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sábado, 26 de janeiro de 2013

Resenha nº 23 - Belle, de Lesley Pearse

Belle é uma menina inglesa e vive em Seven Dials. Conhece o garoto Jimmy na rua. Ele imediatamente se encanta com ela e o sentimento é mútuo. Ela tem uma particularidade: vive no andar de baixo do bordel da mãe, Annie. Quem olha por ela, no entanto, é Mowenna Davis, mais conhecida por Mog. Belle é mantida sob constante vigilância. Inocentemente, ela pensa que no andar de cima são dadas festas para as quais são convidados cavalheiros. No exato dia em que conhece Jimmy, Belle vai ao andar de cima e entra no quarto de uma das prostitutas, Millie. Quando Millie entra no quarto, seguida de um cliente, Belle é obrigada a se esconder sob a cama dela e presencia, pela primeira vez, uma relação sexual. Mas o pior está por vir: ela se transforma na única testemunha do assassinato da doce Millie. Kent, o assassino, vê a adolescente quando ela se evade do quarto.

Com a ajuda de um capanga, Sly, Kent sequestra Belle e a manda para uma casa de prostituição na França. Tudo o que Mog se esforçara para evitar – o envolvimento de Belle com o submundo da prostituição – cai por terra. Desesperada, Mog se lembra de um cliente de Millie, uma espécie de investigador e vai até ele. Seu nome é Noah Bayliss e ele trabalha para uma companhia de seguros e atua também como jornalista iniciante. Ele aceita investigar o que houve apenas porque ele gostava muito de Millie; suas investigações iniciais o levam a Jimmy, sobrinho do mal-humorado Garth Franklin, dono de um dos melhores bares do Seven Dials, o Ram’s Head, na Monmouth Street.

Jimmy revela-se um adolescente honesto, fonte de inesgotável crença de que Belle está viva e que conseguirá reencontrá-la. Ele e Noah tornam-se muito ligados. As investigações dos dois progride pouco e uma dia, o bordel de Annie pega fogo. As garotas são resgatadas, mas Annie e Mog têm de morar durante alguns dias com Garth e Jimmy.

A partir daí, a vida de Belle se modifica drasticamente; o enredo é rico em reviravoltas. O Woman’s Weekley classificou o livro de “Um épico dinâmico e emocionante que você não esquecerá tão cedo.” Lesley Pearse é uma das maiores romancistas do Reino Unido; ela realmente sabe contar histórias. Há cenas do submundo de Londres que me fizeram lembrar um pouco de Charles Dickens: crianças pobres, mas honestas, prostitutas portadoras de bons sentimentos. Ao longo de 552 páginas o leitor encontrará uma galeria de personagens marcantes, com Philippe Le Brun, Noah, Jimmy, Mog, Lisette, Etienne, Gabrielle; vilões como Kent e o concierge do hotel Ritz, monsieur Pascal; preconceituosos como a senhorita Frank e aproveitadores inescrupulosos como Madame Albertine.

Ficamos sabendo por que a mãe de Belle, Annie, ama a filha, mas não consegue expressar esse sentimento. Perpassa o livro a filosofia cristã, de que as pessoas se depuram pelo sofrimento.

Belle é um livro direcionado – suponho – primeiramente ao público feminino; afinal, fala dos dramas tipicamente femininos. Entretanto, para quem se interessa por uma história bem contada e personagens difíceis de se esquecer, como eu, encontrarão no livro boas horas do prazer de ler. Eficiente pesquisa dá apoio e contextualização à obra, cuja história se passa por volta de 1900, em Londres, Paris e New Orleans, EUA. Naquela época, o tráfico de meninas para a prostituição era muito comum e somente na França, atingia quatro entre cinco mulheres.

