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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Resenha nº 64 - O Tempo Entre Costuras, de María Dueñas

Resultado de imagem para livro o tempo entre costurasMaría Dueñas nasceu em Puertollano, Ciudad Real, em 1964. É PhD em Filologia Inglesa. Trabalha como professora na Universidade de Múrcia, tendo ainda lecionado em  universidades americanas. Em 2009, publicou o romance El Tiempo Entre Costuras (O Tempo Entre Costuras), que se tornou um Best-seller, um sucesso de público e de crítica. É autora de diversos trabalhos acadêmicos, com participação em diversos projetos educacionais, culturais e editorais.

Escreveu, ainda, Misíon Olvido, de 2012, (A Melhor História Está Por Vir) e Destino: La Templanza, de 2015 (conservaram o título espanhol na tradução brasileira). Todos os livros dessa autora publicados no Brasil são da Editora Planeta.

O texto do romance se estende por 471 páginas de puro prazer da leitura. A ambientação em que se movem os personagens é a de dois conflitos armados – A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Com uma vasta e sólida pesquisa sobre essas duas conflagrações, María Dueñas consegue construir ricas referências históricas e culturais. Seus personagens fictícios convivem lado a lado com personagens reais.

Numa preocupação assumida, Dueñas não abre mão de incluir, ao final do livro, uma bibliografia utilizada na pesquisa. Muitos são contra tal apêndice numa obra ficcional; a meu ver, isso só valoriza um romance de fundo histórico. É mais uma questão pessoal, já que a ausência de uma bibliografia assim não desmerece qualquer obra narrativa.

O texto da autora é muito fluente, o que contribui sensivelmente para o seu sucesso; a leitura não representa qualquer dificuldade para o leitor mediano. As referências, quando atinentes às guerras, personalidades espanholas, à haute couture (alta costura) são devidamente explicadas, para que o leitor não se perca. O enredo apresenta boas reviravoltas, manejadas – surpreendentemente, mas não tanto – pela ficcionista iniciante. Ressalvei o termo "surpreendentemente", acima, pois acredito ser María Dueñas uma leitora frequente de obras literárias, como se pode depreender da segurança com que manipula a narrativa. À medida que a gente vai lendo, inconscientemente internaliza estruturas textuais, elaborações de personagens.

Sira Quiroga, a protagonista deste O Tempo Entre Costuras, é absolutamente fascinante. Acompanhamos o seu desenvolvimento desde uma ingênua adolescente, aprendiz de costureira, trabalhando com sua mãe no ateliê de dona Manuela, em Madri, insegura e dependente, a uma mulher madura, dona de suas escolhas e do seu destino. Nesse sentido, a presente obra se caracteriza como um romance de formação.

Rosalinda Fox é uma inglesa, muito esperta, vivida, não obstante presa a um casamento infeliz (fora contraído quando ela estava muito nova) com um marido que não lhe concede o divórcio sob nenhuma hipótese. Os diálogos entre Sira e Rosalinda são pontuados de termos em inglês, português e um espanhol pouco fluente. Tornam-se amigas.

Candelária é outra personagem excelente. Velha trambiqueira, contrabandista de plantão, terá um papel fundamental na vida de Sira. Dona de uma pensão, uma verdadeira pocilga, essa mulher sem muita instrução, mas com uma enorme experiência de vida é afável e dura e, ao mesmo tempo, uma verdadeira mãezona para a protagonista.

Dom Claudio Vázquez é um delegado humano, com um forte sentido de intuição, sentido esse usado por ele sem culpa. Sira também deverá a Dom Cláudio, durante parte da narrativa, alguns favores imprescindíveis para ela.

O coronel Juan Beigbeder Atienza é um alto comissário da Espanha em Marrocos; supreendentemente, sente-se em casa entre os marroquinos. Creio, María Dueñas tirou um coelho da cartola, ao construir um personagem como este. É um militar sensível, culto, com ideias, digamos, pouco afeitas ao militarismo, ao nazismo hitleriano e à ditadura do Generalíssimo Franco.

Marcus Logan, de origem inglesa, a princípio um jornalista que vai fazer um trabalho sobre o Marrocos – mais precisamente, a cidade de Tetuán – é cheio de mistérios, alguém que irá ocupar um papel fundamental na vida de Sira. Ela obterá revelações importantes sobre ele no final da história.

