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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Resenha nº 59 - A Bibliotecária de Auschwitz, de Antonio G. Iturbe

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Antonio G. Iturbe nasceu na cidade espanhola de Zaragoza, em 1967. Há mais de 20 anos esse escritor se dedica ao jornalismo cultural, tendo sido coordenador do caderno televisivo do jornal El Periódico, diretor e redator da revista Que Leer. Poucas vezes podemos saber da gênese de um livro, motivo pelo qual não quero perder a oportunidade de lhes falar um pouco sobre a deste A Bibliotecária de Auschwitz. Ou melhor, deixar a cargo do próprio autor, em transcrição de uma entrevista concedida ao Jornali, de 01/12/2015, disponível na internet no endereço www.ionline.pt/376683:

“Não tinha um interesse especial por Auschwitz. O que me trouxe aqui não foi a leitura de um livro sobre a Segunda Guerra Mundial mas a leitura de um livro sobre bibliotecas [A Biblioteca À Noite], do autor Alberto Manguel, que na minha opinião é um dos grandes especialistas da história da leitura. Nesse livro falava de muitas bibliotecas e referia que em Auschwitz conseguiram reunir oito livros, o que seria a biblioteca mais pequena da história. O dado ficou-me na cabeça.”

E mais adiante, na mesma entrevista:

“Foi em 2006 ou 2007 que li este livro. Como foi possível? De onde vieram os livros? E quem era responsável por eles? E porquê? Ao responder a estas perguntas, procurei mais informações e aos poucos ia-me dando conta de que existia aqui uma história interessante.”

E, de posse de um bom argumento, Iturbe começou sua pesquisa. Obteve a informação de que havia um romance, The Painted Wall (O Muro Pintado, numa tradução literal), escrito por certo Ota Kraus, que falava sobre a vida em Auschwitz:

“Ia recolhendo informação, lendo livros, fiz uma viagem a Auschwitz. Encontrei uma pista: que existia um romance que acontecia nesse campo familiar onde estava o barracão da biblioteca e que o tinha escrito Ota Kraus; teria sido um dos professores daquela escola clandestina [mais tarde casar-se-ia com Dita]. Era um romance que não havia forma de encontrar em lado nenhum. Por fim dei com ele numa página web caseira e foi a pedir este livro que dei conta que a pessoa que me estava a responder assinava "Dita". Como já tinha lido que a miúda tinha esse nome perguntei-lhe se tinha alguma coisa a ver e ela disse que sim, que era ela e que agora vivia em Israel.”

Não vou copiar o restante da entrevista, saborosamente em português lusitano, que é toda muito interessante. Se o leitor se achar motivado, é só acessar o endereço eletrônico colocado acima e degustá-la.

O livro emociona não só por ter um bom argumento, ser muito bem construído e escrito com maestria, mas também porque ficamos sabendo, desde o início, esta será uma história real, envolvendo pessoas de carne e osso que sofreram, lutaram, viveram sob as condições mais sub-humanas pensáveis, resistiram o quanto puderam, a maioria morreu e alguns poucos sobreviveram para contar ao mundo os horrores do Holocausto. E o que haveria nesse livro que o recomende à leitura? Não seria mais um relato – embora ficcional – sobre o já batido tema dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial? Pergunta que tenho a pretensão de ter respondido ao final da resenha.

Comecemos pelo tema; aí começa o diferencial do livro, pois Iturbe usa as atrocidades contra os judeus como elemento narrativo importante, mas evita transformá-lo no foco principal do livro. O tema verdadeiro, o fio condutor, a razão de ser do livro é a existência de uma biblioteca de apenas oito livros dentro de um campo de concentração nazista. E mais, como a existência dessa minúscula biblioteca conseguiu ser tão importante para tantas pessoas, a ponto de fazer com que elas arriscassem suas próprias vidas para defendê-la?

A vida no barracão 31 é diferente. Miserável, em condições sub-humanas como nos outros barracões. Mas ali, um grupo de pessoas verdadeiramente comprometidas com um grupo de crianças tem a perigosa ideia de fazer funcionar uma escola. E apoiam-se em uma biblioteca de apenas oito livros: um de Freud (o nome não aparece), Uma Breve História do Mundo, de H. G. Wells, um atlas geográfico, As Aventuras do Bravo Soldado Svejk, de Jaroslav Hasek, O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, uma gramática de russo e um livro de matemática e do oitavo não se tem informação.

Dita Adlerova – mais formalmente, Edita Adlerova – é a bibliotecária do nome da obra. Ela tem apenas 15 anos, é muito magra, subnutrida como todos ali naquele campo forçado. Também é extremamente perspicaz e inteligente. É comum que crianças submetidas a condições tão funestas como aquelas de Auschwitz se tornem maduras demais para a pouca idade. Sentindo o perigo representado por portar livros num ambiente no qual isso era proibido, Dita tem a brilhante ideia de solicitar a uma costureira a confecção de um suporte com bolsos, para ser usado debaixo de suas roupas, em que pudesse carregar as preciosas obras sem levantar suspeitas.

Forma-se uma escola naquele barracão. Os que sabem mais tornam-se professores dos pequenos, em condições precárias. Não havia quadros, não havia material escolar; as crianças aprendem a queimar pedaços de madeira e com as pontas em carvão, escreverem em algum pedaço de papel. Os mapas são traçados sobre a terra do piso. Uma figura ímpar se destaca: a do alemão judeu Fredy Hirsch. Dono de uma vontade acima da média, ele protege quanto pode aqueles crianças. Tem algum trânsito junto aos famigerados SS e por isso, é motivo de olhares de desagrado de vários membros.

Naquele local, uma espécie de sucursal do inferno, convivem várias pessoas. Velhos, jovens, mulheres, homens, gente covarde e gente corajosa, colaboracionistas abomináveis, membros da resistência. E, ainda, várias ideologias, algumas em oposição, como socialistas, comunistas, sionistas, antissionistas, sociais-democratas, nacionalistas tchecos. Pratica-se naquele lugar um mecanismo impiedoso, a separação entre os “aptos” – com condições de trabalho – e os “inaptos” – que já não servem mais para trabalhar. Estes últimos vão para o chuveiro. Tomarão não uma ducha reconfortante, mas serão imersos em um gás letal e morrerão. Os corpos serão incinerados depois.

