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sexta-feira, 25 de março de 2016

Resenha nº 72 - A Ilha, de Victoria Hislop


Resultado de imagem para livro A Ilha, de Victoria HislopVictoria Hislop é uma inglesa nascida na cidade de Kent. Ela é graduada em Letras pela Universidade de Oxford; trabalhou no mercado editorial e tornou-se jornalista. Este A Ilha foi o seu primeiro livro, publicado em 2006. Aqui, neste blog, já foram resenhadas as obras dela O Retorno e O Fio. A presente edição brasileira, bem como as outras, saiu pela editora Intrínseca.

Na capa do livro nos deparamos com o marketing, nos seduzindo para a leitura sob a alegação de “mais de um milhão de exemplares vendidos em todo o mundo”, e logo após a reprodução do parecer do prestigioso jornal inglês The Observer: “Finalmente – um best-seller que toca o coração... repleto de sagas de família, amores condenados e segredos devastadores. ”

Este resumo nos dá, de antemão, alguns elementos sobre o livro e sobre o modo de escrever romances de Victoria Hislop. Uma fórmula bem-sucedida, que, por isso mesmo, será repetida em O Retorno e O Fio. Nossa escritora trata de dramas familiares, seus segredos; pessoas emergentes do passado afetam o presente dos personagens. Um conflito de grandes proporções permeia a cena dramática, não só a tocando, mas influenciando-a. A vida dos personagens não seria a mesma, caso o conflito (leia-se guerra) não tivesse acontecido.

Hislop conduz suas histórias com mão segura. Isso já está evidente mesmo nesse seu primeiro livro. Sua característica se compõe de forte pesquisa da cultura na qual se movem seus personagens, a ambientação da história em países diferentes, como se nos levasse em uma viagem turística, o uso de alguns vocábulos em língua nativa, com a visível intenção de “dar cor local” às suas criaturas. Seu poder descritivo é notável: a um tempo, poético, preciso, sucinto.

A Ilha inicia sua trama exatamente por uma descrição excelente, não geográfica, mas sim do estado de ânimo dos personagens envolvidos. Observe o tratamento poético, melancólico, do estado psicológico dos seres que fazem a travessia de barco entre a cidade grega de Plaka, em 1953, e a ilha de Spinalonga, do outro lado do canal marítimo da cidadezinha:

“Um vento gelado fustigava as ruas estreitas de Plaka, e o frio do ar de outono rodeava a mulher, paralisando seu corpo e sua mente com uma dormência que quase lhe aniquilava os sentidos, mas não aliviava em nada sua tristeza. Ao atravessar cambaleando os últimos poucos metros que a separavam do embarcadouro, ela se apoiou pesadamente no pai, e seu andar lembrava o de uma velha, para quem cada passo causava uma pontada de dor. No entanto a dor não era física. Seu corpo era tão forte quanto o de qualquer outra moça que houvesse passado a vida respirando o ar puro de Creta, e a pele era tão jovial e os olhos de um castanho tão intenso e brilhante quanto os de qualquer garota da ilha.

O pequeno barco oscilava e balançava no mar, desequilibrado pelo peso do carregamento de pacotes de tamanhos diversos, amarrados uns aos outros com barbante. O homem mais velho embarcou com cuidado e enquanto tentava com uma das mãos manter o barco firme entendeu a outra para ajudar a filha. Depois que ela estava em segurança a bordo, envolveu-a de forma protetora com um cobertor para protegê-la do frio e do vento. A única indicação visível de que ela não era apenas mais um item do carregamento era as longas madeixas de cabelo castanho-escuro que esvoaçavam e dançavam livremente ao sabor do vento. Ele soltou com cuidado as amarras que prendiam a embarcação – não havia mais nada a dizer nem a fazer –, e começavam a viagem. Não era o início de uma travessia curta para entregar mantimentos. Era o início de uma jornada sem volta para uma vida nova. A vida em uma colônia de leprosos. A vida em Spinalonga. ” (página 7, não numerada)

A esta altura, o leitor poderá estar se perguntando por que diabos o resenhista começou seu trabalho de maneira tão diferente do seu habitual e estampou, logo de cara, as palavras do jornal The Observer e esta transcrição tão longa da abertura do romance. Como você, inteligentemente, já depreendeu, a seleção não é gratuita e dois serão os motivos declarados: primeiro, a partir de uma breve análise do material transcrito, inicio a parte da resenha na qual se dá ao leitor uma visão ligeira do enredo do livro; segundo, desejo dar uma ideia ao leitor do que pode render a chamada close reading (leitura atenta ou pormenorizada).

Com bastante cuidado para não cometer spoilers, que prejudicariam as surpresas propiciadas pela leitura, vamos à primeira parte, a extração de informações contidas no material selecionado, para orientar o leitor.

The Observer nos afirma “[o romance é]...repleto de sagas de família, amores condenados e segredos devastadores.” Sagas são histórias que envolvam os feitos ou dramas de várias gerações; serão, portanto, feitos ou dramas de várias gerações de famílias envolvidas em algum acontecimento, cujos componentes serão amores condenados (por quê?) e segredos mantidos em sigilo (quais?) pelo seu potencial destrutivo das relações familiares.

