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sábado, 21 de fevereiro de 2015

Anotações de Cleuber Marques, leitor

por Cleuber Marques da Silva

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Naqueles distantes anos 50, guiado pela minha irmã – que lia muito – iniciava meus caminhos como leitor. Não havia ainda o ensino infantil e normalmente as crianças eram alfabetizadas a partir do primeiro ano do “grupo escolar”. Cansada de ler para mim todas as noites, antes de dormir – ou mesmo, quem sabe – sensibilizada pela fome de leitura do futuro devorador de textos, minha irmã Doralice resolveu me alfabetizar por conta própria. A empreitada foi um sucesso, pois minha paixão pelos livros era tanta que garantia o êxito. Pouco a pouco, deixaria de ouvir os personagens Saci Pererê, o Marquês de Rabicó, a rebelde Emília, Pedrinho, Dona Benta, Tia Anastácia, Narizinho, o Visconde de Sabugosa falarem pela voz dela para ouvir seus diálogos pela minha própria voz e seguir eu mesmo as histórias criadas por Monteiro Lobato.

Quando chegueiResultado de imagem para As Mais Belas Histórias ao primeiro ano, lia com dificuldade, lentamente, mas lia. E à medida que me esforçava, lia cada vez melhor. Lembro-me perfeitamente, na época tínhamos os livros de antologia entre o material a ser usado na escola. As Mais Belas Histórias, organizado pela Lucia Monteiro Casasanta, nem bem chegava às minhas mãos e já era prontamente lido.

Não sei o nome da alma caridosa, mas me emprestaram uma belíssima coleção Os Mais Belos Contos de Fada – título seguido dos adjetivos pátrios relativos a vários países europeus.

Mais crescido, já adolescente quieto e introspectivo, preferia ler um bom livro a qualquer programa que me apresentassem. Com um livro nas mãos, esquecia até de almoçar, minha mãe quase tinha de vir me sacudir para eu retornar ao mundo habitado pelos não leitores.

Descobri na biblioteca da escola em que cursava o último ano do ensino fundamental, em Contagem, um exemplar do Humilhados e Ofendidos, do escritor russo Dostoiévski. Foi maravilhamento à primeira leitura! Não podia ainda apreender a complexidade da narrativa dostoievskiana, me faltava bagagem, vivência. Não me importei com essa dificuldade, entretanto. Fiz inscrição na Biblioteca do SESC, pois lá descobrira a coleção inteira do meu fascinante autor russo e dei sequência às minhas aventuras literárias, com o Crime e Castigo. Era uma coleção de capa dura, vermelha, com apliques dourados, trazendo a figura de um minarete russo na lombada; a editora era a José Olympio.

Sempre gostei de escrever também, embora o amor pela leitura ganhasse, com larga margem, das minhas atividades como autor. O que eu escrevia, como escrevia, não me agradava nem um pouco.

Conheci o Machado de Assis por meio de Dom Casmurro, num trabalho feito para o Grêmio Literário da escola. E me apaixonei também pelo Machado. Para mim, todo aquele apuro da frase bem-feita, da construção psicológica dos personagens eram absolutamente fascinantes. Já lera muita coisa do José de Alencar, da biblioteca domiciliar, em edição antiga, cheia de “elles”, “dous”, “loiro”, “ph”, etc. O autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas me propunha coisas novas, diferentes.  

Enfim, eis-me aqui. Leitor maduro, nunca deixei de ler os nacionais e os estrangeiros. Não faço distinção entre os autores brasileiros e os de outras nacionalidades. Agora mesmo, estou interessado em Milan Kundera; está nos meus planos voltar a ler Graciliano Ramos, outro autor de quem gosto bastante. Estou com A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende para degustar. Há lugar para os mais novos, como o Cristovão Tezza, a Martha Medeiros, o Chico Buarque, a Fernanda Torres, a Leila Ferreira. E a Clarice Lispector? Da Clarice, a gente nunca se esquece…

Minhas preferências vêm mudando, ou melhor, se ampliando: atualmente, manejo biografias, livros de história (desde que agradáveis de ler – o prazer do bom texto é primordial), como os do Laurentino Gomes. Recentemente, comecei a fazer incursões pela literatura africana de expressão portuguesa, com o Mia Couto, o Ondjaki, o Pepetela, o Eduardo Agualusa. Não podem faltar os portugueses, José Saramago, António Lobo Antunes, Miguel Sousa Tavares, Inês Pedrosa, Valter Hugo Mãe… Com estes, presto uma homenagem ao meu pai, um português da província de Trás-os-montes. E tenho descoberto que existe um filão de bons autores de ficção científica nacionais.