Uma figura macabra paira sobre todo o campo: Mengele. Sempre vestido de maneira impecável, orgulhoso de sua raça ariana, frio como se fosse completamente destituído de sentimentos humanos, ele é o Anjo da Morte. Uma espécie de Darth Vader, um dos antagonistas mais assustadores de quantos tenham existido. Para ele, aqueles judeus – escórias humanas – prestam-se muito bem às suas experiências laboratoriais. Por exemplo, os gêmeos excitam sua curiosidade mórbida; manda selecioná-los para experiências, às vezes com vivessecção (dissecação de animais vivos com objetivo de estudos anátomo-patológicos).

Nesse campo de horrores desfilam personagens fortes. A Sra. Krisková, apelidada “Sra. Pelanca” por Dita; Sra. Turnovská (apelidada “Rádio Birkenau”, uma alusão à característica fofoqueira); o registrador Rudi Rosenberg; Alice Munk; Miriam Edelstein; Ota Keller; Viktor Pestek (um SS que não queria mais ser um SS); Hans e Liesl Adler, pais de Dita; professor Morgenstein; Margit, a amiga de verdade e tantos outros.

Há trechos muito fortes no livro, como por exemplo, numa passagem em que Dita toma consciência da estratégia nazista em relação aos campos familiares, como Auschwitz:

“- Falei com um homem da Resistência. Ele me contou uma história incrível. Que o campo familiar é um disfarce dos nazistas para o caso de aparecerem observadores de outros países para questionar…

Miriam assente com a cabeça em silêncio.

- Então é verdade! A senhora já sabia! Quer dizer que – sussurra Dita –, a única coisa que fizemos esse tempo todo foi estar a serviço dos nazistas.

- Nada disso! Eles tinham um plano, mas implementamos o nosso. Queriam um depósito de crianças largadas num canto como trastes, mas abrimos uma escola. Queriam que fossem quadrúpedes num estábulo, mas fizemos com que se sentissem gente.

- E de que adiantou? Todas as crianças do transporte de setembro morreram.

- Valeu a pena. Nada foi em vão. Lembra como riam? Como arregalavam  os olhos quando cantavam  o Alouette ou escutavam as histórias dos nossos livros vivos? Lembra os pulos que davam, quando púnhamos meio biscoito na tigela delas?

- E o entusiasmo com que preparavam as peças de teatro?

- Foram felizes, Edita.

- Mas durou tão pouco…

- A vida, qualquer vida, dura muito pouco. Mas se conseguimos ser felizes, ao menos por um instante, terá valido a pena.” (páginas 258/259)

Os termos grifados por mim, livros vivos, merecem uma explicação. Com a dificuldade de se transitar com livros pelo campo familiar de Auschwitz e pela dificuldade mesma de haver apenas oito exemplares, os prisioneiros do barracão 31 têm a excelente ideia dos “livros vivos”. Nada mais é que a designação de pessoas que deveriam reproduzir oralmente as histórias contidas nos livros. Diante de todas as crianças, acontecia o que hoje nós entendemos por contação de histórias. E aqui, uma referência se faz necessária.

O escritor norte-americano Ray Bradbury faz alusão ao mesmo processo em sua obra distópica Farenheit 451, em que, na sociedade futura imaginada por ele, os livros são terminantemente proibidos por serem considerados perigosos. São drasticamente queimados pelos bombeiros. Uma sociedade de resistentes consegue recuperar as obras, guardando na memória cada obra lida. Assim, são identificados pelas obras que memorizaram: Crime e Castigo, etc.

Uma outra passagem bastante impactante é quando Mengele tem uma conversa com seu superior:

“- Meu querido Kommandant, não menospreze a importância da imagem que oferecemos de nós mesmos e de nosso projeto ao mundo. Devemos ser prudentes. Sabe qual foi o primeiro cargo de direção que nosso amado Führer ocupou no partido nazista? – Mengele faz uma pausa teatral. Apesar de saber que responderá a si mesmo, gosta de humilhar Schwarzhuber. – Chefe de Propaganda. Ele conta isso em Mein Kampf. O senhor não leu? – Diverte-se ao notar a dificuldade no rosto do comandante. – Muita gente dentro e fora da Alemanha ainda não entendeu a necessidade de limpar geneticamente a humanidade, eliminando as degenerações da raça. Há países que ficariam em guarda e poderiam abrir novas frentes de guerra contra nós. E isso agora não nos interessa nem um pouco(…)

- Que maldição, Mengele! Está falando como um político! Sou um soldado. Tenho ordens e vou cumpri-las. Se o SS-Reichsführer Himmler diz que é preciso manter o campo sob essas circunstâncias, assim será feito. Mas essa coisa do pavilhão de crianças… O que  tem a ver com tudo isso?

- Propaganda, mein Kommandant… Pro-pa-gan-da. Vamos fazer com que esses internos escrevam para casa e contem aos familiares judeus como são bem-tratados em Auschwitz.

- E que diabos nos importa o que os porcos familiares judeus dessa gente pensam sobre como ela é tratada?

Mengele inspira e conta mentalmente até três.

- Querido Kommandant… Lá fora ainda há muitos judeus que traremos aos poucos. Um animal que não sabe que está indo para o matadouro se deixa levar mais docilmente do que aquele que sabe que será sacrificado(…).” (páginas 207/208)

Dita, durante a história contada no livro de Iturbe, lembra-se várias vezes de outro livro, A Montanha Mágica, do alemão Thomas Mann. Chega a identificar-se com a personagem Madame Chouchart, charmosa, elegante e culta. Um outro livro citado é o Fome, do autor norueguês Knut Hamsun. Para muitos, é a maior obra desse escritor, meio maldito por suas ligações com os nazistas. Ainda, outras referências literárias são A Cidadela, do médico e escritor escocês Archibald Joseph Cronin e O Diário de Anne Frank. Dita ama os livros. O manejo deles funciona como um elo de normalidade para aquelas crianças, uma vez que todas elas tiveram, de alguma forma, ligações com escolas, professores e livros.