O trecho inicial do romance nos informa: duas pessoas – um homem mais velho e uma jovem mulher pulam do embarcadouro para uma frágil embarcação. Algumas palavras mais adiante, ficamos sabendo tratar-se de pai e filha. A filha está sofrendo horrivelmente, pois apoia-se pesadamente no pai e o vento gelado fustigava-lhe o corpo quase até a dormência, mas não lhe diminuía a dor da alma. Parte da descrição é calcada em cima de expressões de instabilidade, inevitabilidade, falta de esperança. A filha é como outra jovem qualquer de sua idade; seu corpo é forte, com o vigor próprio da idade. Então, o que pode estar lhe trazendo tanta infelicidade? A única segurança sentida pela jovem é a presença do pai, o acolhimento e o compartilhamento da tristeza.

“A única indicação visível de que ela não era apenas mais um item do carregamento era as longas madeixas de cabelo castanho-escuro que esvoaçavam e dançavam livremente ao sabor do vento. ” O narrador nos conta que a jovem se sentia como uma “coisa”, isto é, sentia-se despersonalizada, completamente estática, entregue ao seu sofrimento, sendo apenas o movimento esvoaçante dos seus cabelos o que ainda lhe assinalava vida. Não era apenas uma travessia costumeira de Plaka à ilha de Spinalonga; era algo além disso, um caminho sem volta, para uma vida nova. E o pior, era uma vida numa colônia de leprosos, pois Spinalonga era uma ilha destinada aos portadores de hanseníase.

As 365 páginas do livro contam os acontecimentos pelos quais passam a família Petrakis e a família Vandoulakis. Serão eventos trágicos, impactantes, ampliados pela Segunda Guerra Mundial, finalmente alcançando a região de Creta e, por consequência, a cidadezinha de Plaka. Histórias de resistência contra os alemães, aclamação de heróis; em Spinalonga, um grupo de atenienses traz alento à sofrida vida dos leprosos e quase lhes torna a vida invejável.

A jovem Alexis é filha de Sofia Fielding. Alexis deixa a casa materna, em Atenas, para estudar em Londres.  A filha tem um namorado, Ed, em um relacionamento no qual se sente insegura. Afinal, sua mãe e seu pai têm um casamento maduro, e partindo deste modelo, fica patente sua insegurança quanto ao amor por Ed. Daria para partilhar uma vida com ele? Sofia sempre se calara quanto ao passado. Alexis sentia uma curiosidade imensa em saber mais alguma coisa, mas sua mãe sempre se calara diante de suas perguntas. A relação delas não era tranquila; já com o pai, as coisas iam melhores.

Mas há também um momento no qual Sofia, mesmo a contragosto, resolve lhe abrir o acesso à história da família. Não tem coragem de contar, ela mesma, sobre sua vida, mas diz à filha para ir até a cidadezinha cretense de Plaka e procurar sua amiga Fotini. Sem delongas, Alexis chega ao seu destino, antes deixando Ed em Hania, uma cidade distante. O encontro com Fotini, beirando os setenta anos, mas com um frescor ainda presente, é fundamental, é o turning point do romance. Esse termo inglês é usado para designar uma “virada” substancial no enredo, uma mudança de rumo.

Victoria Hislop faz seu narrador, a partir do momento em que Fotini começa suas revelações, assumir a condução da narração.

Serão revelações progressivas, terríveis – Alexis amadurece por meio delas e pela amizade aconchegante da generosa Fotini, amiga de sua mãe. Em certo momento, os “destinos” (uso a palavra entre aspas, com o sentido de destino traçado pelas necessidades da trama) da família Petrakis e da família Vandoulakis se unem. Outra tragédia terá o seu lugar. Por tudo, Alexis passa a compreender muito melhor a história sofrida de sua mãe.

Não pense o leitor ser esta obra uma história em que tudo dará errado. Os dramas acontecerão, de fato; haverá amores proibidos, traições, enganos, desenganos, esperanças, desesperanças – mas, ao final, vários personagens sairão com seus relacionamentos depurados e melhores criaturas. A Vida imita a Arte ou a Arte imita a Vida? Tanto faz.

Dizem ser o romance moderno um dos gêneros literários tributários das tragédias gregas. Neste trabalho de Hislop, tanto como na vida dita real, as criaturas sofrem seus revezes, suas crises cheias de sofrimentos. Entretanto, de dentro das crises, expurgadas pela catarse, lentamente elas se levantam e retomam suas vidas, modificadas.

A utilização da close reading nesta resenha, ainda que não detalhada como deveria ser, dá uma pequena mostra ao leitor de que, partindo das informações minuciosas de um texto, conseguimos acessar os quebra-cabeças de uma obra. Não quer dizer, em absoluto, que o autor tenha pensado, passo a passo, em tudo. Não. Muito será inconsciente, produto da ampla experiência que todos temos com o gênero romance. Além do mais, o ser humano é um ser contador de histórias. Esses modelos narrativos, vindos de tudo o que lemos, funcionam como um gigantesco arquivo em nossas mentes.

Essa não foi uma leitura. Foi uma releitura. Embora feita com a intenção de resenha para um blog, o simples fato de me interessar por uma releitura já dá indício do valor reconhecido do livro. Preciso urgentemente  organizar melhor minha pequena biblioteca; não há espaço para tudo o que desejo ler. Então, uma das saídas é exatamente selecionar entre livros cuja leitura será a primeira e a única e aqueles outros, cujo valor ou prazer de reler justifique mantê-los. A Ilha, O Retorno e O Fio, de Victoria Hislop são livros a serem mantidos.

