidade. E, peremptório, arrogante até, declara, no final do texto,

“E é inútil acrescentar que temos razão: a razão está sempre com a mocidade.” (página 41)

Em outro texto, intitulado T’aí!, o autor afirma:

“É verdade que andaram por aqui uns doutores sutilíssimos, um Machado de Assis principalmente... Mas estes caixa-d’óculos vieram com os navios estúrdios de Tomé de Souza, e a culpa não é nossa, é dos navios. Estes senhores anteciparam o desenvolvimento do nosso fenômeno literário. Saiu todo errado. Nos deram uma solução em que o elemento humano em vez de se fundir com o elemento físico tende a esmagá-lo. Quando na realidade sucede o inverso: a terra bruta, por lapidar, esmagando o homem. Nem uma coisa nem outra, que diacho!” (página 44)

Aos poucos, à medida que amadurece, entretanto, Carlos sai da posição de iconoclasta para a de uma admissão de valores, ainda que resistente, como na reprodução abaixo, De costas para a Academia:

“O velho Machado continua em sua roupa de bronze, de costa para a Academia que ele fundou. Mas nem sempre será justa essa posição de amargo humorista. Sábado último, por exemplo, entrou pra lá um mineiro douto, malicioso, tão bom contador de anedotas como atento frequentador do seu Horácio, e pronunciou uma oração que nos faz esquecer muito discurso ruim proferido à sombra da imunidade acadêmica. Entre os casacas e os decotes do ritual, o Sr. Afonso Pena Júnior proferiu palavras organizadas por um pensamento claro, substancioso e amadurecido no contato do melhor humanismo. Foi bom que o recebesse o homem de alta categoria intelectual que é o Sr. Alceu Amoroso Lima. Conservo de meus vinte anos um certo preconceito acadêmico, e carinhosamente o cultivo; quisera falar mal da Academia; mas hoje não posso.” (página 61)

Em Machado sempre atual, o amadurecido Carlos escreve:

“Não entendi por que para exaltar Lima Barreto é necessário diminuir Machado de Assis. Ambos escritores indispensáveis, ambos merecedores de respeito. Essa história de ser fiel à classe está muito batida e não convence. O destino social de Machado não tem nada a ver com a qualidade de sua obra, e um conto dele, como “Pai contra mãe”, vale por três manifestos abolicionistas.” (página 148)

Voltando ao começo do livro, onde o organizador desta coletânea temática pousou, estrategicamente o melhor dos elogios a Machado, o preito mais bonito, sob o título já antecipador do que se lerá, A um bruxo, com amor:

“Em certa casa da rua Cosme Velho

(que se abre no vazio)

venho visitar-te; e me recebes

na sala trastejada com simplicidade

onde pensamentos idos e vividos

perdem o amarelo

de novo interrogando o céu e a noite.

 

Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.

Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,

uma luz que não vem de parte alguma

pois todos os castiçais

estão apagados.” (página 35)

O bonito desta coletânea é ver como, por meio de textos cronologicamente apresentados, Carlos Drummond amadurece. Amadurece como homem, como escritor. Dono de suas convicções – ele nunca abriu mão do seu estilo inovador, da sua voz literária – mas concede a César o que é de César.

Pode-se não gostar de Machado de Assis; pode-se, perfeitamente, achá-lo pessimista demais em sua visão de mundo. Negar-lhe o engenho... é já outra coisa! Além do mais, não poderia saber ainda, este querido Drummond que, um dia, ele mesmo, se transformaria em ícone para uma geração de poetas brasileiros, tendo seus trabalhos traduzidos para várias línguas do mundo. E mais, com uma vasta fortuna crítica a classificá-lo como um dos nossos maiores poetas!

Se você, leitor, gosta de ensaios e de coletâneas feitas com textos publicados em jornais, aqui vai a sugestão. Um ótimo trabalho de pesquisa do professor Hélio de Seixas. Orquestrado com muito respeito e muito amor aos dois autores envolvidos. Eu me deliciei!

