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domingo, 19 de julho de 2020

Resenha nº 161 - Os Novos Moradores, de Francisco Azevedo


Os novos moradores por [Francisco Azevedo]Título original: Os Novos Moradores
Autor: Francisco Azevedo
Editora: Record
Edição: 3ª
Copyright: 2017
ISBN: 978-85-01-11057-2
Gênero Literário: Romance
Origem: Literatura Brasileira

Francisco Azevedo já era meu conhecido. Dele, já lera Arroz de Palma, resenhado neste blogue. Como no livro anterior, neste Os Novos Moradores Azevedo volta à ambiência que o consagrou – Arroz de Palma se tornou um sucesso de público e de crítica. Aqui também o ambiente é o familiar. Mas, lá como cá, engana-se quem pensa estar diante de dramas miúdos e somente bem-escritos. Desfilam situações incômodas, desafios, anseios por liberdade. Pode-se ir rapidamente do inferno ao paraíso, muita vez sem se passar pelo purgatório. Tempos modernos, questionados estão os conceitos antigos de família. Que escritor é este Francisco Azevedo! Seu estilo poético se detém sobre objetos domiciliares para deles extrair aspectos da intimidade dos personagens. Leitura fluente, apaixonante mesmo. Os Novos Moradores, na minha opinião, não fica nada a dever ao romance de estreia do autor. E olha, isto não é tão comum assim, conseguir duas obras tão boas em tão pouco espaço de tempo...

Francisco José Alonso Vellozo Azevedo nasceu no Rio de Janeiro, em 23/02/1951. É romancista, dramaturgo, roteirista, poeta e ex-diplomata. Começou a dedicar-se à literatura em 1967, quando venceu o concurso promovido pela Organização dos Estados Americanos (OEA).

Em 1978, publica seu primeiro trabalho, um livro de poesias, Contra Os Moinhos de Vento.  1984 nos dá A Casa dos Arcos (nome pelo qual é conhecido o Palácio do Itamaraty), com textos e poemas de sua lavra. 1994 nos traz a peça Casa de Prostituição Anaïs Nin; 1997, veio a comédia dramática Coração na Boca. Arroz de Palma surgiu em 2008 e em 2012, aparece Doce Gabito.

Tenho gosto especial – os que me leem já o perceberam – pelos parágrafos de abertura dos livros e aqui não será diferente:
“Idênticas na simplicidade dos traços. Duas fachadas em perfeita simetria – como se um só corpo a se olhar no espelho. Na aparência, amantes inseparáveis, unidas por invejável equilíbrio. Na intimidade, estranhas siamesas coladas pelo destino ou pelo acaso, quem poderá saber? Hoje, com o distanciamento e a isenção da maturidade, Cosme reconhece que, temperamentos opostos, ambas foram essenciais em suas vidas. A casa de cá – onde viveu até os 23 anos –, fria, desconfiada e tediosa. Enquanto a casa de lá – para onde se mudou depois –, atrevida, imprevisível, dionisíaca. Já era assim na época de Vicenza Dalla Luce, cantora lírica de gloriosa memória. Conhecida por sua raríssima voz e pelos lautos almoços e jantares que promovia – festas animadíssimas que, é claro, infernizavam a vida dos Soares Teixeira, seus vizinhos.” (página 19)
Pronto. Que nos diz este parágrafo inicial? Repare o leitor o modo pelo qual o narrador criado pelo autor nos apresenta as casas geminadas: perfeita simetria, amantes inseparáveis na aparência, estranhas siamesas na intimidade. São adjetivadas como uma, fria, desconfiada, tediosa; a outra, atrevida, imprevisível, dionisíaca. Pontos bastantes para caracterizarmos, de vez, as ditas casas geminadas como personagens deste excelente romance. E mais, há uma sombra, há um não dito pairando sobre os telhados – a casa de cá e dionisíaca – Dionísio é o nome grego para o romano Baco. Deus ligado aos ciclos campestres de colheita e plantio, ao vinho, aos sentidos, aos ciclos vitais de morte e nascimento; liga-se também à fertilidade. Prenúncio: vem aí um drama envolvendo sentidos, amantes, sexo.

O tempo passa, uma das casas geminadas muda de mãos. Mantém, entretanto, cada uma delas, suas respectivas personalidades. Morador da casa de cá, Cosme tem uma relação amorosa com Vicenza, residente na casa de lá. Entretanto, ela se muda, indo embora no verão de 1985 – para a alegria dos pais dele, pois Vicenza era trinta anos mais velha que o amante.

Fica sozinho o apaixonado Cosme; sozinho, na casa vazia, ele relembra seu amor:
“Cosme não pensa duas vezes, tira a roupa, entra no boxe, torneiras abertas ao máximo como era hábito seu. A generosa catadupa bate-lhe nas costas, no peito, no rosto. Olhos fechados, água escorrendo forte, ele relembra trechos da carta que lhe chegou na véspera. Descobre então que aquela última visita não celebra apenas a casa que lhe é tão especial. Celebra mais. Celebra a promessa feita a Vicenza de manter o espírito independente e livre! Ali mesmo, quando se despediram, ela lhe disse que, em dia não muito distante, ele entenderia que ambos haviam cumprido os seus papéis e que era hora de se aventurar em novas histórias, novos amores. Quem sabe algum assim da sua idade, excessivo e visionário como ele?
Cosme já não precisa da toalha, deixa-a lá mesmo caída na banheira – para quem está no paraíso, nudez é traje adequado. No quarto, o cenário pronto: velas e incensos acesos, os poucos itens harmoniosamente dispostos no chão que é todo ele mesa e todo ele cama. Vicenza se faz presente com a “Bachiana número 5”, de Villa-Lobos. O vinho é servido nos cálices, o pão é partido e posto nos pratos. A mão direita brinda com a esquerda aquele momento único. Juntas, como se numa oferenda pagã, levam à boca o sangue de Dionísio. Depois, o pão molhado no vinho é corpo triturado por impiedosos dentes. Corpo mastigado e ingerido sem o menor cuidado, porque o corpo de Dionísio não foi dado por nós nem nos redime os pecados. Porque o corpo de Dionísio é luxúria e êxtase e saudável perdição.”  (página 27)
Uma celebração em dois planos, certamente; num, plano da tradição do cristianismo, a celebração do amor incondicional que se dá por inteiro; noutro, o amor carnal, que se realiza por inteiro.

Mas, para a casa de lá mudam-se novos moradores. Inês, Pedro, Amanda e Estêvão. Saíram do Sul e vêm para o Rio de Janeiro. Um acidente doméstico tira a vida de D. Carlota, mãe de Cosme e Damiana e tal fato faz se aproximarem Amanda, o irmão desta, Estêvão, e Cosme.

