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terça-feira, 19 de março de 2019

Resenha nº 147 - Pretérito Imperfeito, de B. Kucinski


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Título: Pretérito Imperfeito

Autor: Bernardo Kucinski
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1ª
Copyright: 2017
ISBN: 978-85-359-3017-7
Gênero Literário: Romance
Origem: Brasil
Bibliografia do autor (incompleta): Os Visitantes, 2016; Alice Não mais que de repente, 2014; Você vai voltar pra mim e outros contos, 2014; K. - Relato de uma Busca, 2011; Jornalismo econômico, 1996; Jornalistas e Revolucionários, 1991; O que são Multinacionais, 1991; Brazil Carnival of the opressed, 1995; Pau de Arara, La Violence Militaire au Brésil, 1971 ; Fome de Lucros, 1977; The debt squads, 1988 ; A ditadura da dívida, 1987; Jornalismo na era virtual, 2005; Cartas ácidas da Campanha do Lula de 1998, 2000 ; Lula and the workers party in Brazil, 2003; Brazil state and struggle, 1982 ; A síndrome da antena parabólica, 1998; Abertura: a história de uma crise. Brasil Debates, 1982.

Já há algum tempo alimentava a vontade de ler alguma coisa de B. Kucinski. Acabei dando neste título, Pretérito Imperfeito, muito embora na minha mente estivesse o seu trabalho mais famoso, K – Relato de Uma Busca. Bernardo Kucinski tem uma curiosidade, ele se lançou como ficcionista com mais de setenta anos, o que é uma exceção neste Brasil de poucas chances para escritores nacionais. Mas, reportemo-nos ao volume. Pretérito Imperfeito pode ser um romance pequeno, de apenas 150 páginas; entretanto, é uma leitura que incomoda. Não por ser mal conduzida, não é isto. É incômoda pela história que conta e pelo estilo seco e objetivo de Kucinski. Não sobram palavras, não há qualquer excrescência neste livro. Capítulos curtos relatam a história de um menino adotado pelo narrador em primeira pessoa. É um menino de cor negra (a cor de pele se define depois). Será um filho-problema,  por ser negro, não por ser adotado. Sofre bullying na escola, sofre na mão dos policiais, sofre no seio de uma sociedade hipócrita que não o aceita. É uma leitura dura. Entretanto, o texto de Kucinski é de ritmo rápido, não há longas orações subordinadas. Talvez a influência de ter tido sua primeira obra ficcional no gênero conto – gênero este que prioriza a contenção, a objetividade, a concisão – tenha sido o que norteou este texto. Desejo ler outras coisas do autor.

B. Kucinski nasceu em São Paulo, no ano de 1937. Filho de imigrantes poloneses, os quais, ao permanecerem na Europa, foram mortos em campos de concentração nazistas. Talvez esta condicionante – ter os pais mortos por um poder dominante – tenha feito de nosso resenhado um homem comprometido com ideais e ideias libertárias. Possui graduação em física pela USP (1968) e sua irmã, Ana Rosa Kucinski, que fora professora do departamento de química da mesma universidade, foi morta pelo regime da ditadura militar brasileira. Bernardo torna-se, então, militante estudantil, foi preso e exilado. Trabalhou como assessor de imprensa no primeiro mandato do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, é colaborador do Partido dos Trabalhadores e professor na USP, onde leciona jornalismo internacional.

Não é boa política de leitura transferir-se dados biográficos para explicar obras literárias. Entretanto, há casos em que isto se justifica, e tal é o caso da presente obra. O tom francamente contestatório deste Pretérito Imperfeito – a começar pelo título escolhido – e de sua obra, como um todo, mergulha em sua biografia.

Disse que o narrador é em primeira pessoa e, de fato, isto se verifica. Não obstante, esta voz narradora abre espaço para que falem outros personagens: a mãe adotiva, notícias de jornal, interrogatórios, entrevistas, autos de processos.

Para ilustrar estas interrupções da voz narrativa, transcrevemos o seguinte trecho:
“Consta do incluso inquérito que os policiais militares estavam em patrulhamento de rotina na reserva florestal de denominação Serra do Itatiaia quando abordaram e revistaram o indiciado que se encontrava em atitude suspeita, não encontrando nada junto a seu corpo, porém foram encontrados dentro do seu veículo uma porção de substância entorpecente e um cigarro que, submetidos à perícia  revelaram potencialidade lesiva, conforme laudo anexo.” (página 62)
É um texto complexo em sua estrutura, extremamente dinâmico e moderno. Vejamos, porém, como Kucinski inicia sua obra:
“Começo pelo fim. Pela carta. Escrevi à mão, cada palavra sopesada. Despachei à antiga, para ser entregue por carteiro que bate à porta, como se deve. Registrei, para me assegurar da entrega. Todavia, sem remetente. Carta para não ser respondida.
Não vou repetir por inteiro o que escrevi. Não é coisa bonita de se dizer, nada de que se orgulhar. Escrevi porque era preciso. Sempre houve o pai que expulsou de casa o filho. Deus baniu o homem do paraíso e o homem era Seu filho, por Ele criado à sua semelhança, e o paraíso era Sua morada. Mito fundador, o paraíso para sempre perdido. Expulsou ao primeiro pecado.” (página 9)
A seu favor, o narrador vai dizer que ele deixara passar pecados sem conta. E o leitor já é fisgado por esta excelente página inicial, ele identifica que há algum problema muito sério entre o pai e o filho, pois há o fato da expulsão. Coisa grave, pois levou o narrador de Kucinski a se justificar, citando o mito fundador do paraíso perdido – que tantas vezes já foi citado em outras obras literárias, inclusive por aquela obra-cânone Paraíso Perdido, de Milton.