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Resenha nº 184 - Divórcio Em Buda, de Sándor Márai



Título original: Válás Budan

Autor: Sándor Márai

Tradutor: Ladislao Szabo

Editora: Companhia das Letras

Edição: s/n – 1ª reimpressão

Copyright: 1993

ISBN: 85-359-0440-9

Origem: literatura húngara

Gênero literário: romance

 

O escritor húngaro Sándor Márai (lê-se Tchándor Mároi) nasceu na cidade de Kassa (cujo nome atual é Kosice), no atual território da Eslováquia, no ano de 1900. À época do seu nascimento, os países da região ainda não existiam, estando todo aquele território sob o domínio do Império Austro-Húngaro. Tal império entrou em colapso em 1918, após derrota na Primeira Guerra Mundial (duração do conflito: de 1914 a 1918).

Autor de 46 livros – nem metade traduzida para o português, no Brasil – alcançou enorme popularidade na Hungria, até o momento em que foi proibido pelo regime comunista, em 1948. Neste mesmo ano, Sándor Márai vai viver nos Estados Unidos, em exílio. Mesmo em território norte-americano, continuou a escrever em sua língua natal, o húngaro. Morreu em 1989, na Califórnia, por suicídio.

Os direitos autorais das obras publicadas em terras brasileiras pertencem, em grande parte, à Companhia das Letras, a saber: As Brasas, 1999; O Legado de Eszter, 2001; Veredicto em Canudos, 2002; Divórcio em Buda, 2003; Rebeldes, 2004; Confissões de Um Burguês, 2006; De Verdade, 2008; Libertação, 2009; Jogo de Cena em Bolzano, 2017 e Brasas, em uma nova edição, de 2021. Encontram-se disponíveis na editora apenas duas obras: Brasas (edição de 2021) e Veredicto em Canudos (edição de 2002).

Dei de cara com o nome deste escritor quando fiz uma pesquisa sobre a literatura do Leste Europeu, pois, a partir da literatura russa, desejava descobrir o que mais existia, além de alguns escritores cujas obras já conhecia, como Kafka, Szigmond Móricz, Férenc Molnár (aquele, do clássico infantojuvenil, Os Meninos da Rua Paulo).

Há lacunas culturais que só se podem entender num país como o nosso, com pouco público para este tipo de literatura, somado à dificuldade de se conseguir bons tradutores de idiomas menos em evidência, como o húngaro e à valorização do que nos chega dos EUA. A julgar por este Divórcio em Buda, Sándor Márai é precioso. E dizem os entendidos, não é o melhor dele; Brasas (recebe, às vezes, o nome de As Velas Ardem Até O Fim) é considerada, por muitos, sua obra-prima. Não posso opinar a respeito, mas estou muito impressionado por este pequeno volume em minhas mãos.

O título Divórcio em Buda, para nós, brasileiros, soa meio estranho; por isso, merece explicação. O “Buda” que figura no título não tem nada a ver com o budismo. A capital da Hungria é Budapeste, e é uma junção da parte na margem direita do Danúbio, Buda (Ôbuda) e Peste, na margem esquerda do mesmo rio. Há uma ponte integrando definitivamente Buda e Peste. Portanto, o título se refere a certo divórcio acontecido na parte antiga da cidade, Buda.

Sándor Márai investe muito na caracterização psicológica de seus personagens. O juiz Kristóf Kömives tem 38 anos, é casado com Hertha e tem dois filhos pequenos. Certo dia, vem parar em suas mãos o processo de divórcio do casal Imre Greiner e Anna Fazekas. Acontece que Imre fora colega de sala de Kömives, nos tempos de escola.

Anna, também dos tempos de escola, despertara, em algum momento, seu interesse amoroso. Algumas vezes se encontraram, nas voltas da vida, mas nada aconteceu. E agora, Kristóf tem, diante de si, o retorno do passado: precisa dar uma definição para o processo de divórcio entre os dois antigos conhecidos.

Antes de continuar a resenha, seria interessante abordarmos alguns aspectos. As ações de Divórcio em Buda vão se localizar na década de 1930. Valores que seriam classificados de “modernos” pipocavam aqui e ali, mudando costumes, hábitos, interferindo nos relacionamentos. As pessoas descobrem que os banhos de sol são recomendados para a saúde, o modelo de mulher passa a ser magra, bronzeada – como Greta Garbo.