Pela visão do narrador – um narrador onisciente seletivo – ficamos sabendo de uma série de não ditos, agasalhados sob os telhados daquelas duas famílias e um deles é o da própria Inês, mãe de Amanda e Estêvão:
“Inês volta ao presente. Com gestos conformados, tira as fronhas dos travesseiros e solta o lençol de forro para dobrá-lo também. O colchão despido é voo à adolescência: Ela e aquele colega de faculdade que mal conhecia se espremiam na mesma cama de solteiro em busca do êxtase. Depois, a paz, o sono, agradecido. Na manhã seguinte, o se dar conta sem culpa, o arrancar os panos sujos de sangue e pronto, só lavar. Água e sabão servem para isso. Só que manchas aqui não estão na cama. Lá, a juventude, o prazer, a poesia na contestação, no afrontar os intolerantes e preconceituosos. Os sonhos de mudar o mundo! Aqui, a dor, a decepção, a desesperança, por quê? Não teriam os filhos recebido dos pais a rebeldia, a audácia, a mesma paixão pelo risco? E a obsessiva busca da verdade, não terão também herdado?” (página 231)
O que acontecera com os dois filhos muda a história, transforma toda a família, que terá de se desfazer  e nesse desfazimento, deixar entrar novas formas de ver e de sentir, para, muito tempo depois, retornarem os elementos, a recompor a família. Os tempos são outros, tem mudado o conceito de família, que abre espaço para grupos compostos por dois pais e filhos, duas mães e filhos, além do cardápio tradicional, pai e mãe e filhos. Mais que isso, não adianto, sob pena de irreparável crime de spoiler.

Este jogo de claro-escuro, ditos e não ditos – com supremacia na história para os não ditos – prossegue. O que a filha Amanda vira, certa vez, não era bem o que vira, como nos conta a própria Dona Inês:
“Inês volta a se sentar ao lado da filha, cria coragem.
— Acontece que aquela aluna que você viu seu pai beijar no carro não teve culpa de nada.
— Não?
— Eu sabia de tudo. Eram fantasias minhas e de seu pai, jogo combinado. No fim das contas, a garota é que foi usada. Prepotente, pensava que havia seduzido o professor de renome, mas foi exatamente o contrário.
O impacto é grande. Olhos cheios d’água. Amanda leva algum tempo para assimilar a informação.
— Ela soube?
— Não. Seria cruel demais. Ela nos ajudou a viver a nossa fantasia, e nós deixamos que ela vivesse a dela. Ninguém saiu machucado.
— Bem criativo. Parece romance de Henry Miller e Anaïs Nin.” (página  287) 
Disse linhas acima que o narrador é onisciente seletivo. Isto porque, sabendo tudo o que se passa na cabeça e no coração dos personagens envolvidos, ele não nos revela tudo; astutamente, a bem do correr da história, ele seleciona e esconde fatos, como se vê nesta passagem: 
“Acontece que sobre Pedro Paranhos não nos é dado falar nada por enquanto, paciência. Há apenas a torcida para que esteja bem, enquanto insiste em se manter afastado assim. Como se fosse possível apagar o passado, esquecer-se de tudo e de todos. Perda de tempo, trabalho inútil. Tanta inteligência, para quê?” (página 314)
Outros fatos acontecem. Estêvão vai embora para Paris, reata o relacionamento com aquela Vicenza, separa-se dela, relaciona-se com uma francesinha, se separa dela. Volta ao Brasil. Enfim, a família modificada pelos acontecimentos se reorganiza, assim como as duas casas:
“Ao passar para as mãos de Cosme, a casa de cá ganhou vida, se reinventou, rejuvenesceu. Quando se olhou refletida em seu novo dono, era outra. Percebeu que o que a mantinha de pé não era o vigamento de ferro, era estrutura óssea. Nela, tudo respirava, tudo transpirava. O cimento virou pele, o tijolo virou carne. As portas tinham bocas e as janelas tinham olhos. Seu coração batia solto por toda parte, porque finalmente estava pronta para se unir à casa de lá. Cosme levou a proposta a Amanda, a Pedro e a Inês. Depois, conversou com Petra. Surpresa: Todos, algum dia, já haviam imaginado juntar as casas! Portanto, Orlando Salvatori Andretti ainda teve essa alegria. Dedicou-se ao projeto com entusiasmo adolescente e devoção anciã. E o fez de graça, tal seu contentamento. Dezenove de maio de 2015: a equipe da OSA Engenharia e Arquitetura Ltda. chegou disposta – euforia berlinense de 1989 –, e o muro que separava os jardins caiu em questão de horas.” (página 404)
A união das casas, desta forma, reflete a união das famílias. De maneira figurada, a aproximação da queda do muro que separava os jardins e a queda do muro de Berlin funciona, neste caso, como símbolo da superação de obstáculos e dificuldades; podem os relacionamentos serem enfim aceitos, aceitando-se as pessoas como são: as casas já se juntaram.

Se eu tivesse de resumir a característica principal deste trabalho em uma expressão apenas, escolheria romance do não dito. Relacionamentos e fantasias sexuais se misturam, a princípio não ditas, atingem um nível de tensão tal que, enfim, transbordam, têm de se revelar.
Excelente livro, este Os Novos Moradores.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Resenha nº 160 - Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski


Noites brancas: Dostoiévski, Fiódor: Amazon.com.br: LivrosTítulo original: Biélye Nótchi
Autor: Fiódor M. Dostoiévski
Tradutor: Nivaldo dos Santos
Editora: 34
Edição: 3ª
Copyright: 2005
ISBN: 978-85-7326-335-0
Gênero: Novela
Origem: Literatura Russa
Pequena bibliografia: Gente Pobre, 1846; O Duplo, 1846; Noites Brancas, 1848; Humilhados e Ofendidos, 1861; Crime e Castigo, 1866; Os Demônios, 1872; Os Irmãos Karamázov, 1881; Coração Fraco, 1848; O Sonho do Tio, 1859; Mujique Márei, 1876; Uma Criatura Gentil, 1876 e O Sonho de Um Homem Ridículo, 1877.

Impressões ao ler:

Resenhar qualquer livro de Dostoiévski é sempre difícil para mim. É-me complicado atingir o distanciamento necessário para uma visão mais crítica da sua produção. Quando se misturam sentimentos de admiração, torna-se um trabalho árduo o afastamento necessário à análise.  Considero-o um dos maiores escritores de toda a literatura mundial, apesar de haver muita controvérsia sobre a qualidade de sua literatura. Este Noites Brancas é uma pequena obra-prima e tem características próprias, se comparado com o restante do monumental trabalho deste escritor russo. Trata-se de uma novela romântica, cujo protagonista nem recebe um nome – é referido como o sonhador – um jovem que se apaixona platonicamente por Násthienka. Já li este volume, acho eu, umas quatro vezes, além de ter ido ver uma adaptação do texto para teatro. Na verdade, O sonhador me pareceu um personagem na eminência de se apaixonar, mesmo antes de encontrar o objeto de seu amor. Eles têm quatro encontros, o suficiente para o rapaz se derreter. O que queria Dostoiévski, ao compor tal história? Aponta-se que ele desejava fazer uma crítica ao romantismo. Não é um romantismo característico, a meu ver, uma vez que o autor dá muita importância ao componente psicológico da construção do protagonista. Está lá a contradição de suas criaturas. Násthienka ganhou uma complexidade maior, ela não é simples de se  entender. Seja como for, este pequeno texto de 87 páginas ainda será lido por mim mais não sei quantas vezes. E olhe que não tenho muita simpatia por literatura romântica...