Todo o procedimento de emissão/recepção da comunicação de expulsão do filho se faz, como diz o narrador, de modo antigo, com carteiro entregando no endereço “como se deve” e, ainda, garantindo a entrega por meio da remessa registrada. Ato de quem não quer deixar rastros, pois, como é dito, “não é algo de que algum pai possa se orgulhar”.

O ato da adoção do pequeno se dá numa condição de distanciamento deste pai, como podemos verificar no trecho a seguir:
“Assim que terminasse o seminário de Nova York, eu iria documentar o triunfo sandinista na Nicarágua. Esse era o meu programa. Quinze dias fora do Brasil. Pensava na Nicarágua e assistia com Abou ao Cravos de Abril, de Ricardo Costa, quando alguém me toca nos ombros e sussurra: ligação do Brasil. Minha mulher não telefonaria por ninharias. Penso num acidente. Sempre imagino o pior. Assim que atendo, ela diz: surgiu um bebê, o que você acha? Penso: logo agora! Ela diz: tenho que decidir hoje. Sinto pelo fervor de sua voz que ela quer, que telefonou para ganhar coragem. Pergunto: menino ou menina? Menino, gorduchinho. Deduzo que já viu o bebê, já se engraçou, já o trouxe ao regaço. Digo que sim, tudo bem. Pergunto: você dá conta até eu voltar? Ela diz sim, não se preocupe.” (página 15)
Este distanciamento entre pai e filho marca quase a obra toda. Mais tarde, o menino, já maiorzinho, vai morar com uma família de amigos nos Estados Unidos; depois, ficará um tempo em Israel.

O distanciamento geográfico, a dificuldade de comunicação entre gerações, o distanciamento psíquico e os eventos de segregação racial levam o filho a se meter no mundo das drogas. E aí, a relação, que já era um tanto difícil, torna-se um inferno. O curioso aqui é que o narrador de Kucinski trabalha como correspondente internacional – área essencialmente de comunicação – e não consegue se comunicar com o filho.

Vejamos o trecho em que o filho vai para Israel:
“O filho criança mente para se proteger de nossa ira; adulto, mentirá para nos proteger de seus fracassos. Humanas mentiras nas quais fingimos acreditar. Ele mentia para nos desfraldar. Na antevéspera da partida para Israel, dei-lhe um relógio de pulso. No embarque, não vi o relógio. Perguntei: cadê o relógio? Fui assaltado na saída de um bar, disse. Já então eu duvidava do que ele dizia, mas fingi acreditar. Deixei passar. Hoje me pergunto: por que deixei passar? Talvez porque não quisesse a verdade. Refugiava-me na dúvida, quem sabe fora mesmo assaltado? Tornara-me de fato um codependente.” (página 97)
As lembranças do período ditatorial se fazem presentes, às vezes como um pano de fundo, como uma espécie de subconsciente a ditar cuidados e medos já incorporados, às vezes bastante explícitos no texto de Kucinski, como no trecho abaixo:
“Nos anos de chumbo, os militares a tinham [a maconha] como instrumento do comunismo internacional visando à dissolução da família e dos valores cristãos. Os adolescentes necessitavam prová-la com a ânsia de uma iniciação sexual; e suas mães, temendo que na rua se metessem em encrenca, imploravam que trouxessem os companheiros para fumar dentro de casa.” (página 60)
Este trecho torna evidente a influência dos problemas enfrentados pelo autor Bernardo Kucinski – como disse, ele teve a irmã morta pelo regime de então. Kucinski é, portanto, autor de uma escrita marcada pela ideologia de resistência, muito mais do que uma ideologia de esquerda. O fato é que não se esquecem facilmente eventos tão fortes, que tiveram o poder de marcar tão fundo as pessoas, as famílias, os entes queridos.

No Brasil, pelo menos entre a população, e como resultado de uma forte contrapropaganda emanada do poder ditatorial, perpetua-se uma visão ingênua sobre o que seja ser alguém de esquerda. Ficou claro nesta eleição recente, na qual houve forte polarização, esquerda é identificada com o Partido dos Trabalhadores. Não que ele não o seja, mas o PT não representa todas as correntes e complexidades da chamada esquerda.

Coisa para se discutir, talvez, em outra época, com outro livro, outra leitura.

Aqui, nos cabe resenhar uma obra literária.

E esta obra literária é o livro Pretérito Imperfeito, de B. Kucinski. O título é ambíguo de propósito; refere-se a um tempo verbal, caracterizado pela continuidade ou frequência das ações, posto que imperfeito. E, ao mesmo tempo, nomeia um passado com falhas, com senões, com problemas.

Recomendo a leitura desta pequena obra-prima. Ainda não li outras coisas de Kucinski, mas este livro me abriu as recordações de uma época muito difícil, pela qual eu também passei, ainda que de maneira mais suave. Não tive parentes molestados, mas me recordo perfeitamente de colegas de faculdade que, de repente, sumiam de circulação.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Resenha nº 146 - Tudo é Rio, de Carla Madeira


Resultado de imagem para livro tudo é rioTítulo: Tudo é Rio
Autora: Carla Madeira
Editora: Quixote + Do Editoras Associadas
Copyright: 2014
ISBN: 978-85-66256-08-6
Edição: 1ª/5ª Reimpressão
Gênero: Romance
Origem: Literatura Brasileira/Mineira
Páginas: 218
Bibliografia: Tudo é Rio, romance, 2014; A Natureza da Mordida, romance, 2018.

