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domingo, 23 de junho de 2019

Resenha nº 150 - La Petite Fille de Monsieur Linh


Imagem relacionadaTítulo em português: A Filha do Senhor Linh
Autor: Philippe Claudel
Edição: 1ª Edição
Editora: Éditions Stock
Copyright: 2005
ISBN: 978-2-253-11554-0
Formato: Livro de Bolso
Origem: Literatura Francesa
Bibliografia: Quelques-uns des cent regrets, 1999 ; Le Café de L’Excelsior, 1999 ; Le Bruit de Trousseaux, 2002 ; Les Âmes Grises, 2003 ; La Petite Fille de Monsieur Linh, 2005 ; Le Rapport de Brodeck, 2007 ; L’Enquête, 2010 ; Parafums, 2012 ; L’Arbre de Pays Toraja, 2016 ; Inhumaines, 2017 ; L’arachipel de Chien, 2018.

É um volume pequeno, formato pocket book. Indicado como leitura complementar do curso de francês que faço, o livrinho me conquistou logo de cara. Philippe Claudel, o autor, é também cineasta e dramaturgo, como me informa uma das páginas do livro. A experiência dele como cineasta foi, a meu ver, importante para construir o foco narrativo. A obra me conquistou pelo tom comedidamente melancólico e pela delicadeza com a qual Philippe trata a problemática de uma pessoa que deixa sua terra, seus valores, sua cultura e tem de adotar as de outro país. Um autor tem de fazer suas escolhas ao contar uma história, ao escolher os símbolos que deseja usar e Claudel acertou nos usos dos símbolos – nem tão difíceis assim para o leitor decifrar. Simplesmente, me apaixonei pela obra. Ah, e é claro, como está escrita em francês, idioma que ainda não domino cem por cento, tive alguma dificuldade. Mas, aí, a sensibilidade de leitor contumaz me auxiliou: o que a mente não conseguiu decodificar, o coração o fez.

“C’est un vieil homme debout à l’arrière d’un bateau. Il serre dans ses bras une valise légère et un nouveau-né, plus légère encore que la valise. Le vieil homme se nomme Monsieur Linh. Il est seul à savoir qu’ils s’appelle ainsi car tous ceux qui le savaient sont morts autour de lui.
Debout à la poupe du bateau, il voit s’élogner son pays, celui de ses ancêtres et de ses morts, tandis que dans ses bras l’enfant dort. Le pays s’éloigne, devient infiniment petit, et Monsieur Linh le ragarde disparaître à l’horizon, pendant des heures, malgré le vent qui souffle et le chahute comme une marionnette. » (página 9)

Em uma tradução livre:

“Um homem velho de pé na parte traseira de um barco. Ele aperta contra si uma valise leve e uma recém-nascida, mais leve que a valise. O homem velho se chama Senhor Linh. Somente ele sabe que se chama assim, porque todos os que o sabiam estão mortos ao redor dele.
“De pé na popa do barco, ele vê seu país se distanciar, o mesmo de seus ancestrais e dos seus familiares mortos, enquanto em seus braços a criança dorme. O país se distancia, torna-se infinitamente pequeno, e o Senhor Linh o vê desaparecer no horizonte, durante horas, apesar do vento que sopra e o importuna como uma marionete.”
Disse, nos comentários em itálico, que a experiência do autor como cineasta foi importante para a forma pela qual ele constrói a história. Ao ler estes dois parágrafos iniciais, o narrador se posiciona como uma câmara postada na popa do barco, enfocando o país do Sr. Linh se perdendo na distância. E este narrador “cola sua visão”, suas lentes, ao personagem principal. O tom, como percebemos, é melancólico; afinal, trata-se da provável última visão da terra natal.

Este Sr. Linh vai para um país cujo nome não é dito, mas que o contexto nos indica ter sido a França. Com ele vai um bebê, de nome Sang Diû (Manhã Doce, em francês) e uma valise onde se encontram um punhado da terra natal, dentro de um saquinho, uma foto já quase descolorida pelo sol, roupas de uso imediato. Ele guarda a valise consigo como se ela contivesse tesouros.

Este velho senhor deixa para trás não só o seu país devastado pela guerra, mas também seus familiares mortos, sua vida, sua cultura. Ele terá de se aclimatar a uma nova cultura, um novo modo de vida, e a primeira “estranheza” que ele tem é que não consegue identificar os odores do novo país. Não há nenhum cheiro familiar.
A criança que segue em seu colo, sempre colocada contra seu peito, não reclama de nada, sendo sempre doce, como o significado do seu nome em francês.

Quando pisa o solo do seu destino, o Sr. Linh – ficamos sabendo, mais tarde, que seu prenome é Tao Laï – é designado para ficar em dormitório coletivo, numa espécie de pensão. É a partir deste local que as primeiras experiências, os primeiros contatos mais significativos deste velho homem vão se dar.

“Des jours passent. Monsieur Linh ne quitte pas le dortoir. Il consacre son temps à s’occuper de l’enfant, avec des gestes tout à la fois attentionés et malhabiles. La petite ne se révolte pas. Elle ne pleure jamais, ne crie pas davantage. C’est comme si, à sa façon, en réprimant ses pleurs et ses désirs impérieux de nourrisson, elle voulait aider son grand-père. C’est ce que pense le vieil homme. Les enfants le regardent et souvent se moquent de lui, mais sans oser le faire à haute voix. » (página 17)
Tradução:
« Os dias passam. O Sr. Linh não sai do dormitório. Ele consagra seu tempo a se ocupar da criança, com gestos ao mesmo tempo de atenção e desajeitados. A pequena não se revolta. Ela não chora jamais, não reclama dos percalços. Como se, a seu modo, reprimindo seu choro e seus desejos imperiosos de alimento, ela quisesse ajudar seu avô. É o que pensa o velho homem. As outras crianças o olham e em seguida zombam dele, mas sem ousar fazê-lo em voz alta.”
O nosso Tao Laï conhece enfim, fora dos domínios do dormitório onde passou a residir, um francês (tudo indica que é francês), um veterano de guerra, de nome Monsieur Bark. E respiramos aliviados, pensando que agora sim, o protagonista terá com quem dividir a solidão. O Sr. Bark é muito solícito, mas a amizade entre ele e o exilado tem um pequeno problema: eles não se entendem por meio da fala. Cada qual fala somente sua língua natal e, desta forma, a solidão continua:
“La vieil homme ne comprend rien à ce que dit celui qui vient de s’asseoir. Pour autant, il sent que les paroles ne sont pas hostiles.
« Vous venez souvent ici ? » reprend l’homme. Mais il ne semble pas attendre de réponse. Il aspire la fumée de sa cigarette, comme s’il en goûtait chaque bouffée. Il continue a parler, sans vraiment regarder Monsieur Linh.
« Mois, je viens presque tous les jours. Ce n’est pas que c’est très joli, mais l’endroit me plaît, il me rappelle de souvenirs. » (página 26)
Tradução:
« O velho homem não compreende nada daquilo que lhe diz aquele que acaba de se assentar. No entanto, ele sente que as palavras não são hostis.
“Você vem sempre aqui?” pergunta o homem. Mas ele não parece esperar a resposta. Ele aspira a fumaça do seu cigarro, como se ele degustasse cada baforada. Continua a falar, sem verdadeiramente olhar para o Sr. Linh.
“Eu venho quase todos os dias. Não é que seja um lugar muito bonito, mas eu gosto do lugar, ele me aviva as lembranças.”
Como se vê, temos o encontro bizarro de dois solitários, presos cada qual às suas memórias, sem conseguirem entender o que o outro fala. Tal recurso interposto pelo autor tem o efeito de fazê-los se entenderem da maneira mais profunda possível: com a alma. Já que não é possível integrarem-se pelas palavras, há de sê-lo pelo sentimento, pelo coração, pela intuição. E entre Sr. Bark e este Sr. Linh se estabelece rápida e essencial amizade. A ponto de o Sr. Linh destinar o maço diário dos cigarros a que tem direito no lugar que o acolhe ao amigo recente.