Pequena biografia:

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski veio ao mundo em Moscou, no dia 11/10/1821. Filho do casal Mikhail Dostoiévski e Maria Dostoevskaia. Sua família não era abastada; o pai era médico militar, mas um médico, naquela época, não ganhava bem. Sua mãe era do lar. Mesmo com os parcos recursos de que dispunham, havia seis serviçais, extravagância que ajudava a compor uma imagem de status. Além de educação religiosa – a família era de cristãos ortodoxos – Dostoiévski e seus irmãos receberam uma educação literária, fruto da influência dos pais. Nosso autor perdeu-os quando ele era ainda muito novo.

Estudando na Academia Militar de São Petersburgo, Dostoiévski teve acesso aos autores Victor Hugo, Honoré de Balzac, George Sand, Eugène Sue. O poeta precursor do romantismo alemão, Friedrich Schiller (autor de Guilherme Tell), também se constituiu em uma forte referência para Fiódor.

Seu primeiro trabalho foi o romance epistolar, intitulado Gente Pobre. Este  tornou-se um sucesso, pois de acordo com a avaliação do crítico literário mais famoso de Moscou, Belinski, tratava-se da primeira tentativa de literatura realista entre os russos. Entretanto, os trabalhos seguintes de nosso autor não mereceram a mesma elogiosa avaliação, inclusive deste crítico.

Dostoiévksi sempre lutou contra dificuldades financeiras. Viciou-se no jogo – experiência que é referida em seu romance O Jogador. Também foi preso, suspeito de conspirar contra o czar Nicolau I, e diante do pelotão de fuzilamento, teve a pena comutada em prisão na penitenciária, na Sibéria. Tal experiência foi importantíssima para a composição de uma das obras de Fiódor, Recordação da Casa dos Mortos.

Para abreviar – esta “pequena biografia” já vai se alongado sobremaneira – Dostoiévski teve problemas de saúde, e produziu muitos dos seus trabalhos sob pressão para cumprimento de prazo. Morreu em 09/02/1881, aos 59 anos.

O Livro:

Noite Brancas encerra a primeira fase de Dostoiévski. Ele vai notabilizar-se pelos grandes romances como Crime e Castigo, Os Demônios, Os Irmãos Karamázov – todos escritos após seu regresso da detenção na Sibéria.

O enredo de Noites Brancas não poderia ser mais simples: um rapaz, o sonhador, encontra, certa noite em Moscou, uma jovem molestada por um estranho; o protagonista, então socorre a jovem. Iniciam ali um relacionamento em que os sentimentos, de um e de outro, vêm à tona. A jovem tinha ido ao encontro de seu amado, que não comparece.

As “noites brancas” do título se referem a um fenômeno comum na Rússia, país localizado muito perto do Polo Norte; elas dão nome à claridade algo leitosa que banha as cidades. Não são tão escuras como a noite normal, nem tampouco claras como o dia. Ali o sol não se põe por completo, mergulhando tudo num clima meio fantasmagórico. É deste dado natural que se apropria Dostoiévski para compor sua narrativa.

Não há propriamente ação nesta obra. Como já disse, todo o enredo é composto do que se dizem os dois personagens, pouco a pouco aprofundando seus sentimentos e suas confissões. Altruísta, o sonhador demonstrará, acima de tudo, um amor incondicional à sua Násthienka; deseja acima de tudo a felicidade dela.

Já se disse, em literatura nem sempre é importante o que se diz, mas, muito mais, o como se diz. De forma bastante condensada, o escritor nos relata os quatro encontros entre os jovens, sempre com a projeção do terceiro elemento, o prometido de Násthienka, sobre a cabeça destes dois.

Lendo a novela, duvidamos várias vezes sobre se este terceiro elemento do triângulo amoroso realmente existe, ou se é um delírio da jovem, uma vez que seus relatos não são muito confiáveis. Ela mora com uma avó possessiva e cega que, a certa altura da narrativa, a amarra a si, para que a jovem não se afaste. Dostoiévski constrói um clima de sentimentos exarcebados, ainda mais acentuados pelas fantasmagóricas, espectrais noites brancas – em muito lembrando as composições literárias das obras de E. T. A. Hoffman (autor de O Quebra-nozes e O Camundongo Rei, de 1816).
“Era uma noite maravilhosa, uma noite tal como só é possível quando somos jovens, caro leitor. O céu estava tão estrelado, um céu tão luminoso, que ao olhá-lo seríamos obrigados a nos perguntar infalivelmente: como pode viver sob um céu assim toda sorte de gente irritadiça e caprichosa? Esse também é um questionamento de quem é jovem, caro leitor, muito jovem, mas que Deus o possa inspirar-lhe muitas vezes!...” (Primeira Noite, página 11)
O ambiente confessional já está presente neste primeiro encontro entre Násthienka (apelido familiar de Anastácia) e o sonhador. Vejam como Dostoiévski utiliza o diálogo para nos fornecer algumas características importantes do personagem:
“ — Sim, se meu braço está tremendo é porque ele nunca foi rodeado por uma mãozinha tão bonita e pequena como a sua. Estou absolutamente desacostumado das mulheres; quer dizer, nunca me acostumei com elas, sou um solitário... nem mesmo sei como conversar com elas. Agora mesmo, será que não lhe disse alguma tolice? Diga-me francamente; adianto-lhe que não sou suscetível...
— Não, nada, nada, pelo contrário. E já que o senhor exige que eu seja franca, então lhe direi que as mulheres gostam de uma timidez assim. E se quer saber mais, eu também gosto e não vou repeli-lo até chegar em casa.” (página 20)
O clima confessional se desdobra na segunda noite – segundo encontro entre os dois – em que, desta vez, toma a palavra a jovem:
“ — A que conclusão cheguei? Cheguei à conclusão de que é preciso começar tudo de novo, pois no final das contas concluí hoje que o senhor é ainda absolutamente desconhecido para mim, que ontem agi como criança, como uma menina, e, sem dúvida, o culpado de tudo foi o meu bom coração; ou seja, eu me exaltei, como sempre acaba acontecendo quando nos deixamos levar pelas emoções. E para reparar o erro, decidi inteirar-me do senhor do modo mais detalhado. Mas, como não tenho a quem indagar a seu respeito, o senhor mesmo terá de me contar tudo, nos mínimos detalhes. Bem, que tipo de homem é o senhor? Vamos, comece, conte a sua história.” (Segunda Noite, página 27)
O livro que tenho em mãos é da Editora 34, bem cuidado, bem diagramado, com aquele papel amarelo, tornando a leitura mais agradável. Há um texto do tradutor, Nivaldo dos Santos, bastante contextualizador, acompanhando o volume. Talvez seja interessante para você, leitor que me lê, a transcrição de um breve trecho, bastante elucidativo:
“Atentemos, por exemplo, para o narrador aí empregado: um sujeito que define a si mesmo como “um tipo”, “uma criatura de gênero neutro”, “um sonhador”. Esse narrador, que emerge das sombras do Romantismo, com seu discurso elevado e pomposo, com sua linguagem declamatória, é caracterizado como um personagem ridículo. Seu mundo é repleto de imagens extraídas de romances; ele vive uma “realidade” imaginária, romanceada, enquanto a realidade exterior à sua imaginação, a do mundo em redor, aparece sempre distante. Refugiado em seu “canto”, o personagem não é capaz de seguir o ritmo da vida prática e das pessoas comuns.” (Posfácio, páginas 85/86)
A escolha desta novela, além de me trazer o prazer da releitura, não foi sem intensão: para quem queira tomar o primeiro contato com a literatura de Fiódor Dostoiévski, ela é bem aconselhável. Obra de concepção mais simples, se comparada às grandes obras de nosso autor, é um aperitivo. Entretanto, fique avisado, meu caro: o que se seguirá vai lhe exigir mais trabalho. Nada, porém, tão difícil que não possa ser vencido, embora acredite que autores deste naipe não são, efetivamente, para andar nas mãos de leitores incipientes.