Como não podemos parar no tempo, agora leio também num leitor de e-books. Eles têm a praticidade de podermos levar toda a nossa biblioteca num aparelhinho que cabe na palma da mão. E para entender todo esse processo de mudança no suporte da leitura, adquiri a obra de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, cujo título é Não contem com o fim do livro; naturalmente, uma… brochura.

De tal modo me afeiçoei à leitura que ela me é essencial, faz parte da minha personalidade. Algumas pessoas me perguntam por que leio tanto, ainda mais numa época em que quase já não há tempo para tal. Respondo-lhes: leio pela paixão, leio porque me é necessário, leio como um esforço inaudito para entender o mundo, para me entender melhor. A matéria que alimenta as obras são as histórias das pessoas – as acontecidas e as passíveis de acontecer. Quanto ao tempo, bem, meus caros leitores, tempo é uma questão de prioridade… Roubo tempo à televisão, aos videogueimes, e mais recentemente, aos Facebooks, aos Whatsapps.

Espere um pouco, leitor apressado desse blog, não vivo só de leituras. Gosto de fotografar, de ir ao cinema (acho os dvd players ou blue-ray players bons quebra-galhos, nada mais) e – sobretudo – como bom leitor, gosto de escutar as pessoas. Então se puder embalar tudo com o som de um violãozinho, melhor…

domingo, 18 de janeiro de 2015

resenha nº 47 - As intermitências da morte, de José Saramago

José Saramago é o único escritor de língua portuguesa agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura. Tal feito foi alcançado em 1998, embora sempre haja quem discorde do merecimento desse galardão. Afinal, não faltam bons escritores lusófonos, como por exemplo, e para citar um apenas, o António Lobo Antunes. Realmente, o Prêmio Nobel tem forte viés político, já o sabemos. O importante é que Saramago merece a distinção, pelo conjunto da obra extensa e solidamente conceituada.

Nosso escritor nasceu em 16/11/1922 e faleceu em 18/06/2010, em Lanzarote, em exílio autoimposto. Exerceu várias profissões na vida: serralheiro, desenhista,  funcionário público, jornalista e escritor tardio. Elaborou obras das mais importantes para o romance contemporâneo, como Ensaio sobre a cegueira, transformado em filme, O evangelho segundo Jesus Cristo, O dia da morte de Ricardo Reis, A caverna, O homem duplicado, A jangada de pedra. Como se vê, o leitor atento que desejar obter uma amostra do que de melhor se faz na literatura mundial hodierna não pode ignorar José Saramago.

Ateu por convicção, desagrada a muita gente. Seu estilo é inconfundível pelo uso da pontuação, um tanto personalizada, pelo uso perfeito do diálogo indireto livre e a construção de longos períodos, pelos seus temas e a forma quase sempre alegórica de abordar ironicamente a realidade. Sua escrita tem algo de barroco, de ritmo lento, cheia de “anotações à margem da história”, isto é, com várias passagens nas quais se manifestam seus comentários, suas reflexões.

Não é diferente com esse As intermitências da morte. A página que abre a obra já começa em media res, no meio das ações:

“No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada.” (página 11)

O leitor sofre o impacto do tema na abertura: a interrupção da ação da morte, configurada no romance como uma personagem – quem ler o livro até o fim descobrirá que ela, na verdade, é a personagem principal, sobre a qual se constrói o fio narrativo. O restante do texto passa a comentar as complicações religiosas, políticas e sociais advindas da “greve” da senhora morte. A metralhadora irônica de Saramago mira para todos e tudo; ninguém morre, aqueles já em agonia recuperam-se miraculosamente, os acidentes não matam mais. E tudo isso acontece num país pequeno, inominado pelo autor. A jurisdição da morte (escrita assim mesmo, com minúscula) se restringirá às fronteiras políticas do dito país. Além delas, tudo acontece como sempre aconteceu.

A religião entra em crise: de acordo com as palavras de nosso autor, toda religião é erigida sobre a motivação da morte. Falam da vida após ela, justificam-se por ela. Ora, faltando a motivação, o que será de todas as denominações religiosas? Eis aí o ateu Saramago divertindo-se em criar aporias, isto é, raciocínios sem solução:

“Quando os filósofos, divididos, como sempre, em pessimistas e optimistas, uns carrancudos, outros risonhos, se dispunham a recomeçar pela milésima vez a cediça disputa do copo que não se sabe se está meio cheio ou meio vazio, a qual disputa, transferida para a questão que ali os chamara, se reduziria no final, com toda a probabilidade, a um mero inventário das vantagens e desvantagens de estar morto ou de viver para sempre, os delegados das religiões apresentaram-se formando uma frente unida comum com a qual aspiravam a estabelecer o debate no único terreno dialéctico que lhes interessava, isto é, a aceitação explícita de que a morte era absolutamente fundamental para a realização do reino de deus e que, portanto, qualquer discussão sobre um futuro sem morte seria não só blasfema como absurda, porquanto teria de pressupor, inevitavelmente, um deus ausente, para não dizer simplesmente desaparecido.” (página 35)

O comércio dos funerais quase vai à falência, é necessário abrirem-se mais e mais hospitais, o Ministério da Saúde se vê às voltas com o crescente dispêndio de dinheiro para construí-los, as casas de assistência para as pessoas de terceira e “quarta” idades se espalham pelo país, as companhias de seguro quase vão à loucura.

E, para acrescentar uma pitada de veneno literário, o narrador, lá pelas páginas 45, deixa intrometer-se uma observação sobre o depoimento dele mesmo, narrador:

“Os actores do dramático lance que acaba de ser descrito com desusada minúcia num relato que até agora havia preferido oferecer ao leitor curioso, por assim dizer, uma visão panorâmica dos factos, foram, quando da sua inopinada entrada em cena, socialmente classificados como camponeses pobres. O erro, resultante de uma impressão precipitada do narrador, de um exame que não passou de superficial, deverá, por respeito à verdade, ser imediatamente rectificado.” (grifo nosso)

O que resulta de tal estratégia saramaguiana, dessa retificação? Todo o relato é colocado sob suspeita, pois o narrador transforma-se em não confiável. Tática também usada por Machado de Assis, quando centra a narrativa de Dom Casmurro num Bentinho como um narrador não confiável.

Outras tantas mirabolâncias são relatadas, quando órgãos do governo tentam resolver a situação nova, quando as igrejas (é nomeada a Igreja Católica, fato que deve ter gerado, suponho, o ódio dos seus praticantes mais dedicados) tentam uma nova interpretação para angariar a antiga validade diante de seus seguidores.

Como o Homem é um ser extremamente adaptável, outra não seria a explicação do seu domínio sobre a Terra, logo-logo criam-se mecanismos – digamos – não muito lícitos de resolver o problema da ausência da morte. Surge uma máphia, assim mesmo com “ph”, para a diferençar da outra, tradicional”, para tentar resolver o problema da falta de morte.

Um final absolutamente inesperado nos prende a atenção até o fim da leitura. O século XX e estes inícios do XXI têm produzido notáveis obras distópicas; pouca coisa escapa às análises demolidoras destes autores e autoras, críticos da sociedade na qual vivemos. Nem sempre o produto é a desesperança, diga-se de passagem.  Distópicas são obras como 1984, A revolução dos bichos, de George Orwell; A elegância do ouriço, de Muriel Barbery, já resenhada neste blog. Uma boa parte dos filmes de ficção científica segue o mesmo filão: Os agentes do destino, com Matt Damon e Emily Blunt, baseado num conto de Philip K. Dick; A origem, com Leonardo Dicaprio, Ken Watanabe, Gordon-levitt, Michael Caine e outros; O preço do amanhã, com Amanda Seyfried e Justin Timberlake, além dos filmes do Batman, que mostram uma Gothan City gótica, escura e apodrecida por dentro.

A obra As intermitências da morte vale a pena ser lida. É um grande livro, uma análise contundente e irônica da sociedade em que vivemos. Mas atenção, leitor; nem sempre Saramago usa tons leves como neste livro. Ensaio sobre a cegueira, por exemplo, apesar de também ser alegórico, é uma leitura densa, pesada e incômoda.

SARAMAGO, José. As intermitências da morte. Companhia das letras. São Paulo, SP: 2005.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Resenha nº 46 - Como melhorar um texto literário, de Lola Sabarich e Felipe Dintel

Os autores deste manual são Lola Sabarich e Felipe Dintel. Lola (pseudônimo de Maria Dolors Millat Llusà) é escritora, professora e poeta. Estudou História Antiga na Universidade de Barcelona, onde se formou.  Felipe trabalhou como tradutor em diversas editoras de Barcelona. Atuou, ainda, como editor de texto, escritor, leitor profissional e coordenou projetos.

Este é mais um dos excelentes e oportunos lançamentos do selo Gutenberg, integrando os títulos da série “Guias do Escritor”. Outros títulos são Como escrever textos técnicos e profissionais, de Felipe Dintel, Como narrar uma história, Como escrever para crianças, Como escrever diálogos e Os segredos da criatividade – os quatrp últimos da autoria de Silvia Adela Kohan.