HISLOP, Victoria. A Ilha. Editora Intrínseca. Rio de Janeiro, RJ: 2005

segunda-feira, 14 de março de 2016

Resenha nº 71 - Os Arquivos Secretos do Vaticano, de Sérgio Pereira Couto

Sérgio Pereira Couto, autor deste Os Arquivos Secretos do Vaticano, é jornalista, pesquisador, escritor e fortemente interessado pelos mistérios da história humana. Trabalhou como editor das revistas Ciência Criminal e Discovery Magazine; foi editor-assistente da PC Brasil e Geek!, colaborador das revistas Galileu e Planeta. Ministra cursos e palestras sobre temas e assuntos de seus textos. Um de seus assuntos preferidos é sociedades secretas. É autor de ficção também, já tendo o seu Renascimento resenhado aqui nesse blog.

Os Arquivos Secretos do Vaticano padece de um inconsistência grave, a nosso ver. Já na capa da obra é anunciada uma investigação “da Inquisição à renúncia de Bento XVI, os mistérios e os segredos trancados no maior acervo religioso do mundo”. Entende-se, portanto, que este seria um trabalho a analisar não só os acontecimentos da inquisição até a renúncia de Ratzinger (Bento XVI), como também abordagem dos volumes escondidos nos oitenta e cinco quilômetros de prateleiras abrigados na Biblioteca do Vaticano. Não é exatamente isso o que acontece.

O foco do livro não é mantido; gastam-se muitas páginas na explicação dos possíveis códigos da Bíblia, verdadeiras “chaves interpretativas”. Assim, são objeto de análise a gematria, teomática, o código de Bullinger, a identidade de Madalena, a Sequência Alfabética Equidistante, etc. Pouco se fala sobre os prováveis e numerosos tesouros guardados a quatro chaves naquelas vetustas estantes vaticanas.

Não obstante, existem informações bastante interessantes no livro. Há uma boa descrição do histórico Concílio de Niceia, uma historização das principais correntes heréticas. Sérgio caracteriza a cruzada contra os cátaros, da região francesa do Languedoc, mais precisamente da cidade de Albi (daí os cátaros também serem conhecidos como albigenses) como a primeira cruzada de cristãos contra cristãos.

Também são abordados os achados na região de Nag Hammadi e os escritos das cavernas de Qumran, no Mar Morto, estes últimos guardados no Santuário do Livro do Museu de Israel, em Jerusalém.

Há análises de alguns conteúdos de duas obras literárias famosas (O Nome da Rosa e, como não podia deixar de ser, O Código da Vinci), relacionando estes romances aos mecanismos da Inquisição Medieval, no primeiro, e a questão do evangelho apócrifo de Maria de Magdala (ou Maria Madalena), no segundo.

Em 2ª edição pela Gutenberg, o livro nos deixa certa decepção em relação às promessas feitas. Não que pensássemos encontrar um levantamento completo do todo existente na famosa biblioteca – até porque a entrada de qualquer pessoa é rigidamente controlada pela instituição católica – mas, certamente, esperávamos muito mais.

COUTO, Sérgio Pereira. Os Arquivos Secretos do Vaticano. Editora Gutenberg, 2ª edição. São Paulo, SP: 2013


quinta-feira, 3 de março de 2016

TAG Experiências Literárias

Os mais experientes, como eu, devem se lembrar do antigo Clube do Livro, nos anos oitenta. O assinante recebia uma revista, com informações sobre os vários livros editados pelo próprio Clube. Foi um sucesso; tenho, em minhas prateleiras, várias edições, encadernadas e bem cuidadas. A obrigação do assinante era fazer um pedido a certos intervalos de tempo, para se manter como membro-assinante.

Resultado de imagem para TAG Experiências literáriasAgora surge outro clube com proposta semelhante, até certo ponto: a TAG Experiências Literárias. Idealizada por três jovens e mantendo o sistema de assinatura (que pode se encerrar a qualquer tempo), a ideia vem ganhando adeptos, entre os quais eu me incluo.

Funciona assim: você se inscreve, pagando uma mensalidade e passa a receber um livro por mês. Aqui se encerram as semelhanças com outros clubes do tipo. As caixas que contém as obras são exclusivas da TAG; dentro delas, sempre haverá algumas surpresas, pois o livro enviado permanece um “mistério” até que você o receba. O nome não é divulgado com antecedência.

— Mas, aí, como é que faço, se já tiver lido o livro?

Não tem problema. Você pode pedir para que ele seja trocado. Gosto dessa surpresa, é como quando a gente ganha um presente. Até abri-lo, não se sabe o que é. E tem mais: junto, vem uma revista exclusiva, em que podemos aumentar o conhecimento sobre a obra abordada, sobre o autor, a contextualização e sobre o curador.

— Curador, como assim? – pergunta você.

Para cada mês, há um curador, que é como o pessoal da TAG chama a personalidade convidada a indicar um livro considerado importante. Isso garante, com certeza, uma variedade de títulos e de gêneros. Os dois livros que eu já recebi (me filiei no final de dezembro de 2015) são de autores meio fora da minha zona de referência do momento. Entretanto, penso ser isto interessantíssimo, pois passo a ter a oportunidade de ler alguém agora, a quem, de outro modo, possivelmente não teria acesso.