domingo, 31 de maio de 2020

Resenha nº 159 - O Homem Que Caiu Na Terra, de Walter Tevis


Título original: The Man Who Fell To Earth
Título em português: O Homem Que Caiu Na Terra
Autor: Walter Tevis
Tradutor: Taissa Reis
Edição: n/c
Editora: Darkside
Copyright: 1991
ISBN: 978-85-9454-005-8
Origem: Literatura Americana
Gênero Literário: Romance (Ficção Científica)
Pequena bibliografia do autor: The Hustler, 1959; O Homem Que Caiu Na Terra, 1963; Mockinbird, 1980; Os Passos do Sol, 1983; The Gambit Of The Queen, 1983; A Cor do Dinheiro, 1984. Publicou, ainda, vários contos em revistas norte-americanas.

Impressões ao Ler:

As horas vão se passando e os olhos não deixam o livro: já passa de meia-noite deste sábado de pandemia. Apenas mais algumas páginas... finalmente, fecho o volume exatamente à meia-noite e meia. Leitura desconcertante: ficção científica completamente fora da curva. Não é distopia, não fala de uma guerra entre alienígenas doidos para acabar com a humanidade, não há batalhas megalomaníacas entre naves espaciais. Já começamos a leitura sabendo que o protagonista é um ser de outro mundo – do planeta Anthea. O narrador, em terceira pessoa, cola-se ora no protagonista, ora no coprotagonista Nathan, e é do ponto de vista deles que a história é contada. E, à medida que o enredo progride, vamos sentindo um incômodo. Apesar de passar longe das características de uma distopia, o livro tem uma visão pessimista da humanidade e sua civilização, de seus valores. Ah, me fez lembrar de outro clássico, O Dia Em Que A Terra Parou. Indubitavelmente, este O Homem Que Caiu Na Terra é um clássico do gênero. A edição da Darkside é belíssima, um livro bem acabado, em capa dura e com o corte superior, lateral e inferior em tinta alaranjada. Obra que nos convida à releitura.

Pequena biografia do autor:

Walter Tevis é um autor norte-americano, nascido em San Francisco, Califórnia (28/02/1928) e faleceu em New York (09/08/1984). Aos 10 anos de idade, Walter foi colocado numa casa de convalescença de crianças, em Stanford por um ano, enquanto eles retornavam a Kentucky, onde a família recebera terras em concessão no condado de Madison. O menino, então com onze anos, viajou sozinho em um trem, para encontrar-se com a família. Aos 17 anos, Tevis participou da segunda guerra mundial, que já estava quase no fim, servindo como carpinteiro a bordo do USS Hamilton. Mais tarde, ele atuou como professor de quase tudo, nas escolas secundárias. Graduou-se em escrita criativa (mestrado), lecionando esta matéria na Universidade de Ohio. Casou-se com Jamie Griggs em 1957 e permaneceu casado com ela por duas décadas. Walter Tevis morreu de câncer de pulmão em 1984, na cidade de New York. Seus restos estão enterrados em Richmond, Kentucky.

O livro:

“Após andar por três quilômetros, encontrou uma cidade. Na entrada havia uma placa na qual se lia: ‘Haneyville. População: 1.400’. Estava bom, um tamanho razoável. Ainda era cedo – ele escolhera a manhã para a caminhada de três quilômetros porque estaria mais fresco – e não havia ninguém nas ruas. Andou por vários quarteirões sob a luz fraca, confuso pela estranheza do lugar, tenso e um pouco assustado. Tentou não pensar no que faria. Já havia pensado o bastante sobre aquilo até o momento.
Encontrou o que queria no pequeno centro comercial: uma loja minúscula chamada The Jewel Box. Na esquina próxima a ela havia um banco verde madeira, e ele foi até lá para se sentar, com o corpo doendo pelo esforço da longa caminhada.
Viu um ser humano alguns minutos depois.” (página 15)
Neste parágrafo primeiro já contamos com alguns elementos, algumas pistas de que esta pessoa, um caminhante, tem características suspeitas. Chega a pé, caminhou por três quilômetros, está cansado, sozinho; e a frase “viu um ser humano alguns minutos depois” soa ou deslocado ou indicativo de que ele, o caminhante, não era humano. Como sempre, o autor, ao construir seu suspense, economiza nos indícios, para surpreender seu leitor à frente. Mas as pistas estão no texto com bastante frequência, pois o objetivo é intrigar quem lê a obra, fazendo com que ele se sinta fisgado o bastante para continuar a leitura.

O personagem Nathan Bryce é extremamente importante na história de Walter Tevis. Contracenando com o protagonista, vários aspectos sobre o personagem principal serão dados pela observação de Bryce com relação ao personagem principal.

É muito interessante como o autor, ao descrever o apartamento em que mora Bryce, nos dá elementos sobre o morador:
“No lado da mesa que não estava amontoado de coisas ficava sua máquina de escrever, como outro deus mundano – um deus grosseiro, trivial e exigente demais –, ainda com a décima sétima página de um artigo sobre os efeitos de radiações ionizantes sobre resinas de poliéster, um artigo sem demanda, sem compromisso e que provavelmente nunca seria concluído. O olhar de Bryce encontrou essa confusão sombria: as folhas dos trabalhos espalhadas como uma cidade de castelos de cartas bombardeada, as soluções infindáveis e assustadoramente organizadas dos estudantes para equações de oxirredução e para preparos industriais de ácidos desagradáveis, e o artigo igualmente tedioso sobre resinas de poliéster. Olhou para aquelas coisas por trinta segundos, com as mãos enfiadas nos bolsos de seu casado, em uma tristeza sombria.” (páginas 35/36)
Bryce é engenheiro químico, não consegue arrumar seus objetos, mas é produtivo, embora escreva artigos e faça pesquisas que nunca serão divulgadas. E mais, é solitário, a figura clássica de um cientista, meio desligado do mundo que o cerca e das necessidades rotineiras de manutenção de uma casa ou apartamento.

