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domingo, 29 de julho de 2018

Resenha nº 123 - Voragem, de Jun'ichiro Tanizaki


Resultado de imagem para livro voragemTítulo original: Manji
Título em português: Voragem
Autor: Jun’ichirō Tanizaki
Tradutor: Leiko Gotoda
Editora: TAG/Cia. das Letras
ISBN: 978-85-359-3112-9
Copyright: 1931
Gênero: Romance
Literatura Japonesa
Bibliografia do autor (incompleta): The Tattooer, 1911; Há que prefira urtigas, 1929; Naomi, 1947; Elogio da sombra, 1933; As irmãs Makioka, 1936; Uma gata, um homem, 1940; Diário de um velho louco, 1961; Um amor insensato, 1924; Voragem, 1928.

Jun’ichirō Tanizaki nasceu em Tóquio, em 24 de julho de 1986 e faleceu em 30 de julho de 1965. É considerado um dos maiores escritores japoneses, autor de pelo menos três obras-primas: Há quem prefira as urtigas, Voragem e As irmãs Makioka. Tanizaki era membro de uma família de mercadores e, em sua juventude, deixou-se encantar pelo mundo ocidental, numa adoração meio ingênua, e pelas conquistas da modernidade. Entretanto, seus valores mudaram posteriormente e ele passou a enaltecer a preservação da língua e da cultura japonesas. Em 1923, foi obrigado a mudar-se para Ashiya, perto de Ozaka e Kyoto. Esta região forneceu-lhe cenários que vão compor o seu romance As Irmãs Makioka. Para compor as personagens centrais deste calhamaço (as quatro irmãs), Tanizaki baseou-se na figura de sua terceira esposa, Matsuko. Esta obra é das poucas do autor nas quais ele não aborda a infidelidade, fetichismo ou sadismo. A maior parte da bibliografia de Jun’ichirō tem presente a questão do erotismo, da paixão e suas loucuras. Para uma parte da crítica, seu trabalho é perpassado por uma edipiana busca pelo “eterno feminino”.
As 240 páginas de Voragem foram lidas em apenas um dia – 28/07/2018, em regime de maratona. A obra nos conta a história do relacionamento de quatro personagens: a bela jovem Mitsuko Tokumistu, a Sra. Sonoko Kakiuchi, o marido desta, Koutaro Kakiuchi e Eijiro Watanuki. Antes de prosseguir com os comentários, devo ressaltar que esta é minha primeira incursão pela literatura japonesa, tão rica, mas ainda desconhecida da maioria dos leitores brasileiros, entre os quais me incluía.
Voragem é um romance soberbo. Aborda o amor homossexual entre Mitsuko e Sonoko; entretanto, não há descrição de quaisquer cenas explícitas de sexo. Elas dão lugar a uma tensão erótica, a uma paixão fulminante – quase uma possessão. Sonoko conhece a bela Mitsuko, mas inicialmente não se aproxima dela. As duas mulheres frequentam uma escola de segunda classe para público feminino e Sonoko faz, ali, o curso de pintura. Ela não é talentosa, mas ao reproduzir a figura de uma deusa japonesa, Sonoko reproduz inconscientemente o rosto de Mitsuko. O falatório começa e em breve, Mitsuko se aproxima de Sonoko. Isto basta para detonar a paixão voraz (daí o título do romance) desta por Mitsuko.
O livro é narrado em primeira pessoa, pela própria protagonista, Sonoko. Ela faz um relato oral a um personagem nominado apenas por sensei (conselheiro, alguém respeitável e experimentado pela vida). Tal opção do autor não é gratuita. Como toda a história é narrada pela própria personagem, não conseguimos outro ponto de vista para compararmos se tudo que é dito é verdade. Técnica também usada pelo nosso Machado de Assis, constitui um “narrador não confiável”.
O Sr. Koutaro Kakiuchi é um homem bom, correto até demais, mas desinteressante e tedioso para sua mulher. Ele é dependente dela. A verdade é que, quando a paixão avassaladora envolve os quatro personagens já enunciados, ninguém escapa: todos manipulam todos, na desesperada tentativa da manutenção da posse do objeto da paixão. São todos capazes das piores mentiras, das vilanias. Adeus à ética, ao respeito.
O texto de fácil leitura de Tanizaki nos vai levando, como verdadeiros voyeurs destes amantes enlouquecidos, pelos despenhadeiros humanos. E o incrível, Jun’ichirō escreveu este livro em 1928, numa época em que o tema das relações homossexuais eram tabu.
Temos de explicitar, a cultura japonesa teve um período, chamado Era Meiji, no qual as xilogravuras (gravuras feitas pela aposição de altos-relevos em madeira, como um carimbo) de sexo explícito eram frequentes. É que a cultura japonesa, antes de seu contato com o cristianismo ocidental, não via o sexo como algo proibido ou pecaminoso. A fruição do prazer sexual era legítima. Mesmo nesta Era, o amor homossexual, conquanto fosse representado, não era tão frequente como o eram as representações do amor heterossexual.
Magistralmente, o autor nipônico nos enlaça numa história cheia de reviravoltas, arrependimentos e reatamentos. O personagem Koutaro nos parece um tanto solto na narrativa, nos dando a ideia de ser sem função. E sabemos que uma das regras mais respeitadas dentro de uma narrativa é exatamente esta: não criar personagens que não tenham uma função. Diferentemente da vida, em que há pessoas com as quais cruzamos apenas uma vez na vida, a narrativa deve obedecer ao princípio da economia de personagens. Seria, portanto, uma deficiência de Tanizaki? Longe disto, é mais uma das artimanhas do bruxo japonês. O Sr. Koutaro terá sua participação revelada a partir de um ponto tardio no texto.
Voragem não poderia ser melhor achado como título deste livro. Voragem é algo que não se controla, que se mostra em toda a sua força, que subjuga. Os personagens desta magnífica história são tragados por suas paixões, são destruídos por elas. Não posso adiantar mais nada sem cometer spoilers.
A protagonista adianta, já no capítulo introdutório, o tom intimista da narrativa:
“Vim hoje à sua casa com a intenção de lhe contar todo o incidente, sensei, mas ... noto que interrompi seu trabalho.  Tem certeza de que não se importa? Narrada em detalhes, a história é longa e tomará um bocado do seu tempo... Eu podia até registrar os acontecimentos no papel em forma de romance e submetê-lo em seguida à sua apreciação, soubesse eu ao menos redigir melhor. Falando a verdade, eu me pus realmente a escrever há alguns dias num repente, mas o fato é que as ocorrências se embaralhavam em minha cabeça e, despreparada com sou, não consegui nem sequer descobrir por onde ou de que jeito começar. Logo vi que só me restava realmente esta alternativa: pedir-lhe a atenção.” (página 7)
Este interlocutor instituído pela personagem, presumivelmente, é o próprio autor. Ele não diz nada, a não ser em alguns poucos momentos, em que apõe ao texto sua observação:
“(Nota do Autor: Tanto quanto a foto me permitia adivinhar, os referidos quimonos idênticos eram de cores espalhafatosas, tão ao gosto das mulheres de Kansai. A viúva Kakiuchi tinha o cabelo puxado para trás e preso em coque na nuca, em estilo sakuhatsu, enquanto Mitsuko trazia o dela em tradicional estilo japonês shimada. Os olhos de Mitsuko – uma típica jovem urbana da região de Osaka – brilhavam expressivos, transbordantes de sedução. Resumindo, olhar de uma especialista na arte de amar, repleto de energia e de poderoso fascínio. Realmente, a jovem era dona de uma beleza rara, e a viúva Kakiuchi não estava sendo apenas modesta ao definir-se como simples elemento destinado a realçá-la. Ainda assim, eu duvidava que Mitsuko fosse modelo de rosto adequado às feições benignas de Yoryu-Kannon.)” (página 19)
Aparentemente, aquele Eijiro Watanuki seria o antagonista, o vilão da história. Entretanto, neste Voragem não temos um vilão caracterizado por um personagem. Na verdade, esta função cabe à paixão sentida pelos seres por ela possuídos:
“Devo realmente ter perdido o controle naquele instante. Mais tarde, Misuko me disse que o rosto pálido e o olhar feroz que eu, trêmula, voltara para ela pareciam realmente ensandecidos. A própria Mitsuko tremia enquanto me encarava de volta em silêncio, intensamente. A pose altiva de Yoryu-Kannon que mantivera até então tinha-se desfeito: tímida, braços cruzados sobre os seios e mãos em torno dos próprios ombros, um joelho ligeiramente flexionado e um pé pousado no outro, ela me parecia agora extremamente bela e tocante. Cheguei a ter pena dela, mas quando vi a pele branca do ombro roliço surgindo entre as tiras do lençol não consegui conte um ímpeto cruel de estraçalhar tudo. Excitada, saltei sobre ela e arranquei o lençol.” (página 40)
Elementos narcísicos também estão presente nesta relação entre as duas mulheres:
“... Sim, é verdade. Mitsuko comentou certa vez a esse respeito: ‘Receber elogios de uma pessoa do meu sexo me deixa muito mais orgulhosa do que recebê-los de gente do sexo oposto. É natural que um homem considere uma mulher bonita. Mas, quando percebo que sou capaz de atrair alguém do meu próprio sexo, aí sim, sinto-me realmente bela e feliz.” (página 115)
Realmente, a bela Mitsuko tem consciência de que sua beleza é uma arma de sedução e não tem escrúpulos em usá-la na conquista de seus objetivos. Tenho lido algumas opiniões de leitores, apontando a mimada Mitsuko como algoz e a “pobre” Sonoko como vítima. Não concordo. Se, inicialmente, podemos até entender a bela personagem como manipuladora – e, de fato, ela o é – e a insatisfeita Sonoko como ingênua, as duas mentem, chantageiam, manipulam conforme a narrativa avança. O problema é que, como só podemos seguir o desenvolvimento narrativo pelas interpretações de Sonoko, ela pode exercer e exerce livremente seu poder de sedução como uma Sherazade saída de As Mil e Uma Noites, desta vez enredando o leitor com sua capacidade de contar histórias.
O livro não tem mais do que duzentas e quarenta páginas. Voragem é admirável também por isso: o texto é enxuto, mais mostrando do que dizendo; o autor é um extraordinário contador de histórias. Apesar de denso, possuidor de uma tensão erótica que não descamba para o mais fácil (descrever cenas de sexo explícito), fornece aqui e ali insinuações do que acontece, seja por uma rápida descrição, seja pelas argumentações de Sonoko ao perceber as manipulações de que é vítima ou as outras, das quais é autora.
Voragem é um livro absolutamente sensacional, obra-prima da literatura mundial. Degustei-a em uma leitura de várias horas, mas que não se revelou, em nenhum momento, cansativa. Mais que recomendo sua leitura. Pelo menos para mim, é daqueles livros para muitas incursões; para o aprendente da escrita, é uma aula de como elaborar um livro que prende, mais do que prende, enfeitiça. Nota máxima, portanto: 10.

