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sexta-feira, 10 de abril de 2020

Resenha nº 156 - Êxtase da Transformação, de Stefan Zweig


Êxtase da Transformação - Stefan ZweigTítulo Original: Rausch der Verwandlung
Título em português: Êxtase da Transformação
Autor: Stefan Zweig
Tradutor: Kurt Jahn
Editora: TAG/Cia das Letras
Copyright: 2019
Edição: 1ª
ISBN: 978-85-359-3290-4
Origem: Literatura austríaca
Gênero: Romance
Bibliografia do autor: Cordas de prata (Poemas) 1901; A filosofia de Hippolyte Taine (Tese de Doutorado) 1904; O Amor de Erika Ewald (Contos) 1904; As Primeiras Grinaldas (Poemas) 1906; Tersites (drama teatral em três atos) 1907; Emile Verhaeren 1910; Segredo Queimado 1911; Primeira experiência. Quatro histórias de mundo infantil 1911; A casa junto ao mar. Um drama em duas partes (Em três atos) 1912; O comediante se virou. Um jogo do rococó alemão 1913; Jeremias - Poema dramático em nove cenas 1917; Memórias de Emile Verhaeren 1917; O Coração da Europa - Uma visita à Cruz Vermelha de Genebra 1918; Lenda de uma vida (Drama teatral em três atos) 1919; Viagens - Paisagens e cidades 1919; Três mestres: Balzac - Dickens – Dostoiévski 1920; Marceline Desbordes-Valmore, A imagem de um poeta vivo 1920; Romain Rolland. O homem e a obra' 1921; Carta de uma desconhecida 1922; Amok. Histórias de paixão 1922; Os olhos do irmão eterno. Uma lenda 1922; Frans Masereel (com Arthur Holitscher) 1923; Os poemas reunidos 1924; A monotonia do mundo (Ensaio)1925; Ansiedade 1925; A batalha com o demônio, Hölderlin - Kleist – Nietzsche 1925; Ben Johnson ‘Volpone’. Uma comédia sem amor em três atos (Livremente editado por Stefan Zweig. Com seis pinturas de Aubrey Beardsley) 1926; O fugitivo. Episódio do Lago Genebra 1927; Adeus a Rilke. Um discurso 1927; A confusão de emoções. Três novelas (Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma MulherO Naufrágio de um Coração e A Confusão de Sentimentos) 1927; Grandes momentos da humanidade. Cinco miniaturas históricas 1927; Três poetas de sua vida. Casanova - Stendhal – Tolstoi 1928; Rachel pede a Deus 1928; Joseph Fouché. Retrato de uma pessoa política 1929; O cordeiro do pobre. Tragicomédia em três atos 1929; A cura através do Espírito. Mesmer - Mary Baker Eddy e Freud 1931; Maria Antonieta. Retrato de um personagem central 1932; Triunfo e Tragédia de Erasmo de Rotterdam 1934; A Mulher Silenciosa. Ópera cômica em três atos 1935; Mary Stuart 1935; 24 horas na vida de uma mulher 1935; Pequenas Histórias Selecionadas – ‘A cadeia’ e ‘Caleidoscópio’ 1936; Castellio ou Contra Calvino. Uma consciência contra a violência 1936; O candelabro enterrado 1937; Encontros com pessoas, livros e cidades 1937; Fernão de Magalhães. O homem e sua ação (Biografia) 1938; Cuidado da Piedade 1939; Brasil, País do Futuro (Ensaio) 1941; Histórias de Xadrez 1942; Tempo e lugar. Ensaios e Palestras selecionados - 1904-1940 1943; O Mundo que Eu Vi - Memórias de um Europeu 1942; Amerigo. A história de um erro histórico 1944; Lendas de Estocolmo 1945; Balzac. Romance de sua vida 1946; Fragmentos de um romance 1961; Ruído da transformação 1982.

Êxtase da Transformação: um livro que começa como um conto de fadas, apesar de escrito após a segunda guerra mundial. A leitura fluía e eu pensava cá com os meus botões, “este autor vai mudar o tom da narrativa a qualquer momento”. Minha experiência de leitor me dizia, me gritava isto. Pouco a pouco, a história de Christine Hoflehner Kleinreifling se desenrola, na Áustria. Está referida  a derrota de Austerlitz, sofrida por Francisco José, imperador. Não consigo entender como um escritor do quilate de Stefan Zweig pôde estar tanto tempo no ostracismo. Não aceito a falta de oportunidade de lê-lo. ainda mais – pelo menos isto eu sabia – por ele ter morado no Brasil, mais precisamente na cidade de Petrópolis. Êxtase da Transformação é um daqueles grandes romances, devia frequentar uma destas listas de “nunca deixar de ler antes de morrer.

Stefan Zweig foi um escritor austríaco extremamente prolífico. Basta olhar-se para sua bibliografia acima; este Êxtase da Transformação foi um dos seus últimos trabalhos. Nosso autor nasceu na belíssima cidade de Viena (Áustria), em 28/11/1881 e morreu em Petrópolis (Brasil), em 1942.

Zweig era pacifista de carteirinha, defendia o fim da Segunda Guerra Mundial e a unificação da Europa; foi amigo de outra celebridade, o francês Romain Rolland. Ele fora muito bem recebido pelo povo e pela crítica brasileiros, mas por conta de sua bagagem liberal e antinazista, foi visto com certa reserva pelo então Presidente Getúlio Vargas, um homem de fortes tendências autoritárias. Após três viagens ao Brasil, ele e a esposa passaram a residir na cidade carioca de Petrópolis. Chamou o Brasil de “país do futuro” e esta alcunha logo pegou. Entretanto, sob forte depressão, acabou por se suicidar. A notícia foi um choque para os brasileiros e para o mundo, pois Zweig era um autor muito conhecido.

