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domingo, 21 de maio de 2023

Resenha nº 206 - O Homem Que Sabia Javanês, de Lima Barreto

 



Título: O homem que sabia javanês

Autor: Lima Barreto

Ilustrações: Odilon Moraes

Editora: Cosac & Naify

Copyright: 2003

ISBN: 85-7503-199-6

Gênero literário: Conto

Origem: literatura brasileira

 

Afonso Henrique de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, em 13/5/1881, quando a cidade carioca era então capital do império. Ele morreu no mesmo local, em 01/11/1922, mas já sob o regime da primeira república brasileira. Lima Barreto publicou vasta obra, principalmente em periódicos populares, ilustrados; alguns deles, de cunho anarquista. Visitou gêneros literários variados, como romance, conto, crônica.

A maior parte de sua obra foi redescoberta e ganhou o formato livro a partir do trabalho de Francisco de Assis Barbosa e de outros pesquisadores, levando o nosso resenhado a ser reconhecido como um dos maiores escritores brasileiros.

Dele, disse Monteiro Lobato, em carta ao escritor Godofredo Rangel (carta de 01/10/1916):

“Conheces Lima Barreto? Li dele, na Águia, dois contos, e pelos jornais soube do triunfo do Policarpo Quaresma, cuja segunda edição já lá se foi. A ajuizar pelo que li, este sujeito me é romancista de deitar sombras em todos os seus colegas coevos e coelhos, inclusive o Neto. Facílimo na língua, engenhoso, fino, dá impressão de escrever sem torturamento – ao modo das torneiras que fluem uniformemente a sua corda-d’água."

Autor de obra hoje reconhecida, é de sua autoria Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911), Numa e Ninfa (1915), Clara dos Anjos (1922/1948) – este último romance, póstumo.

Entre as novelas, escreveu O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905/1997 – póstumo), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919). Contos, Histórias e Sonhos (1920) e este O Homem Que Sabia Javanês (1997, póstumo).

Considero uma falha na minha formação de leitor atento o ter lido tão pouca coisa deste autor, o que trato de começar a remediar na presente resenha. Sua literatura recobre-se com o tema das desigualdades sociais (é bom lembrar, Lima Barreto era mulato), hipocrisia dos homens e mulheres em suas relações sociais.

Antônio Cândido, famoso crítico literário brasileiro, diz que a concepção literária de Lima Barreto “de um lado favoreceu nele a expressão escrita da personalidade”, enquanto de outro “pode ter contribuído para atrapalhar a realização plena do ficcionista”. Estamos falando do panfletarismo, da preocupação documental, da “literatura militante” que compõe o projeto ficcional deste escritor.

Inimigo ferrenho do beletrismo, Lima Barreto mirava suas baterias contra nomes importantes de sua época, como Coelho Neto. Inevitável, Barreto sofreu de um apagamento proposital por muito tempo.

Lima tem um estilo direto, coloquial – o que é um dos contributos para a eclosão do modernismo no Brasil. Não poupa ninguém, em suas denúncias. Recentemente, a partir de 2016, as pesquisas mostraram em torno de 164 textos inéditos, sob pseudônimos. Sua obra hoje, apesar dos defeitos apontados por críticos, de alguma forma são um bloco coerente de um grande escritor.

Não é demais lembrar, por exemplo, que o aclamado romance Os Demônios, de Dostoiévski, também foi concebido como romance panfletário.

Desculpe-me, leitor, pelo alongamento da exposição de dados e críticas sobre Lima Barreto, mas este procedimento julgo necessário para um escritor tanto tempo no limbo.

O homem que sabia javanês é um conto. A crítica acerba, sarcástica, é sobre o bacharelismo vazio, ou seja, a valorização dos títulos acadêmicos apenas por serem títulos acadêmicos, mais ainda, o enaltecimento da pretensa sabedoria que a nada serve.

“Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia pregado às convicções e às responsabilidades, para poder viver.

Houve mesmo, uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho”. (página 3)

É neste ambiente que Castelo – narrador-personagem – se declara professor de javanês. Ora, tal informação é de causar espanto, pois ninguém ali havia ouvido falar do tal idioma, quanto mais dar de cara com um professor de javanês! E o amigo Castro ainda escuta de Castelo que ele havia sido nomeado cônsul por tal saber.

O conto se desenvolve, então, numa conversa de bar, regada a cerveja, enquanto as peripécias castelinas vão sendo narradas.

“Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes: se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os “cadáveres”. Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e à língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo malaio-polinésio, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.” (página 5)

Stop necessário. Já foi dito que uma das vertentes da literatura de Lima Barreto é a sátira menipéia. Por este termo, tão importante para teóricos como Bakhtin, entende-se a sátira dirigida às ideias e não a indivíduos. Tendo origem nos escritos de Menipo, escritor da Grécia antiga, influenciou nomes como Dostoiévski, Machado de Assis, Voltaire, etc.

Em O homem que sabia javanês a sátira menipeia já começa no título. Não se trata da crítica a um indivíduo, não; ataca a cultura brasileira, o vira-latismo brasileiro – como diria o saudoso Odorico Paraguaçu, personagem de Dias Gomes – privilegiadora de falsos sábios, títulos vazios e discursos empolados.

Castelo torna-se professor de javanês. E logo arruma um emprego, o de lecionar esta língua ao doutor Manoel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga. Tudo ia bem, até o Barão lhe perguntar como havia aprendido o idioma javanês:

“Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de um navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês.” (página 13)

Mais não é possível dizer, sem aprofundar em spoilers. O conto é divertidíssimo mesmo hoje em dia, pois que, no fundo, no fundo, pouca coisa mudou...

Disse que li pouca coisa do Barreto. Não me sinto muito à vontade ao dizer ter lido apenas O triste fim de Policarpo Quaresma (outra crítica social devastadora). E tanta é a atualidade deste romance que poderia ensinar a muitos praticantes de desvarios militantes atuais um pouco de comedimento.

O homem que sabia javanês. Uma das mais saborosas leituras que já fiz. E – digna de nota – a edição da Cosac & Naify é ótima. Os desenhos de Odilon Moraes quase contam o conto de Lima Barreto por imagens. Em formato grande, das Graphic novels, o volume faz parte da série dedinhos de prosa, uma coleção de textos leves, destinadas principalmente a despertar o gosto pela leitura em jovens-adultos (Young-Adults).

Adorei. 

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Resenha nº 205 - Linha de Sombra, de Joseph Conrad




Título original: The Shadow-Line

Autor: Joseph Conrad

Tradutora: Maria Antônia Van Acker

Editora: Globo

Copyright: 2003

ISBN: 85-8966-514-3

Gênero Literário: romance

Origem: Literatura inglesa

 

Joseph Conrad (Józef Teodor Konrad Korzeniowski) nasceu na Polônia, em 03/12/1857. Nesta época, a Polônia havia sido ocupada pela Rússia. Seu pai foi preso por atividades contra os ocupantes russos e condenado a quatro anos de trabalhos forçados na famigerada Sibéria. Sua mãe morreu no exílio e, quatro anos depois, perdeu também o pai. Estes dados vão nos dar alguma luz sobre o porquê do sentimento anticolonialista do nosso escritor.

