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terça-feira, 23 de abril de 2013

Resenha nº 27 - Operação Cavalo de Troia–Vol. 1: Jerusalém, de J. J. Benítez

São seiscentas e dezenove páginas de eletrizante narrativa. J. J. Benítez, nascido em Pamplona, norte da Espanha, é famoso pelas suas obras vinculadas ao que se convencionou chamar de Realismo Fantástico. Por este rótulo entende-se a tendência literária que mistura coisas fantásticas ao mundo do real.

É difícil fazer a resenha desse livro; afinal, são dezenas de notas de pé de página, uma enorme massa de informação, muitas fontes de pesquisa listadas.

Um major aposentado da Força Aérea Americana participa de um projeto secreto da Nasa. Entra em contato com o autor e, após algumas provas de que poderá confiar no escritor, lhe entrega suas anotações, O Diário do Major. Ele – codinome Jasão – e seu companheiro – Eliseu – participam de uma viagem pelo tempo, por meio de uma máquina conhecida como berço. Retrocedem ao tempo de Jesus Cristo, mais precisamente ao tempo em que acontece a ressurreição de Lázaro.

Jasão é testemunha ocular de uma parte importante da vida do Cristo, abrangendo os episódios dos Vendilhões do Templo, da Oração no Monte das Oliveiras, da traição de Judas Iscariotes e, finalmente, do processo de condenação de Jesus e seu martírio na cruz.

Impressiona-nos a quantidade de detalhes históricos, geográficos, sociais de uma época quase perdida no tempo. Há também muitos detalhes técnicos sobre os aparelhos levados pelo astronauta do tempo. Por exemplo, uma revolucionária câmara fotográfica escondida no seu cajado. O Jesus que resulta desta história é extremamente coerente e humano.

Não é um livro para ser lido por quem tenha dificuldade com versões alternativas sobre Cristo, verdades não bíblicas. Portanto, se você é o tipo que vê a Bíblia como um texto divino, irretocável por conter a Verdade, sagrado por ter sido escrito sob inspiração divina, fique sabendo haver discordâncias entre o testemunho de Jasão e as versões dos evangelistas.

Uma possbilidade é ler o livro como ficção. Mas, a toda hora nos pica a pulga atrás da orelha, pois são muitos e precisos os detalhes exibidos por Benítez. Uma narrativa caudalosa e candente, mostrando Jesus como um homem bondoso e enérgico, com perfeito controle de sua vida e conhecimento integral de sua missão na Terra.

A sua submissão ao julgamento conduzido por Pôncio Pilatos revela a disciplina de alguém que sabia de antemão que os fatos teriam de se dar daquele exato modo. Sabedor de cada item de sua dura missão, Ele simplesmente a cumpriu até o fim.

Cavalo de Troia – Jerusalém faz parte de um projeto de leitura: ler todas as nove obras da série até o fim de 2013. Há muito tempo venho desejando executá-lo; entretanto, um projeto assim, de longo fôlego, precisa ser bem planejado. São todos livros grossos e como quero tirar de cada volume o máximo possível de informações, tanto do texto principal como das muitas notas de pé de página, a leitura se torna mais lenta. E, é claro, também mais reflexiva, pois a cada evento bíblico abordado, impossível não compará-los aos cânones dos quatro evangelhos.

Além disso, a leitura da série de Benítez terá de concorrer com a de outras obras. A primeira etapa foi altamente compensadora. Benítez escreve muito bem e recomendo a obra, apesar de ser polêmica ou, quem sabe, por isso mesmo.

J.J. Benítez.Operação Cavalo de Troia.Editora Planeta, São Paulo, SP.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Amar, envelhecer e suas reflexões

imageDe um tempo para cá, filmes sobre a temática da velhice e do processo de envelhecer tornaram-se mais comuns de se ver em telas brasileiras. Em sequência, aparecerem Minhas Tardes com Margueritte, E se vivêssemos todos juntos e, recentemente, Amor. Os dois primeiros são bons filmes, conquanto mais leves; já Amor nos impressiona pela objetividade sem concessões do diretor austríaco Michael Haneke.

Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva sãos os atores principais desse drama do envelhecer com dignidade. São um casal já octogenário, com sérios problemas de saúde, tendo que lidar com o pessimismo de cada dia, de quem a cada dia se reconhece mais limitado e mais perto da morte, a única situação definitiva diante dos olhos. E diante do corpo, pois ele também dialoga com a morte.

Uma amiga, em uma conversa informal ao redor de uma mesa de cerveja e pizza, me disse ter ido ver o filme e me dizia ter gostado dele. Mas, ao mesmo tempo, me indagava:

- Por que a gente faz um programa desse, no dia em que fui assistir o filme havia lá fora um sol bonito, o dia estava agradável, por que entrei no cinema pra assistir um filme cujo drama me incomodou, me deixou reflexiva?

- Simplesmente, respondi eu, por ser um tema universal, por estarmos numa fase da vida mais reflexivos, mais maduros e dispostos a fazer escolhas que nem sempre nos serão confortáveis, mas necessárias, absolutamente necessárias. Nem só de sóis e belos dias vivem nossas reflexões, escolhas e senso estético.

Amor é um ótimo filme. Emmanuelle Riva, então, está soberba no papel principal. Há vária cenas em câmara fechada, para aproveitar toda a expressão facial e olhares que ela consegue expressar.

Entretanto, não é um filme bonito, na acepção da palavra. É muito cru, funciona como um jab, um soco no fígado, mostrando toda a realidade cruel do envelhecer. Isso é mais acentuado quando, em ritmo de memória, algumas cenas de tempos mais amenos são interpostas, como a visão da personagem de Emmanuelle mais jovem, tocando piano.

A filha do casal ( interpretada por Isabelle Rupert) não mora com eles , tem sua própria vida e seus próprios fantasmas, mas os visita de vez em quando. Farrapos da história do casal central são lembrados por ela, quando, por exemplo, ela diz ao pai que sua lembrança pode lhe ser constrangendora,  mais quando ela era jovem, os ruídos dos pais fazendo amor lhe davam segurança da existência do mesmo amor e, por conseguinte, segurança para si própria.

A plateia, de uma forma geral, sai ao fim da sessão sem muitos comentários sobre o visto em cena. Seus semblantes estão carregados pela reflexão sobre a vida, sobre as dores do amor, sobre o envelhecer. Reflexões que devem mesmo mexer com nossas olhares e avaliações, muito além da catarse originada pela tragédia.

É um filme para se ter em DVD ou Blu-Ray.

Resenha nº 26 - O Animal Agonizante, de Philip Roth

Tomei contato com a história do personagem David Kepesh por meio do filme de Isabel Coixet, Fatal (em inglês, Elegy). Fiquei com uma boa impressão do filme, embora tenha lido algumas coisas que o depreciavam. Resguardei-me, entretanto; não queria “embarcar” em opiniões diversas, sem ter formado a minha. Aguardei a compra e leitura do livro O Animal Agonizante, de Philip Roth, que deu origem ao filme. Gostei do livro, mantive minha boa impressão do filme. A crítica, mesmo a mais especializada e competente, é sempre uma opinião com a qual podemos ou não concordar. E tenho muito cuidado ao comparar literatura a cinema. Bons livros nem sempre dão bons filmes, ou vice-versa. As linguagens, sendo muito diferentes, têm de ser adaptadas.

Assim, as longas digressões de David Kepesh sobre o sexo não caberiam em um filme. Não por serem sobre sexo, mas por serem digressões longas. No livro, funcionam muito bem, ainda mais temperadas com a ironia philipiana. Podemos recortar da obra literária dois temas, que correm pela história, entrelaçados: a sexualidade como realização plena do homem e a inexorável caminhada para a velhice (leia-se morte). As pulsões freudianas de Eros (criação) e Tanatos (destruição).