Lesley Pearse. Belle. Editora Novo Conceito. São Paulo, Ribeirão Preto: 2012. 559 páginas.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Resenha nº 22 - Realidades Adaptadas, de Philip K. Dick

A Ficção Científica é ainda tratada, por muitos críticos, como uma espécie de “lixo literário”, ou subgênero, no sentido pejorativo. Esta ideia se construiu, no passado, por uma quantidade muito grande de péssimas histórias em publicações baratas. Edgar Rice Burroughs, o mesmo criador de Tarzan, incomodado com a baixa qualidade do que era feito na época, criou suas histórias envolvendo o planeta Marte. Idealizou o heroi John Carter, um americano abduzido pelos marcianos. Tais textos deram uma reviravolta de qualidade à chamada Ficção Científica.

De lá para cá, o gênero, aos poucos, foi se firmando. Em grande parte, devido ao trabalho de nomes como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Anthony Burguess, Frank Herbert, Philip K. Dick e outros.

Isaac Asimov, russo naturalizado americano, nos deu a trilogia Fundação, Fundação e Império, Segunda Fundação e as histórias sobre robôs, como Os robôs do amanhecer. Ficou famoso pela grande ideia de criar um código que gerenciasse as atitudes destas máquinas. Primeira Lei: um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal; Segunda Lei: um robô deve obedecer às ordens que lhes sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei; Terceira Lei: um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Leis.

Estes autores deram sua contribuição imaginativa e qualitativa. Entretanto, nenhum obteve o mesmo resultado, no campo das adaptações para o cinema, como Philip K. Dick. Realidades Adaptadas é um livro de contos que deu origem a roteiros cinematográficos de qualidade. São sete, ao todo: Lembramos para você a preço de atacado (O Vingador do Futuro), Segunda Variedade (Screamers – Assassinos Cibernéticos), Impostor (Impostor), O relatório minoritário (Minority Report – A Nova Lei), O pagamento (O Pagamento), O homem dourado (O Vidente), Equipe de ajuste (Os Agentes do Destino).

As histórias de Philip K. Dick são construídas em torno de um olhar desconfiado sobre o mote a realidade não é exatamente aquilo que nos parece ser. Os contos de Realidades Adaptadas são perpassados por este olhar inquieto e inquisitivo; seus personagens humanos são surpreendidos pela realidade mutante. O futuro imediato nos é mostrado como uma miragem num deserto, adquirindo outros aspectos ou transformando-se mesmo em algo não observado antes à medida que caminhávamos para mais perto dele.

Histórias como Guerra nas Estrelas, em que personagens costumam ser princesas e príncipes, duques, barões, condes, são para mim, adaptações de contos de fadas a um tempo de naves espaciais e convivências (normalmente conflituosas) com seres alienígenas. Esta linha gerou boas narrativas e bons filmes, em que doses de magia são generosamente distribuídas.

Outra linha é proposta por séries como Jornada nas Estrelas, nas quais os acontecimentos se tornam possíveis se tivernos a tecnologia adequada. Os teletransportes da Jornada já foram motivo de zombaria nos meios científicos; atualmente, já se conseguiu o feito com algo minúsculo, como um fóton (o menor componente da luz). Parece ser apenas uma questão de desenvolver a tecnologia.

K. Dick filia-se a esta segunda linha, a da Ficção Científica hard core. Realidades Adaptadas é um livro de excelentes contos, com enredos altamente trabalhados, personagens convincentes. É para ser lido com cuidado: não confie naquilo que lhe parece confiável!

Ótimo livro. Aconselho… sem desconfianças!

Philip K. Dick. Realidades Adaptadas. Editora Aleph. São Paulo, SP: 2012.302 páginas

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Morre o escritor Autran Dourado

No dia 30/09/2012 morreu o escritor mineiro Waldomiro de Freitas Autran Dourado, mais conhecido por somente Autran Dourado, aos 86 anos de idade, de hemorragia estomacal. Ele já havia sido internado por quatro meses antes, para tratar de problemas respiratórios.

Autor de uma obra coerentemente construída, não foi exatamente um sucesso de público; entretanto, alguns de seus livros foram mais conhecidos, como Uma vida em segredo, Ópera dos mortos, O Risco do bordado, Os Sinos da Agonia. No total, foram 20 obras.