Em conversa com o vendedor de livros que habitualmente me atende, numa das livrarias de BH, ele me recomendou este Tudo é Rio, como uma ótima leitura. Tive duas motivações – não sei qual delas realmente me fez comprar o volume –; a primeira, aquele era um vendedor que lê e conhece algumas de minhas características como leitor. Segunda, adoro ler autores a que não estou acostumado. Gosto de garimpar. A cinta azul que envolvia a obra continha o parecer de Martha Medeiros, dizendo que “era uma obra-prima”. Assessorado por estas informações, dediquei-me à leitura do livro em questão. Não começou bem. Lia com alguma dificuldade de concentração, mas este fato é comum nas minhas aventuras literárias. Mas, de certo ponto em diante, a leitura realmente me pegou. Concordo com Martha Medeiros, “Como assim, um livro de estreia tão potente, tão perfeito, tão acabado”. Lá estava o tema mais antigo da literatura, um triângulo amoroso. E, embora um pouco menos comum, um triângulo amoroso envolvendo, de um lado, um casal e de outro, uma prostituta. Livro cheio de traços eróticos, sobretudo bem-escrito, universal. Subtemas ódio, perdão, bondade e perversidade humanas, amor, inveja, desejo, adoção. Uma obra e tanto!

Não consegui muitos dados da autora. De concreto, sei apenas que Carla Madeira é mineira de Belo Horizonte. Cursava matemática, largou este curso e se formou em jornalismo e publicidade. Atuou como professora de redação publicitária na Universidade Federal de Minas Gerais e é diretora de criação da agência de comunicação Lápis Raro. Em 2014, lançou seu primeiro romance, Tudo é rio, um sucesso editorial, recebido com entusiasmo por público e crítica.

Tudo é Rio é um romance muitíssimo bem-escrito. É a história de um casal, Dalva e Venâncio. Conta com um estilo ao mesmo tempo muito realista (Carla não tem medo das palavras) e poético. Vejamos a introdução do livro:
“Puta. Não tem outro nome para Lucy. De profissão ela era puta mesmo. Trabalhava num puteiro, vivia num puteiro. Mas não era puta só por isso. Se só por isso fosse, podia outros nomes mais respeitosos, como meretriz ou prostituta. Era puta e pronto, que essa palavra, a seco, carrega um xingamento, que quem conhecia Lucy queria logo desabafar. Tinha um jeito baixo e arrogante de provocar todo mundo, esfregando o sexo sem censuras, descobrindo os seios e atirando palavras cruas encharcadas de lama. Uma beleza disputada a tapa pelos frequentadores dava a ela o poder de não bastar aos olhos: quem via Lucy queria degustar. Dizem que sabia fazer o diabo com um homem na cama. Enlouquecia qualquer um que passasse pelos seus cuidados. Não tinha um que não quisesse mais.” (página 11)
Em um parágrafo inicial apenas, já temos a caracterização da personagem polêmica que é Lucy. Temos, em nosso imaginário, prostitutas que foram levadas a tal por falta de opção na vida, por pobreza, por problemas psicológicos, por abandono social. Agora, uma prostituta que escolhe esta vida porque gosta, é um tabu social. Lucy é exatamente assim: é puta porque gosta. Cumpre, desta forma, uma das mais comuns fantasias eróticas femininas, de acordo com vários artigos a respeito do assunto. Convenhamos, entretanto, fantasias não são realidades.

E, como a caracterização de personagem é magistralmente trabalhada pela autora, vamos reproduzir a de Dalva:
“Dalva nunca olhou para o alpendre, embora fosse pelo caminho da sombra. Passava de cabeça erguida, olhando para a frente, não por afetação de orgulho ou por força de algum julgamento, mas por não dar importância a nada que não fosse ir para onde estava indo. Carregava seu corpo pesado de tristeza, e isso era tudo o que parecia fazer. As putas reconheciam que ali não se podia bolinar, sabiam por experiência própria que não se deve aumentar uma dor sem tamanho. No fim do dia, quando Dalva voltava, para quem reparasse muito, dava para ver um olhar mais sereno nos olhos dela, mas ninguém nunca reparou, nem um pouco.” (página 27)
Mas, nem sempre Dalva fora assim; na verdade, ela carregava um segredo só dela, algo que mudará o rumo de sua história e da sua relação com o marido. Ela já fora uma jovem sonhadora, alegre. A vida, entretanto, à maneira das tragédias gregas, não dá folga para qualquer destes personagens.

Venâncio, que mais tarde se tornará marido de Dalva, tem com ela uma infância em comum; não eram propriamente amigos, mas brincavam na mesma rua. Como nos diz a autora, naquela fase em que meninas e meninos mais se toleram do que se atraem:
“Dalva achava Venâncio bem esquisito, de uma família mais esquisita ainda. O pai dele sempre falava aos trancos, dava ordens demais. Queria achar briga em qualquer conversa. Venâncio ficava calado, rodeado por uma tensão invisível. Vigiava as esquinas. Se o pai aparecia lá longe, ele largava tudo e ia correndo, cercava o pai por lá mesmo, para não deixar ele chegar perto demais dos amigos. Tinha vergonha da brutalidade dele. Muitas vezes  quis que o pai desaparecesse. Sofria a insuportável saudade de ter um pai que nunca teve. Com o tempo, a vida dos dois juntos foi ficando perigosa, um ódio lento endurecia tudo, tinha vontade de machucar o pai. Queria doer nele a dor que sentia.” (página 75)
Nenhum desses personagens mais importantes do livro é plano, isto é, sem conflitos. Logicamente, daí só podem brotar relações conflituosas, coisas a resolver. O jeito humano de sermos: com boas intenções, alguns, mas cheios de contradições. Este é um dos trunfos de Tudo é Rio.

A complicação principal vai se dar quando Venâncio começa a frequentar, desiludido e cheio de culpas, a Casa de Manu, o prostíbulo onde trabalha Lucy:
“Quando Lucy se obcecou por Venâncio, não sabia nada dele. Nem quem era ele, de onde vinha, nem se tinha mulher ou família. Não se importava. Para ela a história de Venâncio começava ali, no dia em que ela botou o querer nele, ele nasceu. Em uma cidade pequena, é difícil acreditar que alguém não se dê conta de que um mundo ao redor caminha junto. O outro existe. Não para Lucy, que só sabia dela mesma. Sabia o que queria e querer bastava...” (página 31)
O outro trunfo do livro é sua universalidade. Aliás, esta é uma das características de uma obra que perpassa o tempo: a universalidade. Sem dar indicações precisas de onde se passa a história, Carla Madeira localiza-a em qualquer lugar. Mas esta universalidade é também de tema e subtemas, conforme ficou indicado no texto em itálico, acima.