Uma das mais incríveis introduções que já tive a oportunidade de ler. Vejam como ele descreve o ambiente de trabalho de Christine, sua protagonista, em uma simples agência de correio em Kleinreifling, “uma insignificante aldeia não longe de Krems, a umas duas horas de trem de Viena”:
“Um livro de registro dura um mês, uma lâmpada três meses, um calendário um ano. À cadeira de palha foi atribuída uma duração de três anos antes que ela seja renovada, àquele alguém que passa a vida nela sentado, trinta anos de serviço ou 35, depois sentam um novo alguém na mesma cadeira. Nesse último não há diferença.
“Na sala de repartição de Kleinreifling, uma insignificantes aldeia não longe de Krems, a umas duas horas de trem de Viena, aquela peça substituível da decoração que se chama “funcionário” pertence ao sexo feminino, e sua designação oficial, já que esse posto pertence a uma classe de baixa remuneração, é de assistente postal. Dela se vislumbra, através da vidraça, pouco mais que o perfil simpático e discreto de uma moça, os lábios um pouco finos, as faces um pouco pálidas, um pouco de cinza sob as sobrancelhas. À note, quando ela precisa acender a lâmpada elétrica que lhe acentua as feições, um olhar mais atento perceberá na testa e nas têmporas alguns sulcos e rugas.” (páginas 16/17)
Stefan descreve com pormenores perfeccionistas os utensílios, os objetos constantes da sala onde trabalha a moça, incluindo-a entre eles: peça substituível da decoração. Para nosso escritor, está claro, o trabalho, por si, não dignifica o homem, como muito se diz por aí. Christine é reduzida a um objeto, ou seja, sem liberdade, sem vida. A descrição de sua rotina vai seguindo o mesmo tom.

A assistente postal ganha pouquíssimo, tem uma mãe doente, de quem cuida e com quem mora, sendo solteira.  Nada digno de nota acontece naquela pequena e misérrima localidade. O texto, muito focado incialmente na descrição torna a leitura desta primeira parte um pouco arrastada; compensa, entretanto, pelo perfeito domínio de técnica e pela inteligência utilizada pelo autor ao realizá-la.

A vida de Christine começa a mudar quando lá mesmo, na agência postal, ela recebe um telegrama – fato quase inusitado na calmaria da pequena sala – endereçado a ela:
“De repente: Taque! Ela leva um susto. E de novo, mais forte, mais metálico, mais impaciente: Taque, taque, taque. O aparelho Morse martela com insistência, o mecanismo de relógio matraqueia: um telegrama – hóspede raro em Kleinreifling – quer ser recebido com respeito. A assistente postal impetuosamente se livra da sonolenta sensação de preguiça, corre à mesa e liga a fita. Mas, assim que ela decifra as primeiras palavras da escrita que corre em volta, o sangue lhe sobe até a raiz dos cabelos. Pois é a primeira vez, desde que serve nessa agência, que ela vê seu próprio nome num despacho telegráfico. Ela lê uma, duas, três vezes, a mensagem que agora já foi martelada até o fim, sem entender o sentido. Mas como? O quê? Quem é que lhe telegrafa de Pontresina?” (página 18)
E eis que a acomodada Christine, se vê, de uma hora para outra, a bordo de um trem, em uma viagem para a tal cidade, nos Alpes suíços. Um verdadeiro éden com o qual a moça jamais poderia sonhar. Mas os édens podem esconder muita coisa estranha ou mesmo maléfica, como nos diz o mito da criação bíblica. Adão e Eva foram, afinal, seduzidos pela serpente e violaram a única regra edênica que não podiam violar.

As férias de Christine são do tipo “tudo pago”, incluindo o hotel. Portando sua melhor roupa, ainda assim, não condiz com o apuro do lugar. Pontresina é um lugar para ricos. Sua chegada é descrita:
“Excitada, a face quente e corada colada ao caixilho da janela com apaixonada curiosidade, nesse primeiro momento de revelação encontra-se todo o tempo diante da paisagem uma pessoa alheada de si própria. Nenhum pensamento sonda o passado. Esqueceu-se da mãe, do emprego, da aldeia, esqueceu-se do mapa na bolsa, desenhado com tanto carinho, e que poderia lhe revelar o nome de cada um dos  picos e cada um dos regatos que com apressado ímpeto se lançam no vale, esqueceu-se do próprio eu de ontem.” (página 44)
Não obstante, a tia Claire, “em outros tempos chamada simplesmente Klara”, como nos diz o narrador em terceira pessoa, cuida de tudo, ao perceber que sua protegida não passa de uma simplória para os padrões daquela estação de lazer. Anthony – seu marido – concorda com tudo, um pouco penalizado pelo completo despreparo demonstrado por Christine.

Após o banho, veste o maravilhoso vestido que a tia lhe emprestara e eis a cena na qual ela, transformada, vê sua imagem refletida no espelho pela primeira vez:
“Levanta os olhos, e então leva um susto, um susto tão grande que sem querer a empurra um passo para trás. O que é isto? Quem é esta esbelta e nobre dama, de busto inclinado para trás, a boca entreaberta, os olhos arregalados, que a encara com sincera e iniludível surpresa? É ela própria? Não é possível! Ela não o diz, não o pronuncia conscientemente, mas involuntariamente a palavra não pronunciada lhe move os lábios. E, é um milagre: também a imagem no espelho move os lábios.” (página 63)
Naquele meio, a fascinada Christine custa a perceber que tudo se regula pela procedência nobre ou rica, que se media pela aparência. Não demora muito e a origem pobre de Christine é do conhecimento de toda aquela sociedade, como se torna claro nesta passagem:
“Assim que a porta se fecha às suas costas, as forças tão custosamente reunidas abandonam Christine. Como um animal ferido pelo caçador ainda cambaleia alguns passos e se mantém de pé só pelo movimento, para depois cair com os membros inertes, assim ela se arrasta apoiando-se na parede até o seu quarto, onde desaba na poltrona, rígida, fria, imóvel.” (páginas 139/140)
Stefan Zweig expõe, neste Êxtase da Transformação, a podridão de uma sociedade que vive sua abastança em um mundo que se esforça como pode para se recompor, diante dos horrores da segunda guerra mundial.

Christine nunca mais será a mesma. Ela agora tem consciência da sua miséria, gritaram-lhe ao rosto sua equiparação aos objetos da sala do correio onde trabalho e que tão laboriosamente o autor a colocara. Não posso, entretanto, abordar mais nada sob pena de arruinar sua leitura, caro leitor, caso se disponha a ler o livro.