Ainda, era um escritor preocupado com a divulgação do seu fazer literário, o que o motivou a publicar Uma poética de romance (1973), Uma poética de romance: matéria de carpintaria (1976), Um artista aprendiz (2000) e Breve Manual de Estilo e Romance (2003).

O primeiro livro de sua autoria, lido por mim, foi exatamente o Sinos da Agonia. É de 1967 e o meu contato com o texto se deu por causa do vestibular. O que deveria ser apenas uma questão de atualização tornou-se um prazer. O livro é muito bom e cabe releitura; o tempo e o volume de leituras posteriores me fez perder detalhes. Li, também, o Uma vida em segredo, texto enxuto e aparentemente simples, contando-nos a história da personagem Biela .

Outros trabalhos: A Barca dos Homens, Solidão, Solitude, Novelas de Aprendizado, Novelário de Donga Novais, Um cavalheiro de Antigamente, A Serviço del-Rei, Confissões de Narciso, Ópera dos Fantoches, Monte da Alegria (seu último romance publicado), Armas & Corações, Lucas Procópio, Violetas e Caracóis, As Imaginações Pecaminosas. Em 2006, publicou um volume de histórias curtas, O Senhor das Horas.

Dourado foi secretário de imprensa do presidente Juscelino Kubitschek, experiência esta relatada no livro Gaiola Aberta, publicado em 2000. Nosso escritor ganhou vários prêmios, como o Goethe 1981), Jabuti (1982), Camões (2000), e Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (2008).

Seus personagens são angustiados, o que fez a crítica identificar Lúcio Cardoso (outro fantástico e esquecido escritor) como uma de suas influências; outros, entretanto, apontam Graciliano Ramos, com seus personagens atormentados, como influência decisiva.

É na cidade fictícia de Duas Pontes que grande parte de suas criaturas se move e, em muitos livros, é sempre o mesmo narrador, João da Fonseca Ribeiro. Pode-se dizer que Autran Dourado era um escritor com um projeto literário definido, do qual nunca se afastou. Para ele, seus romances “tinham que ser cruéis, bater no centro da alma humana.”

Sua obra alcançou reconhecimento no exterior, sendo traduzida para vários idiomas. Essa universalidade, repetindo o caminho de vários escritores, vem do tratamento dado aos dramas localizados em Minas Gerais, mas concedendo amplitude ao que, na verdade, é o drama de todos nós, é o drama do viver. Dostoiévski fez isso ao retratar o homem médio russo, Guimarães Rosa trilhou por esta vereda ao tornar universal o drama do sertanejo. Lições não esquecidas.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Resenha nº 21 - Acidente em Matacavallos, de Mateus Kacowicz

Uma lavadeira portuguesa, Maria Couceiro, morre atropelada, na Rua Matacavallos, por um bonde da Rio de Janeiro Electric Street Railway Company, companhia inglesa que operava no Rio. Tal fato era classificado, normalmente, na seção dos jornais chamada faits divers (fatos diversos, em francês). Assim era denominada a parte dos jornais a receber acontecimentos mais corriqueiros.

Mas o jornal mambembe de Diógenes Braga, a Folha da Capital, não pensava da mesma maneira e deu um lugar de destaque à notícia, iniciando uma verdadeira campanha contra a Electric. Mr. Gross, gerente da empresa no Brasil, manobrou para comprar o silêncio do jornal: Mr. Gross, em pessoa, avalizou o empréstimo bancário junto ao South American & Caribbean Bank (banco do mesmo grupo da Railway Company) para o financiamento de impressoras modernas e até de uma lynotipe para a Folha da Capital.

Yuli Woloshin, um judeu ucraniano emigrou para o Brasil, sendo recebido no Rio por seu irmão Mark. Em sua terra, tinha trabalhado como tipógrafo; em terras brasileiras, entretanto, iria ajudar seu irmão como “clienteltchik”, vendedor ambulante. Yuli ganhou o apelido de Juca e o que mais o caracterizava era uma disposição ímpar para aprender qualquer coisa. Aprendeu o português e seu sistema de escrita.