Entretanto, aquele dormitório era provisório, uma espécie de casa de transição e nosso personagem terá de se mudar para seu destino definitivo – uma espécie de casa para aposentados, um asilo para velhos ou algo do gênero. O Sr. Linh perde, momentaneamente, o contato com seu amigo Bark, ao mesmo tempo que, exilado pela segunda vez, sente falta das pessoas que conviveram com ele:
“Monsieur Linh repense au dortoir, aux femmes moqueuses, à leurs maris joueurs, aux enfants bruyants. Il se surprend à les regretter, à regretter ces familles qui parlaient sa langue, même si elles ne s’adressaient pour ainsi dire jamais à lui. Mais au moins, il vivait encore dans la musique des mots de son pays, dans leur belle mélopée aiguë et nasillarde. » (página 129)
Tradução:
« O Sr. Linh pensa no dormitório, nas mulheres zombeteiras, em seus maridos jogadores, nas crianças barulhentas. Ele se surpreende de as lamentar, de lamentar estas famílias que falavam sua língua, mesmo se elas não se dirigissem jamais a ele. Mas, ao menos, ele vivia ainda dentro da música das palavras de seu país, na bela melodia, aguda e nasal.”
La petite fille de Mr. Linh é um ótimo livro e não digo isto com o foco apenas pedagógico, voltado para um curso de francês. É literatura de primeira. A maneira como o autor Phillipe Claudel trabalha as imagens, as sensibilidades dos personagens. A forma como ele constitui um mistério que vai deixando pistas ao longo do texto, mas que se revela por inteiro somente ao final do livro é de extrema competência. Percebe-se que houve um projeto narrativo, não há pontas soltas.

Não sou um pessimista, mas o tom – como disse na introdução em itálico – contidamente melancólico é adequado a um homem que, tendo perdido toda sua família em uma guerra sem sentido (todas as guerras são sem sentido), é obrigado a imigrar para um país estranho. E este parece ser um subtema importante no livro: tanto Mr. Bark quanto Mr. Linh são seres sofridos, tocados pela inconsistência dos conflitos dos quais participaram. Recomendo solenemente a leitura deste pequeno volume a quem leia em francês.

Aliás, um efeito secundário do curso de francês que estou fazendo, abro-me para a rica literatura francesa. Nomes como Guy de Maupassant, Baudelaire, Victor Hugo, Simone de Beauvoir, Sartre, Alexandre Dumas (pai e filho), Balzac, Flaubert, Proust, Le Clézio vão fazendo parte das minhas referências literárias.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Resenha Nº 149 - O Olho Mais Azul, de Toni Morrison


Resultado de imagem para livro o olho mais azulTítulo original: The Bluest Eye
Autora: Toni Morrison
Tradutor: Manoel Paulo Ferreira
Edição: s/n
Editora: TAG/Cia das Letras
Copyright: 1970
ISBN: 978-85-359-3196-9
Gênero Literário: Romance
Origem: Literatura Americana
Bibliografia: O Olho Mais Azul, 1970; Sula, 1974; Song of Solomon, 1977; Tar Baby, 1981; Amada, 1987; Jazz, 1992; Amor, 2003; A Mercy, 2008; God Help The Child, 2015. Prêmio Nobel de Literatura de 2013.

O friozinho soprava por baixo das portas fechadas e pelas gretas mínimas das janelas. O sítio estava num recanto isolado e não havia internet para me incomodar. Apenas o som da televisão de tubo chegava de longe aos meus ouvidos, mas televisão, sinto muito dizer, não me apetece tanto. Aí dei razão para a letra do Djavan: um dia frio, um bom dia para ler um livro. A coisa que menos eu queria era sair de dentro das cobertas. Conheci Toni Morrison há algum tempo, quando pesquisava na rede mundial algumas informações sobre outro livro, nada a ver com Toni e dei com o nome dela. Toni Morrison. Escritora negra norte-americana. Este O Olho Mais Azul foi o primeiro romance dela. Certamente, não é o livro da minha vida, acredito que Amada seja melhor, mas este é um bom livro. Leitura agradável, não é; denso, fala das agruras de se ser negro numa sociedade segregadora. É leitura para reflexão, incomoda.

Toni Morrison (o nome verdadeiro é Chloe Antony Woford) nasceu 18/02/1931, em Lorain, Ohio, Estados Unidos. É a segunda dos quatro filhos de uma família de classe média baixa, profundamente afetada pela Grande Depressão. Morrison sempre fora uma leitora ávida e seus escritores prediletos eram Jane Austen e Liev Tólstoi. Do pai herdou o talento para contar histórias. Sempre as ouvia, envolvendo as questões entre negros e brancos. Consta que ela se converteu ao catolicismo aos 12 anos de idade; recebeu então o nome de batismo Anthony, que deu origem à sua designação literária, Toni.

Em 1958, Toni Morrison se casou com o arquiteto jamaicano Harold Morrison que também lecionava, como ela, na Universidade de Howard. Ela concluiu seu mestrado em inglês com a tese sobre o suicídio nos livros de William Faulkner e Virginia Wolf. Toni Morrison ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1993.

Apesar de abordar aspectos feministas em seus livros, ela não se considera como tal, tendo dito, certa feita, “não concordo com o patriarcado e não acho que ele deva ser substituído pelo matriarcado. É uma questão de acesso igualitário, de abrir portas para todo os tipos de coisa.” Os críticos costumam apontar, entretanto, aspectos de um feminismo pós-moderno em suas obras.

