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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Resenha nº 163 - Ponto Cardeal, de Léonor de Récondo


Que reste t'il de nos amours — Algumas poucas linhas sobre “Ponto ...Título original: Point Cardinal
Autora: Léonor de Récondo
Tradutor: Amilcar Bettega
Editora: TAG/Dublinense
Copyright: 2020
ISBN: 978-85-83138-141-5
Gênero literário: Romance
Origem: França
Outros livros da autora: La Grâce du cyprès blanc, 2010; Rêves oubliés, 2012; Pietra viva, 2013; Amours, 2015.

Primeiras impressões ao ler :

Para onde me conduzirá este livro – indaguei-me, com ele na mão, sentado no sofá da sala da minha casa. A página de abertura do romance não deseja me revelar coisa nenhuma de importante. Apenas uma tal Mathilda, trocando roupa furtivamente dentro do seu carro, parado num estacionamento. O texto é fluido, sem palavras difíceis. Os capítulos, curtinhos. Léonor de Récondo é autora francesa completamente desconhecida para mim. O livro também é curto: 176 páginas. O estilo é inquieto – impressão colhida da pequena dimensão dos capítulos, com poucas cenas dentro de cada um deles. Récondo não enrola muito para dizer o que deseja. Contida. O livro já me pega de cara, acho que vou gostar dele!

Pequena biografia:

Combinadas com o pouco que há sobre a autora, no próprio livro e o pouco que consegui garimpar na Wikepédia, temos o seguinte: Léonor de Récondo nasceu na França em 1976. Começou a tocar violino aos cinco anos de idade. Tornou-se uma violinista barroca e foi laureada com o prêmio van Wassenaer (Noruega), em 2004. Também é escritora, conseguindo o prêmio Grand-Prix RTL-Lire (2015), com Amores. Em 2017, lançou Ponto Cardeal e com ele ganhou o Prix du Roman des Étudiants France Culture-Télérama. Simples assim.

O livro:

O parágrafo de abertura não me adianta muita coisa: detém-se em detalhes de uma mulher que manobra o carro num estacionamento de supermercado.
“Mathilda contorna a rotatória e entra no estacionamento do supermercado. Quase ninguém àquela hora. Escolhe uma vaga longe da entrada, desliga o motor, coloca o CD na fenda do painel. Sob a sombra do enorme letreiro, a música surge, o volume no máximo.
Oh Lord who will comfort me ? » (página 11)

Continua a descrição desta mulher se despindo dentro do carro, trocando a roupa. Por que cargas d’água uma mulher decide trocar de roupa dentro de um carro? Bastante suspeito, não, caro leitor? O mais normal seria que ela fosse se trocar no banheiro feminino. Mas a apresentação do personagem segue:
“É a terceira vez que Melody Gardot começa uma canção. Mathilda faz uma pausa em sua operação e canta com ela, tamborilando no volante. Se tivesse coragem, desceria do carro e dançaria ali mesmo. Abriria bem as portas, ignorando os curiosos, dançaria com movimentos ondulantes e batendo palmas, se deixaria ser vista. Mas ela não ousa.” (página 12)

Sedutora, ousada na intenção, sensual: "agora, ela já tirou toda a roupa; a calcinha e a meia-calça se enrodilham nos tornozelos”. Sem aviso, a escritora muda a cena e ficamos no ar, procurando fios de coerência para ligar o que já sabemos com o que se segue; nossos olhos retornam, na tentativa de recuperar algo que não tenha ficado bem lido, se perdido entre as frases. Mas está ok, é isto mesmo, é um salto – arrume-se como puder. E recomeça:
“Laurent está completamente nu. Ele apanha a mochila no banco de trás e a coloca no do carona, vasculha lá dentro, tira um calção, uma calça de abrigo, uma camiseta e um tênis. Tem pressa. O carro está repleto de peças de roupas, de lencinhos usados. Um caos que reflete a desordem interior. Irritado por ter tirado seus trajes de luz, Laurent volta à sombra, se veste, se crispa, arruma tudo o que tem de ser arrumado dentro da maleta que voltará para o seu refúgio no porta-malas, sob o tapete. Vai lhe restar apenas a mentira.” (página12)

Será possível que é isso mesmo que eu entendi da leitura? – suspeitamos, sem ainda construir uma certeza. Mas o parágrafo seguinte me traz outro elemento em comum. Vejamos:
“Poucos minutos depois ele está pronto. Da desordem já não se vê mais nada. Ao dar partida no carro, ele corta a voz de Melody Gardot. O rádio despeja agora as últimas do noticiário. Ele precisa se concentrar, a casa não fica longe. Tem pouco tempo para se acalmar, para esquecer os momentos de alegria, Cynthia e as amigas do ZanziBar, a música e a seda.” (página 13)

Pronto. Agora não há mais dúvida: Mathilda e Laurent são a mesma pessoa. O traço em comum que une as duas cenas, estabelecendo-lhes a coerência é a música de Melody Gardot. Até aqui, vinha a hipótese, a suspeita; agora, não mais. A certeza. E mais, como mulher, ela abandona suas roupas, seus trajes de luz. Se eram trajes de luz, por oposição, os trajes de homem não o são, o que é confirmado pela expressão Laurent volta à sombra. Então, Laurent-Mathilda só se sente iluminado quando se veste de mulher.

Laurent é casado com Simone, é uma relação duradoura, feliz. Tem um casal de filhos, Claire e Thomas. Mantém uma vida dupla, sempre tomando cuidado para não deixar transparecer sua identidade feminina. No trabalho, é a mesma coisa. Laurent é um profissional competente, faz falta na empresa em que trabalha.
Na vida mais reservada do casal, entretanto, alguns indícios de Mathilda aparecem em Laurent:
“Quando Solange o vira sair do banheiro com as pernas raspadas, olhara para ele meio espantada. Ele tinha dado a desculpa do vento, que oferecia mais resistência com os pelos – sim, mesmo dentro da academia, ele acrescentara, e, sabe, também o suor escorre mais facilmente. Todos os ciclistas fazem isso. Ela zombara discretamente do seu argumento, mas ele não dera atenção.” (página 16)

A única pessoa com quem Laurent pode dizer do seu conflito, da sua busca de identidade de gênero é Cynthia:
“Cynthia, conheço teus diferentes olhares, os que me afagam, que me adivinham, os que às vezes me julgam, os olhares abatidos por me ver tão covarde. Quanto tempo é preciso para a gente ser a gente mesmo? E eu gostaria de perguntar isso a todos os que não precisam trocar de sexo. Quantos anos, décadas, para estar em conformidade? Conformidade de corpo, conformidade de sonhos, conformidade de pensamentos, com aquilo que somos profundamente, esta matéria bruta da qual sobram uns poucos restos antes que ela seja forjada, alisada, remendada pela sociedade, pelos outros e seus olhares, nossas ilusões e nossas feridas.” (página 75)

E a bomba se anuncia, num pacato jantar em família:
“Mas Laurent atalha:
— Não, não vamos mudar de assunto. Falemos, a gente tem que falar! Não é você a primeira a dizer que é preciso verbalizar? Pois bem, já é hora...
O pânico desfigura o rosto de Solange. Laurent limpa a garganta.
— Meus filhos, eu sou uma mulher.” (página 79)

A partir daqui, caro leitor, nada mais devo acrescentar do enredo. Spoilers não são bem vindos, embora pessoalmente, não me importe com eles. Saber como tudo termina, o que vai acontecer, não me tira o prazer de ler ou de ver um filme. Tanto assim, que releio muito, revejo filmes. Mas há os que não gostem.

Uma das consequências que o contato com intensa e variada leitura pode nos trazer é a empatia. Não sei bem por que mistério, exercemos nossa capacidade de compaixão mais facilmente com personagens de uma boa história. Artimanhas do autor, que deseja mesma ganhar nossa simpatia para aquele ser que ele cria, ou, talvez, ao investirmos nossos sentimentos em seres feitos de discurso, os transformamos em substitutos de seres humanos – muito mais complexos de se lidar e com maior potencial de nos decepcionar.

