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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O Vento que veio do Leste

por Cleuber Marques da Silva

Em julho de 2014, fiz uma viagem ao chamado leste europeu. Visitei Berlim, Dresden, Praga (com direito a uma esticada até o belíssimo balneário Karlovy Vary), Bratislava, Budapeste e, finalmente, Viena. Gostei muito de tudo o que vi; desde a Berlim das avenidas largas, cidade dividida arquitetonicamente entre parte capitalista e comunista, a ensolarada e bela Praga, a Budapeste que ainda guarda marcas tão profundas da segunda guerra mundial, a Viena Imperial, com seus castelos de faustos e poderes.

Um passeio de barco pelo famoso Danúbio (que, contrariamente à belíssima valsa de Strauss, não é tão azul), mas que mesmo assim, encanta. Voltei de lá tocado pelo vento leste da literatura. Não me esqueço da dificuldade com a língua tcheca, com o húngaro, cuja escrita, cheia de sinais diacríticos, me parecia dar razão ao livro Budapeste, de Chico Buarque de Hollanda: o húngaro é uma língua que o diabo respeita (dada a dificuldade).

Resultado de imagem para os meninos da rua pauloChegando em casa, dei início a uma pesquisa de autores e livros; autores, conhecia alguns mais famosos; livros, pouquíssimos! Os nomes de Zsgimond Móricz, de Férenc Molnár, de Franz Kafka, de Milan Kundera não me eram estranhos. Afinal, lembrava-me muito bem de Os Meninos da Rua Paulo, com sua sociedade do betume, escrito por Molnar; A Metamorfose, de Kafka; A Insustentável Leveza do Ser, de Kundera, que tanto sucesso fizera anos atrás; Flor de Abandono, de Móricz.

Resultado de imagem para Frigyes KarinthyA empreitada me rendeu bons conhecimentos e juntei a minha lista nomes como Imre Kertécz, Sándor Márai, Derzsó Kostolány, Ismael Kadaré (mais conhecido por Abril Despedaçado), Karel Chapek, Isaac Bábel, Alexandr Púshkin (já o conhecia por A Filha do Capitão), Péter Esterházy, Leonid Andreiév (Os Sete Enforcados), Nikolai Gógol (Almas Mortas), Constantin Virgil Gheorghiu (A 25ª Hora, resenhado neste blogue), Max Blencher, Géza Csáth, Frigyes Karinty, Gyula Krúdy, Elias Ganetti, Agota Kristof e, por fim, Stanislaw Lem (conhecia-o por Solaris).

A Editora Cosac & Naif e Editora 34 possuem várias obras desses escritores em catálogo, principlamente a 34, que tem uma coleção do leste europeu, onde figuram também Dostoiévski e Ivan Turguêniev.

E aí eu me pergunto, seriamente: por que não divulgam esse material, de modo mais ostensivo? Estão longe do grande público ou, por isso mesmo se explica esse ocultamento midiático: acreditam que o grande público não está interessado nesses autores. Uma editora tem, normalmente, duas linhas de conduta: uma, de livros mais conhecidos do grande público, onde se incluem best-sellers, que vão vender mais e outra, de autores de prestígio literário, mas que custam vender. Com a primeira seleção, a casa ganha dinheiro; com a segunda, ganha prestígio, também sempre bem-vindo.

Resultado de imagem para Paulo RónaiEntre nós, os nomes de Paulo RónaiResultado de imagem para Bóris Schnaiderman e Bóris Schnaiderman são muito conhecidos, sobretudo dos leitores de obras francesas e russas em traduções diretas para o português. Rónai é o responsável pela Comédia Humana, de Balzac; Schnaiderman foi quem primeiro traduziu Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski,  direto do russo para o nosso idioma.

Ficam essas notas, amigo leitor, se você é tão curioso como eu e gosta de ler, tem paixão por literatura de qualquer latitude. A mim, pouco me importam a discussões sobre a validade ou não validade de se conhecer tal ou qual país. Literatura, como de resto, qualquer forma de arte, não tem fronteiras e obras, às vezes, se sobrepõem a atos ou ideologias abomináveis de seus autores.

Resultado de imagem para Gyúla KrúdyVale a pena conhecer esses escritores do leste europeu. Há uma antologia de contos húngaros, trazendo alguns dos nomes acima. A literatura russa, por exemplo, tem de ser conhecida por qualquer leitor amante de clássicos. É absolutamente imperdoável não se ter lido Dostoiévski, Tólstoi, Gógol.

Outra linha de interesse que me veio deste leste europeu é a questão do Império dos Habsburgos, que dominou as terras que mais tarde se dividiriam em Alemanha, Hungria, Aústria. Consegui, após muita espera impaciente, adquirir o livro Queda e Declínio do Império Habsburgo, de Alan Sked. Mas esta é já outra história. Ou História, assim mesmo, com H maiúsculo.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Resenha nº 57 - Inés da Minha Alma, de Isabel Allende

Resultado de imagem para livro Inés da Minha Alma“Sou Inés Suárez, moradora da leal cidade de Santiago da Nova Extremadura, no Reino do Chile, no ano de 1580 de Nosso Senhor. Não tenho certeza da data exata de meu nascimento, mas, segundo minha mãe, nasci depois da miséria e da tremenda pestilência que assolou a Espanha quando morreu Felipe, o Belo. Não acho que a morte do rei provocasse a peste, como muitas pessoas diziam ao ver passar o cortejo fúnebre, que deixou flutuando no ar, durante dias, um cheiro de amêndoas amargas, mas nunca se sabe. A rainha Juana, ainda jovem e bonita, percorreu Castilha durante mais de dois anos levando de um lado para o outro o ataúde, que abria de vez em quando para beijar os lábios de seu marido, como a esperança de que ressucitasse.” (página 11)

Assim se inicia o romance Inés da Minha Alma, da escritora chilena radicada nos Estados Unidos, Isabel Allende. Este é, por assim dizer, um romance de fundação. Analogia traçada com os romances de formação, em que a história de um personagem é acompanhada, desde sua infância até o seu desenvolvimento. Isabel Allende conta-nos a saga da fundação do Império do Chile.