Texto de apoio: Revista TAG Livros, junho/2018.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Resenha nº 122 - Viver em paz para morrer em paz, de Mario Sergio Cortella


Resultado de imagem para livro viver em paz para morrer em pazTítulo original: Viver em paz para morrer em paz
Autor: Mario Sergio Cortella
Editora: Planeta
Copyright: 2017
ISBN: 978-85-422-0976-1
Gênero: Filosofia
Páginas: 174
Bibliografia: Qual é a tua obra?, Vida e carreira: um equilíbrio possível?; Pensar bem nos faz bem; Ética e vergonha na cara; Basta de cidadania obscena; Por que fazemos o que fazemos?, entre outros.

Mario Sergio Cortella é por demais conhecido nos meios de comunicação brasileiros. É filósofo, escritor, com mestrado e doutorado em educação e professor-titular da PUC-SP, com docência e pesquisa na Pós-graduação em Educação. Foi Secretário Municipal de Educação de São Paulo (1991-1992). Foi também Assessor Especial e Chefe de Gabinete do professor Paulo Freire. Exerce atividade como comentarista da Rádio CBN nos programas Academia CBN e Escola da Vida. Tem mais de vinte livros publicados, entre eles, Qual é a tua obra?, Educação, convivência e ética (resenhado neste blog e campeão absolutíssimo de acessos) Vida e carreira: um equilíbrio possível?, com Pedro Mandelli e Pensar bem nos faz bem!
E aqui vai mais uma resenha de um livro do Cortella.  Campeão absoluto de acessos neste blogue, já tendo sido resenhado duas vezes (Por que fazemos o que fazemos e Educação, Escola e Docência – novos tempos, novas atitudes). Gosto muito dos “quatro cavaleiros do apocalipse filosófico”: Leandro Karnal, Mario Sergio Cortella, Luís Pondé e Clovis de Barros Filho. E as obras do Cortella me dão prazer de ler, por alguns motivos bem claros e que vão muito além de me provocar o pensar.
Viver em paz para morrer em paz é um Cortella puro. O texto é agradável de se ler, montado com uma tese, um desenvolvimento e uma síntese ao final. Os temas propostos são aqueles que fazem o nosso dia a dia. Vejamos os 19 títulos nas 174 páginas que compõem o livrinho: 1) O que se aprende com o óbvio; 2) Escrever, para apaziguar; 3) A diferença está na atitude; 5) Experiência e imprevistos; 6) O acolhimento da discordância; 7) O raio da paixão e a construção do amor; 8) Viver em paz; 9) A ecologia, o apego e o erotismo; 10) a graça da vida; 11) A sociedade da exposição; 12) Como me tornei eu mesmo; 13) A criação de diferenciais; 14) Fabricação do passado, anseio de futuro e desespero do consumo; 15) Evolução nem sempre é para melhor; 16) Sexo, o simples e o complexo; 17) Felicidade como vitalidade; 18) Desejo, necessidade, vontade; 19) Razões da existência.
Bem sei que nenhum dos quatro filósofos pops já citados anteriormente goza de unanimidade junto aos que os ouvem. Para muitos, eles não passam de oradores bons de palco e nada mais. O que fazem não seria, de acordo com seus detratores, exatamente filosofia. São apontados como gurus midiáticos, formadores de opinião de um bando de não pensantes.
Não sei você, leitor, mas eu claramente me coloco como alguém que presta bastante atenção à fala destes senhores e sempre acabo caminhando para uma reflexão nova, ou para uma reflexão antiga, mas para a qual me foi fornecido certo ângulo para o qual eu ainda não havia atentado.
Eles não pretendem, em nenhum momento, fazer história da filosofia ou explicar como pensa cada filósofo. Sei também de gente que torce o nariz diante de O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, por ele, talvez, tornar a história filosófica palatável ao popular. A mesma coisa acontece com os livros de História, escritos por Laurentino Gomes. Podem não descer a grandes profundidades, mas divulgam coisas interessantes ou reflexões oportunas de uma maneira agradável e de acesso ao público.
Não vou pinçar citações capítulo a capítulo, pois isto me levaria fazer longas transcrições. Mas há coisas saborosas e provocadoras – aliás, o subtítulo do livro é já uma provocação: “se você não existisse, que falta faria?
“O que podemos aprender com o óbvio? Podemos aprender que ninguém nasce pronto e vai se desgastando. Nós nascemos crus e vamos nos fazendo. Sim, isso é óbvio, mas como eu aprendi? O que mais aprendi? E o que deixei de aprender? Quais são todas as  coisas que ainda não aprendi? Quando aprenderei? Aprenderei? Sou sempre a minha mais recente edição, revista e ampliada.” (página 19, O que se aprende com o óbvio)
“Assim, o amor é uma sensação de pertencimento recíproco que almeja a plenitude. No fundo, o amor é uma identidade, pois eu me encontro no outro ou na outra. O amor tem turbulências, mas ele não é confrontante, e sim conflitante. O amor, ao contrário da paixão, oferece paz – sendo que paz não é ausência de conflitos, e sim a capacidade de administrar conflitos para que não haja rupturas. Assim, se você consegue guardar o meu amor, se cuida dele, eu fico. Mas, se não cuida nem o guarda, eu parto.” (página 64, O raio da paixão e a construção do amor)
“Na sociedade da exposição e do espetáculo, ver e ser visto é fundamental. O velho ditado ‘diz-me com quem andas e te direi quem és’ ressurge com força. Estar em boa companhia qualifica o acompanhante – até por isso, as pessoas gostam de ir a bares e outros lugares da moda, onde vão artistas e celebridades. Estar cercado de estrelas, de pessoas que brilham, tira o anônimo das sombras, diminui seu pavor da penumbra.” (página 99, A sociedade da exposição)
“Numa cidade como São Paulo, a classe média vai a feirinhas de antiguidades, na praça Benedito Calixto ou no vão do Masp, para comprar a cristaleira da vovó, a poltrona dos anos 1930, a luminária da década de 1940 ou a mesa que nunca é reformada, que comprada para permanecer descascada, algo que nunca se verá nas casas populares. Na casa do burguês, é sinal de riqueza, pois o antigo tem valor.” (página 130, Fabricação do passado, anseio de futuro e desespero do consumo)
“A burguesia cultua o escuro, o tédio. Na Europa, o movimento punk e o movimento dark nascem ligados à ideia de um mundo que não lhes serve, um mundo impregnado de riquezas – mas é a mesma riqueza que os sustenta. O movimento hippie das décadas de 1960 e 1970, do qual fiz parte, carregava a ideia da simplicidade, e a simplicidade era o brilho. Era o Flower Power, o poder da flor, da cor; não o da olheira, do rímel, da Amy Winehouse.” (página 132, Fabricação do passado, anseio de futuro e desespero do consumo)
“Insisto na ideia: Adão e Eva desobedecem  Deus para poderem ser mortais. Para poderem sentir seus corpos. Para sentirem dor e depois alívio. Cansaço e depois descanso. O paraíso devia ser tedioso. A serpente cumpre uma grande função, ainda que de natureza simbólica, ela nos permite a felicidade.” (página 160, Felicidade como vitalidade)
“Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos Estados Unidos da América, disse que ‘sexo é para principiantes; os experientes gostam é de poder’. A questão central do poder é ser visto para não ser esquecido. Kissinger estava certo. O que mais levaria certos políticos brasileiros que já tiveram tudo a continuar na vida pública até a degradação? O que leva alguém a se ver em situações constrangedoras? Para que continuar? Porque eles precisam continuar visíveis.” (página119, A criação das diferenciais)
Como sempre, os textos deste Viver em paz para morrer em paz são fluidos, muito bem escritos e seu autor usa com frequência a etimologia das palavras para daí extrair os conceitos com os quais trabalha:
“O curioso é que a palavra ‘evolução’ se vale de um radical usado no grego e no latim, o radical vol, formador de palavras como ‘envolver’ e ‘vulva’, que mais tarde será utilizado como ‘rol’, de ‘rolar’, que dá ideia de desenvolvimento.” (página 140, Evolução nem sempre é para melhor)
Não classifico o gênero dos textos deste livro como de auto-ajuda; estes são os que dão um conselho bobo a cada parágrafo, como “sorria para o mundo e o mundo sorrirá para você”... hum hum, já tentei e não deu certo...
Se você, leitor, gosta deste tipo de leitura, aconselho a leitura dele. A nota que lhe dou (ao livro, é claro) é um redondo 9,0. Abraços!