Mas, eu já estava pensando cá com meus botões, quando viria parar nas minhas mãos outra história na mesma linha daquela A Garota Dinamarquesa, de que tanto gostei...

Creio que não é uma questão de nos identificarmos com um homem que não consiga conviver com seu feminino. Até nas plantas, entre os animais, há discrepância entre  gênero e sexo. Penso que, ganharemos maior profundidade se vislumbrarmos, numa história como esta, a luta de uma pessoa (homem ou mulher) para assumir a totalidade de sua expressão como ser e ter a chance de ser feliz.

Uma psique masculina funciona bem num corpo masculino; uma psique feminina encontra sua forma de expressão num corpo feminino. E, por feminino ou masculino, aqui, não me restrinjo meramente ao conceito de genitália – esta polaridade vai muito além do físico.

Um livro muito interessante de se ler. Ponto Cardeal foi uma grata surpresa e, provavelmente, em algum lugar do futuro já está reservado um espaço para releitura dele.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Resenha nº 162 - Os Vestígios do Dia, de Kazuo Ishiguro


Os vestígios do dia: Seguido de "Depois do anoitecer" por [Kazuo Ishiguro, José Rubens Siqueira]Título Original: The Remains Of The Day
Título em português: Os Vestígios do Dia
Autor: Kazuo Ishiguro
Tradutor: José Rubens Siqueira
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2ª, 2ª reimpressão
Copyright: 1989
ISBN: 978-85-359-2641-5
Origem: Literatura inglesa
Gênero: Romance

Criatura fantástica, este Mr. Stevens, o mordomo-protagonista, deste Os Vestígios do Dia! Livro muito bem escrito, o que me chamou a atenção nesta leitura fluente foi mesmo este mordomo. Pode-se pensar em uma caricatura, uma vez que ele confirma o estereótipo do mordomo inglês: fleumático, perfeccionista, discretíssimo e fiel ao seu amo como um bom cão de guarda. Confesso, esta foi minha primeira impressão ao iniciar a leitura. Depois, à medida que as folhas se sucediam, a impressão foi mudando; Kazuo Ishiguro consegue dar ao narrador-personagem uma dimensão humana construída de detalhes. Sendo narrado em primeira pessoa (mais que apropriado) temos acesso aos seus pensamentos e dramas íntimos. Absolutamente apaixonante!

Kazuo Ishiguro é um escritor nipo-britânico, nascido em Nagasaki, Japão, em 08/11/1954. Mudou-se para a Inglaterra aos cinco anos de idade, juntamente com a família, para a cidade de Guildford. Este escritor tem duas curiosidades: a primeira, ele sempre sonhou em ser músico, e não literato; a segunda, ele é o primeiro escritor com formação em escrita criativa a ganhar um Nobel, em 2017. Sua obra foi traduzida para 28 idiomas. São trabalhos seus: Quando Éramos Órfãos (2000), O Gigante Enterrado (2015), Noturnos (2009 – contos).

“Parece cada vez mais provável que eu realmente faça a expedição que vem me preocupando já há alguns dias. Uma expedição, devo dizer, que empreenderei sozinho, no conforto do Ford de Mr. Farraday, expedição que, é de se prever, me fará passar pelo que há de melhor na paisagem campestre da Inglaterra, até a região Oeste, e que pode manter-me afastado de Darlington Hall até por cinco ou seis dias. A ideia dessa viagem surgiu, devo confessar, de uma gentil sugestão que me foi feita pelo próprio Mr. Farraday uma tarde, faz quase quinze dias, enquanto eu estava tirando a poeira dos retratos da biblioteca. Na verdade, lembro bem, estava em cima da escadinha, espanando o retrato do visconde Wetherby, quando meu patrão entrou, trazendo alguns volumes que, provavelmente, pretendia devolver às estantes.” (página 11)
Assim se expressa Mr. Stevens, o mordomo e narrador desta história. De cara, já podemos identificar o zelo com que ele trabalha; a linguagem dele é elegante, sem ser empolada, como deveria caber a um profissional que sonha atingir a referência de sua profissão. Mordomo perfeito, servidor perfeito de seu patrão. Mr. Stevens espelha-se no seu pai – este, um profissional respeitado por todos os da sua classe.

Distantes desta cultura aristocrática, talvez nós, brasileiros, tenhamos um tanto de dificuldade de entender, como pode um profissional de qualquer espécie, ter uma dedicação ao trabalho e ao patrão a este custo. Um trecho que nos dá bem a dimensão desta pretensão:
“Você sabe, Stevens, que não tenho a expectativa de que fique trancado aqui nesta casa o tempo todo que vou estar fora. Por que não pega o carro e vai passar uns dias em algum lugar? Parece estar precisando de uma boa folga.
Vindo assim, do nada, com veio, eu não soube responder à sugestão. Lembro-me de ter agradecido a consideração, mas, provavelmente, não disse nada muito definido, porque meu patrão continuou:
Estou falando sério, Stevens. Acho mesmo que devia tirar uma folga. Eu banco a conta da gasolina. Vocês vivem trancados nessas casas enormes, trabalhando para os outros: quando é que conseguem ver um pouco desse lindo campo que possuem?” (página 12)
É que ser um mordomo, na Inglaterra aristocrática, era uma carreira para a vida inteira. E, se o indivíduo conseguisse se aperfeiçoar com os anos, este profissional tornava-se indispensável, um símbolo de bom gosto, poder econômico e nobreza.

Mas Mr. Farraday não é da nobreza, não é sequer um inglês; é um americano rico, que anseia viver como um aristocrata. Adquirira Darlington Hall – que já pertencera a Mr. Darlington, para quem Stevens já trabalhara – mantendo nela todas as características de uma mansão e dotando sua vida de referências nobres: criados, mordomo, jardins, prataria, obras de arte.

Em ritmo de um diário, Mr. Stevens viaja, enquanto Mr. Farraday está fora. E, nesta viagem, ele relembra aspectos de sua vida; há referências ao tempo em que servira o cavalheiro Mr. Darlington. Relembra seu trabalho em comum com Miss. Kenton. E é uma carta de Miss Kenton o motivo da viagem deste incrível mordomo. O tempo de Mr. Darlington já é passado; Mr. Stevens está tendo alguns problemas com a criadagem sob suas ordens. Nada de grave, mas a presença dessas falhas incomoda sobremaneira este profissional e ele acha que, se Miss Kenton aceitasse de volta seu cargo em Darlington Hall, do qual se demitira há tempos, para se casar, tais tropeços seriam resolvidos.

Durante a viagem de carro, durante as breves estadas em cidadezinhas tipicamente inglesas, no caminho, Mr. Stevens não só trabalha suas recordações, como também nos revela muitas coisas da aristocracia inglesa – decadente, forçoso se diga – naquele período entreguerras da política europeia.

Na orelha do livro, José Geraldo Couto faz a seguinte observação, que reputo importante:
“O pessoal e o histórico, o público e o privado, a paixão e o dever são os polos que Kazuo Ishiguro entrelaça admiravelmente neste relato em que tudo é dito de modo elusivo e oblíquo, como que à revelia do protagonista-narrador. Quanto mais se empenha em exaltar o estofo moral de Lord Darlington, por exemplo, mais Stevens nos informa sobre as ligações de seu antigo patrão com o nazifascismo.”
Isto acontece porque, em sua ânsia por ser mordomo perfeito – e mordomo perfeito nunca, jamais, se intromete em assuntos de seu amo – e tendo inabalável confiança na moral de seu patrão, o cavalheiro Darlington – ele não questiona os atos daquele:
“Mas você gosta de Lord Darlington. Gosta profundamente, acabou de me dizer isso. Se gosta dele, não deveria se preocupar? Ficar ao menos curioso? O primeiro-ministro britânico e o embaixador alemão são reunidos de noite por seu patrão para conversas secretas, e você não fica nem curioso?
“Não diria que não fico curioso, senhor. Porém, não estou em posição de demonstrar curiosidade por essas questões.”
“Não está em posição? Ah, suponho que você acredita que isso é lealdade. Acredita? Acha que está sendo leal? A Lord Darlington? Ou à Coroa, enfim?”
“Desculpe, senhor, não entendo o que está propondo.” (página 243)
A tentativa ferrenha de ser neutro, unida à crença na moralidade do Lord a que serve funcionam como peças acusatórias: Stevens sabe muito bem que algo de grave contra os interesses da Inglaterra se trama atrás daquelas portas.