Sob os cuidados do tio, Conrad viajou para Marselha, França, onde iniciou sua carreira como marinheiro. Tentou um suicídio fracassado em 1878. Passou a servir num barco britânico, visando evitar o serviço militar obrigatório russo. Aos 21 anos, aprende inglês – língua que mais tarde dominará com excelência.

A primeira vez que pisou solo inglês foi em Lowestoft, Suffollk. Viveu em Londres e, posteriormente, perto da Cantuária, na cidade de Kent. A esta altura, já tinha obtido a cidadania inglesa.

É impressionante a qualidade desta obra. Entre tantas coisas boas que deixou, temos, em língua portuguesa, Nostromo (1904), Coração das Trevas (1899), Lord Jim (1900), Vitória (1915), O Agente Secreto (1907). Este Linha de Sombra é de 1917.

É indissociável a experiência marítima de Joseph Conrad e sua literatura. Grande parte de sua ficção é ambientada no mar. Este é o primeiro livro de Conrad que leio, embora tenha outros na minha estante. Estou impressionado por este livro.

Linha de Sombra é um romance de tiro curto (na edição que tenho, 159 páginas), e conta com uma densidade poucas vezes vistas no gênero. Aqui tudo funciona de modo muito bem concatenado. Há – como na maioria de suas obras – o mar, mas aqui não é só ambiência. É metáfora. Isto pode começar a ser entendido a partir do título, Linha de Sombra. Algo que divide, que separa; uma transposição. A linha é de sombra, é incerta. O que haverá do outro lado? Concordo, é ainda fluido este adequado título. Deixemos falar nosso autor, no parágrafo de abertura do romance:

“Apenas os jovens têm tais momentos. Não me refiro aos muitos jovens. Não. Os muito jovens não têm, a bem dizer, momento algum. É um privilégio do começo da juventude viver adiante de seus dias, em toda a bela continuidade de esperança que não conhece pausas ou interrupções.

Fecha-se atrás de si o pequeno portão da mera meninice – e adentra-se um jardim encantado. Até as sombras aqui resplandecem cheias de promessas. Cada curva da vereda tem suas seduções. E não porque se trate de um país desconhecido. Sabe-se muito bem que a humanidade toda já trilhou aquela senda. É o encanto da experiência universal, da qual se espera extrair uma sensação incomum ou pessoal – um algo que seja só nosso.” (página 15)

Considero este um dos melhores parágrafos de abertura de tudo o que já li. Aqui está a linha-mestra desta obra. A vida de toda a gente, se vista em plano maior, é muito parecida, mesmo quando oscila deste ou daquele jeito. O que nos enriquece é extrair uma sensação incomum ou pessoal – um algo que seja só nosso”. E o que separa homens de meninos? A experiência. A capacidade de reconhecer, se há leis sociais e leis da natureza, que deveremos considerar enquanto vivermos em sociedade, enquanto formos vivos. E o que sinaliza, tanto para o próprio indivíduo, quanto para a sociedade em que vive, que o homem está pronto para as responsabilidades a serem assumidas?

Os ritos de passagem. Os estágios da nossa evolução, do momento do nascimento até o momento da nossa morte, são evidenciados pelos ritos de passagem. O adolescente se transforma em adulto e sinaliza tal fato. Tenho de convencer os meus congêneres da minha aptidão para tomar atitudes mais consequente sobre meus ombros.

Linha de Sombra, então, vai abordar um rito de passagem. Mas, no caso específico deste romance, qual o significado desta linha?

“Éramos apenas quatro homens brancos a bordo, com uma tripulação de grande marinheiros malaios, e dois contramestres malaios. O Capitão encarou-me como se tentasse adivinhar o que me afligia. Mas ele também era marinheiro, e ele também fora jovem certa época. Logo um sorriso insinuou-se por baixo de seu bigode farto, cinza-aço, e ele observou que, é claro, se eu achava que tinha de ir, ele não iria reter-me pela força. E ficou arranjado que receberia baixa na manhã seguinte. Enquanto eu saía do camarim de navegação ele acrescentou subitamente num tom peculiar, ansioso, que esperava que eu encontrasse aquilo por que estava tão ansioso para sair e procurar.

Uma frase suave, enigmática, que pareceu alcançar mais fundo do que qualquer ferramenta com ponta de diamante podia chegar. Eu, sinceramente creio que ele entendeu o meu caso.” (páginas 17/18)

O velho Capitão representa a experiência universal, enquanto o protagonista, jovem ainda, busca a sua sensação própria, a interpretação própria do que seja viver. Ele ainda não sabe, ao certo; mas já se anuncia o incômodo, a insatisfação com o que vinha fazendo:

“Na zona de penumbra entre a juventude e a maturidade, na qual eu me encontrava então, somos particularmente sensíveis àquele tipo de insulto. Temo que o meu comportamento para com o comissário tenha se tornado bastante grosseiro. Mas não estava nele enfrentar qualquer coisa ou pessoa. O hábito das drogas ou da embriaguez solitária, talvez.  E quando perdi a cabeça a ponto de xingá-lo, ele sucumbia e começava a guinchar.” (página 40)

O seu rito de passagem, então, se delineia. Ele será chamado a exercer o cargo de capitão num navio “só seu”, embora se desentenda com o comissário frequentes vezes. Terá de levar a embarcação ao seu destino. É impossível para o protagonista resistir à possibilidade de comandar o navio: a embarcação exerce nele imediato encantamento:

“Um navio! Meu navio! Ele era meu, mais completamente meu para possuir e cuidar do que qualquer outra coisa no mundo: um objeto de responsabilidade e devoção. Ele estava lá à minha espera, enfeitiçado, impossibilitado de sair do lugar, de viver, de sair pelo mundo (até a minha chegada), como uma princesa encantada. Seu chamado me chegara como que vindo das nuvens.” (página 54)

Já em contato com a tripulação, dentro do navio, a consciência de suas decisões começa a se fazer sentir:

“A juventude é uma coisa maravilhosa, um poder incrível – enquanto não se começa a pensar a respeito. Eu senti que estava começando a ficar consciente de si mesmo. Quase contra a minha vontade assumi uma melancólica seriedade. Eu disse: — vejo que o senhor o manteve em muito boa ordem, Sr. Burus.” (página 70)

Não será uma prova fácil para o jovem capitão levar o barco ao seu destino. Há correntes marítimas traiçoeiras, há riscos sem conta no mar. O protagonista, na opinião de seus pares, preparado para capitanear o barco terá de provar, para si, para seus tripulantes, para quem o contratou, que a prática confirma a teoria.

E, uma curiosidade – justificada pela época – não há figuras femininas neste romance. Toda a sua ambiência, como já disse, é o mar e sua zona de influência, os portos, as docas. Em plena época vitoriana, um mundo estritamente masculino.

Joseph Conrad é apontado como um escritor de transição entre a literatura vitoriana de, por exemplo, Charles Dickens (de Oliver Twist) ou Thomas Hardy (de Jude, O Obscuro) e a modernidade de Lawrence ou Joyce.

Consta que o filósofo Bertrand Russel era fascinado pelas obras de Joseph, a ponto de batizar seu filho com o nome do amigo, Conrad. O escritor e o filósofo foram grandes amigos.