Também as tensões começavam no campo social, financeiro e político. A quebra da bolsa de Nova York acontecera em 1929, influenciando o mundo todo; os reflexos da Primeira Guerra Mundial ainda estão presentes na Europa como um todo. Num mundo assim, em ebulição, vamos localizar as questões envolvidas nesta obra.

Com o processo diante de si, sobre a mesa, o juiz Kömives divaga:

“Agora se lembrava do preciso instante em que soube, surpreso, irritado, que Imre Greiner, aquele Imre Greiner de quem sempre se recordava com carinho na escola e mais tarde na faculdade, com quem se encontraria e conversaria com prazer, e com quem nunca soube conversar quando ocasionalmente se encontravam, casara com aquela sua conhecida, que... e aqui parou. Quem era essa Anna Fazekas? Teria significado algo mais para ele do que um conhecimento superficial, até mais do que superficial, secundário, mundano? Quando solteiro, viu-a na quadra de tênis duas ou três vezes, e com certeza encontrou-a mais tarde, depois de seu casamento, mas de passagem, superficialmente, como outras moças e mulheres casadas que até conhecia, embora delas talvez nem soubesse o nome.” (página 14)

Kristóf Kömides é um homem arredio socialmente, não tem bom salário, pertence a uma família tradicional, com avô e pai também juízes. Ele é uma promessa, é um bom juiz, julga com lisura e, fatalmente, seguirá, tão logo a ascensão hierárquica o permita, os passos de seus predecessores e será reconhecido. Kristóf é, também, um homem que não gosta de certas modernices:

“A caminho, o juiz refletiu sobre como tudo se decompôs e se modificou naqueles últimos anos, inclusive as formas de convívio social. Ele conhecia e gostava dessa humilde classe média senhorial da qual fazia parte, sentia-a como uma única e grande família, em cujos costumes sociais percebia o mito da família, cujo gosto era o mesmo que o seu, no trabalho, e inclusive na vida particular, sentia-se responsável pelo seu bem-estar e segurança.” (página 18)

Em outro momento:

“Esse mundo contemporâneo, lamurioso, sem limites e irresponsável que manifestava excessivamente seus choros e desejos – como ele repudiava esses casamentos “modernos” e neuróticos, do qual marido e mulher fugiam com tamanha facilidade para a frente do juiz!” (página 21)

O juiz é um burguês, conservador, defensor da sacralidade da instituição casamento. A agitação ao redor, da qual a invasão do swing – ritmo alegre, barulhento, agitado – talvez fosse uma boa amostragem, o incomoda.

Numa das cenas mais dramáticas do livro, que demonstra muito bem a capacidade de Sándor Márai de criar cenas impactantes, de arranhar nossos sentimentos de leitores, eis a descrição da cena da morte do pai de Kömives:

“Ficou meses na cama, doente; só perdeu a paciência na última semana, e então, algumas horas antes da batalha final, ergue-se penosamente num momento em que ninguém o vigiava, arrastou-se até o escritório, tirou de uma gaveta um velho revólver e tentou dar um fim a tudo aquilo. Caiu com o revólver na mão e ficou estirado no chão do escritório, imóvel, paralisado sob os quadros que retratavam os membros da família; foi encontrado nessa posição, inconsciente. Horas mais tarde, entrou em agonia. O revólver com o qual procurou apressar seu fim, sem contudo ter dado o golpe de misericórdia, e alguns retratos da família foi tudo que Kristóf manteve do legado de seu pai.” (página 36)

A família, portanto, é a um tempo, uma instituição que acolhe o indivíduo e que pesa sobre ele. Que perpetua valores morais e sociais, dá segurança, mas que se constitui numa força de retenção do indivíduo. Este aspecto se torna mais dramático num mundo em transformação, para o bem ou para o mal.