A personagem que dá nome à obra é de Palsencia, Espanha, sob o reinado de Carlos V e sua bela prima, a rainha Isabel de Portugal. Inés é casada com Juan de Málaga, com que vive um tórrido relacionamento. Ele resolve viajar de navio à procura das terras do El Dorado, no novo mundo. Inés fica, então, sem notícias do marido (a última referência é ele estar na Venezuela) e, em desespero, resolve procurá-lo. Obtém a permissão para a viagem. Conta com o apoio de Pedro de Valdívia, mestre-de-campo de Francisco Pizarro. Viajam juntos na expedição pela América do Sul, com destino a Lima, no Peru. Enfrentam extremas condições adversas, desde uma natureza exuberante, mas agressiva, calor, ataque de animais e de índios inamistosos.

Como é da tradição de Isabel Allende, a protagonista do romance é uma mulher forte, independente, mas ao mesmo tempo, impulsiva. Atravessam o inóspito deserto de Atacama e fundam – Pedro e Inés – Santiago, que será a capital do Chile, local além de tudo, infestado pelos temidos índios Mapuche, hostis aos espanhóis. Entretanto, os espanhóis contam com a fidelidade de outra tribo de índios, desta vez os Yanconas.

O livro é narrado em primeira pessoa, em tempo de memória. É Inés, já velha e sentindo o peso da idade, quem nos resgata seu passado de aventuras e determinações:

“Hoje, ao sair da cama, me falharam as forças pela primeira vez em minha longa vida. Com ajuda das criadas me vesti para ir à missa, como faço todo dia, já que gosto de saudar Nossa Senhora do Socorro, agora dona de sua própria igreja e de uma coroa de ouro com esmeraldas; fomos amigas por muito tempo. Procuro ir à primeira missa da manhã, a dos pobres e dos soldados, porque a essa hora a luz na igreja parece vir direto do céu.” (página 232)

Em Santiago, há um militar, Rodrigo de Quiroga, bastante próximo à Inés. Em dado momento, não tendo com quem deixar a filha Isabel, ele pede à ela que cuide da menina. Isabel será, mais tarde, a dedicada ouvinte a quem Inés relatará suas memórias.

Mulher extremamente dura quando acha que te de ser, tem entretanto, preocupação com os mais deserdados, como ficou patente na citação acima, na qual ela gosta de “ir à missa pela manhã, a dos pobres e dos soldados”. Estes têm muito respeito por ela, não só pela sua determinação, como também por sua capacidade combativa.

Visivelmente, a escritora realizou uma pesquisa minuciosa sobre a história dos povos da América Espanhola. Sua protagonista realmente existiu, embora retocada pela imaginação criativa da autora. O livro se constitui num épico sangrento, num relato de superação de medos, condições desumanas, sem lugar para fraquezas.

Algumas descrições são temperadas com tom poético:

“Nunca vi nada como a magnífica cidade de Cuzco, umbigo do império inca, lugar sagrado onde os homens falavam com a divindade. Talvez Madri, Roma ou algumas cidades dos mouros, que têm fama de esplêndidas, possam se comparar a Cuzco, mas eu não as conheço. Apesar dos destroços da aguerra e do vandalismo sofrido, era uma jóia branca e resplandecente sob um céu cor de púrpura. Perdi o fôlego e durante vários dias andei sufocada, não pela altura e o ar rarefeito, como tinham me avisado, mas pela pesada beleza de seus templos, fortalezas e edifícios. Dizem que quando os primeiros espanhóis chegaram havia palácios laminados a ouro, mas agora as paredes estavam nuas.” (página 87)

Ouço muita gente dizer que não aprecia os romances históricos. Realmente, este tipo de obra pauta-se muito por batalhas, às vezes descrições, incluindo datas. No presente caso, um romance de fundação, a autora teve não explicitamente confessada intenção em ser fiel aos acontecimentos, mas isso é evidente pela pesquisa feita. Há no final do livro umas notas bibliográficas, comentando a cuidadosa apuração de dados sobre a conquista e construção do império chileno; ela compulsou vários livros de história, inclusive da Espanha.

Mais um bom livro de Isabel Allende, o terceiro dela resenhado aqui no blogue: Zorro, A Cidade das Feras e Inés da Minha Alma. A trama do livro é cheia de reviravoltas, batalhas, sucessos, derrotas, muita luta e – nem seria necessário dizê-lo – alguns amores.