Gonzalo Alvarado é um empresário cuja empresa possui duzentos empregados; no passado, cedeu a pressões familiares e não impôs sua vontade, não tendo lutado por construir sua vida amorosa ao lado de quem realmente amava, fato ainda perturbador para ele no presente. Como nunca é tarde para mudanças, ele resolve assumir a filha do relacionamento anterior ao seu atual casamento, dotando-a com uma considerável quantia em dinheiro e joias.

Dolores, mãe de Sira Quiroga, outra personagem muito bem elaborada. Mostra-se forte, determinada e segura sobre qual caminho seguir, mas secretamente, tem seus momentos de indecisão. Mesmo assim, é uma mulher com profundo sentido de dever e de caráter. A sucessão dos acontecimentos vai trazer maior flexibilidade à sua forma de pensar e ela consegue, em meio aos conflitos, desenvolver certa visão crítica dos fatos.

Enfim, num ambiente de guerra, de conspirações, a obra nos mostra um pouco do que acontece nos bastidores desses conflitos. Serviços de espionagem e contraespionagem, cenário constantemente ambíguo, inseguro, fluido, no qual nenhum dos envolvidos mostra aquilo que realmente é tornam a vida de Sira Quiroga uma aventura de alto risco; mas é aí mesmo, sem muitas escolhas uma vezes, outras fazendo escolhas de modo acrítico, que ela deverá se mover.

Os personagens vão e voltam, trazendo evocações à protagonista. Ela aprende sentindo o perigo, a dor na própria pele. Tais seres, importantes dentro da narrativa, têm suas virtudes e seus defeitos; Sira Quiroga, por exemplo, tem seus medos, é acusada por Ignácio de não se lembrar dos mais pobres, das pessoas conhecidas do bairro onde havia morado, em Madri e sente o golpe, por ser verdade. Como seres humanos reais, eles mostram às vezes suas faces menos elogiáveis, agem por interesse. Como a certa altura a mãe de Sira lhe lembra, a Inglaterra quer a Espanha fora do apoio às potências do eixo em benefício próprio, mas tal interesse deve ser aproveitado, pois o povo espanhol, sobretudo a camada mais pobre, já não suporta mais passar por privações e desmandos. Ficar fora da guerra seria para eles um alívio ao sofrimento pelas privações impostas pela Guerra da Espanha.

Como já disse, Sira Quiroga tinha uma vida tranquila com a mãe, em Madri. Entretanto, apaixona-se por um homem sedutor, trai o noivo, distancia-se da mãe e muda-se para o Marrocos, na cidade de Tânger. O Marrocos, à época, é um protetorado espanhol, isto é, uma espécie de território anexado à Espanha, mas gozando de bastante liberdade. As coisas se complicam para nossa personagem e ela é obrigada a se mudar para Tertuán e lá monta um ateliê de alta costura, com a ajuda de Candelária. Pela sua confecção circulam mulheres de oficiais alemães e esta movimentação acaba por envolver a senhorita Quiroga num complexo jogo de quebra-cabeças político de bastidores. Aparece a oportunidade de montar uma confecção como a que tem em Tertuán em Madri. É o que faz. De lá, entretanto, depois de algum tempo, viaja para Lisboa, em Portugal.

Sossegue, caro leitor, não estou avançando qualquer spoiler; isso é apenas um resumo, muito por alto, do enredo, uma espécie de planta baixa. O que acontece entre essas constantes mudanças de endereço é o que realmente importa para manter sua atenção à leitura.

Algumas pequenas degustações, como costumo fornecer:

“Uma máquina de escrever detonou meu destino. Foi uma Hispano-Olivetti, e dela me separou durante semanas o vidro de uma vitrina. Visto hoje, do  parapeito dos anos passados, é difícil acreditar que um simples objeto mecânico pudesse ter potencial suficiente para alterar o rumo de uma vida e dinamitar em quatro dias todos os planos traçados para sustentá-la. Pois assim foi, e nada pude fazer para impedir.” (página 10)

“Trabalhei manhã, tarde e noite ao longo dos dias seguintes. Era a primeira vez que eu fazia peças daquela envergadura sozinha, sem a supervisão nem a ajuda de minha mãe ou de dona Manuela. Por isso, apliquei na tarefa os cinco sentidos multiplicados por cinquenta mil, e, contudo, o medo de falhar não me abandonou nem por um segundo. Desmanchei mentalmente os modelos das revistas, e quando as imagens não podiam me oferecer mais nada, afiei a imaginação e intuí tudo aquilo que não consegui visualizar.” (página 124)