Comento apenas que o final é surpreendente. Mais do que isso, já que o fim do romance se afunila para duas propostas. O desenlace incomoda. Há um estranhamento porque, no final das contas, esta protagonista faz considerações pouco esperadas para alguém em sua situação, diante daquelas duas possibilidades. Mais que isso, não digo.

Êxtase da Transformação. Primeiro livro que leio deste autor e desejaria ler outro. Indiscutível, um escritor e obra que valem a pena se conhecer. É o último romance de Zweig; logo depois, ele se suicida na cidade carioca de Petrópolis, para onde se exilara. Tal ato extremo é perpetrado pelo desgosto com o desenrolar do conflito mundial. Naquele momento, parecia a Stefan que a Alemanha de Hitler ganharia a guerra; ele não o podia suportar, pacifista que era.

O tom do livro é pessimista. Mas parece um pessimismo conformado, de alguém que balança negativamente a cabeça diante do que vê – e simplesmente constata – a humanidade é mesmo assim, hipócrita.

Como disse, Êxtase da Transformação é uma leitura incômoda. Denúncia, libelo contra o egoísmo, o jogo do poder. Mesmo assim, me deixou com vontade de voltar a esta leitura em algum outro momento e aí se comprova o mérito do romance.

domingo, 22 de março de 2020

Resenha nº 155 - Eu, Tituba, bruxa negra... de Salem


Eu, Tituba: Bruxa negra de Salem por [Condé, Maryse] Título original: Moi, Tituba, sorcière... noire de Salem
Título em português: Eu, Tituba, Bruxa Negra de Salem
Autora: Maryse Condé
Tradutor: Natália borges Polesso
Edição: 1ª
Editora: Rosa dos Tempos
Copyright: 2019
ISBN: 978-85-01-11723-6
Gênero: Romance
Origem: Literatura Francesa
Bibliografia (incompleta): Heremakhonon (1976); Une Saison à Rihata (1981); Ségou: Les Murailles de Terre (1984); Ségou: La Terre em Miettes (1985); Eu, Tituba: Bruxa Negra de Salem (1986); A árvore da vida (1987); Traversée de la mangrove (1989); An Tão Revolysion (Play, 1989); Tree of Life (1992); O último dos reis africanos (1994); Winward Heights (2008); Le coeur à rire et à pleurer - Souvenirs de mon enfance (1999) ; Célanire cou-coupé (2004); Histoire de la Femme Cannibale (2007); Como dois irmãos (Play, 2007); Victoire, les saveurs et les mots (2010) ; La Vie sans Fards (2012)

As feiticeiras de Salem... diante desta referência, acudiram-me à memória certos fatos já lidos muito antes. Arbitrariedades de uma sociedade de puritanos, na localidade americana de Salem... puritanos protestantes do século XVII que levaram ao cadafalso muitas mulheres suspeitas de bruxaria. Até onde vai o fanatismo, em todas as épocas? Lembranças misturadas à indignação vieram à tona diante da capa deste Eu, Tituba, Bruxa... Negra de Salem, de Maryse Condé. Dela, já havia lido Le Coeur à Rire et à Pleurer. Já sabia, de antemão, leria uma história trágica, mas muito bem escrita, de uma escritora que sabe o que faz. E, tão logo iniciei a leitura, a obra me pegou, a leitura engrenou e emoções fluíram.

Maryse Boucolon, premiadíssima escritora, detentora do Nobel alternativo de 2018, nasceu em Guadalupe, 11/02/1937. Escritora francesa, doutora em Literatura Comparada pela Universidade de Sorbonne, Paris. Difusora de cultura e da história africana das Caraíbas, ela se casou em 1959 com o ator guineano Mamadou Condé; o nome de casada, Maryse Condé tornou-se referência de boa literatura, com temas de cultura e história dos afrodescendentes.

Num dos mais objetivos inícios que já tive oportunidade de ler, Maryse Condé assim começa seu romance:
“Abena, minha mãe, foi violentada por um marinheiro inglês no convés do Christ the King, num dia de 16**, quando o navio zarpava para Barbados. Dessa agressão nasci. Desse ato de agressão e desprezo.
Quando, longas semanas mais tarde, chegamos ao porto de Bridgetown, ninguém notou a condição de minha mãe. Como ela não tinha mais do que dezesseis anos e coo era bonita, com sua tez de um negro azeviche e suas bochechas altas com o desenho sutil das cicatrizes tribais, um rico fazendeiro de nome Darnell Davis a comprou por bastante dinheiro. Junto com ela, ele adquiriu dois homens, axanti também, vítimas das guerras entre fânti e axanti. Ele destinou minha mãe à sua mulher, que estava inconsolável por ter deixado a Inglaterra e cujo estado físico e mental necessitava de cuidados constantes. Pensou que minha mãe saberia cantar para distraí-la, quiçá pudesse dançar e realizar aqueles truques que, acreditava, os negros gostassem de fazer. Destinou os dois homens à sua plantação de cana-de-açúcar, que crescia bem, e a seus campos de tabaco.” (página 25)
Darnell descobre, pouco depois, que havia comprado uma escrava grávida e, contra a vontade da sua própria esposa, decide punir Abena e a destina a outro axanti que havia comprado, Yao. Quando ela entra na cabana do homem a que fora dada, ele percebe imediatamente seu estado:
“Minha mãe entrou na cabana de Yao um pouco antes da refeição da noite. Ele estava deitado na cama, deprimido demais para cogitar comer qualquer coisa, muito pouco curioso com essa mulher cuja vinda lhe foi anunciada. Quando Abena apareceu, ele se apoiou sobre um dos cotovelos e murmurou:
— Akwaba! [Bem-vinda]
Depois ele a reconheceu e exclamou:
— É você.
Abena se verteu em lágrimas. Tempestades demais se acumularam a longo de sua curta vida: seu vilarejo incendiado, seus pais estripados ao tentar se defender, sua violação e, agora, a separação brutal de um ser tão doce e tão desesperado quanto ela mesma.
Yao se levantou, e sua cabeça tocou o teto da cabana, pois esse negro era tão alto quanto uma laranjeira-do-mato.
— Não chore. Não vou te tocar. Não vou te fazer mal algum. Acaso não falamos a mesma língua? Não adoramos o mesmo deus?
Então ele baixou os olhos até o ventre da minha mãe:
— É o filho do senhor, não é?
As lágrimas, ainda mais quentes, de vergonha e de dor, brotavam dos olhos de Abena:
— Não, não! Mas ainda assim é o filho de um branco.
Enquanto ela estava lá, na frente dele, cabeça baixa uma imensa e doce compaixão preencheu o coração de Yao. A ele pareceu que a humilhação dessa criança simbolizava aquela de todo seu povo, derrotado, disperso, leiloado. Ele secava as lágrimas que escorriam dos olhos dela.
— Não chore. A partir de hoje, seu filho é o meu filho. Ouviu? E que se cuide aquele que disser o contrário.” (página 26/27)
A narradora de Maryse, a própria Tituba, nos relata que Yao e sua mãe passaram a noite um nos braços do outro, castos como pai e filha.  Somente uma semana após estes acontecimentos os dois iniciam suas relações como homem e mulher. Mas os fatos aguardavam; quatro meses depois, nasce uma menina e o trecho que descreve o evento segue abaixo:
“Minha mãe chorava, porque eu não era um menino. Parecia que o destino das mulheres era ainda mais doloroso que o dos homens. Para que se libertassem de sua condição, elas não deveriam passar pelas vontades dos homens que as mantinham em escravidão e deitar na cama deles? Yao, ao contrário, ficou contente. Ele me pegou com suas grandes mãos ossudas e besuntou minha testa com sangue fresco de uma galinha depois de ter enterrado a placenta da minha mãe debaixo de uma mafumeira. Em seguida, me segurando pelos pés, apresentou meu corpo aos quatro cantos do horizonte. Foi ele quem me deu o meu nome: Tituba. Ti-tu-ba.” (página 28)
Abena sofre o assédio sexual do seu amo Darnell e, para se defender, ela comete o crime definitivo de ferir um homem branco, embora não o tivesse matado. Como resultado, Tituba assiste ao enforcamento da mãe, nos galhos de uma mafumeira. Yao fora vendido para outra plantação e a pequena Tituba, expulsa definitivamente das terras do senhorio.