ALLENDE, Isabel. Inés da Minha Alma. Editora Bertrand Brasil, 4ª Edição. Rio de Janeiro, RJ: 2006

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Resenha nº 56 - O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa

Resultado de imagem para o vendedor de passadosJosé Eduardo Agualusa é natural de Huambo, Angola. Nasceu em 13 de dezembro de 1960. Cursou agronomia e silvicultura na capital portuguesa, Lisboa. É jornalista. Vive entre Lisboa e Luanda, com incursões ao Brasil. Agualusa é apontado como um dos mais importantes autores da contemporaneidade, em Língua Portuguesa. Este O vendedor de passados ganhou o Prêmio Independent de ficção estrangeira. Aqui, no Blogue, já resenhei dele Teoria Geral do Esquecimento. O vendedor de passados deu um filme brasileiro, na verdade, o trabalho fílmico é levemente baseado no livro.

Se na obra Teoria Geral do Esquecimento a ambientação é quando estoura a guerra pela independência de Angola, neste presente trabalho o tempo cronológico já se deslocou, indo constuir o ambiente no período pós-guerra da independência angolana. O país está em reconstrução; prósperos empresários, políticos, generais, enfim, gente importante, mas sem um passado que os destaque, vão procurar Félix Ventura.

Félix tem uma profissão estranha: reconstroi e vende passados falsos para toda essa gente. Pesquisa no computador, vai de loja de antiguidades em loja de antiguidades, compra álbuns fotográficos antigos, vasculha referências. E, um detalhe importante, Félix Ventura é um albino, isto é, alguém que nasceu sem a melanina da pele e por isso é branco, com dificuldades de enxergar durante o dia (os albinos sofrem de fotofobia). E por que essa referência seria importante? Já-já explico. Um bom autor – e Agualusa é, com absoluta certeza um deles – jamais deixa “pontas desamarradas” nas histórias que cria.

A criação de um passado, pelo nosso personagem principal, não serve apenas àqueles que buscam notoriedade; serve também àqueles cujas ações pregressas precisam ser ocultadas. É o caso de crimes de guerra, violências, estupros, etc. O cliente define seu desejo e Félix executa o trabalho com eficiência.

Como se vê, Agualusa trabalha bem um dos aspectos relacionados na obra A Arte da Ficção, de David Lodge, o estranhamento, referido como

“…tradução consagrada de ostranenie (literalmente, “tornar estranho”), mais um daqueles termos críticos imprescindíveis cunhados pelos formalistas russos.” (página 61, op. cit.)

Em síntese, uma espécie de deslocamento na maneira de apresentar um dado da realidade, algo que chama a atenção do leitor exatamente por ser inusitado. E esse estranhamento se dá não só pela esquisita profissão de Félix Ventura, como também pela inesperada identidade do narrador: uma osga. Osga é lagartixa, e essa, que nos narra as venturas (desculpem-me o jogo de palavra, é irresistível) de Félix é uma osga-tigre, cheia de listras. Ela habita a mesma casa do protagonista e a tudo observa.

Certo dia, aparece na residência de Ventura um repórter fotográfico, encomendando a ele um passado:

“Explicou que pretendia fixar-se no país. Queria mais do que um passado decente, do que uma família numerosa, tios e tias, primos e primas, sobrinhos e sobrinhas, avós e avôs, inclusive duas ou três bessanganas, embora já todos mortos, naturalmente,  ou a viverem no exílio, queria mais do que retratos e relatos. Precisava de um novo nome, e de documentos nacionais, autênticos, que dessem testemunho dessa identidade.” (página 18)

O vendedor de passados faz um trabalho exemplar para o repórter. Batiza-o de José Buchmann, natural de São Pedro da Chibia, no sul do país,  filho de certo Mateus Buchmann e Eva Miller. Forjou para ele passaporte, bilhete de identidade, carta de condução. Havia também fotografias. E tão bem o trabalho é feito que o repórter-cliente, ao longo da história, vai pouco a pouco incorporando o personagem Buchmann.

Há 6 capítulos no livro que se constituem em sonhos. E sonhos de quem? Outro estranhamento! São sonhos da osga, que numa reencarnação passada, fora humana. A bem da verdade, está mais para a teoria da metempsicose. Expliquemos a diferença.

Reencarnação é uma definição espírita, definida por Allan Kardec como a possibilidade de uma alma (ou Espírito) envergar corpos diferentes em suas muitas vivências. A metempsicose também lida com a mesma ideia, mas a profunda diferença é que, enquanto naquela, existe uma completa impossibilidade de um espírito de ser humano retrogradar na escala evolutiva e encarnar em um ser inferior, nesta – metempsicose – isto é completamente possível. É a crença da religião do antigo Egito.

Explicação dada, a osga tem sonhos de quando era humana – e mesmo como osga mantém sua criticidade e racionalidade. Ela, portanto, funciona não só como elemento condutor da história, mas igualmente como elemento de flashback, indo ao passado e resgatando para nós, leitores, partes imprescindíveis da história dos personagens envolvidos, dando-lhes verossimilhança (conceito literário significando aquilo que tem aparência de realidade).

Além disso, em alguns dos sonhos da nossa narradora ela interage com Félix Ventura, numa espécie de telepatia (ela pensa alguma coisa, Félix a repete). Chega-se ao ponto de haver necessidade de nomear a osga e Ventura a chama de Eulálio, aludindo à facilidade verbal da lagartixa.

Há muita referência à literatura, tanto portuguesa como brasileira ou outras ainda; tudo tem a ver com o projeto literário do autor. Eça de Queirós é um dos autores mais citados, pois Félix conhece toda a obra do escritor português.