O protagonista David Kepesh é um professor universitário, já sessentão e meio aposentado; apresenta um programa cultural na televisão e leciona um curso de literatura por ano. Anteriormente criado por Roth, surgiu em O Seio, 1973, de uma maneira um tanto kafkiana, pois, apareceu como um professor jovem de literatura, transformado num imenso seio feminino; reapareceu quatro anos depois, em O professor de desejo, dentro de um contexto realístico, mais característico de Philip.

O curso dado pelo protagonista sempre termina com uma festa em seu apartamento, invariavelmente com uma aluna bonita em sua cama:

“Eu a conheci há oito anos. Era minha aluna. Não sou mais professor em horário integral, não sou mais professor de literatura no sentido estrito – há anos que só dou o mesmo curso para uma turma grande de alunos do último período, sobre crítica, chamado Crítica Prática. Muitos dos alunos são do sexo feminino. Por dois motivos: porque é um tema com uma combinação atraente de glamour intelectual e glamour jornalístico, e porque elas me conhecem de me ouvirem fazendo resenhas de livros na rádio educativa, ou então de me verem no canal 13 falando sobre cultura. Nos últimos quinze anos, minha atuação como crítico de cultura televisivo fez com que eu me tornasse uma figura razoavelmente conhecida na cidade, e é isso que atrai garotas para o meu curso.” (página 9)

Para ele, elas são mais um objeto de contemplação estética a ser desfrutado, assim como as sonatas de Beethoven. Entretanto, conhece a linda aluna cubana Consuela Castillo e é inexoravelmente arrastado para um tipo de relacionamento que ele julgava eliminado de sua vida.

A cubana Castillo lhe parece irresistível:

“Já se vão oito anos – eu já estava com sessenta  e dois anos, e a garota, que se chama Consuela Castillo, tinha vinte e quatro. Ela não é como as outras da turma. Não é uma pós-adolescente, não é uma dessas garotas desmazeladas, tronchas, que dizem “tipo assim” cada vez que abrem a boca. Ela fala bem, é equilibrada, tem uma postura perfeita – parece saber alguma coisa a respeito da vida adulta, além de saber se sentar, ficar em pé e andar. Assim que você entra na sala, percebe que essa garota sabe mais, ou então quer saber mais. A maneira como ela se veste. Não é exatamente o que se chama de chique, ela com certeza não se veste de modo exagerado, mas, para começar, nunca usa jeans, nem passado nem amassado […] O cabelo é negro, bem negro, lustroso, um pouco grosso. E ela é grande. Um mulherão grande. A blusa de seda está desabotoada até o terceiro botão, de modo que dá para ver que ela tem seios poderosos, lindos, imediatamente você afunda neles.” (páginas 10/11)

Pouco a pouco, como se disse, o relacionamento com Consuela torna-se algo muito profundo, trazendo, inevitavelmente, uma crise para o velho professor.

Roth tem um estilo objetivo, sem rodeios ou floreios e são muito questionadores os trechos nos quais sua criatura, David Kepesh, filosofa sobre a vida, com sua experiência de crítico literário:

“O mais belo dos contos de fada da infância é que tudo acontece na ordem certa. Nossos avós morrem muito antes de nossos pais, e nossos pais morrem muito antes de nós. Os que têm sorte acabam tendo mesmo essa experiência, as pessoas vão envelhecendo e morrendo na ordem certa, de modo que, no enterro, você aplaca sua dor pensando que aquela pessoa teve uma longa vida. Nem por isso a morte se torna uma coisa menos monstruosa, mas é esse o truque que utlizamos para manter intacta a ilusão metronômica, e para afastar de nós a tortura do tempo: “Fulano teve uma vida longa”. (página 122)

No filme, a diretora espanhola Isabel Coixet centra suas lentes no segundo tema, o da caminhada inexorável para a velhice. Talvez essa escolha tenha sido feita por uma questão de repúdio feminino na abordagem de cenas meramente sexuais, pura suposição minha. O filme se realiza menos agônico, mas ainda assim, tristíssimo. Toca-nos a história contada por Ben Kingsley, no papel de David Kepesh e Penelope Cruz, no de Consuela Castillo.