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Resenha Nº 121 - A Escolha da Dra. Cole, de Noah Gordon


Resultado de imagem para livro a escolha da dra. coleTítulo original: Choices
Título em português: A Escolha da Dra. Cole
Autor: Noah Gordon
Tradutor: Aulyde Soares Rodrigues
Editora: Rocco
S/Ed.
Copyright: 1995
ISBN: 85-325-0675-5
Bibliografia: Gênero: Romance
Páginas: 320
Literatura americana
Bibliografia do autor: O Rabino, 1965; O Comitê da Morte, 1969; O Diamante de Jerusalém, 1979; O Físico, 1986; Xamã, 1992; A Escolha da Dra. Cole, 1996; O Último Judeu, 2000; Sam e Outros Contos de Animais, 2005; La Bodega, 2007 (no Brasil, todos os títulos publicados pela Editora Rocco).

Noah Gordon nasceu em Worcester, EUA, em 11/11/1926. Serviu no exército, durante Segunda Guerra Mundial; após esta conflagração, entrou para o curso de pré-medicina, por pressão dos pais. Cursou apenas por um semestre. Transferiu-se para o curso de jornalismo e se formou em 1950. Atuou como editor em algumas revistas, tendo publicado seu primeiro romance O Rabino em 1965. Seus trabalhos falam a respeito da história da medicina e ética médica; mais recentemente, passaram a focar a inquisição e a herança cultural judia.
Com este volume, Noah Gordon fecha sua trilogia sobre a história da medicina. Os volumes anteriores, já resenhados para este blogue, foram O Físico e Xamã. Para quem ainda não leu as duas resenhas precedentes, esta saga trata da família Cole e o estranho dom que permeia alguns dos componentes. Tal característica é o poder que têm alguns dos médicos da família de, apenas ao segurar as mãos de uma pessoa, saber imediatamente se ela morrerá em breve. Outra coisa que marca esta família é que são frequentes os membros formados como médicos, em várias épocas. Assim, temos a história de O Físico ambientada na velha Europa do século XI, na qual a medicina começa a ser considerada uma profissão, com orientação científica; convive, por um tempo, com os barbeiros-cirurgiões (sem formação superior).
Xamã executa um salto temporal e a ação vai se localizar nos Estados Unidos, melhor dizendo, na época da formação deste país como nação. Os médicos, ali, lutam ainda com condições muito precárias, inclusive sendo mal remunerados.
A Escolha da Dra. Cole se passa no final do século XX e é ela – uma mulher – desta vez, quem será a personagem central deste volume:
“R. J. lembrava de ouvir a mãe dizer a uma amiga que sua filha havia desafiado o pai pelo fato de nascer mulher. Ele esperava um filho. Há séculos, os primogênitos dos Cole recebiam o nome de Robert com segundos nomes que começavam com a letra J. O dr. Cole tinha pensado muito para escolher o nome do filho – Robert Jenner Cole, o segundo nome em homenagem a Edward Jenner, o descobridor da vacinação. Quando nasceu uma menina e quando se tornou evidente que sua mulher, Bernadette Valerie Cole não podia ter mais filhos, o dr. Cole insistiu para que o nome da filha fosse Roberta Jenner Cole e seria chamada de Rob J. Era outra tradição da família Cole. De certa forma declarar que a criança era um novo Rob J. era declarar que acabava de nascer outro médico na família Cole.” (página 67)
Caberá a ela enfrentar uma das grandes questões femininas em debate, ainda no nosso tempo: o direito de as mulheres disporem do próprio corpo, encerrando uma gravidez indesejada. Questão polêmica, bem se vê, pois, as religiões, de uma maneira geral, são contra o aborto. Uma grande parcela da população também tem posição contrária. E o raciocínio lógico que se antepõe à tese contra o aborto ( a de que o nascituro tem direito à vida) firma suas bases, além de no já alegado direito feminino de gestão do corpo, é a de que se o aborto não fosse legalizado, mesmo assim ele seria executado, pondo em risco a vida de milhares de mulheres, que se serviriam do atendimento perigoso de clínicas clandestinas.
Esta é a crença da Dra. Cole: ela não apoia o aborto, mas acha que as mulheres têm direito à melhor assistência possível para a tomada autônoma desta importante decisão:
“Ela dava valor especial às crianças e não gostava da ideia de evitar que nascessem. O aborto era uma coisa feia e suja. Às vezes interferia em suas outras atividades profissionais, porque alguns dos seus colegas não aprovavam e, por motivos de relações públicas, Tom sempre temeu e detestou seu envolvimento na questão do aborto.” (página 25)
A militância antiaborto, nos Estados Unidos de então, era muito engajada e, de fato, bastante violenta, como se atesta na mesma página 25, um pouco abaixo da primeira transcrição acima:
“Mas estava havendo uma guerra antiaborto na América. Muitos médicos se afastavam das clínicas, intimidados pelas ameaças nada dissimuladas do movimento antiaborto. R. J. achava que era um direito da mulher decidir o que fazer com o próprio corpo, assim, todas as quintas-feiras de manhã ela ia de carro até Jamaica Plains e entrava discretamente na Clínica do Centro de Planejamento Familiar, evitando os grupos que faziam manifestações na frente do prédio, as faixas sacudidas sobre sua cabeça, os crucifixos apontados para ela, o sangue atirado, os vidros com fetos quase encostados no seu rosto e os palavrões.”
 Diferentemente dos protagonistas dos livros anteriores – eles recebem o chamado para a medicina e o aceitam sem muitas delongas – a Dra. Roberta não se dispõe imediatamente a seguir carreira como profissional da saúde. Ela inicia sua vida profissional como advogada. Trabalha em um grande escritório de advocacia, onde terá a oportunidade de defender médicos em processos diversos. Esta experiência será de grande valia para ela. R. J. – abreviatura agora designando Roberta Jeanne – tem uma vida amorosa conturbada, como não poderia deixar de ser. Em parte, isto acontece por causa de sua atuação como médica de uma clínica de abortos, em parte pelas peças que “o destino” lhe prega.
A Dra. Cole deixa a clínica onde trabalhava e vai viver e trabalhar como médica em Woodfield, no interior, entre as montanhas, localidade pela qual se encanta:
“Lentamente, R. J., Pegg e Toby organizaram a rotina de trabalho no consultório. Lentamente também, R. J. aprendeu os ritmos da cidade e se acostumou a eles. Percebeu que as pessoas gostavam de inclinar a cabeça e dizer: ‘Olá, doutora!’ Sentia o orgulho delas no fato de a cidade ter um médico outra vez. Começou a atender chamados em casa, de preferência os que estavam acamados, viajando para ver pacientes a quem era difícil ou impossível ir ao consultório. Quando tinha tempo e ofereciam um pedaço de torta e uma xícara de café, ela sentava com eles à mesa da cozinha, conversava sobre política, sobre o tempo e copiava receitas de cozinha em seu receituário.” (página 105)
O famoso dom já havia se manifestado em sua vida profissional. Entretanto, a médica tem, pela primeira vez, a percepção de que tal manifestação não é uma sentença de morte do paciente – coisa impossível de perceber aos protagonistas dos outros livros da saga, pela própria condição precária da medicina da época. Para R. J., o dom funciona como um aviso e, se ela estiver atenta o suficiente, é capaz de salvar vidas de uma maneira que parece, aos seus pacientes, como coisa de origem mágica:
“O oxigênio penetrou nas células do músculo cardíaco e quando chegou a permissão do controle médico, o medicamento começava a fazer efeito. Quando a sra. Olchowski foi retirada da ambulância pela equipe de emergência do hospital, o dano ao seu coração estava minimizado.