Dentro da caixinha vem um mimo mensal. Esse mimo varia bastante, pode ser uma mini-garrafa de vodka, um bloquinho e lápis personalizados, um sachê de café. Ele está ligado intimamente ao livro enviado. Um marcador de páginas, igualmente personalizado, acompanha a obra.


Por tudo isso, recomendo a TAG Experiências Literárias. É um jeito gostoso de se ter contato com livros. E a empresa vem tentando chegar mais perto do seu público, fazendo uma espécie de pós-atendimento: acabaram de criar um canal no YouTube, no qual podemos obter mais informações sobre os trabalhos literários recebidos, participar da lista de discussão.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Resenha nº 70 - O Caderno de Maya, de Isabel Allende


Isabel Allende é uma escritora peruana, já conhecida dos que frequentam este blog. Dela, já resenhei os seguintes livros: Inés de Minha Alma, Zorro e A cidade das Feras, motivo pelo qual dispenso repetir a biografia da autora. Seu título de maior impacto, que a lançou para o mundo literário, foi A Casa dos Espíritos, obra estreante, de 1982, que se tornou filme de sucesso. Isabel reside hoje no estado americano da Califórnia.

O Caderno de Maya é, para mim, o melhor livro de Allende que já li (ainda não li A Casa dos Espíritos). Facilmente, este livro é candidato à lista dos Melhores Livros Resenhados do Ano de 2016, neste blog. Editado pela Bertrand Brasil, é bastante diferente de outros trabalhos de Isabel Allende. Trata de um assunto bastante atual, o mundo das drogas. A personagem principal é uma adolescente problemática, Maya Vidal. Todo escrito em primeira pessoa, com um enredo não linear (as anotações do caderno dela vão constituindo os flashes, as incursões ao passado). Alguns leitores relataram dificuldades em seguir a história, exatamente pelos deslocamentos temporais da trama.

Deixemos, entretanto, que a própria Maya se apresente:

“Sou Maya Vidal, dezenove anos, sexo feminino, solteira, sem namorado — por falta de oportunidade, e não por frescura —, nascida em Berkeley, Califórnia, passaporte norte-americano, temporariamente refugiada numa ilha ao sul do mundo. Me chamaram de Maya porque minha Nini é fascinada pela Índia e não ocorreu outro nome a meus pais, mesmo tendo tido nove meses para pensar. Em hindi, maya significa ‘feitiço, ilusão, sonho’. Nada a ver com o meu temperamento. Átila me cairia melhor, porque onde boto os pés não nasce mais pasto.

Minha história começa no Chile com a minha avó, a minha Nini, muito antes de eu nascer, porque, se ela não tivesse imigrado, não teria se apaixonado pelo meu Popo nem teria se instalado na Califórnia, meu pai não teria conhecido minha mãe e eu não seria eu, mas uma jovem chilena muito diferente. ” (página 12, trecho reproduzido na quarta capa)

Maya Vidal se parece com sua mãe dinamarquesa Marta Otter; seu pai é um piloto de avião comercial. Quando os dois se separaram, logo após Maya nascer, a criança foi viver com os avós, Nidia Vidal (a quem ela chama de “minha Nini”) e Paul Ditson II (a quem Maya chama de “meu Popo”). Nidia é chilena de nascença e Paul é um professor afroamericano da Universidade de Berkeley, Califórnia, do ramo da astronomia. Eles formam um casal em relacionamento maduro, apesar de serem tão heterogêneos. Amam profundamente a neta e a relação entre Maya e seu Popo é algo profundo, transcendente, conforme se depreende do trecho abaixo:

“A enorme presença de meu Popo, com seu humor brincalhão, sua bondade ilimitada, sua inocência, seu colo para me ninar e sua ternura, preencheu a minha infância. Ele tinha um sorriso sonoro, que nascia nas entranhas da terra, subia pelos pés e o sacudia por inteiro. ” (página 56)

A morte deste avô muda completamente a vida de Maya. Está completamente transtornada, sem chão, numa depressão intensa:

“Uma dor assim, dor da alma, não se apaga com remédios, terapia ou férias; uma dor assim se sofre, simplesmente, a fundo, sem paliativos, como deve ser. Eu teria feito bem em seguir o exemplo da minha Nini, em vez de ficar negando que estava sofrendo e calando o uivo que levava atravessado no peito. No Oregon, eles me receitaram antidepressivos, que eu não tomava, porque me deixavam idiota. Vigiavam-me, mas eu podia enganá-los com chiclete escondido na boca, onde grudava o comprimido com a língua e, minutos depois, cuspia intacto. Minha tristeza era a minha companheira, não queria me curar dela como se fosse um resfriado. Também não queria compartilhar minhas lembranças com aqueles terapeutas bem-intencionados, porque qualquer coisa que dissesse a eles sobre o meu avô seria banal.” (página 84)

As péssimas companhias se tornam uma constante. De degrau em degrau, Maya se afunda, perde a dignidade de ser humano, passa por experiências terríveis, até chegar ao fundo do poço de sua curta existência. Envolve-se com crápulas, bandidos, e acaba tendo de se tornar uma refugiada numa ilha da costa chilena, Chiloé:

“Aqui não se alugam DVD’s nem videogames, e os únicos filmes são aqueles que passam uma vez por semana na escola. Para me distrair, disponho somente dos febris romances de amor de Blanca Schnake e dos livros em espanhol sobre Chiloé, muito úteis para se aprender o idioma, mas cuja leitura me cansa.”  (página 39)

Ali, naquela localidade tão distante do seu mundo, Maya conhece pessoas diversas, como a já citada Blanca Schnake e Miguel Arias – com um passado nebuloso. Participa de um ritual de “bruxaria” exclusivamente feminina, dedicada à deusa Pachamama, mas que funciona, na realidade, como uma espécie de terapia de grupo.