O relacionamento de Venâncio e Dalva, que de relacionamento mesmo só tem o viverem na mesma casa, se distancia cada vez mais na obsessão de Lucy em ter Venâncio, que lhe foge entre os dedos, literalmente.

Cada vez mais, Venâncio se faz parecer com o pai, a mesma brutalidade condenada no pai. Isola-se em seu mundo de dor e sofrimento, a relação com Dalva inteiramente contaminada pelo seu ciúme doentio, de homem completamente inseguro. E – drama edipiano – aquele mesmo pai, que ele, em criança, queria matar, queria que desaparecesse, acaba se impondo a ele, e de maneira tão completa que se superpõe à personalidade do filho.

Carla domina perfeitamente a arte de escrever romances, este gênero tão difícil de se obter, pela complexidade da construção, interação entre personagens, estruturas que se entrecruzam para produzir a verossimilhança narrativa. Ela deixa mais para o fim dois fatos fundamentais, que não posso adiantar, sob pena de spoiler.

Duas descobertas, duas revelações matreiramente guardadas que irão mudar o pulso da história; o perdão entrará, a partir destas revelações, como elemento que quebrará o círculo vicioso dos sofrimentos, das vontades não acessadas, algo que a beirar a epifania, não só de Dalva, mas também de Venâncio.

Tudo é Rio é um título apropriado para o romance. Nossos desenganos, ódios sentidos a se arrefecerem e darem possibilidade à eclosão do amor, o sofrimento que se depura, se ameniza e permite novo campo de experiências mais positivas são como um rio, que segue seu curso dirigido por suas margens.

O vendedor que me atendeu, na livraria, me dissera que o outro livro de Carla Madeira, A Natureza da Mordida, tem sido procurado em decorrência de as pessoas terem gostado muito deste presente livro. Acredito. Tudo é Rio credita a autora.

Para encerrar e para a degustação do leitor deste blogue, mais um trecho, referente à passagem quando Venâncio se apaixona por Dalva:
“No dia em que viu a empada em sua mesa, Venâncio conheceu uma alegria nova, tão diferente da tristeza que vivia ao seu redor. Transbordou uma cara boa, uma animação saliente. Seu Amim, sempre discreto, não conseguiu segurar o comentário. Foi picado com força! Tô vendo que o veneno é poderoso. Venâncio acolheu a intimidade, deixou a alegria aumentar.” (página 84)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Resenha nº 145 - Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, de Maya Angelou


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Título original: I know why the caged bird sings
Autora: Maya Angelou
Tradutora: Regiane Wenarski
Editora: TAG/Editora Astral
Copyright: 1969
ISBN: 978-85-8246-775-6
Origem: EUA
Gênero: Romance (autoficção)
Páginas: 339
Bibliografia (incompleta): I know why the caged bird sings (Eu sei por que o pássaro canta na gaiola), 1969; Gather togather in my name, 1974; Singin’ and swingin’ and gettin’ Merry like christmas, 1976; The heart of a woman, 1981; Just give me a cool drink of water ‘fore I diiie, 1971; Poems, 1976; I shall not be moved, 1990; The least of these, 1966; The best of these, 1966. Participou em filmes e peças de teatro como Porgy and Bess, 1954-1955; Calypso, 1957; The Blacks, 1960.

Um livro que não se lê facilmente. Esta edição vem com um prefácio de Oprah Winfrey e um posfácio de Djamila Ribeiro. A tensão já começa a partir do título: Eu sei por que o pássaro canta na gaiola. Ora, o pássaro canta na gaiola pela perda da liberdade de voar. O romance é uma obra de autoficção, tratando da vida de uma negra criada no sul dos Estados Unidos. Como não podia deixar de ser, uma vida triste. Racismo, abuso, libertação – conforme nos informa a quarta capa desta obra – foram três palavras que marcaram a vida de Marguerite Ann Johnson. Outro dia, afirmei num texto, um dos motivos pelos quais escrevemos é exorcizarmos nossos íntimos demônios. Eis aqui um trabalho que exemplifica muito bem essa perspectiva. Uma verdadeira depuração por que passa a personagem principal, resgatando-se pela palavra, pela narração da própria vida até a libertação. Sim, um livro que não se lê facilmente, entretanto, uma leitura necessária de uma autora multitalentosa. Merece releituras, no plural.

Maya Angelou, nascida Marguerite Ann Johnson, nasceu em 04/04/1928, em St. Louis, EUA, e faleceu em 28/05/2014 (86 anos), em Winston-Salem, EUA. Seus multitalentos: escritora, poeta, encenadora, realizadora e atriz. Foi condecorada com duas medalhas: Medalha Nacional de Artes (2000) e Medalha Presidencial da Liberdade (2011).

Viveu uma boa parte de sua infância com a avó paterna, Annie Henderson e foi estuprada aos oito anos pelo namorado da mãe em St. Louis. Traumatizada pelo fato, recolheu-se a um mutismo de anos. Superou-o com a ajuda de uma vizinha atenciosa e um grande, enorme amor pela literatura.

Maya Angelou tornou-se mãe solteira numa época em que tal era visto com forte preconceito. Aos 17 anos, obteve o emprego como primeira motorista negra de ônibus em São Francisco. Nos anos seguintes, foi primeira negra a trabalhar como roteirista e diretora em Hollywood. Na década de 1950 revelou-se como dançarina, atriz e cantora. Em 1970 ganhou o prêmio Pulitzer pelo Eu sei por que o pássaro canta na gaiola. Foi amiga de Malcom X e Martin Luther King Jr. Em 1993, na posse de Bill Clinton, Maya leu seu poema On the pulse of morning. Que vida maravilhosamente plena, não meu caro leitor?