O vendedor de passados  gira em torno da questão da construção da memória, seus disfarces, seus equívocos, sua relatividade, enfim. Lá na página 132, aparece um diálogo que, a meu ver, é emblemático:

“José Buchmann avançou a rainha, ameaçando-me o cavalo do rei. Ofereci-lhe um peão. Ele olhou-o distraído:

- A verdade é improvável.

Sorriu num relâmpago:

- A mentira –, explicou, – está por toda a parte. A própria natureza mente. O que é a camuflagem, por exemplo, senão uma mentira? O camaleão disfarça-se de folha para iludir a pobre borboleta. Mente-lhe dizendo, fica tranquila, minha querida, não vês que sou apenas uma folha muito verde ondulando ao vento – e depois atira-lhe a língua, a uma velocidade de seiscentos e vinte e cinco centímetros por segundo, e come-a.”

Discorre-se, portanto, sobre o tênue limite que separa a realidade (que, às vezes é escamoteada) e a mentira (que, às vezes, faz parte de uma dada função social):

“Existem dezenas de profissões nas quais saber mentir é uma virtude. Estou a pensar nos diplomatas, nos estadistas, nos advogados, nos actores, nos escritores, nos jogadores de xadrez. Estou a pensar no nosso amigo em comum, Félix Ventura, sem o qual nós não nos teríamos conhecido. Indique-me agora uma profissão, uma única, que não se socorra de alguma mentira, e na qual um homem que apenas diga a verdade seja efectivamente apreciado?” (página 133)

O tom que perpassa o livro é o de uma sátira à identidade angolana, temperada com bom-humor e diversão.

A questão da identidade fugidia, do passado ilusório e artificial, do olhar desconfiado sobre a tão propalada realidade também aparece no final de A Relíquia, do citado Eça de Queirós, se bem que muito mais cínica:

“E tudo isto perdera! Por quê? Porque houve um momento em que me faltou esse “descarado heroísmo de afirmar”, que, batendo na Terra com pé forte, ou palidamente elevando os olhos ao Céu – cria, através da universal ilusão, ciências e religiões.”

Não é à-toa Félix saber de cor e salteado os textos do Eça, não é mesmo, leitor inteligente?

Félix Ventura é um africano albino, intolerante à luz reveladora (do sol), fato gerador de ambiguidade identitária; José Buchmann é um branco que deseja se passar por um africano negro (e lembrem-se, incorpora o personagem criado para ele); a osga narradora é um réptil que teve um passado humano. Por toda a obra, o passado criado transforma os clientes de Félix Ventura (e a ele próprio) em outro ser, diferente do que era antes.

Se você assistiu ao filme de Lula Buarque de Hollanda, homônimo do livro, esqueça. Não pode haver termos de comparação entre a magnífica estruturação e complexidade da obra literária e o que se vê na telona. O filme é apenas inspirado na obra de Agualusa, sem qualquer outro benefício. Sem dúvida, na minha opinião, O vendedor de passados é um dos melhores trabalhos literários já resenhados neste blogue.

Leia-o, leitor amigo; a história guarda supresas muito além das resenhadas aqui. Há outros personagens, situações dúbias, amorosas.

AGUALUSA, José Eduardo. O vendedor de passados. Editora Gryphus, 3ª edição. Rio de Janeiro, RJ: 2015

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Resenha 55 - Slow Reading, de John Miedema

Resultado de imagem para slow reading john miedemaJohn Miedema é especialista em tecnologia da informação na IBM, empresa na qual ele se especializou, mais especificamente, em tecnologias da rede. É aluno, em tempo parcial, do programa de mestrado em Biblioteconomia e Ciência da Informação da Universidade  de Ontario Ocidental. A ênfase é nas áreas de pesquisa sobre a leitura e bibliotecas de fonte aberta. John mora com a mulher e dois filhos adolescentes em Southwestern Ontario.

Antes de se falar em slow reading, devemos abordar o slow movement, surgido como um contraponto ao fast movement (movimento rápido, em português). A pressa parece uma constante no mundo moderno; tudo é fast, desde a alimentação, passando pelo trabalho, pelos (longínquos) prazeres da vida. O ritmo alucinante de nossas vidas, desde o momento em que nos levantamos – ou até mesmo enquanto dormimos, cada vez mais, pouco e mal – até quando chegamos em casa, exaustos de tanta correria. A famosa fast food, um hábito que já não se restringe mais ao “american way of life”, mas toma conta do mundo todo, acabou por gerar um movimento contrário. As proposições desse novo modo de vida são fruir as coisas, a nossa vida, de um modo lento, com degustação e, portanto, maior prazer.

O slow reading é uma das vertentes dessa proposta: ler atentamente, ler de modo relexivo, sempre com o intuito de aproveitar o máximo possível o prazer da leitura. Não prega que devamos, em toda e qualquer situação, ler de maneira lenta. O livro nos lembra haver casos nos quais a rapidez se impõe:

“Slow reading significa ler em ritmo reflexivo. A ideia de ler mais lentamente pode parecer estranha numa época em que cada vez mais se exige leitura dinâmica, em face da quantidade de literatura informativa. Claro que muitas vezes é importante ser capaz de ler rapidamente. Quem por natureza lê devagar só a custo admite isso. Eu sou um leitor lento. Um livro que leio em um mês é lido pelos outros em uma semana. Às vezes se considera que a leitura lenta reflete o pensamento lento, e eu não contesto essa associação. A leitura lenta de um livro leva a uma relação mais profunda com suas histórias e ideias. Quando leio um livro lentamente, ele continua me influenciando mesmo depois de passados anos.” (página 13)

Este Slow Reading – os benefícios e o prazer de uma leitura sem pressa – é dividido em quatro capítulos, nos quais o autor, em cada um deles recorre à pesquisa e às ideias já apresentadas e oferece uma perspectiva original.