Esta sequência de acontecimentos dramáticos é amenizada com a introdução, na história, de outra personagem:
“Uma velha me acolheu. Parecia corajosa, pois havia visto morrer torturados seu companheiro e seus dois filhos, acusados de fomentar uma revolta. Na verdade, ela só tinha os pés sobre a nossa terra e vivia constantemente na companhia deles, cultivara o extremo dom de se comunicar com os invisíveis. Não era uma axanti como minha mãe e Yao, mas era uma nagô, da costa, cujo nome, Yetunde, sofrera uma transformação para o crioulo, Man Yaya. As pessoas tinham medo dela. Mas vinham de longe para vê-la por causa do seu poder.” (página 32)
Nesta passagem está demonstrada um dos maiores valores deste livro excelente: o respeito à cultura das nações africanas. Seus deuses, suas crenças, aparecem na obra e explicam muito da condução dos personagens. Ideias como reencarnação, comunicação entre seres humanos e espíritos são frequentes. Man Yaya, por exemplo, mesmo depois de morta continua a velar por Tituba, bem como, um pouco mais tarde, sua mãe Adena e seu pai adotivo Yao.

Nossa protagonista tem os mesmos dons de Man Yaya, ou quase, realizando curas com rezas e beberagens. Numa sociedade majoritariamente branca, purista e racista, não demora muito para Tituba ser levada ao tribunal como suspeita de bruxaria. Não é condenada, mas vendida a um outro senhor, desta vez um homem chamado Samuel Parris.

A esposa deste senhor, Elizabeth Parris é outra personagem de alguma importância na história. Muito doente e acamada, recorre aos dons paranormais de Tituba e consegue alguma melhoria. Tituba vive um amor intenso com John Indien, trabalhador nas mesmas terras que ela.

Mal sabe Tituba que o enredo desta história se modificará por completo, com sérias injunções para a sua vida e de toda a comunidade da pequena reacionária cidade de Salem.

Aqui abro um enorme parêntese necessário ao esclarecimento do que, de fato, era o tal puritanismo tão forte em Salem. A revolução puritana teve sua origem na Inglaterra, sob matriz calvinista. Era contrário tanto à Igreja Católica quanto à Igreja Anglicana; seus partidários tentavam escoimar os resíduos do catolicismo da Igreja inglesa, trazendo-a para mais perto dos valores calvinistas.

De acordo com a revista Galileu (www.revistagalileu.globo.com), em fevereiro de 1692, a filha do reverendo de Salem, Samuel Parris (que adquiriu Tituba) caiu doente, tendo alucinações e contorções de dor. Iguais sintomas estranhos aconteceram com uma prima e com um outra garota, ambas com onze anos de idade. Pressionadas pelas autoridades, as três menores atribuíram tudo às intervenções de Tituba, de Sarah Osborne, uma idosa pobre e Sarah Good, uma mendiga.

Iniciado o julgamento, Tituba, provavelmente para se livrar da morte que a rondava, confessou ser uma serva do diabo e acusou outras mulheres de tramarem contra os puritanos. Ainda de acordo com o artigo, somente com a intervenção do governador, William Phipps, a caça às bruxas terminou. Consta que a própria filha de William estava entre as acusadas.

Apesar de várias pessoas terem morrido na localidade, o julgamento do qual Tituba participara é anulado, os nomes dos envolvidos limpos e determinados valores pagos aos descendentes dos réus.

O julgamento das bruxas de Salem passou, então, à História como um dos casos de histeria ou paranoia coletiva. Há teses que atribuem os sintomas esquisitos das crianças à ação de fungos encontrados no pão e que provoca espasmos musculares, vômitos e alucinações.

A História não registra qual o fim de Tituba. Maryse Condé, entretanto, se apropria do acontecido a esta personagem da vida real e lhe dá um tratamento ficcional; de acordo com a autora, então, Tituba retorna para sua terra natal, Barbados, senhora de suas condições paranormais, influindo, por isto mesmo, nos acontecimentos do país.