O período entreguerras é cheio de tensão. A Alemanha, derrotada na primeira guerra mundial, saíra falida e humilhada pelo tratado de Versailles. Por ele são impostas condições desumanas aos derrotados. Este é um dos estopins que irão acender o segundo conflito mundial. Neste cenário de delicadas composições, movimentos de bastidores e ódios disfarçados, movimenta-se a história de Os Vestígios do Dia.

Movimentam-se, igualmente, os sentimentos. Pela carta recebida por Mr. Stevens, Miss Kenton – como casada, Mrs. Benn – não é feliz em seu casamento. É por este motivo que o mordomo tem esperança de convencê-la a reassumir seu antigo posto em Darlington Hall.

Um exemplo de como há situações oblíquas, geradora de incômodos entre os personagens pode ser verificado na passagem abaixo:
“Ela estava, então, parada na minha frente, e de súbito o clima sofreu uma mudança peculiar, quase como se nós dois tivéssemos sido repentinamente atirados para um outro plano, inteiramente diferente, do ser. Temo que não seja fácil descrever aqui com clareza o que quero dizer. O que posso afirmar é que tudo à nossa volta ficou muito quieto; tive a impressão de que Miss Kenton também passou por uma súbita mudança; havia uma estranha seriedade na expressão dela, e pareceu-me que estava quase assustada.” (página 186)
Outro trecho da orelha do livro que julgo importante reproduzir aqui – eu não poderia dizer melhor – vai transcrito abaixo:
“Uma das muitas leituras sugeridas pelo livro é a da profissão de mordomo como metáfora da diplomacia. Em ambas, os mais inflamados atritos e paixões são amortecidos pela formalidade, pela compostura, pelos códigos e rituais da vida em sociedade, e só se revelam nas entrelinhas dos gestos e do discurso. O mérito maior de Ishiguro é o de ter traduzido esse mecanismo de escamoteamento em estilo literário.”

Neste Os Vestígios do Dia o leitor terá, portanto, de escolher qual linha interpretativa deverá seguir. Como nos disse o saudoso Umberto Eco, em sua famosa A Obra Aberta, o texto se oferece ao leitor, mas somente a ele estará reservado o trabalho, a escolha da interpretação.

Há um outro trecho que gostaria de citar, meu caro leitor; nele, identifiquei outra mensagem dúbia, oblíqua, que nos deixa aquela sensação de “o que é, verdadeiramente, que está sendo dito aqui?” Por que foram escolhidas tais palavras e tais construções sintáticas que nos deixam na dúvida?:
“Não se pode ficar pensando no que poderia ter sido. Tem-se de entender que esta vida é boa, talvez melhor que a de muita gente, e agradecer.” (página 261)
A forma verbal “tem-se” traduz obrigação; se é assim, a personagem em questão, Mrs. Benn, tenta convencer a si própria que sua vida é boa, que deve agradecer? E a gente fica se perguntando, mas, Mrs. Benn, a senhora é realmente feliz ou tenta apenas se convencer de que é? Concorda comigo, caro leitor?

Os Vestígios do Dia. Por este livro, fiquei fã do autor. Espero ter dado a mesma vontade de pegar o volume e devorar a história. Personagem como este Mr. Stevens vai para a galeria das criaturas ficcionais preferidas, bem ao lado daquele Stoner, do livro do mesmo nome, do escritor John Williams.

domingo, 19 de julho de 2020

Resenha nº 161 - Os Novos Moradores, de Francisco Azevedo


Os novos moradores por [Francisco Azevedo]Título original: Os Novos Moradores
Autor: Francisco Azevedo
Editora: Record
Edição: 3ª
Copyright: 2017
ISBN: 978-85-01-11057-2
Gênero Literário: Romance
Origem: Literatura Brasileira

Francisco Azevedo já era meu conhecido. Dele, já lera Arroz de Palma, resenhado neste blogue. Como no livro anterior, neste Os Novos Moradores Azevedo volta à ambiência que o consagrou – Arroz de Palma se tornou um sucesso de público e de crítica. Aqui também o ambiente é o familiar. Mas, lá como cá, engana-se quem pensa estar diante de dramas miúdos e somente bem-escritos. Desfilam situações incômodas, desafios, anseios por liberdade. Pode-se ir rapidamente do inferno ao paraíso, muita vez sem se passar pelo purgatório. Tempos modernos, questionados estão os conceitos antigos de família. Que escritor é este Francisco Azevedo! Seu estilo poético se detém sobre objetos domiciliares para deles extrair aspectos da intimidade dos personagens. Leitura fluente, apaixonante mesmo. Os Novos Moradores, na minha opinião, não fica nada a dever ao romance de estreia do autor. E olha, isto não é tão comum assim, conseguir duas obras tão boas em tão pouco espaço de tempo...

Francisco José Alonso Vellozo Azevedo nasceu no Rio de Janeiro, em 23/02/1951. É romancista, dramaturgo, roteirista, poeta e ex-diplomata. Começou a dedicar-se à literatura em 1967, quando venceu o concurso promovido pela Organização dos Estados Americanos (OEA).

Em 1978, publica seu primeiro trabalho, um livro de poesias, Contra Os Moinhos de Vento.  1984 nos dá A Casa dos Arcos (nome pelo qual é conhecido o Palácio do Itamaraty), com textos e poemas de sua lavra. 1994 nos traz a peça Casa de Prostituição Anaïs Nin; 1997, veio a comédia dramática Coração na Boca. Arroz de Palma surgiu em 2008 e em 2012, aparece Doce Gabito.

Tenho gosto especial – os que me leem já o perceberam – pelos parágrafos de abertura dos livros e aqui não será diferente:
“Idênticas na simplicidade dos traços. Duas fachadas em perfeita simetria – como se um só corpo a se olhar no espelho. Na aparência, amantes inseparáveis, unidas por invejável equilíbrio. Na intimidade, estranhas siamesas coladas pelo destino ou pelo acaso, quem poderá saber? Hoje, com o distanciamento e a isenção da maturidade, Cosme reconhece que, temperamentos opostos, ambas foram essenciais em suas vidas. A casa de cá – onde viveu até os 23 anos –, fria, desconfiada e tediosa. Enquanto a casa de lá – para onde se mudou depois –, atrevida, imprevisível, dionisíaca. Já era assim na época de Vicenza Dalla Luce, cantora lírica de gloriosa memória. Conhecida por sua raríssima voz e pelos lautos almoços e jantares que promovia – festas animadíssimas que, é claro, infernizavam a vida dos Soares Teixeira, seus vizinhos.” (página 19)
Pronto. Que nos diz este parágrafo inicial? Repare o leitor o modo pelo qual o narrador criado pelo autor nos apresenta as casas geminadas: perfeita simetria, amantes inseparáveis na aparência, estranhas siamesas na intimidade. São adjetivadas como uma, fria, desconfiada, tediosa; a outra, atrevida, imprevisível, dionisíaca. Pontos bastantes para caracterizarmos, de vez, as ditas casas geminadas como personagens deste excelente romance. E mais, há uma sombra, há um não dito pairando sobre os telhados – a casa de cá e dionisíaca – Dionísio é o nome grego para o romano Baco. Deus ligado aos ciclos campestres de colheita e plantio, ao vinho, aos sentidos, aos ciclos vitais de morte e nascimento; liga-se também à fertilidade. Prenúncio: vem aí um drama envolvendo sentidos, amantes, sexo.