O primeiro capítulo chama-se A natureza pessoal da slow reading. O segundo, Slow Reading numa ecologia da informação; o terceiro, O Slow Movement e a Slow Reading e, finalmente, o quarto, A psicologia da Slow Reading.

No passado, a leitura era artigo de luxo, pois somente uns poucos letrados podiam se dedicar a ela. Como o livro era ainda muito caro, muitas vezes consistindo em réplicas manuais, pacientemente feitas pelos copistas, somente as obras de caráter clerical eram feitas, bancadas pela Igreja. Lia-se reverentemente um livro sagrado. Mais tarde, dentro das faculdades, os estudos acadêmicos eram praticados de maneira lenta, acurada, para extrair o pleno significado de um texto. Ainda hoje, os professores de português se utilizam das mesmas técnicas nas aulas de leitura com seus alunos. Ressalta-se a construção frasal aqui, o uso extremamente apropriado de um adjetivo ou de um tempo verbal ali.

Nunca se leu tanto quanto hoje. Essa afirmação pode parecer em descompasso com as pesquisas sobre leitura, apontando sempre que cada vez lemos menos. Mas esses resultados, cheios de estatísticas refletem, na verdade, um certo tipo de leitura. Por exemplo, costuma-se dizer que o Brasil lê muito pouco. Essa afirmativa não está errada, mas ela reflete uma visão de leitura restrita. John Miedema propõe um conceito mais amplo de leitura (não só de livros, não só de literatura), abrangendo, por exemplo, ebooks, memorandos, ofícios, revistas, leitura na internet, cartazes, anúncios, etc. Dentro deste conceito, realmente lemos muito. Lemos blogues, lemos sites, consultamos enciclopédias digitais, revistas digitais, jornais (formato tradicional ou digital) – textos, textos e mais textos.

O autor localiza o início do uso da expressão caracterizadora da leitura lenta:

“Parece que a mais antiga referência explícita à expressão “slow reading” está no prefácio de Nietzsche para o livro Aurora: “Não é a troco de nada qua alguém foi filólogo, talvez ainda o seja, o que equivale a dizer: um professor de slow reading”(1997). Nietzsche vê a filologia como uma “especilização da palavra” que exige do leitor a dedicação de tempo para uma boa leitura.” (página 25)

Historiando ainda a slow reading, John vai relacioná-la à crítica literária chamada New Criticism (Nova Crítica), para a qual a proposta de abordagem de uma obra literária apagava a figura do autor diante; ele não importava, mas única e exclusivamente o texto. Isolando o artefato do criador, só buscavam o que podiam extrair da obra. Nada de dados biográficos, do modo de vida do escritor, do seu credo estético.

Em uma proposta extremamente voltada para a pedagogia do prazer da leitura, entre os jovens, Miedema nos recomenda a Leitura Voluntária  Livre (ou LVL):

“LVL significa ler pela vontade de ler. Não há relatório sobre o livro, não se fazem perguntas no final do capítulo e não se pesquisa cada palavra nova. A LVL significa refugar  um livro  de que não gostamos e escolher outro em seu lugar. É o tipo de leitura que as pessoas com alta capacidade de ler e escrever fazem o tempo todo.” (página 32)

Extremamente oportuno citar aqui o livro Como um romance, do francês Daniel Pennac, em que ele elabora dez direitos de qualquer leitor:

Resultado de imagem para Como um romance“1) O direito de não ler; 2) O direito de pular páginas; 3) O direito de não terminar o livro; 4) O direito de reler; 5) O direito de ler qualquer coisa; 6) O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível); 7) O direito de ler em qualquer lugar; 8) O direito de ler uma frase aqui e outra ali; 9) O direito de ler em voz alta; 10) O direito de calar.”

Para quem se interessou pelo livro de Pennac, ele saiu pela editora Rocco/L&PM Pocket, com tradução de Leny Werneck, 152 páginas, gênero Ensaios (mas saboroso de se ler).

Como esse Slow Reading é um livro teórico, não preciso me preocupar com spoilers; portanto, aí vai um deles, reproduzindo o depoimento de John Miedema, ele mesmo um dos praticantes da slow reading:

“A slow reading pode ser feita de muitos modos, mas em todos eles uma parte maior do ser interior do leitor é levada para o ato de ler. Minha prática pessoal envolve a leitura num ritmo moderado, normalmente por períodos curtos, parando quando noto que estou começando a pular palavras. Enquanto leio, de vez em quando dou uma parada para tomar notas que posteriomente integrarão uma resenha que faço no meu site. Embora goste que as pessoas as leiam e comentem as minhas resenhas de livros, na verdade isso acaba não tendo muita importância. Para mim, o ato de escrever uma resenha é útil por si mesmo: é um modo de aprofundar a compreensão de um livro, registrando-o na minha memória e dando-lhe um arremate. Mas algumas pessoas não gostam de fazer anotações, achando que elas perturbam a continuidade da leitura.” (página 106)

A todos aqueles que amam ler, recomendo enfaticamente a leitura lenta deste opúsculo de 125 páginas, obra de cabeceira de qualquer bibliófilo.