A literatura não para de nos trazer referências consistentes, para leitura. Nostromo é apontado, por muitos críticos, como a opus magna deste polonês/inglês. Gostaria mesmo muito de lê-lo; se é considerado a obra-prima, e tendo este Linha de Sombra tão bem arquitetado, Nostromo será mesmo excepcional.

Para quem goste de leituras mais densas, recomendo este incrível romance. 

terça-feira, 2 de maio de 2023

Resenha nº 204 - Mama, de Terry McMillan

 

 



Título Original: Mama

Autora: Terry McMillan

Tradutor: Petê Rissatti

Editora: TAG

Edição: 1ª

Copyright: 1987

ISBN: 978-65-88526-22-4

Gênero literário: romance

Origem: Literatura americana

 

Terry McMillan nasceu em Port Huron, no estado americano de Michigan, em 18/1/1951. O interesse dela por livros data de quando ela começou a trabalhar em biblioteca pública, na idade de 16 anos. Recebeu seu bacharelato em jornalismo, em 1986, pela Universidade da Califórnia (Bekerley). Todo o seu trabalho é caracterizado por fortes protagonistas femininas.

Seu livro de estreia foi este Mama – um volume auto-publicado. O sucesso, entretanto, lhe chegou pelo reconhecimento do seu terceiro trabalho, Waiting to Exhale, em 1992. Esta obra permaneceu na lista dos mais vendidos por onze semanas.

Terry publicou, ainda: How Stella Got Her Groove Back, Disappearing Acts, A Day Late and a Dollar Short, The Interruption of Everything. Getting to Happy, a aguardada sequência de Waiting to Exhale, saiu em 7/9/2010.

Mildred é a protagonista do romance Mama. O parágrafo inicial é impactante:

“Mildred escondeu o machado debaixo do colchão do catre eu ficava na sala de jantar. Derramou soda cáustica diluída em um saco de papel pardo e o enfiou atrás das panelas e frigideiras embaixo da pia da cozinha. Em seguida, verificou todas as três facas de açougueiro para garantir que as lâminas estavam afiadas. Sabia onde poderia conseguir uma arma em quinze minutos, mas, desde que viu seu irmão ser baleado por roubar uma cerveja do salão do bilhar, tinha medo de armas de fogo. Além disso, Mildred não queria matar Crook, só queria machucá-lo.” (página 10)

Mildred é uma mulher negra e pobre. Como se depreende do parágrafo inicial, seu estado de prontidão contra os ataques dos seus conterrâneos é evidente. Crook é marido dela, mas é uma relação na qual a dureza da vida, as limitações impostas tiram um tanto a sensibilidade das pessoas. Esta família vive na cidade fictícia de Point Haven.

Mas, Point Haven é e não é um local fictício. Ele emula a cidade de Detroit, no estado de Michigan. É a mais populosa cidade daquele estado americano. Há casos em que vale a pena, para uma maior contextualização fornecer alguns dados extra história, para melhor contextualização do leitor. E, no caso, há certas curiosidades saborosas.

Detroit é de fundação francesa, em 1701, por certo francês de nome Antoine de Lamonthe Cadillac. Com o nome inicial de Fort Ponchartrain du D’Étroit, teve esta última expressão “D’Étroit” (estreito, em francês) adaptada para a pronúncia em inglês e se rebatizou para Detroit. É, até hoje, a capital americana do automóvel, tendo as sedes da General Motors e da Ford montadas ali.

Por volta dos anos 60, o progresso da cidade arrefeceu. A concorrência com os automóveis importados do Japão e da Coreia do Sul (os tigres asiáticos, lembram-se?), a globalização cada vez mais intensa acabaram fechando as empresas locais. A icônica montadora Packard não é mais que um ponto turístico hoje; pouco a pouco, Detroit passa da condição de “motor dos EUA” para uma cidade fantasma.

Mildred tem cinco filhos, cujos nomes são trocados pelos chamados “apelidos de casa”: Dim-Dim, Lindinha, Anjinho e Boneca. A exceção que consegue ser reconhecida pelo nome próprio é Freda. De todos, o mais complicado é Dim-Dim. O apelido foi criado por ele sempre gostar muito de dinheiro.

Freda é outra personagem forte, dando suas cabeçadas, mas abrindo seu próprio caminho:

“Na verdade, Freda esperava que, no seu décimo terceiro aniversário, seu pai estivesse morto ou divorciado. Começou a odiá-lo, não conseguia entender por que Mildred simplesmente não o abandonava. Então, poderiam ir para a assistência social, como todo mundo parecia estar fazendo em Point Haven. Não se atrevia a sugerir isso para a mãe.  Freda sabia que ela odiava conselhos, por isso fazia o que Mildred não estava acostumada a fazer: mantinha a boca fechada.” (página 20)

A moral de Mildred é algo duvidosa, como entre nós, os seres não ficcionais. Isso lhe confere uma credibilidade paradoxal. Sim, por que como pode ser, alguém assim de moral duvidosa, um ser humano crível? Exatamente porque nós nos movimentamos para conseguir nossos interesses; vem sendo cada vez mais comum esta filosofia de “os fins justificam os meios”.

Mildred é verdadeira. É capaz de lutar pelo que acha ser certo e os valores familiares são sagrados, apesar de a sua ser uma família disfuncional. Quando Dim-Dim é preso, ela vai correndo livrá-lo da cadeia. E, espelhando-se fortemente em Freda, que se muda para a Califórnia, onde acredita estarem suas melhores chances de obter o desejado, Mildred também vai viver, por um tempo, naquele estado.

Como acontece muitas vezes, quando vivemos um período em uma cidade muito maior, na primeira vez que Mildred vai visitar Freda na Califórnia e retorna para Point Haven, suas impressões sobre sua cidade natal se modificam:

“Point Haven havia encolhido. Parecia que Mildred estivera fora por um ano e não apenas quinze dias. As ruas pareciam mais estreitas e curtas, as casas mais velhas e precárias. Até as pessoas em South Park pareciam ter envelhecido, e suas roupas pareciam ser de outra época. Agora, para ela, o quintal da frente de sua casa era apenas um canteiro com grama.” (página 159)

Mama é um romance de crítica social, sem ser panfletário. Notamos que os candidatos à assistência social são sempre os pretos, por estarem numa condição financeira inferior. Eles moram numa parte de Point Haven chamada de Fundão – lugar desvalorizado, que ninguém quer. Os empregos, de uma forma geral, circulam ao redor da General Motors e a Ford Motor Company.  

As edições da TAG – Experiências Literárias envia sempre, junto aos seus livros, uma revista na qual se aprofundam os comentários e se traçam contextualizações. Não abro mão desta publicação, valiosa pelo menos para mim:               

“Tudo isso ocorre no início dos anos 60. A família de Mildred Peacock vive em Point Haven, no Michigan, cujos habitantes, em sua maioria, nunca tinha ouvido falar de Malcom X, e apenas alguns tinham ideia de que tinha sido Martin Luther King. As tensões raciais da época, entretanto, permeiam constantemente a trajetória dos personagens: “A maioria dos negros não conseguia encontrar emprego e, como resultado, tinham tanto tempo livre nas mãos que, quando estavam lisos como um azulejo, entediados consigo mesmos ou chateados com tudo porque a vida havia se transformado em uma imensa decepção, sua insatisfação entrava em erupção e explodia.” (página 9 da revista)     

Terry McMillan é muitas vezes comparada a Alice Walker, autora de A Cor Púrpura. Ambas têm em seus trabalhos mulheres negras fortes e determinadas, tendo de se afirmarem contra tudo e contra todos. E o que é uma falha inexplicável, por que Mama, só agora tem uma primeira edição no Brasil, e assim mesmo inteiramente bancada pela TAG? 