Trata-se de guias de no máximo 98 páginas, pequenos no tamanho, mas grandes na utilidade. Como melhorar um texto literário traz o subtítulo de “um manual prático para dominar as técnicas básicas da narração”, exatamente o que ele é.

Explana sobre a diferença entre o dizer e o mostrar, procurando deixar claras essas duas técnicas narrativas. Ao dizer, o autor como que elimina a figura do intermediador real entre o leitor e o que é relatado. Por exemplo, quando se diz “Sílvia está feliz”. Já ao mostrar, o autor se utiliza de imagens, como em “Sílvia sorri o tempo todo”.

Chama nossa atenção para a importância de um texto “enxuto”, isto é, sem redundâncias, principalmente se o autor mistura as duas formas de construção narrativa. Mostrar o que já foi dito, ou dizer o que já foi mostrado é redundante.

Aborda a aplicação do ritmo na escrita; quando se quer acelerá-la, o escritor pode lançar mão da silepse e do resumo de informações. Ao contrário, quando deseja atenuar o ritmo, ele pode usar a digressão reflexiva, a caracterização de uma cena.

Explica a questão da caracterização dos personagens, usando ainda os conceitos de dizer e mostrar. Na descrição dita apercebemo-nos das características de determinado personagem porque o autor as diz claramente, usando termos sobretudo abstratos (Fulano é triste, por exemplo). Essa é uma técnica mais usada pelos autores do século XIX. Nas narrativas contemporâneas, é de uso mais frequente a descrição mostrada, na qual o escritor deixa o leitor construir sua própria percepção das características da sua criatura pela fala do personagem, como ele age ou pensa.

Enfim, se você está pensando em tornar-se escritor, este Como melhorar um texto literário será de extrema utilidade. Se você for professor de redação, seus alunos poderão ser muito melhor orientados caso você se dispuser a estudá-lo.

Recomendável para qualquer pessoa interessada em melhorar seus textos narrativos, pois a linguagem é acessível a leigos. A Gutenberg chutou uma bola dentro com essas preciosidades.

SABARICH, Lola & DINTEL, Felipe. Como melhorar um texto literário. Editora Gutenberg. São Paulo, SP: 2014.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Resenha nº 45 - A Vigésima Quinta Hora, de C. Virgil Gheorghiu

Constantin Virgil Gheorghiu não é um nome muito conhecido do grande público no Brasil. Assim, deixemos falar a biografia do autor, retirada diretamente da Wikipédia:

“Virgil Gheorghiu nasceu em Valea Alba, uma vila no Războieni Comuna, condado de Neamt, na Romênia, [em 15/09/1916]. Seu pai era um padre ortodoxo em Petricani . Um estudante dos mais brilhantes, ele cursou o ensino médio em Chişinău de 1928 a junho de 1936, após o que ele estudou filosofia e teologia na Universidade de Bucareste e no Universidade de Heidelberg .

Entre 1942 e 1943, durante o regime do general Ion Antonescu , atuou no Ministério dos Negócios Estrangeiros da Roménia como secretário da embaixada. Ele foi para o exílio quando tropas soviéticas entraram na Romênia em 1944. Preso no final da II Guerra Mundial pelas tropas americanas, ele finalmente se estabeleceu na França em 1948. Um ano depois, ele publicou o romance Ora 25 (em francês: La vingt-cinquième heure; em Inglês: A Vigésima Quinta Hora ), escrito durante seu cativeiro.

Gheorghiu foi ordenado sacerdote da Igreja Ortodoxa Romena em Paris, em 23 de maio de 1963. Em 1966, o Patriarca Justiniano concedeu-lhe a cruz do Patriarcado romeno por suas atividades litúrgicas e literárias. [Morreu em 22/06/1992, em Paris, França.] Ele está enterrado no Cemitério Passy , em Paris.”

Na verdade, tomei contato com este autor por intermédio do seu livro O Homem Que Viajou Sozinho, tendo também como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial. E pelo menos por três motivos claros – primeiro, gosto do autor – segundo, amo a literatura – terceiro, O Homem Que Viajou Sozinho tem um valor fortemente sentimental para mim – vou falar um pouco sobre minha experiência com a obra citada acima.

Havia lido em minha adolescência um exemplar da obra, velho, desgastado, amarelado e sem capa, que me fora emprestado por uma colega de sala de aula. O drama do personagem Traian Matisi marcou-me profundamente, talvez por se passar dentro de um cenário de guerra mundial – não lera, ainda, livros cuja ação se desenrolasse nesse ambiente.