O melhor de tudo – eu me reconheço (eu nunca havia me visto como tal, juro!) um leitor em modo slow reading. Leio um livro uma vez, releio-o para fazer anotações e elaborar uma resenha como esta, que você agora está lendo. E puxo pela minha memória: todas essas leituras que de alguma forma, em algum momento, impactaram minha vida, modificando ideias, instilando conhecimento e, sobretudo, causando-me prazer foram slow readings.

Por ser tão significativa para mim a leitura dessa obra, caro leitor, peço-lhe licença para abrir mais uma citação do autor, exatamente o trecho com que ele termina seu trabalho, curto, mas rico:

“Frequentemente se diz que durante a vida uma pessoa só pode ler cerca de 5 mil livros. É um número pequeno, tendo em vista a assombrosa quantidade que está disponível para nós. Essa limitação pode levar alguns leitores a acelerarem seu ritmo de leitura para aumentar o número de livros lidos. Essa reação transforma o leitor num turista, que passa de experiência para experiência, observando apenas os pontos principais, ficando apto a dizer que realizou, embora sem estar inteiramente certo do que realizou. Outra reação é apenas reconhecer que na verdade a vida é curta e que nossa seleção reduzida de livros representa uma expressão única do nosso caráter. Essa segunda escolha retira da leitura a pressão desnecessária e a faz voltar a ser um grande prazer.” (página 109)

MIEDEMA, John. Slow Reading – Os benefícios e o prazer da leitura sem pressa. Editora Octavo, São Paulo, SP: 2011

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Resenha nº 54 - A Travessia de Eva, de Pierre Péju