O Animal Agonizante é um texto que revela a mão segura de um grande escritor. Novela em monólogo quase o tempo todo, em mãos menos talentosas poderia resultar em algo chato, monótono. Muito recomendo a leitura dessa obra.

Philip Roth. O Animal Agonizante. Companhia Das Letras. São Paulo, SP: 2201, 5ª reimpressão, tradução de Paulo Henriques Britto. 127 páginas.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Resenha nº 25 - Divã, de Martha Medeiros

Martha Medeiros nos dá esse ótimo Divã, que, aliás, tornou-se filme e peça teatral de grande sucesso. A personagem principal, Mercedes, é protagonizada por Lilia Cabral, em ambos os cenários – teatral e cinematográfico. Um texto leve, “escrito ao sabor da pena”. É claro, essa ideia de um texto leve pressupõe, na verdade, muito trabalho. Já se disse que é uma tarefa estafante conseguir-se este efeito de simplicidade.

Mercedes é uma professora; dar aulas particulares lhe rende bem mais do que o exercício pleno de sua profissão. Nas horas vagas, gosta de pintar. Aos quarenta anos, resolve fazer análise e é exatamente sua exposição à análise de Lopes o que lemos.

Mercedes é uma mulher entre irônica e brincalhona.:

“De repente, eu virei a única mulher da família, com oito anos. Meu mundo passou a ser totalmente masculino, éramos eu, meu pai e meus dois irmãos, e mais tarde namorados, marido e três filhos homens. Eu praticamente não tive referências femininas, eu sempre fui minha própria referência. E, como já lhe disse, sou mezzo mulherzinha, mezzo cabra da peste, o que nunca me fez sentir entre iguais no salão de beleza.” (página 22)

Mercedes leva a vida de maneira divertida, mesmo quando a situação não é nem um pouco divertida:

“Lembro de ter sentido um misto de prazer e insegurança quando cruzei as portas da maturidade. Até hoje, quando meus filhos perguntam alguma coisa pra mim, vejo nas suas expressões que minha resposta será levada demasiadamente a sério, passará a ser adotada como verdade indiscutível, e isso me apavora, me faz sentir meio charlatona, minhas certezas não são assim tão sólidas.” (página 23)

É esse despojamento das declarações da protagonista que torna o texto muito gostoso de ler. Vale a pena transcrever um depoimento de Millôr Fernandes, até por ser de Millôr:

“Brincando, brincando, o que Martha mais faz é poesia de amor. Tem mais ainda – é absolutamente compreensível, sobretudo pra quem compreende.”

A personagem principal é um pouco daquilo que cada mulher traz dentro de si. Preparadas para viver o papel de mãe, esposa, companheira, moça de boa família, católica (praticante ou só de fachada), não viveu o incerto, a insegurança. Na verdade, ela se identifica não apenas com as mulheres, embora seu discurso seja de muita sensibilidade feminina; ela é cada um de nós, seres humanos, criados para assumir certezas e seguranças neste mundo tão caótico, nessa era de incertezas tantas.

O livro vale a pena. Algumas boas horas de um texto oscilante entre o irônico e o poético, vai descarnando as situações controladas e propondo não ver a vida como essa coisa pesada, feita só de responsabilidades, de caminhos e andamentos planejados.

Mercedes, no exercício de se encontrar pela análise, descobre-se um tanto distante de si, mas até esta situação ela encara com bom humor:

“Se ser feliz para sempre é aceitar com resignação católica o pão nosso de cada dia e sentir-se imune a todas as tentações, então é deste paraíso que quero fugir. Não estou disposta a inventar dilemas que não existem, mas quero reencontrar aqueles que existem e que foram abafados por esta minha vida correta.”