Este é um livro a que voltarei, sem dúvida. Um romance com "r" maiúsculo, como dizemos por aqui. Recomendo-o sem medo de errar.                                                                                                                                                                        

 

 

 

domingo, 30 de abril de 2023

Resenha nº 203 - A Última Livraria de Londres, de Madeline Martin

 

 

 



Título original: The Last Bookshop in London

Autora: Madeline Martin

Tradutora:Simone Reisner

Editora: Arqueiro

Edição: s/n

Copyright: 2021

ISBN: 978-65-5565-328-1

Gênero Literário: Romance

Origem: Literatura americana

 

Madeline Martin escreve ficção histórica e já possui vários livros entre os mais vendidos, segundo a lista do The New York Times. Ela reside na cidade de Jacksonville, Florida. Madeline é graduada pelo Flagler College em Administração Comercial. Seus hobbies incluem escalada em montanhas, corrida.

Após viver na Europa por mais de uma década, Madeline gosta de empreender viagens internacionais sempre que pode. Seu lugar favorito para visitar: Escócia. Escrever sempre foi sua paixão desde que ela era uma criança e agora, ela finalmente consegue a realização do seu sonho.

Este A Última Livraria de Londres é um best-seller. Apesar de o subtítulo dizer tratar-se de “Um romance sobre a Segunda Guerra Mundial”, a meu ver, isto é meia-verdade. Trata-se, mais especificamente, de um romance sobre o amor pelos livros e por certa livraria na cidade de Londres. A ambientação é a Segunda Guerra Mundial, mas a narrativa faz apenas pequenas referências às batalhas.

É um best-seller menos usual, pois envereda-se por reconstituição histórica inglesa e cita vários clássicos da literatura. Tive a paciência de anotá-los e cheguei à seguinte lista de citações: O Conde de Montecristo, de Alexandre Dumas; Emma, de Jane Austen; Mein Kampf, de Hitler; What Hitler Wants, de Léon Trotsky; Frankenstein, de Mary Shelly; As Ondas, de Virgínia Woolf; Um Conto de Natal e Um Conto de Duas Cidades, As Aventuras do Sr. Pickwick, todos três de Charles Dickens; A Odisseia, de Homero; Jane Eyre, de Charlotte Brontë; O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald; Middlemarch, de George Eliot; A Feira de Vaidades, de William Makepeace Thackery; Entre O Amor e O Pecado, de Kathleen Winsor; Rebeca, de Daphne du Maurier.

“Grace Bennet sempre sonhou em morar em Londres. Mas jamais poderia imaginar que essa se tornaria sua única opção, ainda mais às vésperas de uma guerra.

O trem parou na estação Farringdon, que tinha o nome claramente sinalizado na parede, em uma faixa azul sobre um círculo vermelho. Várias pessoas aguardavam na plataforma, ansiosas para entrar, enquanto outras tantas ansiavam por sair. Vestiam roupas bem-feitas, seguindo o estilo elegante da vida na cidade. Muito mais sofisticadas do que em Drayton, no condado de Norfolk.” (página 7)

Grace e Viv – duas amigas de infância e residentes no condado de Norfolk, Inglaterra, resolvem, então, se mudar para a grande Londres. Grace, a bem da verdade, praticamente nada deixa para trás; apenas um tio seco e egoísta, que se nega a dar a ela uma carta de recomendação.

Quanto a Viv, ela também não possui uma carta de recomendação, mas não tem pruridos em forjar uma. Fake news, já naquela época...

As duas vão viver na casa da velhinha, a Sra. Weatherford. Esta senhora era amiga da mãe de Grace e fica feliz em receber as duas. Viv vem com a pretensão de trabalhar numa grande loja de departamentos, enquanto Grace ainda não tem nada certo.

A Sra. Weatherford resolve consertar esta falha do destino. Encaminha a filha de sua amiga a uma livraria antiga, em Londres, a Primerose Hill, de propriedade do Sr. Evans. A primeira impressão da livraria não é nada agradável para Grace:

“ Havia um cheiro de mofo no ar, misturado com um odor parecido com o de lã molhada. Camadas de poeira nas estantes indicavam que grande parte do estoque não era tocada havia um bom tempo, e pilhas de livros no chão arranhado de madeira davam ao cenário uma sensação de desordem. Esse efeito era intensificado por um balcão à direita, coberto com o que pareciam ser contas amontoadas ao acaso em meio a um caótico mar de tocos de lápis.” (página 20)

E, quando ela se apresenta como enviada pela Sra. Weatherford para trabalhar ali, ele simplesmente lhe responde não precisar de ninguém. E aí, nós, leitores, sentimos certa antipatia pelo Sr. Evans. Velho chato, solitário, ranzinza e acomodado.

Simplificando, por nova intervenção da sua protetora, Grace acaba sendo admitida na livraria. Entretanto, há dificuldade no seu novo trabalho: ela nunca foi muito dada a leituras e a livros e praticamente, não conhece título algum.

Como disse, o pano de fundo deste A Última Livraria de Londres é a Segunda Guerra Mundial. Este conflito mundial ainda não é uma ameaça real para os ingleses, mas eles tomam seus cuidados. Por exemplo, instalam sirenes de emergência por toda a cidade e os pais, amedrontados, começam a mandar seus filhos para o interior, onde a possibilidade de ataque alemão é sensivelmente menor. Nos quintais das casas, vão sendo construídos abrigos antibomba.

Grace segue sua vida, até que, em determinado dia, entra na livraria o Sr. Anderson:

“Os olhos de Grace passaram rapidamente pelas lombadas de vários livros. Mas eles não seguiam qualquer ordem de colocação, nem por título, nem por nome do autor, nem pela cor da capa.

— Se me der licença... – disse uma voz masculina atrás de Grace.

Ela se sobressaltou e viu um homem alto, usando um paletó cinza feito sob medida, os cabelos pretos bem penteados para o lado. Ela já o havia notado mais cedo. Afinal, que mulher não notaria um sujeito assim, tão bonito? Mas isso fora há algum tempo e ela achou que ele já houvesse saído da loja.” (página 31)

E é este Sr. George Anderson que desperta em Grace o amor (não só) pelos livros. Presenteia-a com uma edição capa dura do clássico de Alexandre Dumas, O Conde de Montecristo. Pouco depois, ele sai de cena por um tempo, pois é piloto da RAF – Royal Air Force e tem de combater no front em guerra, assim como Colin – o gentil filho da Sra. Weatherford.

A cada dia, o clima da cidade vai se tornando mais tenso. Logo vem a notícia pior possível, Hitler tomou a França. Logo, pelo raciocínio dos citadinos, a próxima etapa será Hitler atacar a Inglaterra. Do ponto de vista da política interna, as coisas também não vão nada bem.