Muitos anos se passaram, mas quando vi numa vitrine de livraria, em uma capa verde, editada pela Betrand Brasil, exatamente aquela obra lida nos anos adolescentes, comprei-a imediatamente. Relê-la, passado tanto tempo, foi uma experiência nova, apesar de já conhecê-la. É que, livros compulsados nos recuos dos anos, quando revisitados em idade mais madura, resultam em visões diferentes do mesmo produto cultural. Portanto, eu tenho com o autor  um “relacionamento” – diria – afetivo mesmo.

A Vigésima Quinta Hora é uma obra extraordinária. Costumo fazer notações a lápis na folha de rosto, enquanto vou lendo e a deste volume está muito anotada. Existem no livro personagens  dos quais não nos esquecemos facilmente.

Iohann Moritz é um camponês romeno, cuja ingenuidade tem algo de pureza e, ao mesmo tempo, de estranheza diante de como o mundo funciona. Denunciado, certa feita, como judeu (sem o ser, verdadeiramente) por um gendarme local que lhe deseja a esposa, Suzanna, ele se vê enredado pela máquina de guerra, caindo em mãos nazistas.  Inicia-se aí uma “peregrinação” por vários campos de concentração.

Foge para a Hungria, com outros detentos, é preso como espião romeno e torturado. Segue preso para a Alemanha, sob a condição de “trabalhador húngaro voluntário”. Não se esquece de Suzanna, de sua aldeia Fôntâna e da vida tranquila; nunca desejou muito, apenas uma casinha onde pudesse viver com sua família, umas terras em que trabalhar e se manter.

De modo completamente inesperado, é identificado pelo coronel Müller, estudioso das questões antropológicas (leia-se cientista influenciado pelos ideais de raça pura, de Hitler) como um exemplar de um grupo germânico valorizado:

“Pela conformação do crânio e o molde da ossatura frontal, nasal e facial, pela estrutura do esqueleto e, especialmente, da caixa torácica e a posição das clavículas, o indivíduo pertence a um grupo germânico que vive atualmente em pequeno número no vale do Reno, em Luxemburgo, na Transilvânia e na Austrália. (…) A “Família Heroica”, de que faz parte o rapaz que se encontra diante de seus olhos, demonstrou suficientemente a tenacidade do instinto de conservação de nossa raça.” (página 157)

Assim, Iohann passa de judeu a “trabalhador húngaro voluntário” e daí a um exemplar valorizado da “família heroica” sem entender, exatamente, o porquê disso tudo.

Outros personagens vão compor a história: Eleonora West, editora e dona do jornal mais importante da Romênia; Alexandru Koruga, um padre ortodoxo da aldeia de Fôntâna, combativo e extremamente íntegro; Traian Koruga, filho de Alexandru e intelectual. Aliás, Traian é romancista, amigo de Moritz e sua voz narra a história. Como foi dito na orelha do livro, “numa espécie de livro dentro do livro.”

Este é um romance com uma ideologia. Libelo não só contra o nazismo, mas contra qualquer forma de totalitarismo – seja ele de esquerda ou de direita, Gheorghiu instaura, por meio de sua obra dilacerada e dilacerante – o que ele classifica como “sociedade técnica”:

“[os americanos]  jamais se darão conta de que existimos – diz Traian. – A civilização ocidental em sua última fase de progresso não tem mais consciência do indivíduo. E nada nos permite esperar que o faça algum dia. Essa Sociedade  só conhece determinadas dimensões do indivíduo. O homem integral, tomado individualmente, não existe mais para ela. Você, Eleonora West, que continua na prisão, embora não seja culpada, eu e muitos outros, não existimos para eles. Pura e simplesmente, não somos. Existimos apenas como frações infinitesimais de uma categoria. Você, por exemplo, não passa de uma cidadã inimiga, presa em território alemão. É o máximo de informações características que a Sociedade Técnica ocidental é capaz de assimilar. Isso é tudo que pode representá-la aos seus olhos. Ela só a reconhece graças a esses traços distintivos e a trata, consequentemente,  junto ao grupo ao qual você pertence, de acordo com as regras da multiplicação, da divisão ou da subtração. Você não passa de uma parte da Romênia. Essa fração está presa. O deslize, ou o crime, que é causa de sua prisão, pertence à categoria.” (página 220)

Extremamente atual, não é, leitor? Para a Sociedade Técnica nós, você, os outros, eu, somos meramente consumidores, uma categoria sem rostos ou identificações individuais. O tema é recorrente, basta nos lembrarmos de obras como O Videota, do polonês radicado nos Estados Unidos, Jerzy Kosinsky. O livro transformou-se em filme, roteirizado pelo próprio autor e se chamou, em português, Muito Além do Jardim, de 1979, com Peter Sellers no papel do personagem Chance. Ou, se quiser, pontos de contato com a série Matrix não são mera coincidência. E outra: você se lembra da fábula O Lobo e O Cordeiro, de Esopo? Ali também a culpa não é do indivíduo, mas da categoria cordeiro, presa do lobo predador.