Martha Medeiros. Divã. Editora Objetiva, São Paulo, SP.2002. 154 páginas.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Resenha nº 24 - O Arroz de Palma, de Francisco Azevedo

Título: O Arroz de Palma

Autor: Francisco Azevedo

Editora: Record

Gênero: Romance

País de Origem: Brasil

A leitura do livro O Arroz de Palma é extremamente prazerosa. O texto é fluente, leve e poético. Aos 88 anos, o protagonista Antonio está preparando o almoço a ser servido à família.  E, enquanto ele o faz, vai relembrando as histórias que lhe contara a Tia Palma, irmã de seu pai. Tudo começara exatamente em 1908, no casamento de seus pais, em Viana do Castelo, Portugal. Sob uma chuva de arroz abundante, uniram-se José Custódio e Maria Romana. A tia Palma teve a brilhante ideia de recolher todo o arroz, grão por grão, e dá-lo de presente aos dois. Maria Romana sensibilizou-se com o gesto, mas não José Custódio; aliás, o relacionamento entre a tia Palma e ele nunca houvera sido bom. O ato originou, então, a primeira briga do casal recém-formado: Maria defendia tia Palma, José irritava-se contra o estranho presente, arroz sujo, colhido do chão.

Esse cereal, entretanto, vai permear a história toda, tornando-se algo mítico, passando de geração em geração, com uma característica: não estraga, não caruncha. E como que vai cimentando as relações entre casais, símbolo da agregação pelo amor. Tia palma escrevera no cartão, quando entregara seu presente:

“Este arroz – plantado na terra, caído do céu como o maná do deserto e colhido da pedra – é símbolo de fertilidade e eterno amor. Esta é a minha bênção.”

O diálogo que se segue é hilariante, bem característico da relação entre José, sua Tia, e sua esposa.

“Os dois se arrumam como podem. Papai vai abrir a porta.

- Palma?!

Tia Palma entra com o pesado saco de estopa. Pousa-o alividada, sobre a mesa.

- Mas o que é isto?!

Tia Palma não lhe dá resposta, vai direto até mamãe.

As duas se abraçam e se beijam com afeto.

- Maria Romana, estavas lindíssima! Ajudou-me a suportar a falação agoureira daquele corvo de batina!

Papai se irrita com o comentário irreverente.

- Dom Plácido é nosso tio, merece mais respeito!

- Na tristeza e na doença, na pobreza e na velhice, até que a morte os separe! Santo Deus, isto não é uma bênção, é uma praga!” (Página 19)

Tia Palma é uma personagem fascinante:

“Tia Palma era o meu teatro – que repertório, que desempenho! Mas o espetáculo era interrompido no melhor de cada história. Eu cruzava os braços, emburrava. Era hora de ir para cama. Justo agora!

- Antonio, não faz gênio! Olha que amanhã não te conto histórias! Vamos dormir, já é tarde. Eu te dou colo, anda, vem.” (páginas 16/17)

E mais abaixo:

“O colo de Tia palma era uma espécie de útero sem capota, que me levava assim, conversível, por um mundo fantástico, mundo que me fascinava ainda mais porque eu conhecia os protagonistas. Morava com eles.”

Parece que o arroz de Palma funciona. Depois de um tempo sem gerar filhos, a família começa a crescer.

“O arroz de Tia Palma fez efeito, Depois daquela bendita canja papai não parou mais de fazer filhos. Primeiro fui eu, Antonio. E, logo depois, a Leonor. Eram dias e noites literalmente em branco – quilômetros de fraldas tremulando nos varais. Pareciam bandeiras pedindo paz. Mas papai e mamãe não se davam trégua e, assim, chegaram o Nicolau e o Joaquim. Choros diversificados, de fome, de sede, de cólicas ou de pura manha – estes já facilmente reconhecidos e ignorados.”

As metáforas e comparações, relacionando a família à arte culinária se fazem presentes, desde o começo da narrativa, como por exemplo, nas páginas 11/12:

“Preciso me concentrar. É essencial. Por quê? Ora, que pergunta! Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema – principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida – azeitona verde no palito – sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida.”

As mudanças sociais, econômicas e tecnológicas formam o pano de fundo dessa narrativa. No início, os personagens se utilizam de cavalos e de carroças como meio de transporte; mais além, já aparecem os automóveis. O Brasil vai deixando de ser um país eminentemente rural e entra na era tecnológica. O apelo da vida nas grandes cidades começa a tirar, cada vez mais, o homem do campo: José Custódio e Maria Romana veem seus filhos irem para a cidade grande, fazendo suas escolhas, mudando a tradição e os rituais.