Resultado de imagem para livro A travessia de EvaDescendente de uma família de livreiros de origem lionesa, Pierre Péju fez seus estudos de filosofia na Universidade de Sorbonne, Paris. Estudante apaixonado pelas manifestações de Maio de 1968, ele escreve, desde 1971, para diversos jornais e revistas.
Professor do liceu Champollion e, posteriormente, do liceu internacional Stendhal, em Grenoble, e diretor do programa do Collège International de Philosophie, ele é também autor de muitos ensaios, romances, contos e novelas. Especialista em Romantismo alemão, ele editou várias obras da coleção Românticos, Coleção Corti.
Recebeu os prêmios Prix du Livre Inter, 2003, e Prix Rosine Perrier, 2003, por La Petite Chartreuse (A Travessia de Eva, em português); Prêmio de Romance Fnac, 2005, por Le Rire de l’ogre (O Escárnio do Ogro – tradução livre do título, de minha autoria).
Travei contato com o livro A Travessia de Eva e com seu autor, Pierre Péju num saldão de livros à venda em um shopping. Nunca ouvira falar da obra e autor, ignorância confessa. Como sempre faço, folheei o pequeno volume, li as informações contidas nas orelhas e na quarta capa. Observei cuidadosamente a capa: a chuva caindo sobre vários guarda-chuvas negros. As gotas em pequeno relevo, traçando linhas plastificadas. O nome, escrito em branco, manuscrito. Tinha tempo; li trechos aqui e ali, pinçados a esmo, e gostei do conjunto. Você certamente já ouviu dizer que, no relacionamento entre pessoas, há uma química. Pois bem, entre leitor contumaz e o objeto do seu desejo também deve haver uma química. Se da mesma ordem, não sei; quem o souber, que me ajude.
Thérèse Blonchart, certo dia, chega muito atrasada à porta da escola em que estuda sua filha, a pequena Eva. A menina não está mais à sua espera; dizem-lhe que a viram ir embora sozinha. A mãe se preocupa: com certeza, a filha não saberá encontrar o apartamento onde moram. E, ao atravessar apressadamente uma avenida, Eva é colhida pela camionete de Étienne Vollard. Esse é o drama sobre o qual o autor constrói sua obra.
Étienne sempre fora um menino grandalhão, desajustado no contato com as pessoas, apenas aluno mediano, mas com uma memória fantástica para os muitos livros que lia. Sabia de cor trechos e trechos de muitos, vários autores. No entanto, era um incapaz de relacionamentos sociais. Vollard trabalha com aquilo de que mais gosta: livros. É dono de um sebo, chamado O Verbo Ser.
Thérèse é muito jovem, sem nenhuma aptidão para ser mãe. Ela tenta, mas não consegue. Mulher extremamente solitária, tem de trabalhar para se manter e à filha. Particularmente, não é chegada a leituras; simplesmente vive e trabalha e isto é tudo.
Não é difícil imaginar que essa condição também vai influenciar Eva. Na escola, não tem amiguinhas, tão comuns nesta época da vida. Criança igualmente sozinha, quieta, calada em seu canto.
O acidente sofrido pela menina aproxima os dois outros personagens, Étienne e Thérèse. Um homem profundamente solitário e uma mulher jovem, de igual condição. Vollard vai visitar Eva no hospital, movido pelo sentimento de culpa. A pequena tinha surgido na frente do seu veículo, lotado de livros, estava chovendo e ele não conseguira evitar a colisão. A vítima está em coma, muito machucada.
Enquanto Vollard visita sistematicamente a menina, a mãe pouco a pouco se afasta. Afinal, não há nada a fazer. Étienne também não sabe como proceder; sem saber direito o que faz, recita trechos dos livros lidos para ela ouvir. Mas a criança não responde. A evolução do caso, se houver, será muito lenta e, provavelmente, com sérias sequelas.
Pierre Péju traça, neste A Travessia de Eva – narrativa de 160 páginas, um quadro terrivelmente comum, mas não menos pungente: pessoas sozinhas, em suas vidas monótonas, sem força e sem vontade de serem protagonistas de si mesmas. Formatadas pelos seus estreitos horizontes e a eles conformadas. O que move Vollard não é compaixão pela vítima do acidente, apenas culpa. Ele não vislumbra a possibilidade de evolução do caso, como, aliás, igualmente não tem perspectiva de modificação para sua própria vida.
Thérèse vive nesse mesmo marasmo. Não cuida bem de Eva, não porque não o queira, mas por não ter essa capacidade. Nela, o instinto materno é nulo. Péju não nos diz algo sobre o passado dessa personagem, deixando a nós – leitores – uma sensação de ausência de informações. Ela é daquelas personagens que, por si sós, mereceriam uma história, um passado. Por que ela é assim? Como engravidou? Amou alguém?
Entretanto, tal economia de dados só realça a contundência narrativa. E, creio, foi uma questão de escolha do autor. Mesmo quando ele constrói um passado para Étienne Vollard, não o faz para explicar o porquê de ele ser assim, tão solitário. Não. O personagem já nos é apresentado assim, solitário, recolhido a si mesmo.
O estilo é propositalmente seco, enxuto. Na orelha do livro, Paulo Bentancur nos lembra que
“A narrativa lembra muito a de autores como Albert Camus: embotada, cortada, onde as ilusões, se é que algum dia existiram, foram-se há muito tempo”
Entretanto, tal característica estilística não impede algumas passagens de incômoda e triste beleza:
“Foi-lhe difícil recuperar a respiração normal. Tinha as narinas, olhos e cabelos cheios de vômito. Sim, tinha vomitado um pouco, vomitara vagamente a si mesmo, Édipo deficiente, sem destino nem complexo, pendurado num imenso cordão umbilical de borracha. Mas sentia que as frases, as frases dos livros, permaneciam solidamente fixadas em seus cérebro.” (página 130)
Ou, nessa passagem:
Os olhos negros de Eva pareciam aguardar os “plufs” sucessivos, como se começasse a encontrar nesse jogo um tênue prazer. Apesar do mutismo e da ausência de qualquer expressão feliz, Vollard acreditava nela entrever uma satisfação infantil, vinda de uma infância distante e completamente anônima. Ele próprio sentia a comichão de uma alegria ao mesmo tempo velha e imediata. Lançar uma pedra à água. Mirar e atirar. Fazer saltar. Buraco de círculos dentro d’água. Diante do olhar de Eva, ele se pôs a lançar pedras cada vez mais pesadas para produzir ruídos cada vez mais fortes.” (página 136)
Sentir a comichão de uma alegria, algo completamente vago, sem foco.
E lá na página 154, num assomo de consciência, Thérèse se diagnostica:
“- Tive notícias com mais frequência que o senhor pensa. E o senhor se lembra, quando ela estava no hospital, fiz o que pude. Falar com ela? O que eu poderia lhe dizer? Não sou como o senhor: tenho dificuldade com as palavras, com as frases… Embora, no fundo, goste delas. Aliás, costumo anotar num caderno coisas que me agradam… Não tenho nada de alegre a dizer. Já andei muito por aí. Escrevi isso, veja só: “Toda a minha vida é deslocada como uma fotografia fora de foco.” É, senhor Vollard, não é feia a minha vida, mas fora de foco, completamente fora de foco. Muitos lugares, muita gente, muitos homens. Todos iguais!”
Não há, leitor, uma beleza melancólica em passagens como as apontadas acima? E nesta última, no momento mesmo em que escrevo essa resenha, me vêm à mente os versos de Drummond, nosso poeta maior: “Ó solidão do boi no campo/Ó solidão do homem na rua”
Na cidade grande, em meio à multidão em constante movimento, somos seres sem rosto, sem vida; somos títeres que se movimentam segundo os comandos que nos chegam pelos fios que nos movem.
O livro está cheio de referências literárias, pois Étienne Vollard as cita várias vezes. Por isso, não são chatas ou mero exibicionismo intelectual do autor; elas são perfeitamente coerentes com a construção do personagem. Podem vir destacadas e mostradas, em itálicos, ou vir mais “secretamente”, como no trecho da página 120:
“O centro, assim como outros estabelecimentos médicos, erguia-se acima do povoado, sobre um estreito terraço montanhoso, abrigado do vento norte por uma comprida falésia e por um bosque de carvalhos, seguido de um de abetos. Lugar retirado, protegido. Esses estabelecimentos haviam sido sanatórios por muito tempo. Tosses roucas, febre e escarros no ar puro da montanha mágica. Mas agora, lá embaixo, nos vales a tosse deixara de ser mortal. Os sanatórios não tinham mais razão de existir.”
Citação grifada por nós, a qual nos remete imediatamente à obra A Montanha Mágica, do escritor alemão Thomas Mann. Nesse clássico, não só da literatura alemã, mas um clássico da literatura universal, o personagem Hans Castorp sofre de tuberculose pulmonar e se interna num sanatório em uma montanha, daí o nome da obra.
A Travessia de Eva é um excelente livro; triste, mas escrito com extrema competência literária. Incomoda-nos, é verdade. É um lembrete, uma denúncia, um protesto, como quiserem. Sejamos protagonistas. A falta de foco – ou de sentimentos, ou ainda, de engajamento – nos torna “coisas”. Seres sem alma. Portanto, sem importância. Recomendo a leitura dessa obra com veemência!
PÉJU, Pierre. A Travessia de Eva. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Resenha nº 53 - Já Entendi, de Gladys Mariotto

Resultado de imagem para livro já entendiGladys Mariotto formou-se como bacharel e Belas Artes e Filosofia, especializou-se em História da Arte do Século XX, em Sociologia e Ensino; fez mestrado em Filosofia/Estética e é doutoranda em Educação.