O tempo passa, uma das casas geminadas muda de mãos. Mantém, entretanto, cada uma delas, suas respectivas personalidades. Morador da casa de cá, Cosme tem uma relação amorosa com Vicenza, residente na casa de lá. Entretanto, ela se muda, indo embora no verão de 1985 – para a alegria dos pais dele, pois Vicenza era trinta anos mais velha que o amante.

Fica sozinho o apaixonado Cosme; sozinho, na casa vazia, ele relembra seu amor:
“Cosme não pensa duas vezes, tira a roupa, entra no boxe, torneiras abertas ao máximo como era hábito seu. A generosa catadupa bate-lhe nas costas, no peito, no rosto. Olhos fechados, água escorrendo forte, ele relembra trechos da carta que lhe chegou na véspera. Descobre então que aquela última visita não celebra apenas a casa que lhe é tão especial. Celebra mais. Celebra a promessa feita a Vicenza de manter o espírito independente e livre! Ali mesmo, quando se despediram, ela lhe disse que, em dia não muito distante, ele entenderia que ambos haviam cumprido os seus papéis e que era hora de se aventurar em novas histórias, novos amores. Quem sabe algum assim da sua idade, excessivo e visionário como ele?
Cosme já não precisa da toalha, deixa-a lá mesmo caída na banheira – para quem está no paraíso, nudez é traje adequado. No quarto, o cenário pronto: velas e incensos acesos, os poucos itens harmoniosamente dispostos no chão que é todo ele mesa e todo ele cama. Vicenza se faz presente com a “Bachiana número 5”, de Villa-Lobos. O vinho é servido nos cálices, o pão é partido e posto nos pratos. A mão direita brinda com a esquerda aquele momento único. Juntas, como se numa oferenda pagã, levam à boca o sangue de Dionísio. Depois, o pão molhado no vinho é corpo triturado por impiedosos dentes. Corpo mastigado e ingerido sem o menor cuidado, porque o corpo de Dionísio não foi dado por nós nem nos redime os pecados. Porque o corpo de Dionísio é luxúria e êxtase e saudável perdição.”  (página 27)
Uma celebração em dois planos, certamente; num, plano da tradição do cristianismo, a celebração do amor incondicional que se dá por inteiro; noutro, o amor carnal, que se realiza por inteiro.

Mas, para a casa de lá mudam-se novos moradores. Inês, Pedro, Amanda e Estêvão. Saíram do Sul e vêm para o Rio de Janeiro. Um acidente doméstico tira a vida de D. Carlota, mãe de Cosme e Damiana e tal fato faz se aproximarem Amanda, o irmão desta, Estêvão, e Cosme.

Pela visão do narrador – um narrador onisciente seletivo – ficamos sabendo de uma série de não ditos, agasalhados sob os telhados daquelas duas famílias e um deles é o da própria Inês, mãe de Amanda e Estêvão:
“Inês volta ao presente. Com gestos conformados, tira as fronhas dos travesseiros e solta o lençol de forro para dobrá-lo também. O colchão despido é voo à adolescência: Ela e aquele colega de faculdade que mal conhecia se espremiam na mesma cama de solteiro em busca do êxtase. Depois, a paz, o sono, agradecido. Na manhã seguinte, o se dar conta sem culpa, o arrancar os panos sujos de sangue e pronto, só lavar. Água e sabão servem para isso. Só que manchas aqui não estão na cama. Lá, a juventude, o prazer, a poesia na contestação, no afrontar os intolerantes e preconceituosos. Os sonhos de mudar o mundo! Aqui, a dor, a decepção, a desesperança, por quê? Não teriam os filhos recebido dos pais a rebeldia, a audácia, a mesma paixão pelo risco? E a obsessiva busca da verdade, não terão também herdado?” (página 231)
O que acontecera com os dois filhos muda a história, transforma toda a família, que terá de se desfazer  e nesse desfazimento, deixar entrar novas formas de ver e de sentir, para, muito tempo depois, retornarem os elementos, a recompor a família. Os tempos são outros, tem mudado o conceito de família, que abre espaço para grupos compostos por dois pais e filhos, duas mães e filhos, além do cardápio tradicional, pai e mãe e filhos. Mais que isso, não adianto, sob pena de irreparável crime de spoiler.

Este jogo de claro-escuro, ditos e não ditos – com supremacia na história para os não ditos – prossegue. O que a filha Amanda vira, certa vez, não era bem o que vira, como nos conta a própria Dona Inês:
“Inês volta a se sentar ao lado da filha, cria coragem.
— Acontece que aquela aluna que você viu seu pai beijar no carro não teve culpa de nada.
— Não?
— Eu sabia de tudo. Eram fantasias minhas e de seu pai, jogo combinado. No fim das contas, a garota é que foi usada. Prepotente, pensava que havia seduzido o professor de renome, mas foi exatamente o contrário.
O impacto é grande. Olhos cheios d’água. Amanda leva algum tempo para assimilar a informação.
— Ela soube?
— Não. Seria cruel demais. Ela nos ajudou a viver a nossa fantasia, e nós deixamos que ela vivesse a dela. Ninguém saiu machucado.
— Bem criativo. Parece romance de Henry Miller e Anaïs Nin.” (página  287) 
Disse linhas acima que o narrador é onisciente seletivo. Isto porque, sabendo tudo o que se passa na cabeça e no coração dos personagens envolvidos, ele não nos revela tudo; astutamente, a bem do correr da história, ele seleciona e esconde fatos, como se vê nesta passagem: 
“Acontece que sobre Pedro Paranhos não nos é dado falar nada por enquanto, paciência. Há apenas a torcida para que esteja bem, enquanto insiste em se manter afastado assim. Como se fosse possível apagar o passado, esquecer-se de tudo e de todos. Perda de tempo, trabalho inútil. Tanta inteligência, para quê?” (página 314)
Outros fatos acontecem. Estêvão vai embora para Paris, reata o relacionamento com aquela Vicenza, separa-se dela, relaciona-se com uma francesinha, se separa dela. Volta ao Brasil. Enfim, a família modificada pelos acontecimentos se reorganiza, assim como as duas casas:
“Ao passar para as mãos de Cosme, a casa de cá ganhou vida, se reinventou, rejuvenesceu. Quando se olhou refletida em seu novo dono, era outra. Percebeu que o que a mantinha de pé não era o vigamento de ferro, era estrutura óssea. Nela, tudo respirava, tudo transpirava. O cimento virou pele, o tijolo virou carne. As portas tinham bocas e as janelas tinham olhos. Seu coração batia solto por toda parte, porque finalmente estava pronta para se unir à casa de lá. Cosme levou a proposta a Amanda, a Pedro e a Inês. Depois, conversou com Petra. Surpresa: Todos, algum dia, já haviam imaginado juntar as casas! Portanto, Orlando Salvatori Andretti ainda teve essa alegria. Dedicou-se ao projeto com entusiasmo adolescente e devoção anciã. E o fez de graça, tal seu contentamento. Dezenove de maio de 2015: a equipe da OSA Engenharia e Arquitetura Ltda. chegou disposta – euforia berlinense de 1989 –, e o muro que separava os jardins caiu em questão de horas.” (página 404)
A união das casas, desta forma, reflete a união das famílias. De maneira figurada, a aproximação da queda do muro que separava os jardins e a queda do muro de Berlin funciona, neste caso, como símbolo da superação de obstáculos e dificuldades; podem os relacionamentos serem enfim aceitos, aceitando-se as pessoas como são: as casas já se juntaram.

Se eu tivesse de resumir a característica principal deste trabalho em uma expressão apenas, escolheria romance do não dito. Relacionamentos e fantasias sexuais se misturam, a princípio não ditas, atingem um nível de tensão tal que, enfim, transbordam, têm de se revelar.
Excelente livro, este Os Novos Moradores.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Resenha nº 160 - Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski


Noites brancas: Dostoiévski, Fiódor: Amazon.com.br: LivrosTítulo original: Biélye Nótchi
Autor: Fiódor M. Dostoiévski
Tradutor: Nivaldo dos Santos
Editora: 34
Edição: 3ª
Copyright: 2005
ISBN: 978-85-7326-335-0
Gênero: Novela
Origem: Literatura Russa
Pequena bibliografia: Gente Pobre, 1846; O Duplo, 1846; Noites Brancas, 1848; Humilhados e Ofendidos, 1861; Crime e Castigo, 1866; Os Demônios, 1872; Os Irmãos Karamázov, 1881; Coração Fraco, 1848; O Sonho do Tio, 1859; Mujique Márei, 1876; Uma Criatura Gentil, 1876 e O Sonho de Um Homem Ridículo, 1877.