No rádio, a voz do Primeiro-Ministro Chamberlain se faz ouvir, mas logo a Polônia cai sob o domínio alemão e a política pacifista do Ministro vai por terra e ele pede demissão. Neste ponto, já é evidente que a Inglaterra passará maus momentos. No lugar do político demissionário, entra Winston Churchill.

Grace e Viv não conseguem se manter isentas, nesta comoção que a todos marca. Viv deixa seu emprego na Harod’s e se alista na SVM – Serviço Voluntário de Mulheres, assessorando militarmente o exército inglês. Grace participa da ARP – Air Raid Precautions (Precauções Contra Ataques Aéreos), enquanto continua trabalhando na Primerose Hill.

O blecaute se instala em Londres. Bombas são jogadas sobre a cidade e o trabalho da ARP é garantir que o blecaute seja respeitado pela própria população. Além disso, seus membros ajudam no combate aos incêndios e socorro imediato aos feridos pelos ataques.

Chegamos aqui e não desejo cometer spoilers. Dramas acontecem, numa história cujo pano de fundo seja a Segunda Guerra Mundial não se pode escapar de eventos assim, se o autor quiser manter a verossimilhança. Claro, um romance histórico não tem de obedecer aos chamados “fatos históricos”, há licença para ficcioná-los pelo bom andamento do romance.

Por que o autor deste blog se decidiu ler um livro destes, que não é muito o seu habitual? Eu diria, amigo que me lê, por dois motivos. Primeiro, ele foi lido na praia. Como leitura de praia, funcionou muito bem, mas eu desejava descansar, sem leituras profundas e cheias de filosofia. Penso, este livro tem certo parentesco com 84 Charing Cross Street (título em português, Nunca te vi sempre te amei), de Helene Hanff, A Livraria Mágica de Paris, de Nina George, e mesmo A Sociedade Literária e A Torta de Casca de Batata, de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows.

Não há qualquer preconceito em se ler best-sellers. São livros leves, leituras agradáveis. Afinal, há livros para todas as ocasiões e pessoas. Leituras pouco densas, leituras profundas. Nem todo mundo se dispõe a ler Ulisses, de James Joyce. Eu ainda não me aventurei.

Segundo motivo, uma narrativa, mesmo mais convencional, sobre livros e livrarias me atrai bastante. É muito bom ler algo sobre aquilo que amamos tanto, não? Não só leitura: consumo também filmes com esta temática. Só de ter, na sinopse, o envolvimento de um escritor ou escritora na trama, já é meio caminho andado para eu me dispor a assistir.

sexta-feira, 31 de março de 2023

Resenha nº 202 - Migrações, de Charlotte McConaghy

 

 




Título original: Migrations

Autora: Charlotte McConaghy

Tradutora: Wendy Campos

Edição: s/n

Editora: Editora Alta Books/TAG Livros

Copyright: 2023

ISBN: 978-85-508-0774-4

 

Charlotte McConaghy é australiana, nascida em Darwin (1988). Autora também do livro Once there were wolves, teve este Migrações publicado pelo Clube de Assinatura de Livros TAG, no mês de fevereiro deste ano.

Você, meu caro leitor, já deve ter lido alguma distopia, estou certo? Este tipo de leitura está na ordem do dia. Livros que abordam situações do pós-guerra nuclear, pós-catástrofes naturais da Terra. Mas nenhuma distopia que eu tenha lido se parece com esta obra da Charlotte.

Uma distopia ecológica. O que seria isso? Não, os humanos não estão (ainda) em extinção, diretamente. O que se extingue são os outros animais. E pela ação do homem. Bem pesquisado, este trabalho aponta as variações climáticas, mas não apenas elas, como a causa do lento desaparecer das espécies. Vejamos como ele se inicia:

“Os animais estão morrendo. Em breve estaremos sozinhos.

Certa vez, meu marido encontrou uma colônia de painhos-de-cauda-quadrada na costa rochosa do indômito Atlântico. Na noite em que me levou até eles, eu não sabia que aqueles eram alguns dos últimos de sua espécie. Só sabia que eram impetuosos para defender suas cavernas noturnas e ousados ao mergulhar nas águas iluminadas pela lua. Passamos um tempo com eles e, por algumas poucas horas na escuridão, pudemos fingir que também éramos assim, selvagens e livres.” (página 3)

A personagem principal, Franny Stone, chega a Groenlândia. Ela procura um barco em que possa viajar, monitorando andorinhas do mar; as aves – algumas portando um dispositivo de localização atado às pernas, são aves com energia para fazerem o maior percurso migratório de todas as espécies. Vão até ao Ártico.

Franny é obstinada. Esta é sua maior característica. Existe outra, entretanto: ela é capaz de amar, mas é incapaz de ficar em algum lugar. É, ela mesma, uma ave sem pouso. E aí, o título Migrações se torna metafórico. Tanto se refere às migrações das tais andorinhas do mar, quanto refere-se às migrações da própria Franny. A obstinação da protagonista e sua constante necessidade de ir e vir darão o mote ao romance.

“Fui tirada da casa da minha mãe e mandada para a Austrália para morar com minha avó paterna. Só tentei mais uma vez, muitos anos depois, quando conheci um homem chamado Niall Lynch e nosso amor era tão profundo que se entranhou em nossos nomes, corpos e almas. Tentei com Niall, assim como fiz com minha mãe. Realmente tentei. Mas o ritmo das marés é a única coisa que nós humanos ainda não conseguimos destruir.” (página 19)

O único barco disponível para a pretensão de Franny Stone é o Saghani – um barco pesqueiro, comandado pelo capitão Ennis Malone. O capitão é um homem dividido, sempre atormentado por profundo dilema. Precisa apanhar peixes, muitos peixes; tem a consciência de que, assim agindo, contribui poderosamente para o extermínio deles.

Talvez, numa camada interpretativa mais profunda, possamos enxergar nesta figura uma crítica ao capitalismo, que exarceba o consumo, não importando a que preço. O preço, aqui, é o extermínio.

O interessante deste livro é que cada personagem da embarcação tem seu próprio mundo dramático: Basil, Samuel, Anik, Lea, Malachai. Léa é a única mulher entre os tripulantes e tem um gênio difícil. Malachai foi para na pesca à procura de uma garota, mas acaba se envolvendo numa relação homoafetiva com Daeshim. Anik é um homem mal-humorado, imediato no Saghani.

Temos, então, duas grandes linhas temáticas neste livro. A primeira, como o leitor já deve ter percebido, os esforços de Franny Stone para não perder de vista as andorinhas do mar, que monitora. A outra, os dramas pessoais da protagonista, acentuados ou, em parte revelados, pela interação dela com os outros componentes da embarcação.

O enredo é do tipo não linear. Isto que dizer que o leitor deverá estar atento para as idas e vindas dos marcos temporais, para ligá-los e dar sentido à narração. Este recurso, embora mais difícil de seguir, no caso de um leitor incipiente, é muito interessante, por servir a uma narrativa cuja personagem principal tem dificuldade de se estabelecer em qualquer lugar.