Seu trabalho mais famoso é Beloved (Amada); quando foi anunciado que a obra não ganhara nenhum prêmio, 48 críticos literários e escritores negros protestaram.
“Esta é a casa. É verde e branca. Tem uma porta vermelha. É muito bonita. Esta é a família. A mãe, o pai, Dick e Jane moram na casa branca e verde. Eles são muito felizes. Veja a Jane. Ela está de vestido vermelho. Ela quer brincar. Quem vai brincar com Jane? Veja o gato. Está miando. Venha brincar. Venha brincar com a Jane.  O gatinho não quer brincar. Veja a mãe. A mãe é muito boazinha. Mãe, quer brincar com a Jane? A mãe ri. Ria, mãe, ria. Veja o pai. Ele é grande e forte. Pai, quer brincar com a Jane? O pai está sorrindo. Sorria, pai, sorria. Veja o cachorro. Au-au, faz o cachorro. Quer brincar com a Jane? Veja o cachorro correr. Corra, cachorro, corra. Olhe, olhe. Aí vem um amigo. O amigo vai brincar com a Jane. Eles vão jogar um jogo gostoso. Brinque, Jane, brinque.” (página 13)
Assim é o parágrafo inicial deste O Olho Mais Azul. As irmãs Frieda e Claudia recebem a adolescente Pecola Breedlove em casa:
“Ela dormia na cama conosco. Frieda na beirada, porque é corajosa – nunca lhe ocorre que, se a mão dela ficar pendurada na beirada da cama, ‘alguma coisa’ vai sair rastejando lá debaixo e arrancar os dedos dela com uma mordida. Durmo junto da parede porque esse pensamento me ocorreu. Portanto, Pecola teve que dormir no meio.
Mamãe tinha dito, dois dias antes, que estava chegando um ‘caso’ – uma menina que não tinha para onde ir. O condado a havia colocado em nossa casa por alguns dias, até decidir o que fazer cm ela ou, mais precisamente, até que a família se reconciliasse. Deveríamos ser simpáticas com ela e não brigar. Mamãe não sabia ‘o que dá nas pessoas’, mas o Breedlove, aquele cachorrão, tinha incendiado a própria casa, dado uma surra na mulher e o resultado foi que ficou todo mundo na rua.” (página 26)
Aí ficamos sabendo que ‘ficar na rua’ era o pior que poderia acontecer a alguém, naquele condado. Era muito diferente de ‘ser posto para fora’. Conforme nos explicita a narradora, ‘estar na rua’ era algo degradante, um fato físico e irrevogável, “definindo e completando nossa condição metafísica”. Já ser posta para fora, a pessoa pode ir para outro lugar, o peso é menor e não definitivo.

Pecola Breedlove é descrita como uma garota muito feia, não por ser negra, mas por ser da família Breedlove, como o pai, Cholly e a mãe, Sra. Breedlove, Sammy, que estava com outra família. Cholly estava preso.
“Nos poucos dias que Pecola passou conosco, nós nos divertimos. Frieda e eu paramos de brigar uma com a outra e nos concentramos na hóspede, fazendo força para que não se sentisse na rua.” (página 28)
Pecola tinha um desejo secreto: desejava ter olhos azuis:
“Toda noite, sem falta, ela rezava para ter olhos azuis. Fazia um ano que rezava fervorosamente. Embora um tanto desatinada, não tinha perdido a esperança. Levaria muito, muito tempo para que uma coisa maravilhosa como aquela acontecesse.” (página 56)
É que, na cabeça de Pecola, tudo se arranjaria para ela quando tivesse olhos azuis. Eram uma marca física de beleza máxima e teria o dom de mudar sua triste realidade.

A relação dos pais era um tanto complicada, pois Cholly, seu pai, sempre chegava bêbado em casa, se atirava sobre a cama e dormia. Sua mãe tentava obter alguma reação dele e não conseguia; por isso, terminou sendo uma mulher pessimista e azeda, como fica claro nesta passagem em que – digamos – ela tem uma relação muito especial com Jesus:
“E uma vez, quando um gesto de bêbado atirou Cholly contra o fogareiro em brasa, ela gritou: ‘Pega ele, Jesus! Pega ele!’. Se Cholly tivesse parado de beber, ela jamais teria perdoado Jesus. Precisava desesperadamente dos pecados de Cholly. Quanto mais ele afundasse, quanto mais selvagem e irresponsável se tornasse, mais esplêndidas se tornavam ela e sua tarefa. Em nome de Jesus.” (página 52)
O livro conta com várias referências a filmes americanos. Por exemplo, o nome de Pecola fora tirado do filme Imitação da Vida, em que “a moça mulata odeia a mãe porque ela é preta e feia, mas depois chora no enterro”. O filme tem no elenco Sandra Dee, Lana Turner, Juanita Moore, Susan Kohner e John Gavin.

Esta questão do racismo está presente no livro todo, como deixa claro a passagem seguinte:
“Meninos brancos; a mãe não gostava que ele brincasse com pretinhos. Ela lhe havia explicado a diferença entre mulatos e pretos. Era fácil identificá-los. Os mulatos eram limpos  e silenciosos; os pretos eram sujos e barulhentos. Ele pertencia ao primeiro grupo: usava camisas brancas e calças azuis; cortava o cabelo o mais rente possível para evitar qualquer sugestão de carapinha e a risca era desenhada pelo barbeiro. No inverno a mãe passava loção Jergens no rosto dele para que a pele não ficasse cinzenta. Embora fosse clara, a pele podia ficar cinzenta. A linha entre mulato e preto nem sempre era nítida; sinais sutis e reveladores ameaçavam erodi-la e era preciso estar constantemente atento.” (página 96)
Em sua adolescência, Pecola sonhara ser bela, branca e loura como Shirley Temple, atriz-mirim, considerada um prodígio, estrela de filmes como Anjo Azul e A Pequena Órfã. Quanto mais se fortalece este seu desejo, mais o entorno social lhe lembra sua condição de negra e feia.

Pecola procura, então, certo Soaphead Church, uma espécie de curandeiro do lugar. Eis a descrição da cena e do que ela lhe pede:
“Soaphead Church a mandou entrar.
“O que é que eu posso fazer por você, minha criança?”
Ela ficou ali parada, com as mãos cruzadas sobre o estômago, uma barriguinha um pouco saliente. “Talvez. Talvez o senhor possa me ajudar.”
“Ajudar como? Diga, não tenha medo.”
“Os meus olhos.”
“O que é que tem os seus olhos?”
“Eu quero que eles sejam azuis.”
Soaphead franziu os lábios e tocou com a língua uma obturação de ouro. Aquele era o pedido mais fantástico e, ao mesmo tempo, mais lógico que já lhe tinham feito. Ali estava uma menina feia pedindo beleza.” (página 181)
Mal sabe Pecola que a obtenção dos olhos azuis, tão desejados, não será suficiente para lhe dar a vida tão sonhada.

O Olho Mais Azul é o primeiro romance de Toni Morrison. Embora tenha gostado dele no geral, não gostei – e isto é inteiramente pessoal – do investimento que a autora faz na figura de Cholly, o pai de Pecola. A caracterização deste personagem gasta várias páginas. Explico-me melhor: em literatura, se os personagens são os principais, justifica-se o autor investir muito na caracterização dele. Agora, se o personagem é secundário, a carga de informações sobre ele não deve ser tão grande.