Impressões ao ler:

Resenhar qualquer livro de Dostoiévski é sempre difícil para mim. É-me complicado atingir o distanciamento necessário para uma visão mais crítica da sua produção. Quando se misturam sentimentos de admiração, torna-se um trabalho árduo o afastamento necessário à análise.  Considero-o um dos maiores escritores de toda a literatura mundial, apesar de haver muita controvérsia sobre a qualidade de sua literatura. Este Noites Brancas é uma pequena obra-prima e tem características próprias, se comparado com o restante do monumental trabalho deste escritor russo. Trata-se de uma novela romântica, cujo protagonista nem recebe um nome – é referido como o sonhador – um jovem que se apaixona platonicamente por Násthienka. Já li este volume, acho eu, umas quatro vezes, além de ter ido ver uma adaptação do texto para teatro. Na verdade, O sonhador me pareceu um personagem na eminência de se apaixonar, mesmo antes de encontrar o objeto de seu amor. Eles têm quatro encontros, o suficiente para o rapaz se derreter. O que queria Dostoiévski, ao compor tal história? Aponta-se que ele desejava fazer uma crítica ao romantismo. Não é um romantismo característico, a meu ver, uma vez que o autor dá muita importância ao componente psicológico da construção do protagonista. Está lá a contradição de suas criaturas. Násthienka ganhou uma complexidade maior, ela não é simples de se  entender. Seja como for, este pequeno texto de 87 páginas ainda será lido por mim mais não sei quantas vezes. E olhe que não tenho muita simpatia por literatura romântica...

Pequena biografia:

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski veio ao mundo em Moscou, no dia 11/10/1821. Filho do casal Mikhail Dostoiévski e Maria Dostoevskaia. Sua família não era abastada; o pai era médico militar, mas um médico, naquela época, não ganhava bem. Sua mãe era do lar. Mesmo com os parcos recursos de que dispunham, havia seis serviçais, extravagância que ajudava a compor uma imagem de status. Além de educação religiosa – a família era de cristãos ortodoxos – Dostoiévski e seus irmãos receberam uma educação literária, fruto da influência dos pais. Nosso autor perdeu-os quando ele era ainda muito novo.

Estudando na Academia Militar de São Petersburgo, Dostoiévski teve acesso aos autores Victor Hugo, Honoré de Balzac, George Sand, Eugène Sue. O poeta precursor do romantismo alemão, Friedrich Schiller (autor de Guilherme Tell), também se constituiu em uma forte referência para Fiódor.

Seu primeiro trabalho foi o romance epistolar, intitulado Gente Pobre. Este  tornou-se um sucesso, pois de acordo com a avaliação do crítico literário mais famoso de Moscou, Belinski, tratava-se da primeira tentativa de literatura realista entre os russos. Entretanto, os trabalhos seguintes de nosso autor não mereceram a mesma elogiosa avaliação, inclusive deste crítico.

Dostoiévksi sempre lutou contra dificuldades financeiras. Viciou-se no jogo – experiência que é referida em seu romance O Jogador. Também foi preso, suspeito de conspirar contra o czar Nicolau I, e diante do pelotão de fuzilamento, teve a pena comutada em prisão na penitenciária, na Sibéria. Tal experiência foi importantíssima para a composição de uma das obras de Fiódor, Recordação da Casa dos Mortos.

Para abreviar – esta “pequena biografia” já vai se alongado sobremaneira – Dostoiévski teve problemas de saúde, e produziu muitos dos seus trabalhos sob pressão para cumprimento de prazo. Morreu em 09/02/1881, aos 59 anos.

O Livro:

Noite Brancas encerra a primeira fase de Dostoiévski. Ele vai notabilizar-se pelos grandes romances como Crime e Castigo, Os Demônios, Os Irmãos Karamázov – todos escritos após seu regresso da detenção na Sibéria.

O enredo de Noites Brancas não poderia ser mais simples: um rapaz, o sonhador, encontra, certa noite em Moscou, uma jovem molestada por um estranho; o protagonista, então socorre a jovem. Iniciam ali um relacionamento em que os sentimentos, de um e de outro, vêm à tona. A jovem tinha ido ao encontro de seu amado, que não comparece.

As “noites brancas” do título se referem a um fenômeno comum na Rússia, país localizado muito perto do Polo Norte; elas dão nome à claridade algo leitosa que banha as cidades. Não são tão escuras como a noite normal, nem tampouco claras como o dia. Ali o sol não se põe por completo, mergulhando tudo num clima meio fantasmagórico. É deste dado natural que se apropria Dostoiévski para compor sua narrativa.

Não há propriamente ação nesta obra. Como já disse, todo o enredo é composto do que se dizem os dois personagens, pouco a pouco aprofundando seus sentimentos e suas confissões. Altruísta, o sonhador demonstrará, acima de tudo, um amor incondicional à sua Násthienka; deseja acima de tudo a felicidade dela.

Já se disse, em literatura nem sempre é importante o que se diz, mas, muito mais, o como se diz. De forma bastante condensada, o escritor nos relata os quatro encontros entre os jovens, sempre com a projeção do terceiro elemento, o prometido de Násthienka, sobre a cabeça destes dois.

Lendo a novela, duvidamos várias vezes sobre se este terceiro elemento do triângulo amoroso realmente existe, ou se é um delírio da jovem, uma vez que seus relatos não são muito confiáveis. Ela mora com uma avó possessiva e cega que, a certa altura da narrativa, a amarra a si, para que a jovem não se afaste. Dostoiévski constrói um clima de sentimentos exarcebados, ainda mais acentuados pelas fantasmagóricas, espectrais noites brancas – em muito lembrando as composições literárias das obras de E. T. A. Hoffman (autor de O Quebra-nozes e O Camundongo Rei, de 1816).
“Era uma noite maravilhosa, uma noite tal como só é possível quando somos jovens, caro leitor. O céu estava tão estrelado, um céu tão luminoso, que ao olhá-lo seríamos obrigados a nos perguntar infalivelmente: como pode viver sob um céu assim toda sorte de gente irritadiça e caprichosa? Esse também é um questionamento de quem é jovem, caro leitor, muito jovem, mas que Deus o possa inspirar-lhe muitas vezes!...” (Primeira Noite, página 11)
O ambiente confessional já está presente neste primeiro encontro entre Násthienka (apelido familiar de Anastácia) e o sonhador. Vejam como Dostoiévski utiliza o diálogo para nos fornecer algumas características importantes do personagem:
“ — Sim, se meu braço está tremendo é porque ele nunca foi rodeado por uma mãozinha tão bonita e pequena como a sua. Estou absolutamente desacostumado das mulheres; quer dizer, nunca me acostumei com elas, sou um solitário... nem mesmo sei como conversar com elas. Agora mesmo, será que não lhe disse alguma tolice? Diga-me francamente; adianto-lhe que não sou suscetível...
— Não, nada, nada, pelo contrário. E já que o senhor exige que eu seja franca, então lhe direi que as mulheres gostam de uma timidez assim. E se quer saber mais, eu também gosto e não vou repeli-lo até chegar em casa.” (página 20)
O clima confessional se desdobra na segunda noite – segundo encontro entre os dois – em que, desta vez, toma a palavra a jovem:
“ — A que conclusão cheguei? Cheguei à conclusão de que é preciso começar tudo de novo, pois no final das contas concluí hoje que o senhor é ainda absolutamente desconhecido para mim, que ontem agi como criança, como uma menina, e, sem dúvida, o culpado de tudo foi o meu bom coração; ou seja, eu me exaltei, como sempre acaba acontecendo quando nos deixamos levar pelas emoções. E para reparar o erro, decidi inteirar-me do senhor do modo mais detalhado. Mas, como não tenho a quem indagar a seu respeito, o senhor mesmo terá de me contar tudo, nos mínimos detalhes. Bem, que tipo de homem é o senhor? Vamos, comece, conte a sua história.” (Segunda Noite, página 27)
O livro que tenho em mãos é da Editora 34, bem cuidado, bem diagramado, com aquele papel amarelo, tornando a leitura mais agradável. Há um texto do tradutor, Nivaldo dos Santos, bastante contextualizador, acompanhando o volume. Talvez seja interessante para você, leitor que me lê, a transcrição de um breve trecho, bastante elucidativo:
“Atentemos, por exemplo, para o narrador aí empregado: um sujeito que define a si mesmo como “um tipo”, “uma criatura de gênero neutro”, “um sonhador”. Esse narrador, que emerge das sombras do Romantismo, com seu discurso elevado e pomposo, com sua linguagem declamatória, é caracterizado como um personagem ridículo. Seu mundo é repleto de imagens extraídas de romances; ele vive uma “realidade” imaginária, romanceada, enquanto a realidade exterior à sua imaginação, a do mundo em redor, aparece sempre distante. Refugiado em seu “canto”, o personagem não é capaz de seguir o ritmo da vida prática e das pessoas comuns.” (Posfácio, páginas 85/86)
A escolha desta novela, além de me trazer o prazer da releitura, não foi sem intensão: para quem queira tomar o primeiro contato com a literatura de Fiódor Dostoiévski, ela é bem aconselhável. Obra de concepção mais simples, se comparada às grandes obras de nosso autor, é um aperitivo. Entretanto, fique avisado, meu caro: o que se seguirá vai lhe exigir mais trabalho. Nada, porém, tão difícil que não possa ser vencido, embora acredite que autores deste naipe não são, efetivamente, para andar nas mãos de leitores incipientes.