Estudou produção cultural, desenvolveu materiais didáticos e trabalhou para grandes instituições de ensino, como o IESDE do Brasil, Grupo Uninter, Grupo Expoente e Grupo Positivo. Escreveu 36 livros didáticos e paradidáticos, recebeu 34 prêmios em educação, cinema, inovação e artes.

Em 2010, foi selecionada para o Japan Prize da rede NHK, em Tóquio, o maior evento mundial de mídia educativa e, logo depois, a convite da UNICEF, apresentou-se em Havana, Cuba.

Com tal ficha de sucessos, pode-se pensar que Gladys seja uma pessoa com profunda facilidade de estudo. Nada mais enganoso, porém. Ela é portadora de Transtorno de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Além disso, aos 17 anos de idade engravidou, quando cursava o ensino médio. Resultado: seus anseios de fazer uma faculdade tiveram de ser arquivados por longos 18 anos. Criou seus filhos e aos 36 anos, resolveu ressucitar o antigo projeto de curso superior.

Logo surgiu a primeira dificuldade: por conta do longo tempo sem acesso à educação – ampliada ainda mais pelo seu transtorno – simplesmente não conseguia dar conta do conteúdo das apostilas do filho, que, à época, estudava também para o vestibular. E se deu a gênese da metodologia do Já Entendi. Ela foi manipulando todo o material, recortando-o, anotando-o, reescrevendo-o e dessa forma conseguiu facilitar e acelerar seu próprio aprendizado.

O Já Entendi é, portanto, uma metodologia de aprendizagem para autodidatas, que tem como parâmetros a heutagogia, a andragogia, a neurolinguística, a utilização de mapas mentais, o storytelling e o design (instrucional e por infográficos). Prioriza uma aprendizagem dinâmica, com ferramentas variadas para evitar a monotonia das aulas tradicionais.

Por heutagogia entende-se o processo pelo qual o estudante é o único responsável pelo próprio aprendizado, determinando seu ritmo de estudo, o que aprender. Andragogia é o estudo voltado para adultos, em contraposição à pedagogia, que é o estudo voltado para crianças. Neurolinguística é “a ciência ocupada com os mecanismos cerebrais de aprendizagem que suportam a compreensão, produção e conhecimento abstrato da língua, falada, escrita ou assinalada” (Wikipédia). Mapas mentais são esquemas gráficos, com um núcleo temático central e níveis de relações hierárquicas, estimuladoras da memória. Storytelling é a contação de uma história para se atingir um objetivo. A disposição didática e dosada do material em forma de esquemas, destaques, organização de tópicos textuais vinculados a gráficos orientados é o que chamamos de infográfico.

Realmente, quem se disponha a aprender com esse método poderá alcançar êxito em estudar sozinho. O Já Entendi pode ser aproveitado por professores de qualquer conteúdo, tanto no momento de se embasar e preparar as aulas, quanto na orientação ao aluno, para que tenha mais facilidade de estudar em casa.

Lança mão de gráficos, destaques de textos, mapas mentais – tudo muito colorido, facilitando a associação conteúdo-visualização. Fornece até um questionário (não é infalível) para indicar à pessoa se ela é de memorização mais visual, auditiva, etc., para a partir daí enfatizar quais técnicas seriam melhores para cada tipo de autodidata.

Ao longo de todo o livro, pequenas mensagens de reforço positivo são escritas, num claro objetivo de, apoiando-se na Neurololinguística, mudar a disposição mental do aprendente ou reforçar positivamente suas decisões:

“Porque imaginar  é um exercício não só do cérebro, mas também do coração. Coração, emoção, razão. A rima perfeita, a que chamamos Imaginação!” ( Jéssica Carvalho)

“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas, ao tocar a alma humana, seja apenas outra alma humana.” (Jung)

“O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.” (Padre Antônio Vieira)

“Argumentar é discutir, mas, principalmente, é raciocinar, deduzir e concluir. A argumentação deve ser construtiva na finalidade, cooperativa em espírito e socialmente útil.” (Whitaker Penteado)

Incentiva o estudante a elaborar horários para o estudo, buscando a possibilidade de variar o conteúdo (aprende-se melhor quando não se dedica o tempo todo a um tipo de conteúdo apenas). E – o que os professores de português já sabem – aconselha enfaticamente a leitura como parte do processo de aquisição de vocabulário e costume com o texto escrito. Como está visto, o Já Entendi exige discipina do estudante.

A metodologia em questão ganhou vários prêmios, entre eles, o Prêmio Startup do Ano de 2014, dado pela revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios. Quem desejar mais informações, acesse o site www.jaentendi.com.br.

MARIOTTO, Gladys. Já Entendi. Editora Planeta. São Paulo, SP: 2015.