Pela primeira vez R. J. compreendeu que a mensagem que recebia às vezes podia salvar a vida dos seus pacientes.” (página 130)
Apesar de a Dra. Cole viver e trabalhar numa pequena cidade, onde ela é a única médica disponível no raio de quilômetros, a vida dela não é fácil. Ela tem problemas de relacionamento amoroso e familiar, suas amigas – que também são suas pacientes – têm problemas vários, ela às vezes tem de improvisar como qualquer bom médico de interior. Não há laboratório para exames, não há aparelhagem que dê suporte a seus diagnósticos; quando tais coisas são inteiramente necessárias, seus pacientes têm de viajar para cidades maiores, distantes dali. Em situações completamente inusitadas para ela, tem de atuar até como veterinária, ao fazer o parto complicado de um bezerro. E, porque ela aceita, ainda que temporariamente, trabalhar numa clínica de abortos, em outra cidade, às quintas-feiras, as admoestações e os ataques dos militantes antiaborto recomeçam.
Roberta J. é uma personagem que cresce durante a narrativa, entretanto, acredito, este romance não se enquadra na categoria de Bildungsroman – romance de formação – uma vez que o foco da história não é marcar a formação do personagem, acompanhando-o desde a tenra idade até a maturidade. Há dois pontos em que nossa protagonista demonstra estar apta e sentir vontade de dirigir a própria vida:
“— Eu já tenho um lugar – R. J. disse, com uma leve irritação, com a impressão de estar sendo tratada com paternalismo, aborrecida com a ideia de que pessoas bem-intencionadas estavam sempre tentando mudar sua vida.” (página 277)
E esta outra:
“— Você tem de aprender a me deixar dizer não, papai – ela disse, com calma. – Tenho quarenta e dois anos e sou capaz de tomar decisões por minha conta.
Ele virou o rosto. Mas logo olhou outra vez para ela.
— Quer saber uma coisa?
— O quê, papai?
— Você está absolutamente certa.” (página 303)
Ao ler estes três volumes – O Físico, Xamã e A Escolha da Dra. Cole – fica bem evidente que leitores menos atentos podem julgar um livro menos bom do que outro de uma maneira bastante vaga, como uma percepção imprecisa, de superfície. Constantemente, tenho lido comentários a respeito desta saga da seguinte forma: O Físico seria excelente, Xamã está um pouco abaixo e A Escolha da Dra. Cole é um romance fraco. Não concordo e vou dar razões.
Noah Gordon é um autor maduro e domina perfeitamente sua arte de escritor. Constrói personagens muito bons, ricos, complexos. Se a estrutura dos romances é boa, se os personagens são bem-criados, qual seria o problema que levaria as pessoas a opiniões tão desabonadoras ao último volume?
Arrisco-me a dizer que isto se deve à relação personagem-contextualização. Explicando-me: em O Físico, Robert Jeremy Cole atua no século XI – tudo muito difícil, condições anti-higiênicas de uma Europa precária; o protagonista tem de viajar para a Pérsia, para aprender medicina com o sábio Avicena, um ícone do conhecimento, à época. Esta procura incessante, localizada numa época em que tudo parece conspirar contra os anseios do então jovem Robert conferem à obra um caráter quase épico – ele é o herói das aventuras.
Em Xamã, o contexto já é outro, a formação dos Estados Unidos. Rob J. Cole tem de lidar com situação adversa também, mas as dificuldades enfrentadas são mais amenas do que aquelas da Idade Média. A medicina já está mais avançada; a participação do protagonista na Guerra de Secessão Americana é momentânea, pois Rob é pacifista de carteirinha.
A Escolha da Dra. Cole, embora seja enquadrado num outro conflito grande – o do embate entre os pró-aborto e os contra ele, não tem a mesma amplitude dramática em comparação com os cenários dos volumes anteriores. É, sim, uma questão de escolha do autor, mas é também uma coerência ao seu próprio projeto literário.
Noah Gordon não se propõe a livros de aventuras. Ele manipula bem o enredo, disto não tenho dúvidas. Entretanto, para contar a história da medicina, começando pela idade média, passando pelos EUA em formação e terminando no mesmo Estados Unidos dos finais do século XX, e pretendendo não se afastar muito dos fatos históricos de base – o que se pode deduzir da intensa pesquisa histórica feita pelo autor – temos como resultado intensidades diferentes. Indiscutivelmente, a medicina do século XX é mais fácil de exercer do que na idade média.
Recomendo, portanto, a trilogia toda. São todos ótimos livros e nos dão um panorama bom do que ela se propõe traçar. A nota para este último volume, claramente influenciada pela questão subjetiva de me afinar mais com O Físico (gosto se discute, sim), é igual à dada ao Xamã: 9,7.


quinta-feira, 14 de junho de 2018

Prazeres Imperfeitos, de vários autores


A imagem pode conter: textoTítulo original: Prazeres Imperfeitos
Autores: Vários
Organização: Equipe Carreira Literária
Editora: Oito e Meio
Copyright: 2018
ISBN: 978-85-67009-24-7
Gênero: Antologia de Contos
Nº de Páginas: 154
Preço de Capa: R$ 35,00

Este volume, publicado pela Editora Oito e Meio, reúne trabalhos de 31 escritores que fizeram o curso de Escrita Criativa promovido pelo Carreira Literária, sob o comando de Flávia Iriarte e Roberto Pedretti.
O tema, proposto pela equipe como trabalho final do curso, é o vício, em suas mais diferentes formas. Compõem o volume os seguintes contos e autores: Vícios em Cadeia, de Alessandro Mathera; Clickers Anônimos, de Aline Rodrigues; A Quimera, de Ana Carolina Neves; O que Cada Um Quer, de André Mellagi; Três Verdades Científicas, de Arnaldo Pagano; Calebe e O Sentido nas Pipas, de Atticus Lobo; Cores, de Camila Oliveira; O Guardião do Falso Tesouro, de Claudeomiro Filheiro; A Fotografia, de Cleuber Marques da Silva; Faça O Que Digo, Não O Que Faço, de Erico Passig Bini; O Abraço, de Fernanda Marsico; Oniomania, de Gileno Santos; Cleptomania, de Guilherme Oliveira; Veni, Vidi, Vício, de Hélio Speziali Aroeira; Éramos Três, de J. B. Lima; Café, de Laís M. Bernardo; Sesta Lhana, de Lívia Fernandes; Ilícitas, de Loide de Souza Santos; A Melhor Idade, de Marta Arêas Campos; Todos Os Cheiros Que Habitam O Silêncio, de Oksana Guerra; O Ritual, de Oliveiros Marques; Em Dois Atos, de Patrícia Cosignani; Metamorfose, de Rafaela Fagundes; Pedaços, de Rebeca Maffra de Rezende; Carla Mastroiane, de Rodrigo Carvalho; Concreto Virtual, de Rogério Carvalho; Um Dia de Cada Vez, de Sarah Moraes; Protesto do Albertino, Senhorinha Gervásio; O Desertor, de Silzi Monsato; Mania, de Suzielli Mendonça; Vida de Pixels, de Tamara Mansur.
Participo da coletânea, como se vê acima, com o conto A Fotografia. Esta foi, verdadeiramente, uma experiência muito interessante. Já se disse, toda escrita é uma exposição do próprio autor, no sentido de que o texto diz muito sobre a concepção de vida, a relação com o mundo e com a sociedade, por parte do seu criador. Anos e anos de leitura se refletem na confecção de um texto. “Ninguém é o adão bíblico”, dizia o grande teórico literário russo Bakhtin. Tal influência não é pontual, como alguns podem supor; mas, certamente, toda a carga de leitura se debruça sobre o texto do neófito e até mesmo sobre o do escritor experimentado.
Um prefácio assinado por Roberto Pedretti completa o volume, do qual foi extraída uma passagem, estampada na quarta capa:
"Para cada pessoa nessa nossa sociedade pós-tudo parece haver alguma coisa, aparentemente inofensiva, que pode nos levar para além do limite do prazer. Aceitando a proposta de lançar suas penas sobre essa questão, os 31 autores aqui presentes elaboraram narrativas sobre as mais diversas emancipações do Vício [...]"