Não é o caso, mas, se na vida, há pessoas que entram e saem da nossa vida, apenas tocando nosso caminho, numa obra literária tal situação deve ser evitada por uma questão de economia de meios. Somente entram personagens que têm alguma função na história.

Exceto este senão, o livro é muito bom. Uma frase que fecha o romance mereceria estar numa moldura:
“O amor nunca é melhor do que o amante. Quem é mau, ama com maldade, o violento ama com violência, o fraco ama com fraqueza, gente estúpida ama com estupidez, e o amor de um homem livre nunca é seguro. Não há dádiva para o ser amado. Só o amante possui a dádiva do amor. O ser amado é espoliado, neutralizado, congelado no fulgor do olho interior do amante.” (página 212)
Não concordo cem por cento com tais dizeres. É coerente com a história de vida da personagem, com o tema do livro. E é bonito, produz reflexão.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Resenha Nº 148 - A Velocidade da Luz, de Javier Cercas


Resultado de imagem para livro a velocidade da luzTítulo original: La Velocidad de la Luz
Autor: Javier Cercas
Tradutor: Sérgio Molina
Edição: 2ª
Editora: Editora Azul/TAG Livros
Copyright: 2018
ISBN: 978-85-2506-751-7
Gênero: Romance
Origem: Espanha
Bibliografia do autor (incompleta): El Móvil, 1987; El Inquilino, 1989: El Vientre de La Ballena, 1997; Soldados de Salamina, 2001; La Velocidad de La Luz, 2005; Anatomia de Un Instante, 2009; Las Leyes de La Frontera, 2012; El Impostor, 2014.
Imagem: SKOOB




Este é um livro que tem a ensinar a quem deseja, um dia, escrever. Várias referências metaliterárias aparecem no texto. Javier Cercas tem uma habilidade enorme em misturar dados da realidade e dados ficcionais, produzindo um todo coerente. Rodney, o protagonista da história, carrega seus fantasmas por ter combatido no Vietnã, é um sujeito taciturno e esquisitão. Na verdade, A Velocidade da Luz é sobre um livro que é escrito pelo narrador sobre a vida do amigo Rodney Falk. O narrador arranja um emprego, por intermédio do amigo Marcelo Cuartero, numa cidadezinha dos Estados Unidos, chamada Urbana. Ler este livro foi muito bom. Escrito com inteligência e prazer, é assim uma prova de fogo do escritor Javier Cercas. Sim, pois ele havia escrito o famoso Soldados de Salamina – considerado por muita gente como a sua obra-prima. Ora, não é todo dia que qualquer autor, após produzir um romance de referência (apontado como o melhor livro escrito em língua espanhola do século XX), consegue escrever outro, com excelência. Sem dúvida, este A Velocidade da Luz é um ótimo livro. Não posso fazer comparações, pois não li ainda o Soldados de Salamina. Mas tenho vontade de ler mais coisas deste ótimo escritor. Meu exemplar da obra anterior aguarda sua vez, na prateleira da minha estante.

Javier Cercas Menas nasceu em 1962 em Cáceres, Espanha. Acumula nada menos que 23 prêmios literários. Atua como escritor e tradutor. Um aspecto muito frequente em sua obra é a reflexão sobre o passado espanhol e do mundo ocidental e suas relações com o presente. Seu último livro, El Monarca das Sombras (O Monarca das Sombras, em português), foi publicado em 2017 e versa sobre a guerra civil espanhola.

O presente romance se inicia da seguinte forma:
“Hoje eu levo uma vida falsa, uma vida apócrifa, e clandestina, e invisível, porém mais verdadeira que uma vida de verdade. Mas eu ainda era eu quando conheci Rodney Falk. Isso foi há muito tempo e foi em Urbana, uma cidade do Meio-Oeste americano onde passei dois anos no final dos 80. A verdade é que, sempre que me pergunto por que fui parar justo lá, digo a mim mesmo que fui parar justo lá como poderia ter ido parar um qualquer outro lugar. Vou contar por que, em vez de ir parar em qualquer outro lugar, fui parar justo lá.” (página 15)
Marcelo Cuartero é um professor universitário, a respeito de quem diz o protagonista deste livro, “a cujas aulas deslumbrantes eu tinha assistido com fervor, embora fosse um aluno medíocre”.

É Cuartero quem fala de uma vaga para professor de literatura espanhola, numa cidadezinha perdida no Meio-Oeste americano, chamada Urbana. Tipicamente, uma cidade de interior, dominada pelo campus universitário. Pouco se sabia daquela localidade, a não ser que tinha sido cenário para o filme Quanto Mais Quente Melhor, com Tony Curtis e Jack Lemmon.

Eis como o protagonista caracteriza seus companheiros professores universitários:
“Eu me lembro muito bem desse jantar, entre outras razões porque algumas das coisas lá ocorridas, receio, dão o tom exato do que devem ter sido minhas primeiras semanas em Urbana. Os três colegas que compareceram tinham mais ou menos a minha idade; eram dois homens e uma mulher. Os dois homens dirigiam uma revista semestral chamada Línea Plural: um deles era um venezuelano chamado Felipe Vieri, um sujeito muito lido, irônico, um pouco esnobe, vestido com um apuro não isento de afetação; o outro se chamava Frank Solaún, era um americano de origem cubana, corpulento e animado, de sorriso brilhante e cabelo empastado com gel. Quanto à mulher, seu nome era Laura Burns, e, como eu soube mais tarde pelo próprio Borgheson, pertencia a uma família riquíssima e aristocrática de San Juan de Porto Rico (seu pai era dono do maior jornal do país), mas o que mais me chamou a atenção nela naquela noite, além de seu inequívoco físico de gringa – alta, robusta, loura, de pele branquíssima –, foi sua intimidadora propensão ao sarcasmo, a duras penas refreada pelo respeito que a presença de Bogheson lhe inspirava.” (página 21)
Entretanto, é na figura de Rodney Falk que a narrativa de Javier Cercas vai se centrar. Sempre em seu estilo fluente, fácil de ler, o autor nos adianta alguma coisa deste personagem tão importante para o romance:
“Mas não foi em nenhuma daquelas festas multitudinárias que eu conheci Rodney Falk, e sim na sala que dividimos durante um semestre no quarto andar do Foreign Languages Building. Nunca vou saber se me deram essa sala por acaso ou porque ninguém queria dividi-la com Rodney (tendo mais à segunda alternativa), mas o que sei é que, se não fosse por isso, o mais provável é que Rodney e eu nunca tivéssemos feito amizade, e tudo teria sido diferente, e minha vida não seria o que é, e a lembrança de Rodney teria sumido da minha memória como depois de alguns anos sumiu a de todas as outras pessoas que conheci em Urbana.” (página 25)
Javier Cercas é um escritor de muitos recursos narrativos e vai revelando a complexidade da personalidade de Rodney Falk aos poucos. Ele tinha lutado no Vietnã – uma batalha em que os EUA se meteram e na qual sofreram acachapantes derrotas.