Eu, Tituba, Bruxa Negra de Salem é, portanto, uma obra com inclusão forte de fatos misturados à ficção – técnica muito utilizada nos bons romances históricos. Encaixa-se no projeto literário desta ótima escritora (pouco conhecida no Brasil) de valorizar de defender a cultura afrodescendente.

Leitura de fácil entendimento, enredo linear, constitui-se num libelo contra o racismo de uma comunidade predominantemente branca, com fortes tons de assustador preconceito religioso, bastante atual para nossos tempos e sociedade, na qual parece, ser-se participante da diferenciação religiosa vai se tornando condenável e insuportável.

Recomendo o livro de Maryse Condé por algumas razões, mas nenhuma mais importante do que a de uma boa leitura – coisa ótima nestes tempos de isolamento social pela ameaça da propagação do coronavírus. Saber mais a respeito de um fato importante, histórico e que pode nos alertar sobre nossa atualidade e a compreensão do direito de etnias afrodescendentes são dois outros motivos para se ler esta obra. Há um prefácio bastante interessante de ninguém menos que Conceição Evaristo, escritora brasileira.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Resenha nº 154 - Jude, O Obscuro, de Thomas Hardy


Resultado de imagem para livro jude o obscuroTítulo original: Jude The Obscure
Título em português: Jude, O Obscuro
Autor: Thomas Hardy
Tradutor: Caetano Galindo
Edição: s/n
Editora: Cia das Letras/TAG Experiências Literárias
Copyright: 2019
ISBN: 978-85-359-3209-6
Gênero: Romance
Origem: Literatura Inglesa
Alguns dados bibliográficos do autor: The Poor Man and the Lady (1866); Remédios Desesperados (Desperate Remedies) (1871); Sob a Árvore Verdejante (Under the Greenwood Tree ) (1872); Um Par de Olhos Azuis (A Pair of Blue Eyes) (1873); Longe da Multidão Estulta (Far from the Madding Crowd) (1874); A Volta do Nativo (The Return of the Native) (1878); The Trumpet Major (1880); Dois numa Torre (Two on a Tower) (1882); O Prefeito de Casterbridge: A Vida e a Morte de um Homem de Caráter (The Mayor of Casterbridge: The Life and Death of a Man of Character ) (1886); The Woodlanders (1887); Wessex Tales (1888); Tess of the d'Ubervilles (1891); Judas, O Obscuro (Jude the Obscure ) (1895); Wessex Poems and other Verses (1898) ; Os Dinastas (The Dynasts) (1903 - 1908); Late Lyrics and Ealier (1922); The Famous Tragedy of the Queen of Cornwall at Tintagel in Lyonnesse (1923)

Comecei a ficar curioso sobre o livro, de autor do qual nada sabia, a partir da indicação da atriz brasileira Fernanda Montenegro. Ela foi a curadora da TAG, para a indicação de Jude, O Obscuro. Mesmo assim, foi o livro que levei mais tempo para ler, e isto não pode ser creditado às dificuldades porventura apresentadas pelo volume. É que, em meio a uma reforma na minha residência, as providências necessárias me roubaram foco, tempo e disposição para ler. Se o leitor se der ao trabalho de verificar, desde setembro do ano passado não publiquei nada no meu blogue. Agora, retorno. Jude, O Obscuro é um clássico fascinante. A obra foi escrita sob as influências da Era Vitoriana inglesa; e Hardy usa todo este mundo vitoriano para se insurgir contra ele. Claro se supor, tal posicionamento lhe rendeu ataques terríveis. De todas as personagens que povoam o livro, aquela de que mais gostei foi Sue Bridehead.

Thomas Hardy nasceu em Higher Bockhampton, Dorset, em 02/06/1940. Faleceu em Max Gate, Dorchester, em 11/01/1928. Novelista, contista, romancista e poeta, notabilizou-se pelo pessimismo radical dos seus romances. Estudou arquitetura e ocupou-se com restauração de imóveis antigos, sobretudo igrejas, concomitantemente à escrita de poemas que publicaria somente ao final da vida.
Casou-se com Emma Lavinia Gifford, em 1874. Após a morte de sua esposa, uniu-se em segundas núpcias a Florence Emily Dugdale.

Depreciado por grande parte da crítica vitoriana, pois que ele era um escritor que não se enquadrava nos moldes morais e valores culturais vitorianos, Thomas Hardy adentra o século XX conquistando, pouco a pouco, a fama de escritor clássico. De fato, seus livros são consumidos até hoje por um público que não lhe é contemporâneo – e isto se constitui numa das características de um clássico, o valor de uma obra que transcende seu tempo.

Creio que aqui se faz necessário uma pequena contextualização sobre a Era Vitoriana, para se compreender melhor o que se passa no romance Jude, O Obscuro e, principalmente, da maneira pela qual se passam os fatos:

O período vitoriano ocorreu sob o governo da rainha Vitória, no Reino Unido, entre os anos 1838-1901, meados do século XIX. Durante estes anos, vigorou no Reino uma época de paz (conhecida como Pax Britannica) e de relativa prosperidade para o povo britânico. Lucros advindos da expansão do Império Britânico e o surgimento da Revolução Industrial foram dois ingredientes que caracterizaram os anos vitorianos.

A classe social mais beneficiada pelas características deste período talvez tenha sido a classe média inglesa. Aqueles empresários que apostaram na revolução que as máquinas causariam se deram bem. Educada com valores rígidos e até mesmo reacionários, a ascenção desta classe média, reforçada pelo bem-estar gerado pela riqueza, poderio, disseminou seu reacionarismo, dando origem a uma sociedade repressora. Nesta mesma época, foram forjados três grandes nomes do pensamento moderno: Sigmund Freud (psicanálise), Charles Darwin (naturalista) e Karl Marx (filósofo, sociólogo e historiador).

No caso específico da literatura – o que nos interessa diretamente – houve duas tendências presentes nos romances do período: de um lado, histórias que falassem dos gostos e hábitos da burguesia florescente e de outro, narrativas com temas da ficção científica. São autores da era vitoriana nomes como Jane Austen, Oscar Wilde, George Eliot, Charles Dickens, Mary Shelley (autora de Frankenstein), as irmãs Charlotte, Emily e Anne Brontë, além do próprio Thomas Hardy e mesmo Sir Arthur Conan Doyle, autor de Sherlock Holmes.