“Deus sabe que não sou nenhum liberal, mas acho repugnante o totalitarismo megalomaníaco que Franco montou depois da vitória; esse monstro que ele engendrou e que muitos de nós colaboramos para alimentar. Você não imagina como me arrependo de ter contribuído para engrandecer sua figura em Marrocos durante a guerra. Não gosto deste regime, não gosto de jeito nenhum. Acho que nem gosto da Espanha; pelo menos, não gosto dessa grande e livre que estão tentando nos vender. Passei mais anos de minha vida fora deste país que dentro; aqui eu me sinto um estranho, muitas coisas são estranhas para mim.” (página 327)

A quarta capa da obra diz:

“Seria injusto classificar O tempo entre costuras. Mais correto seria dizer que se trata desses romances deliciosos nos quais cada página nos provoca sensações diferentes. Sem sombra de dúvidas, María Dueñas é dessas autoras que sabem falar e tocar os leitores. Entregue-se a esta história, você não vai se arrepender.”

Não tenho nada a acrescentar. Nem uma vírgula.



DUEÑAS, María. O tempo entre costuras. Editora Planeta do Brasil, 4ª reimpressão. São Paulo, SP: 2012.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Blog Em Perspectiva


Este blog foi criado em 2007, como parte de um projeto de aplicação tecnológica à educação. Como professor, estava terminando um curso presencial sobre este tipo de intervenção com fins educativos e a ferramenta começou a ser usada sem muita pretensão. Funcionou como, por exemplo, um TCC – Trabalho de Conclusão de Curso.

À medida que aprendia os rudimentos da tecnologia, vislumbrei as possibilidades de usá-la a meu próprio benefício. Ainda não tinha um direcionamento, postava alguns tópicos gramaticais, dificuldades da língua portuguesa, esporadicamente. Não era bem aquilo que gostaria de fazer.

Se você, leitor, se der o trabalho de ver as postagens iniciais, perceberá a completa falta de foco inicial; em 2007, houve apenas duas postagens, nada sobre livros. 2008 se iniciou e foram acrescentadas mais três entradas, sobre assuntos diversos; em 2009, apenas uma publicação, sobre a área de educação. Em 2010, três postagens e em 2011, apenas uma. Era o momento de definição.

A clareza sobre os meus propósitos veio em 2012, com um salto de trinta e duas postagens no blog. Havia encontrado o que mais gostaria de fazer: resenhar livros. Sempre gostei de ler e, num determinado momento, me perguntei: por que não unir minha paixão a uma utilidade? Por que não compartilhar o que lia com um público maior?

Foram, até o apagar das luzes desse 2015, nada menos que 63 livros. Nada mal, para quem passou tanto tempo sem um foco preciso. Achar o devido tom das resenhas foi outro aprendizado, mas desde início não desejava algo muito técnico, com uma linguagem acadêmica.

Bom, mas o que almejo mesmo nesta pequena retrospectiva, é elaborar uma lista dos melhores livros resenhados aqui no blog. É pessoal, polêmica como qualquer seleção em qualquer área. Sempre haverá pessoas que elegerão outras obras, escolherão outros autores. Mas todos nós temos uma quedinha por listas. Então, aí vai.

Os 12 melhores livros já resenhados neste blog:
  1. As Intermitências da Morte, de José Saramago    
  2. Educação, Escola, Docência, de Mario Sérgio Cortella
  3. A Bibliotecária de Auschwitz, de Antonio G. Iturbe
  4.   A Menina Que Roubava Livros, de Markus Zuzak
  5.    O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa
  6.    Stoner, de John Williams
  7.    A Elegância do Ouriço, de Muriel Barberi
  8.    A Biblioteca À Noite, de Alberto Manguel
  9.    Arroz de Palma, de Francisco Azevedo
  10.  Trem Noturno Para Lisboa, de Pascal Mercier
  11.  Holocausto Brasileiro, de Paula Arbex
  12.  Onde Andará Dulce Veiga, de Caio Fernando Abreu



quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Resenha nº 63 - Quase Memória, de Carlos Heitor Cony

Carlos Heitor Cony nasceu no Rio de Janeiro, no ano de 1926. Segundo relata, desde criança teve problemas de dicção, somente superados em 1941, após cirurgia. Decidiu ser padre aos 11 anos, para o que ingressou no Seminário Arquidiocesano de São José. Entretanto, abandonou o projeto em 1945, para iniciar seus estudos de Filosofia na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil – hoje conhecida como Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Cony foi funcionário da Câmara Municipal do Rio, na década de 50, época em que começou também a trabalhar como redator no Jornal do Brasil. Teve problemas com a censura dos ditos Anos de Chumbo (Ditadura Militar), morou em Cuba em 1967 e, ao retornar ao Brasil, foi preso.