Para contextualizar, podemos dizer que o Vietnã havia sido colônia francesa e que, ao final da Guerra da Indochina (1946-1954) fora dividido em dois países: o Vietnã do Norte, comandado por Ho Chi Minh, de orientação comunista pró-União Soviética e o Vietnã do Sul, uma ditadura militar que passou a ser aliada dos EUA.

Em 1959, os vietcongues (guerrilheiros comunistas apoiados por Ho Chi Minh e pela então União Soviética) atacaram uma base norte-americana no Vietnã do Sul. Isso foi suficiente para os americanos declararem guerra. O que se seguiu foi um verdadeiro mar de sangue, com os EUA fazendo uso de armas modernas contra um inimigo que, se estava completamente defasado em termos de armamentos, conhecia profundamente seu próprio território e possuía extrema eficiência em táticas de guerrilha. Em 1960 já era claro o fiasco americano.

Em 1973, o governo dos EUA, pressionado pela opinião pública e pelo morticínio intenso de seus soldados, aceita o Acordo de Paris, que prevê o cessar-fogo. A América retira todos os seus soldados e abandona o território vietnamita em 1974.

Este resumo contextualizatório da Guerra do Vietnã se torna necessário, para o leitor entender melhor o porquê das características do personagem Rodney Falk. Tendo feito parte de um grupo de fuzileiros americanos, teve suas amargas experiências. É que tal grupo, certa feita, confunde um conjunto de cidadãos do Vietnã do Norte com um grupo guerrilheiro e abre fogo cerrado contra ele. Para descobrir, depois, que o “inimigo” era composto de mulheres, crianças e velhos indefesos.

E, como de um momento para outro, Rodney Falk pede demissão do seu cargo de professor na Universidade e some, sem deixar qualquer notícia, o protagonista vai à casa dele, numa cidade próxima a Urbana, na tentativa de encontrá-lo. Encontra o pai de Rodney e recebe dele um completo dossiê sobre o amigo, composto de cartas à família em que tal incidente com o grupo de cidadãos vietnamitas é narrado.

O livro A Velocidade da Luz é contado a partir de um narrador-personagem, em primeira pessoa. Esta escolha técnica deve ter sido bastante consciente, pois produz um efeito muito interessante no livro. É que, como ocorre nestes casos de narradores-personagens, as verdades são sempre relativas, subjetivas. Como é um narrador afetado pelos acontecimentos que ele próprio descreve, como ele analisa os fatos sempre a partir do “eu”, a maior parte do que é narrado fica por conta da subjetividade, da interpretação pessoal. Portanto, este é o famoso “narrador não confiável”, do mesmo miolo que constitui o Bentinho de Dom Casmurro, do nosso Machado de Assis. Ainda mais que, no caso de Javier Cercas, o protagonista é escritor, quer escrever um livro cujo personagem central é Rodney Falk. Os fatos aconteceram mesmo, ou foram pura ficção romanesca do narrador-escritor?

Outras tantas coisas vão acontecer no romance, caro leitor, mas não desejo dar spoilers, como sempre. Eu não me importo com eles, se tenho interesse em ler um livro, pouco se me dá que alguém me conte o final ou os principais lances narrativos. Leio alguns livros, de que gosto muito, várias vezes – na minha estante há livros lidos quatro, cinco vezes – pelo simples fato de gostar da história, da forma como um autor faz o seu trabalho. Enfim, diz o sábio ditado popular, “de sábios, de médicos e de loucos, todos temos um pouco”. No meu caso, predomina a porção do “louco”. Entretanto, a maioria das pessoas não gosta de spoilers e eu lhes dou razão.

Vários dados biográficos são encontrados na composição dos personagens e nos fatos narrados no livro, para quem quiser fazer o trabalho de Sherlock Holmes (aliás, não seria nada mal resenhar aqui um livro deste muito caríssimo Sherlock).

Por exemplo, é dito na obra A Velocidade da Luz que o primeiro livro do escritor-narrador não fez sucesso. Que depois de muito tempo, ele consegue publicar um livro que se torna um best-seller. Temos o protagonista indo para os Estados Unidos.

Não por acaso, Javier Cercas deixou a Espanha e foi viver por um tempo na América. Realmente, seu sucesso e reconhecimento só chega com Soldados de Salamina, após outras publicações. Defendo que, de um jeito ou de outro, acabamos pondo algo de nós em narrativas que escrevemos. Por que deveria ser diferente?

Aproveitar nossas próprias experiências é sábio. Ademais, como identificar ou mesmo extirpar dados nossos guardados lá na caixinha preta do nosso inconsciente? Parece que o ato de contar uma história, de verter uma narrativa para o papel – ou, em tempos modernos – para o arquivo digital estabelece uma ligação direta com tal caixinha preta.

Escrever é assim: um prazer, um trabalho (às vezes muito árduo), uma revelação. Tantas vezes o leitor descobre relações insuspeitadas pelos escritores, nos livros destes... E ao autor, interessado ou incomodado, conforme o caso, só resta dizer um “não tinha pensado nisso”.

O próprio Umberto Eco – grande escritor e estudioso da semiótica – conta seu caso deste tipo. Diz ele, um crítico de O Nome da Rosa (que romance, meus caros leitores! Viciante!), sua obra mais conhecida, apontou certa vez uma passagem que lembrava em tudo outro texto antigo. Na hora, Umberto disse que não havia relação, que ele não havia consultado tal texto.

Depois de algum tempo, pesquisando outra coisa em sua biblioteca pessoal – sonho dos sonhos, mais de 30 mil volumes – deu com um livro fora do alinhamento. Tomou-o nas mãos. Estava marcado em determinado ponto. Releu o texto. Lá estava, inteirinha, a passagem aludida pelo crítico. Sim, ele, Umberto Eco, havia gravado o texto antigo e, de modo inconsciente, fizera uma alusão a ele, ao construir a trama da sua obra mais conhecida.

A Velocidade da Luz é um livro repleto de comentários sobre o ato de escrever, as preocupações de um escritor. E não é forçado, uma vez que o protagonista se vê às voltas com um dossiê que traz não só relatos de guerra, mas, principalmente, sentimentos de um soldado participante de uma batalha que lhe fora vendida como um ato de honra contra um inimigo comunista e o que ele confronta, na realidade, são pessoas que dão o seu sangue e sua vida para expulsar o invasor. Eterna luta de David contra Golias; no fundo, no fundo, o livro é também um libelo contra as loucuras dos conflitos armados, da insanidade humana que vê inimigos onde eles não existem.