E por que o estranho título do livro, A Vigésima Quinta Hora? Eis a explicação, dada por Traian Koruga, escritor do romance que é, ao mesmo tempo, título da obra de Virgil:

“- Pessoalmente, acredito que morreremos nos grilhões dos escravos técnicos. Meu romance acompanhará esse epílogo.

- Qual será o título?

- A 25ª Hora – disse Traian. – O momento em que toda tentativa de renovação é inútil. Nem o advento de um Messias resolveria alguma coisa. Não é sequer a última hora: é uma hora depois da última hora. O tempo preciso da Sociedade ocidental. É a hora atual. Exatamente agora.” (página 46)

Extraordinária obra, literatura de protesto, romance ideológico – escolha a classificação que melhor lhe aprouver, leitor, mas leia-o se puder. Evidentemente, é preciso ter estômago, pois, pouco a pouco nos sintonizamos com o personagem principal, Iohann Moritz, em sua completa incapacidade de entender o Absurdo Humano. Acompanhar as reflexões lúcidas colocadas na boca do intelectual Traian Koruga também não é nada digerível.

Entretanto, são livros assim – distópicos – que nos fazem tomar consciência do completo non sense em que vivemos e que, afinal, nós ajudamos a reproduzir.

GHEORGHIU, Constantin Virgil. A 25ª Hora. Editora Intrínseca, 1ª edição. Rio de Janeiro, RJ: 2014.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Novos Tempos, Novas Mídias

Após muito ler e escutar sobre livros digitais e os leitores de ebooks, como são conhecidos esses aparelhos próprios para a leitura dessa mídia, decidi que já era hora de ter contato com o mundo da literatura digital.

Há várias marcas no mercado e acredito que todas elas se equivalham; uma vantagenzinha aqui, outra vantagenzinha ali. Algumas coisas me chamaram a atenção: a possibilidade de carregar uma biblioteca inteira num pequeno aparelho, o acesso quase imediato ao produto que se quer ler, tecnicamente de qualquer parte do mundo (desde que se tenha um acesso wi-fi), a economia do espaço de armazenamento, a duração longa da bateria e, por fim, pelo menos teoricamente, o preço mais em conta dos livros.

A experiência tem se mostrado prazerosa. A tela, apesar de pequena (mais ou menos equivalente a uma página de um livro de bolso), é confortável; você pode aumentar o tamanho das letras com movimento dos dedos em pinça, abrindo-os. A minha versão tem iluminação noturna, uma verdadeira mão na roda.

Se você está pensando em como é cansativo ler por muito tempo numa tela de computador, esqueça. Os processos são diferentes. Num leitor de ebook, o texto é formado por e-ink, isto é, tinta eletrônica e aparece sobre uma tela opaca. A impressão é a mesma de se ler um livro “analógico”. Várias funções como marcar a página à qual se queira voltar, indicação de onde você parou a leitura, um cômodo dicionário já instalado, seleção de trechos para posterior referência, anotações, tudo é possível.

Existe já em português (e esta foi uma das minhas preocupações mais agudas) uma vasta disponibilidade de obras, que não para de crescer. Livros de estudo de várias áreas, literatura nacional, traduzida, Best-sellers e clássicos.

Como nem tudo são flores, os preços da maioria dos livros é muito salgada. Essa é uma política a ser revista, pois se a diferença entre a versão tradicional e a digital não compensar, o leitor fatalmente irá comprar a primeira. Não consigo entender qual seria o motivo sério para um ebook custar R$ 30,00 ou R$ 20,00 reais. O gasto para produzi-los é muito baixo, mesmo considerando-se os direitos autorais. Aliás, os tais direitos do autor são o que menos pesa em uma publicação – em ambiente físico ou digital.

É preciso ter paciência e pesquisar (aliás, hábito muito saudável na aquisição de qualquer produto). Tenho conseguido coisas interessantes a R$ 10,00, às vezes R$ 4,00.

Resumo da ópera: tenho feito uso intenso do meu leitor de ebooks. Nem por isso deixei de comprar livros comuns. Sempre há obras ainda não digitalizadas, importantes ou as quais desejo ler imediatamente, sem paciência de aguardar o lançamento alternativo. Mas o pequeno aparelho já faz parte da minha vida de leitor e não me arrependi de tê-lo comprado.