Mesmo quando se envolvera com bandidos como Brandon Leeman, Joe Martin e o Chinês, ainda encontrou pessoas boas, como o menino Freddy, que terá um papel muito importante para Maya. Lentamente, nossa personagem emerge de sua agonia existencial, não retornando exatamente à mesma configuração mental de antes, pois quem passa por experiências tão dramáticas dificilmente o conseguiria, mas alguém mais madura, mais curtida pela vida e por suas próprias escolhas.

A galeria de mulheres fortes de Isabel Allende está presente também nesse livro. Nidia Vidal se assemelha muito àquela Kate Cold de A Cidade das Feras, meio amalucada, mística, uma senhora pouco convencional. Sobre Maya, Isabel Allende mesma declara:

“Esta Maya me fez sofrer mais do que qualquer outro de meus personagens. Em alguns momentos, eu teria lhe dado uns tapas para fazê-la voltar à razão; em outros, eu a teria envolvido num abraço apertado para protegê-la do mundo e de seu coração imprudente.”
Ao utilizar Maya Vidal como narradora-personagem, contando sua vida em primeira pessoa, Isabel Allende pode deixar fluir seu romantismo de maneira bem intensa, pois isso é inteiramente coerente com uma adolescente que, mesmo passando por terríveis situações, ainda conserva um coração capaz de apaixonar-se perdidamente por alguém. E sentimos imediata simpatia por essa jovem, pela ousada coragem de existir, atravessando tantas dificuldades, para se reerguer. É a função catártica da tragédia, tão a gosto dos antigos gregos, sabedores disto e de muitas outras coisas importantes.

Várias reviravoltas acontecem durante a leitura da obra. Isabel sabe misturar muito bem reflexões sobre a vida, personagens fortes e bem construídas com altas doses de aventuras – algo rocambolescas, diriam muitos. E, acrescentaria eu, com notas fortes de espiritualismo primitivo. Primitivo aqui não é depreciativo, mas está por “natural”, ligado às crenças das pessoas simples, em conexão com a natureza. A ilha de Chiloé tem sua própria mitologia, seu folclore próprio.

Perguntas importantes vão tendo respostas no decorrer do trabalho: exatamente por que Maya tem de se refugiar num lugar tão improvável? Que passado misterioso viveu Miguel Arias, dadas as suas características estranhas, atualmente? Por que Miguel Arias, apesar de ter gênio tão difícil, mostra-se tão solícito com Maya? Há alguma relação entre Nidia Vidal e Miguel Arias? Quem, realmente, é o policial Arana? Quem foi Felipe Vidal e que importância poderia ter tido? O que Maya foi fazer na Villa Grimaldi?

Pitadas da história, muitas vezes de acentuado viés político do Chile, como já é uma característica de Allende, também são fornecidas neste livro. A ação se passa quando aquele país andino estava sob o governo de Michelle Bachelet.

O Caderno de Maya nos traz momentos de leitura muito prazerosa. Como nos diz Yuval Harari, em outro livro anteriormente resenhado aqui neste blog, Sapiens – uma breve história da humanidade –, o homo sapiens dominou as outras espécies porque aprendeu a contar histórias e compartilhá-las com seus semelhantes. Isabel Allende faz isso muito bem; conduz suas narrativas com mãos seguras e experientes. E a escola americana sabe como poucas criar enredos viciantes, uma forte influência, penso eu, dos roteiros para cinema hollywoodianos.

Leitura altamente recomendável!


ALLENDE, Isabel. O Caderno de Maya. Editora Bertrand Brasil, 2ª edição. Rio de Janeiro, RJ: 2012

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Clipping: Morre Umberto Eco

Conheça a história de Umberto Eco, grande intelectual e autor de sucesso mundial
Estudioso, linguista e filósofo alcançou a fama em todo o mundo com um romance medieval e erudito, "O nome a rosa"
AFP - Agência de Notícias Publicação:20/02/2016 10:36

Resultado de imagem para Umberto Eco
Grande intelectual italiano, o escritor Umberto Eco, que morreu na noite de sexta-feira aos 84 anos, era um estudioso, linguista e filósofo, que alcançou a fama em todo o mundo com um romance medieval e erudito, "O nome a rosa". Filósofo de formação, ficou famoso tarde, quando estava próximo de completar cinquenta anos, tendo conseguido um enorme feito com seu primeiro romance, publicado em 1980. "O nome da Rosa" vendeu milhões de cópias e foi traduzido para 43 idiomas.

O livro foi adaptado para o cinema, em 1986, pelo francês Jean-Jacques Annaud, com Sean Connery no papel do monge franciscano Guillaume de Baskerville, o ex-inquisidor encarregado de investigar a morte suspeita de uma freira em uma abadia do norte da Itália. Salpicado com latin, o suspense deste renomado semiólogo foi ainda alvo de edições piratas, incluindo uma em árabe sob o título de "Sexo no convento".Outra consequência, significativa para a mercado editorial italiano, "O nome da rosa reviveu o romance na Itália e a literatura italiana no exterior. Os escritores italianos voltaram a ser traduzidos", ressalta o escritor e crítico italiano Alain Elkann. Eco, neto de um editor da pequena burguesia, contou que começou a escrever aos dez anos de idade histórias que ele mesmo editava.