Em 1966 recebeu o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra. Quase Memória levou o Prêmio Jabuti como melhor livro de ficção no mesmo ano. Em 1998, voltou a receber o mesmo prêmio com A Casa do Poeta Trágico; foi condecorado pelo governo francês com a comanda da Ordre des Arts et des Lettres. Publicou Romance Sem Palavras em 1999 e no ano seguinte, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. Atualmente, Carlos Heitor Cony é colaborador do jornal Folha de São Paulo.

Antes propriamente de iniciar esta resenha, devo dizer que este Quase Memória é o primeiro livro do autor lido por mim. O exemplar em mãos é o da Biblioteca Folha de São Paulo, coleção esta coeditada com o jornal O Globo, mudando-se somente o projeto da sobrecapa que acompanha o volume. E eis exatamente aí um problema: não sei o que aconteceu exatamente, mas a foto estampada na sobrecapa não tem qualquer nexo com a obra em si. É a foto de um rosto feminino, entrevisto por detrás de uma espécie de vegetação seca. Creio que a foto da versão da Folha de São Paulo (veja a imagem acima) é bem mais adequada, pois nos mostra uma cena antiga da cidade do Rio de Janeiro.

Assumido pelo próprio autor, esta é uma obra mista, sendo

“... ‘quase-romance’ – que de fato o é. Além da linguagem, os personagens reais e irreais se misturam, improvavelmente, e, para piorar, alguns deles com os próprios nomes do registro civil. Uns e outros são fictícios. Repetindo o anti-herói da história, não existem coincidências, logo, as semelhanças, por serem coincidências, também não existem.
No quase-quase de um quase-romance de uma quase-memória, adoto um dos lemas do personagem central deste livro, embora às avessas: amanhã não farei mais essas coisas.” (página 7)

O narrador recebeu um volume, caprichosamente confeccionado, que lhe fora entregue pelo porteiro do hotel no qual estava:

“Não cheguei a ouvir o meu nome. Foi a secretária que me avisou: um dos porteiros, de cabelos brancos, óculos de aros grossos, queria falar comigo. E sabia o meu nome – eu que nunca fora hóspede do hotel, apenas um frequentador mais ou menos regular do restaurante que é aberto a todos.
Aproximei-me do balcão, duvidando que realmente me tivessem chamado. Ainda mais pelo nome: não haveria uma hipótese passável para que soubessem meu nome.
— Sim...
O porteiro tirou os óculos, abriu uma gaveta embaixo do balcão e de lá retirou o embrulho, que parecia um envelope médio, gordo, amarrado por barbante ordinário.
— Um hóspede esteve aqui no último fim de semana, perguntou se nós o conhecíamos, pediu que lhe entregássemos este envelope...
— Sim... Sim...
Eu não sabia se examinava o envelope ou a cara do porteiro. Nada fizera para que ele soubesse meu nome, para que pudesse dizer a alguém que me conhecia. O fato de duas ou três vezes por semana eu almoçar no restaurante do hotel não lhe daria esse direito.” (páginas 9 e 10)

O mistério não compreendido: o envelope trazia, em uma das faces, subscritada, o nome do jornalista Carlos Heitor Cony. Era, inquestionavelmente, a letra de seu pai...morto há mais de dez anos!

O pacote recebido pelo narrador tem o poder de lhe despertar sinestesicamente, as memórias do pai. O jeito de atar o barbante, os cheiros, a aparência do embrulho – tudo lhe invocava seu pai.

A partir desse motivo, o autor constrói as recordações paternas. E como seria de se esperar, a figura central de Ernesto Cony Filho, jornalista de profissão, como o próprio filho, precisa de contextualização para existir dentro da narrativa proposta.

Personagens, personalidades da época são trazidas para o presente. E entre todas, destaca-se Ernesto, o jornalista, construído por Heitor Cony como um homem polêmico em suas atitudes, mas igualmente, um personagem de ricos matizes. Contraditório às vezes, sincero outras, herói e anti-herói, diletante de óperas, jornalista que recusara ser editor.