domingo, 31 de maio de 2020

Resenha nº 159 - O Homem Que Caiu Na Terra, de Walter Tevis


Título original: The Man Who Fell To Earth
Título em português: O Homem Que Caiu Na Terra
Autor: Walter Tevis
Tradutor: Taissa Reis
Edição: n/c
Editora: Darkside
Copyright: 1991
ISBN: 978-85-9454-005-8
Origem: Literatura Americana
Gênero Literário: Romance (Ficção Científica)
Pequena bibliografia do autor: The Hustler, 1959; O Homem Que Caiu Na Terra, 1963; Mockinbird, 1980; Os Passos do Sol, 1983; The Gambit Of The Queen, 1983; A Cor do Dinheiro, 1984. Publicou, ainda, vários contos em revistas norte-americanas.

Impressões ao Ler:

As horas vão se passando e os olhos não deixam o livro: já passa de meia-noite deste sábado de pandemia. Apenas mais algumas páginas... finalmente, fecho o volume exatamente à meia-noite e meia. Leitura desconcertante: ficção científica completamente fora da curva. Não é distopia, não fala de uma guerra entre alienígenas doidos para acabar com a humanidade, não há batalhas megalomaníacas entre naves espaciais. Já começamos a leitura sabendo que o protagonista é um ser de outro mundo – do planeta Anthea. O narrador, em terceira pessoa, cola-se ora no protagonista, ora no coprotagonista Nathan, e é do ponto de vista deles que a história é contada. E, à medida que o enredo progride, vamos sentindo um incômodo. Apesar de passar longe das características de uma distopia, o livro tem uma visão pessimista da humanidade e sua civilização, de seus valores. Ah, me fez lembrar de outro clássico, O Dia Em Que A Terra Parou. Indubitavelmente, este O Homem Que Caiu Na Terra é um clássico do gênero. A edição da Darkside é belíssima, um livro bem acabado, em capa dura e com o corte superior, lateral e inferior em tinta alaranjada. Obra que nos convida à releitura.

Pequena biografia do autor:

Walter Tevis é um autor norte-americano, nascido em San Francisco, Califórnia (28/02/1928) e faleceu em New York (09/08/1984). Aos 10 anos de idade, Walter foi colocado numa casa de convalescença de crianças, em Stanford por um ano, enquanto eles retornavam a Kentucky, onde a família recebera terras em concessão no condado de Madison. O menino, então com onze anos, viajou sozinho em um trem, para encontrar-se com a família. Aos 17 anos, Tevis participou da segunda guerra mundial, que já estava quase no fim, servindo como carpinteiro a bordo do USS Hamilton. Mais tarde, ele atuou como professor de quase tudo, nas escolas secundárias. Graduou-se em escrita criativa (mestrado), lecionando esta matéria na Universidade de Ohio. Casou-se com Jamie Griggs em 1957 e permaneceu casado com ela por duas décadas. Walter Tevis morreu de câncer de pulmão em 1984, na cidade de New York. Seus restos estão enterrados em Richmond, Kentucky.

O livro:

“Após andar por três quilômetros, encontrou uma cidade. Na entrada havia uma placa na qual se lia: ‘Haneyville. População: 1.400’. Estava bom, um tamanho razoável. Ainda era cedo – ele escolhera a manhã para a caminhada de três quilômetros porque estaria mais fresco – e não havia ninguém nas ruas. Andou por vários quarteirões sob a luz fraca, confuso pela estranheza do lugar, tenso e um pouco assustado. Tentou não pensar no que faria. Já havia pensado o bastante sobre aquilo até o momento.
Encontrou o que queria no pequeno centro comercial: uma loja minúscula chamada The Jewel Box. Na esquina próxima a ela havia um banco verde madeira, e ele foi até lá para se sentar, com o corpo doendo pelo esforço da longa caminhada.
Viu um ser humano alguns minutos depois.” (página 15)
Neste parágrafo primeiro já contamos com alguns elementos, algumas pistas de que esta pessoa, um caminhante, tem características suspeitas. Chega a pé, caminhou por três quilômetros, está cansado, sozinho; e a frase “viu um ser humano alguns minutos depois” soa ou deslocado ou indicativo de que ele, o caminhante, não era humano. Como sempre, o autor, ao construir seu suspense, economiza nos indícios, para surpreender seu leitor à frente. Mas as pistas estão no texto com bastante frequência, pois o objetivo é intrigar quem lê a obra, fazendo com que ele se sinta fisgado o bastante para continuar a leitura.

O personagem Nathan Bryce é extremamente importante na história de Walter Tevis. Contracenando com o protagonista, vários aspectos sobre o personagem principal serão dados pela observação de Bryce com relação ao personagem principal.

É muito interessante como o autor, ao descrever o apartamento em que mora Bryce, nos dá elementos sobre o morador:
“No lado da mesa que não estava amontoado de coisas ficava sua máquina de escrever, como outro deus mundano – um deus grosseiro, trivial e exigente demais –, ainda com a décima sétima página de um artigo sobre os efeitos de radiações ionizantes sobre resinas de poliéster, um artigo sem demanda, sem compromisso e que provavelmente nunca seria concluído. O olhar de Bryce encontrou essa confusão sombria: as folhas dos trabalhos espalhadas como uma cidade de castelos de cartas bombardeada, as soluções infindáveis e assustadoramente organizadas dos estudantes para equações de oxirredução e para preparos industriais de ácidos desagradáveis, e o artigo igualmente tedioso sobre resinas de poliéster. Olhou para aquelas coisas por trinta segundos, com as mãos enfiadas nos bolsos de seu casado, em uma tristeza sombria.” (páginas 35/36)
Bryce é engenheiro químico, não consegue arrumar seus objetos, mas é produtivo, embora escreva artigos e faça pesquisas que nunca serão divulgadas. E mais, é solitário, a figura clássica de um cientista, meio desligado do mundo que o cerca e das necessidades rotineiras de manutenção de uma casa ou apartamento.