Sobre o período, Charles Dickens disse (a citação ajuda a contextualizar):
“Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos. Foi a idade da sabedoria, foi a idade da tolice. Foi a época da fé, foi a época da incredulidade. Foi a estação da luz, foi a estação das trevas. Foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero. Tínhamos tudo diante de nós, não havia nada antes de nós. Todos íamos direto para o céu, todos íamos direto para o outro lado.”

Hardy tem um estilo objetivo, sem floreios e bordados, valendo-se de uma narrativa que não descreve muito. Criou locais fictícios onde localizar suas narrativas, como Wessex, a cidade de Christminster, Marygreen, etc. Há mesmo, no livro objeto desta resenha, uma lista de correspondência entre cidades reais e fictícias, baseando-se nas coincidências.

“O mestre-escola estava indo embora do vilarejo, e todos pareciam lamentar. O moleiro de Cresscombe lhe emprestou o cavalo e a inclinada carrocinha branca para levar suas posses à cidade para onde rumava, a cerca de trinta quilômetros dali, sendo que as dimensões de tal veículo se provaram mais do que suficientes para os bens do professor que partia. Pois a casa da escola havia sido em parte mobiliada pela direção, e o único artigo mais volumoso que o mestre possuía, além de seu baú de livros, era o piano de armário que comprara em um leilão durante o ano em que pensou em aprender música instrumental. Mas, arrefecido o entusiasmo, ele jamais desenvolveu habilidade alguma para tocar o instrumento, e desde então aquela compra se transformou em um perpétuo problema para ele quando precisava se mudar.” (página 15)

Deste início se tira algo. O protagonista – pois é do próprio Jude Fawley de que o texto fala – está se mudando com todos os seus poucos pertences para a cidade de Christminster. Sua bagagem maior são seus sonhos. Deseja ser reconhecido como um erudito, ordenar-se pastor. Para isto, dedicou grande parte de seus esforços; enquanto trabalhava como entalhador, estudava com afinco livros usados de latim e de grego. Sonhara com um curso na Universidade local. Procura seguir as passadas de sua grande inspiração, Mr. Phillotson, que tinha exercido igualmente o cargo de professor e se mudara também para Christminster, a meca da cultura.

Arabella e Jude se casam, mas não é propriamente o que se poderia chamar de casamento por amor. São os dois praticamente “empurrados para um relacionamento” pelos julgamentos e valores vitorianos, conforme se pode apreender destas duas passagens:
“Ele caminhava como se tivesse se sentindo um homem diferente do Jude de ontem. De que lhe valiam seus livros? Quais eram suas intenções, até ali obedecidas de modo tão estrito, de não perder um único minuto de seu tempo a cada dia? Perder! Essa definição dependia de seu ponto de vista: ele estava simplesmente vivendo pela primeira vez: não perdendo a vida. Era melhor amar uma mulher do que ser bacharel ou sacerdote; sim, melhor do que ser papa!” (página 49/50)

“Quem não arrisca...! Além disso, você confirma que ele [Jude] é honrado antes de começar. Com esse aí você não corre muito risco. Quem me dera a chance fosse minha! Muitas meninas fazem assim, ou você acha que elas iam conseguir se casar?” (página 52)

Algum tempo depois, Jude descobre Sue Bridehead – de longe, para mim, a personagem mais interessante do livro. Sue é prima de Jude Fawley e as encrencas se anunciam:
“Fingia pensar nela como uma parenta, pois que havia motivos arrasadores que o impediriam e o proibiriam de pensar nela de outra maneira.
O primeiro motivo era o fato de ser casado e de que isso seria errado. O segundo era o de serem primos. Não ficava bem que os primos se apaixonassem, nem quando as circunstâncias pareciam favoráveis ao sentimento. O terceiro: mesmo que ele estivesse livre, numa família como a sua, em que o casamento normalmente significava uma trágica tristeza, o casamento com alguém de seu sangue duplicaria as condições adversas e uma trágica tristeza podia ser intensificada num trágico terror.” (página 90)

Sue Bridehead ora deseja afirmar sua independência e seu direito à individualidade, ora se deixa levar pelos valores morais vigentes. É esta dualidade que, a princípio, soa como falta de caráter ou falta de firmeza em seus propósitos que a torna tão interessante. Não percamos de vista estarmos falando de uma sociedade vitoriana com fortíssimo poder de coação. Claro que havia escapadelas conjugais, mas elas eram mantidas em absoluto segredo... ou viravam escândalos, manchas morais não perdoadas pela sociedade.

Jude não consegue seu ingresso na faculdade, algo tão desejado por ele. Perde seu cargo de professor, perde a possibilidade de se tornar um pastor, como Mr. Phillotson por causa da sua relação com Sue e por sua origem pobre. Numa sociedade vitoriana, somente duas origens têm direitos reconhecidos: os de origem nobre (vinculados à corte) e os que têm dinheiro e poder.

Em um trecho, reproduzindo a fala de Jude, ficam extremamente claros os valores sociais vitorianos:
“Jude a esta altura já voltara a si. ‘Que opinião ele deve ter sobre a vida, meu ou não meu, que seja!’, ele disse. Tenho que dizer que, se estivesse em situação mais favorável, não pararia nem um segundo para pensar em quem era seu pai. Eu o assumiria e o criaria. A miserável questão da paternidade – ela representa o quê, afinal? Que diferença faz, quando se pensa a respeito, se uma criança é sua por um laço de sangue ou não? Todos os pequeninos do nosso tempo são coletivamente filhos dos adultos deste momento e merecem ser cuidados por todos. Aquela excessiva consideração que os pais têm por seus filhos e o desamor que têm pelos outros, são, como sentimento de classe, o patriotismo, o salve-se-quem-puder-ismo, e outras virtudes, no fundo, um pérfido elitismo.” (página 263)

Outro personagem que nos emociona é o Anciãozinho, filho de Jude e Arabella, mas sobre este, leitor, não comentarei para não cometer um spoiler imperdoável. Apenas direi que sobre ele desaba todo o peso de uma sociedade hipócrita, insensível e superficial.