Eu sei por que o pássaro canta na gaiola tem como protagonista a própria Maya Angelou. Outros personagens importante são o irmão dela, Bailey, o pai, a mãe, a avó paterna. Em tom de memória, Maya resgata sua vida começando pela viagem realizada de Long Beach, Califórnia, para Stamps, em Arkansas:
“Nós chegamos à cidadezinha bolorenta quando eu tinha três anos e Bailey tinha quatro. As etiquetas nos nossos pulsos diziam – “A quem possa interessar” – que éramos Marguerite e Bailey Johson Jr., de Long Beach, Califórnia, a caminho de Stamps, Arkansas, aos cuidados da sra. Annie Henderson.
Nossos pais tinham decidido pôr fim ao calamitoso casamento, o nosso pai nos mandou para a casa da mãe dele. Um funcionário da ferrovia foi encarregado do nosso bem-estar – ele saltou do trem no dia seguinte, no Arizona –, e nossas passagens foram presas no bolso interno do paletó do meu irmão.
Não me lembro de muita coisa da viagem, mas, depois que chegamos à segregada parte sul do trajeto, as coisas devem ter começado a melhorar. Passageiros Negros, que sempre viajavam com lancheiras lotadas, sentiam pena  dos “pobres queridos sem mãe” e nos ofereciam frango frito frio e salada de batata.” (página 17)
Será esta a realidade com a qual Maya terá de lidar na sua vida. De um lado, os brancos com melhores condições de vida, hábitos diferentes, modo diferente de se vestirem; do outro, os negros, com piores condições, hábito e vestimenta destoantes do primeiro grupo. Como a protagonista relata, a cidade recebeu-os com distante curiosidade, por serem novidade, e depois de verificarem que eram inofensivos e crianças, fechara-se à volta dos dois, de modo não caloroso demais, mas integrando-os como parte da população negra.

Você, caro leitor, como eu de início, pode pensar consigo mesmo, “ah, não, mais um daqueles romances sobre os maus tratos sofridos por negros norte-americanos”. Aguarde um pouco mais, pois Maya Angelou não se detém em lamúrias; a catarse de sua vida se dá num plano mais elevado. Não nos esqueçamos, esta mulher é uma autêntica guerreira.

A cena do estupro é relatada de uma maneira tão seca, quase fatalista, que nos choca (atenção, não é spoiler, isto já é dito na quarta capa do romance):
“E aí veio a dor. Uma invasão indesejada em que até os sentidos são destruídos. O ato do estupro em um corpo de oito anos é a questão da agulha deixar o camelo passar pelo seu buraco por não ter outra opção. A criança cede  porque o corpo pode, e a mente do violador não consegue.
Achei que tinha morrido – acordei em um mundo de paredes brancas e só podia ser o céu. Mas o sr. Freeman estava lá e estava me lavando. As mãos dele tremiam, mas ele me segurou de pé na banheira e lavou minhas pernas. “Eu não queria machucar você, Ritie. Eu não queria. Mas não conte... lembre-se, não conte para ninguém.” (página 100)
Este é, entretanto, apenas mais um trauma profundo que se supera pela escrita. Sim, os íntimos demônios estão sendo expulsos.

A vida segue em Stamps, cidadezinha pobre, que recebe os impactos indiretos de duas ocorrências: a Depressão, ocasionada pelo crash da bolsa americana (conhecida como Quinta-feira Negra) de 1929, prolongando-se por todo o período da Primeira Guerra Mundial. A outra ocorrência, a Segunda Guerra Mundial, que veio trazer modificações profundas na vida americana:
“E assim por diante. Momma manteve o Mercado funcionando. Nossos clientes nem precisavam levar os itens que recebiam para casa. Eles os pegavam no centro beneficente da cidade e deixavam no Mercado. Se não quisessem uma troca no momento, eles registravam em um dos livros grandes de capa cinza a quantidade de crédito correspondente. Nós éramos as únicas crianças da cidade em si eu sabíamos quem comia ovos em pó todos os dias e bebia leite em pó.
As famílias dos nossos amiguinhos trocavam a comida que não queriam por açúcar, óleo de lampião, especiarias, carne enlatada, salsicha Viena, creme de amendoim, biscoitos salgados, sabonete e até sabão de lavar roupa. Nós sempre recebíamos comida suficiente, mas odiávamos o leite caroçudo e os ovos esponjosos, e às vezes parávamos na casa de uma das famílias mais pobres para comer creme de amendoim com biscoitos. Stamps  demorou para sair da Depressão tanto quanto demorou para entrar. A Segunda Guerra Mundial já estava no meio quando houve uma mudança considerável na economia daquele povoado quase esquecido.” (página 69/70)
Maya cresce, vai para San Francisco onde consegue, após uma teimosa aplicação ao que desejava, ser a primeira trabalhadora negra no sistema de bondes da cidade. E, naquela San Francisco, proclamada uma cidade sem preconceitos contra negros, ela colhe uma história impactante:
“Correu uma história sobre uma matrona branca de São Francisco que se recusou a sentar-se ao lado de um civil negro no bonde, mesmo depois de ele abrir espaço para ela no banco. Sua explicação foi que não se sentaria ao lado e uma pessoa que fugiu do serviço militar e que também era Negra. Ela acrescentou que o mínimo que ele podia fazer era lutar pelo país, e que o filho dela estava lutando em Iwo Jima. A história dizia que o homem afastou corpo da janela e mostrou uma manga sem braço. Ele disse em voz baixa e com grande dignidade: ‘Então peça ao seu filho para procurar meu braço, que deixei por lá.” (página 243)
Este, portanto, não é um livro gostoso de se ler. Não que não seja bem escrito, ao contrário, é muito bem feito. É daqueles livros que devem ser lidos para aumentarmos a nossa consciência ou, para alguns, mesmo formá-la, na percepção das monstruosidades e descasos que se cometem contra as pessoas, apenas por elas terem um tom de pele escuro.