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Resenha nº 120 - A Livraria, de Penelope Fitzgerald


Resultado de imagem para livro a livraria penelopeTítulo original: The Bookshop
Título em português: A Livraria
Autora: Penelope Fitzgerald
Tradutora: Sônia Coutinho
Edição: 2ª
Editora: Bertrand Brasil
Copyright: 1978
ISBN: 976-85-286-2282-9
Páginas: 160
Gênero: Romance
Literatura inglesa
Bibliografia: Biografias – Edward Burne-Jones, 1975; The Knox Brothers, 1977; Charlotte Mew and Her Friends, 1984. Romances – The Golden Child, 1977 ; The Bookshop, 1978 ; Offshore, 1979 ; Human Voices, 1980 ; At Freddie’s, 1982 ; Innocence, 1986 ; The Beginning of Spring, 1988 ; The Gate of Angels, 1990 ; The Gate of Angels, 1990 ; The Blue Flower, 1995. Contos – The Means of Escape, 2000. Ensaios e análises – A House of Air, 2005. Cartas – So I Have Thought of You, 2008.


Acabara de sair do cinema, vivamente impressionado com o filme A Livraria, dirigido pela espanhola Isabel Coixet, a mesma diretora do visceral filme Fatal, estrelado por Penelope Cruz e Ben Kingsley, baseado no livro do americano Philip Roth, O Animal Agonizante. Sempre me interessam obras que envolvam temas como escritores e suas dificuldades, professores, livros. Pouco tempo depois, assombrado pela ideia de ler o livro que dera origem ao filme, comprei este A Livraria, de Penelope Fitzgerald (uma autora ainda não conhecida por mim) e mergulhei na leitura. Que livro bom de se ler! Só o larguei no fim.