A cena em que Betty Jo é introduzida na história também nos fornece dados importantes. Newton – é este o nome assumido pelo nosso protagonista extraterrestre – está num elevador antigo, reformado. Com ele, entra também uma mulher:
“Foi então que tudo pareceu acontecer ao mesmo tempo. Viu a mulher encarando-o e sabia que seu nariz devia estar sangrando, sujando a frente de sua camisa e, ao olhar para baixo, teve certeza daquele fato. Ao mesmo tempo, ele ouviu – ou sentiu, em seu corpo estremecido – suas pernas desabarem em frágil estalo, e caiu no chão do elevador, enrolado de forma grotesca, uma das pernas horrivelmente atravessada sob ele enquanto perdia a consciência, sua mente caindo em uma escuridão tão profunda quanto a do vazio que o separava de sua casa.” (página 63)
Esta Betty Jo será sua ligação afetiva com o mundo estranho no qual ele está. Toda a cena do elevador nos diz da constituição delicada daquele ser, certamente inteligente acima da média, mas com uma construção fisiológica tão débil. Seus ossos são finos e não suportaram a aceleração brusca do elevador antigo.

Newton consegue colocar suas ideias avançadas no mercado. Inventa um filme fotográfico que não precisa de revelação em laboratório; esse processo é feito de modo automatizado, dentro de uma lata com gás. É só o consumidor acondicionar o filme dentro dela, apertar um botão e pronto: as fotos aparecem à sua frente. Lança no mercado uma televisão de definição muito superior às usuais (num tempo em que a televisão comercial, no mundo, estava começando suas transmissões, ainda com baixíssima definição de imagem). Newton fica rico, e se prepara para seu grande plano – de que não posso dar mais dicas, pois incorreria em spoiler.

Apesar de não ser caracteristicamente uma distopia, como já dissera nas impressões ao ler, este livro flerta com uma visão pessimista da sociedade humana:
“Acredite, somos muito mais sábios do que imagina. E estamos além de qualquer dúvida razoável de que o seu mundo se transformará em um monte de lixo atômico daqui a não mais de trinta anos, se não interferirmos.” Continuou, com um ar sombrio: “Para falar a verdade, ver o que vocês estão prestes s fazer com um mundo tão bonito e fértil nos desanima muito, destruímos o nosso muito tempo atrás, mas tínhamos muito menos do que vocês têm aqui”. Sua voz agora parecia agitada e seus modos, mais intensos. “Você não percebe que não irão apenas destruir a sua civilização como ela é hoje e matar a maior parte da sua população, mas que também envenenarão os peixes em seus rios, os esquilos em suas árvores, os bandos de pássaros, o solo e a água?” (página 161/162)
Preocupação claramente ecológica e discussão atualíssima – também presente em No Dia Em Que A Terra Parou – outro clássico da sci-fi. Então, temos um alienígena de Anthea, um planeta moribundo, onde os recursos naturais, já escassos, têm uma durabilidade prevista – para sustentar os 300 antheanos existentes, não haverá mais que cinquenta anos à frente.

A Terra tem recursos em abundância, Walter Tevis propõe digressões sobre o nosso destino como moradores desta mãe-terra. Pela boca de Bryce, expõe-se uma solução para os antheanos, eles poderiam vir para a Terra e formarem um povo à parte, são apenas 300 almas, e aí transpassa o livro o subtema da solidariedade.

O Homem Que Caiu Na Terra transformou-se em roteiro cinematográfico, estrelado pelo cantor inglês David Bowie. Não poderiam ter encontrado alguém mais apropriado, embora não tenha visto ainda o filme. Pela descrição de Newton, no livro, Bowie é uma escolha acertada. O cantor inglês construiu para si uma imagem de androginia (flutuação entre características femininas e masculinas). As pessoas, inclusive Betty Jo, têm a impressão de que Newton é homossexual, dada à aparência frágil e jeitos que, se não chegam a ser femininos, também não os caracterizam como masculinos. A luta entre a brutalidade dos humanos e a inteligência dos antheanos.

O título do livro é ambíguo, polissêmico. O Homem Que Caiu Na Terra tem, no sentido mais superficial, a significação de “homem que aportou no planeta Terra”. Entretanto, o outro sentido, numa camada mais profunda, nos dá a ideia de “homem que fracassou no planeta Terra”. Não é um spoiler, visto que está no título e tal observação não exige do leitor a leitura da obra. É o mesmo sentido contido, por exemplo, numa frase muito comum em nosso tempo, como “o presidente caiu” ou, mais atual ainda, “o ministro caiu”.

Livraço, sob todos os aspectos. E é bom que assim seja, porque há muitas pessoas que ainda concebem a ficção científica como subgênero literário. Ledo engano. Hoje, este gênero amadureceu bastante e já conta com autores instigantes a nos darem verdadeiras pérolas. Estou falando de autores como Jules Verne, Isaac Asimov, Arthur C. Clark, Ursula K. Le Guin, Ray Brudbury, Philip K. Dick, George Orwell, Aldous Huxley, Margaret Atwood, para ficar com alguns de maior projeção.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Resenha nº 158 - Sobre Lutas e Lágrimas, de Mário Magalhães


Sobre lutas e lágrimas: Uma biografia de 2018, o ano em que o Brasil flertou com o apocalipse por [Mário Magalhães]Título original: Sobre Lutas e Lágrimas
Autor: Mário Magalhães
Editora: Record
Edição: 1ª
Copyright: 2019
ISBN: 978-85-01-11714-4
Origem: Brasil
Gênero: História
Pequena bibliografia do autor: O Narcotráfico (1999); Viagem ao País do Futebol, em parceria com o fotógrafo Antônio Gaudério (1998); Crescer a Golpes (2013); Ciudades visibles (2016); 11 Gols de Placa (2010).

Impressões ao ler:

O ano de 2018 foi realmente o ano em que o Brasil flertou com o apocalipse, como está escrito na quarta capa deste livro. À medida que eu o lia, iam desfilando diante dos meus olhos e reavivando minha memória fatos e acontecidos. Uma coleção de estranhamentos, embora já vividos. É que, vistos assim, em conjunto e em sequência, soaram ainda mais bizarros aqueles eventos. Escrevendo a quente, Mário Magalhães, mesmo assim, consegue objetividade. Quase ia dizendo “distanciamento”, mas este vocábulo não pode ser aplicado à obra, escrita no torvelinho daquele ano. Quando o compulsei, na livraria, pinçando trechos aqui e ali, vislumbrei que devia lê-lo. Entretanto, outros volumes estavam na fila e só agora cumpri minha vontade.