Em sua infância, Franny já estabelecia uma amizade com um bando de corvos de sua cidade:

“Os corvos passaram a me seguir. Se caminhássemos até as lojas, eles voavam ao nosso lado e pousavam nos telhados das casas. Quando eu perambulava ao longo das muretas de pedra até as colinas, eles sobrevoavam alto. Eles me seguiam até a escola e esperavam nas árvores até o fim das aulas. Eram meus companheiros constantes, e minha mãe, talvez intuindo que eu precisava mantê-los em segredo, fingia o tempo todo que não percebia a devota nuvem negra que mês seguia.” (página 79)

Há no texto citações do poeta inglês Keats, do romântico Byron, do americano Herman Melville, autor de Moby Dick (de resto, uma referência fortíssima para aventuras marítimas). Ainda mais, se fizermos uma analogia entre a obstinação de Franny e do Capitão Ahab.

A narrativa de Migrações possui certo tom lamentoso, como se alguém desesperançado fizesse as anotações, como se segue abaixo:

“Estou no convés, envergonhada. Mas também sinto alívio; estou aliviada pelos peixes, que nadaram para longe do nosso alcance, e pelos pássaros, que já partiram para caçar o próximo cardume. E pela tartaruga. Penso nela enquanto ignoro o capitão e me junto ao resta da tripulação. É nos olhos dela que penso enquanto enrolo as cortiças, girando e girando. Seu olhar enquanto estava pendurada lá, presa na rede, presumindo que seu fim havia chegado.” (página 103)

Este é um livro que vou reler, em algum ponto do futuro. O texto é fluente, aliciante. Trata de um tema bastante atual, objeto de tantas reuniões governamentais sobre o clima. Cada vez mais – esta é uma reflexão minha – os problemas se tornam de amplitude planetária. A solução deles não passa mais por atitudes isoladas, individuais. Tornaram-se coletivas.

Individual, mesmo, é a tomada de consciência. Neste ponto, penso que livros como este são fundamentais.

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Resenha nº 201 - Do Tempo Em Que Voyeur Precisava de Binóculos, de Luize Valente

 




Título: Do tempo em que voyeur precisava de binóculos

Autora: Luize Valente

Editora: Record

Edição: 1ª

Copyright: 2019

ISBN: 978-85-01-11716-8

Origem: literatura brasileira

Gênero: conto

 

Luize Mendes Pinheiro Valente nasceu no Rio de Janeiro e é de ascendência portuguesa e alemã. Formada em jornalismo e pós-graduada em Literatura pela PUC-RJ, é fascinada por História, notadamente ligada às questões judaicas e os refugiados dos tempos de guerra. Sua bibliografia é composta de três romances: O Segredo do OratórioUma praça em Antuérpia, Sonata em Auschwitz e um livro de contos, Do tempo em que voyeur precisava de binóculos. Seus livros já foram editados fora do Brasil; Uma praça em Antuérpia ganhou edição portuguesa pela editora Saída de Emergência, integrando a coleção "História de Portugal em Romances". O Segredo do Oratório ganhou uma tradução holandesa pela Nieuw Amsterdam.

Em 2017, os direitos cinematográficos de O Segredo do Oratório e de Uma praça em Antuérpia foram adquiridos pelos produtores Breno Silveira (de 2 Filhos de Francisco) e Paula Fiuza (diretora do documentário Sobral).

Do tempo em que voyeur precisava de binóculos contém três contos longos, a saber, De repente o mundo ficou realmente grande, O dia em que Eva acordou e (In)cômodos. O que encaixa estes três trabalhos de Luize sob o longo e descritivo título são duas coisas. Primeiro, serem todas as histórias ambientadas nos anos sessenta. Segundo, todas as tramas têm a ver com os imóveis habitados pelos personagens. O volume possui até um glossário, com palavras que, com bastante certeza, a geração de leitores mais novos não tem a menor ideia do que significam. Ou significaram.

Assim, temos: carrossel de CD, DOS, Filme B, Yuppie, prafrentex, pager ou bipe. Não faltam referências a séries televisivas como Os Jetsons, Os Simpsons (esta, incrivelmente duradoura, passa até hoje) e Os Waltons.

O parágrafo introdutor do primeiro conto parece ter sido planejado como uma introdução para a coletânea inteira:

“Ninguém se torna um voyeur. Já nasce assim. Se você olhar um berçário com bastante atenção, vai perceber que algumas crianças viram o rosto quando encaradas. Foram descobertas. Eu sei do que estou falando. Nasci prematuro e as semanas na incubadora me ajudaram a desenvolver um senso agudo de observação. Meus olhos eram a porção humana de um corpo com pulmões artificiais e uma cabeça inchada de veias sob a pele fina e transparente.” (página 15)

De repente o mundo ficou realmente grande tem uma pegada à Janela Indiscreta, filme de Alfred Hitchcock, estrelado por James Stewart, Grace Kelly e Wendell Corey. Enredo: um fotógrafo quebra a perna e é obrigado a ficar em casa. Não tem nada para fazer, então, bisbilhota a vida dos outros com seus binóculos. De sua janela, ele presencia o que pode ter sido um assassinato.

Aqui neste livro, o voyeur observa, de sua janela, a privacidade alheia com seu binóculo. Observa sua obsessão, Fernanda:

“Tenho uma ambição desmedida, que Fernanda não possui. Quero muito, o poder me agrada. Ela se esconde numa dissertação de mestrado. Muitas vezes, julgo que ela adoraria ter sofrido meu acidente para poder adiar mais um pouco a entrada na vida.

A esta altura, já a acompanho faz uma semana. A primeira impressão insossa é substituída pela sensação de descobrir alguém especial. Não é bela o bastante para o encanto de um primeiro olhar. Também não tem a fibra da profissional atirada que fascina ao mesmo tempo que amedronta. Mas a beleza é um misto de genético e cosmético; e o sucesso, de oportunidade, perseverança e algum talento. Fernanda tem carisma. Isso é herança divina. A gene vê Fernanda no primeiro dia e dá de ombros. No segundo, as lentes a procuram como quem não quer nada. E assim os dias vão passando, e o foco cai nela não se sabe por quê. Não anda pelada, não faz nada de mais. No entanto, os olhos se perdem em observá-la, hora a fio, neste não fazer, por alguma razão que meu eu racional não explica.” (página 27)

O solitário voyeur, ao invadir a vida de outra pessoa, acaba mexendo na sua própria vida. Forçado a uma espécie de autoanálise, a um reexame de sua própria existência:

“Todo ser humano tem um quê de perverso... pelo menos isso me serve como justificativa para elucubrar pensamentos pecaminosos sobre a família. No estado de inércia em que me encontro, faz bem enveredar a mente por caminhos proibidos pela moral cristã. Embora não tenha tido educação religiosa severa – cheguei a fazer primeira comunhão, mas jamais comunguei depois daquele dia –, carrego a culpa católica de maldizer pai e mãe. Mas o homem é racional porque pensa e não pelo que pensa. Hein? Deixo as divagações de lado para voltar ao concreto que define minha paisagem.” (página 41)

E, no fim de tanta observação, de tanto exercício voyeur, na confirmação da teoria que nos diz que aprendemos com os outros, o narrador constata:

“Estou apaixonado pela vida. E é essa sensação que me faz querer mudar tudo. Procurar os caminhos que o destino traçou para mim e não apenas olhá-los como possibilidades do que poderia ter sido.” (página 65)

Em O dia em que Eva acordou, temos uma narradora que acompanha a personagem Eva. Ela compulsa o diário de Eva e revê a vida dela:

“Tudo se passou em menos de uma hora, desde o instante em que Eva abriu os olhos naquela manhã de sábado. Não estamos aqui para julgá-la. Existe certo e errado? Além do mais, já está feito. Quanto a Berto, Homem do Ano, Empresário Modelo e tal, cometeu um erro primário. Falou de noite, quando temos apenas os fantasmas para dividir a angústia, o que deveria ter dito pela manhã... Afinal era sexta-feira. Custava deixar para segunda?” (página 71)

Eva tem de acompanhar o marido Berto. É-lhe imposto mudar de país e de casa e, pouco a pouco, estas movimentações vão mexendo com sua vida. O diário de Eva revela o crescente interesse dela pela cunhada Noelle e suas autodescobertas – tanto quanto ao seu corpo, quanto aos seus sentimentos – se revelam:

“A cabeça de Eva ia sendo ocupada por zeros e mais zeros que engordavam as somas de uma vida inteira. As cifras abririam as portas do mundo para ela e Noelle. A cunhada teria os carros que quisesse, os brilhantes que quisesse, ela fecharia a Chanel se Noelle pedisse. Juntas conquistariam o universo. Ela e Noelle, ela e Noelle, Noelle, Noelle, Noelle. Agora eram as letras daquele nome magnífico que lhe tomavam a mente e lhe enchiam o corpo de prazer.” (página 83)

(In)cômodos fornece dados interpretativos a partir do nome. Não é um trocadilho simplório. Ao fornecer duas leituras superpostas – incômodos dos personagens por algum motivo e “em cômodos” anuncia uma espécie de identificação de problemas em cada aposento – anuncia um tema que caminha para os lados de Viagens ao redor do meu quarto, de Xavier de Maistre.

A vida de duas mulheres numa relação homoafetiva não é fácil, como qualquer relação, aliás:

“É fácil ignorar, quem está sendo agredida sou eu.” Ela, muda. “Nunca minha mãe, meu pai, qualquer pessoa da minha família te tratou mal. Sabe por quê? Porque eu me dou ao respeito, eu saí de casa de verdade, eu cortei o cordão. Mas você, você... “Eu o quê?”, corta ríspida, se levantando, não deixando fôlego, “tá aí brigando sozinha. Aliás você é mestre em brigar sozinha”, e sai da sala. E me larga falando, bufando. Que ódio, ódio. Uma frase. Eu só quero ouvir dela uma frasezinha, mas ela não diz, nunca diz. Por que a pessoa que a gente ama nunca fala o que a gente quer, na hora que a gente quer?” (página 92)

É uma relação cheia de não ditos, de termos e incômodos em suspensão. E as coisas tomam proporções enormes exatamente no banheiro em obras. Já foram trocados todos os canos velhos, mas a infiltração continua. Nesse cômodo com vazamento, acontece o vazamento de mágoas e desentendimentos:

“será que você vai finalmente se realizar cuidando de mim doente? Será que a reforma do maldito banheiro vai pro espaço por causa do barulho que vai incomodar o seu amorzinho?”, e esmurra o peito como se fosse um tambor, e bate a cabeça na parede e, e... e aquilo vai subindo, subindo, subindo até que vomito um CHEGA. Vindo do estômago, “CHEGA, eu não quero mais você, sua louca. Saia da minha frente. Eu te adoeço? O que significa isso? Em bom português, eu te adoeço e você me adoece. Não me coloque no meio da tua loucura. CHEGA, abre essa porta que eu quero sair.” (página  107)

Do tempo em que voyeur precisa de binóculos é uma boa coletânea. Luize Valente maneja bem o conto, mas não tenho como comparar gêneros tão diferentes: conto e romance. A ambientação dos anos sessenta nos deixa a sensação... sensação? Não. Deixa-nos a certeza de que, afinal, muito pouca coisa mudou de lá para cá. Os problemas de relacionamento humano continuam os mesmos. Tudo bem, um voyeur hoje não precisa mais de binóculos. Tem tralhas tecnológicas para isto: webcams, Instagram, Facebook, Tik Tok, invasão de smartphones, et cetera.

Pensando bem, talvez nem seja mais necessária a existência de voyeurs: as próprias pessoas se encarregam de expor suas intimidades em qualquer mídia social, para o deleite de olhos ansiosos. Parece, tal exposição confere aos expostos seus habituais quinze minutos de fama, como queria Andy Warhol.

Ah, e estamos em plena era das fake news...

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Resenha nº 200 - O Sentido de Um Fim, de Julian Barnes

 


Título original: The Sense of An Ending          

Autor: Julian Barnes

Tradutora: Léa Viveiros de Castro

Editora: Rocco/TAG Livros

Copyright: 2011

ISBN: 978-85-325-3139-1

Origem: literatura inglesa

Gênero: Romance

 

Julian Patrick Barnes nasceu em Leicester, Inglaterra (19/01/1946). O escritor venceu o prêmio Man Booker, pelo seu presente livro, The Sense of An Ending (2011). Outros três livros anteriores foram finalistas deste mesmo prêmio: Flaubert’s Parrot (1984), England, England (1998) e Arthur & George (2005). Barnes publicou, ainda, sob o pseudônimo Dan Kavanagh, ficção criminal; além disso, é autor de ensaios e contos.

A obra considerada sua magnun opera (obra máxima) é O Papagaio de Flaubert. Nele, o médico e viúvo Geoffrey Braithwhite viaja até Rouen, na França. Encontra um papagaio empalhado que teria pertencido ao famoso escritor francês, Gustave Flaubert, daí o título.

Este O Sentido de Um Fim envolve três estudantes: Tony Webster, que é também o narrador; Alex e Colin. A este grupo preexistente na escola, junta-se o novato Adrian Finn. Formam eles um conjunto muito interessante:

“Outro detalhe de que eu me lembro: nós três, como símbolo de nossa união, costumávamos usar nossos relógios com o mostrador na face interna do pulso. Era uma afetação, é claro, mas talvez algo mais. Isso fazia o tempo parecer uma coisa pessoal, até mesmo secreta. Nós esperávamos que Adrian notasse o gesto, e o imitasse, mas ele não o fez.” (página 16)

O narrador Tony Webster nos dá sua impressão sobre o novo amigo:

“Essa era uma das diferenças entre nós três e o nosso novo amigo. Nós éramos essencialmente debochados, exceto quando éramos sérios. Ele era essencialmente sério, exceto quando era debochado. Nós levamos algum tempo para entender isso.” (página 17)

O tempo passa, entretanto, e chega a hora de se despedirem e ingressarem nos cursos superiores de suas escolhas. Como diz Webster, “Adrian, o que não foi surpresa para ninguém, ganhou uma bolsa de estudos para Cambridge”. Mantêm contato através de cartas:

“Os três originais escreviam com menos frequência e menos entusiasmo um para o outro do que para Adrian. Nós queríamos sua atenção, sua aprovação; nós o cortejávamos, e contávamos primeiro a ele nossas melhores histórias; cada um de nós achava que era – e merecia ser – mais próximo dele.” (página 31)

A época dos namoros mais sérios e compromissados chega, e naturalmente, entra mais uma personagem na história:

“Minha namorada se chamava Veronica Mary Elizabeth Ford, informação (refiro-me aos seus nomes do meio) que eu levei dois meses para extrair. Ela estava estudando espanhol gostava de poesia e o pai era funcionário público. Tinha cerca de um metro e cinquenta e cinco, batatas da perna musculosas, cabelos castanhos até os ombros, olhos azuis-acinzentados por trás de óculos de armação azul e um sorriso rápido, mas retraído. Eu a achava bonita. Bem, provavelmente eu teria achado bonita qualquer garota que não me rejeitasse.” (página 32)

Adrian Finn, entretanto, comete suicídio, aos vinte e dois anos. Este não é um spoiler, pois é informação que faz parte do texto da quarta capa do livro. Ele recebe uma pequena herança e os fragmentos de um misterioso diário de Finn. A partir destes fragmentos é que Webster faz suas incursões de memória, fazendo uma espécie de reconstrução do acontecido no passado e qual seria, afinal de contas, seu papel junto ao amigo agora ausente.