Uma das cenas que arrepiam pelo impacto é durante o Pêssach, festa judia, na qual as crianças em plenos pulmões entoam a Ode à alegria, que faz parte final da 9ª Sinfonia de Beethoven, cuja letra é um poema de Friedrich Schiller de 1875. Quem já ouviu essa sinfonia sabe que a Ode é uma tonitruante comemoração de alegria. Em pé, junto à porta, a figura sombria de Mengele a tudo observa. Ele chega sem se fazer anunciar. Os adultos temem sua reação, as crianças prosseguem em sua entusiasmada apresentação e o Anjo da Morte a aprova. Pouco depois, os próprios pequenos cantores se aplaudem.

Finalmente, chega o dia em que os ingleses invadem o campo de Bergen-Belsen, na Alemanha, para onde nossos personagens foram levados, e libertam todos. Uma nova vida, cheia de desafios e adaptações, porque não se esquecem facilmente os horrores pelos quais passaram e mesmo para a liberdade, tão sofridamente desejada, há que se adaptar. Sem quaisquer documentos que os identifique, somente por suas memórias identificados, existem providências a serem tomadas, pessoas a serem procuradas, burocracia, filas.

Com relação ao uso da linguagem, Antonio Iturbe usa um artifício muito interessante. Põe os verbos no presente quando os fatos envolvem Dita em Auschwitz e, mais tarde, Bergen-Belsen. O resultado discursivo dessa estratégia é tornar atual os dramas sofridos pela bibliotecária; segundo depoimentos, a sobrevivente Edita Dorachova, apesar de contar com 80 anos quando concedeu entrevista ao autor, tem a memória completamente preservada, objetiva. Um outro recurso de bom efeito é o modo conciso do seu texto. Esse recurso confere muito mais dramaticidade do que uma abordagem meramente sentimental, derramada. Evita o tom de dramalhão.

Quando, depois de tudo passado, Antonio Iturbe se encontra com a verdadeira Dita, cuja vida continua não sendo fácil, eis como ele a descreve, quase ao final da obra:

“É espantoso como alguém com todo esse sofrimento acumulado sobre os ombros é capaz de não perder o sorriso. ‘É só o que me resta’, diz ela. No entanto, restam-lhe sua energia, sua dignidade de batalhadora contra tudo e contra todos que fazem dela uma mulher de oitenta anos erguida e com olhos efusivos. Dita não quer pegar um táxi, e não me atrevo a contrariar seu senso de economia, próprio de quem viveu tempos muito ruins. Pegamos o metrô e ela vai em pé. Há assentos livres, mas ela não se senta. Não há quem possa dobrar uma mulher assim. O Terceiro Reich inteiro não pôde com ela.” 

Entre Israel, onde mora atualmente e Praga, visitando a família de Margit, o trabalho de Dora é ainda o de cuidar para que não se perca a memória de Auschwitz, de modo indireto. De modo direto, cuida de espalhar o máximo possível o livro escrito pelo marido, The Painted Wall – o mesmo que foi parar nas mãos de Iturbe e por meio do qual ele conseguiu encontrar Dita Dorachova. Dita continua amando os livros.

Uma lista dos nomes das pessoas transformadas em personagens de ficção completa o livro. Ali o autor procurou dar informações sobre o que aconteceu a muitos deles; se continuam vivos, se morreram, o que fizeram depois.

Mede-se um excelente livro pelo que nos fica depois de o lermos. Terminei de o ler ontem, dia 30/11/2015. Não quis partir logo para a resenha por um motivo: as ressonâncias, quer estéticas, quer emocionais ainda estavam muito fortes em mim. Provavelmente, a resenha perderia muito a precisão buscada. Conquanto me proponha não simplesmente resenhar objetivamente um livro lido – e muito também passar meu entusiasmo, minha paixão pela leitura – resenhar deve obedecer a alguns critérios. Com a leitura desse livro, iniciei um trabalho diferente: um diário de leitura. Esse gênero textual de apoio foi muito proveitoso, pois à medida que lia, ia anotando por datas, quantas páginas havia lido e o que acontecia nelas.

- Não perturbaria o prazer da leitura?, me indagou uma amiga, também afeita aos livros.

Não, não atrapalhou. Precisa de uma disciplina que não sei se terei em outros casos, mas foi muito útil. Feita depois da leitura do dia, foi muito legal rememorar os trechos lidos, ajudou imensamente na fixação do texto e facilitou bastante a confecção desta resenha.

Não é necessário fazer a recomendação da leitura, não é mesmo, caro leitor? Está quase explícito. O livro é extraordinário. Um dos melhores que já li em toda essa minha (longa) experiência como leitor. E mais: cada vez vou confirmando aquela ideia, cada livro é um diálogo com outros livros, e se você gosta realmente de ler, não pode deixar de anotar as referências. Descobri que preciso reler A Montanha Mágica; O Bom Soldado Svejk já está na minha lista. É considerado uma das obras mais importantes da literatura mundial. A Biblioteca À Noite, de Alberto Manguel repousa na minha estante, pacientemente aguardando o momento de lídima degustação. Antes, era apenas um objeto de desejo.

ITURBE, Antonio G. A Bibliotecária de Auschwitz. Editora Agir, 368 páginas. Rio de Janeiro, RJ: 2014

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Resenha nº 58 - O Barbeiro de Vila Rica, de Fuad Gabriel Yazbeck

Resultado de imagem para fuad gabriel yazbeckFuad Gabriel Yazbeck nasceu em Juiz de Fora, MG. Trabalhou durante 6 anos em um refinaria de petróleo e graduou-se em Economia, ingressando no Ministério da Fazenda. Atuou também como professor de Economia, tendo obtido mestrado em Filosofia. Escreveu e publicou vários artigos acadêmicos nessas áreas. É autor dos romances O Segundo Degredado(2008) e este O Barbeiro de Vila Rica(2014), ambos publicados pela Record, escrito após intensa pesquisa histórica. Yazbeck morreu em janeiro de 2013, de câncer que, entretanto, não o impediu de terminar a presente obra. Não obstante, não pôde vê-la publicada.

As duas obras são classificadas como romances históricos.  O chamado romance histórico – aquele que mistura fatos/personagens históricos à ficção – ganha força durante o romantismo, movimento literário que teve lugar no século XIX, celebrizando-se com obras como Ivanhoe, do escritor escocês Walter Scott, Os Três Mosqueteiros, do francês Alexandre Dumas, Eurico, O Presbítero, do português Alexandre Herculano e Guerra e Paz, do russo Léon Tolstói.