Breve biografia do autor:

Mário Magalhães nasceu no Rio de Janeiro, em abril de 1964. Formou-se em jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ e trabalhou nos jornais Tribuna de Imprensa, O Globo, Estado de São Paulo Folha de São Paulo. Neste último, exerceu os cargos de repórter especial, colunista e ombudsman. Profissional premiadíssimo – recebeu em torno de vinte prêmios e menções honrosas no Brasil e no exterior – é também autor da obra Marighela, O Guerillheiro Que Incendiou O Mundo. Mário trabalha também no site de notícias The Intercept.

O livro:

Já no início, o autor nos avisa que este
“É um livro indignado em um tempo que exige indignação. Os editores dos dicionários britânicos Oxford apontaram “tóxico” a palavra do ano. Seu sentido aplica-se do comportamento ao poder. Como se verá, ou recordará, o Brasil de 2018 foi insaciável produtor de toxicidade.” (Prólogo, página 16)
O livro traz os capítulos por datas, como se fosse uma espécie de diário – recurso bastante condizente com o espírito dos textos. Começa falando da matança desarrazoada de macacos por causa do surto de febre amarela. Tal fato ocorrera nos anos anteriores e a população executa os bichos, na completa ignorância da diferença entre o que sejam portadores-vítimas e reais transmissores. Os macacos contraem os vírus, mas não os passam aos humanos. Funcionam como infelizes sentinelas da presença silenciosa da doença.

2018 é ano eleitoral. O país vai às urnas, escolher seu presidente da república. E a lava-jato mantém sua presença, capitaneada por Sérgio Fernando Moro. Diz-nos o autor:
“A prioridade desses eleitores é vencer Lula, com seu impedimento, alguém alinhado com o sucessor de Fernando Henrique Cardoso. Moro seria uma opção competitiva para os brasileiros que apoiaram – e ainda apoiam – postulantes do PSDB, agremiação que conquistou duas vezes o Planalto, nos pleitos de 1994 e 1998 (com FHC) e amargou o vice em 2002 (José Serra), 2006 (Alckmin), 2010 (Serra) e 2014 (Aécio Neves). No Datafolha recém-saído do forno, Lula atropela Alckmin com 19 pontos de distância, 49% a 30% a favor do antecessor de Dilma Rousseff. Nem os aduladores cogitam Aécio e Serra presidenciáveis.” (página 40)
Um dos pontos de maior tensão do livro, é indubitavelmente, a morte de Marielle, no Rio de Janeiro. Executaram-na e o motorista com vários tiros. Vejamos como Mário se refere ao caso:
“Quem matou Marielle para calá-la teve de ouvir muita gente gritando em nome dela. O coro compartilhou suas ideias, celebrou seus ideais, reviveu seus combates. Vozes que hibernavam em mudez, na cidade e no país de infindos 7 a 1, esgoelaram-se contra a covardia. Uma réstia de esperança iluminou o fim da noite.” (página 70)
Seguem o tempo e os eventos. Sob o comando de Temer, vice de Dilma que sofrera o impeachment, explode uma greve de caminhoneiros e o governo se complica:
“O céu nublou. Deputados, senadores e ministros do STF percebem a possibilidade de Temer não completar o mandato. Um senador da base governista sugeriu depor o vice de Dilma. José da Fonseca Lopes, presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros, disse que há ‘um grupo muito forte intervencionista’ que ‘quer derrubar o governo’. Não seriam, afirmou, caminhoneiros. Há ‘infiltrados’, denunciou o Planalto.” (página 136)
Neymar comparece nas páginas deste livro, sob o título ambíguo de “Na copa, Neymar caiu”:
“Com tamanhas aspirações, todas legítimas, Neymar não foi nem o destaque do time do técnico Tite na fase inicial. Nos dois primeiros jogos, Philippe Coutinho se sobressaiu. No terceiro, Paulinho. O camisa dez foi a vítima de mais da metade das 19 faltas cometidas pelos suíços, amarelados três vezes ao atingi-lo. facilitou a vigilância helvética ao segurar demais a bola. Às vezes, na intermediária, de costas para o goleiro Sommer. Desacelerou os ataques. Pareceu imaginar que se desenrolava o confronto Neymar, e não Brasil, versus Suíça. Houve lances em que, ao ser abalroado, exagerou na coreografia das quedas, e aí semeou sua desgraça. Chamou a atenção também pela alegoria capilar, e o compararam a uma calopsita e ao Canarinho Pistola. Mancava ao sair do gramado.” (página 156)
Uma das coisas mais esdrúxulas dos debates entre candidatos, transmitido pela televisão, foi a atuação do cabo Daciolo, de acordo com Magalhães:
“Daciolo provou Ciro Gomes sobre a conspiração pela ‘Ursal’, a temível União das Repúblicas Socialistas da América Latina. O candidato do PDT ignorava, como as torcidas inteiras do Guarany de Sobral e do Flamengo, do que se tratava. Na Ursal dos desvarios daciolistas, bolcheviques tropicais apagariam as fronteiras dos países, no espírito internacionalista da canção “Imagine”. A Ursal é uma brincadeira  criada 17 anos atrás por uma professora conservadora. Somente lunáticos acreditaram na sigla, e charlatães filosofaram a sério sobre o que era traquinagem.” (página 182)
Um dos personagens mais importantes daquele ano de 2018 foi o ex-presidente Lula. Preso em Curitiba, para onde fora conduzido em “condução coercitiva” (e com isto, aprendi mais uma expressão jurídica). Alijado do processo eleitoral, Magalhães descreve:
“Os partidários de Lula, reconhecendo que a candidatura será proibida, cultivam a esperança de que 2018 reproduza 1945 e Haddad herde os votos. Os antagonistas dos petistas temem a reencarnação, como Lula-Haddad, da tabelinha Getúlio-Dutra. Em sua cela em Curitiba, o ex-presidente conhece bem esses fatos, sobre os quais leu no terceiro volume da biografia Getúlio, de Lira Neto. Lula terá mais tempo do que Getúlio Vargas, em 1945, para dar o seu recado. Nada garante que a história se repetirá.” (página 195)
2018 também é o ano em que, além das agendas políticas e de uma morte que deu o que falar, aconteceu o incêndio do Museu Nacional, vinculado à UFRJ. Sucateado, sem verbas para ser cuidado, era previsível que tal acontecesse:
“Debulharam lágrimas de hipocrisia sobre as cinzas. ‘É um dia triste para todos brasileiros’, disse Michel Temer. Por que destinariam em oito meses menos de R$ 100 mil à instituição cujo ‘valor para nossa história não se pode mensurar’? Gerido no âmbito do Ministério da Educação, o museu zelava por herança cultural valiosíssima. O presidente rebaixou o Ministério da Cultura a secretaria, antes de recuar. Supondo que poupava o chefe, o ministro Carlos Marun o interpretou: ‘Está aparecendo muita viúva apaixonada, mas na verdade essas viúvas não amavam tanto assim o museu.” (página 200)
No capítulo referente à facada perpetrada contra Bolsonaro, em plena campanha eleitoral, Mário Magalhães conta uma fábula:
“Um escorpião pede para atravessar um lago nas costas de um sapo. O sapo se recusa a dar carona por recear uma picada assassina. O escorpião alega não saber nadar; argumenta que não envenenaria o anfíbio, porque afundaria junto com ele. O sapo coaxa: ‘Então, tá’ no meio da travessia, o escorpião o atraiçoa. Agonizando, o sapo pergunta o motivo do gesto suicida. O escorpião esclarece, antes de se afogar: ‘Porque é da minha natureza.” (página 203)
Termina o capítulo, fazendo a ligação entre a fábula contada e a facada sofrida pelo então candidato:
“Na sexta-feira, deitado em seu leito, o candidato gravou um depoimento. Agradeceu a Deus, médicos e enfermeiros. Abatido, relembrou a investida: “Parecia apenas uma pancada na boca do estômago [...] A dor era insuportável, e parecia que tinha algo mais grave acontecendo.’ Lamentou se ausentar do desfile militar do 7 de Setembro. E falou: ‘Nunca fiz mal a ninguém.’ Na manhã de sábado o transferiram para São Paulo, onde Bolsonaro posou para a foto cuja legenda bem poderia ser “Porque é da minha natureza.” (páginas 207/208)
Indiscutivelmente, este Sobre Lutas e Lágrimas é um livro bem escrito. De certa forma, me faz lembrar de outro, 1964 – O Ano Que Não Terminou, de Zuenir Ventura. Mário Magalhães tem autoridade para falar dos fatos – respeitabilidade conquistada por anos de jornalismo bem conduzido.