Na verdade, no início tive um pouco de receio, depois de ouvir tantas pessoas enaltecerem os livros físicos, que têm textura, cheiro, cor. Eu também tenho a cultura do objeto tradicional, mas lia muito na tela do computador. Afinal, são tempos novos, não? Ademais, o texto – o que realmente importa num livro – está integralmente ali, à mão, para o prazer da leitura.

De agora em diante, ao resenhar alguma obra, prometo deixar indicado se é uma versão digital.

sábado, 25 de outubro de 2014

Resenha nº 44 - O Leitor, de Bernhard Schlink

O autor tem um estilo objetivo, direto, quase sem uso de figuras de linguagem. Meu primeiro contato com essa obra se deu por intermédio do filme do mesmo nome. Estrelado por Kate Winslet e Ralph Fiennes, foi um dos indicados ao Oscar 2009; por ele, Kate Winslet ganhou o prêmio de melhor atriz principal.

Bernhard Schlink é professor de Direito e Filosofia na Universidade Humboldt desde 1996 . O Leitor foi o primeiro livro alemão a conquistar o primeiro lugar do New York Times. É também autor de outros Best Sellers, entre os quais, O Outro, igualmente filmado.

Michael Berg é um estudante de ensino médio, 15 anos, na Alemanha do pós-guerra. Um dia tem uma indisposição na rua e é socorrido por Hanna Schmidt, uma mulher 20 anos mais velha que ele. Com ela, Michael tem sua iniciação sexual. Ela nunca diz nada sobre o seu passado ou sobre sua vida. Aos poucos, o menino passa a frequentar a casa de Hanna e ela lhe pergunta sobre a escola. A partir desse momento, estabelece-se uma espécie de ritual entre os dois: ele lê para ela várias obras literárias, ela lhe dá banho e fazem amor. Pouca coisa ele sabe sobre ela: trabalha como cobradora em uma linha de bonde. Certa vez, fazem uma viagem de bicicleta, aceita pela família dele porque Berg, apesar de ter estado doente, consegue boas notas e passa no final do ano.

A viagem de bicicleta torna-os mais íntimos; ela se inscreve nas pensões como mãe dele, mas deixa que o jovem amante tome todas as providências quanto a preencher formulários, solicitar a comida nos restaurantes.

Depois, certo dia, Hanna recusa ser promovida à categoria de motorneira da companhia de bonde. Vai trabalhar na Siemens, empresa de comunicação. Neste período é que desaparece, sem deixar qualquer justificativa para Michael. Apesar disso, a presença dela estará sempre na cabeça do estudante.

Michael tem outros relacionamentos, como seria normal se esperar, mas não são duradouros; suas namoradas se queixam de que ele é muito razão e pouco coração. É um homem amargo. Enfim, seus estudos na faculdade direcionam-se para a área de direito. Fazendo estágio, ele volta a tomar contato com Hanna, após muito tempo. É que ele é designado como estagiário da faculdade e destacado para observar o julgamento de uma criminosa de guerra. A criminosa é precisamente Hanna. Ela participara de um destacamento de guerra alemão responsável pela guarda das prisioneiras de campos de concentração. É acusada por uma sobrevivente, de ter sido a mandante de várias execuções de prisioneiras, após tê-las obrigada a ler livros para ela.

Parece alheia ao processo, com atitudes que vão complicando cada vez mais o seu julgamento, irritando o promotor e o juiz. A certa altura, diz ter feito apenas o que mandaram-na fazer. Michael descobre o porquê de Hanna nunca ter comentado sobre sua vida, quando estavam juntos. Ela, então, tem de escolher entre revelar seu segredo e se defender, pelo menos parcialmente, da acusação de ser a autora de um relato do incêndio de uma igreja, no qual pereceram várias prisioneiras, ou calar-se e deixar o tribunal condená-la à prisão perpétua. Ela prefere arcar com a condenação, mesmo não tendo escrito o documento.

Michael Berg casa-se com Gertrud, ex-colega de faculdade e atuante na área de direito. Ela se torna juíza. Ele, entretanto, marcado pelo que assistiu no julgamento da sua antiga amante, foge daquela função e se especializa em História do Direito, realizando pesquisas. Têm uma filha, de nome Júlia. Pouco tempo depois, quando Júlia tinha cinco anos, Gertrud e Michael se divorciam. O relacionamento simplesmente havia chegado ao fim e a separação fora consensual.