Homem inconstante e ingênuo em seus empreendimentos, fora jornalista, criador de galinhas e vendedor de ovos, criador de jacaré num lago feito em sua propriedade, vendedor de rádios, elaborador fracassado de perfumes. Homem de “sete profissões e quatorze misérias”.

Entretanto – e sobretudo – um homem que não reclamava da vida, ganhando um salário razoável para a época, permitindo-lhe dar uma vida segura e sem luxos para a família.

Em Ernesto, a imaginação superava a realidade, fazendo dele uma espécie de Pantaleão, tipo criado pelo excelente Chico Anysio – um mentiroso contumaz. Pois que, certa vez, ganhara uma viagem a Fiuggi, na Itália, cidade famosa por águas curadoras da fonte Bonifácio VIII. Não saíra do Brasil, pois, o projeto em andamento, a viagem fora suspensa por causa de Benito Mussolini – ele havia descoberto uma conspiração contra seu regime e abortara qualquer viagem a seu país, incluindo a localidade de Fiuggi.

Ernesto Cony é obrigado a voltar, mas isso não impede de ele narrar as belezas da “viagem”, da “cidade visitada”. Conta, para quem queira ouvir (e esse dado é verídico), que o famoso pintor-arquiteto-escultor Michelangelo teve um problema de pedra nos rins resolvido ao tomar a água daquela fonte. Segundo a Wikipédia, o artista teria cunhado uma frase de efeito, dizendo “aquelas eram o único tipo de pedra que ele não podia amar”.

Os elementos ficcionais da narrativa realmente levam à classificação dela, imprecisamente, como um quase-romance, uma quase-memória e – eu acrescentaria – uma quase-crônica. Da estrutura do romance, estão presentes as possibilidades de vários núcleos dramáticos, não realizados; de memória, a existência de pessoas de existência real, mas entremeadas de outras, ficcionais; de crônica, pela insistência na abordagem dos fatos ligeiros, quotidianos, no que resulta uma visão entrevista do Rio de Janeiro antigo, com seus costumes e cultura. É, portanto, uma obra de gênero híbrido por excelência.

Tive de usar a disciplina para vencer as 223 páginas que compõem a obra. O problema não é, per si, a prosa de Carlos Heitor, divertida, irônica muitas vezes, como podemos constatar pelo trecho abaixo:

“Minha mãe, que vivera infância e parte da mocidade no interior, depois do susto, declarou que aquilo não era filhote de jacaré, apenas um lagarto – o que desmoralizava o pai mais uma vez. Ninguém é grande em sua casa.
Eu acreditei no jacaré, o pai o levou, apesar de já ser noite fechada, para a represa. Teve a infeliz ideia de soltá-lo. Nunca mais fui para aqueles lados até que minha mãe reclamou, o lagarto-jacaré estava crescendo, aparecia no quintal, já chegara até a porta da cozinha, qualquer dia estaria na sala de visitas, nos quartos.
O pai resolveu prendê-lo. Comprou uma comprida corrente, das mais finas, dessas de amarrar cachorro pequeno. Colocou uma argola onde julgava ser o pescoço do lagarto-jacaré. Apesar de suas técnicas, descuidou-se, o bicho deu uma volta no ar e o pai deu um grito. O polegar recebeu a dentada, por pouco perdia o dedo. Sangrou muito.” (página 88)

Se não é a linguagem, o enredo em si, qual seria o problema desta obra?

Exatamente, o seu padecimento é a sua indefinição de gênero. O texto é truncado, sofre de maior fluidez. Há relações exaustivas de personalidades, enumerações em demasia – que acabam, na minha opinião – por não serem melhor aproveitadas. Diferentemente da vida real, na qual vamos encontrando pessoas ocasionais e não significativas para nós, numa obra ficcional os personagens, os fatos têm de ter função narrativa.

É um livro ruim, então?

Não, absolutamente, não. Autores humanos, imperfeitos, por definição não produzem obras perfeitas, sem qualquer senão. Há trechos bem engraçados, contribuindo para tornar a leitura mais palatável. Há referência ao Rio de Janeiro do início do século XX muito interessantes. Por exemplo, já sabia da proeminência da Confeitaria Colombo, pelas histórias contadas por minha mãe, que a frequentava.

Talvez o próprio fazer literário de Cony tivesse se ressentido, pois essa foi a primeira obra produzida por ele depois de 20 anos. Escrever – e escrever narrativas – não tem nada de milagre. É disciplina, é dedicação, é muito, muito trabalho constante.