O narrador-observador de Thomas Hardy, cuja voz em terceira pessoa soa isenta o suficiente para analisar as relações humanas é bastante objetiva. Disseca a hipocrisia da sociedade, questiona seus valores e por isso, Hardy – imagino – deve ter sofrido as penas do inferno. Aliás, para seu livro de estreia, ele foi aconselhado a amenizar o tom de crítica social, ou não seria publicado.

A recepção de Jude, O Obscuro foi inamistosa. Tanto assim, que Thomas fez dele seu último romance; a partir daí, dedicou-se a compor poemas, formato literário mais propício à voz do eu-poético e ao autorrecolhimento.

Grande, grande livro. Fernanda Montenegro, curadora da TAG para esta edição, desejo agradecer-lhe a importante indicação. Ainda mais que, em território brasileiro, esta obra já estava esgotada tempo demais. Merecíamos ter acesso a ela.

Por último, mas não menos importante, como este texto de Thomas Hardy soa moderno! Em nenhum momento senti estar lendo, do ponto de vista dos elementos estilísticos, um livro escrito em 1895. Ao criticar aquela sociedade vitoriana, Jude, O Obscuro estende suas pertinentes observações à sociedade contemporânea, até certo ponto. Muitos daqueles valores hipócritas, preconceituosos, só a pouco e pouco têm se amenizado. Pois continuam, estão aí mesmo, o desrespeito à mulher, ao diferente, o desprestígio do indivíduo de origem pobre, que levou um ministro a defender a alta do dólar para que empregadas domésticas não pudessem mais ir à Disneylândia?! É, sem dúvida, um clássico da literatura mundial que merece ser lido e relido, pois ainda tem muito a dizer ao nosso tempo – por isso mesmo é um clássico, e terá um lugar garantido na minha estante.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Resenha nº 153 - A Natureza da Mordida, de Carla Madeira


Título original: A Natureza da Mordida
Autora: Carla Madeira
Editora: Quixote + Do Editoras Associadas
Edição: 1ª
Copyright: 2018
ISBN: 978-85-66256-35-2
Origem: Literatura brasileira
Gênero Literário: Romance
Bibliografia da autora: Tudo é Rio, 2014; A Natureza da Mordida, 2018.

A Natureza da Mordida é um romance que vai se revelando aos poucos, a cada encontro entre Biá e Olívia. O primeiro encontro se dá num sebo, cheio de livros usados que contam suas histórias. Livros de sebo não contam apenas as histórias que inundam suas páginas; contam também aquelas das pessoas por cujas mãos eles passaram. Dedicatória aqui, uma assinatura ali, anotações e sublinhamentos acolá. Que emoções geraram estes exemplares? Quais histórias de vida tocaram? Se é verdade que ninguém conseguiu, até hoje, caracterizar um modo de fazer literatura que seja genuinamente feminino, este A Natureza da Mordida é um livro de que transborda a sensibilidade feminina. À medida que a narrativa prosseguia, construída pelo que se dizem as duas mulheres, eu ia me lembrando daquelas que, de algum modo, tocaram minha própria vida. Sou grato a elas. E o livro ainda nos reserva mais um brinde: é uma ode à literatura, a começar da primeira locação – um sebo. Carla é autora de outro ótimo romance, Tudo é Rio, anteriormente resenhado aqui no blogue. Por razões puramente do coração, gostei mais desta segunda obra. Atrasei meus compromissos para terminar a leitura do volume.

Remeto quem se interessar pela biografia de Carla Madeira à resenha nº 146 deste blogue, do livro Tudo é Rio. Não há muitos dados disponíveis por enquanto. Prevejo que, no futuro, cada vez mais se falará desta autora mineira.

“Eu vi Olívia. Ela estava na última mesa, depois de algumas outras mesas ocupadas, sozinha escrevendo. Em volta, um silêncio que as mesas barulhentas, os carros que passavam, as pessoas que corriam, não podiam interromper. Ela escrevia sem fazer a menor ideia de que aquele era o meu lugar. Era onde eu me sentia melhor, era meu por obrigação de me sentir melhor. Onde eu me esquecia menos. Lembrar se tornou prioridade absoluta. Pensei: vou pedir que ela me devolva, ou que me ceda, para não ser agressiva, o lugar onde me sinto melhor. Tenho uma recomendação expressa de meu médico de me sentir melhor sempre que possível. E seria possível se ela saísse de lá e me deixasse sentar e folhear os livros do sebo, que tão bem me fazem quando me lembram que sempre haverá uma outra realidade para onde me retirar. Pensei em ir até ela pedir gentilmente que saísse, mas vi que se entregava consumida a uma escrita sem pausas.” (página 9, Anotações de Biá)
É assim que, mineiramente, começa este livro. Chego até a me sentir na pele de Olívia, a que escreve sem pausas. O sebo é meio atemporal – o tempo ali se anula um pouco pela convivência com livros de variadas edições e variados tempos e gêneros ficcionais. Lá fora, o tempo corre; cá dentro, o tempo para. Lá fora, as pessoas passam, os camelôs gritam, os ônibus aceleram; cá dentro, as pessoas caminham despreocupadas, prevalece o silêncio, os corredores formados por estantes repletas são as únicas ruas onde moram os livros.

Sebo é memória. Interessante anotar isto e mais tarde direi por quê.