A cena em que Betty Jo é introduzida na história também nos fornece dados importantes. Newton – é este o nome assumido pelo nosso protagonista extraterrestre – está num elevador antigo, reformado. Com ele, entra também uma mulher:
“Foi então que tudo pareceu acontecer ao mesmo tempo. Viu a mulher encarando-o e sabia que seu nariz devia estar sangrando, sujando a frente de sua camisa e, ao olhar para baixo, teve certeza daquele fato. Ao mesmo tempo, ele ouviu – ou sentiu, em seu corpo estremecido – suas pernas desabarem em frágil estalo, e caiu no chão do elevador, enrolado de forma grotesca, uma das pernas horrivelmente atravessada sob ele enquanto perdia a consciência, sua mente caindo em uma escuridão tão profunda quanto a do vazio que o separava de sua casa.” (página 63)
Esta Betty Jo será sua ligação afetiva com o mundo estranho no qual ele está. Toda a cena do elevador nos diz da constituição delicada daquele ser, certamente inteligente acima da média, mas com uma construção fisiológica tão débil. Seus ossos são finos e não suportaram a aceleração brusca do elevador antigo.

Newton consegue colocar suas ideias avançadas no mercado. Inventa um filme fotográfico que não precisa de revelação em laboratório; esse processo é feito de modo automatizado, dentro de uma lata com gás. É só o consumidor acondicionar o filme dentro dela, apertar um botão e pronto: as fotos aparecem à sua frente. Lança no mercado uma televisão de definição muito superior às usuais (num tempo em que a televisão comercial, no mundo, estava começando suas transmissões, ainda com baixíssima definição de imagem). Newton fica rico, e se prepara para seu grande plano – de que não posso dar mais dicas, pois incorreria em spoiler.

Apesar de não ser caracteristicamente uma distopia, como já dissera nas impressões ao ler, este livro flerta com uma visão pessimista da sociedade humana:
“Acredite, somos muito mais sábios do que imagina. E estamos além de qualquer dúvida razoável de que o seu mundo se transformará em um monte de lixo atômico daqui a não mais de trinta anos, se não interferirmos.” Continuou, com um ar sombrio: “Para falar a verdade, ver o que vocês estão prestes s fazer com um mundo tão bonito e fértil nos desanima muito, destruímos o nosso muito tempo atrás, mas tínhamos muito menos do que vocês têm aqui”. Sua voz agora parecia agitada e seus modos, mais intensos. “Você não percebe que não irão apenas destruir a sua civilização como ela é hoje e matar a maior parte da sua população, mas que também envenenarão os peixes em seus rios, os esquilos em suas árvores, os bandos de pássaros, o solo e a água?” (página 161/162)
Preocupação claramente ecológica e discussão atualíssima – também presente em No Dia Em Que A Terra Parou – outro clássico da sci-fi. Então, temos um alienígena de Anthea, um planeta moribundo, onde os recursos naturais, já escassos, têm uma durabilidade prevista – para sustentar os 300 antheanos existentes, não haverá mais que cinquenta anos à frente.

A Terra tem recursos em abundância, Walter Tevis propõe digressões sobre o nosso destino como moradores desta mãe-terra. Pela boca de Bryce, expõe-se uma solução para os antheanos, eles poderiam vir para a Terra e formarem um povo à parte, são apenas 300 almas, e aí transpassa o livro o subtema da solidariedade.

O Homem Que Caiu Na Terra transformou-se em roteiro cinematográfico, estrelado pelo cantor inglês David Bowie. Não poderiam ter encontrado alguém mais apropriado, embora não tenha visto ainda o filme. Pela descrição de Newton, no livro, Bowie é uma escolha acertada. O cantor inglês construiu para si uma imagem de androginia (flutuação entre características femininas e masculinas). As pessoas, inclusive Betty Jo, têm a impressão de que Newton é homossexual, dada à aparência frágil e jeitos que, se não chegam a ser femininos, também não os caracterizam como masculinos. A luta entre a brutalidade dos humanos e a inteligência dos antheanos.

O título do livro é ambíguo, polissêmico. O Homem Que Caiu Na Terra tem, no sentido mais superficial, a significação de “homem que aportou no planeta Terra”. Entretanto, o outro sentido, numa camada mais profunda, nos dá a ideia de “homem que fracassou no planeta Terra”. Não é um spoiler, visto que está no título e tal observação não exige do leitor a leitura da obra. É o mesmo sentido contido, por exemplo, numa frase muito comum em nosso tempo, como “o presidente caiu” ou, mais atual ainda, “o ministro caiu”.

Livraço, sob todos os aspectos. E é bom que assim seja, porque há muitas pessoas que ainda concebem a ficção científica como subgênero literário. Ledo engano. Hoje, este gênero amadureceu bastante e já conta com autores instigantes a nos darem verdadeiras pérolas. Estou falando de autores como Jules Verne, Isaac Asimov, Arthur C. Clark, Ursula K. Le Guin, Ray Brudbury, Philip K. Dick, George Orwell, Aldous Huxley, Margaret Atwood, para ficar com alguns de maior projeção.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Resenha nº 158 - Sobre Lutas e Lágrimas, de Mário Magalhães


Sobre lutas e lágrimas: Uma biografia de 2018, o ano em que o Brasil flertou com o apocalipse por [Mário Magalhães]Título original: Sobre Lutas e Lágrimas
Autor: Mário Magalhães
Editora: Record
Edição: 1ª
Copyright: 2019
ISBN: 978-85-01-11714-4
Origem: Brasil
Gênero: História
Pequena bibliografia do autor: O Narcotráfico (1999); Viagem ao País do Futebol, em parceria com o fotógrafo Antônio Gaudério (1998); Crescer a Golpes (2013); Ciudades visibles (2016); 11 Gols de Placa (2010).

Impressões ao ler:

O ano de 2018 foi realmente o ano em que o Brasil flertou com o apocalipse, como está escrito na quarta capa deste livro. À medida que eu o lia, iam desfilando diante dos meus olhos e reavivando minha memória fatos e acontecidos. Uma coleção de estranhamentos, embora já vividos. É que, vistos assim, em conjunto e em sequência, soaram ainda mais bizarros aqueles eventos. Escrevendo a quente, Mário Magalhães, mesmo assim, consegue objetividade. Quase ia dizendo “distanciamento”, mas este vocábulo não pode ser aplicado à obra, escrita no torvelinho daquele ano. Quando o compulsei, na livraria, pinçando trechos aqui e ali, vislumbrei que devia lê-lo. Entretanto, outros volumes estavam na fila e só agora cumpri minha vontade.

Breve biografia do autor:

Mário Magalhães nasceu no Rio de Janeiro, em abril de 1964. Formou-se em jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ e trabalhou nos jornais Tribuna de Imprensa, O Globo, Estado de São Paulo Folha de São Paulo. Neste último, exerceu os cargos de repórter especial, colunista e ombudsman. Profissional premiadíssimo – recebeu em torno de vinte prêmios e menções honrosas no Brasil e no exterior – é também autor da obra Marighela, O Guerillheiro Que Incendiou O Mundo. Mário trabalha também no site de notícias The Intercept.

O livro:

Já no início, o autor nos avisa que este
“É um livro indignado em um tempo que exige indignação. Os editores dos dicionários britânicos Oxford apontaram “tóxico” a palavra do ano. Seu sentido aplica-se do comportamento ao poder. Como se verá, ou recordará, o Brasil de 2018 foi insaciável produtor de toxicidade.” (Prólogo, página 16)
O livro traz os capítulos por datas, como se fosse uma espécie de diário – recurso bastante condizente com o espírito dos textos. Começa falando da matança desarrazoada de macacos por causa do surto de febre amarela. Tal fato ocorrera nos anos anteriores e a população executa os bichos, na completa ignorância da diferença entre o que sejam portadores-vítimas e reais transmissores. Os macacos contraem os vírus, mas não os passam aos humanos. Funcionam como infelizes sentinelas da presença silenciosa da doença.