Nascido em Alessandria, no norte da Itália, em 5 de janeiro de 1932, Umberto Eco estudou Filosofia na Universidade de Turim e dedicou sua tese ao "problema estético em Tomás de Aquino". Este especialista em história medieval, que traduziu Nerval em italiano e que conhecia de cor Cyrano de Bergerac, também trabalhou para a rádio-televisão pública italiana RAI, uma oportunidade que lhe serviu para estudar o tratamento da cultura pela imprensa.

Poliglota, casado com uma alemã, Eco lecionou em várias universidades, especialmente em Bolonha (norte), onde ocupou a cadeira da semiótica até outubro de 2007, quando se aposentou. Eco explicou que demorou para embarcar no gênero da ficção porque "considerava a escritura romanesca como uma brincadeira de criança que ele não levava a sério".

Homem de esquerda

Depois de "O nome da rosa", ele ofereceu aos seus leitores "O Pêndulo de Foucault" (1988), "A Ilha do Dia Anterior" (1994) e "A Misteriosa Chama da Rainha Loana" (2004). Seu mais recente romance, "Número zero", publicado em 2014, é um thriller contemporâneo centrado no mundo da imprensa.

Ele também é o autor de dezenas de ensaios sobre temas tão diversos como a estética medieval, a poética de Joyce, a memória vegetal, James Bond, a história da beleza ou da feiura. "A beleza se situa dentro de certos limites, enquanto a feiura é infinita, de modo mais complexo, mais variado, mais divertido", explicou em uma entrevista em 2007, acrescentando que sempre "teve afeição por monstros".

Afirmando que "escrevia para se divertir", Il Professore - de olhos maliciosos e uma barba branca - também era bibliófilo e possuía mais de 30.000 títulos, incluindo edições raras. "Eco era o primeiro da turma, muito inteligente, muito erudito. Ele encarnou a figura do intelectual europeu. Sentia-se tão a vontade em Paris ou Berlim quanto em Nova York ou no Rio de Janeiro", afirma Alain Elkann.
Militante de esquerda, Eco não foi um escritor trancado em sua torre de marfim, sua abertura não o impediu de ter um olhar crítico para com a evolução da sociedade moderna. Após a vitória eleitoral de Silvio Berlusconi em 2008, dedicou um artigo ao retorno do espírito dos anos 40, lamentando "ouvir discursos semelhantes aos da 'defesa da raça', que não só atacava os judeus, mas também ciganos, marroquinos e estrangeiros em geral".

Sua última luta foi conduzida juntamente com outros escritores, incluindo Sandro Veronesi (Chaos calma), para proteger o pluralismo das editoras na Itália após a aquisição da RCS Libri pela Mondadori, propriedade da família Berlusconi. Umberto Eco e outros grandes nomes da literatura italiana decidiram então se juntar a uma editora nova e independente batizada "La nave di Teseo" (o navio de Teseo, o mítico rei de Atenas), liderada por Elisabetta Sgarbi, ex-diretora da Bompiani, florão do grupo RCS, editora na Itália de Umberto Eco, mas também do francês Michel Houellebecq.


 Fonte: Jornal Estado de Minas, 20/02/2016

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Resenha nº 69 - Sapiens - Uma Breve História da Humanidade

Resultado de imagem para livro sapiens uma breve história da humanidadeNo tocante à biografia, vamos deixar falar a orelha do livro: “Yuval Noah Harari é doutor em história pela Universidade de Oxford, especializado em história mundial e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. Sua linha de pesquisa gira em torno de questões abrangentes, tais como: qual a relação entre história e biologia? Existe justiça na história? As pessoas se tornam mais felizes com o passar do tempo?

Sapiens – uma breve história da humanidade foi lançado originalmente em Israel, em 2011, e logo se tornou um best-seller internacional, sendo publicado em quase quarenta países. Milhares de pessoas fizeram o curso on-line do professor Harari sobre a história da humanidade, e suas palestras no YouTube tiveram centenas de milhares de visualizações em todo o mundo. Em 2012, ele recebeu o Prêmio Polonsky por Criatividade e Originalidade nas Disciplinas Humanísticas.”

Esta não é uma obra de ficção e, por esse motivo, um livro difícil de ser lido, na concepção de um grande público não afeito a trabalhos dissertativos de grande fôlego. Note-se, também, que ele não é exatamente um texto acadêmico característico, usando todo um aparato técnico-conceitual, no qual o autor se preocupa quase que exclusivamente em provar suas teses, demonstrar raciocínios, levantar hipóteses e tirar conclusões. Filia-se ao conceito algo vago de “divulgação científica”, a caracterizar uma obra que, sem perder seu foco dissertativo, “doma” os termos técnicos, é parcimoniosa no uso de gráficos e fórmulas matemáticas e se direciona ao público leigo.