Já se tem dito, a literatura não tem compromisso com a história real, obedecendo a obra ao conceito de “verossimilhança”, isto é, os acontecimentos têm apenas de parecer como se reais fossem. No caso do romance histórico – diríamos romance histórico em conceito estrito – os fatos e os personagens serão aqueles mesmos documentados pela história. É uma limitação, um desafio para o autor contar, de modo atraente para o leitor, um enredo o qual, provavelmente, já seja do seu conhecimento.

Yazbeck se sai magnificamente da empreitada. E não é pouco: contar a história de Tiradentes à época da Inconfidência Mineira, já de amplo conhecimento de quantos hajam frequentado bancos de escolas. As pesquisas tomaram-lhe quatro anos, e de acordo com a avaliação de Laurentino Gomes, na quarta capa do livro,

“Fuad Yazbeck colecionou toda essa preciosa matéria-prima ao longo de mais de quatro anos de profunda pesquisa nos documentos e fontes históricas. Fez isso na condição de um apaixonado pelo tema. Com as informações resultantes da pesquisa em mãos, Fuad poderia ter feito um excelente livro de História do Brasil na categoria de não ficção, gênero hoje muito promissor no mercado editorial brasileiro. Preferiu, no entanto, arriscar-se num terreno mais incerto e desafiador, o da literatura de ficção, que, segundo disse, lhe dá mais liberdade criativa. O Barbeiro de Vila Rica é, portanto, um romance histórico, ou seja, a história romanceada de personagens e acontecimentos reais do passado.”

E num dos mais belos inícios, Fuad recua no tempo e nos dá a conhecer Alexandre:

“Foi na manhã enevoada e fria do Dia de Todos os Santos de 1755, enquanto o chão começava a se mover, como que obedecendo às ordens dos trovões que vinham do fundo da terra, que tua cabeça, Alexandre, despontou entre as pernas de tua mãe natural, deixando-me, como parteira, a opção de correr para salvar minha própria vida ou continuar meu trabalho e salvar também a tua, agora em minhas mãos. O dilema se resolveu quando o tremor se ampliou e fez desabar uma das paredes da casa, desprendendo do teto uma grossa trave que atingiu a parturiente, a criada e a rezadeira que acompanhavam a parição, esmigalhando seus crânios. Apesar dos estilhaços que me atingiram, ainda pude rapidamente te puxar, num arranco que arrebentou o cordão umbilical, logo te embrulhando entre os panos que estavam à mão, e fugir em disparada para o meio da rua, esquivando-me das telhas, madeiras e tijolos que dos altos caíam como chuva sólida.”

O terremoto é aquele mesmo que destruiu a cidade de Lisboa, mais tarde reconstruída. Os fatos se precipitaram, como se a natureza conspirasse contra a vida daquele pequeno ser que vinha à luz e que será, tempos depois, o companheiro de Tiradentes, marcando Alexandre com os tons da tragédia.

O livro é dividido em três partes, com três narradores distintos. A primeira narradora, como se pode deduzir até agora, é a própria parteira, em um tom levemente barroco:

“Cresceste, Alexandre, no apogeu da opulência da vila, embalado pelos mesmos sonhos de felicidade buscada nas riquezas que alimentavam a vida cobiçosa de todos os que chegaram e  permaneceram ali apenas por causa do ouro.” (página 99)

No terremoto de Lisboa, a parteira perdera o filho e Alexandre, sem mais ninguém no mundo, torna-se seu filho. E como nada havia a fazer entre os escombros lisboetas, ela resolve vir para o Brasil com o menino, a princípio, para o Rio de Janeiro, à procura do marido. Não o encontra, mas obtém referências do companheiro e viaja para as terras das gerais, mais especificamente Vila Rica.

Pouco a pouco conheceremos a vida de Alexandre, personagem fictício; observaremos seu desenvolvimento como homem, progressivamente envolvido com os ideais da Inconfidência Mineira. Seu mestre: Tiradentes, o alferes. Ecos de Dom Quixote e Sancho Pança, bem se vê

As memórias da mãe adotiva vão até a página 105; a segunda parte, “Onde o filho encarcerado acrescenta às memórias da mãe as suas próprias, narrando fatos que ela pouco sabia, ou desconhecia”, vão da página 109 até  a182:

“Estou aqui, mofando neste cárcere, mãe, por minhas exclusivas culpas. Apesar de convivermos sob o mesmo teto por muito tempo, nunca fui de falar-vos da minha vida e das minhas andanças. Um pouco pelo respeito que sempre vos devi, um pouco também por medo de vossas reações aos meus atos, nem sempre muito católicos. Os diálogos entre filho e mãe não se fazem com a mesma intimidade que entre filho e pai. E ainda que tivésseis cumprido para mim também o papel paterno, esta condição nunca chegou àquele grau de intimidade.” (página 109)

A terceira parte começa na página 185 e se estende até 346, final da obra. Nesta terceira parte, o narrador é constituído por um sujeito “… sem a paixão dos anteriores, mas com o entusiasmo de quem narra uma grande aventura, conta as andanças do Tiradentes e seu fiel companheiro, dos conspiradores, da conspiração e seu triste desfecho.” Eis um excerto da terceira parte:

“Não perdia de vista, enquanto isso, seu amigo Joaquim José. A cada volta deste das viagens ao Rio de Janeiro, entretinha com ele longas conversas acerca de suas andanças, planos e conversas mantidos na corte, e mais que tudo o progresso em que andava o movimento conspiratório de preparação da independência do Brasil.” (página 186)

A escolha por narradores não oniscientes é muito acertada; nas três partes, com nuances lexicais e de tom, as informações vão sendo acrescentadas, mantendo o interesse de quem lê a obra. O fio condutor é o da História (assim mesmo, com H maiúsculo) mas seguindo essa linha do tempo, são anexadas as visões da parteira, do próprio Alexandre e, por fim, de um narrador o qual não se sabe quem seja. Os amores de Alcina (mãe adotiva), de Vasco (seu antigo companheiro), e de Alexandre são contados.