Vivemos uma época de ódios polarizados, o que não invalida ou apaga fatos e atitudes. A democracia é sempre um sistema em que correlação de forças apresentam seus argumentos e influências; como num jogo, ao final, vencem aqueles que conseguirem costurar melhor seus acordos ou conseguiram melhor trânsito de influências.

A meu ver, criou-se uma falácia ao se alegar que “o povo não sabe votar”. Se não sabe, quem saberá? Os americanos, que elegeram (ainda que num sistema indireto) o presidente Trump? Vota-se em quem se acredita representar valores. Talvez e – aí sim, admito – devamos aprender a votar pensando em interesses coletivos, em detrimento de interesses locais ou individuais.

Mas isto é, a meu ver, uma longa e difícil evolução. Penso que, enquanto eu viver, pelo menos...


quinta-feira, 14 de maio de 2020

Resenha nº157 - Os Bórgias, de Mario Puzo


Os Bórgias - Livros na Amazon Brasil- 9788501062765Título original: The Family
Título em português: Os Bórgias
Autor: Mario Puzo
Tradutor: Alves Calado
Editora: Record
Edição: 14ª
Copyright: 2001
ISBN: 978-85-01-06276-5
Gênero Literário: Romance histórico
Origem: Literatura americana
Outras obras: O Poderoso Chefão, Os Tolos Morrem Antes, O Quarto K, O Último Chefão, O Siciliano.





Impressões ao ler:

Há muito tempo este volume repousava na minha estante. Finalmente, chegara o dia de lê-lo e por isso convoquei minha disposição – trata-se de um volume de 420 páginas. Mas, como estamos em quarentena obrigada pelo coronavírus, iniciei a leitura. Um romance histórico, cheio de intrigas no âmbito da religião, envolvendo cardeais e o papa Alexandre VI. Rodrigo Bórgia, pai de César, Juan, Jofre e a famosa Lucrécia Bórgia. Relação incestuosa entre César e Lucrécia, hábitos um tanto estranhos, adesões costuradas por casamentos arranjados – tudo isto era bastante comum à época. A  Itália não existia ainda como um país unificado. O que prevalecia eram as cidades-estados. Os Bórgias não é uma história agradável de se ler no sentido de algo leve, mas é muito bem escrita. O enredo prendeu-me a atenção; mas, à medida em que tantas tramoias, assassinatos, traições (não só sexuais) aconteciam, certo asco ameaçava parar a leitura. Lancei mão, desta forma, de uma atitude útil para quando tenho de ler algo que não me agrada inteiramente: o distanciamento histórico. Virei a chave para uma leitura mais distante, menos emocional e emocionada. É um grande livro, embora não goste de certos elementos chamados a compor a narrativa.

Breve biografia do autor:

O escritor americano Mario Gianluigi Puzo nasceu em Manhattan, Nova Iorque, a 15/10/1920 e faleceu em Bay Shore, a 02/07/1999. Sua família era de italianos que habitavam o bairro nova-iorquino de Hell’s Kitchen. Sua infância, passou-a entre os trens, pois seu pai era ferroviário. Dividia este tempo entre os trilhos e a bibliotecas públicas; seu gosto pela literatura estava sendo formado. Desde cedo, também desenvolveu seu gosto pelo jogo, preferência que nunca abandonou. Quando Mario Puzo anunciou à família seu projeto de vida de tornar-se um escritor, obteve a rejeição da família. Alistou-se na Força Aérea americana e foi mandado para a Ásia e Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. De volta aos EUA, ingressou na New School For Social Research, em Nova Iorque. Publicou seu primeiro conto na revista American Vanguard, de nome The Last Christmas. A certa altura, surgiu-lhe uma proposta irrecusável: um adiantamento de cinco mil dólares para escrever um livro sobre a máfia. Assim veio a lume sua obra mais famosa, O Poderoso Chefão, que se tornou filme estrelado pelo excelente Marlon Brando, segundo minha avaliação, em sua melhor performance, contando a saga da máfia, e imortalizando o protagonista, Don Vito Corleone.

O Livro:

“Enquanto a peste negra varria a Europa, devastando metade da população, muitos cidadãos desesperados voltaram os olhos do céu para a terra. Ali, para dominar o mundo físico, os que tinham inclinação filosófica tentaram desvendar os segredos da existência e com isso desenredar os maiores mistérios da vida, enquanto os pobres só esperavam acabar com o sofrimento.
Foi assim que Deus caiu na terra como homem, e a rígida doutrina religiosa da Idade Média perdeu poder e foi substituída pelo estudo das antigas civilizações de Roma, da Grécia e do Egito. Quando a sede das cruzadas começou a diminuir, os heróis olímpicos renasceram e as batalhas olímpicas foram travadas de novo. O homem lançou sua mente contra o coração de Deus e a razão reinou.” (página 11, Prólogo)
Um parágrafo inicial fortemente contextualizador, escrito em tom grandiloquente, lembrando até certo ponto, as epopeias antigas. A história acontece na Roma do século XV, mais precisamente, no Vaticano. O Papa Inocêncio VIII (1484-1492) havia morrido e o cardeal Rodrigo Bórgia manipulou sua própria eleição como sucessor do Santo Pontífice, o que aconteceu no período de 11/08/1492 a 18/08/1503.