Não seria esta a mensagem dada pela descrição do fuzilamento do grupo de civis vietnamitas, homens velhos, mulheres e crianças? O sórdido acordo firmado entre os participantes do evento, no sentido de todos se calarem quanto ao ocorrido é o que desequilibra o personagem Rodney Falk. Afinal, calar consciência, nem todo mundo consegue. Aqueles que são mais sensíveis sofrem mais.

Mas paremos por aqui, amigo leitor. No entusiasmo da resenha, quase levei você a um spoiler. Leia este A Velocidade da Luz. Livrão, somente isto. Livrão.

terça-feira, 19 de março de 2019

Resenha nº 147 - Pretérito Imperfeito, de B. Kucinski


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Título: Pretérito Imperfeito

Autor: Bernardo Kucinski
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1ª
Copyright: 2017
ISBN: 978-85-359-3017-7
Gênero Literário: Romance
Origem: Brasil
Bibliografia do autor (incompleta): Os Visitantes, 2016; Alice Não mais que de repente, 2014; Você vai voltar pra mim e outros contos, 2014; K. - Relato de uma Busca, 2011; Jornalismo econômico, 1996; Jornalistas e Revolucionários, 1991; O que são Multinacionais, 1991; Brazil Carnival of the opressed, 1995; Pau de Arara, La Violence Militaire au Brésil, 1971 ; Fome de Lucros, 1977; The debt squads, 1988 ; A ditadura da dívida, 1987; Jornalismo na era virtual, 2005; Cartas ácidas da Campanha do Lula de 1998, 2000 ; Lula and the workers party in Brazil, 2003; Brazil state and struggle, 1982 ; A síndrome da antena parabólica, 1998; Abertura: a história de uma crise. Brasil Debates, 1982.

Já há algum tempo alimentava a vontade de ler alguma coisa de B. Kucinski. Acabei dando neste título, Pretérito Imperfeito, muito embora na minha mente estivesse o seu trabalho mais famoso, K – Relato de Uma Busca. Bernardo Kucinski tem uma curiosidade, ele se lançou como ficcionista com mais de setenta anos, o que é uma exceção neste Brasil de poucas chances para escritores nacionais. Mas, reportemo-nos ao volume. Pretérito Imperfeito pode ser um romance pequeno, de apenas 150 páginas; entretanto, é uma leitura que incomoda. Não por ser mal conduzida, não é isto. É incômoda pela história que conta e pelo estilo seco e objetivo de Kucinski. Não sobram palavras, não há qualquer excrescência neste livro. Capítulos curtos relatam a história de um menino adotado pelo narrador em primeira pessoa. É um menino de cor negra (a cor de pele se define depois). Será um filho-problema,  por ser negro, não por ser adotado. Sofre bullying na escola, sofre na mão dos policiais, sofre no seio de uma sociedade hipócrita que não o aceita. É uma leitura dura. Entretanto, o texto de Kucinski é de ritmo rápido, não há longas orações subordinadas. Talvez a influência de ter tido sua primeira obra ficcional no gênero conto – gênero este que prioriza a contenção, a objetividade, a concisão – tenha sido o que norteou este texto. Desejo ler outras coisas do autor.

B. Kucinski nasceu em São Paulo, no ano de 1937. Filho de imigrantes poloneses, os quais, ao permanecerem na Europa, foram mortos em campos de concentração nazistas. Talvez esta condicionante – ter os pais mortos por um poder dominante – tenha feito de nosso resenhado um homem comprometido com ideais e ideias libertárias. Possui graduação em física pela USP (1968) e sua irmã, Ana Rosa Kucinski, que fora professora do departamento de química da mesma universidade, foi morta pelo regime da ditadura militar brasileira. Bernardo torna-se, então, militante estudantil, foi preso e exilado. Trabalhou como assessor de imprensa no primeiro mandato do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, é colaborador do Partido dos Trabalhadores e professor na USP, onde leciona jornalismo internacional.

Não é boa política de leitura transferir-se dados biográficos para explicar obras literárias. Entretanto, há casos em que isto se justifica, e tal é o caso da presente obra. O tom francamente contestatório deste Pretérito Imperfeito – a começar pelo título escolhido – e de sua obra, como um todo, mergulha em sua biografia.

Disse que o narrador é em primeira pessoa e, de fato, isto se verifica. Não obstante, esta voz narradora abre espaço para que falem outros personagens: a mãe adotiva, notícias de jornal, interrogatórios, entrevistas, autos de processos.

Para ilustrar estas interrupções da voz narrativa, transcrevemos o seguinte trecho:
“Consta do incluso inquérito que os policiais militares estavam em patrulhamento de rotina na reserva florestal de denominação Serra do Itatiaia quando abordaram e revistaram o indiciado que se encontrava em atitude suspeita, não encontrando nada junto a seu corpo, porém foram encontrados dentro do seu veículo uma porção de substância entorpecente e um cigarro que, submetidos à perícia  revelaram potencialidade lesiva, conforme laudo anexo.” (página 62)
É um texto complexo em sua estrutura, extremamente dinâmico e moderno. Vejamos, porém, como Kucinski inicia sua obra:
“Começo pelo fim. Pela carta. Escrevi à mão, cada palavra sopesada. Despachei à antiga, para ser entregue por carteiro que bate à porta, como se deve. Registrei, para me assegurar da entrega. Todavia, sem remetente. Carta para não ser respondida.
Não vou repetir por inteiro o que escrevi. Não é coisa bonita de se dizer, nada de que se orgulhar. Escrevi porque era preciso. Sempre houve o pai que expulsou de casa o filho. Deus baniu o homem do paraíso e o homem era Seu filho, por Ele criado à sua semelhança, e o paraíso era Sua morada. Mito fundador, o paraíso para sempre perdido. Expulsou ao primeiro pecado.” (página 9)
A seu favor, o narrador vai dizer que ele deixara passar pecados sem conta. E o leitor já é fisgado por esta excelente página inicial, ele identifica que há algum problema muito sério entre o pai e o filho, pois há o fato da expulsão. Coisa grave, pois levou o narrador de Kucinski a se justificar, citando o mito fundador do paraíso perdido – que tantas vezes já foi citado em outras obras literárias, inclusive por aquela obra-cânone Paraíso Perdido, de Milton.

Todo o procedimento de emissão/recepção da comunicação de expulsão do filho se faz, como diz o narrador, de modo antigo, com carteiro entregando no endereço “como se deve” e, ainda, garantindo a entrega por meio da remessa registrada. Ato de quem não quer deixar rastros, pois, como é dito, “não é algo de que algum pai possa se orgulhar”.