Michael Berg, sempre preso à Hanna Schmidt e ao passado alemão da Segunda Guerra Mundial, que o envergonha e angustia, passa a remeter para sua ex-amante obras lidas e gravadas em fita cassete. Tal fato será extremamente importante na vida da prisioneira. O outro contato com a diretora do presídio acontece na semana em que Hanna finalmente obtém o indulto por bom comportamento e está para ser libertada. Michael a visita pela primeira vez; ela está velha, grisalha, mas mantém certo frescor. Conversam pouco e ele lhe diz ter-lhe arranjado um apartamento e um trabalho de costureira. 

Michael Borg diz, no final do livro, ter tido a necessidade de escrever a história vivida pelos dois como um meio de exorcizá-la, um meio de ficar livre dela:

“As camadas tectônicas de nossa vida descansam tão apertadas umas sobre as outras, que sempre encontramos o fato anterior no posterior, não como algo completo e realizado, mas como algo presente e vivo. Entendo isso. Todavia às vezes acho difícil suportar. Talvez eu tenha escrito a nossa história porque queria mesmo me ver livre dela, ainda que isso não seja possível.”

O Leitor não é exatamente “uma daquelas obras-primas para ser lidas antes de se morrer.” Entretanto, é uma história de boa qualidade, bem conduzida por um autor competente. Entrega ao chamado grande público um produto capaz de emocioná-lo e prender-lhe a atenção. Por isso mesmo tornou-se um Best-seller.

SCHLINK, Bernard. O Leitor. Editora Record, 3ª edição. São Paulo, SP: 2009

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Sobre a leitura no Brasil

A revista Língua do mês de agosto do ano corrente trouxe uma pequena matéria, às páginas 22, sobre os dados da Câmara Brasileira do Livro, concernentes aos hábitos dos leitores no Brasil.

Dos 90 milhões de pessoas letradas no nosso país - todas maiores de 15 anos - 14 milhões não leem nada. E não se está falando de analfabetos funcionais, isto é, aqueles que aprenderam somente a escrever/ler o próprio nome. Estamos falando de leitores com alguma proficiência.

Assustador, não?

Um terço do leitor da classe A admite ter total falta de prazer com o ato de ler e olha que esses fazem parte de nossa elite cultural. Um entre quatro indivíduos das classes AB dizem que não leem por preguiça ou impaciência. E a mesma relação, desta vez entre os de nível superior, afirma categoricamente não gostar de ler e nem ter pegado em qualquer livro após os 19 anos, se não tiver sido por obrigação (em geral, a pedido da escola ou por necessidade do emprego).

Daí decorre algo conhecido e já divulgado: a falta de leitura se reflete na dificuldade de produzir textos de qualquer gênero. Esta situação é claramente notada em sala de aula. Leciono em curso preparatório do ENEM em Betim e corrigir os textos argumentativos é tarefa quase impossível, embora eu tente.

São dois processamentos mentais diferentes, o da escrita e o da leitura. Entretanto, há uma imbricação entre ambos, pois não adianta nada alguém dominar todas as regras gramaticais (supondo-se tal feito ser mesmo possível a algum mortal) e não ter nada para dizer. Os textos escritos têm uma forma diferente de apresentar argumentos, no caso específico do gênero argumentativo, exigido pelos Exames Nacionais do Ensino Médio.

Há uma correlação entre bons leitores e bons escritores. Estes são ou foram bons leitores, embora a recíproca nem sempre seja verdadeira. É que fazer literatura depende de fatores muito mais complexos.

Entretanto, qualquer um pode escrever textos aceitáveis, com clareza de ideias, argumentação eficaz. É necessário treino, mas o hábito da leitura é fundamental. E por esse motivo, não se ensina a escrever com propriedade da noite para o dia; é um processo longo, que deveria ter sido construído ao longo de toda a vida escolar.

Mas, para dar um alento, na mesma revista Língua, lá nas páginas 61, noticia-se, na entrevista com o escritor de literatura infantojuvenil Alexandre de Castro Gomes. Ele nos diz que “O crescimento do setor é inegável. E vejo isso como um fenômeno mundial, não só na literatura. Bandas como They Might Be Giants estão gravando material infantil. Animações da Pixar e filmes de heróis estão entre os campeões de bilheteria.”

O Brasil tem 1.800 livrarias, espalhadas por todo o seu território; destas, 900 estão no estado de São Paulo. São 200 só na cidade paulistana; o Rio conta com umas 150. O Amapá e o Acre, porém, têm apenas 3 cada um.

No caso brasileiro, a proporção é de 1 livraria para cada 84.500 habitantes. Na Argentina, 1 para cada 50.000; os EUA têm 1 para cada 15 mil. Não é difícil chegar-se ao motivo de porque a tiragem de livros no Brasil, excetuando-se alguns casos ainda isolados, ser pífia.