CONY, Carlos Heitor. Quase Memória. Biblioteca O Globo. Rio de Janeiro, RJ: 2003


domingo, 20 de dezembro de 2015

Resenha 62 - A Culpa É das Estrelas, de John Green


John Green nasceu em Indianapolis, Indiana, nos EUA, em 24 de agosto de 1977. Apenas 3 semanas depois de ele ter nascido, a família se mudou para Orlando, Florida. Ele frequentou a Lake Highland Preparatory School e depois a Indian Springs School (esta última serviu como cenário para o seu livro Looking for Alaska – no Brasil, Quem é você, Alaska?). Formou-se com diploma duplo, em Inglês e Estudos Religiosos pelo Kenyon College, em 2000.

Escreveu também o já citado Looking for Alaska (2005), An Abundance of Katherines – O Teorema Katherine (2006), Le it Snow: Three Holliday Romances (com Maureen Johson e Lauren Myracle) – Deixe A Neve Cair (2008), Paper Towns – Cidades de Papel (2008), Will Grayson, Will Grayson – Will e Will, Um Nome, Um Destino (2010), The Fault in Our Stars – A Culpa É das Estrelas (2012). É um escritor de literatura YA (Young-Adult – para Jovens e Adultos) bastante conhecido e querido de seu público.

John Green ganhou o Printz Medal e o Printz Honor da American  Library Association. É um sucesso não só junto ao seu público jovem, mas também junto à crítica.

A narradora é Hazel Grace, quem inicia a história:

“Faltando pouco para eu completar meu décimo sétimo ano de vida minha mãe resolveu que eu estava deprimida, provavelmente porque quase nunca saía de casa, passava horas na cama, lia o mesmo livro várias vezes, raramente comia e dedicava grande parte do meu abundante tempo livre pensando na morte.” (página 11)

Hazel é portadora de câncer. Seus pulmões estão afetados e ela é obrigada a permanecer ligada, por cânulas, ao balão portátil de oxigênio. Participa de um Grupo de Apoio, no qual vão se destacar alguns personagens. Patrick, que teve o saco escrotal removido, um menino chamado Isaac; Augustus Waters, de dezessete anos, portador de um osteossarcoma – câncer nos ossos. Isaac tem câncer nos olhos.

Mas não só destes personagens vive a história; Mônica é namorada de Isaac, Kaythlin, amiga de Hazel, o escritor Peter Van Houten, autor do livro que a protagonista lê com frequência, Uma aflição imperial; a secretária dele, Lidewij Vliegenthart. O escritor é de ascendência holandesa. Junte-se a esses personagens a família de Augustus Waters e o pai e a mãe de Hazel.

O livro é escrito em uma linguagem bastante apropriada para seu público jovem:

“O Grupo de Apoio era megadeprimente, óbvio. A reunião acontecia toda quarta-feira no porão de uma igreja episcopal – uma construção no formato de cruz com paredes de pedra. Nós nos sentávamos em uma roda bem no meio da cruz: onde os dois pedaços de madeira um dia se cruzaram, onde esteve o coração de Jesus.
Sabia disso porque o Patrick, Líder do Grupo de Apoio e o único naquele lugar com mais de dezoito anos, falava sobre o coração de Jesus todo raio de reunião, sobre como nós, jovens sobreviventes do câncer, estávamos sentados bem no sagrado coração de Cristo, e tal.” (página 12)

A fixação de Hazel Grace Lancaster com o livro Uma aflição imperial faz com que ela vá, em companhia de Augustus Waters e de sua mãe, viajar para a Holanda, atrás do autor. É que a história do livro termina sem fechar algumas pontas, sem fornecer à leitora algumas informações que ela considera muito importantes:

“O Van Houten suspirou. Depois de mais um gole, disse:
— Muito bem. Você está curiosa a respeito de quem?
— A mãe de Anna, o Homem das Tulipas Holandês, Sísifo, o hamster, quer dizer, é só... o que acontece com todo mundo.
O Van Houten fechou os olhos, inflou as bochechas ao expirar e então olhou para cima, para as vigas de madeira expostas que se entrecruzavam no teto.
— O hamster – ele disse, depois de um tempo. – O hamster é adotado pela Christine...” (página 173)

Este A Culpa É das Estrelas é constantemente comparado a outro megassucesso mais antigo, o Love Story – Uma História de Amor, de Jennifer Echols, como nos lembra matéria da também escritora para o público YA, Paula Pimenta:

“Quando li Love Story, que conta a história de uma garota que tem leucemia e também vive uma história de amor, lembro que chorei muito e torci para que o final fosse diferente do esperado. Em A Culpa é das Estrelas essa torcida se repete e talvez por isso tantas pessoas se comovam com o livro. Com um tema real, ele nos sensibiliza, nos faz pensar...” (Veja, A Culpa É do John Green, 05/06/2014)

O relacionamento de Augustus Waters e Hazel Grace se aprofunda no decorrer da história. Não há um clima sombrio, mas, como nos lembra o parecer do The New York Times, transcrito na quarta capa do livro, há

“um misto de melancolia, doçura, filosofia e diversão. Green nos mostra um amor verdadeiro... muito mais romântico que qualquer pôr do sol à beira da praia.”

Toda a situação de sofrimento é vista pelo casal central como “um efeito colateral de estar morrendo”, numa alusão clara ao sentimento de não se poder contar com um futuro, sequer um futuro próximo, no caso de um portador terminal de um câncer.

John Green poderia facilmente resvalar para o dramalhão lacrimoso e, mesmo assim, seu sucesso estaria garantido junto ao seu público. Mas – e aí está a mão de um escritor mais maduro – suas escolhas narrativas caminham para a mensagem da manutenção da dignidade, mesmo no caso de uma doença terrível. Hazel amadurece no contato com Augustus, ele também cresce. Uma referência a isso é o Diário de Anne Frank – uma outra história de superação – pois quando os adolescentes vão à Holanda, atrás do escritor Peter Van Houten, visitam o memorial da famosa autora.

Van Houten se revela um ser revoltado, de mal com a vida, buscando o isolamento do mundo e recusando-se ao trato gentil com as pessoas, em tudo contrastando com a dignidade e a alegria de viver de Hazel e Waters. O escritor é um ser humano detestável, nem a própria secretária Lidewij consegue conviver com ele. Imerso na bebida, parece se alimentar do próprio sofrimento.

Talvez esteja aí uma das razões para tanta demonstração de apreço dos jovens para com John Green: ele não menospreza a inteligência dos adolescentes. Outro componente de sucesso é que ele mantém um canal aberto com o público, através do Youtube. Os adolescentes, provavelmente, o sentem como alguém do seu próprio mundo, falando sua própria língua.

É um livro honesto, para falar o mínimo. Leitura recomendada para os jovens e para aqueles que não esqueceram terem sido jovens um dia.

GREEN, John. A Culpa é das estrelas. Editora Intrínseca. Rio de Janeiro, RJ: 2012

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Resenha nº 61 - A Biblioteca À Noite, de Alberto Manguel



Alberto Manguel nasceu em Buenos Aires, no ano de 1948 e obteve cidadania canadense. Cidadão do mundo, passou a infância em Israel, estudou na Argentina e vive atualmente no interior da França. Suas múltiplas atividades espraiam-se pelo ensaio, organização de antologias, tradução, edição e escritor de romances. Manguel é respeitado internacionalmente em qualquer dessas áreas de atuação. Escreveu Todos os homens são mentirosos, Uma história da leitura, Stevenson sob as palmeiras, O amante detalhista, À mesa com o chapeleiro maluco.

Um livro sobre livros e as bibliotecas ao redor do mundo. Entretanto, este A biblioteca à noite não é um livro descritivo, ou cansativo, como poderiam pensar alguns. Alberto Manguel é dono de uma escrita fluente, às vezes irônica; sobretudo, torna-se claro que ele gosta de falar da sua paixão. E tempera sua obra com deliciosas histórias sobre leitores apaixonados.

O autor comprou

            “...um celeiro, encarapitado sobre uma pequena colina ao sul do Rio Loire. Aqui, nos últimos anos antes da era cristã, os romanos erigiram um templo a Dionísio, para louvar o deus desta região vinícola. ” (página 15)

É esse celeiro o lugar onde ele reúne todos os seus livros, que antes encontravam-se espalhados pelos muitos lugares. E, em meio as suas reflexões, já procura, às páginas 24, distinguir entre um homem erudito de um homem que ama a leitura. Para isso, socorre-se das palavras de Virginia Woolf:

            “Um homem erudito é um entusiasta sedentário e concentrado, que percorre os livros em busca de um certo grão de verdade, almejado de coração. Mas se a paixão pela leitura leva a melhor sobre ele, suas conquistas vacilarão e desaparecerão entre seus dedos. Um leitor, por sua vez, deve dominar o desejo de erudição desde o começo; se algum conhecimento aderir a ele, muito bem, mas sair à procura, ler sistematicamente com o objetivo de tornar-se um especialista ou autoridade é coisa bem capaz de matar aquilo que preferimos considerar a paixão mais humana pela leitura pura e desinteressada. ”

Aqui e ali, vão aparecendo referências à Biblioteca de Alexandria, mas não por desejo de erudição, como diria Woolf, mas porque essa biblioteca é uma referência obrigatória, quando se vai falar de acervos, livros e o lugar onde dispô-los.

Alberto Manguel nos conta histórias pitorescas. Como no caso de um leitor que havia reunido muito material por quatro décadas seguidas, em seu apartamento. Certa feita, os vizinhos não o viam mais e começaram a perceber uns gemidos estranhos, vindos de da morada dele. Chamaram-no e nada. Apelaram, então, para a polícia. Ao arrombarem a porta, todos os livros das estantes haviam caído sobre o leitor fiel, imobilizado sob tantos volumes. Foi necessário retirarem cinquenta sacos para libertarem-no.

Um outro caso: encomendado o projeto de uma biblioteca, tratou-se logo de sua construção. Quando a obra ficou pronta, percebeu-se que não haveria lugar para se colocarem todos os livros e a biblioteca teve de eleger um critério para a redução do acervo. Esse critério foi pelos livros menos solicitados por leitores. Iriam para um galpão, para serem posteriormente incinerados. Supreendentemente, os funcionários, durante a noite, entravam na instituição e, em grupo, punham-se a carimbar a ficha de empréstimo que acompanhava cada exemplar. Literalmente, salvaram muitos livros de irem para a fogueira do extermínio.

Selecionei alguns trechos, mais para o final do livro, para a degustação dos meus leitores e, sobretudo, para a minha própria:

“Se a Biblioteca de Alexandria foi o emblema de nossa sede de onisciência, a Web é o emblema de nossa sede de onipresença; a biblioteca que guardava tudo transformou-se na biblioteca que guarda qualquer coisa. Alexandria enxergava-se modestamente como centro de um círculo limitado pelo mundo conhecido; a Web, como uma definição de Deus imaginada pela primeira vez no século XII, entende-se como um círculo cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não está em nenhuma. ” (página 264)

“Bibliotecas sólidas de madeira e papel, ou bibliotecas de telas brilhantes e espectrais são prova de nossa crença duradoura numa ordem vasta e atemporal que intuímos ou percebemos vagamente. ” (página 264)

“Em seu romance A flor azul, Penélope Fitzgerald diz: ‘Se a história começa num encontro, ela tem que acabar numa busca.’ A história de minha biblioteca certamente começou com um encontro: com meus livros, com o lugar aonde leva-los, com a quietude num espaço iluminado em meio à escuridão. Mas se a história precisa acabar numa busca, a pergunta não pode deixar de ser: busca de quê? Certa vez, Northrop Frye observou que, se tivesse presenciado o nascimento de Cristo, provavelmente não teria escutado o cântico dos anjos. “Digo isso porque não os ouço agora, e não tenho porque pensar que pararam de cantar. ” Sendo assim, não estou buscando nenhuma espécie de revelação, pois tudo o que me disserem será restringido pelo que posso ouvir e entender. Não busco um conhecimento além daquilo que, de algum modo secreto, já sei. Tampouco iluminação, à qual não posso sensatamente aspirar. Nem experiência, pois em última instância só posso me dar conta do que já está em mim. O que, então eu busco, ao final da história de minha biblioteca?
Consolação, quem sabe. Quem sabe, consolação. ” (página 266)

Esse último trecho, retirado da página 266, é um dos mais belos que já li sobre o amor aos livros.

Tenho consciência de uma obra como essa não ser para qualquer tipo de leitor. Não é para aquele, que só de quando em vez pega um volume ao acaso; não é para aquele que boceja diante da obrigatoriedade de uma leitura; não é para aquele leitor de superfície, quer pela inexperiência do ofício, quer pela leitura de um livro só para parecer alguém culto. É uma leitura para aqueles que – como poucos há, amam profundamente a leitura, o mergulho solitário e silencioso no diálogo com um texto. 

MANGUEL, Alberto. A biblioteca à noite. Companhia das Letras. São Paulo, SP: 2010