Entre 1861 e 1865, os EUA viram-se divididos por uma Guerra Civil Americana, ou Guerra de Secessão, ou, ainda, Guerra Civil dos Estados Unidos. Os estados escravagistas do sul desejavam se separar (secessão quer dizer separação) do restante do país. Formaram os Estados Confederados e lutaram contra os outros, cognominados simplesmente como ‘união’. Foi uma guerra sangrenta e, como os preconceitos demoram muito mais a serem vencidos, o antigo sul, exatamente onde Maya fora criada, eram ainda intolerantes com os negros.

Uma curiosidade literária, o livro Uncle Tom’s Cabin (A Cabana do Pai Tomás), um clássico norte-americano é costumeiramente apontado como uma das causas da eclosão daquele conflito civil. Sua autora, Harriet Beecher-Stowe, abolicionista, escreveu mais de dez livros, mas sua obra-prima até hoje assim considerada, é o Uncle Tom’s.

O livro Eu sei por que o pássaro canta na gaiola faz denúncias sérias sem ser panfletário e nisso, a meu ver, reside sua grande virtude. Tantas obras de cunho fortemente denunciador caíram na armadilha do panfletarismo e, por conta disso, empobreceram consideravelmente suas qualidades literárias.

Maya Angelou colocou em seu livro muitos e muitos trechos com frases fortes, que nos proporcionam reflexão, como:
“Sem querer, fui de ignorar ser ignorante a estar ciente de estar ciente. E a pior parte da minha percepção foi não saber que estava ciente. Eu sabia que sabia muito pouco, mas tinha certeza de que as coisas que ainda aprenderia não seriam ensinadas na George Washington High School.” (página 308)
É um romance de superação. Torna-se bastante clara a função catártica da literatura, para a autora. Tão ao gosto dos americanos – diria, sem medo de generalizar, tão ao gosto dos leitores de qualquer lugar – a construção da protagonista segue o chamado arco de redenção, isto é, uma trajetória pela qual o personagem vence todas as dificuldades de sua vida, tornando evidente a superação ao final da história. É o embate da força de vontade, da determinação contra a fatalidade, contra o fracasso que a ronda.

Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, nesta edição exclusiva da TAG Experiências Literárias tem boa diagramação, capa dura sugestiva. Não espere concluir esta leitura de uma sentada. Ela precisa de ser feita com espaços para o leitor respirar; é, entretanto, daquelas leituras que todo leitor desejoso de formar uma ampla visão de mundo, de estéticas, ou melhor, da vida, deveria fazer. Fica a recomendação.


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Resenha nº 144 - A Biologia da Crença, de Bruce H. Lipton


Título original: The Biology of Belief
Título em português: A Biologia da Crença
Autor: Bruce H. Lipton
Editora: Butterfley
Tradutora: Yma Vick
Copyright: 2007
ISBN: 978-85-88477-67-4
Gênero: Divulgação científica
Origem: Estados Unidos da América
Bibliografia do autor: The Biology of Belief, 2005 – Filmes: Heal – Himself, 2017; The Business of  Desease – Himself, 2014; Awake in The Dream – Scientist and Messenger, 2013; Seeds of Death: Unveiling The Lies of GMOs, 2012; Vitality – Himself, 2012; The Great Lesson – Himself, 2012; Cancer is Curable NOW – Himself, 2011; Beyond Me – Himself, 2010.

Bruce Harold Lipton nasceu em 21/10/1944, em Mount Kisco, New York. É um biólogo desenvolvimentista americano, mais conhecido por trabalhar com a ideia de que a expressão gênica pode ser influenciada, por via epigenética, por fatores ambientais. Autor do best-seller A Biologia da Crença, é um ex-pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford. Lipton é PhD em biologia do desenvolvimento pela Universidade de Virgínia, em 1971. Foi o ganhador do Prêmio Goi Peace, em 2009, “em reconhecimento ao seu trabalho pioneiro no campo da Nova Biologia”. 

Bruce disse que em algum momento dos anos 80 abandonou seu posicionamento ateísta, convencido de que a maneira como as células funcionavam demonstrava a existência de Deus.

Este foi um dos livros que levei para ler na praia, agora em janeiro de 2019. Já o havia comprado há muito tempo e ele aguardava, sossegadamente, na minha prateleira de leituras a serem feitas. Ao começar a leitura, a inquietação começou. Bruce H. Lipton é um profissional bastante polêmico – alguns o consideram um charlatão. Segue a linha dos cientistas vinculados às teses quânticas, que vêm apregoando que as coisas que aprendemos não são bem como aprendemos. Termos como Teoria das Cordas, Multiversos, Epigenética ficaram dando voltas na minha cabeça, enquanto eu percebia que, a serem verdades as afirmativas de Lipton, eu teria de realizar um duro trabalho de desconstrução do que aprendera nos meus anos de aprendizagem. O tom não é novo para mim, pois já tive contato com ideias “malucas” de Amit Goswami, um cientista quântico indiano e já lera alguma coisa do famoso O Ponto de Mutação, de Fritjof Capra.