Kristóf foi enviado para um internato. Lá, conhece a figura do Padre Norbert, uma construção de personagem muito bem-feita pelo escritor húngaro. Ele será uma espécie de pai substituto:

“O padre Norbert lhe deu aquilo que, na maioria das vezes, nem as mães são capazes de dar, nem a família, nem os irmãos: com tato e visão, o gênio pedagógico do padre Norbert colocou-o sob a proteção de uma comunidade humana. Lá onde cada indivíduo sentia pertencer a algo, a um lugar, isso era tudo. Mais tarde, Kristóf Kömides muitas vezes se perguntou se conseguia passar aos próprios filhos esse sentimento de proteção, se sabia construir dentro da família esse refúgio. Não tinha uma grande opinião sobre as modernas teorias de educação. Com o passar dos anos, conheceu pessoas, vislumbrou destinos e percebeu que aqueles que mantêm o equilíbrio, os que resistem, não necessariamente provêm de circunstâncias familiares felizes – vinham da pobreza, de famílias muito numerosas, onde o dinheiro, o ciúme, as paixões fizeram seu trabalho destrutivo na alma de seus componentes, sem ter demolido a fundação espiritual da estrutura familiar – por quê? De que reserva se alimentavam essas almas?” (página 41)

Este padre Norbert será a influência decisiva na religiosidade do juiz Kömives, uma religiosidade “natural, não aprendida em livros”.

Hertha Wiesmeyer é a esposa de Kristóf. Ela é o eixo de equilíbrio do esposo; serena, conhecedora de sua importância na construção familiar, eis como ela é descrita:

“Hertha Wiesmeyer era bonita. Sua beleza se afirmou com o passar do tempo, sua face fina e longilínea, de testa alta, irradiava uma harmonia simples e tranquila. Não era uma beleza arrogante, mas apenas consciente de si mesma, sem ser provocante ou encantadora – as pessoas não conseguiam desviar-se dos efeitos do seu rosto, olhavam-na seriamente, com uma comoção involuntária.” (página 57)

Aquele clima de insegurança, provocado pelas forças ainda subjacentes, vívidas, de um horror mundial remanescente  (a Primeira Guerra Mundial) e as apenas intuídas, de outro conflito que se avizinha, repercutem na alma das pessoas, ainda que sob a forma de um “mal-estar generalizado”, disfarçado sob momentos de alegria compartilhada:

“Surpresa verdadeira, pensou, só existe uma na vida: quando descobrimos que nós também, pessoalmente, somos mortais. Essa descoberta foi feita por Kristóf aos trinta e oito anos. Aquela sensação física de origem puramente nervosa, por sorte passageira, quando por um segundo sentimos que algo pode acontecer também conosco... o quê? (página 74)

E mais:

“Agora entende: a guerra começa quando as pessoas, em todos os lugares do mundo, estão sentadas e falam de seus problemas e desejos do dia-a-dia e, de repente, alguém pronuncia a palavra “guerra” – e então elas não se calam, não olham para o chão caladas e assustadas, mas respondem de todas as maneiras, em tom natural: ‘guerra” – e se perguntam se é possível, quando e em que medida. É assim que começa.” (página 90)

Tarde da noite, na véspera do julgamento do processo de divórcio, a criada dos Kömives anuncia ao patrão uma visita. O juiz está contrariado, ele não recebe casos jurídicos em andamento em casa, preservando sua vida particular. A criada insiste; é alguém que diz ser conhecido do juiz e, por isto ele o atende. É Imre Greiner quem se insinua. Devo apenas entremostrar o que se segue, sob risco de spoiler, meu caro leitor.

Direi, apenas, que o próprio juiz será obrigado a encarar o significado de certos fatos do seu passado. Terá de responder, a si mesmo, aquela pergunta feita lá na página 14, “quem era essa Anna Fazekas? Teria significado algo mais para ele do que um conhecimento superficial, até mais do que superficial, secundário, mundano?”

Literatura não é psicologia, este resenhista não é psicólogo de formação. Entretanto, ocorre-me o livro Em busca de sentido, de Viktor E. Frankl (resenhado neste blogue) e sua logoterapia. Ele defende, naquela obra, que os homens temos de buscar um sentido para a vida, para nos equilibrarmos neste mundo. Ele mesmo, Viktor, um sobrevivente dos campos de extermínio nazista, conseguiu manter sua sanidade, apesar dos horrores espreitados, encontrando algum sentido para sua vida.