O movimento da Inconfidência Mineira é mostrado como uma empreitada de intelectuais e o povo não entendia bem o que se passava ou tinha medo de se insurgir contra a coroa. A maior parte dos inconfidentes tem interesses econômicos (afinal têm propriedades e negócios e a derrama anunciada prejudicaria muito as finanças deles) e o Tiradentes é um homem com a “ingenuidade crédula” do Dom Quixote. Fala demais, tentando cooptar simpatizantes para a causa.

O Barbeiro de Vila Rica é uma obra excelente. Incomoda-me que um livro de tal quilate não tenha tido um trabalho de divulgação à altura, por parte da editora Record. Problema, aliás, de que padecem os livros nacionais: a divulgação é pífia. Só vi o volume numa prateleira baixa da livraria por garimpagem literária. E tanto aprovei o trabalho que já comprei o primeiro, O Segundo Degredado, da mesma editora Record, em que Yazbeck ambienta a história na época da Carta de Pero Vaz de Caminha. Duas pessoas foram degredadas para o Brasil de então. De uma, tem-se alguns dados; da segunda, praticamente nada, além da certeza de ter sido degredada. É por esta falha documental que entra a inteligêncial ficcional de Fuad Gabriel Yazbeck.

Excelente e recomendadíssima leitura!

YAZBECK, Fuad Gabriel. O Barbeiro de Vila Rica. Editora Record, 1ª Edição. Rio de Janeiro, RJ: 2014

domingo, 8 de novembro de 2015

O Leitor Que Não Amou O Homem Que Amava Os Cachorros

SResultado de imagem para livro o homem que amava os cachorrose você acompanha este blogue e, por acaso, consultou a programação de livros a ler no mês de novembro, vai perceber que retirei da lista O Homem Que Amava Os Cachorros, de Leonardo Padura. Creio que o fato acontece com todo mundo, mas, ainda assim, ficou-me certo incômodo. Não é a primeira vez, nem será a última. E aí pensei: por que não usar essa minha já longa experiência de leitor e falar um pouco sobre livros cuja leitura se iniciou e não terminou?

Então, comecemos. Por que, às vezes, não conseguimos terminar uma obra adquirida ou emprestada (como no presente caso)? Ah, são vários os motivos. Vejamos:

 

    1. O livro é mal escrito, o enredo não consegue prender a atenção do leitor; os personagens são muitos e sem função na história; o autor não percebeu, mas o livro é um poço de incoerências.
    2. O leitor não sente identificação com o assunto. É o caso, por exemplo, de alguém que detesta livros de terror e tenta forçar a leitura de uma história assim.
    3. O leitor é do tipo exigente e o livro está cheio de erros graves de revisão; erra na concordância verbal e nominal, etc.
    4. O leitor gosta do autor, sente indentificação com o assunto, mas naquele exato momento não está disponível para aquele tipo de leitura. Há certas épocas em que estou mais para ler algo mais leve, mais fantasioso, como O Senhor dos Anéis.
    5. O leitor está numa fase difícil, preocupado com alguma coisa importante, o que o impede de mergulhar na leitura. Existe sempre um contrato tácito entre a obra e seu leitor, no sentido de este aceitar o jogo proposto pela obra.
    6. O livro é considerado de leitura muito complexa, erudita, com muitas palavras desconhecidas do leitor. Isso acontece, via de regra, com leitores mais jovens diante de clássicos com traduções antigas, cheias de vocábulos em desuso.
    7. Medo da fama do autor. Muita gente treme de medo diante da possibilidade de ler algo de Machado de Assis, mesmo que seja um trabalho mais leve. A celebridade de Machado pode criar no leitor um pensamento de que não esteja à altura de ler algo dele.
    8. A obra é um calhamaço, aí pelas 600 ou 800 páginas. Conheço muita gente assim; quando aconselhamos uma leitura, vem a indefectível resposta: “Ah, mas é grande demais!”
    9. O leitor não tem muito tempo para ler e tenta ler um romance poucas páginas por dia e com pouca concentração. Fatalmente, vai matar a sequência da leitura e desistir da tarefa.
    10. O leitor começa a ler o livro e dá de cara com spoilers, isto é, aquele amigo-mais-que-inimigo resolve, entusiasmadamente, lhe contar como tudo acaba e acaba por estragar sua diversão.

De acordo com o livro Como um romance, de Daniel Pennac (é fininho, é ótimo, recomendo a leitura), o leitor tem o direito de não continuar a leitura. Isso parece simples, mas uma boa parte de nós já teve, certamente, de ler algum livro extremamente chato, para alguma disciplina de faculdade. E aí, a recomendação de Daniel Penac se torna complicada. Não há outro caminho para esses casos: taca-lhe disciplina, força de vontade!

O que aconteceu com este O homem que amava os cachorros? Leonardo Padura é ótimo escritor, o livro é bem escrito, bem traduzido (o autor é cubano), a história é interessante – sobre uma parte da vida de Léon Trotsky e sua vinculação com o comunismo –, a obra é um calhamaço, mas não tenho problemas quanto a isso. Penso, simplesmente, ser o caso de um livro certo num momento errado. Fosse outro o tempo, me forçaria assim mesmo, acabando por fazer uma leitura sofrida. Nada disso. Procuro o prazer da leitura.

Comigo, leitor, isso aconteceu poucas, pouquíssimas vezes. O Harry Potter eu só li o primeiro volume e fui até o meio do segundo. A leitura travou e nunca mais o peguei. Tenho planos de retomar a leitura desta série.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O Vento que veio do Leste

por Cleuber Marques da Silva

Em julho de 2014, fiz uma viagem ao chamado leste europeu. Visitei Berlim, Dresden, Praga (com direito a uma esticada até o belíssimo balneário Karlovy Vary), Bratislava, Budapeste e, finalmente, Viena. Gostei muito de tudo o que vi; desde a Berlim das avenidas largas, cidade dividida arquitetonicamente entre parte capitalista e comunista, a ensolarada e bela Praga, a Budapeste que ainda guarda marcas tão profundas da segunda guerra mundial, a Viena Imperial, com seus castelos de faustos e poderes.