O Rio de Janeiro, então Distrito Federal, capital do país, ostentava maneirismos à francesa e uma política renhida e autoritária. Era o fim do governo de Epitácio Pessoa e o início do de Artur Bernardes. Decisões, conchavos, extorsões eram realizados nas casas de prostituição que pululavam no cenário carioca. Uma delas, a mais famosa, pertencente a Mme. Charlotte, tornou-se o palco de alguns acontecimentos. Frequentavam-na Diógenes Braga e o Ministro Palhares; era também onde trabalhava a cocote (prostituta) Ninon, por quem se apaixonou o Ministro.

O Ministro Palhares montou casa para a sua teúda e manteúda Ninon e  Braga ficou sabendo disso. A notícia foi parar no jornal e o Ministro caiu em desgraça. Toda a família Palhares sofreu os efeitos: Dona Herminia, a matriarca, Luisinho, filho mais velho, Silvio, o mais novo dos homens, uma outra filha e Felícia. E o Banco Couto & Irmão tinha suas finanças  e sua idoneidade abaladas, ao serem reveladas as constantes e altas retiradas do Ministro Palhares, para presentear e manter Ninon.

Conduzido com maestria por Mateus Kacowicz, o enredo deste romance prende a atenção do leitor. Uma excelente pesquisa sobre o Rio de Janeiro do início do século XX (por volta de 1922), seus costumes e usos foi realizada com esmero.

Saborosamente, há trechos escritos em português da época:

“Quasi dávamos á estampa a presente edição quando fomos informados de que mais uma familia foi enluctada por um bonde n’esta cidade. D’esta feita o infausto se deu a Matacavallos. A portugueza Maria Couceiro, lavadeira, cuja edade nos é desconhecida, foi colhida pelo carro-motor Nº 8, conduzido pelo nacional Clemente Euphrasio. O collectivo ia no trajecto que damanda de Paula Mattos ao Passeio e não reduziu sua furiosa marcha na descida da ladeira, vindo a colher a desditosa e provocar o infortunio.” (página 5)

Mateus Kacowicz é carioca, jornalista, e este Acidente em Matacavallos é seu primeiro romance. A ironia perpassa a obra:

“Intervenção notável foi a do Senador situacionista Ludgero Cordeiro da Purificação, conhecido por enlevar-se ao ouvir a própria voz e que, neste episódio, proferiu notável peça oratória a favor do cumprimento da lei, contra a utilização de subterfúgios e recursos subalternos, cuja única finalidade seria a tentativa de Diógenes Braga de elidir-se da citação policial.” (página 207)

Neste cenário político, em que prevaleciam os favores, os toma-lá-dá-cá, os tapinhas nas costas (como tudo isto nos soa atual, não?), Diógenes Braga era apenas um corrupto a mais, com a diferença de que ele era peixe pequeno entre os grandes:

“- Doutor Diógenes Braga, eu soube de uma seçãozinha(sic) de cinema que o doutor promoveu quase que especialmente para meu dileto amigo e compadre – frisou o compadre –, o Desembargador F. Sei que o doutor deixou o Desembargador – um crianção, de tão inocente – bem defronte ao doutor. Sei de tudo. O doutor fique avisado: se o doutor estiver arrumando alguma patranha para cima do meu amigo e compadre o Desembargador F, alguma treta, algum engenho, vou ser obrigado a mandar dar cabo do  doutor. E dependendo da maldade que o doutor tiver pensado não vou abrir mão deste prazer para ninguém, dou-lhe eu o tiro na cara.” (página 238)

A recomendação do livro é evidente: já o havia lido no início do ano passado; reli-o com o mesmo prazer, apesar de, desta feita, com a intenção principal de resenhá-lo.