Aquele mundo, localizado no ambiente de pós-guerra mundial, o Império Austro-Húngaro destruído, mas – calculo – se esforçando inutilmente por sobreviver, sob aquela camada feérica de alegria fabricada, o que ele poderia oferecer às pessoas? Que questionamentos, que inquietações imporia às mentes?

A alma pressente as graves modificações, embora não a tragamos ao nível consciente. Uma outra Guerra Mundial, muito mais devastadora, pouco a pouco se anuncia. A respeito do mal-estar civilizatório, deixemos falar quem entende do assunto, num excerto do Professor de Antropologia da PUC-SP, Edgard de Assis Carvalho:

“Hans Jonas, em Para uma ética do futuro (1998), afirmou serem necessárias duas tarefas preliminares a ser levadas a cabo por todos os humanos que investem energia libidinal na boa utopia de um mundo menos antropocêntrico e mais ecocêntrico: a primeira, a maximização do conhecimento das consequências de todos os nossos agires, dada a agonia planetária que acomete a todos nós; a segunda, a elaboração de uma forma de conhecimento transdisciplinar, que fosse capaz de conjugar saberes fatuais e saberes axiomáticos.

Para isso, a fabricação do real teria de se pautar pela combinação do intelecto com a emoção, do necessário e do contingente, da harmonia e do caos. Essa modalidade renovada de consciência coletiva, destituída de qualquer intenção prometeica, seria saturada de complexus, ou seja, de agires e fazeres que rejuntariam tudo aquilo que a disjunção cartesiana se incumbiu de separar no plano físico, metafísico e metapolítico. Qualquer sistema vivo passaria, então, a ser entendido como um sistema incompleto, indeterminado, irreversível, sempre marcado pela auto-organização que combina, descombina e recombina a ordem, a desordem, a reorganização.” (in Mal-estar civilizatório e ética da compreensão, acessado em 20/02/2022, < https://www.scielo.br/j/spp/a/f5jBZbXgjFSSwkjhvf75V9H/?lang=pt>)

Nada mais a dizer. Nada mais a considerar.

Apenas uma constatação: pode não ser o melhor de Sándor Márai. Entretanto, este Divórcio em Buda é magnífico. Acima da média. Tenho como certo, suas reverberações serão muito frequentes e poderosas na minha memória de leitor. Assumo o compromisso comigo mesmo e com o leitor: vou fazer deste autor um projeto de leitura.

Concordo, existem leitores para os mais diversos tipos de livros, para as mais diferentes propostas. Esta obra não é exceção. Não agradará a todos, aliás, não existem livros que agradem a todos. Para apreciá-lo, você deverá gostar de enredos que não se focam em ação. História de fundo psicológico, de análise de personagens requerem leitores com estas predisposições.

Não há demérito em se gostar de outras propostas. Que seria do amarelo, se todos gostassem do vermelho?

  

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Resenha nº 183 - A Peste, de Albert Camus

 









 

Título original: La Peste

Autor: Albert Camus

Tradutora: Valerie Rumjanek

Editora: Record

Edição:18ª

Copyright:1947

ISBN:978-85-01-01487-0

Gênero literário: romance

Origem: Literatura francesa

 

 

Albert Camus é um escritor argelino de nacionalidade francesa. Nasceu em 07/11/1913, em Mondovi, Argélia, e faleceu em 04/01/1960, em Villeblevin, França. Um homem de vários talentos: romancista, ensaísta, jornalista, dramaturgo e filósofo. Na sua terra natal, viveu sob o guante da fome, da guerra, da miséria e do sol. Tais referências vão aparecer em toda a sua obra.

Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de 1957, pelo conjunto da obra. Ele era tuberculoso e esta condição, à época uma ameaça real de morte, lhe trouxe a dimensão da falibilidade do ser humano. Como filósofo, Albert integra a corrente existencialista; como escritor, vincula-se ao que se convencionou chamar “estética do absurdo”. Camus sempre defendeu que o melhor modo de filosofar é através da literatura. E o romance, como gênero literário, é o campo mais favorável para tal intento. Como precedentes, dentro da mesma proposta estética, temos Dostoiévski e Franz Kafka; como filiados posteriores, Samuel Beckett e Eugène Ionesco.