Um passeio de barco pelo famoso Danúbio (que, contrariamente à belíssima valsa de Strauss, não é tão azul), mas que mesmo assim, encanta. Voltei de lá tocado pelo vento leste da literatura. Não me esqueço da dificuldade com a língua tcheca, com o húngaro, cuja escrita, cheia de sinais diacríticos, me parecia dar razão ao livro Budapeste, de Chico Buarque de Hollanda: o húngaro é uma língua que o diabo respeita (dada a dificuldade).

Resultado de imagem para os meninos da rua pauloChegando em casa, dei início a uma pesquisa de autores e livros; autores, conhecia alguns mais famosos; livros, pouquíssimos! Os nomes de Zsgimond Móricz, de Férenc Molnár, de Franz Kafka, de Milan Kundera não me eram estranhos. Afinal, lembrava-me muito bem de Os Meninos da Rua Paulo, com sua sociedade do betume, escrito por Molnar; A Metamorfose, de Kafka; A Insustentável Leveza do Ser, de Kundera, que tanto sucesso fizera anos atrás; Flor de Abandono, de Móricz.

Resultado de imagem para Frigyes KarinthyA empreitada me rendeu bons conhecimentos e juntei a minha lista nomes como Imre Kertécz, Sándor Márai, Derzsó Kostolány, Ismael Kadaré (mais conhecido por Abril Despedaçado), Karel Chapek, Isaac Bábel, Alexandr Púshkin (já o conhecia por A Filha do Capitão), Péter Esterházy, Leonid Andreiév (Os Sete Enforcados), Nikolai Gógol (Almas Mortas), Constantin Virgil Gheorghiu (A 25ª Hora, resenhado neste blogue), Max Blencher, Géza Csáth, Frigyes Karinty, Gyula Krúdy, Elias Ganetti, Agota Kristof e, por fim, Stanislaw Lem (conhecia-o por Solaris).

A Editora Cosac & Naif e Editora 34 possuem várias obras desses escritores em catálogo, principlamente a 34, que tem uma coleção do leste europeu, onde figuram também Dostoiévski e Ivan Turguêniev.

E aí eu me pergunto, seriamente: por que não divulgam esse material, de modo mais ostensivo? Estão longe do grande público ou, por isso mesmo se explica esse ocultamento midiático: acreditam que o grande público não está interessado nesses autores. Uma editora tem, normalmente, duas linhas de conduta: uma, de livros mais conhecidos do grande público, onde se incluem best-sellers, que vão vender mais e outra, de autores de prestígio literário, mas que custam vender. Com a primeira seleção, a casa ganha dinheiro; com a segunda, ganha prestígio, também sempre bem-vindo.

Resultado de imagem para Paulo RónaiEntre nós, os nomes de Paulo RónaiResultado de imagem para Bóris Schnaiderman e Bóris Schnaiderman são muito conhecidos, sobretudo dos leitores de obras francesas e russas em traduções diretas para o português. Rónai é o responsável pela Comédia Humana, de Balzac; Schnaiderman foi quem primeiro traduziu Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski,  direto do russo para o nosso idioma.

Ficam essas notas, amigo leitor, se você é tão curioso como eu e gosta de ler, tem paixão por literatura de qualquer latitude. A mim, pouco me importam a discussões sobre a validade ou não validade de se conhecer tal ou qual país. Literatura, como de resto, qualquer forma de arte, não tem fronteiras e obras, às vezes, se sobrepõem a atos ou ideologias abomináveis de seus autores.

Resultado de imagem para Gyúla KrúdyVale a pena conhecer esses escritores do leste europeu. Há uma antologia de contos húngaros, trazendo alguns dos nomes acima. A literatura russa, por exemplo, tem de ser conhecida por qualquer leitor amante de clássicos. É absolutamente imperdoável não se ter lido Dostoiévski, Tólstoi, Gógol.

Outra linha de interesse que me veio deste leste europeu é a questão do Império dos Habsburgos, que dominou as terras que mais tarde se dividiriam em Alemanha, Hungria, Aústria. Consegui, após muita espera impaciente, adquirir o livro Queda e Declínio do Império Habsburgo, de Alan Sked. Mas esta é já outra história. Ou História, assim mesmo, com H maiúsculo.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Resenha nº 57 - Inés da Minha Alma, de Isabel Allende

Resultado de imagem para livro Inés da Minha Alma“Sou Inés Suárez, moradora da leal cidade de Santiago da Nova Extremadura, no Reino do Chile, no ano de 1580 de Nosso Senhor. Não tenho certeza da data exata de meu nascimento, mas, segundo minha mãe, nasci depois da miséria e da tremenda pestilência que assolou a Espanha quando morreu Felipe, o Belo. Não acho que a morte do rei provocasse a peste, como muitas pessoas diziam ao ver passar o cortejo fúnebre, que deixou flutuando no ar, durante dias, um cheiro de amêndoas amargas, mas nunca se sabe. A rainha Juana, ainda jovem e bonita, percorreu Castilha durante mais de dois anos levando de um lado para o outro o ataúde, que abria de vez em quando para beijar os lábios de seu marido, como a esperança de que ressucitasse.” (página 11)

Assim se inicia o romance Inés da Minha Alma, da escritora chilena radicada nos Estados Unidos, Isabel Allende. Este é, por assim dizer, um romance de fundação. Analogia traçada com os romances de formação, em que a história de um personagem é acompanhada, desde sua infância até o seu desenvolvimento. Isabel Allende conta-nos a saga da fundação do Império do Chile.

A personagem que dá nome à obra é de Palsencia, Espanha, sob o reinado de Carlos V e sua bela prima, a rainha Isabel de Portugal. Inés é casada com Juan de Málaga, com que vive um tórrido relacionamento. Ele resolve viajar de navio à procura das terras do El Dorado, no novo mundo. Inés fica, então, sem notícias do marido (a última referência é ele estar na Venezuela) e, em desespero, resolve procurá-lo. Obtém a permissão para a viagem. Conta com o apoio de Pedro de Valdívia, mestre-de-campo de Francisco Pizarro. Viajam juntos na expedição pela América do Sul, com destino a Lima, no Peru. Enfrentam extremas condições adversas, desde uma natureza exuberante, mas agressiva, calor, ataque de animais e de índios inamistosos.