Desta confrontação de dados – os de sua própria percepção – e os constantes daquele diário surge uma nova interpretação dos fatos. Adrian Finn sempre fora visto, pelo grupo original, como o mais brilhante dos quatro. Esta obra se configura, portanto, como um livro cujo texto se aproxima muito das narrativas memorialísticas como, por exemplo, Baú de Ossos, do mineiro Pedro Nava.

Conforme se depreende desde o título, em O Sentido de Um Fim a passagem do tempo é importante. O texto tem várias belas reflexões sobre o decorrer dele, o significado das coisas acontecidas:

“Como já mencionei, eu tenho um certo instinto de preservação. Eu consegui tirar Verônica da minha lembrança, da minha história. Então, quando o tempo me jogou depressa demais na meia idade e eu comecei a olhar para trás, vendo como minha vida tinha transcorrido e avaliando os caminhos não percorridos, aquelas suposições tranquilas e debilitantes, eu nunca me vi imaginando – nem mesmo para pior, quanto mais para melhor – como teriam sido as coisas com Verônica.” (página 81)

Ou este outro trecho:

“Na juventude, conseguimos nos lembrar de toda a nossa curta vida. Mais tarde, a memória vira uma coisa feita de retalhos e remendos. É um pouco como a caixa preta que os aviões carregam para registrar o que acontece num desastre. Se nada der errado, a fita se apaga sozinha. Então, se você se arrebenta, o motivo se torna óbvio; se não se arrebenta, então o registro da sua viagem é muito menos claro.” (página 125)

O imbricamento entre tempo e memória se torna crítico com a chegada da velhice:

“Quando você começa e esquecer as coisas – não estou falando de Alzheimer, só da consequência previsível do envelhecimento – há maneiras diferentes de reagir. Você pode parar tudo e ficar tentando forçar sua memória a fornecer o nome daquele conhecido, flor, estação de trem, astronauta... Ou você admite o fracasso e toma medidas práticas como consultar uma enciclopédia e a internet. Ou você pode simplesmente deixar para lá – esquecer de lembrar – e então às vezes você percebe que o fato esquecido volta à superfície uma hora ou um dia depois, normalmente durante aquelas longas noites em claro que a idade impõe. Bem, nós todos aprendemos isso, aqueles de nós que esquecem as coisas.” (página 133)

Estruturalmente, o livro é divido em duas partes. Na primeira, seguimos Webster em seus relatos meio aleatórios, pouco profundos. Todo o grupo vive as ansiedades próprias da juventude ainda sem definições. Seus anseios referem-se mais a sexo, tornarem-se adultos. Aqui, se inicia o despontar das primeiras relações amorosas, permeadas de inexperiência e os traumas advindos delas. Na construção do adulto, entretanto, escolhas e estragos vão sendo feitos à medida que o tempo passa.

Já na segunda, o narrador é um homem maduro, divorciado. O diário de Adrian Finn obriga o narrador a rever fatos e seus significados; ele é obrigado a reavaliar seus atos e rever seu passado. Então, os tais relatos aleatórios, abordados com um clima de imparcialidade vão, aos poucos, levando a questionamentos, descobertas.

Este tipo de narrador – dito não confiável – é nosso velho conhecido. Talvez o narrador icônico deste tipo, na literatura brasileira, seja o Bentinho, de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Entretanto, aqui neste O sentido de um fim, tal narrador não confiável tem uma característica diferente: ele se reconhece como tal.

Reflete o narrador Tony Webster sobre si mesmo, tendo como referência o diário de Adrian Finn:

“Então, por exemplo, se Tony...” Estas palavras tinham um sentido local, textual, específico de quarenta anos atrás; e em algum momento eu poderia descobrir que elas continham ou conduziam a uma crítica por parte do meu velho clarividente e autovidente amigo. Mas por ora eu as ouvi como uma referência mais ampla – ao conjunto da minha vida. “Então, por exemplo, se Tony...” E neste registro tivesse enxergado mais claramente, agido com mais decisão, se apegado a valores morais mais verdadeiros, aceitado com menos facilidade uma passividade que ele chamou primeiro de felicidade e depois de contentamento. Se Tony não tivesse sido medroso, não tivesse dependido da aprovação alheia para aprovar a si mesmo... e assim por diante, através de uma sucessão de hipóteses conduzindo a uma hipótese final: então, por exemplo, se Tony não fosse Tony.” (página 107)

Romance típico do tempo em que vivemos, O Sentido de um fim escancara nossa confusão diante do mundo antigo, concreto, em turbulência, cujos valores pretensamente imutáveis colidem a todo momento com o mundo atual e líquido, como queria Zigmunt Bauman, onde tudo muda o tempo todo. Como o narrador de Julian Barnes, somos obrigados a rever valores do passado, adaptá-los, recusá-los. Como este narrador, estamos perdidos; muito do que aprendemos, configura-se hoje como verdadeiras armadilhas:

“Quando eu estava na escola, nos diziam que enquanto estivéssemos de uniforme tínhamos que nos comportar de um modo que refletisse bem a instituição. Então não era permitido comer ou beber na rua; e se alguém fosse apanhado fumando levaria uma surra. E também não era permitido confraternizar com o sexo oposto: a escola das meninas que ficava ao lado e se ligava à nossa deixava as meninas sair quinze minutos antes dos meninos, dando tempo a elas de se afastar bastante de seus pares masculinos, predatórios e fálicos. Eu fiquei ali sentado me lembrando de tudo isso, registrando as diferenças, sem chegar a nenhuma conclusão. Nem aplaudi nem censurei. Fiquei indiferente; eu tinha suspendido o meu direito a ideias e julgamentos.” (página 157)

E, precisamente por me reconhecer como um narrador não cem por cento confiável, que dependo de minhas reavaliações do passado que, sob a ótica de hoje precisam de ressignificação, eu tenho de ler outra vez este livro. E, precisamente por este livro ter me incomodado tanto (é a arte que imita a vida, mesmo?), que retornarei a ele.

“Você se aproxima do final da vida – não, não da vida em si, mas de outra coisa: de qualquer possibilidade de mudança nessa vida. Você tem permissão para desfrutar de uma longa pausa, tempo suficiente para perguntar: o que mais eu fiz de errado? Eu pensei num bando de garotos em Trafalgar Square. Pensei numa jovem dançando pela primeira vez na vida. Pensei no que não podia saber ou compreender agora, em tudo que jamais poderia ser conhecido ou compreendido.” (página 174)