Mateus Kacowicz. Acidente em Matacavallos e outros faits divers. Rio de Janeiro, RJ. Editora Record, 2010, 317 páginas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Resenha nº 20 - A Última Semana, de João Paulo Cuenca

Há algum tempo venho tomando conhecimento de João Paulo Cuenca, um jovem escritor. Cuenca iniciou sua carreira literária por meio de seu blog, sendo que, ao mesmo tempo, começou a escrever seu primeiro romance, Corpo Presente. Tem participação em várias feiras e festivais, tendo sido convidado como palestrante na FLIP de Paraty, em 2003. Publicou várias crônicas de 2003 a 2010. A editora LeYa reuniu parte desses textos no livro A Última Madrugada, cuja leitura terminei ontem.

J. P. nos relata sua formação de leitor como sendo anárquica. Leu de tudo, e muito novo, viu filmes europeus. Ingmar Bergman foi citado num programa no qual Jô Soares entrevista nosso autor. Assistiu, também a filmes americanos, leu revistas em quadrinhos. “Isso me deu um colchão”, nos diz ele. Tornou-se leitor voraz por influência da mãe.

O autor viajou muito pelo mundo, conheceu vários países e isso se reflete, saborosamente, em seus textos. Neste livro, por exemplo, ele nos fala de sua experiência de uma noite no Hotel Cápsula, em Tóquio. Para quem não sabe, esse hotel não tem quartos, mas pequenas cápsulas, com o espaço suficiente para alguém se deitar e dormir. É quase a conta da cama, uma pequena televisão presa a um suporte de parede:

“Antes de dormir, exploro os corredores lúgubres e estranhamente iluminados do hotel cápsula. Uma cápsula é uma gaveta de fibra de vidro. Você dorme na gaveta, enquanto outros dormem na gaveta de baixo ou acima. Cada corredor tem umas trinta gavetas por parede, três fileiras de dez, uma sobre a outra. Aqui devem ter umas quinhentas pessoas.” (página 198, O encapsulado)

Alguns pontos de vista originais dão um sabor único aos textos:

“Um trem noturno é uma máquina de abandono. Pelas janelas, as paisagens transformam-se em alta velocidade: montanhas e pequenas cidades ficam para trás, como peças de roupa jogadas no chão. A cada zunir de postes, a cada dormente dos trilhos, o passado dos viajantes se desprende um pouco mais dos seus corpos – como casca de ferida.” (página 209, Um trem noturno)

Há lugar para o lirismo, como na página 215, da crônica O Olhar da dançarina:

“Abaixo das órbitas incendiárias daqueles olhos, alguém poderia dizer que sua saia é uma onda brava do mar de Alborán. Que seus pés são armas de repetição. Que suas mãos são plumas brancas soltas no ar. Que seus dedos de pianista são cápsulas de orquídeas desconhecidas pela biologia moderna… Pouco disso importa quando uma súbita explosão interrompe os passos suaves da bailarina e, com eles, toda poesia barata.

É que, num movimento ágil, ela pula sobre si mesma, batendo os dois pés no piso de madeira. O choque sobe pelas pernas da dançarina, há um estremecimento doce em cada ponto desse corpo. Num movimento ágil, ela gira o tronco com violência e bate as palmas das mãos. O choque vibra pelos braços da dançarina até chegar aos seus ombros que se contraem com breve ternura.”

Mas, o grande personagem é a cidade. Na verdade, as cidades. O cronista as observa com olhos sagazes, anotando seus humores, suas transformações, seus indícios de modernidade e de passado.

João Paulo Cuenca usa referências como Amy Winehouse, em Londres; um quadro de Hopper em Madri; o cantor e compositor João Gilberto, no Brasil; os concertos do Radiohead. Referências históricas também têm seu lugar. Cuenca tem um olhar sobre o moderno, o contemporâneo, sem deixar, entretanto, de levar em conta o passado, a história.

Um ótimo livro para se ler de uma sentada, em 233 páginas de textos fluentes e curtos, com um lirismo contido e observações agudas.