Este é a segunda obra de Albert Camus resenhada neste blogue; O Estrangeiro conta com a postagem de número 105. Pretendo ler, em breve, A Queda. Como vê o leitor, este argelino está se tornando um queridinho deste leitor entusiasmado.

A Peste é de 1947, quando a Segunda Guerra Mundial tinha terminado. Os ecos deste conflito, sobretudo na Europa, marcavam forte presença. Como é dito na orelha do livro, edição da Record, que tenho em mãos,

“Com A Peste (1947), Albert Camus tenta a demonstração de um novo cogito cartesiano: ‘Eu me revolto, portanto, nós somos.

Pois a revolta (individual) contra o absurdo é também revolta (coletiva) a favor dos valores que a própria revolta revela.”

Toda a narrativa tem lugar na cidade de Oran, tomada pela epidemia. Clara alegoria da condição humana, pela semelhança desta cidade envolta em peste e a França ocupada da Segunda Guerra Mundial, A Peste nos diz mais do que uma leitura de superfície pode nos dar. Certos traços narrativos, algumas digressões postas na boca de alguns personagens nos levam a estabelecer termos de comparação com a infecção do Nazismo.

Em apenas dois parágrafos iniciais, Camus nos pinta uma cidade em tons neutros, absolutamente normais – cenário da insuspeitada chegada da peste bubônica – exatamente como acontecera na Idade Média:

“Os curiosos acontecimentos que são o objeto desta crônica ocorreram em 194... em Oran. Segundo a opinião geral, estavam deslocados, já que saíam um pouco comum. À primeira vista, Oran é, na verdade, uma cidade comum e não passa de uma prefeitura francesa na costa argelina.

“A própria cidade, vamos admiti-lo, é feia. Com o seu aspecto tranquilo, é preciso algum tempo para se perceber o que a torna diferente de tantas outras cidades comerciais em todas as latitudes. Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas? Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas das flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados. Durante o verão, o sol incendeia as casas muito secas e cobre as paredes de uma poeira cinzenta; então, só é possível viver à sombra das persianas fechadas. No outono, pelo contrário, é um dilúvio de lama. Os dias bonitos só chegam no inverno.” (página 9)

O quadro da cidade, fornecido pelo narrador, me traz à lembrança a modorrenta tranquilidade daquela cidadezinha do filme Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, tranquilidade esta que será drasticamente alterada pelo bizarro ataque dos pássaros. Lá, eram pássaros; aqui, são ratos.

Neste cenário se movimenta o Dr. Bernard Rieux. Aliás, este protagonista-narrador merecerá comentários à parte, nesta resenha.

Como tudo começa:

“Na manhã do dia 16 de abril, o doutor Bernard Rieux saiu do consultório e tropeçou num rato morto, no meio do patamar. No momento, afastou o bicho sem prestar atenção e desceu a escada. Ao chegar, porém, veio-lhe a ideia de que esse rato não estava no lugar devido e voltou para avisar o porteiro. Diante da reação do velho Michel, sentiu melhor o que sua descoberta tinha de insólito. A presença deste rato morto parecera-lhe apenas estranha, enquanto para o porteiro constituía um escândalo. A posição deste último era aliás categórica: não havia ratos na casa. Por mais que o médico lhe garantisse que havia um no patamar do primeiro andar, provavelmente morto, a convicção de Michel permanecia firme. Não havia ratos na casa e era necessário que tivessem trazido este de fora. Em resumo, tratava-se de uma brincadeira.” (página 13)

De fato, o negacionismo tem por base a ignorância.

Como bom escritor que é, Camus só constrói personagens que sejam importantes para sua narrativa. São vários, mas quero destacar dois: o jornalista Raymond Rambert e Jean Tarrou. Ambos acompanharão o protagonista quase até o fim da história e têm, cada um a seu jeito, o que contribuir para o enredo.