Harari produz um trabalho exemplar. Não é à-toa o seu sucesso de crítica e de público – a L&PM, editora do livro, faz questão de destacar sobre a capa branca da obra uma tarja vermelho-cheguei com os dizeres “Best-seller Internacional”, em letras garrafais. Como um texto que tinha tudo para ser árido, como se depreende do subtítulo “uma breve história da humanidade” pode ter se tornado um êxito editorial junto ao público? Veremos o porquê mais tarde.

O fato é que Yuval Noah Harari é originalíssimo em sua tese central e igualmente nos argumentos que levanta para defendê-la. Sapiens – uma breve história da humanidade é muito bem escrito, bem articulado; de acordo com The Times, “Harari sabe escrever [...] de verdade, com gosto, clareza, elegância e um olhar clínico para a metáfora.”

Responda rápido, amigo leitor, qual é o único lugar onde os conteúdos (disciplinas) são tratados de modo estanque? Resposta imediata: na escola! Em qualquer outra situação, nossos conhecimentos de geografia, biologia, história, língua – vários conteúdos, portanto –, são requisitados no processo de leitura. Uns conteúdos mais, outros menos, mas serão sempre vários. E aí está o primeiro trunfo do livro: o professor Yuval consegue articular uma massa de conteúdos, harmoniosamente interligados. Tanto assim que é tarefa quase impossível a classificação do livro. É uma obra de história? Biologia? Articula conhecimentos de linguística, de geografia, antropologia, sociologia.

Sua tese central: o homem conseguiu sua supremacia incontestável sobre qualquer outra espécie nesse planeta devido à sua capacidade de criar e compartilhar mitos. Ou seja, sua capacidade de criar ficção. E é aí que, literalmente, o bicho pega!

O autor divide a história da humanidade em algumas etapas que, para ele, foram decisivas: A Revolução Cognitiva, A Revolução Agrícola, A Unificação da Humanidade, A Revolução Científica. Nas páginas 7/8 há uma cronologia, uma planta baixa de todo o trabalho de Harari.

Surge o homo sapiens sobre a face do planeta, mas a primeira grande etapa, ocorrida há uns 70 mil anos, é a Revolução Cognitiva. O nascimento da linguagem ficcional modifica tudo. O Homem passa a contar com a possibilidade de narrar histórias, criar ficção, relacionar-se com seus deuses, obter conhecimento e falar sobre suas experiências; os homo sapiens se espalham a partir do continente africano. Aqui, essa nova humanidade, mais inteligente em relação aos existentes e mais atrasados neandertais, ainda é composta de caçadores-coletores. Isto é, vivem do que conseguem obter em termos de caça e coleta de vegetais. São nômades, ainda não formam propriamente uma sociedade. Logo suplantam por completo os neandertais.

Há aproximadamente 12 mil anos, aqueles caçadores-coletores passam por outra etapa decisiva em sua história: a Revolução Agrícola. Aqui, já os encontramos em assentamentos permanentes, com a domesticação de animais e de plantas. Acontece a invenção do dinheiro, dos impérios, das grandes religiões.

A Revolução Industrial data de 200 anos. Por toda a parte, e cada vez mais, as máquinas criadas pelo homem fazem o trabalho que era deles. A família e a comunidade se enfraquecem e são substituídas pelo poder do Estado e do mercado. Há extinção em massa de plantas e animais. Os humanos transcendem os limites do planeta Terra, as armas nucleares se tornam uma ameaça efetiva à sobrevivência da humanidade. Os organismos são moldados não mais pela chamada seleção natural, mas pela interferência do homem (design inteligente).

Essa massiva supremacia do Homem começou, como dito, lá atrás, na Revolução Cognitiva. Ao ser capaz de criar mitos e de propagá-los, modificou o modo de ver o mundo. Somos o único animal que acredita em coisas que não existem, construtos abstratos, como nação, povo, dinheiro, benefícios previdenciários, e Harari não hesita em apontar, também as religiões como coisas pertencentes ao domínio da abstração.

Nossa linguagem – um número infinito de sons – é extremamente versátil:

“Um macaco-verde pode gritar para seus camaradas: “Cuidado! Um leão!”, mas um humano moderno pode dizer aos amigos que esta manhã, perto da curva do rio, ele viu um leão atrás de um rebanho de bisões. Pode então descrever a localização exata, incluindo os diferentes caminhos que levam à área em questão. Com essas informações, os membros do seu bando podem pensar juntos e discutir se devem se aproximar do rio, expulsar o leão e caçar bisões.” (página 31)

A partilha dos mitos levou os humanos à cooperação e, consequentemente, ao crescimento de suas realizações:

“Toda cooperação humana em grande escala – seja um Estado moderno, uma igreja medieval, uma cidade antiga ou uma tribo arcaica – se baseia em mitos partilhados que só existem na imaginação coletiva das pessoas. As igrejas se baseiam em mitos religiosos partilhados. Dois católicos que nunca se conheceram podem, no entanto, lutar juntos em uma cruzada ou levantar fundos para construir um hospital porque ambos acreditam que Deus encarnou em um corpo humano e foi crucificado para redimir nossos pecados. Os Estados se baseiam em mitos nacionais partilhados. Dois sérvios que nunca se conheceram podem arriscar a vida para salvar um ao outro porque ambos acreditam na existência da nação sérvia, da terra natal sérvia e da bandeira sérvia. Sistemas judiciais se baseiam em mitos jurídicos partilhados. Dois advogados que nunca se conheceram podem unir esforços para defender um completo estranho porque acreditam na existência de leis, justiça e direitos humanos – e no dinheiro dos honorários.” (página 36)