João Paulo Cuenca. A Última Madrugada, editora LeYa,São Paulo: SP, 2012, 233 páginas.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Resenha nº 19 - Vencendo o desafio de escrever um romance, de Ryoki Inoue

Rompendo o critério adotado, de não resenhar manuais ou livros técnicos que vou lendo, eis aqui algumas anotações sobre Vencendo o desafio de escrever um romance, do escritor best-seller brasileiro, Ryoki Inoue. Nome completo, José Carlos Ryoki de Alpoin Inoue. O homem é simplesmente o maior escritor de livros do mundo (este manual é sua 1.074ª obra). Publicou mais de 1.000 títulos entre novelas e romances e por essa façanha, está no Guiness Book.

Vencendo o desafio de escrever um romance é, portanto, manual de quem sabe o que recomenda. Traz orientações extremamente práticas para aqueles escritores em potencial. Tanta gente tem vontade de publicar algo e desanima diante da tarefa tão complexa de fazer chegar ao público os produtos de sua lavra.

Inoue aborda questões facilitadoras ao se elaborar o texto em si, lidando com núcleo dramático principal (plots) e os sub-núcleos dramáticos, se podemos dizer assim (underplots). Ensina a elaborar o texto por ordem gradativa de complexidade, aproximando-se pouco a pouco do texto acabado.

Fundamental para ele é ter um projeto completo da história. E esse projeto vai se desdobrando, vai se enriquecendo com storyline,  sinopse, determinação do argumento e do público-alvo, temporalidade,  ambientação,  configuração dos personagens.

Percebe-se claramente, o livro é orientação de alguém perfeccionista, desejoso de dominar com precisão cada etapa do processo criativo. Conta-se que, certa vez, Ryoki Inoue foi desafiado a produzir um novo romance em apenas seis horas. Montou-se vigiliância cerrada sobre todo o processo criativo, para se evitar qualquer possibilidade de fraude. Nosso escritor venceu a prova: novo romance em apenas 6 horas de trabalho!

Ele assume que o processo de trabalho recomendado funciona para aqueles escritores de best-sellers. “Se você é um gênio, não deveria estar lendo esse livro”, afirma Ryoki a certa altura do seu manual prático.

Finalmente, por que quebrei a orientação deste blog e resolvi comentar o manual ? Muito simples. Nunca escrevi um romance, mas tenho algo em torno de 170 crônicas e vários contos no meu computador. José Carlos Alpoim tem me auxiliado muito com o seu livro de aconselhamento. Encurtei meus caminhos, aglutinei experiência e melhorei meus textos, mesmo sendo de contos e crônicas.

Ademais, há muito deixei a ideia de best-sellers serem livros sem qualidades, que vendem horrores, direcionados ao grande público.

Quem escreve deverá, certamente, fazer escolhas de como vai produzir seu texto. Se ele será mais direcionado para o público acadêmico ou se para o grande público. E aí entra em cena a velha discussão, nem sempre de proveito, sobre os “contadores de história” e os “artesãos das palavras”. No grupo dos primeiros, estaria, por exemplo, José de Alencar, Érico Verissimo, Jorge Amado; do outro lado, Machado de Assis, João Guimarães Rosa, James Joyce.

Mas, como dizia o Rosa, do alto da sua autoridade de autor de um dos clássicos da Literatura Brasileira, o Grande Sertão: Veredas, “pão, pães, questão de opiniães”.

Ryoki Inoue. Vencendo o desafio de escrever um romance. Summus Editorial,São Paulo: SP, 2007. 174 páginas.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Resenha nº 18 - Um copo de cólera, de Raduan Nassar

Raduan Nassar nos dá um magnífico texto nesse Um copo de cólera. O livro foi escrito em 1970 e publicado em 1978, ainda sobre a terrível pressão da ditatura militar, ocorrida no Brasil, de 1964 a 1985. Entretanto, a obra não é uma militância contra os Anos de Chumbo. É antes o olhar crítico às relações humanas desestruturadas, agoniadas.