O ato da adoção do pequeno se dá numa condição de distanciamento deste pai, como podemos verificar no trecho a seguir:
“Assim que terminasse o seminário de Nova York, eu iria documentar o triunfo sandinista na Nicarágua. Esse era o meu programa. Quinze dias fora do Brasil. Pensava na Nicarágua e assistia com Abou ao Cravos de Abril, de Ricardo Costa, quando alguém me toca nos ombros e sussurra: ligação do Brasil. Minha mulher não telefonaria por ninharias. Penso num acidente. Sempre imagino o pior. Assim que atendo, ela diz: surgiu um bebê, o que você acha? Penso: logo agora! Ela diz: tenho que decidir hoje. Sinto pelo fervor de sua voz que ela quer, que telefonou para ganhar coragem. Pergunto: menino ou menina? Menino, gorduchinho. Deduzo que já viu o bebê, já se engraçou, já o trouxe ao regaço. Digo que sim, tudo bem. Pergunto: você dá conta até eu voltar? Ela diz sim, não se preocupe.” (página 15)
Este distanciamento entre pai e filho marca quase a obra toda. Mais tarde, o menino, já maiorzinho, vai morar com uma família de amigos nos Estados Unidos; depois, ficará um tempo em Israel.

O distanciamento geográfico, a dificuldade de comunicação entre gerações, o distanciamento psíquico e os eventos de segregação racial levam o filho a se meter no mundo das drogas. E aí, a relação, que já era um tanto difícil, torna-se um inferno. O curioso aqui é que o narrador de Kucinski trabalha como correspondente internacional – área essencialmente de comunicação – e não consegue se comunicar com o filho.

Vejamos o trecho em que o filho vai para Israel:
“O filho criança mente para se proteger de nossa ira; adulto, mentirá para nos proteger de seus fracassos. Humanas mentiras nas quais fingimos acreditar. Ele mentia para nos desfraldar. Na antevéspera da partida para Israel, dei-lhe um relógio de pulso. No embarque, não vi o relógio. Perguntei: cadê o relógio? Fui assaltado na saída de um bar, disse. Já então eu duvidava do que ele dizia, mas fingi acreditar. Deixei passar. Hoje me pergunto: por que deixei passar? Talvez porque não quisesse a verdade. Refugiava-me na dúvida, quem sabe fora mesmo assaltado? Tornara-me de fato um codependente.” (página 97)
As lembranças do período ditatorial se fazem presentes, às vezes como um pano de fundo, como uma espécie de subconsciente a ditar cuidados e medos já incorporados, às vezes bastante explícitos no texto de Kucinski, como no trecho abaixo:
“Nos anos de chumbo, os militares a tinham [a maconha] como instrumento do comunismo internacional visando à dissolução da família e dos valores cristãos. Os adolescentes necessitavam prová-la com a ânsia de uma iniciação sexual; e suas mães, temendo que na rua se metessem em encrenca, imploravam que trouxessem os companheiros para fumar dentro de casa.” (página 60)
Este trecho torna evidente a influência dos problemas enfrentados pelo autor Bernardo Kucinski – como disse, ele teve a irmã morta pelo regime de então. Kucinski é, portanto, autor de uma escrita marcada pela ideologia de resistência, muito mais do que uma ideologia de esquerda. O fato é que não se esquecem facilmente eventos tão fortes, que tiveram o poder de marcar tão fundo as pessoas, as famílias, os entes queridos.

No Brasil, pelo menos entre a população, e como resultado de uma forte contrapropaganda emanada do poder ditatorial, perpetua-se uma visão ingênua sobre o que seja ser alguém de esquerda. Ficou claro nesta eleição recente, na qual houve forte polarização, esquerda é identificada com o Partido dos Trabalhadores. Não que ele não o seja, mas o PT não representa todas as correntes e complexidades da chamada esquerda.

Coisa para se discutir, talvez, em outra época, com outro livro, outra leitura.

Aqui, nos cabe resenhar uma obra literária.

E esta obra literária é o livro Pretérito Imperfeito, de B. Kucinski. O título é ambíguo de propósito; refere-se a um tempo verbal, caracterizado pela continuidade ou frequência das ações, posto que imperfeito. E, ao mesmo tempo, nomeia um passado com falhas, com senões, com problemas.

Recomendo a leitura desta pequena obra-prima. Ainda não li outras coisas de Kucinski, mas este livro me abriu as recordações de uma época muito difícil, pela qual eu também passei, ainda que de maneira mais suave. Não tive parentes molestados, mas me recordo perfeitamente de colegas de faculdade que, de repente, sumiam de circulação.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Resenha nº 146 - Tudo é Rio, de Carla Madeira


Resultado de imagem para livro tudo é rioTítulo: Tudo é Rio
Autora: Carla Madeira
Editora: Quixote + Do Editoras Associadas
Copyright: 2014
ISBN: 978-85-66256-08-6
Edição: 1ª/5ª Reimpressão
Gênero: Romance
Origem: Literatura Brasileira/Mineira
Páginas: 218
Bibliografia: Tudo é Rio, romance, 2014; A Natureza da Mordida, romance, 2018.

Em conversa com o vendedor de livros que habitualmente me atende, numa das livrarias de BH, ele me recomendou este Tudo é Rio, como uma ótima leitura. Tive duas motivações – não sei qual delas realmente me fez comprar o volume –; a primeira, aquele era um vendedor que lê e conhece algumas de minhas características como leitor. Segunda, adoro ler autores a que não estou acostumado. Gosto de garimpar. A cinta azul que envolvia a obra continha o parecer de Martha Medeiros, dizendo que “era uma obra-prima”. Assessorado por estas informações, dediquei-me à leitura do livro em questão. Não começou bem. Lia com alguma dificuldade de concentração, mas este fato é comum nas minhas aventuras literárias. Mas, de certo ponto em diante, a leitura realmente me pegou. Concordo com Martha Medeiros, “Como assim, um livro de estreia tão potente, tão perfeito, tão acabado”. Lá estava o tema mais antigo da literatura, um triângulo amoroso. E, embora um pouco menos comum, um triângulo amoroso envolvendo, de um lado, um casal e de outro, uma prostituta. Livro cheio de traços eróticos, sobretudo bem-escrito, universal. Subtemas ódio, perdão, bondade e perversidade humanas, amor, inveja, desejo, adoção. Uma obra e tanto!

Não consegui muitos dados da autora. De concreto, sei apenas que Carla Madeira é mineira de Belo Horizonte. Cursava matemática, largou este curso e se formou em jornalismo e publicidade. Atuou como professora de redação publicitária na Universidade Federal de Minas Gerais e é diretora de criação da agência de comunicação Lápis Raro. Em 2014, lançou seu primeiro romance, Tudo é rio, um sucesso editorial, recebido com entusiasmo por público e crítica.