Pode-se dizer, bem apropriadamente, que esse é um livro gostoso de se ler. A família do protagonista Antonio, cozinheiro de mão cheia, é como a família de todo mundo. Tem seus problemas, suas desavenças, suas diferenças, mas, ao final, tudo se ajeita e aprendemos a amar-nos apesar de todas as características disjuntivas apontadas acima.

Excelente para se ler uma, duas, três, muitas vezes; deixar fluir a leitura e fruir a lírica do autor.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Resenha nº 23 - Belle, de Lesley Pearse

Belle é uma menina inglesa e vive em Seven Dials. Conhece o garoto Jimmy na rua. Ele imediatamente se encanta com ela e o sentimento é mútuo. Ela tem uma particularidade: vive no andar de baixo do bordel da mãe, Annie. Quem olha por ela, no entanto, é Mowenna Davis, mais conhecida por Mog. Belle é mantida sob constante vigilância. Inocentemente, ela pensa que no andar de cima são dadas festas para as quais são convidados cavalheiros. No exato dia em que conhece Jimmy, Belle vai ao andar de cima e entra no quarto de uma das prostitutas, Millie. Quando Millie entra no quarto, seguida de um cliente, Belle é obrigada a se esconder sob a cama dela e presencia, pela primeira vez, uma relação sexual. Mas o pior está por vir: ela se transforma na única testemunha do assassinato da doce Millie. Kent, o assassino, vê a adolescente quando ela se evade do quarto.

Com a ajuda de um capanga, Sly, Kent sequestra Belle e a manda para uma casa de prostituição na França. Tudo o que Mog se esforçara para evitar – o envolvimento de Belle com o submundo da prostituição – cai por terra. Desesperada, Mog se lembra de um cliente de Millie, uma espécie de investigador e vai até ele. Seu nome é Noah Bayliss e ele trabalha para uma companhia de seguros e atua também como jornalista iniciante. Ele aceita investigar o que houve apenas porque ele gostava muito de Millie; suas investigações iniciais o levam a Jimmy, sobrinho do mal-humorado Garth Franklin, dono de um dos melhores bares do Seven Dials, o Ram’s Head, na Monmouth Street.

Jimmy revela-se um adolescente honesto, fonte de inesgotável crença de que Belle está viva e que conseguirá reencontrá-la. Ele e Noah tornam-se muito ligados. As investigações dos dois progride pouco e uma dia, o bordel de Annie pega fogo. As garotas são resgatadas, mas Annie e Mog têm de morar durante alguns dias com Garth e Jimmy.

A partir daí, a vida de Belle se modifica drasticamente; o enredo é rico em reviravoltas. O Woman’s Weekley classificou o livro de “Um épico dinâmico e emocionante que você não esquecerá tão cedo.” Lesley Pearse é uma das maiores romancistas do Reino Unido; ela realmente sabe contar histórias. Há cenas do submundo de Londres que me fizeram lembrar um pouco de Charles Dickens: crianças pobres, mas honestas, prostitutas portadoras de bons sentimentos. Ao longo de 552 páginas o leitor encontrará uma galeria de personagens marcantes, com Philippe Le Brun, Noah, Jimmy, Mog, Lisette, Etienne, Gabrielle; vilões como Kent e o concierge do hotel Ritz, monsieur Pascal; preconceituosos como a senhorita Frank e aproveitadores inescrupulosos como Madame Albertine.

Ficamos sabendo por que a mãe de Belle, Annie, ama a filha, mas não consegue expressar esse sentimento. Perpassa o livro a filosofia cristã, de que as pessoas se depuram pelo sofrimento.