Penelope Fitzgerald nasceu em 17/12/1916, em Lincoln, Inglaterra e morreu em 28/04/2000, aos 83 anos de idade, em Londres. Recebeu o prêmio Booker, dado pelo Círculo Nacional dos Críticos de Livros. Fortemente influenciada pelo pai e tios eruditos (Edmund Knox (pai), editor da revista Punch, de humor e sátiras; os tios eram Ronald Knox, teólogo e escritor criminal, Dillwin Knox, criptógrafo, Wilfred Knox, erudito bíblico e do romancista e biógrafo, Winifred Peck). Penelope teve a formação nos educandários Wycombe Abbey, Somerville College e na Universidade de Cambridge, onde se formou em 1938. Trabalhou na BBC durante a Segunda Guerra Mundial; em 1942, ela se casou com Desmond Fitzgerald. Os Fitzgerald editavam uma revista literária de nome World Review, na qual escritores como J. D. Salinger, Bernard Malamud, Norman Mailer e Alberto Moravia foram publicados pela primeira vez na Inglaterra. Desmond envolveu-se em falsificação de cheques, o que levou a família à falência. Para sustentar seus familiares, o casal deu aulas de teatro. Penelope também trabalhou numa livraria em Southworld Suffolk. A escritora deu aulas até os setenta anos.
A Livraria é uma pequena obra-prima da autora. Escrito com admirável concisão, é destes textos em que não há palavras em excesso, contando com fluidez e domínio da escrita, que nos faz devorar as 160 páginas rapidamente. A ambientação é numa cidadezinha de gente de mentalidade provinciana e acomodada, chamada Hardborough, onde a viúva Florence Green vai viver:
“Em 1959, algumas vezes Florence Green passava noites sem saber ao certo se havia dormido ou não. Isso acontecia por causa de suas preocupações quanto à eventual compra de uma pequena propriedade, a Old House, com um depósito próprio na região portuária, para abrir ali a única livraria de Hardborough. Provavelmente era a incerteza que a mantinha acordada. Certa ocasião, vira uma garça voando pelo estuário e tentando engolir, em pleno voo, uma enguia que havia capturado. A enguia, por sua vez, lutava para fugir da goela da garça e um quarto dela, uma metade ou, ocasionalmente, três quartos apareciam do lado de fora. A indecisão expressa por ambas as criaturas era algo deplorável. As duas haviam ultrapassado seus limites. Florence sentia que, se não dormia nada – e as pessoas, com frequência, dizem isso querendo expressar algo totalmente diferente –, era porque ficara acordada pensando na garça.” (página 17)
A protagonista do romance abre, então, com muitas dificuldades, a sua livraria. Entretanto, naquela pequena localidade, a Sra. Gamart, representante da classe mais abastada do local, também deseja a velha propriedade para ter ali uma Galeria de Arte.
Usando a já conhecida técnica de localizar a trama do romance numa localidade pequena, em que disseca as relações sociais nada saudáveis, Penelope traça um quadro analítico das influências de bastidores e “puxadas” de tapete, com alguns personagens utilizando até mesmo de meios políticos, como fazer aprovar uma lei que dificulte a vida de Florence, na sua luta já árdua por fazer funcionar uma livraria numa cidadezinha de vida tão medíocre.
Surgem, então, alguns personagens memoráveis, como a própria Florence Green, mulher forte e destemida; a Sra. Violet Gamart, que todos temem, embora ela se mostre hipocritamente suave e educada; Milo North, um ser humano abjeto, que irrita a nós, leitores, pelas suas características; o Sr. Brundish, possuidor de um passado forte, alguém que escolhe o afastamento deliberado de toda a sociedade; a menina Christine Gipping, que tanto influencia Florence quanto por ela é influenciada. Todas estas criaturas têm sérios problemas a resolver, como fica evidente no trecho transcrito abaixo:
“Se Florence era corajosa, era-o de uma maneira completamente diferente, por exemplo, do general Gamart, cujo comportamento permanecera igual, estando ele ou não sob fogo cruzado; ou do Sr. Brundish, que desafiava o mundo ao se recusar a admitir que entrassem em suas terras. A coragem dela, afinal, era apenas uma questão de sobrevivência.” (página 117)
Ponto de discórdia entre as pretensões de Florence e as da Sra. Gamart, a Old House é uma personagem dentro do enredo apresentado por A Livraria:
“A propriedade que Florence estava decidida a comprar não recebera seu nome a troco de nada. Embora nenhum dos imóveis fosse novo, até se chegar ao projeto inacabado de conjuntos habitacionais a noroeste, e muitas das casas datassem dos séculos XVIII e XIX, nenhuma delas se comprara à Old House, e apenas a Holt House, onde morava o Sr. Brundish, era mais antiga. Construída havia quinhentos anos, com terra, palha, galhos e vigas de carvalho, a Old House devia sua sobrevivência a um porão que a protegia das enchentes, ao qual se chegava por um lance de degraus de pedra. Em 1953, o porão ficara com mais de dois metros de água do mar, até a baixa da última enchente. Contudo, uma parte dessa água ainda continuava ali.” (página 29)
E, para completar, como uma boa e velha residência inglesa, a Old House contava com seu próprio fantasma:
“Os que viviam em Hardborough havia algum tempo também sabiam que a propriedade era mal-assombrada. O assunto não era nem um pouco evitado, mostrando-se bastante familiar a todos. Por exemplo, uma figura de mulher podia ser vista, algumas vezes, na plataforma de desembarque da balsa, mais ou menos ao entardecer, à espera de que seu filho voltasse, embora ele tivesse morrido afogado mais de um século antes. Mas a Old House não era assombrada de maneira tão comovente. Era infestada por um espírito barulhento que, juntamente com a umidade e um problema não resolvido dos esgotos, explicava, em parte, a dificuldade para a venda da propriedade. O corretor da casa não estava, de forma alguma, legalmente obrigado a mencionar o fantasma, embora, algumas vezes, aludisse a ele com a expressão uma atmosfera incomum.” (página30)
Este espírito que coabitava a Old House era chamado, pelos locais, de batedor, por sua característica de fazer-se notar por meio de batidas nas paredes e nos móveis. A existência de um espírito com estas características nos remete ao famoso caso das irmãs Fox, nos Estados Unidos, em que a casa, ocupada pela família Fox, era assombrada por um fantasma batedor, que, mais tarde se soube, era vítima de um crime de assassinato, cujo corpo havia sido enterrado na propriedade. Aliás, nos meados do século XIX os jornais noticiavam fenômenos “inexplicáveis” acontecendo em muitas partes do mundo, levando até mesmo homens e mulheres da burguesia, sem coisas mais interessantes para fazer, a realizarem sessões de invocação de espíritos.
Tais fenômenos foram investigados pelo inicialmente cético professor Hyppolite Léon Denizard Rivail, mais conhecido sob o pseudônimo de Allan Kardec, codificador do Espiritismo.
Personagem de construção muito interessante é Milo North, empregado da BBC de Londres e habitante de Hardborough, frequentador das festas promovidas pela socialite Violet Gamart:
“Milo North era alto e levava a vida de uma forma singular, com muito pouco esforço. Dizer “Eu sei quem é a senhora, não é a Sra. Green?” representou uma emissão pouco habitual de energia. Nele, o que parecia delicadeza era habitualmente uma maneira de fugir dos problemas; e o que parecia simpatia representava o instinto de impedir que os problemas começassem a acontecer. Era difícil prever o que significaria envelhecer para uma pessoa assim. Suas emoções, por falta de exercício, haviam desaparecido quase por completo. Ele havia descoberto que adaptabilidade e curiosidade funcionavam igualmente bem.” (página 36/37)
A pequena ajudante que se apresenta à livraria de Florence é Christine Gipping, para trabalhar no período depois da escola. Christine é uma personagem límpida, ainda não tocada pela hipocrisia reinante na cidadezinha:
“— Você é Christine Gipping, não é? Pensei que sua irmã mais velha...
Christine respondeu que, como os entardeceres estavam mais longos, sua irmã mais velha costumava ficar lá pelo meio do mato, com Charlie Cutts. Na verdade, ela acabara de ver as bicicletas dos dois escondidas embaixo das samambaias, na encruzilhada.
— A senhora não precisa se preocupar com nada disso, no meu caso – acrescentou ela. – Só completo onze anos no próximo mês de abril. Meu incômodo ainda não chegou.
— E sua outra irmã?
— Ela gosta de ficar em casa e cuidar de Margaret e Peter. São os menores. Foi bobagem pôr esses nomes neles; nunca houve nada entre ele e a princesa.
— Por favor, não imagine que não quero considerar você apta ao emprego. Mas é que não parece ter idade nem força suficientes.
— Não julgue pela aparência. A senhora tem idade, mas não parece forte. Desde que alguém da nossa família fique com o emprego, não faz muita diferença. Somos todos jeitosos.” (páginas 74/75)
O Sr. Brundish é outro bem-acabado personagem de A Livraria:
“O Sr. Brundish ignorou, ou talvez jamais lhe tivessem ensinado, a convenção cortês de nunca olhar fixamente para alguém. E ele fez exatamente isso. Encarou Florence como se estivesse surpreso até mesmo com o fato de ela se achar ali, mas ela se sentiu encorajada pela obsessiva concentração dele.
— Posso voltar para a minha primeira pergunta? Estou pensando em fazer um primeiro pedido, de duzentos e cinquenta exemplares, de Lolita, o que representa um risco considerável; mas claro que não o consulto de um ponto de vista comercial; seria completamente errado. Tudo que eu gostaria de saber, antes de fazer o pedido, é se o senhor acha que é um bom livro e se é certo eu vendê-lo em Hardborough.
— Ouso dizer que não dou tanta importância quanto a senhora às noções de certo e errado. Li Lolita, como pediu. É um bom livro; portanto, a senhora deve tentar vendê-lo aos habitantes de Hardborough. Não o entenderão, mas é preferível assim. Entender torna a mente preguiçosa.” (páginas 109/110)
Para quem não entendeu a referência ao romance Lolita, de Vladimir Nabokov – e para deixar claro o tamanho do risco em que Florence estava se metendo – trata-se de um livro explosivo, considerado mais que pornográfico, pedófilo. O maduro Humbert Humbert se envolve sexualmente com uma menina chamada Lolita; ele não só não reconhece a própria conduta reprovável, como tenta se justificar diante da justiça que o prendeu, alegando que Lolita não tinha nada de inocente, já tendo tido experiências sexuais anteriores.
Lolita, por conseguinte, só pôde ser editado na França, por uma inexpressiva editora. Houve comentários, elogios, condenações por toda a parte. O título chegou a ser cassado. Foi proibida a sua publicação nos Estados Unidos. Hoje, é tido como um dos importantes (e continua polêmico) trabalhos literários, ensejando outras interpretações e relações que as simplesmente superficiais.
Florence padece das dificuldades de uma mulher sozinha, sem raízes locais, corajosa a ponto de afrontar o poder representado na Sra. Gamart; a Old House centenária, construção decadente que ninguém queria ocupar, mas que se torna a pedra de escândalo quando ali a Sra. Green resolve morar e instalar sua livraria, representa a própria decadência social de Hardborough. Não à-toa, o espírito batedor é inserido ali pela autora e pode-se interpretar sua atuação como o incômodo das “forças ocultas, de bastidores” contra as quais luta a livreira.
Pelos trechos selecionados, expondo sempre personagens, você, leitor inteligente, já percebeu que A Livraria é, sobretudo, um romance de crítica social, focado nas perversidades de jogos de interesses dos vários seres desta pequena e hipócrita Hardborough. Nela, tudo é tão contaminado pelas vontades e manobras da elite local, que até o advogado de Florence Green, que deveria defendê-la, a acusa, embora em tom relativamente educado. Tal postura obriga-a, em uma correspondência, de classsificar o profissional com um sonoro covarde.
Considero A Livraria, de Penelope Fitzgerald, um livro de leitura prazerosa e oportuna para o momento por que passa o Brasil. Mas não só: é livro muito interessante para ser lido em qualquer época. Trata-se de obra candidata a várias releituras.
Nota atribuída: 9,5/10

domingo, 15 de abril de 2018

Livro Livre, por Cleuber Marques da Silva



Imagem: trabalho de Emma Taylor, obtido em www.konyvkultura.kello.hu/kepgaleriak/emma-taylor