Bruce Lipton já começa seu livro quebrando protocolos para uma obra que se quer de divulgação científica:
“Muito tempo se passou entre minha primeira inspiração científica e a criação deste livro. Durante esse período de transformação pessoal, fui guiado e abençoado por verdadeiras musas encarnadas e desencarnadas: as ‘musas inspiradoras das artes’. Sei que devo muito a algumas delas em especial, pois ajudaram a transformar esse trabalho em realidade.
“As musas da literatura”: a intenção de escrever um livro sobre a nova biologia surgiu em 1985, mas o processo só teve início realmente em 2003, quando conheci Patricia A. King. Patrícia é uma escritora freelancer, que mora em São Francisco, na Califórnia, já foi repórter da revista Newsweek, na qual trabalhou como editora-chefe durante dez anos. Jamais esquecerei de nossa primeira reunião. Despejei sobre ela uma série de teorias sobre a nova ciência, páginas e mais páginas de manuscritos, artigos de jornal que eu havia escrito, caixas contendo fitas de vídeo com palestras e vários impressos sobre o assunto.” (página 7)
Como assim: inspiração, musas, encarnadas, desencarnadas, abençoado? Podem ser palavras-chaves de trabalho não acadêmico sobre literatura, artes em geral, mas jamais poderiam estar na apresentação de um livro sobre biologia – assunto materialista, sem qualquer concessão a inspirações, bênçãos, musas ou teorias reencarnacionistas. Que saladas de frutas o Dr. Lipton estaria nos ofertando?!

A escrita é fascinante. Texto ágil, bem-humorado, tão leve quanto possível. Relatando a gênese deste A Biologia da Crença, o Dr. Bruce diz que teve o que ele chama de epifania científica que abalou todas as minhas crenças a respeito da estrutura da vida diante do mar azul do Caribe, quando ele foi lecionar na universidade de lá:
“Tudo começou quando eu estava pesquisando os mecanismos que controlam a fisiologia e o comportamento das células. De repente, percebi que a vida de uma célula é controlada pelo ambiente físico e energético em que ela se encontra e não pelos genes. Os genes são meros modelos moleculares utilizados na construção das células, dos tecidos e órgãos. O ambiente funciona como uma espécie de “empreiteiro”, que interpreta e monta as estruturas e é responsável pelas características da vida das células. Mas é a “consciência” celular que controla os mecanismos da vida, e não os genes”. (página 16)
Pronto, bagunça feita na minha cabeça; “cesse tudo o que a antiga musa canta, que outro valor, mais alto, se alevanta”. Espera aí, mais devagar para eu compreender: então, não são os genes os únicos responsáveis pelos mecanismos de controle da vida, mas esta tal “consciência celular” é que o são? Ou seja, o ambiente ao meu redor tem fundamental influência nos mecanismos que controlam a minha vida? Lamarck tinha razão, com sua lei dos usos e desusos e a tese dos caracteres adquiridos? A tese de Carl Gustav Jung, do Inconsciente Coletivo, tem maior alcance do que eu poderia supor? Augusto Comte, com sua premissa de que “o homem é produto do meio” mereceria ser revista?

Confesso, leitor amigo, meu cérebro deu um nó. E a aparente doidice deste cientista continua um pouco depois, quando ele conclui:
“Fiquei extasiado com a ideia de poder alterar meu destino modificando minhas crenças. O simples fato de perceber que este novo ramo da ciência poderia me fazer passar de mera “vítima” a “cocriador” trouxe-me grande alívio.” (página 18)
Lipton nos conta, nesta época ele era completamente ateu, seguindo a corrente mais tradicional dos cientistas. Citando o lema da profissão desde a época de Charles Darwin, diz: “Deus? Não precisamos de um Deus”. O acaso e não qualquer intervenção divina é o verdadeiro responsável pela vida na Terra. E, sempre segundo Bruce Lipton, os cientistas acreditaram tanto na ideia darwiniana de que as características individuais são passadas aos descendentes pelos genes, que se lançaram numa busca frenética pela decifração do genoma humano.

Mapa genético humano concluído, resultou na decepção – ou, numa verificação incômoda. A complexidade e a diversidade dos seres não podiam ser explicadas pela cadeia de genes, muito simples diante da grandeza e riqueza da vida:
“O verme primitivo Caenorhabditis serve de modelo perfeito para o estudo do papel dos genes no desenvolvimento e no comportamento dos seres. É um organismo que cresce e se desenvolve com muita rapidez, tem um corpo de padrão preciso composto de exatamente 969 células e um cérebro muito simples de 302 células. No entanto, apresenta um repertório único de comportamento e é bastante dócil para o trabalho em laboratório. Tem aproximadamente 24 mi genes (Blaxter, 2003). O corpo humano, composto de mais de 50 trilhões de células, contém apenas 1500 genes a mais que este microscópico e humilde ser.
A mosca-das-frutas, outro espécime preferido dos cientistas para este tipo de estudo, possui 15 mil genes (Blaxter, 2003; Celniker et al., 2002). Portanto, esta pequena mosca, de organismo muito mais complexo, tem nove mil genes a menos que o primeiro verme Caenorhabditis. E quando se trata de comparar homens e ratos a situação é ainda mais crítica. Teremos de passar a tratá-los  com mais dignidade, pois os resultados dos projetos genoma paralelos revelam que humanos e roedores têm aproximadamente o mesmo número de genes!” (páginas 78/79)
Sob o título jocoso A Nova Física: Como Plantar Firmemente Os Pés no Ar, Lipton nos traz uma complexa relação entre biologia e física (quântica).
“Se fosse possível observar a composição de um átomo por meio de um microscópio, o que veríamos? Imagine um vórtice de energia girando e se movendo na areia do deserto. Agora remova a areia. O que sobra é apenas um tornado invisível. Um átomo nada mais é que um conjunto desses vórtices microscópicos. Se observado de longe, parece uma esfera embaçada. À medida que aproximamos o foco, a imagem se torna cada vez mais indefinida até desaparecer totalmente. Na prática, o átomo é invisível. Quando se observa sua estrutura, o que se vê é apenas vácuo. Não há matéria física. Surpreso?” (página 119)
E se não há matéria física, de que biologia estamos falando? Somos feitos de átomos tanto quanto qualquer ser vivo ou mais ainda, tudo o que existe. Mas, se a matéria é uma ilusão, como pregam várias religiões, precisamos ir mais fundo, além das moléculas. Problemas de comunicação (interação) subatômica podem gerar complicações celulares e, por conseguinte, resultar em órgãos doentes e em seres com problemas.