Tudo é Rio é um romance muitíssimo bem-escrito. É a história de um casal, Dalva e Venâncio. Conta com um estilo ao mesmo tempo muito realista (Carla não tem medo das palavras) e poético. Vejamos a introdução do livro:
“Puta. Não tem outro nome para Lucy. De profissão ela era puta mesmo. Trabalhava num puteiro, vivia num puteiro. Mas não era puta só por isso. Se só por isso fosse, podia outros nomes mais respeitosos, como meretriz ou prostituta. Era puta e pronto, que essa palavra, a seco, carrega um xingamento, que quem conhecia Lucy queria logo desabafar. Tinha um jeito baixo e arrogante de provocar todo mundo, esfregando o sexo sem censuras, descobrindo os seios e atirando palavras cruas encharcadas de lama. Uma beleza disputada a tapa pelos frequentadores dava a ela o poder de não bastar aos olhos: quem via Lucy queria degustar. Dizem que sabia fazer o diabo com um homem na cama. Enlouquecia qualquer um que passasse pelos seus cuidados. Não tinha um que não quisesse mais.” (página 11)
Em um parágrafo inicial apenas, já temos a caracterização da personagem polêmica que é Lucy. Temos, em nosso imaginário, prostitutas que foram levadas a tal por falta de opção na vida, por pobreza, por problemas psicológicos, por abandono social. Agora, uma prostituta que escolhe esta vida porque gosta, é um tabu social. Lucy é exatamente assim: é puta porque gosta. Cumpre, desta forma, uma das mais comuns fantasias eróticas femininas, de acordo com vários artigos a respeito do assunto. Convenhamos, entretanto, fantasias não são realidades.

E, como a caracterização de personagem é magistralmente trabalhada pela autora, vamos reproduzir a de Dalva:
“Dalva nunca olhou para o alpendre, embora fosse pelo caminho da sombra. Passava de cabeça erguida, olhando para a frente, não por afetação de orgulho ou por força de algum julgamento, mas por não dar importância a nada que não fosse ir para onde estava indo. Carregava seu corpo pesado de tristeza, e isso era tudo o que parecia fazer. As putas reconheciam que ali não se podia bolinar, sabiam por experiência própria que não se deve aumentar uma dor sem tamanho. No fim do dia, quando Dalva voltava, para quem reparasse muito, dava para ver um olhar mais sereno nos olhos dela, mas ninguém nunca reparou, nem um pouco.” (página 27)
Mas, nem sempre Dalva fora assim; na verdade, ela carregava um segredo só dela, algo que mudará o rumo de sua história e da sua relação com o marido. Ela já fora uma jovem sonhadora, alegre. A vida, entretanto, à maneira das tragédias gregas, não dá folga para qualquer destes personagens.

Venâncio, que mais tarde se tornará marido de Dalva, tem com ela uma infância em comum; não eram propriamente amigos, mas brincavam na mesma rua. Como nos diz a autora, naquela fase em que meninas e meninos mais se toleram do que se atraem:
“Dalva achava Venâncio bem esquisito, de uma família mais esquisita ainda. O pai dele sempre falava aos trancos, dava ordens demais. Queria achar briga em qualquer conversa. Venâncio ficava calado, rodeado por uma tensão invisível. Vigiava as esquinas. Se o pai aparecia lá longe, ele largava tudo e ia correndo, cercava o pai por lá mesmo, para não deixar ele chegar perto demais dos amigos. Tinha vergonha da brutalidade dele. Muitas vezes  quis que o pai desaparecesse. Sofria a insuportável saudade de ter um pai que nunca teve. Com o tempo, a vida dos dois juntos foi ficando perigosa, um ódio lento endurecia tudo, tinha vontade de machucar o pai. Queria doer nele a dor que sentia.” (página 75)
Nenhum desses personagens mais importantes do livro é plano, isto é, sem conflitos. Logicamente, daí só podem brotar relações conflituosas, coisas a resolver. O jeito humano de sermos: com boas intenções, alguns, mas cheios de contradições. Este é um dos trunfos de Tudo é Rio.

A complicação principal vai se dar quando Venâncio começa a frequentar, desiludido e cheio de culpas, a Casa de Manu, o prostíbulo onde trabalha Lucy:
“Quando Lucy se obcecou por Venâncio, não sabia nada dele. Nem quem era ele, de onde vinha, nem se tinha mulher ou família. Não se importava. Para ela a história de Venâncio começava ali, no dia em que ela botou o querer nele, ele nasceu. Em uma cidade pequena, é difícil acreditar que alguém não se dê conta de que um mundo ao redor caminha junto. O outro existe. Não para Lucy, que só sabia dela mesma. Sabia o que queria e querer bastava...” (página 31)
O outro trunfo do livro é sua universalidade. Aliás, esta é uma das características de uma obra que perpassa o tempo: a universalidade. Sem dar indicações precisas de onde se passa a história, Carla Madeira localiza-a em qualquer lugar. Mas esta universalidade é também de tema e subtemas, conforme ficou indicado no texto em itálico, acima.

O relacionamento de Venâncio e Dalva, que de relacionamento mesmo só tem o viverem na mesma casa, se distancia cada vez mais na obsessão de Lucy em ter Venâncio, que lhe foge entre os dedos, literalmente.

Cada vez mais, Venâncio se faz parecer com o pai, a mesma brutalidade condenada no pai. Isola-se em seu mundo de dor e sofrimento, a relação com Dalva inteiramente contaminada pelo seu ciúme doentio, de homem completamente inseguro. E – drama edipiano – aquele mesmo pai, que ele, em criança, queria matar, queria que desaparecesse, acaba se impondo a ele, e de maneira tão completa que se superpõe à personalidade do filho.

Carla domina perfeitamente a arte de escrever romances, este gênero tão difícil de se obter, pela complexidade da construção, interação entre personagens, estruturas que se entrecruzam para produzir a verossimilhança narrativa. Ela deixa mais para o fim dois fatos fundamentais, que não posso adiantar, sob pena de spoiler.

Duas descobertas, duas revelações matreiramente guardadas que irão mudar o pulso da história; o perdão entrará, a partir destas revelações, como elemento que quebrará o círculo vicioso dos sofrimentos, das vontades não acessadas, algo que a beirar a epifania, não só de Dalva, mas também de Venâncio.

Tudo é Rio é um título apropriado para o romance. Nossos desenganos, ódios sentidos a se arrefecerem e darem possibilidade à eclosão do amor, o sofrimento que se depura, se ameniza e permite novo campo de experiências mais positivas são como um rio, que segue seu curso dirigido por suas margens.

O vendedor que me atendeu, na livraria, me dissera que o outro livro de Carla Madeira, A Natureza da Mordida, tem sido procurado em decorrência de as pessoas terem gostado muito deste presente livro. Acredito. Tudo é Rio credita a autora.

Para encerrar e para a degustação do leitor deste blogue, mais um trecho, referente à passagem quando Venâncio se apaixona por Dalva:
“No dia em que viu a empada em sua mesa, Venâncio conheceu uma alegria nova, tão diferente da tristeza que vivia ao seu redor. Transbordou uma cara boa, uma animação saliente. Seu Amim, sempre discreto, não conseguiu segurar o comentário. Foi picado com força! Tô vendo que o veneno é poderoso. Venâncio acolheu a intimidade, deixou a alegria aumentar.” (página 84)