Texto: Cleuber Marques da Silva

É uma hora qualquer, qualquer hora do dia. Abro a capa do livro, salto as páginas iniciais, que já conheço e vou direto para o texto, que ainda não conheço. Meus olhos sequiosos procuram as palavras inscritas sobre a folha (de preferência, em papel amarelado) e a minha consciência se transporta para outro lugar.
Lá fora ficam o mundo real e suas necessidades, medos, fortes apelos. Eu estou lendo. Não sinto as complexas ligações entre as sinapses do meu cérebro. Apenas confirmo o seu efeito: enquanto os olhos, ligeiros, saltam de frase em frase, de período em período, de parágrafo em parágrafo, minha mente me dá o entendimento do que leio.
De vez em quando, são extraídos do fundo da memória fatos acontecidos, outros textos ruminados, sentimentos já vividos e eles vêm coparticipar do texto que leio. Enchem lacunas informativas e sensoriais que, necessariamente, toda escrita traz em si; enriqueço-a e enriqueço-me com este comensalismo.
Personagens – entidades misteriosas encarnadas em palavras – me fazem sentir raiva, requestam meu amor, me fazem torcer por seu sucesso ou fracasso, dependendo do caso. São seres sedutores, cheios de artimanhas discursivas: não só conduzem a narrativa, enchendo-a de uma espécie de humanidade de segunda instância, mas vivem uma estranha dualidade, pois tanto servem o texto, quanto por ele são servidos.
Muitos dos meus processos químicos, físicos ou biológicos são fortemente influenciados pela leitura. Às vezes, os batimentos do meu coração se aceleram; por vezes, minhas pupilas se abrem mais sob a escuridão de uma passagem, ou se fecham, sob a luz de outras. Os músculos se retesam sob o ataque do suspense bem construído ou se relaxa, quando, findo todo o conflito e após a descarga do clímax, vem a paz dos grandes finais. Ler é um ato sensual e potencialmente libertador.
No tocante à leitura, vivo uma fase de profunda realização: só leio o que desejo ler. Ninguém me força, nenhuma encomenda – nada. E, aos poucos, vou inclusive desconstruindo certas bobagens que me ensinaram. Não sou obrigado a gostar previamente de nada. Se leio algum clássico, é porque ele me interessa; se leio algum best-seller sem grandes pretensões, e daí? Sou livre para ler o que me liberta.
Experiências novas, textos novos, leio quadrinhos, graphic novels, livros tolinhos e sabichões. Nesse mix maluco e atual, a única coisa que busco, de modo muitas vezes inconsciente, é entender o Ser Humano em seu Mundo. Entender-me como Ser Humano em meu Mundo. E, ao escrever estas duas últimas frases, minhas associações mentais me esclarecem: elas nada mais são que uma espécie de perífrase do “amar o próximo como a ti mesmo”. E, em assim sendo, atestam a força dos substratos religiosos.
Pergunta que me fica, andando à volta da minha mente, será esta busca tão sôfrega por ler livros, produzidos por tantas culturas diferentes, uma forma de amar o próximo?

sábado, 14 de abril de 2018

Resenha Nº 119 - Xamã, de Noah Gordon


Resultado de imagem para livro XamãTítulo original: Shaman
Título em português: Xamã
Autor: Noah Gordon
Tradutor: Aulyde Soares Rodrigues
Edição: s/ed.
Editora: Rocco
Copyright: 1992
ISBN: 85-325-0406-x
450 páginas
Romance americano
Bibliografia do autor: O Rabino, 1965; O Comitê da Morte, 1969; O Diamante de Jerusalém, 1979; O Físico, 1986; Xamã, 1992; A Escolha da Dra. Cole, 1996; O Último Judeu, 2000; Sam e Outros Contos de Animais, 2005; La Bodega, 2007 (no Brasil, todos os títulos publicados pela Editora Rocco).