Como jornalista, Rambert traz um tom investigativo à narração. Ele está ali para fazer uma matéria sobre a condição de vida dos árabes, enviado por um grande jornal de Paris. Jean Tarrou é um homem introspectivo, “encarregado” de portar os comentários filosóficos do livro.

O narrador nos apresenta Rambert da seguinte forma:

“Na tarde do mesmo dia, Rieux, no início de suas consultas, atendeu um rapaz que lhe disseram ser jornalista e que já viera de manhã. Chamava-se Raymond Rambert. Baixo de estatura, ombros largos, rosto decidido, olhos claros e inteligentes, Rambert vestia roupa esporte e parecia à vontade na vida. Foi direto ao assunto.” (página 16)

Jean Tarrou nos causa outra impressão:

“Às cinco horas, ao sair para novas visitas, o médico encontrou na escada um homem ainda novo, de aspecto pesado, de rosto maciço e cansado, riscado por sobrancelhas espessas. Tinha-o encontrado algumas vezes na casa dos bailarinos espanhóis que moravam no último andar do seu prédio. Jean Tarrou fumava com empenho um cigarro e contemplava as últimas convulsões de um rato que morria.” (página 17)

Pouco a pouco, vão aparecendo ratos mortos em lugares imprevistos. Breve, não são apenas os ratos que morrem; a peste bubônica começa a matar também os habitantes de Oran. Nenhuma categoria, nenhuma classe social é poupada. O Dr. Rieux quase nada pode fazer; as pessoas apresentam nódulos purulentos pelo corpo, notadamente nas virilhas. A febre sobrevém, a secura, a falta de ar. A peste promove verdadeira mudança na disposição dos seres humanos:

“Homens que se julgavam volúveis no amor redescobriram-se constantes. Filho que tinha vivido junto da mãe, mal olhando para ela, depositavam toda a preocupação e angústia numa ruga de seu rosto que lhes povoava a lembrança dessa presença, ainda próxima e já tão distante, que ocupava agora os nossos dias. Na verdade, sofríamos duas vezes: o nosso sofrimento, em primeiro lugar; e em seguida aquele que atribuíamos aos ausentes – filho, esposa ou amante.” (página 66)

Outro personagem absolutamente importante nestes relatos é o padre Paneloux:

“No entanto, onde uns viam a abstração, outros viam a verdade. De fato, o fim do primeiro mês de peste foi obscurecido por recrudescência acentuada da epidemia e um sermão veemente do Padre Paneloux, o jesuíta que assistira o velho Michel no princípio da doença. O padre Paneloux já se havia distinguido por colaborações frequentes no boletim da Sociedade de Geografia de Oran, onde suas reconstituições epigráficas constituíam autoridade. Mas conquistara um auditório mais vasto que o de um especialista ao fazer uma série de conferências sobre o individualismo moderno. Mostrara-se, então, defensor ardoroso de um cristianismo exigente, igualmente distanciado da libertinagem moderna e do obscurantismo dos séculos passados. Nessa ocasião, não poupara duras verdades ao seu auditório. Daí sua reputação.” (página 84)

A Peste segue com sua história sobre a infecção de Oran, pontuando, aqui e ali, discussões muito instigantes entre o padre Paneloux, o próprio narrador Rieux e Tarrou a respeito de questões éticas e religiosas:

“A contradição, aliás, não o assustava, pois tinha dito pouco depois a Tarrou que, certamente, Deus não existia, já que, de outro modo, os padres seriam inúteis. No entanto, por certas reflexões que se seguiram, Tarrou compreendeu que esta filosofia estava estreitamente ligada ao estado de espírito que lhe davam os peditórios frequentes de sua paróquia.” (página 106)

A meu ver, Rieux é um ateu, típico homem da ciência; Tarrou questiona a ideia e a atuação de Deus, de um ponto de vista filosófico. O padre Paneloux, um homem religioso, um sacerdote, que também atua na área da ciência – haja vista sua participação na Sociedade Geográfica de Oran. É portanto, uma tentativa de síntese entre a Religião e a Ciência, sem o “obscurantismo dos séculos passados”.