O personagem principal não tem nome, assim como a mulher com quem vive uma relação amorosa. O erotismo permeia o texto de 64 páginas, dividido em pequenos capítulos. O casal se acaricia, faz amor, troca ideias. Dela, o que sabemos é que é jornalista; a ação se desenrola numa fazenda ou sítio, em que dois caseiros, dona Mariana e seu Tonho, cuidam das coisas.

A paixão dos dois é um tanto conflituosa:

“…assim que ela deixou o quarto e foi por instantes até o banheiro, tirei rápido a calça e a camisa, e me atirando na cama fiquei aguardando por ela já teso e pronto, fruindo em silêncio o algodão do lençol que me cobria, e logo eu fechava os olhos pensando nas artimanhas que empregaria (das tantas que eu sabia), e com isso fui repassando sozinho na cabeça as coisas todas que fazíamos, de como ela vibrava com os trejeitos iniciais da minha boca e o brilho que eu forjava nos meus olhos, onde eu fazia aflorar o que existia em mim de mais torpe e sórdido, sabendo que ela arrebatada pelo meu avesso haveria de gritar “é esse canalha que eu amo,”… (página 10)

Um fato corriqueiro é o bastante para o homem derramar toda a sua raiva:

“… deixei as duas para trás e desabalei feito louco, e assim que cheguei perto não aguentei “malditas saúvas filhas da puta” e pondo mais força tornei a gritar “filhas da puta, filhas da puta”, vendo uns bons palmos de cerca drasticamente rapelados, vendo uns bons palmos de chão forrados de pequenas folhas”… (página 26)

Na verdade, a raiva foi menos pela devastação das saúvas na cerca viva do que por “essas formigas tão ordeiras, puto com sua exemplar eficiência, puto com essa organização de merda que deixava as pragas de lado e consumia o ligustro  da cerca viva”… O fel interior, detonado pela aparente ocorrência de menor valor, faz com o homem admoeste os empregados, desproporcionalmente, e quando sua parceira tenta intervir, seu ódio se volta contra ela e os dois discutem acidamente.

A linguagem do livro oscila entre o chulo e confessional, apontando para os extremos ideológicos do casal. Afloram, então, as pressões criadas pela condição política vivida no Brasil. Não se podia expressar livremente naqueles tempos. Também as polarizações entre os apoiadores do regime ditatorial e os contra ele eram muito comuns.

O homem apresenta-se, no fundo, como um ser confuso e dependente:

“…fiquei aguardando até que ela me jogou uma ampla toalha sobre a cabeça, cuidando logo de me enxugar os cabelos, em movimentos tão ágeis e precisos que me agitavam a memória,”… (página 18)

“…não era a primeira vez que ele fingia esse sono de menino, e nem seria a primeira vez que me prestaria a seus caprichos, pois fui tomada de repente por uma virulenta vertigem de ternura, tão súbita e insuspeitada, que eu mal continha o ímpeto de me abrir inteira e prematura pra receber de volta aquele enorme feto.” (página 64)

Além dessa novela, Um copo de cólera, Raduan Nassar ainda publicou Lavoura arcaica, livro esse que o fez ser reconhecido como um dos excelentes autores da literatura brasileira.

Um copo de cólera não é leitura fácil. O texto, apesar de pequeno, é extremamente denso. O enredo é muito simples, como se pode ver por essa resenha, mas a capacidade de síntese do autor não facilita as coisas para um leitor neófito. Não há propriamente, parágrafos; cada capítulo é um único, imenso parágrafo, em que o pensamento do personagem, suas impressões têm um ritmo alucinante. Não chega a ser um fluxo de consciência, um pensamento errático. Há certas frases que se servem de uma distribuição rítmica e rímica, características dos poemas.

Se você gosta de narrativas de fundo psicológico, não hesite. Um copo de cólera é um texto riquíssimo, e por todas as suas características, algumas das quais abordadas aqui, constitui-se em literatura de primeira.

Raduan Nassar. Um copo de cólera. Folha de São Paulo, coleção Literatura Ibero-americana, volume 11, 2012.