Biá, que aliás não é Biá, mas batizada Emma – com aquela personagem-título de Jane Austen – observa Olívia, a que escreve sem pausas. Ao prestar atenção, vê que Olívia chora. Uma perda recente. E Biá, bem mais velha do que ela, a aborda e começam a conversar. A interpeladora tem o poder de fazer com que Olívia conte suas dificuldades.
“Avancei e espantosamente segura de que faria aquilo, me apresentei: “Oi.” Oi e ponto. Oi e mais nada. Ela me olhou, sem saber se deveria me reconhecer, e disse “Oi.” Oi e ponto. Oi e daí? Daí, ela ainda com os punhos molhados, supus, depois de um silêncio que deveria ter me deixado sem lugar, me convidou para sentar. Ela me convidou para sentar talvez porque eu tivesse as mãos apoiadas na cadeira à sua frente, sem esboçar o mais remoto interesse em me afastar.” (páginas 10/11)
Estruturado em encontros entre Biá e Olívia, e em sua maioria, cada encontro precedido de “Anotações de Biá”, pouco a pouco vamos tendo reveladas parte das vidas destas personagens. Brincadeiras de infâncias, namoricos, o despertar dos hormônios e sensações, a idade adulta, vão perpassando diante dos nossos olhos.
Olívia conta a Biá como era sua mãe, seu pai e a relação entre eles:
“Para conquistar minha mãe, que era cobiçada com fervor por outros rapazes, inclusive por um dos diretores do banco, meu pai dizia ter usado uma técnica infalível: a ousadia. Pediu a ela uma receita de bolo! Minha mãe contava rindo que o xeque-mate do meu pai levava leite condensado. Mas na verdade o que a conquistou mesmo é que ele não a tratava só como uma mulher a ser conquistada, mas como uma pessoa a quem queria conhecer. Se interessava pelo que ela vestia e também pelo que pensava. Comentava a cor do esmalte em suas mãos, mas também queria saber suas opiniões sobre política. Trocavam livros, discos bilhetes e receitas de bolo. Naquele ambiente conservador e machista do banco, com todos aqueles homens submetidos a uma lisa enorme do que é do que não é coisa de homem, cheios de certo e errado, de pode e não pode, meu pai, completamente apaixonado, se viu rapidamente correspondido.” (página 113)
À medida que a história se desenrola, vamos percebendo que existem trechos repetidos, sempre referidos por Biá. São relatos cheios de lacuna, onde faltam informações, que depois aparecem, muitas delas repetidas. Por que será que a autora fez isto?

Por um motivo muito simples: Biá sofre de perda de memória. Não é um spoiler, está relatado na orelha do livro. E aqui é que se dá um mecanismo muito interessante: enquanto, paulatinamente, Biá perde sua memória, Olívia, através de seus relatos, recupera memória de sua vida, recupera coisas de há muito esquecidas ou não ditas. Entra aqui o realce que dei à questão do sebo como memória: o sebo é como se fosse um gigantesco cérebro ficcional, onde cada segmento de recordação fosse garantido por cada um dos livros que o compõem. É ali que Biá (perdendo a memória) e Olívia (recuperando a sua história) se encontram. Significativo, não, caro leitor?

Certa competição, tipicamente feminina, se estabelece entre Olívia e sua amiga, Rita:
“Nas primeiras férias que passei com eles fiquei menstruada pela primeira vez. Um aperto inesquecível. Eu era simplesmente louca para ficar menstruada. Ter peito, ter pelo, encorpar. Quase fiz promessa para ficar mocinha antes de Rita. Esse era um detalhe essencial. Na verdade, eu rezava para não ficar depois de Rita. Não queria que ela soubesse como era ser uma moça, sendo eu, ainda, tecnicamente, uma criança. Rita já tinha uma autoestima insuportável – nem quando mijou na igreja, na rente de todo mundo, se abalou. Já eu, Biá, era bem mais insegura. Para começar, eu era ruiva. Sardenta. Muito diferente das outras meninas. Não era tímida, mas tinha uma preocupação excessiva sobre o que pensavam de mim, o que me tornava cautelosa e por vezes retraída.” (página 132/133)
Não só o nome verdadeiro de Biá – Emma – é uma referência literária. Várias delas acontecem durante o desenrolar da história. Citados nominalmente, temos Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez, Crime e Castigo, de Dostoiévski. Outras se seguem, misturadas ao texto, sem aspas ou qualquer outra marcação. Estas são, depois, arroladas ao fim do livro, numa enorme lista de créditos que vão de Guerra e Paz, de Léon Tolstói, passando por Os Miseráveis, de Victor Hugo, seguindo pelo conto A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa.

Não é um recurso que me pareça esnobe, com a clara intenção de “vomitar cultura”, mas tais falas são parte integrante das falas de Biá, uma leitora assídua, voraz. Sei disso porque a mim também me ocorrem assim, vozes em segundo plano dentro dos meus pensamentos, vindas dos muitos livros que já li na vida. São, antes, um tributo belo à força da literatura; vozes de autores queridos, de obras queridas, que dizem melhor do que nós diríamos, aquilo que devem dizer.

As personagens do livro são muito bem desenvolvidas, na medida correta. Desfilam com autoridade Biá, Olívia, Rita, Laura (mãe de Olívia), Luciana (mãe de Rita), Teodoro (pai de Biá), a mãe de Biá...

Este A Natureza da Mordida é um livro que recomendo àquele leitor diletante de narrativas mais reflexivas, mais sensíveis no sentido de valorizar e explorar os sentimentos humanos. Coloco-o bem próximo, por exemplo, de Arroz de Palma, de Francisco Azevedo, também já resenhado neste blogue.

Peço-lhe licença, meu caro leitor, mas não posso terminar esta resenha sem transcrever um trecho que me impressionou pela beleza das ideias e da expressão dos sentimentos. É um diálogo entre Teodoro e a filha. É longa, bem sei. Entretanto, a estética textual – com a devida vênia de quem me lê – autoriza a transcrição:
“Vi se esboçar nele um desmoronamento, um gemido que a todo custo tentou conter, enquanto meu coração se enchia de imediato remorso. Quando ele voltou a falar, tinha envelhecido.
— Será, minha filha, que eu posso dizer que foram mesmo só sonhos, se quando eu acordava eles acordavam comigo? Escovavam os dentes comigo, tomavam o café da manhã, e entravam no meu carro e era preciso freiá-los energicamente, para que a música, que tocava no rádio, não os libertassem como costuma fazer com os sonhos bons? E entre uma ligação e outra, enquanto eu falava de horários e honorários, eles apareciam dizendo oi com suas vozes sem escrúpulos e suas imagens que me repugnavam e que também me arrastavam? E antes de dormir, lá no fundo de minha alma apavorada, de minha consciência em alerta, eu desconfiava horrorizado de que havia esperado por aquele momento em que, mais uma vez, eu me entregaria a eles, no lugar onde me entregar era permitido? Será, minha filha, maior amor de minha vida a quem eu jamais faria mal estando acordado, por quem eu morreria, será que ainda assim posso dizer que foi apenas sonho, tendo-me dado conta de que esses sonhos produziam uma espécie de realidade em que passei a viver? (páginas 239/240)