Como é da tradição de Isabel Allende, a protagonista do romance é uma mulher forte, independente, mas ao mesmo tempo, impulsiva. Atravessam o inóspito deserto de Atacama e fundam – Pedro e Inés – Santiago, que será a capital do Chile, local além de tudo, infestado pelos temidos índios Mapuche, hostis aos espanhóis. Entretanto, os espanhóis contam com a fidelidade de outra tribo de índios, desta vez os Yanconas.

O livro é narrado em primeira pessoa, em tempo de memória. É Inés, já velha e sentindo o peso da idade, quem nos resgata seu passado de aventuras e determinações:

“Hoje, ao sair da cama, me falharam as forças pela primeira vez em minha longa vida. Com ajuda das criadas me vesti para ir à missa, como faço todo dia, já que gosto de saudar Nossa Senhora do Socorro, agora dona de sua própria igreja e de uma coroa de ouro com esmeraldas; fomos amigas por muito tempo. Procuro ir à primeira missa da manhã, a dos pobres e dos soldados, porque a essa hora a luz na igreja parece vir direto do céu.” (página 232)

Em Santiago, há um militar, Rodrigo de Quiroga, bastante próximo à Inés. Em dado momento, não tendo com quem deixar a filha Isabel, ele pede à ela que cuide da menina. Isabel será, mais tarde, a dedicada ouvinte a quem Inés relatará suas memórias.

Mulher extremamente dura quando acha que te de ser, tem entretanto, preocupação com os mais deserdados, como ficou patente na citação acima, na qual ela gosta de “ir à missa pela manhã, a dos pobres e dos soldados”. Estes têm muito respeito por ela, não só pela sua determinação, como também por sua capacidade combativa.

Visivelmente, a escritora realizou uma pesquisa minuciosa sobre a história dos povos da América Espanhola. Sua protagonista realmente existiu, embora retocada pela imaginação criativa da autora. O livro se constitui num épico sangrento, num relato de superação de medos, condições desumanas, sem lugar para fraquezas.

Algumas descrições são temperadas com tom poético:

“Nunca vi nada como a magnífica cidade de Cuzco, umbigo do império inca, lugar sagrado onde os homens falavam com a divindade. Talvez Madri, Roma ou algumas cidades dos mouros, que têm fama de esplêndidas, possam se comparar a Cuzco, mas eu não as conheço. Apesar dos destroços da aguerra e do vandalismo sofrido, era uma jóia branca e resplandecente sob um céu cor de púrpura. Perdi o fôlego e durante vários dias andei sufocada, não pela altura e o ar rarefeito, como tinham me avisado, mas pela pesada beleza de seus templos, fortalezas e edifícios. Dizem que quando os primeiros espanhóis chegaram havia palácios laminados a ouro, mas agora as paredes estavam nuas.” (página 87)

Ouço muita gente dizer que não aprecia os romances históricos. Realmente, este tipo de obra pauta-se muito por batalhas, às vezes descrições, incluindo datas. No presente caso, um romance de fundação, a autora teve não explicitamente confessada intenção em ser fiel aos acontecimentos, mas isso é evidente pela pesquisa feita. Há no final do livro umas notas bibliográficas, comentando a cuidadosa apuração de dados sobre a conquista e construção do império chileno; ela compulsou vários livros de história, inclusive da Espanha.

Mais um bom livro de Isabel Allende, o terceiro dela resenhado aqui no blogue: Zorro, A Cidade das Feras e Inés da Minha Alma. A trama do livro é cheia de reviravoltas, batalhas, sucessos, derrotas, muita luta e – nem seria necessário dizê-lo – alguns amores.

ALLENDE, Isabel. Inés da Minha Alma. Editora Bertrand Brasil, 4ª Edição. Rio de Janeiro, RJ: 2006

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Resenha nº 56 - O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa

Resultado de imagem para o vendedor de passadosJosé Eduardo Agualusa é natural de Huambo, Angola. Nasceu em 13 de dezembro de 1960. Cursou agronomia e silvicultura na capital portuguesa, Lisboa. É jornalista. Vive entre Lisboa e Luanda, com incursões ao Brasil. Agualusa é apontado como um dos mais importantes autores da contemporaneidade, em Língua Portuguesa. Este O vendedor de passados ganhou o Prêmio Independent de ficção estrangeira. Aqui, no Blogue, já resenhei dele Teoria Geral do Esquecimento. O vendedor de passados deu um filme brasileiro, na verdade, o trabalho fílmico é levemente baseado no livro.

Se na obra Teoria Geral do Esquecimento a ambientação é quando estoura a guerra pela independência de Angola, neste presente trabalho o tempo cronológico já se deslocou, indo constuir o ambiente no período pós-guerra da independência angolana. O país está em reconstrução; prósperos empresários, políticos, generais, enfim, gente importante, mas sem um passado que os destaque, vão procurar Félix Ventura.

Félix tem uma profissão estranha: reconstroi e vende passados falsos para toda essa gente. Pesquisa no computador, vai de loja de antiguidades em loja de antiguidades, compra álbuns fotográficos antigos, vasculha referências. E, um detalhe importante, Félix Ventura é um albino, isto é, alguém que nasceu sem a melanina da pele e por isso é branco, com dificuldades de enxergar durante o dia (os albinos sofrem de fotofobia). E por que essa referência seria importante? Já-já explico. Um bom autor – e Agualusa é, com absoluta certeza um deles – jamais deixa “pontas desamarradas” nas histórias que cria.

A criação de um passado, pelo nosso personagem principal, não serve apenas àqueles que buscam notoriedade; serve também àqueles cujas ações pregressas precisam ser ocultadas. É o caso de crimes de guerra, violências, estupros, etc. O cliente define seu desejo e Félix executa o trabalho com eficiência.

Como se vê, Agualusa trabalha bem um dos aspectos relacionados na obra A Arte da Ficção, de David Lodge, o estranhamento, referido como

“…tradução consagrada de ostranenie (literalmente, “tornar estranho”), mais um daqueles termos críticos imprescindíveis cunhados pelos formalistas russos.” (página 61, op. cit.)