Harari afirma, a certa altura do texto, que as guerras de grandes proporções não têm como acontecer no mundo de hoje, não porque as pessoas tenham se tornado melhores, mas porque tais conflitos não seriam rentáveis. Além do mais, os “tesouros” a conquistar migraram do natural (petróleo, ouro, por exemplo) para o mítico/intelectual (a informação, as pesquisas, o conhecimento). Outra razão, sempre de acordo com Yuval, é que os países, ao se tornarem globalizados, também se tornaram interdependentes e ninguém, efetivamente, lucraria com uma guerra de proporções planetárias – porque todos sairiam perdendo. Além do mais, o arsenal nuclear, cujo poder destrutivo faria desaparecer o planeta, construiu uma “pax atômica”, que refreia qualquer anseio de dominação por meio de armas.

Respondamos agora à questão: por que Sapiens – uma breve história da humanidade se tornou um best-seller, apesar do assunto pretensamente árido? Yuval Harari escreve com absoluto domínio textual. Um trabalho dissertativo, mesmo aqueles mais palatáveis ao gosto do grande público, não deixa de ter alguma aridez. Mas este é um trabalho que se enquadra bem nesses tempos do pós-moderno: é um texto de características híbridas, pois combina o rigor da exposição e da argumentação tipicamente dissertativas com sarcasmos, piadas, brincadeiras semânticas tipicamente narrativas. Vejamos algumas passagens.

A presença do sarcasmo se evidencia:

“Contudo, o profeta Mani não fez qualquer tentativa de oferecer uma fórmula matemática que pudesse ser usada para prever escolhas humanas por meio da quantificação da força respectiva dessas duas forças. Ele nunca calculou que “a força atuando sobre um homem é igual à aceleração de seu espírito dividida pela massa de seu corpo.” (página 265)

Um tipo de deslocamento semântico, como os usados pelo nosso Machado de Assis pode soar estranho num trabalho dissertativo:

“Truman decidiu usar a nova bomba. Duas semanas e duas bombas atômicas depois, o Japão se rendeu incondicionalmente, e a guerra chegou ao fim.” (página 272)

Por deslocamento semântico entende-se essa aproximação, dentro de uma mesma frase, de duas categorias de palavras diferentes, numa mesma função sintática “semanas” e “bombas atômicas”, uma circunstância e um substantivo, onde seria de se esperar uma circunstância (de tempo) seguida de outra circunstância (de tempo).

Uma piada, insolitamente, vai aparecer lá na página 294, incluída por Harari:

“Em 20 de julho de 1969, Neil Armstrong e Buzz Aldrin aterrissaram na superfície da Lua. Nos meses que antecederam sua expedição, os astronautas da Apollo 11 treinaram em um deserto remoto similar ao da Lua, no oeste dos Estados Unidos. A área é o lar de várias comunidades indígenas, e existe uma história – ou lenda – descrevendo um encontro entre os astronautas e um dos habitantes locais.
Um dia, enquanto estavam treinando, os astronautas se depararam com um velho índio. O homem lhes perguntou o que eles estavam fazendo. Eles responderam que eram parte de uma expedição de pesquisa que em breve viajaria para explorar a Lua. Quando o velho escutou isso, ficou em silêncio por alguns instantes e então perguntou aos astronautas se eles poderiam lhe fazer um favor.
— O que você quer? –, eles perguntaram.
— Bem – disse o velho –, as pessoas da minha tribo acreditam que a Lua é habitada por espíritos sagrados. Eu estava pensando se vocês poderiam transmitir a eles uma mensagem importante do meu povo.
— Qual mensagem? – perguntaram os astronautas.
O homem proferiu algo em sua língua tribal e então pediu que os astronautas repetissem de novo e de novo, até memorizarem corretamente.
— O que significa? – os astronautas perguntaram.
— Ah, não posso lhes dizer. É um segredo que só a nossa tribo e os espíritos da Lua podem saber.
Quando voltaram à base, os astronautas procuraram e procuraram até que encontraram alguém que sabia falar a língua tribal e lhe pediram para traduzir a mensagem secreta. Quando repetiram o que haviam memorizado, o tradutor começou a gargalhar. Quando se acalmou, os astronautas perguntaram o que significava. O homem explicou que a frase que eles haviam memorizado com tanto cuidado queria dizer: “Não acredite em uma única palavra do que essas pessoas estão lhe dizendo. Eles vieram roubar suas terras”.

As 462 páginas deste livro englobam, ainda, um índice remissivo, notas relativas a vários trechos dos capítulos e uma sólida bibliografia acadêmica.

Se você é um fiel de qualquer religião, pode se sentir incomodado com o tratamento que Yuval Noah Harari dá às religiões de um modo geral, à católica de um modo restrito, caracterizando-as como mera imaginação coletiva. Lembre-se, entretanto, por mais que Sapiens – uma breve história da humanidade seja um texto leve, gostoso de ler, é um trabalho acadêmico. Ciência e religião são como óleo e água – não costumam se misturar. Dê o desconto devido; se lhe aprouver, relaxe e aproveite. Esse livro muda a maneira ingênua como vemos o mundo e os seres de carbono que vemos neles, nossos pares.

HARARI, Yuval Noah. Sapiens – uma breve história da humanidade. Editora L&PM. Rio Grande do Sul, RS: 2012