A Biologia da Crença leva esta característica holística às últimas consequências, ao citar a Teoria de Gaia, de James Lovelock. Segundo esta hipótese, a Terra é um organismo vivo e interativo, em que o equilíbrio macro é feito pelo equilíbrio micro. Ou seja, seríamos todos os seres como células compondo o organismo maior – a Terra:
“Estudos recentes do Conselho Britânico de Pesquisas do Meio Ambiente [Britain’s Natural Research Council] confirmam essa possibilidade (Thomas et al., 2004; Stevens et al., 2004). Embora já tenha havido cinco extinções em massa na história de nosso planeta, todas parecem ter sido causadas por eventos extraterrestres, como um cometa que se chocou contra ele. Um dos novos estudos conclui que o ‘o mundo natural está passando pela sexta extinção’ (Lovell, 2004). Mas desta vez o motivo não vem de fora. Segundo Jeremy Thomas, um dos autores desse estudo, “ esta extinção está sendo causada por um organismo animal: o homem.” (página 58)
Seguindo esta linha de raciocínio, a de que o meio ambiente exerce forte influência sobre o mecanismo de nossas vidas, Bruce Lipton defende a paternidade responsável, dizendo que o homem, tanto quanto a mulher, é fundamentalmente responsável pela vida que gera. E mais, dá um verdadeiro nocaute na concepção de que criamos nossos filhos de modo igual. Na verdade – nos diz ele – estando o mundo em constante evolução, criamos nossos filhos, cada um de uma maneira um pouco diferente, em reação ao mundo diferente.

Ele cita estudos em que crianças criadas em orfanatos, bem alimentadas e fisicamente bem cuidadas, apresentam problemas ainda assim, pela falta da afetividade. Isto é real, a falta de amor resulta em dificuldades orgânicas.

Como disse no início, este A Biologia da Crença é um livro interessante de se ler. Pelo menos, isso. Você pode não acreditar em nada do que este doutor Lipton está dizendo. Pode chamá-lo de charlatão, é bem fácil fazer isto. No entanto, a força dos seus argumentos, a propriedade de suas ponderações, o domínio do assunto, apoiado em pesquisa de outros cientistas que, isoladamente chegaram a conclusões intrigantes me fizeram pensar.

Buce H. Lipton não é uma voz solitária. Há vários cientistas que trabalham, hoje, numa linha mais holística. Velhos conceitos estão sendo sacudidos e revisitados; acreditava-se, há algum tempo, que a física quântica viria invalidar por completo e velha física mecânica ou newtoniana. Nada mais apressado.

A física mecânica continua válida para macro estruturas, os planetas continuam girando em suas órbitas previstas. Entretanto, a grande revolução ainda não totalmente compreendida está exatamente nas micro estruturas; aí é o reino da física quântica.

Aprendendo sempre, algo que eu já havia me perguntado sem direcionar pesquisa, é se pessoas com transplantes de coração sofreriam algum tipo de mudança comportamental. A resposta é sim, de acordo com estudos apresentados por Lipton. Ele cita o caso de Claire Sylvia, da Nova Inglaterra. Ela recebeu um coração novo e depois de algum tempo, apresentou mudanças: começou a gostar de nuggets, cerveja, frango e motocicletas, exatamente como o dono anterior do órgão transplantado. Isto permite a Lipton reforçar sua tese de “memória celular”.

Desta forma, caminhar para uma visão espiritualista, como o fez Bruce Harold Lipton é uma forte possibilidade. Vejamos como explica esta “espiritualidade a partir da ciência”:
“Você e eu somos ‘residentes da Terra’ e recebemos informações de uma grande central de controle técnico-espiritual. As experiências que adquirimos durante a vida são enviadas a essa central, nosso espírito. Portanto, a maneira como você vive influencia diretamente as características de seu “eu”. Essa interação corresponde ao conceito de carma. Quando compreendemos isso, passamos a prestar mais atenção à maneira que vivemos neste planeta, pois as consequências de nossos atos se prolongam além da existência de nosso corpo. Tudo o que fazemos tem consequências que podem nos afetar hoje ou mesmo a uma versão futura do nosso ser.” (página 232)
A consciência holística, ou seja, a de que fazemos parte de um grande conjunto, dentro da complexidade da vida – complexidade esta que vem cada vez mais aumentando, à medida que sabemos mais – vai se estabelecendo aos poucos.

Estou entre aqueles que considera este livro como muito importante. Você poderá dizer, “ah, é porque você é espiritualista, acredita nessa coisa da preponderância do espírito sobre a matéria”. É verdade, você estará com a razão. Espiritualidade é algo muito forte em minha formação e não poderia jogá-la fora. A Biologia da Crença traz reforços importantes à minha forma de sentir/ser.

Recentes estudos científicos afirmam que aquele paciente que acredita em alguma forma de espiritualidade se recupera mais depressa e melhor do que aquele que não acredita em nada. Os cientistas dão seu parecer, o cérebro humano é programado para crer em algo.

Ou, talvez, estejamos à beira de descobrir, há mesmo uma complexidade tão grande que, para existirmos, somos seres além da matéria. A Teoria das Cordas e a existência de multiversos nos trazem maravilhosos questionamentos, intensos desafios à nossa inteligência.

Está dada a partida. Leia, meu caro leitor, este A Biologia da Crença. Seja livre para considerar tudo o que está escrito como obra de ficção, esforço intelectual de um homem para apreender a Vida em sua complexa realidade, ou uma síntese para a qual a ciência deve caminhar. O livro é instigante.