Como não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe, a partir de certo momento a epidemia vai perdendo força. Não conto como acaba tudo, embora o como acabe não seja importante num romance como este, que ouso chamar de um romance de tese. Isto é, uma obra literária montada para discutir ideias e ideais. No caso, o quão absurda é a existência humana.

Linhas acima, disse que o narrador de Camus mereceria comentários à parte.

De fato, um dos elementos a serem descobertos, durante a história, é quem é o narrador. Sim, porque ele se esconde, nega-se a dar evidências de si. Usa, estrategicamente, a terceira pessoa. Chama a si mesmo de “narrador”:

“Aliás, o narrador, que se revelará no momento oportuno, não disporia de meios para lançar-se nem empreendimento deste gênero se o acaso não o tivesse posto em condições de recolher um certo número de depoimentos e se a força das circunstâncias não o tivesse envolvido em tudo o que pretende relatar. É isso que o autoriza a agir como historiador. É claro que um historiador, mesmo que não passe de um amador, tem sempre documentos. O narrador desta história tem portanto os seus: em primeiro lugar, o seu testemunho; em seguida, o dos outros, já que, pelo seu papel, foi levado a recolher as confidências de todos os personagens desta crônica; e, finalmente, os textos que acabaram caindo em suas mãos. Pretende servir-se deles quando lhe parecer útil e utilizá-los como lhe aprouver.” (página 12)

Este narrador assim constituído, vale-se realmente das anotações de Rambert, o jornalista, mas, principalmente, das observações escritas no caderno de Tarrou.

E por que o narrador de A Peste é instituído desta forma, um narrador confiável, tão ao avesso daquele outro narrador famoso, nada confiável, do nosso Machado de Assis, em Dom Casmurro?

Haverá, sim, um motivo:

“Esta crônica chega ao fim. É tempo de o doutor Bernard Rieux confessar que é o seu autor. Mas, antes de narrar os últimos acontecimentos, ele gostaria, ao menos, de justificar a sua intervenção e fazer compreender por que quis assumir o tom de testemunha objetiva. Ao longo de toda a duração da peste, sua profissão o colocou em condições de ver a maior parte dos seus concidadãos e de recolher os seus sentimentos. Estava, pois, em boa posição para narrar o que tinha visto e ouvido.” (página 263)

Para arrematar, apenas mais uma questão.

A partir de que elementos poderíamos aproximar a epidemia relatada neste livro à invasão nazista da França? Bom, em primeiro lugar, pelo contexto – o livro foi escrito em 1947, sob fortes impressões da Segunda Guerra; o autor já ensaiara em outros livros a sua “estética do absurdo”, um ponto de vista segundo o qual o mundo dos humanos é absurdo.

Mas, há mais. Um trecho que, na minha opinião “cola” fortes imagens dos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau está transcrito abaixo:

“Um pouco depois, contudo, foi preciso procurar outro lugar, tomar outras medidas. Um decreto da prefeitura expropriou os jazigos perpétuos e todos os restos exumados foram encaminhados ao forno crematório. Em breve, tornou-se necessário conduzir os próprios mortos da peste para a cremação. Mas, então, foi preciso utilizar o antigo forno de incineração que se encontrava a leste da cidade, fora das portas. Afastou-se para mais longe o piquete da guarda e um empregado da prefeitura facilitou muito a tarefa das autoridades ao aconselhar o uso dos bondes que antigamente serviam à orla marítima e que se encontravam desativados. Para esse fim, arrumou-se o interior dos veículos retirando os assentos e desviou-se a linha para o forno, que se tornou, assim, uma estação final.” (páginas 157/158)

Não é demais lembrar aqui, os judeus eram constantemente caricaturizados, pelos nazistas, como ratos – raça impura e eliminável. Como acontece, também, na magnífica obra em quadrinhos, ganhadora do Prêmio Pulitzer, Maus (Rato, em alemão).

A Peste é um clássico. Talvez não seja uma obra para leitores iniciantes ou de leitura desatenta. Simplesmente – e aqui vou me apropriar do bordão do resenhista do blog “Bons Livros Para Ler”, Luiz Guilherme de Beaurepaire,

“Um livro que merece destaque na sua estante.”