Em síntese, uma espécie de deslocamento na maneira de apresentar um dado da realidade, algo que chama a atenção do leitor exatamente por ser inusitado. E esse estranhamento se dá não só pela esquisita profissão de Félix Ventura, como também pela inesperada identidade do narrador: uma osga. Osga é lagartixa, e essa, que nos narra as venturas (desculpem-me o jogo de palavra, é irresistível) de Félix é uma osga-tigre, cheia de listras. Ela habita a mesma casa do protagonista e a tudo observa.

Certo dia, aparece na residência de Ventura um repórter fotográfico, encomendando a ele um passado:

“Explicou que pretendia fixar-se no país. Queria mais do que um passado decente, do que uma família numerosa, tios e tias, primos e primas, sobrinhos e sobrinhas, avós e avôs, inclusive duas ou três bessanganas, embora já todos mortos, naturalmente,  ou a viverem no exílio, queria mais do que retratos e relatos. Precisava de um novo nome, e de documentos nacionais, autênticos, que dessem testemunho dessa identidade.” (página 18)

O vendedor de passados faz um trabalho exemplar para o repórter. Batiza-o de José Buchmann, natural de São Pedro da Chibia, no sul do país,  filho de certo Mateus Buchmann e Eva Miller. Forjou para ele passaporte, bilhete de identidade, carta de condução. Havia também fotografias. E tão bem o trabalho é feito que o repórter-cliente, ao longo da história, vai pouco a pouco incorporando o personagem Buchmann.

Há 6 capítulos no livro que se constituem em sonhos. E sonhos de quem? Outro estranhamento! São sonhos da osga, que numa reencarnação passada, fora humana. A bem da verdade, está mais para a teoria da metempsicose. Expliquemos a diferença.

Reencarnação é uma definição espírita, definida por Allan Kardec como a possibilidade de uma alma (ou Espírito) envergar corpos diferentes em suas muitas vivências. A metempsicose também lida com a mesma ideia, mas a profunda diferença é que, enquanto naquela, existe uma completa impossibilidade de um espírito de ser humano retrogradar na escala evolutiva e encarnar em um ser inferior, nesta – metempsicose – isto é completamente possível. É a crença da religião do antigo Egito.

Explicação dada, a osga tem sonhos de quando era humana – e mesmo como osga mantém sua criticidade e racionalidade. Ela, portanto, funciona não só como elemento condutor da história, mas igualmente como elemento de flashback, indo ao passado e resgatando para nós, leitores, partes imprescindíveis da história dos personagens envolvidos, dando-lhes verossimilhança (conceito literário significando aquilo que tem aparência de realidade).

Além disso, em alguns dos sonhos da nossa narradora ela interage com Félix Ventura, numa espécie de telepatia (ela pensa alguma coisa, Félix a repete). Chega-se ao ponto de haver necessidade de nomear a osga e Ventura a chama de Eulálio, aludindo à facilidade verbal da lagartixa.

Há muita referência à literatura, tanto portuguesa como brasileira ou outras ainda; tudo tem a ver com o projeto literário do autor. Eça de Queirós é um dos autores mais citados, pois Félix conhece toda a obra do escritor português.

O vendedor de passados  gira em torno da questão da construção da memória, seus disfarces, seus equívocos, sua relatividade, enfim. Lá na página 132, aparece um diálogo que, a meu ver, é emblemático:

“José Buchmann avançou a rainha, ameaçando-me o cavalo do rei. Ofereci-lhe um peão. Ele olhou-o distraído:

- A verdade é improvável.

Sorriu num relâmpago:

- A mentira –, explicou, – está por toda a parte. A própria natureza mente. O que é a camuflagem, por exemplo, senão uma mentira? O camaleão disfarça-se de folha para iludir a pobre borboleta. Mente-lhe dizendo, fica tranquila, minha querida, não vês que sou apenas uma folha muito verde ondulando ao vento – e depois atira-lhe a língua, a uma velocidade de seiscentos e vinte e cinco centímetros por segundo, e come-a.”

Discorre-se, portanto, sobre o tênue limite que separa a realidade (que, às vezes é escamoteada) e a mentira (que, às vezes, faz parte de uma dada função social):

“Existem dezenas de profissões nas quais saber mentir é uma virtude. Estou a pensar nos diplomatas, nos estadistas, nos advogados, nos actores, nos escritores, nos jogadores de xadrez. Estou a pensar no nosso amigo em comum, Félix Ventura, sem o qual nós não nos teríamos conhecido. Indique-me agora uma profissão, uma única, que não se socorra de alguma mentira, e na qual um homem que apenas diga a verdade seja efectivamente apreciado?” (página 133)

O tom que perpassa o livro é o de uma sátira à identidade angolana, temperada com bom-humor e diversão.

A questão da identidade fugidia, do passado ilusório e artificial, do olhar desconfiado sobre a tão propalada realidade também aparece no final de A Relíquia, do citado Eça de Queirós, se bem que muito mais cínica:

“E tudo isto perdera! Por quê? Porque houve um momento em que me faltou esse “descarado heroísmo de afirmar”, que, batendo na Terra com pé forte, ou palidamente elevando os olhos ao Céu – cria, através da universal ilusão, ciências e religiões.”

Não é à-toa Félix saber de cor e salteado os textos do Eça, não é mesmo, leitor inteligente?

Félix Ventura é um africano albino, intolerante à luz reveladora (do sol), fato gerador de ambiguidade identitária; José Buchmann é um branco que deseja se passar por um africano negro (e lembrem-se, incorpora o personagem criado para ele); a osga narradora é um réptil que teve um passado humano. Por toda a obra, o passado criado transforma os clientes de Félix Ventura (e a ele próprio) em outro ser, diferente do que era antes.

Se você assistiu ao filme de Lula Buarque de Hollanda, homônimo do livro, esqueça. Não pode haver termos de comparação entre a magnífica estruturação e complexidade da obra literária e o que se vê na telona. O filme é apenas inspirado na obra de Agualusa, sem qualquer outro benefício. Sem dúvida, na minha opinião, O vendedor de passados é um dos melhores trabalhos literários já resenhados neste blogue.

Leia-o, leitor amigo; a história guarda supresas muito além das resenhadas aqui. Há outros personagens, situações dúbias, amorosas.

AGUALUSA, José Eduardo. O vendedor de passados. Editora Gryphus, 3ª edição. Rio de Janeiro, RJ: 2015