Com sua amante Vanozza Cattanei, Rodrigo tem César, Juan (seu preferido), Jofre e Lucrécia. Aos que estão estranhando a manutenção de uma amante e a existência de filhos no regaço papal, eis como Rodrigo – Papa Alexandre VI – justifica sua ligação amorosa:
“Como filho da Igreja, era proibido de se casar, mas como homem de Deus tinha certeza de que conhecia o plano do Bom Senhor. Ora, o Pai Celestial não criou Eva para completar Adão, mesmo no Paraíso? Então não era óbvio que, nessa erra traiçoeira cheia de infelicidade, um homem precisava ainda mais do conforto de uma mulher? Ele tivera os três filhos anteriores quando era um jovem bispo, mas essas últimas crianças de quem era pai, as de Vanozza, tinham um lugar especial em seu coração.” (página 15)
Bastante cínica a justificativa, não, meu caro leitor? Acostume-se. Alexandre VI adotará, no decorrer das páginas deste Os Bórgias, tanto cinismo quanto for necessário para suas pretensões.

E – claramente – uma delas é excercer seu poder religioso sobre uma Itália unificada. E aqui vamos a um parêntese explicativo. À época, a Itália como nação não existia. Deixemos, entretanto, que o narrador de Mario Puzo explique a situação:
“Além disso, o país que agora conhecemos como Itália não existia. Em lugar dele havia cinco grandes poderes: Veneza, Milão, Florença, Nápoles e Roma. Dentro das fronteiras da “bota” havia muitas cidades-estados independentes governadas por antigas famílias lideradas por reis locais, senhores feudais, duques ou bispos. Dentro do país, vizinho lutava contra vizinho para ganhar território. E os que conquistavam ficavam sempre alertas – porque a conquista seguinte estava próxima.” (página 12, Prólogo)
Já acontecera o cisma católico do ocidente – que o narrador de Puzo classifica como “paródia”. Cisma do ocidente é a divisão que ocorreu no poder da Igreja, com um papa em Roma e outro, na cidade francesa de Auvignon.

Habemus papam, Alexandre sobe ao trono católico; a César estará destinado o cardinalício e o Papa tenta garantir o melhor para a sua família. Agora, sua amante não é mais Vanozza, mas a jovem e bela Júlia, a cujo parceiro ela serve com prazer... inclusive sexual.

No trabalho de construir seu poder sobre todos os cinco centros irradiadores do poder, como descrito acima, Alexandre VI destina cada um de seus filhos a casamentos com representantes dos poderosos daqueles lugares. Busca uma aliança estável e maiores ganhos para a Igreja:
“Logo Alexandre começou a formular outro plano: com o objetivo de proteger sua posição no Vaticano e proteger a própria Roma de uma invasão estrangeira, teve certeza de que precisava unificar as cidades-estados da Itália. Foi então que concebeu o conceito da Liga Santa. Seu plano era unificar e liderar várias das maiores cidades-estados – isso lhes daria mais poder juntas do que cada uma tinha em separado.” (página 85)
Alexandre é também importante para a história de Portugal e Espanha. Chamado a dirimir uma pendenga existente com relação às novas terras descobertas no novo mundo, o Papa emite uma bula. Considera de Portugal as terras a leste da linha traçada próxima dos Açores e das ilhas de Cabo Verde. A oeste daquela linha estavam as terras de posse espanhola.

A sociedade romana era um verdadeiro caos. Para se ter ideia, vamos deixar falar o narrador de Os Bórgias:
“Seis mil e oitocentas prostitutas percorriam as ruas da cidade, gerando uma nova ameaça médica, além da moral, ao povo. A sífilis estava se tornando comum; tendo começado em Nápoles, foi espalhada pelas tropas francesas, seguiu para o norte até Bolonha e então foi levada pelo exército através dos Alpes. Os romanos mais ricos, infectado pela “erupção francesa”, pagavam vastas quantias aos vendedores de óleo de oliva para que os deixassem ficar durante horas dentro dos barris de azeite para aliviar a dor das feridas. Mais tarde o mesmo óleo era vendido em lojas elegantes como “puro extravirgem”. Que piada!” (página 185)
Aliás, este trecho serve bem para exemplificar como o narrador de Os Bórgias não só narra a história como observador privilegiado, mas ainda emite juízos sobre o que nos conta.

O papa tem inimigos. Se mantém relações mais amistosas com os Médici, de Florença, os Sforza, de Milão, ali mesmo, no Vaticano, os seguidores do cardeal Giulio della Rovere tramam contra o papa em exercício e sua família. Encarregam-se de espalhar notas quase sempre de condenação às libertinagens de Alexandre, à lubricidade dos filhos e dão larga divulgação ao relacionamento incestuoso entre César e Lucrécia, até mesmo incluindo Alexandre nesta relação.


Entretanto, neste festival de traições, negociatas, falcatruas e maledicências, há trechos belos. E um dos que mais chamou minha atenção, talvez num expediente de tornar a relação incestuosa dos dois irmãos mais aceitável, Mario Puzo faz seu narrador nos dizer, lá pelas páginas 243:
“Então ele se curvou para beijá-la, um beijo suave, o beijo de um irmão para a irmã... e alguma parte dele ficou rígida e fria. O que faria sem ela? Até aquela noite, sempre que pensava em amor, pensava nela; sempre que pensava em Deus, pensava nela. Agora temia que, sempre que pensasse em guerra, pensaria nela.”
César é um personagem muito interessante e bem construído. Mas é Lucrécia, Crécia para os familiares, que o autor dota de voz crítica, questionadora. Vejamos a seguinte passagem, na qual isto fica bastante evidente:
“Foi então que começou finalmente a questionar a sabedoria do pai. Tudo que lhe tinham ensinado era bom e certo? Seu pai era realmente o Vigário de Cristo na terra? E o julgamento do Santo Padre era também de Deus? Lucrécia tinha certeza de que o Deus gentil que estava em seu coração era muito diferente do deus punitivo que sussurrava nos ouvidos de seu pai.” (página 312)
Toda vez – creio eu – que voltar à leitura deste livro, vou sentir o mesmo asco, a mesma sensação de que da relação ser humano-poder não pode advir coisa boa. Não posso dizer que tenha adorado a obra, afinal, tenho meu conjunto de valores e este texto confronta vários deles. A obra se impõe por si mesma, e aí está o que se pode dizer ser o maior valor de um trabalho literário: impor-se por si próprio. Bem contada, bem conduzida, com personagens complexos (o bem e o mal fazem parte deles, mesmo de Alexandre VI – ou principalmente dele) a narrativa permanece em minha memória, após lida.

Por isso tudo, recomendo-a: é uma ótima experiência de leitura. Os Bórgias, de Mario Puzo.