2018 é ano eleitoral. O país vai às urnas, escolher seu presidente da república. E a lava-jato mantém sua presença, capitaneada por Sérgio Fernando Moro. Diz-nos o autor:
“A prioridade desses eleitores é vencer Lula, com seu impedimento, alguém alinhado com o sucessor de Fernando Henrique Cardoso. Moro seria uma opção competitiva para os brasileiros que apoiaram – e ainda apoiam – postulantes do PSDB, agremiação que conquistou duas vezes o Planalto, nos pleitos de 1994 e 1998 (com FHC) e amargou o vice em 2002 (José Serra), 2006 (Alckmin), 2010 (Serra) e 2014 (Aécio Neves). No Datafolha recém-saído do forno, Lula atropela Alckmin com 19 pontos de distância, 49% a 30% a favor do antecessor de Dilma Rousseff. Nem os aduladores cogitam Aécio e Serra presidenciáveis.” (página 40)
Um dos pontos de maior tensão do livro, é indubitavelmente, a morte de Marielle, no Rio de Janeiro. Executaram-na e o motorista com vários tiros. Vejamos como Mário se refere ao caso:
“Quem matou Marielle para calá-la teve de ouvir muita gente gritando em nome dela. O coro compartilhou suas ideias, celebrou seus ideais, reviveu seus combates. Vozes que hibernavam em mudez, na cidade e no país de infindos 7 a 1, esgoelaram-se contra a covardia. Uma réstia de esperança iluminou o fim da noite.” (página 70)
Seguem o tempo e os eventos. Sob o comando de Temer, vice de Dilma que sofrera o impeachment, explode uma greve de caminhoneiros e o governo se complica:
“O céu nublou. Deputados, senadores e ministros do STF percebem a possibilidade de Temer não completar o mandato. Um senador da base governista sugeriu depor o vice de Dilma. José da Fonseca Lopes, presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros, disse que há ‘um grupo muito forte intervencionista’ que ‘quer derrubar o governo’. Não seriam, afirmou, caminhoneiros. Há ‘infiltrados’, denunciou o Planalto.” (página 136)
Neymar comparece nas páginas deste livro, sob o título ambíguo de “Na copa, Neymar caiu”:
“Com tamanhas aspirações, todas legítimas, Neymar não foi nem o destaque do time do técnico Tite na fase inicial. Nos dois primeiros jogos, Philippe Coutinho se sobressaiu. No terceiro, Paulinho. O camisa dez foi a vítima de mais da metade das 19 faltas cometidas pelos suíços, amarelados três vezes ao atingi-lo. facilitou a vigilância helvética ao segurar demais a bola. Às vezes, na intermediária, de costas para o goleiro Sommer. Desacelerou os ataques. Pareceu imaginar que se desenrolava o confronto Neymar, e não Brasil, versus Suíça. Houve lances em que, ao ser abalroado, exagerou na coreografia das quedas, e aí semeou sua desgraça. Chamou a atenção também pela alegoria capilar, e o compararam a uma calopsita e ao Canarinho Pistola. Mancava ao sair do gramado.” (página 156)
Uma das coisas mais esdrúxulas dos debates entre candidatos, transmitido pela televisão, foi a atuação do cabo Daciolo, de acordo com Magalhães:
“Daciolo provou Ciro Gomes sobre a conspiração pela ‘Ursal’, a temível União das Repúblicas Socialistas da América Latina. O candidato do PDT ignorava, como as torcidas inteiras do Guarany de Sobral e do Flamengo, do que se tratava. Na Ursal dos desvarios daciolistas, bolcheviques tropicais apagariam as fronteiras dos países, no espírito internacionalista da canção “Imagine”. A Ursal é uma brincadeira  criada 17 anos atrás por uma professora conservadora. Somente lunáticos acreditaram na sigla, e charlatães filosofaram a sério sobre o que era traquinagem.” (página 182)
Um dos personagens mais importantes daquele ano de 2018 foi o ex-presidente Lula. Preso em Curitiba, para onde fora conduzido em “condução coercitiva” (e com isto, aprendi mais uma expressão jurídica). Alijado do processo eleitoral, Magalhães descreve:
“Os partidários de Lula, reconhecendo que a candidatura será proibida, cultivam a esperança de que 2018 reproduza 1945 e Haddad herde os votos. Os antagonistas dos petistas temem a reencarnação, como Lula-Haddad, da tabelinha Getúlio-Dutra. Em sua cela em Curitiba, o ex-presidente conhece bem esses fatos, sobre os quais leu no terceiro volume da biografia Getúlio, de Lira Neto. Lula terá mais tempo do que Getúlio Vargas, em 1945, para dar o seu recado. Nada garante que a história se repetirá.” (página 195)
2018 também é o ano em que, além das agendas políticas e de uma morte que deu o que falar, aconteceu o incêndio do Museu Nacional, vinculado à UFRJ. Sucateado, sem verbas para ser cuidado, era previsível que tal acontecesse:
“Debulharam lágrimas de hipocrisia sobre as cinzas. ‘É um dia triste para todos brasileiros’, disse Michel Temer. Por que destinariam em oito meses menos de R$ 100 mil à instituição cujo ‘valor para nossa história não se pode mensurar’? Gerido no âmbito do Ministério da Educação, o museu zelava por herança cultural valiosíssima. O presidente rebaixou o Ministério da Cultura a secretaria, antes de recuar. Supondo que poupava o chefe, o ministro Carlos Marun o interpretou: ‘Está aparecendo muita viúva apaixonada, mas na verdade essas viúvas não amavam tanto assim o museu.” (página 200)
No capítulo referente à facada perpetrada contra Bolsonaro, em plena campanha eleitoral, Mário Magalhães conta uma fábula:
“Um escorpião pede para atravessar um lago nas costas de um sapo. O sapo se recusa a dar carona por recear uma picada assassina. O escorpião alega não saber nadar; argumenta que não envenenaria o anfíbio, porque afundaria junto com ele. O sapo coaxa: ‘Então, tá’ no meio da travessia, o escorpião o atraiçoa. Agonizando, o sapo pergunta o motivo do gesto suicida. O escorpião esclarece, antes de se afogar: ‘Porque é da minha natureza.” (página 203)
Termina o capítulo, fazendo a ligação entre a fábula contada e a facada sofrida pelo então candidato:
“Na sexta-feira, deitado em seu leito, o candidato gravou um depoimento. Agradeceu a Deus, médicos e enfermeiros. Abatido, relembrou a investida: “Parecia apenas uma pancada na boca do estômago [...] A dor era insuportável, e parecia que tinha algo mais grave acontecendo.’ Lamentou se ausentar do desfile militar do 7 de Setembro. E falou: ‘Nunca fiz mal a ninguém.’ Na manhã de sábado o transferiram para São Paulo, onde Bolsonaro posou para a foto cuja legenda bem poderia ser “Porque é da minha natureza.” (páginas 207/208)
Indiscutivelmente, este Sobre Lutas e Lágrimas é um livro bem escrito. De certa forma, me faz lembrar de outro, 1964 – O Ano Que Não Terminou, de Zuenir Ventura. Mário Magalhães tem autoridade para falar dos fatos – respeitabilidade conquistada por anos de jornalismo bem conduzido.

Vivemos uma época de ódios polarizados, o que não invalida ou apaga fatos e atitudes. A democracia é sempre um sistema em que correlação de forças apresentam seus argumentos e influências; como num jogo, ao final, vencem aqueles que conseguirem costurar melhor seus acordos ou conseguiram melhor trânsito de influências.

A meu ver, criou-se uma falácia ao se alegar que “o povo não sabe votar”. Se não sabe, quem saberá? Os americanos, que elegeram (ainda que num sistema indireto) o presidente Trump? Vota-se em quem se acredita representar valores. Talvez e – aí sim, admito – devamos aprender a votar pensando em interesses coletivos, em detrimento de interesses locais ou individuais.

Mas isto é, a meu ver, uma longa e difícil evolução. Penso que, enquanto eu viver, pelo menos...