Belle é um livro direcionado – suponho – primeiramente ao público feminino; afinal, fala dos dramas tipicamente femininos. Entretanto, para quem se interessa por uma história bem contada e personagens difíceis de se esquecer, como eu, encontrarão no livro boas horas do prazer de ler. Eficiente pesquisa dá apoio e contextualização à obra, cuja história se passa por volta de 1900, em Londres, Paris e New Orleans, EUA. Naquela época, o tráfico de meninas para a prostituição era muito comum e somente na França, atingia quatro entre cinco mulheres.

Lesley Pearse. Belle. Editora Novo Conceito. São Paulo, Ribeirão Preto: 2012. 559 páginas.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Resenha nº 22 - Realidades Adaptadas, de Philip K. Dick

A Ficção Científica é ainda tratada, por muitos críticos, como uma espécie de “lixo literário”, ou subgênero, no sentido pejorativo. Esta ideia se construiu, no passado, por uma quantidade muito grande de péssimas histórias em publicações baratas. Edgar Rice Burroughs, o mesmo criador de Tarzan, incomodado com a baixa qualidade do que era feito na época, criou suas histórias envolvendo o planeta Marte. Idealizou o heroi John Carter, um americano abduzido pelos marcianos. Tais textos deram uma reviravolta de qualidade à chamada Ficção Científica.

De lá para cá, o gênero, aos poucos, foi se firmando. Em grande parte, devido ao trabalho de nomes como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Anthony Burguess, Frank Herbert, Philip K. Dick e outros.

Isaac Asimov, russo naturalizado americano, nos deu a trilogia Fundação, Fundação e Império, Segunda Fundação e as histórias sobre robôs, como Os robôs do amanhecer. Ficou famoso pela grande ideia de criar um código que gerenciasse as atitudes destas máquinas. Primeira Lei: um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal; Segunda Lei: um robô deve obedecer às ordens que lhes sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei; Terceira Lei: um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Leis.

Estes autores deram sua contribuição imaginativa e qualitativa. Entretanto, nenhum obteve o mesmo resultado, no campo das adaptações para o cinema, como Philip K. Dick. Realidades Adaptadas é um livro de contos que deu origem a roteiros cinematográficos de qualidade. São sete, ao todo: Lembramos para você a preço de atacado (O Vingador do Futuro), Segunda Variedade (Screamers – Assassinos Cibernéticos), Impostor (Impostor), O relatório minoritário (Minority Report – A Nova Lei), O pagamento (O Pagamento), O homem dourado (O Vidente), Equipe de ajuste (Os Agentes do Destino).

As histórias de Philip K. Dick são construídas em torno de um olhar desconfiado sobre o mote a realidade não é exatamente aquilo que nos parece ser. Os contos de Realidades Adaptadas são perpassados por este olhar inquieto e inquisitivo; seus personagens humanos são surpreendidos pela realidade mutante. O futuro imediato nos é mostrado como uma miragem num deserto, adquirindo outros aspectos ou transformando-se mesmo em algo não observado antes à medida que caminhávamos para mais perto dele.

Histórias como Guerra nas Estrelas, em que personagens costumam ser princesas e príncipes, duques, barões, condes, são para mim, adaptações de contos de fadas a um tempo de naves espaciais e convivências (normalmente conflituosas) com seres alienígenas. Esta linha gerou boas narrativas e bons filmes, em que doses de magia são generosamente distribuídas.

Outra linha é proposta por séries como Jornada nas Estrelas, nas quais os acontecimentos se tornam possíveis se tivernos a tecnologia adequada. Os teletransportes da Jornada já foram motivo de zombaria nos meios científicos; atualmente, já se conseguiu o feito com algo minúsculo, como um fóton (o menor componente da luz). Parece ser apenas uma questão de desenvolver a tecnologia.

K. Dick filia-se a esta segunda linha, a da Ficção Científica hard core. Realidades Adaptadas é um livro de excelentes contos, com enredos altamente trabalhados, personagens convincentes. É para ser lido com cuidado: não confie naquilo que lhe parece confiável!

Ótimo livro. Aconselho… sem desconfianças!

Philip K. Dick. Realidades Adaptadas. Editora Aleph. São Paulo, SP: 2012.302 páginas