Noah Gordon nasceu em Worcester, EUA, em 11/11/1926. Serviu no exército, durante Segunda Guerra Mundial; após esta conflagração, entrou para o curso de pré-medicina, por pressão dos pais. Cursou apenas um semestre. Transferiu-se para o curso de jornalismo e se formou em 1950. Atuou como editor em algumas revistas, tendo publicado seu primeiro romance O Rabino em 1965. Seus trabalhos falam a respeito da história da medicina e ética médica; mais recentemente, passaram a focar a inquisição e a herança cultural judia.
Xamã é o segundo volume escrito por Noah, envolvendo a história da medicina. Temos aqui um pano de fundo dos primórdios dos Estados Unidos. Tribos de índios perpassam todo este pano, sofrendo a imposição do homem branco, que lhes rouba as terras sagradas. De importância capital, tanto para a história americana, quanto para esta história específica, há a Guerra de Secessão dos Estados Unidos, travada de 1861 a 1865, entre os estados escravagistas do Sul e os do Norte, abolicionistas. O Sul declarara sua secessão, ou separação do resto do país e formaram os Estados Confederados da América; não aceitando tal imposição, o governo central envia, então, suas tropas para reaver a parte rebelde e o resultado, além da derrota dos confederados, é um saldo macabro em torno de seiscentos mil americanos mortos.
A narração da chegada do Dr. Cole a terras americanas se inicia a partir da parte 2 do livro:
“Rob J. Cole viu o Novo Mundo pela primeira vez num dia nublado de primavera, quando o Cormorant – um navio feioso, com três mastros atarracados e vela de mezena, o orgulho da Linha Black Ball – foi sugado pela maré cheia para dentro do imenso porto e desceu a âncora no mar picado. O leste de Boston não era uma grande coisa, umas duas fileiras de casas de madeira mal construídas, mas, num dos píeres, por três pence ele comprou uma passagem num pequeno barco a vapor que, ziguezagueando entre um número incrível de embarcações, atravessou a baía na direção do cais principal, um amontoado de casas e lojas com o cheiro familiar de peixe podre, porão de navio e corda alcatroada, como qualquer porto escocês.” (página 23)
Como vimos no livro anterior, O Físico, a família Cole – escocesa de origem – tinha uma particularidade: entre os homens, manifestava-se o dom, isto é, uma espécie de sexto sentido, pelo qual um Cole podia sentir, ao tomar as mãos de uma pessoa, se ela iria morrer logo. Rob J. Cole era médico, como aquele seu antecessor da idade média, no primeiro volume desta saga e tinha o mesmo dom.
Fugido de sua terra, por incongruências políticas contra poderosos, deixara lá sua família e terras a que tem direito de herança. Sua vida no Novo Mundo não será fácil. Ainda mais porque, logo de cara, ele assume uma forte posição contra três frentes polêmicas: era um abolicionista, defendia os índios e atendia os pobres e deserdados, ao invés de se dedicar à classe endinheirada.
Ele se estabelece num lugarejo chamado Holden’s Crossing, onde compra terras. Nicholas Holden é o maioral do vilarejo e quando percebe que o doutor Cole deseja viver ali, facilita-lhe as coisas, pois deseja que o lugar se desenvolva e eleve seu nome emprestado ao local. Um médico ali é algo muito importante politicamente. Nicholas tem aspirações políticas.
Estabelecido, Rob inicia seu ofício. É um jovem médico, disposto, idealista. Percorre enormes distâncias a cavalo, para tender seus pacientes; nem sempre recebe qualquer valor em espécie pelas suas visitas. Com o desenvolvimento de Holden’s Crossing, outro médico começa a atender ali, mas Cole é muito querido pelo povo por sua dedicação e seriedade. E as coisas ficam mais complicadas quando o doutor emprega alguns índios da tribo sauk, de nomes Pyawanegawa (Chega Cantando), Makwa-ikwa (Mulher Urso) e Lua, mulher de Chega Cantando, como trabalhadores em sua fazenda.
A relação com a pele-vermelha Makwa-ikwa torna-se muito intensa, por uma questão inicial de afinidade: ela era uma espécie de médica-profetisa da tribo dos sauks:
“Quando chegou em casa, Rob escreveu no seu diário e tentou desenhar a mulher índia, porém, por mais que tentasse, tudo o que conseguiu foi um rosto que podia ser de qualquer índio, de qualquer sexo, e marcado pela fome. Precisava dormir, mas o colchão de palha não parecia convidativo. Sabia que Gus Schroeder tinha espigas de milho secas para vender e Alden dissera que Paul Grueber tinha algum grão sobrando. Naquela tarde, montado em Meg e puxando Mônica, ele voltou para o acampamento dos sauks e deixou dois sacos de milho, um de nabo sueco e outro de trigo.
A curandeira não agradeceu. Apenas olhou para as sacas de mantimento, deu algumas ordens e mãos ansiosas tiraram imediatamente do frio e da neve, levando-as para dentro dos tipis. O vento mais uma vez abriu o capuz. Era uma legítima pele-vermelha. Sua pele era um marrom-avermelhado, o nariz curvo, as narinas quase negroides. Os olhos castanhos eram enormes e o olhar direto. Rob perguntou como se chamava e ela disse Makwa-ikwa.
— O que significa, na minha língua?
— Mulher Urso – respondeu ela.” (página 65)
Uma bela amizade, sem segundas intenções, entre duas almas que se integram.  Ademais, Makwa-ikwa perderia seus dons de profetisa e de curandeira se se deitasse com um homem.
Mas o Dr. Cole termina se apaixonando por uma mulher local, com um passado bastante complicado segundo a moral vigente. Sarah já era mãe de um filho, Alex, a quem Rob se dedica como pai. Logo, desta relação com Sarah nasce o filho Robert Jefferson Cole, que, mais tarde, será chamado de Xamã ou Cawso wabeskiou (Xamã branco), como o pai também o fora. O filho também tinha o dom.
Uma outra relação forte é entre o Dr. Cole e a madre superiora Miriam Ferocia. Na comunidade protestante, os católicos não eram bem vistos e aquela congregação de religiosas, vestidas de um hábito marrom, logo foram chamadas de “malditos besouros marrons”. Eram uma ordem de enfermeiras, que irão ajudar muito o médico.
Fato capital para o desenvolvimento do livro Xamã é o estupro e assassinato de Mikwa-ikwa. O Dr. Cole não consegue superar tal acontecimento:
“Ela estava coberta com um lençol. Não fora deixada ali por Jay, nem por nenhum dos sauks. Provavelmente dois ajudantes de London, porque a tinha jogado, quase descuidadamente, na mesa de dissecação, de lado, como um objeto inanimado e sem valor, um tronco de madeira ou uma mulher índia. O que ele viu primeiro, quando ergueu o lençol, foi a nuca e as costas nuas, as nádegas e as pernas.
 A lividez post-mortem indicava que ela estava deitada de costas quando morreu. As costas e as nádegas apresentavam manchas roxas de sangue capilar coagulado. Mas na crena anal violada, ele viu uma rugosidade vermelha e líquido branco seco, tingindo de vermelho onde se misturava com o sangue.” (página 165)
Estoura a Guerra Civil americana. Lutam Norte contra Sul. Rob Cole participa dela como médico, sem nunca se livrar das lembranças da sua discreta amiga índia e incomodado pela impunidade dos criminosos. A pergunta que o assombra é: conseguirá encontrar os assassinos?
Xamã, a despeito de sua surdez, motivada por uma doença, luta para ser médico. Luta mesmo contra a orientação do pai, para quem ele jamais poderia ser um profissional da área da saúde. No entanto, o rapaz é persistente e diante disto, o Dr. Cole começa a instruí-lo. Mais tarde, após muita recusa, ele consegue uma vaga numa escola de medicina, sob observação, para ver se ele daria conta de aprender, tendo o obstáculo da surdez. Xamã torna-se um dos melhores.
Xamã retorna para sua casa em Holden’s Crossing. Reencontra Alden, o empregado da fazenda, sua mãe. Sente falta de Alex, que está servindo como soldado na detestável Guerra Civil, sente falta da presença tranquila de Makwa-ikwa, sente a falta do pai morto:
“Era quase noite fechada. Xamã sentiu que Makwa queria lhe dizer alguma coisa. Já tinha acontecido antes, e ele quase sempre acreditava que esse era o motivo daquela raiva que pairava no ar, não poder dizer a ele o nome do seu assassino. Queria perguntar a ela o que devia fazer, agora que seu pai não existia mais. O vento ondulava a água. As primeiras estrelas apareceram pálidas no céu e Xamã estremeceu. O inverno não tinha acabado de todo, pensou, ao voltar para casa.” (página 17)
O filho do Dr. Cole, ele mesmo agora um doutor, se estabelece também em Holden’s Crossing, tratando dos mesmos pacientes do pai, e outros mais, que vêm integrar a localidade em desenvolvimento. Muitas características paternas são herdadas por ele; a honestidade, a competência profissional, a opção pelos mais pobres, a valorização dos índios, a consideração para com os negros:
“O major Poole perguntou a quais associações ele pertencia e Xamã disse que durante toda sua vida pertencera apenas à Sociedade para Abolição da Escravatura, quando estava no colégio, e à Sociedade de Medicina de Rock Island.
— O senhor é um copperhead[1], Dr. Cole?
— Não, não sou.
— Não tem nem um pouco de simpatia pelo sul?
— Não acredito em escravidão. Quero que a guerra termine sem mais sofrimento para todos, mas não sou a favor da causa do sul.” (página 436)
Caberá ao jovem Xamã a tarefa de resgatar seu irmão Alex, prisioneiro dos confederados e encontrar os assassinos de Makwa-ikwa.
Sarah, mãe de Xamã, é outra personagem bem construída, que vai crescendo à medida que a narração se desenvolve. É muito bonita a cena em que ela, já viúva, fala de seu passado ao filho:
“— Não que desse para notar. Acho que Will Mosby me amava e teria casado comigo, mas ele levava uma vida perigosa e escolheu exatamente aquele momento para ser morto. Nick se afastou, embora eu sempre achasse que ele era o pai de Alex. Então Alma e Gus chegaram e compraram a terra, e acho que ele sabia que os Schroeder iam me alimentar. Quando Alex nasceu, Alma estava comigo, mas a pobre mulher se descontrolou numa emergência e eu tive de dizer a ela o que devia fazer. Depois que Alex nasceu, durante alguns anos minha vida foi a piro possível.  Primeiro, foram meus nervos, depois minha barriga, e isso provocou a formação de pedras nos rins. – Ela balançou a cabeça. – Seu pai salvou a minha vida. Até ele chegar, eu não acreditava que podia existir um homem bom e gentil no mundo todo. A verdade é que eu tinha pecado. Quando você perdeu a audição, eu sabia que era castigo e que a culpa era minha, e mal podia chegar perto de você. Eu o amava demais e minha consciência me atormentava. – Estendeu a mão e tocou o rosto dele. – Eu sinto muito que você tenha uma mãe tão fraca e pecadora.
Xamã segurou a mão dela.
— Não, você não é fraca, nem pecadora. É uma mulher forte que precisou de muita coragem para sobreviver. Por falar nisso, foi preciso muita coragem para me contar essa história.  Minha surdez não é culpa sua, mamãe.  Deus não quer castigá-la.  Nunca tive tanto orgulho de você, e nunca a amei mais do que agora.” (página 412)
Xamã é outro belíssimo livro desta saga familiar e história da medicina criada por Noah Gordon. Como este já é o segundo volume, embora não seja, propriamente, uma série, já que podemos começar a ler a partir de qualquer dos livros, sem perda de conteúdo, creio que podemos apontar algumas características da saga. Livros bem escritos, bem pesquisados, forte contextualização; personagens fortes, escudados por uma moral exemplifica-dora; presença de bom humor, algumas piadas, que aliviam o drama do texto.
Especificamente para Xamã, há uma mensagem moralizadora, a vingança não vale a pena. Noah Gordon parece ter muito apreço pela cultura tradicional indígena, mormente no tocante às questões medicinais. Ele propõe, na verdade, bem mais que isto: uma integração do homem branco aos indígenas, aos imigrantes e aos negros.
Li em vários depoimentos que Xamã não acompanha o nível de O Físico, com que não concordo. Para mim, ambos estão no mesmo nível. Entretanto – e aí está o motivo de eu não ter dado exatamente a mesma nota para os dois trabalhos, apenas uma questão subjetiva, refletida numa nota fortemente subjetiva – afinizei-me mais com uma narrativa cujo pano de fundo era a idade média do que a Guerra de Secessão americana. Outro ponto a ser comentado é do personagem no qual se concentra o encantamento. Em O Físico, claramente esta função é do Avicena. Homem sábio, forte, reto – nos encanta de maneira destacada. Ele é sustentado durante uma boa parte da história, do meio para o fim.
Já em Xamã, não temos um personagem com a mesma e evidente força intelectiva e moral, esta característica do encantamento é pulverizada em alguns personagens. Makwa-ikwa poderia ser tal personagem com função de encantamento, repositório da sabedoria dos ancestrais e de caráter reto. Mas Noah a mata muito cedo. E há ainda muita narrativa pela frente. Detalhes de narratologia.
Entre os temas e subtemas da obra, temos a escravidão como algo errado; o direito dos índios de terem suas terras reconhecidas; a defesa dos oprimidos; a guerra, que não se justifica, ainda mais se for entre irmãos; o respeito ao conhecimento de ervas e remédios naturais; o pacifismo em contraposição à belicosidade; a intolerância religiosa e social.
Claro se observa, gostei muito deste segundo volume da história da medicina. Nos dois aprendi bastante sobre cultura, hábitos, costumes da Idade Média (O Físico) e a construção de um grande país (Xamã). Recomendo a leitura não só para aqueles mais aficionados, que gostem de acompanhar uma história bem contada, mas também para aqueles que gostem de aprender alguma coisa sobre uma época, uma civilização. Pertenço às duas categorias.
Nota atribuída: 9,7




[1] Copperhead: facção do partido democrata que tinha simpatia pelos confederados e queria uma solução pacífica para o conflito. Os democratas anti-guerra não encaravam este termo como injurioso, tendo mesmo orgulho em nomear-se coppers. Copperhead é o nome de uma cobra venenosa, em inglês.